sexta-feira, setembro 02, 2005

A Saudade e o Saudosismo

Ontem um amigo telefonou para dar notícias. Dizer que tinha lido o blogue. Eu não estava. Deixou recado. Que estava giro, mas que "são saudosistas"(nós , os que aqui escrevemos, que damos o nome e as caras, para quem se lembra de nós)

É uma velha questão esta do saudosismo. Uma vezes, chama-se apenas saudade. Outras , saudosismo. É saudade quando alguém fala da sua infância, da sua adolescência, da sua juventude, ocorrida em locais sem anátemas. Para quem nasceu em Lisboa, vive em Lisboa e só daqui saiu para, por exemplo, ir à tropa ou a umas férias no Algarve, pode, à vontade, recordar. O bairro, a professora, a árvore frondosa, o polícia simpático, o guarda-nocturno.

Já os outros que nasceram ou cresceram longe, têm que fingir e esquecer. Sobretudo se , entretanto, a terra mudou de donos. Recordar é pecar!

O conceito de saudade é complicado e, na maior parte das vezes, tem um conotação negativa. Não é o que se passa aqui. Quando recordamos, valorizamo-nos porque nos completamos, porque não esquecemos.

Não somos saudosistas porque não queremos que nada volte para trás, não queremos que nada volte a acontecer. Aconteceu e nós, agora, interpretamos. Somos capazes de dar o nosso próprio retrato de realidades que aconteceram e nos alegraram ou entristeceram, que nos fizeram viver.

Pela minha parte não abdico da minha vida. Mesmo da que passou.

Posto isto, continuemos: prometo para o próximo post uma estória com o Irmão Celso, dos Maristas.

1 comentário:

JB disse...

Não tenho saudades. Não tenho passado. Não tenho história visível. Não existo, é como a chuva tivesse passado e levado os jornais velhos, as notícias, os cadernos de escola. Só restou a memória mal tratada em vãos esconsos, esquecida como algo a que não se dá valor. Verdade, verdadinha que já tinha esquecido o cheiro da terra molhada, o sabor das nêsperas roubadas,dos entardeceres súbitos à sombra da Chela. Este sacana, finalmente em movimento, lá me recordou que não podemos simplesmente afogar a memória e que temos direito à nossa história. O que nada tem a ver com saudosismos. Prefiro referir-me a este exercício, como - pôr a bom recato uma biblioteca ameaçada de extinção. Fundamental para a conservação da espécie, e do vigor da diversidade.