sexta-feira, março 31, 2006

U.A: sigla da impotência

Foi um dos ases da diplomacia líbia e da União Africana, há pouco mais de um mês: o acordo de paz, assinado em Tripoli pelo Tchad e pelo Sudão. Um compromisso de contenção mútua: Djamena e Cartum acordaram parar com o apoio a rebeliões armadas nos respectivos territórios.

A verdade é que ontem, 5ª feira, a zona de Moudeina, na região fronteiriça de Adré (em território tchadiano) foi campo de batalha: ao longo de todo o dia, houve combates ferozes entre cerca de mil soldados do exército do Tchad e outros tantos rebeldes do RDL, que é armado pelo Sudão. A situação é muito crítica e sabe-se que o general Abakar Youssouf, Chefe de Estado Maior do Exército do Tchad e sobrinho do presidente Idriss Deby, morreu durante os combates. Toda a informação independente que chega do terreno parece confirmar o envolvimento directo dos janjawid, as milícias muçuilmanas que fazem, no Darfur, o trabalho sujo de Cartum.
A violação de acordos em Àfrica não é original. E a proximidade das eleições no Tchad (que, aliás, parecem estar a ser preparadas em clima fraudulento, para variar) ajuda a explicar a brutal desestabilização do país. Do regime sudanês não se espera outra coisa, é da sua natureza.

Mas esperava-se. vá lá, um pouco de respeito pela União Africana. Um pouco de faz de conta.

terça-feira, março 28, 2006

"27 de Março"

É uma data que hoje, seguramente, passa desapercebida em Angola e apenas tem ressonância na cabeça das pessoas que a viveram. 27 de Março de 1976 foi o dia em que, oficialmnte, as forças da República Sul-Aricana passaram para o lado de lá da fronteira de Angola. Ainda assim ficaram em território que não era deles - o a Namíbia.
Em Angola comemorou-se no Lubango. Houve discuros. Lúcio Lara foi o convidado. Presidiu ao comício comemorativo. Aproveitou a ocasião para vergastar mais uma vez o governo de Portugal, nessa altura chefiado por Mário Soares, por não ter ainda reconhecido o governo de Angola.
Todavia, o pormenor mais significativo desse comício foi o grito do então Comissário Provincial da Huíla, Emílio Braz: "Viva o Povo Nhanheca Humbe!". Era o "nitismo" na sua expressão mais ingénua a manifestar-se. Lúcio Lara fingiu que não percebeu.

segunda-feira, março 27, 2006

A Propósito... Os Mucubais

Carlos Narciso, no seu blog "Escrita em Dia", a propósito do meu texto sobre bosquímanes, lembrou-se de uma estória passada nas faldas da Serra Chela com um grupo de homens "em tronco nu", que exigiam a uma escolta militar do MPLA tão só que lhes pedissem autorização para atravessar o seu território.
Uma vez que foram "os meus" Bosquímanes a suscitar esta recordção ao CN, é bom esclarecer que aquele grupo de homens semi-nus não eram Bosquímanes. Só podiam ser Mucubais.
Já agora, a propósito do texto do "Escrita em Dia", recordo aqui este povo, guerreiro e pastor , que mantém a respeito do seu "território" um sentimento de pertença muito acentuado. Daí a minha conclusão, relativamente ao grupo que travou o CN e a sua escolta militar.
Ora, o território "mucubal"estende-se pelas encostas da Serra da Chela, entra pelo Deserto do Namibe e chega muito perto do Chiange, Serra abaixo. As suas relações com o povo Nhanheca Humbe , a que pertencem os camponeses da Huíla sempre foram complicadas.
Na chamada "guerra de 39" os portugueses derrotaram pesadamente os Mucubais e confinaram-nos à Chela e ao Deserto, deixando o Planalto para os povos camponeses. Nunca esqueceram esta derrota.
Quando, em 1975, os sul-africanos invadiram Angola, tentaram, depois de terem construído a sua rectaguarda no Lubango, fazer a ligação com Moçâmedes, sem o conseguirem, porque os Mucubais, ao perceberem que havia um guerra de "brancos contra negros", se aliaram aos negros e - uma curiosidade - com a ajuda de um português que havia fugido do Hospital com a ajuda do médico, dr. Garcês Palha e do Padre Jorge, secretário do então Bispo da Huíla, impediram que tal ligação se fizesse.
Farrusco, um operário da Fábrica de Cervejas N'Gola, ex-comando do Exército Português, foi aceite pelos Mucubais e, juntos, fizeram gorar os planos dos "carcamanos".
No final desta primeira fase da guerra, vencidos que foram os sul-africanos, os Mucubais decidiram colher os benefícios de terem estado ao lado dos vencedores e principiram a roubar o gado aos M'Huilas, sobretudo aos que viviam mais próximo da Serra.
Por outro lado, ao serem recrutados para o Exército angolano em formação, não aceitavam ficar nos quartéis. Recebiam as armas e rumavam para as suas casas. Não são integráveis num grupo com gente de outros lados, de outras etnias...
O MPLA, sem saber com o que estava a lidar começou a reprimir aquilo que eles consideravam os seus justos anseios, que eram os de recuperar o prestígio e a riqueza perdidos em 39 contra o exército dos brancos (os portugueses de então).
O desconhecimento do MPLA relativamente aos Mucubais era de tal forma que, em Outubro de 1976, quando Agostinho Neto visitou pela primeira vez o Lubango, houve dois incidentes curiosos.
O primeiro teve a ver precisamente com o então Presidente da RPA. Havia uma reunião marcada para as 14H30 com um grupo de quadros do MPLA do Lubango. Esperámos até às 16H30.
À entrada do palácio do Governador (então chamado Comissário) esteve durante todo este tempo uma delegação de Mucubais, para ser recebida por Agostinho Neto. Queriam colocar-lhe as suas questões específicas e dizer - muito naturalmente para eles - que a guerra tinha sido ganha pelo seu povo.
O Presidente desceu as escadas, aproximou-se da delegação , com os seus turbantes vistosos e braços cruzados sobre o peito, sempre de olhos erguidos, e pediu a um dos seus seccretários que retirasse da pasta a máquina fotográfica. E então, perante a estupefacção de alguns de nós, acercou-se do grupo para que lhe tirassem uma fotografia. Comportamento igual ao de qualquer turista impressionado com o ar "exótico" do grupo.
Neto nem os ouviu, seguiu para a reunião. Um dia destes falarei desse acontecimento.
O outro incidente aconteceu no dia seguinte, durante o comício presidido por Neto. Quando algém ia começar a falar foi interrompido por uma voz imperativa que vinha da assistência. Era um mucubal que ordenava à sua gente que se aproximasse da tribuna, já que eles eram os vitoriosos, tinham sido eles a ganhar a guerra contra os sul-africanos.
Houve um burburinho, com a multidão a agitar-se e o numeroso grupo de Mucubais que ali estava ocupou, sem cerimónia, as primeiras filas da assistência. Só depois disso o comício principiou.
Com o andar do tempo, as relações MPLA/ Mucubais deterioraram-se significativamente e julgo saber que ainda hoje não são brilhantes, apesar de o poder ter recorrido algumas vezes à força das armas.

terça-feira, março 21, 2006

Bosquímanes de Angola

Há um povo em África, que se chama a si mesmo o Povo de Sahn ("Povo de Deus"), com múltiplas designações, de acordo com a zona que habitam (ou habitavam), ou, mais propriamente, por onde circulavam, mas que pode ser identificado de uma forma reconhecida, não só em toda a África, como fora dela: os Bosquímanes.
No Botswana, cujo presidente considerou os bosquímanes "povo de segunda", esta gente está a ser expulsa das terras dos seus antepassados com o pretexto de nelas serem instalados parques de caça para turistas se divertirem com a morte dos animais selvagens, uma das fontes de subsistência dos bosquímanes.
África não está nem aí para a luta deste povo de gente nómada, com hábitos alimentares estranhos, com deuses ainda mais estranhos, com uma língua difícil, mas com uma grande capacidade de serem solidários uns com os outros.
Lembro-me de, há alguns anos, quando deambulei pelos matos do Cuvelai com um grupo deles ,da necessidade de passarmos longe das sanzalas dos membros de outros grupos étnicos, para não sermos corridos à pedrada ou à frente dos cães que também pareciam detestar aqueles homens e mulheres pequeninos e amarelos, mal vestidos e sempre à procura de raízes para se alimentarem ou de algum animal, mesmo morto, para uma refeição mais suculenta.
A propósito desta perseguição levada a cabo pelo Botswana aos bosquímanes lembrei-me dos trabalhos do Padre Carlos Esterman sobre este grupo humano e dos mapas da sua localização, sobretudo no Sudoeste de Angola, embora a sua presença fosse assinalada também mais para Leste.
Lembro-me, igualmente, de que os sul-africanos os utilizaram como pisteiros para a invasão que fizeram de Angola, em Outubro de 1975.
Espero que esta lembrança - naturalmente retida na memória de muito mais gente - não tenha nenhuma influência no modo como em Angola se cuida da segurança e, sobretudo, da sobrevivência dos Bosquímanes angolanos, que não se tenha alinhado pela classificação do presidente do Botswana.

domingo, março 12, 2006

900 litros

Um número ainda indeterminado de funcionários da embaixada de Angola no Brasil vai ter de soprar no balão da suspeita por envolvimento num caso que está em fase avançada de investigação pela Polícia Federal e que, seja qual for o desfecho, lança um duche escocês sobre a diplomacia angolana. Tal como veio contado na "Folha de São Paulo", a embaixada de Angola no Brasil comprou, ao longo do último ano, dez vezes mais uísque do que as embaixadas dos países mais ricos. Os números não enganam: 9 mil litros de uísque em 10 meses, 900 litros em média por mês. A "Folha" apurou que a embaixada dos Estados Unidos gasta, em média, 90 litros por mês. Como dizia o outro, afagando o estômago saliente: "É uma estragação, só em vasilhame!!!".
Mas por que é que a Polícia Federal meteu o bedelho nas contas de mercearia da embaixada? Há alguma lei seca em marcha, num país que, há alguns meses, se encarquilhou porque um jornalista norte-americano referiu o tom frequentemente rosáceo das bochechas presidenciais? Ou deveriam os representantes de um país com petróleo, em nome de puritanas aparências, beber apenas cachaça, esse também chamado "capote de pobre", "suor do alambique", "danada", mais ao jeito do pobre? Nem pensar. Seria um erro de avaliação, para lá de uma indelicadeza histórica: como é sabido, a cachaça chegou a ser moeda de troca na compra de escravos africanos. Há coisas com as quais não se brinca E, vendo bem, está, há muito, em marcha, na fina Europa e nos poderosos States (onde consta que Bush provou e gostou) a elevação social da cachaça, da caipirinha. A prestigiada "In Style" já lhe chamou "a mistura mais quente do século". Não seria, pois, menor o ah de espanto, se a notícia desse conta de 900 litros de cachaça na despensa da embaixada. Afastados os preconceitos, hão-de os "pobres" angolanos
beber o que lhes der na gana. O país é quente. E que não fosse: já não há respeito pela imunidade diplomática?
O que se passa é que a Polícia Federal foi investigando as contas de uísque de várias embaixadas (entra elas a angolana) e descobriu um esquema de contrabando de artigos de luxo que envolvia, ainda, funcionários do Itamaraty e da Basif Duty Free, uma das grandes empresas de importação do Brasil. O processo era simples: o pessoal das embaixadas comprava os produtos livres de impostos e revendia a contrabandistas que os colocavam nos mais finos salões do Brasil. Não fora a imunidade diplomática e os predadores do Rio estariam já a beber água do Bengo. Tratada, por causa da cólera.

Mais de Trinta Anos Depois

O Jornal de Angola, na sua edição "online" de hoje, destaca na primeira página a intervenção do secretário geral do MPLA durante "o primeiro encontro dos comités de acção de Luanda do MPLA", Dino Matross.
Não consegui evitar um estremecimento, mesmo tendo feito uma leitura displicente do texto. De resto, para confirmar a impressão inicial tive mesmo que me esforçar para o ler todo, com a esperança de me ter enganado num primeiro momento.
Nada. Nenhum engano; mais de trinta anos depois, os dirigentes do MPLA - Dino Matross já o era em 1974 - não conseguiram mudar o discurso. As mesmas banalidades de sempre, ditas com as mesmas "palavras de ordem".
Não se vislumbra uma ideia política, a indicação de um objectivo concreto, de um caminho limpo a seguir.
O jornalista que escreve o texto é, claramente militante. Ele próprio ajuda à festa da banalidade: "Dino Matross apontou as grandiosas tarefas da consolidação dos resultados alcançados com a conclusão da primeira fase do processo de reorganização das estruturas do MPLA".
E mais à frente; "João Paulo referiu que coloca-se agora a tarefa de adequar a mensagem política do MPLA ao imperativo de responder, de forma clara, objectiva e oportuna, às necessidades, inquietações e anseios das populações e de agir no sentido de resolver os problemas fundamentais".
Meu Deus!
Se estas palavras tivessem a capacidade de resolver alguma coisa, Angola já estaria a ocupar a posição que lhe compete em África e no Mundo.
O pior é que os protagonistas continuam os mesmos e os problemas do povo muito semelhantes, muito embora se vá falando num crescimento encómico espantoso no país. E os resultados estão a beneficiar quem?

quarta-feira, março 08, 2006

Seca na Huíla (Comentário)

O Camarada Fernando Alves referiu aqui no nosso blogue a questão da Seca na Huíla, noticiada no Jornal de Angola e referida pelo ministro da Administração do Território numa linguagem que faz lembrar os burocratas de Bruxelas ou do raio que os parte - burocrata é burocrata, ponto final.
Este senhor ministro que foi "ver in loco" - uma fórmula que todos os bons "locutores" angolanos aprenderam - a desgraça dos - segundo eles - 600 mil camponeses - diz que a situação ainda não é de catástrofe.
Não o seria se ele e o governo dele e já agora o governador da Huíla, um ex-futebolista, cujo passatempo de agora é colecionar dinheiro fora do país, tivessem uma solução.
É que a seca na Província da Huíla vem de há anos, repete-se ciclicamente e cada vez com mais intensidade, porque a concentração das populações leva a um sistemático abate de árvores para fornecimento de lenha e de carvão, a primeira para suprir as necessidades das populações locais e o segundo para venda nos grandes centros urbanos.
Este fenómeno - é evidente - combate-se com medidas de lonmgo prazo, como sejam o fornecimento de combustíveis alternativos, Onde estão eles, na Huíla?
Depois, há o crescimento do número de cabeças de gado, um fenómeno com uma componente política muito forte e que o MPLA urbano não tem capacidade para resolver.
Com a destruição do sistema colonial, que nos últimos anos tentava incorporar no sistema comercial os criadores tradicionais de gado, para quem a posse de um maior número de cabeças de gado significa sobretudo um estatuto social mais elevado e, por isso, mais compensador, tudo voltou ao princípio.
Só se matam - para as festas( casamentos, óbitos, mufikos, etc.) bois velhos. Os outros deixam-se envelhecer e o parque vai aumentando de tal maneira que não há - não pode haver - capim para todos.
Este é um problema muito complicado, mas não se fica pela Huíla, ele vai mais para Sul, para o Cunene ( há por aí uns cuanhamas que talvez queiram ir ajudar...) , onde o capim é de outra espécie e se reproduz por semente. Isto quer dizer que, mal chovem as primeiras pingas, o capim rebenta e as enormes manadas de gado irrompem por aí fora trasnformando tudo em campos de futebol de terra batida.
O problema da seca da Huíla tem anos. Lembro-me das minhas angústias sobre se ia ou não chover, sobre se já tinha começado a chover na Chibia, na Cahama, na Humpata, em Quilengues, em Caluquembe. E a cada notícia de chuva era o sorriso, partilhado por toda a gente, que, embora vivendo na cidade, de ocupações marcadamente urbanas, como era a minha, sentia a terra a embebedar-se com a água que lhe caía do céu.
Ainda hoje não percebo os homens da Rádio e da Televisão em Portugal para quem "bom tempo" é "tempo de praia". Ora, a verdade é que há um "bom tempo" com chuva, com neve, com frio.
Oh! Fernando! obrigas-me a um grande esforço de rememoração - dolorosa, em alguns aspectos.
Houve anos em que quase rezámos para que chovesse. Um dia, de um ano qualquer, mas seguramente, lá para Fevereiro ou Março, eu e o Leonel Cosme - trabalhávamos juntos no Rádio Clube da Huíla - saímos disparados numa carrinha citroen que ele tinha para ver a chuva encher os rios da Mapunda, o Tchipunpunhimi e outros. Lembro-me ainda da nossa felicidade por verificarmos que, finalmente, a terra ia ser apaziguada e as populações poderiam fazer as suas vidas tranquilamente, com alguma confiança nas colheitas.
A Huíla é uma Terra de camponeses: foi isso que eu disse ao Lopo do Nascimento quando ele, armado em primeiro-ministro, foi ao Lubango anunciar a nacionalização do pequeno comércio. Avisei-o, aos murros em cima da longa mesa da Associação Comercial: "dentro de pouco tempo vamos ter a cidade invadida pelos camponeses a perguntar quem lhes compra o milho os bois, a massambala, o massango, as peles e tudo o resto".
" Por razões políticas..." dizia ele, temos de nacionalizar. E eu respondia: "por razões políticas não podemos nacionalizar".
As "razões políticas" dele eram umas - as instruções da URSS - e as minhas eram outras - o interesse do povo camponês da Huíla.
Mais tarde, ao serviço do nosso jornal, Fernando, voltei à Huíla, fui mais abaixo a um território que, de resto, fez parte, durante muitos anos do "Distrito da Huíla" e que eu conhecia bem por ter lá vivido cerca de um ano: Chiange ( terra de perdizes) e Cahama. Levou-me um jovem licenciado da República da Tchecoslováquia em engenharia pecuária ( que coisa será esta?), que não conhecia a região e não estava preocupado com porra nenhuma. Estava fascinado apenas com o facto de lhe terem dado um "jeep" com zero quilómetros para me levar ao Chiange.
Era Janeiro de um ano qualquer. Ainda não fim de mês e o responsável político máximo da zona confidenciava-me o horror de uma seca que se anunciava, uma vez que ainda não tinha chovido uma única vez. Fui ouvindo as desgraças, tirando fotografias dos terreno pelados e dos bois mortos plantados por entre espinheiras.
Durante uma merenda servida na casa do administrador do sítio, a mesma casa que tinha sido habitada pelo anterior secretário da administração colonial, o Eduardo Vitória Pereira, fiquei a saber que aquela gente era de Malange, não conhecia a região e nem sequer sabia que ali, no Chiange, começava a chover no fim de Janeiro. E depois não parava mais.
Descobri rapidamente a razão por que me tinham convidado a fazer ali uma reportagem: os cubanos ( que haviam construído uma base aérea na Cahama e tinham feito um monumento verdadeiramente estranho, porque escreveram numa placa de pedra uma carta de Fidel de Castro aos "combatenmtes cubanos" ) abandonaram a região e os criadores tradicionais voltaram com o seu gado, entretanto multiplicado nas terras mais para o Sul.
Os bois chegaram e derrotaram todo o capim, portanto, mesmo antes de a época das chuvas ter o seu início habitual, já o gado morria.
É um fenómeno semelhante ao que aconteceu na Etiópia. Os bois ocupam o lugar das pessoas, a chuva não chega, porque, entretanto, as florestas são derrotas e o deserto vai-se instalando, perante os braços cruzados de ministros balofos, convencidos de que o Mundo vaio continuar a ser movimentado com petróleo.
Neste episódio do Chiange havia ainda um outro pormenor de política pura: o MPLA tinha receio de que a UNITA ocupasse as posições abandonadas pelos cubanos e queria chamar as organizações das Nações Unidas para tomar conta da região.
Simples...
Espero que por detrás das declarações deste Fontes Pereira a quem, obviamente, falta o Melo e , com o diz o Fernando, a capacidade para montar tenda, não estejam outras intenções escondidas e que seja dispensada aos camponeses da Huíla - um povo que muito me ensinou e a quem muito devo - toda a ajuda para que eles possam continuar a ser camponeses na sua terra.
Desejo ardentemente que um país produtor de petróleo, como Angola, não esteja a tentar construir uma situação de catástrofe no Sul do país e não tenha mecanismos institucionais para mobilizar os recursos indispensáveis à concretização de uma política de solidariedade nacional - que não passse pelos vários caciques predadores que existem entre o aparelho do estado e o povo - para, posteriormente, mobilizar a chamada solidariedade internacional.

terça-feira, março 07, 2006

Morreu o imenso Farka Toure

Morreu Ali Farka Toure, dois Grammy's no bolso, fez estremecer o mundo numa parceria com Ry Cooder. Mas já tinha feito estremecer a África e os amantes da música de África. Chamavam-lhe, às vezes, o "John Lee Hooker negro". Morreu hoje em Bamako. Soube-se na CNN e nas agências à hora de almoço. As rádios que vestem a camisa de onze varas das play list ficaram em sossego. O Paulo Alves Guerra há-de salvar, pela tarde dentro, a honra do convento.

segunda-feira, março 06, 2006

Seca na Huila

O "Jornal de Angola" conta hoje que 600 mil camponeses dos municípios do Lubango, Chibia, Humpata, Quipungo e Quilengues estão, já, a ser muito afectados pela seca que assola, desde Dezembro, a província da Huila. Conta, ainda, o "J.A." que as coisas corriam de feição: esperava-se, para esta campanha agrícola, uma colheita de 400 mil toneladas de vários produtos, quase o dobro da campanha anterior. Mas veio a seca e "o ano agrícola da Huila está comprometido".
Esta notícia provoca-me vários sobressaltos. Para o primeiro, invoco o superior conhecimento do território do camarada Leston que ali viu avançar, há 30 anos, os tanques dos carcamanos. A seca pode casar com as terras da Humpata e da Chibia, é desgraça cíclica em chão que já vimos lavrado e úbere?Se sim, nenhuma fúria é aceitável senão contra os deuses. Outro sobressalto vem da constatação de um singular manejo de adjectivos pelo ministro da Admnistração do Território, acabado de regressar a Luanda, depois de ter ido ver o desconsolo dos campos à Huila e ao Namibe. O nome do ministro, Fontes Pereira, tem ressonâncias de mangas arregaçadas num certo Portugal passado; e, nostalgias do império à parte, bem que um país devastado pela guerra e pela incúria está precisado de obra pública e de quem, por ela, tire os cotovelos das secretárias. Ocorre que o ministro Fontes Pereira explicou, em Luanda,que a situação é preocupante, sim, "mas não de calamidade". É conversa de quem já palmilhou corredores em Bruxelas ou noutras sedes doadoras, de quem conhece os formulários. E isso explica os adjectivos ainda que estes não tenham sossegado os camponeses da Chibia: são necessárias, explicou Fontes Pereira, "ousadia e perspicácia" para estabelecer programas sustentáveis de combate à seca: irrigação, mais furos, melhoramento da vacinação, tanques para o gado. Sublinhemos cada um destes itens: a que fasquia aspira, com a sua prossecução, o ministro que não vê, nas terras do sul, por ora, calamidade? 30 anos de independência, descontadas as guerras e as incúrias, a que fasquia aspira? Que fasquia ousa? É que, sem pretender ser "perspicaz", encalho num parágrafo tramado: aquele onde se explica que, daqui a 60 dias, se nada mudar, aí sim, poderão surgir situações de risco (leia-se "de sobrevivência humana").
Devido, certamente, à minha impreparação em assuntos de Estado, penso, por vezes, que um governante africano face a situações como esta deveria montar a tenda, como fazem as ONG's, lá onde dói. Como um general enfrentando os novos carcamanos. Devia arregaçar mangas e não dar descanso a quantos, sob o seu comando, fossem chamados à urgência da obra pública. Talvez um tal gesto se confunda com populismo. Ou sou eu que vejo filmes a mais. Mas, caramba, a Chibia e a Humpata não eram terra de fazenda e gado, chão lavrado e úbere?

sábado, março 04, 2006

África e os Compromissos

Toda a África se movimenta hoje segundo esquemas de organização capitalista. As ideias do socialismo, do comunismo e outras, desapareceram. Os Estados africanos aderiram clara e notoriamente à ideia das leis do mercado, a que, em muitos casos - eu diria, na maioria - sobrepoêm a lei dos mais fortes, dos mais influentes, dos homens que, dominando o aparelho de estado, dominam os negócios e atropelam todas as regras, esquecem todas as leis.

Muitos deles fizeram a marcha da libertação, da conquista da Independência, servindo-se de ideias generosas de igualdade, fraternidade, "a terra a quem a trabalha", eu sei lá, coisas que Marx escreveu, Lenine adulterou e Staline amachucou.

Todavia, essas ideias deram para reunir gente, construir grupos de lutadores, levar a bom termo guerras contra os ocupantes que" só praticavam injustiças".

As regras do capitalismo, tal como ele nasceu, estavam, todavia, sujeitas a a uma ética muito escrupulosa, muito rígida, baseada nos princípios dos cristãos protestantes, para quem a palavra dada era um contrato assinado.

Estes princípios passaram ao lado da maioria dos homens que, entretanto, foram aparecendo a dirigir os novos estados africanos e a substituir as velhas ideias generosas de igualdade, fraternidade e outras "balelas" pela do lucro.

Pior ainda: comportam-se como se a palavra compromisso não existisse, como se os contratos assinados de nada valessem. O que conta são eles, os seus projectos, mesmo que não sejam pessoais. Quando precisam de alguma coisa concordam com todos os compromissos, quando deixam de precisar esquecem e nem aparecem.

Este não é um bom caminho. Este comportamento será a ruina de ÁFRICA, sobretudo se alguns dos Estados que até aqui constituiam a grande excepção, adoptarem a regra geral que é a de não pagar os compromisos assumidos.

quarta-feira, março 01, 2006

Emílio Braz

A propósito da demissão do general Fernando Miala do seu poderoso cargo de chefe dos serviços secretos de Angola, ocorreu-me a estória de Emílio Braz, meu velho amigo e combatente do MPLA desde a primeira hora. Era natural de Jau, um aldeamento perto do Lubango e, tal como todos os chefes africanos, quando chegou ao lugar de Comissário da Huíla,mandou fazer uma estrada directa da capital da província à sua terra natal.
Era daqueles militantes habituados às inúmeras horas das reuniões políticas do MPLA. No meio batia um "cochilo" e, quando acordava, dava logo opinião sobre o assunto em discussão.
Foi o único "quadro" que o MPLA mandou para o Sul de Angola, logo após o seu reconhecimento legal como partido político (movimento de libertação). Tinha tirado um curso de ajudante de veterinário na União Soviética e a sua última missão na guerrilha tinha sido "tomar conta dos burros que transportavam o armamento pesado".
Como o MPLA tinha relativamente ao Sul a ideia de que era território de reaccionários e racistas, mandou para lá o Emílio Braz.
A verdade, todavia, é que o Emílio pensava bem e pensava, de uma forma geral, ao lado do seu povo.
O mal foi o poder. Com a fuga para Luanda, face à invasão sul-africana, Emílio Braz, na capital, ficou ao alcance da influência de Nito e Alves, regressou ao Lubango e, pouco tempo depois, foi nomeado comissário provincial (governador). Aí começaram os disparates: casamento com uma jovem conterrânea, com cântigos e danças na Sé Catedral, a estrada para o Jau e o completo distanciamento do povo para se virar, decididamente, ao lado das forças nitistas contra os brancos, mulatos, etc.
Com a tentativa falhada de golpe de estado do Nito Alves, Emílio Braz escapou a mortandade porque se escondeu durante uns tempos, tendo aparecido anos mais tarde, já não como militante do MPLA, já não com funções ao nível do Estado, mas como comerciante de carvão.
Foi nessa condição que o reencontrei muitos anos depois, no meu primeiro "regresso" ao Lubango. Depois de uma longa conversa, recordando tempos antigos, ele lembrou-me uma velha máxima: " no MPLA é sempre assim, umas vezes está-se em cima, outras em baixo".
Foi também nesse dia que soube que José Eduardo dos Santos tinha estado no Lubango precisamente no dia 27 de Maio de 1977. A fazer o quê? Ninguém soube explicar.