Segunda-feira, Abril 21, 2008
Hugo Azancot de Menezes
Muitos dos textos publicados ultimamente - e não só - neste blog têm comentários de um anónimo a dar conta do percurso de Hugo Azancot de Menezes. Nada tenho contra esta estratégia, embora me pareça pouco eficaz para aquilo que me parecem os seus objectivos: fazer lembrar alguém que teve importância política no movimento de libertação de Angola mas de que ninguém fala, porque não se lembram ou porque - o mais certo - não querem lembrar-se.
A este anónimo (não lhe fica bem não assinar) gostava de sugerir outra forma: por exemplo, envie-me para o meu e-mail um resumo biográfico de Hugo Azancot de Menezes e eu terei muito gosto em o publicar, nem que seja em episódios. Valeu?
Deste modo ficaríam os comentários para os que desejem, de facto, comentar as matérias tratadas nos textos publicados.
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Leston Bandeira
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Quinta-feira, Abril 03, 2008
Mugabe - o FIM?
Apesar das dúvidas que ainda se levantam através dos jornais afectos a Mugabe e à sua pandilha, parece certo que Mugabe vai deixar de escravizar o seu povo e de povoar a cabeça do resto do Mundo com os números de uma independência que envergonha quem a defendeu e quem por ela lutou - incluindo o próprio Robert Alibabá -.
Apesar das dúvidas, não podia deixar de vir aqui expressar a minha enorme alegria pelas pespectivas de uma nova libertação de uma parte de África que caiu no inferno indiscritível de uma escravidão perpetrada por um facínora sem nome e sem classificação.
Apesar das dúvidas, aqui estou saudando a vitória da democracia contra a fraude, da vontade de mudança contra o desejo de continuidade de algumas dezenas de aproveitadores da senilidade de um homem que, podendo passar à História do seu país como herói, vai passar como o maior ladrão que por lá passou e, agora, seguramente, não saberá, sequer, para onde ir.
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Leston Bandeira
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3:30 PM
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Sábado, Março 08, 2008
Miguel Lemos
Hoje, logo pela manhã, o telefone trouxe-me a notícia: morreu o Miguel Lemos. A morte é sempe uma violência, mas, se inesperada e de alguém que fez parte da nossa vida, é-o ainda mais. Eu e o Miguel Lemos conhecemo-nos, fomos e éramos amigos, travámos lutas políticas juntos. Tínhamos divergências. Algumas delas exprimia-as aqui neste blogue. Perante o seu passamento fica apenas a saudade , a recordação de um companheiro e a tristeza por uma parte da minha vida ter ficado mais pobre.
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Leston Bandeira
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Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
Manuel Delgado
A notícia chegou hoje de manhã. Fria como o dia, cinzenta como o céu: morreu o Manuel Delgado.
Jornalista cabo-verdiano, com um talento notável para a escrita, o Manuel Delgado tinha, para além disso, uma capacidade de análise política ímpar, o que fazia dele um elemento importante na sociedade cabo-verdiana, tendo, ao longo dos anos, desempenhado o papel de conselheiro político do PAICV.
Conheci o Manuel Delgado em Cabo Verde, quando lá estive como correspondente da ANOP. Não era um homem fácil.
Mais tarde, quando fundei o jornal "África", o Manuel Delgado veio trabalhar comigo e a sua colaboração revelou-se importante, também pelos contactos que tinha.
Com o fim do "África" acabou por ir trabalhar para o Expresso, onde não foi devidamente aproveitado, acabando por regressar a Cabo Verde onde fundou um jornal na Net, em que, mais um vez, demonstrava todos os seus talentos.
A fotografia que ilustra este texto foi obtida durante um encontro que ele teve com o então Primeiro Ministro de São Tomé e Príncipe, Celestino Costa.
Para os seus filhos e para a Clara, que tendo deixado de ser sua mulher não deixou de ser sua amiga, um abraço forte.
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Leston Bandeira
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11:40 AM
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Sábado, Dezembro 15, 2007
Ame-a ou Deixe-a em Paz
Já recebi dezenas de vezes no meu e-mail uma série de fotografias de Angola com o título "Angola, ame-a ou deixe-a em paz".
Devo dizer que a tal mensagem me irrita por duas razões fundamentais: a primeira é que as imagens são, na sua grande parte, muito pouco significativas. Por exemplo, o rio Cunene parece uma mulola.
E o que querem dizer com a expressão "deixe-a em paz"?
Devemos esquecer a cleptocracia, a miséria, a doença a indignidade do povo? Devemos esquecer que Angola é um país de recursos inesgotáveis que poderiam propiciar a toda a sua população uma vida decente, com altos padrões de qualidade e que em vez disso, enquanto os dirigentes ocupam fazendas, compram carros e aviões, viajam para todo o Mundo, são sócios de todas as grandes empresas, se empenham em dificultar os investimentos que não passam pelo seu controlo, o povo morre de cólera, de tuberculose, de paludismo, não tem escolas para os filhos, não tem comida para se alimentar?
É isso que querem que esqueçamos?
Todos, mesmo aqueles que , ingenuamente, contribuiram para entregar o poder ao MPLA e depois foram expulsos ou, pura e simplesmente, para não serem abatidos, tiveram que fugir?
O que se pretende com esta campanha, que, aparentemente, tem a intenção de revelar um país de imagens belas e surpreendentes - ainda que o não consigam porque quem coleccionou as imagens não conhece - seguramente- o país?
Quem me quer tirar o direito, de modo definitivo, ao meu passado?
Quem está preocupado com a minha ( e milhões de outras) memórias?
Por exemplo, do Fragata, filho do enfermeiro Fragata do Lubango e que, seguramente para não ver a desgraça que vai acontecendo na sua terra, preferiu ir viver para Cabo Verde. A sua fotografia, a ilustrar este texto representa uma homenagem a todos quantos não estão dispostos a atirar o passado para o caixote do lixo e também não estão dispostos a fazer o papel cortesãos de uma classe possidente sem classe, sem cultura e sem escrúpulos e disposta a pagar a bom preço uma palmada nas costas.
Outra das razões que me leva a não fazer circular o e-mail é que tudo o que lá está, ou é natural , ou foi construído ainda no tempo da colonização. Este poder, com mais de trinta anos só destruiu e enriqueceu.
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Leston Bandeira
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3:10 PM
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Terça-feira, Dezembro 11, 2007
A Cimeira Espectáculo
A Presidência Portuguesa da União Europeia está radiante com o sucesso da Cimeira Europa-África.O próprio presidente da Comissão da UE demonstrou a sua felicidade pelo êxito que a reunião alcançou. Dos africanos também vieram manifestações de regozijo que importa salientar, sobretudo da Unão Africana e do presidente da respectiva Comissão.
Será, de resto, muito difícil afirmar o contrário. A Cimeira foi, de facto, um sucesso: do ponto de vista mediático, espectacular, cumpriu a rigor. Os chefes africanos fizeram em Lisboa o que fazem nas sus terras: quando se deslocam incomodam toda a gente e não se importam com o mal estar que geram.
Os objectivos enunciados foram todos alcançados - acrescenta-se.
E que objectivos eram esses?
Falar de igual para igual, "olhos nos olhos", abordar a questão da má governação e dos direitos humanos, numa "cimeira sem tabus": criar uma estratégia conjunta para a solução de alguns dos principais problemas africanos, nomeadamente no campo da saúde e do desenvolvimento "amigo do ambiente", com a preocupação de travar as mudanças climáticas.
Fácil! Nada de concreto, tudo conversa.
A questão da má governação e dos direitos humanos foi atirada para cima de Mugabe e, em parte, para Kadhafi. Os outros passaram todos por cumpridores dos direitos humanos e bons governantes.
Todavia, se analisarmos as relações Europa-África sob outros pontos de vista, diferentes dos inerentes à imagem e às expectativas dos grupos que a organizaram, depressa constataremos que ainda estamos muito longe de um real entendimento entre africanos e europeus. Tudo irá permanecer na mesma.
A primeira razão é esta: não se trata de normalizar relações em pé de igualdade entre africanos e europeus, mas sim entre negros e brancos. Seja lá, seja cá. O que é necessário é deixar de considerar que os africanos são negros e os europeus, brancos.
Nos anos 60, o slogan era " África é dos negros". O movimento de Independência, que tinha começado logo a seguir ao final da II Guerra Mundial e cuja concretização se iniciou com a Independência da Guiné Conacry, com o célebre "NON" de Sékou Touré, aprofundou o slogan e, na prática, as guerras de libertação foram alimentadas com o ódio racista de negros contra brancos.
Com as independências conseguidas, na maior parte dos países africanos assitiu-se a uma verdadeira expulsão sistemática dos brancos de África. Há países que só recuperarão desta expulsão (que o prof. Agostinho da Silva comparava à expulsão dos Judeus de Portugal e da Espanha) daqui a muitas gerações.
Apesar disso, os teimosos (os brancos que continuam nesses países) não têm um tratamento de igualdade. Pelo contrário: na maior parte das vezes são mesmo descriminados.
O ódio racista ainda se manifesta em algumas declarações de certos chefes de estado, como por exemplo, Robert Mugabe, para quem os brancos são os culpados de tudo. Kadhafi - outro exemplo - afirma que o mal de África foi o colonialismo e que, portanto, agora, a Europa deve pagar para que África possa ter a mesma qualidade de vida dos europeus.
Na verdade, o quotidiano da maior parte dos países africanos é vivido tendo como pano de fundo esse ódio racista, de que vão aproveitando os dirigentes para, quando as coisas correm pior, o alimentarem ainda mais.
Ora, a verdade é que os colonos criaram e desenvolveram países cheios de potencialidades - que as independências destruiram. Muitos deles, mais de trinta anos depois ainda não conseguiram, nem sequer manter esquemas de ensino ou reparar as redes viárias, enquanto, por outro lado, as fortunas escandalosas se multiplicam. Os povos africanos já foram mais espoliados pelos seus governantes em cerca de meio século do que pelos brancos em quatro ou cinco séculos de colonização.
Em resultado do que aconteceu em África após as independências, a Europa começou a ser invadida pacificamente pelos africanos (isto é, pelos negros). Inclusivamente, inciou-se um movimento de emigração clandestino de cujos resultados catastróficos, um dia destes, os Europeus , isto é, os brancos, serão acusados.
E esse movimento continua, porque os negros preferem vir passar, muitas vezes, grandes sacrifícios em terras que - convenhamos - também lhes são hostis, do que viver situações de miséria irreversível entre a sua gente.
Será que esta Cimeira abriu o caminho para numa próxima reunião se possa considerar "África não é dos negros", assim como a Europa "não é dos brancos". Que cada um tem direito à terra onde nasceu e deseja viver?
Ou, pelo contrário, esta cimeira abriu mais portas para um entendimento entre os dirigentes africanos e os homens de negócios europeus, donde surgirá mais corrupção, mais miséria para os povos africanos e mais riqueza para quem os dirige, assim como para os brancos que funcionam como corruptores - é que a corrupção é sempre uma concertação de dois actores...
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Leston Bandeira
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4:51 PM
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Histórias Antigas
Aqui já há uns meses contei neste blogue uma das muitas e velhas estórias luandenses de outros tempos. Nela falava de um desastre de automóvel e de um colega de profissão, o Acácio Barradas, que, entretanto, não conseguiu perceber que, para intervir no dito texto e rectificar o que havia para rectificar, lhe bastava elaborar um comentário. Este é um blogue que os permite.
O Acácio tentou contactar com os autores do dito blogue, mas só agora me chegou o respectivo texto, que, com todo o gosto aqui reproduzo, abrindo-lhe a primeira página do Africandar.
Como o Acácio Barradas facilmente compreenderá, apenas lhe retiro o nome a quem o texto foi dirigido e a quem, seguramente, não chegou, porque, de outro modo teria feito o que agora vou fazer.
Não costumo ler blogues. Não tenho nada contra, mas o excesso desmotiva. E como, para encontrar uma pérola, o trabalho é imenso, acabo por lhes passar ao lado. Mas não há regra sem excepção e, assim, eis-me a escrever-te por causa de um blogue de que és colaborador.
Não costumo ler blogues. Não tenho nada contra, mas o excesso desmotiva. E como, para encontrar uma pérola, o trabalho é imenso, acabo por lhes passar ao lado. Mas não há regra sem excepção e, assim, eis-me a escrever-te por causa de um blogue de que és colaborador.
Dá-se o caso de me terem chamado a atenção para o referido blogue, de seu nome «Africandar», por nele eu ser referido num post de António Gonçalves. O post já é de Novembro de 2005, mas só agora o li. E diz o seguinte:
«O Acácio Barradas estava internado e com alguma gravidade. O carro tinha caído à baía, vindo da Ilha. Uma senhora também estava internada, mas alguém tinha tirado a folha, do maço das ocorrências. Já tinha alguns conhecimentos no “Maria Pia” e soube o nome, que nada me dizia, mas tinha notícia. E à saída, um tipo emproado chamou-me e disse: “Nada de notícia. Isto não é para publicar”. Disse-lhe que tinha pena, mas não era a mim que ele se devia dirigir.
«Quando cheguei à Redacção, e entretanto tinha recolhido mais informação e sabia que a internada era uma conhecida poetisa local e a causa, além de algum álcool, do acidente, o chefão foi-me dizendo: “Já sabemos. Não percas tempo. Não vamos dar a notícia. O Charula telefonou. Não vamos entalar um colega”. Barafustei e disse-lhe que eles nos iam lixar e dar a notícia. O Araújo não quis acreditar. Explicou-me que o Charula era uma referência e que trabalhou naquele jornal e que era amigo de todos e nós não o íamos deixar mal. E eu teimei: “Olá se vai. Espere-lhe pela pancada”.
«O Notícia fez reportagem com o caso e carregou nas tintas, com nomes e fotos. Charula de Azevedo era bom jornalista e não perderia uma oportunidade daquelas. Ao Araújo deve-lhe ter custado, mas pediu desculpa e no fim do mês vi o salário aumentado.»
Depois de ter lido isto, procurei no referido blogue algum mecanismo que me permitisse comentar directamente o escrito. Mas não encontrei nada que o autorizasse, o que a meu ver é um pouco estranho, pois costuma ser regra dos blogues que se prezam aceitar o direito de resposta. Eis porque, em recurso, me dirijo a ti, solicitando que intermediarizes junto do blogue e do autor do texto, António Gonçalves, o meu comentário, que aliás é simples:
O António Gonçalves, com a idade e a natural perda de memória, devia ter algum cuidado na rememoração de factos. Volta não volta (como ele próprio já admitiu no respeitante à gravação pirata de Aznavour por Paulo Cardoso), troca datas e personagens e contribui para lançar uma confusão desnecessária na pequena história luandense. O caso por ele relatado, de um acidente de automóvel que caíu na baía de Luanda, está longe de me ter como protagonista. Pelo contrário, fui eu o primeiro jornalista a dar pela ocorrência, que se verificou de madrugada. E como eu era noctívago e a ilha era um dos meus passeios frequentes, rumo ao Tamar e a outras casas de diversão nocturna, deparei com o acontecimento e chamei de imediato ao local o repórter fotográfico Raul Moreira, que fez a imagem dos «náufragos» e do carro a ser pescado na ponte que liga a ilha à cidade. Como é óbvio, publiquei a notícia, devidamente acompanhada da imagem do carro sinistrado, embora sem as fotografias dos «náufragos». De facto, viajava no carro uma poetisa, que por acaso era também sócia-gerente de uma grande empresa de Luanda. E como essa empresa dava publicidade aos órgãos de informação, houve pressões para abafar a notícia, visto que não era conveniente saber-se que a dita poetisa andava de noite na boémia com amigos e amigas que não sabiam controlar os copos, ao ponto de saltarem para as águas da baía em plena madrugada dentro de um automóvel. Não foi, portanto, o Charulla que andou a pedir a quem quer que fosse para não se dar a notícia. Aliás, o Charulla, que a par de ser jornalista controlava uma agência de publicidade, tinha o grande mérito de não favorecer a agência à custa da informação. O jornalista, nele, era mais forte que o homem de negócios, por isso ficou imperturbável com a notícia que fiz da ocorrência. Creio até, se a memória não me atraiçoa (como infelizmente acontece ao António Gonçalves) que lhe aplicou uns pòzinhos de ironia, em que aliás era perito.
Mas então, como é que o António Gonçalves me terá envolvido nesta peripécia? Sonhou, apenas? Não, não sonhou. Simplesmente confundiu dois casos distintos e, sob a influência do surrealismo a que foi atreito em Lisboa no Café Gelo, acabou por fazer inconscientemente um «cadáver esquisito».
Realmente, nos primórdios dos anos 60, eu tive um violento desastre na estrada de Catete e fui parar em coma ao hospital, aí sendo submetido a melindrosa intervenção cirúrgica que durou cinco horas. Só acordei passados dois dias, de braço ao peito e perna suspensa. Na altura, eu era chefe de redacção da revista Notícia e tinha-me deslocado, ao volante do meu carocha, a um posto militar localizado nos arredores de Luanda, a fim de me avistar com o «nosso alferes» Xico Orta, a cuja habilidade para o desenho recorria com frequência para ilustrar determinados textos da revista. Já no regresso a Luanda, em plena estrada de Catete, o lusco-fusco do sol posto e os faróis acesos de um camião que viajava em sentido contrário, geraram um cone de sombra no qual mergulhei sem me aperceber que havia um camião estacionado na berma, sem luzes nem triângulo luminoso que me alertassem. O embate foi brutal, tendo o meu carro saltado para a via da esquerda e carambolado no camião que vinha em sentido contrário e que também capotou. Não morri porque não calhou e, vendo o estado em que o carocha ficou, reduzido a sucata, quase seria tentado a pensar num milagre, não fosse estar certo de que nenhum santo ou santa usaria os poderes que eventualmente tivesse em minha defesa.
Tudo isto não teria especial relevância, não se desse o caso de incluir um pormenor algo picante: é que comigo seguia uma senhora da chamada «melhor sociedade local», que tinha a particularidade de não ser a minha «extremosa esposa». Tratava-se, isso sim, da (recentemente falecida) pintora Teresa Gama, então considerada a ovelha ranhosa da família Neves e Sousa, tal como eu era considerado a ovelha ranhosa da família da minha mulher, cujo apelido Pereira do Nascimento evoca desde logo o meu sogro, que era então uma figura de grande gabarito e larga influência. Daí que, por interferência de ambas as famílias, Neves e Sousa e Pereira do Nascimento, tenham sido movidas influências no sentido de abafar a notícia do acidente. Tais influências foram tais e tantas que, mesmo no Hospital Maria Pia, onde eu e a Teresa Gama estávamos internados, havia ordens terminantes para nenhum saber do outro por intermédio dos médicos, das enfermeiras e até dos serventes. A situação era de tal forma aberrante, que tive de recorrer aos préstimos da minha «extremosa esposa». Foi ela, a presumível ofendida pelo suspeito adúltero que eu era, que a meu pedido se prontificou a procurar o quarto onde a Teresa Gama estava internada, certificando-se do seu estado e trazendo-me as informações que ninguém me dava. Isso não significa que tivesse aceite a minha «infidelidade», pois logo que tive alta apercebi-me de que a minha casa passara a ter um único inquilino: eu. Mulher e filhos tinham voado para longe.
Se o Charulla teve ou não teve qualquer interferência nas maquinações para esconder a notícia, ignoro. Mas tudo me leva a crer que o tenha feito, embora de facto não se coibisse de dar a imagem do acidente na revista Notícia, mas sem referir o nome da senhora acompanhante. Tal omissão não a fez certamente por boas razões, mas por ter um ciúme diabólico da Teresa Gama, que ele não compreendia como era capaz de resistir aos seus encantos, preferindo um tipo como eu. Em resultado desta patologia, acabei por ser despedido da revista, sem apelo nem agravo. O administrador da publicação, António Alves Simões, mancomunado com o Charulla, chamou-me para me despedir, invocando a interferência da PIDE nesse sentido. É claro que PIDE não passou de um falso pretexto alinhavado à pressa para substituir a verdadeira razão: «dor de corno». Na sequência deste despedimento – e como era preciso dar alguma justificação do mesmo aos leitores da revista –, foi publicada uma notícia em que se invocavam, sem os especificar, «factos graves». Dirigi-me à revista para exigir explicações sobre esta notícia e o Charulla recebeu-me aos gritos e empurrou-me pela escada abaixo, o que na altura era para mim algo complicado, pois tinha um braço em gesso e um joelho entrapado.
Como é natural, a invocação de «factos graves» para o meu despedimento levou muita gente a querer saber o que de realmente grave eu fizera, pois o mais plausível, na versão corrente, era eu ter assaltado o cofre da empresa, o que eventualmente justificaria a minha vida nocturna e o meu êxito aparente junto das mulheres. Houve, felizmente, um jornalista que não se deixou enredar pelo diz-se-diz-se e, depois de investigar as verdadeiras causas, escreveu e publicou na revista Semana Ilustrada, dirigida por Alfredo Diogo Júnior, uma bem humorada crónica em que, perante o enigma dos «factos graves» que me eram atribuídos, encontrou a solução recorrendo a uma velha expressão francesa: «cherchez la femme». O jornalista que se arvorou em Poirot para chegar a esta sábia conclusão, pondo meia Luanda a rir, foi nem mais nem menos do que o famoso Ernesto Lara Filho.
A história vai longa, mas para ser devidamente entendida achei que não devia poupar pormenores. Resta-me acrescentar que, depois de todas estas bizarrias, o Charulla tornou-se proprietário da revista Notícia e, abafados os velhos ressentimentos, resolveu convidar-me a voltar ao «local do crime». E assim aconteceu, ao que parece com o agrado do António Gonçalves, que a propósito do ambiente que eu instituí na redacção, já me prestou justiça ao escrever no mesmo blogue:
«No “Notícia”, depois, encontrei a grande alegria de viver e um companheirismo exemplar de Acácio Barradas, então Chefe de Redacção, e de Joaquim Cabral, um grande fotógrafo e um bom amigo. Angola viria a seguir. Sem o «N» não teria andado tanto em tão pouco tempo...»
Enfim, não há nada como um «happy end», à boa maneira dos velhos tempos de Holywood.
Acácio Barradas.
«O Acácio Barradas estava internado e com alguma gravidade. O carro tinha caído à baía, vindo da Ilha. Uma senhora também estava internada, mas alguém tinha tirado a folha, do maço das ocorrências. Já tinha alguns conhecimentos no “Maria Pia” e soube o nome, que nada me dizia, mas tinha notícia. E à saída, um tipo emproado chamou-me e disse: “Nada de notícia. Isto não é para publicar”. Disse-lhe que tinha pena, mas não era a mim que ele se devia dirigir.
«Quando cheguei à Redacção, e entretanto tinha recolhido mais informação e sabia que a internada era uma conhecida poetisa local e a causa, além de algum álcool, do acidente, o chefão foi-me dizendo: “Já sabemos. Não percas tempo. Não vamos dar a notícia. O Charula telefonou. Não vamos entalar um colega”. Barafustei e disse-lhe que eles nos iam lixar e dar a notícia. O Araújo não quis acreditar. Explicou-me que o Charula era uma referência e que trabalhou naquele jornal e que era amigo de todos e nós não o íamos deixar mal. E eu teimei: “Olá se vai. Espere-lhe pela pancada”.
«O Notícia fez reportagem com o caso e carregou nas tintas, com nomes e fotos. Charula de Azevedo era bom jornalista e não perderia uma oportunidade daquelas. Ao Araújo deve-lhe ter custado, mas pediu desculpa e no fim do mês vi o salário aumentado.»
Depois de ter lido isto, procurei no referido blogue algum mecanismo que me permitisse comentar directamente o escrito. Mas não encontrei nada que o autorizasse, o que a meu ver é um pouco estranho, pois costuma ser regra dos blogues que se prezam aceitar o direito de resposta. Eis porque, em recurso, me dirijo a ti, solicitando que intermediarizes junto do blogue e do autor do texto, António Gonçalves, o meu comentário, que aliás é simples:
O António Gonçalves, com a idade e a natural perda de memória, devia ter algum cuidado na rememoração de factos. Volta não volta (como ele próprio já admitiu no respeitante à gravação pirata de Aznavour por Paulo Cardoso), troca datas e personagens e contribui para lançar uma confusão desnecessária na pequena história luandense. O caso por ele relatado, de um acidente de automóvel que caíu na baía de Luanda, está longe de me ter como protagonista. Pelo contrário, fui eu o primeiro jornalista a dar pela ocorrência, que se verificou de madrugada. E como eu era noctívago e a ilha era um dos meus passeios frequentes, rumo ao Tamar e a outras casas de diversão nocturna, deparei com o acontecimento e chamei de imediato ao local o repórter fotográfico Raul Moreira, que fez a imagem dos «náufragos» e do carro a ser pescado na ponte que liga a ilha à cidade. Como é óbvio, publiquei a notícia, devidamente acompanhada da imagem do carro sinistrado, embora sem as fotografias dos «náufragos». De facto, viajava no carro uma poetisa, que por acaso era também sócia-gerente de uma grande empresa de Luanda. E como essa empresa dava publicidade aos órgãos de informação, houve pressões para abafar a notícia, visto que não era conveniente saber-se que a dita poetisa andava de noite na boémia com amigos e amigas que não sabiam controlar os copos, ao ponto de saltarem para as águas da baía em plena madrugada dentro de um automóvel. Não foi, portanto, o Charulla que andou a pedir a quem quer que fosse para não se dar a notícia. Aliás, o Charulla, que a par de ser jornalista controlava uma agência de publicidade, tinha o grande mérito de não favorecer a agência à custa da informação. O jornalista, nele, era mais forte que o homem de negócios, por isso ficou imperturbável com a notícia que fiz da ocorrência. Creio até, se a memória não me atraiçoa (como infelizmente acontece ao António Gonçalves) que lhe aplicou uns pòzinhos de ironia, em que aliás era perito.
Mas então, como é que o António Gonçalves me terá envolvido nesta peripécia? Sonhou, apenas? Não, não sonhou. Simplesmente confundiu dois casos distintos e, sob a influência do surrealismo a que foi atreito em Lisboa no Café Gelo, acabou por fazer inconscientemente um «cadáver esquisito».
Realmente, nos primórdios dos anos 60, eu tive um violento desastre na estrada de Catete e fui parar em coma ao hospital, aí sendo submetido a melindrosa intervenção cirúrgica que durou cinco horas. Só acordei passados dois dias, de braço ao peito e perna suspensa. Na altura, eu era chefe de redacção da revista Notícia e tinha-me deslocado, ao volante do meu carocha, a um posto militar localizado nos arredores de Luanda, a fim de me avistar com o «nosso alferes» Xico Orta, a cuja habilidade para o desenho recorria com frequência para ilustrar determinados textos da revista. Já no regresso a Luanda, em plena estrada de Catete, o lusco-fusco do sol posto e os faróis acesos de um camião que viajava em sentido contrário, geraram um cone de sombra no qual mergulhei sem me aperceber que havia um camião estacionado na berma, sem luzes nem triângulo luminoso que me alertassem. O embate foi brutal, tendo o meu carro saltado para a via da esquerda e carambolado no camião que vinha em sentido contrário e que também capotou. Não morri porque não calhou e, vendo o estado em que o carocha ficou, reduzido a sucata, quase seria tentado a pensar num milagre, não fosse estar certo de que nenhum santo ou santa usaria os poderes que eventualmente tivesse em minha defesa.
Tudo isto não teria especial relevância, não se desse o caso de incluir um pormenor algo picante: é que comigo seguia uma senhora da chamada «melhor sociedade local», que tinha a particularidade de não ser a minha «extremosa esposa». Tratava-se, isso sim, da (recentemente falecida) pintora Teresa Gama, então considerada a ovelha ranhosa da família Neves e Sousa, tal como eu era considerado a ovelha ranhosa da família da minha mulher, cujo apelido Pereira do Nascimento evoca desde logo o meu sogro, que era então uma figura de grande gabarito e larga influência. Daí que, por interferência de ambas as famílias, Neves e Sousa e Pereira do Nascimento, tenham sido movidas influências no sentido de abafar a notícia do acidente. Tais influências foram tais e tantas que, mesmo no Hospital Maria Pia, onde eu e a Teresa Gama estávamos internados, havia ordens terminantes para nenhum saber do outro por intermédio dos médicos, das enfermeiras e até dos serventes. A situação era de tal forma aberrante, que tive de recorrer aos préstimos da minha «extremosa esposa». Foi ela, a presumível ofendida pelo suspeito adúltero que eu era, que a meu pedido se prontificou a procurar o quarto onde a Teresa Gama estava internada, certificando-se do seu estado e trazendo-me as informações que ninguém me dava. Isso não significa que tivesse aceite a minha «infidelidade», pois logo que tive alta apercebi-me de que a minha casa passara a ter um único inquilino: eu. Mulher e filhos tinham voado para longe.
Se o Charulla teve ou não teve qualquer interferência nas maquinações para esconder a notícia, ignoro. Mas tudo me leva a crer que o tenha feito, embora de facto não se coibisse de dar a imagem do acidente na revista Notícia, mas sem referir o nome da senhora acompanhante. Tal omissão não a fez certamente por boas razões, mas por ter um ciúme diabólico da Teresa Gama, que ele não compreendia como era capaz de resistir aos seus encantos, preferindo um tipo como eu. Em resultado desta patologia, acabei por ser despedido da revista, sem apelo nem agravo. O administrador da publicação, António Alves Simões, mancomunado com o Charulla, chamou-me para me despedir, invocando a interferência da PIDE nesse sentido. É claro que PIDE não passou de um falso pretexto alinhavado à pressa para substituir a verdadeira razão: «dor de corno». Na sequência deste despedimento – e como era preciso dar alguma justificação do mesmo aos leitores da revista –, foi publicada uma notícia em que se invocavam, sem os especificar, «factos graves». Dirigi-me à revista para exigir explicações sobre esta notícia e o Charulla recebeu-me aos gritos e empurrou-me pela escada abaixo, o que na altura era para mim algo complicado, pois tinha um braço em gesso e um joelho entrapado.
Como é natural, a invocação de «factos graves» para o meu despedimento levou muita gente a querer saber o que de realmente grave eu fizera, pois o mais plausível, na versão corrente, era eu ter assaltado o cofre da empresa, o que eventualmente justificaria a minha vida nocturna e o meu êxito aparente junto das mulheres. Houve, felizmente, um jornalista que não se deixou enredar pelo diz-se-diz-se e, depois de investigar as verdadeiras causas, escreveu e publicou na revista Semana Ilustrada, dirigida por Alfredo Diogo Júnior, uma bem humorada crónica em que, perante o enigma dos «factos graves» que me eram atribuídos, encontrou a solução recorrendo a uma velha expressão francesa: «cherchez la femme». O jornalista que se arvorou em Poirot para chegar a esta sábia conclusão, pondo meia Luanda a rir, foi nem mais nem menos do que o famoso Ernesto Lara Filho.
A história vai longa, mas para ser devidamente entendida achei que não devia poupar pormenores. Resta-me acrescentar que, depois de todas estas bizarrias, o Charulla tornou-se proprietário da revista Notícia e, abafados os velhos ressentimentos, resolveu convidar-me a voltar ao «local do crime». E assim aconteceu, ao que parece com o agrado do António Gonçalves, que a propósito do ambiente que eu instituí na redacção, já me prestou justiça ao escrever no mesmo blogue:
«No “Notícia”, depois, encontrei a grande alegria de viver e um companheirismo exemplar de Acácio Barradas, então Chefe de Redacção, e de Joaquim Cabral, um grande fotógrafo e um bom amigo. Angola viria a seguir. Sem o «N» não teria andado tanto em tão pouco tempo...»
Enfim, não há nada como um «happy end», à boa maneira dos velhos tempos de Holywood.
Acácio Barradas.
Publicada por
António Gonçalves
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Sábado, Outubro 13, 2007
O 27 de Maio em Angola
As edições ASA lançaram no dia 27 de Sembro, em Lisboa, na Sociedade de Geografia um livro assinado por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, com o título "Purga em Angola - Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunem o 27 de Maio de 1977".Estive lá, comprei o livro, já o li.
Já exprimi muitas vezes a minha opinião sobre o que aconteceu a seguir à tentativa de golpe de estado do 27 de Maio. Já verberei, inclusivé, que se tente branquear a imagem de Agostinho Neto, falando dos seus escritos - poemas incluídos - para fazer esquecer a sua prática política, marcada pela ignorância, pela soberba, arrogância e pelo institnto sanguinário que o foi acompanhando ao longo da sua carreira política - Hoji Ya Henda, Deolinda Rodrigues, Gika e outros, além das tentativas frustradas de se ver livre de adversários políticos - e que culminou com um massacre indiscriminado num contra-golpe autenticamente fascista.
Este livro apresenta, todavia, apenas um lado de toda esta trama política e cobre a tentativa efectiva de golpe de estado levada a cabo por um grupo organizado em torno de Nito Alves.
Eu fui testemunha presencial de muitos acontecimentos anteriores ao 27 de Maio que já denunciavam as reais intenções de Nito,tendo inclusivé, sentido a necessidade de fugir de Angola perante a inevitabilidade de um confronto entre os dois blocos. Ganhasse quem ganhasse o meu fim engrossaria o número dos que agora se contam.
Nito Alves e a sua gente, organizada sobretudo no interior da JMPLA, já tinham tomado o poder político e, em alguns casos, militar, em grande parte das Províncias. Por exemplo, na Huíla, cuja capital, o Lubango, foi local de encontro para vários dos conspiradores. Monstro Imortal encontrou-se várias vezes com o Comandante da Frente Sul, o major Evady, que, mais tarde conseguiu sacudir o labéu de "nitista" e veio a ser Comissário da Província.
Na Huíla esteve também José Eduardo dos Santos, exactamente no dia 27, em casa de um parente, o então Comissário Provincial, Belarmino Van Dunem. A fazer o quê?
O Comandante da CPPA ( Polícia de Segurança), em 1976, um tal Comandante Martinho, natural de Malange e nitista, fez todas as barbaridades possíveis. Foi ele que inaugurou a célebre e tétrica prática de jogar gente na Fenda da Tundavala.
Mandava fazer rusgas na casa dos brancos, de madrugada. Um dia mandou chicotear um colono, nos testículos, o Velho Maximino Borges, por ter encontrado numa sua mala, uma bandeira portuguesa.
Numa outra altura mandou prender um jornalista da então Rádio Popular, que eu tinha criado, e durante toda a noite os seus lacaios espancaram o Celso apenas porque ele trabalhava na Rádio Popular.

Logo a seguir escrevi um texto no jornal " A Luta Continua", que eu também tinha criado, denunciando a ocorrência. Suponho que o tal comandante era analfabeto... mas em Luanda havia muita gente letrada e o jornal que saía às quartas no Lubango, chegava a Luanda às quintas de manhã e logo esgotava, porque nessa altura já se vivia sob a tutebla de um dos mais violentos educadores do povo - este netista - Costa Andrade, o N'Dunduma - director do Jornal de Angola e que só permitia escritos a louvar o partido.
Depois que cheguei ao Lubango, em Fevereiro de 1976, fiz um enorme esforço em todas as áreas onde podia ajudar e mesmo naquelas onde os meus conhecimentos não eram assimm tantos.
Uma das coisas que fiz foi enviar informação via rádio - uma tarefa que me ocupava horas - para o Jornal de Angola.
Ora, eu não lia o que era publicado e quando, mais tarde, fui a Luanda fiquei surpreendido com o que "tinha escrito". N'Dunduma e os seus lacaios retalharam-me completmente os textos e chegaram a negar afirmações minhas ou a afirmar negações escritas por mim.
Quando tentei falar com ele para lhe chamar, no mínimo, fascista, não me recebeu. Era um senhor muito importante...
Afinal, os diversos conflitos pseudo-políticos que ocorriam nessa altura em Angola resumiam-se a um facto muito simples: os vários grupos do MPLA, quando chegaram a Angola ficaram surpreendidos com o que encontraram e elegeram como principais inimigos os que tinham construído aquele país que eles não entendiam. Para eles Angola ainda era a mesma de 1950.
De resto, isso ainda acontece hoje: os construtores de Angola, que o MPLA destruiu em apenas dois anos são os verdadeiros inimigos dos dirigentes aburguesados e ignorantes de Angola.
Mas não só: também são mal vistos em Portugal.
Sempre que se fala de algum assunto mais ou menos histórico referente a Angola, enquanto colónia, ou província ultramaria, ou o que quer que seja, nunca se pergunta nada a quem lá viveu, lutou e sofreu para construir um país que tinha condições , já em 1973, para ser , de facto, independente.
Até que apareceram os "libertadores", que como disse o Rola da Silva "se mataram uns aos outros como cães".
Entretanto, instalou-se na cidade do Lubango, bem como por todo o país, depois de , mais ou menos Maio ou Junho de 1976, um clima de verdadeiro terror, porque, no regresso de Luanda para o Lubango, depois que os sul-africanos abandonaram o território, em 27 de Março, a maior parte dos quadros do MPLA vinham doutrinados pela gente de Nito Alves. Incluia-se neste número o primeiro Comissário Provincial, Sumbo Braz, que principiou a fazer discursos racistas e regionalistas que assustavam. Um homem ponderado ficou, de repenete, desaustinado.
Tive a oportunidade de, durante a abertura do ano lectivo de 1976/77, na Faculdade de Letras do Lubango, ser duro com ele. Já estava a ficar farto de tudo.
Os nitistas tomaram o poder numa Assembleia Geral de Militantes, realizada do Auditório do ex- Rádio Clube da Huíla de uma forma perfeitamente organizada e
orquestrada. Começaram por esperar pela minha entrada na sala para pedirem a minha nomeação para a mesa como secretário. Os anti-nitistas ficaram sem a sua principal arma...
orquestrada. Começaram por esperar pela minha entrada na sala para pedirem a minha nomeação para a mesa como secretário. Os anti-nitistas ficaram sem a sua principal arma...Depois acusaram toda a gente de tudo, remexeram na vida privada dos dirigentes, acusando uns de incesto e outros de coisas ainda piores. No final, o único que ficou, fui eu. De resto, eu era o único que restava da primeira assembleia de militantes realizada ainda em 1974.
Não seria, todavia, pacífica a minha continuação como dirigente. Comecei a ser atacado por todos os lados. A Camarada Arlete, por exemplo, numa reunião sobre informação dissse que o jornal " A Luta Continua" não estava dirigido "às massas". Obteve como resposta uma gargalhada: " A Camarada não sabe que as massas são analfabetas?".
Tão analfabetas como o comandante da Polícia, ou como um membro do Conselho de Administração da Moagem do Venâncio Guimarães Sobrinho, do qual eu era o presidente. Um dia, descobri que ele tinha um documento ao contrário e fingia um grande esforço de compreensão da sua leitura.
Tinha sido lá colocado pelo Santos, outro nitista, delegado do Ministério da Indústria na Huíla. Claro que o mandei para um grupo de alfabetizandos...
O Livro de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus serve como denúnica dos massacres horrorosos levados a cabo por uma chusma de sanguinários que seguiram a ordem do chefe : "não vamos perder muito tempo", mas passa completamente ao lado do contexto em que tudo ocorreu, limitando-se a falar do que aconteceu em Luanda e referindo-se ao resto do país apenas para contar os massacres. É pena, porque é mais uma oportunidade perdida.
Publicada por
Leston Bandeira
em
3:54 PM
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Etiquetas: História
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