Domingo, Dezembro 20, 2009

OS BÓERES NO PLANALTO DA HUÍLA






Os meus agradecimentos ao meu amigo António Trabulo que me enviou este texto e também algumas das fotografias da sua colecção particular.



Os bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco anos depois.



Criaram raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a Colónia do Cabo à Inglaterra.



Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek. Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados, bateram-se bem, mas foram vencidos.



Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.



Seiscentas famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto, de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por mais.



Ao longo do Trek, os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres, nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram dispersando.



Uns tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene. Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra para se instalarem.



Vale a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.



Em Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar, experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado à cauda dum cavalo.



Os bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros de comprimento, com uma levada de água para cada casal.



Nessa época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda prestada pelos cavaleiros bóeres.



Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.



Os africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.



Existia, no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar. Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.



Os bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região. Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de Almoster.



A segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902 não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na região.



Em 1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.



Quatro famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado. Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana, reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto de 2.000 almas.






Referências:



Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.



Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.



Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.



Fotografias: colecção do autor.







Quinta-feira, Setembro 17, 2009

1910 - Romance de Antonio Trabulo


Implicado na revolução republicana ocorrida no Porto a 31 de Janeiro de 1891, o sargento João Madruga foi condenado ao exílio em África.



Ao ser indultado, trouxe para Portugal a mulher negra e a filhinha mulata. O diálogo que se transcreve foi estabelecido com Susana Madruga, em Lisboa, no ano de 1909.-



Antes de a conhecer, Benguela tocou-me no nariz. Era de noite e não havia cais para atracar. Tudo o que eu podia ver eram janelas iluminadas ao longe. Cheirava bem. Eu não conhecia aqueles cheiros que adoçavam a escuridão. Soube mais tarde que eram de fruta madura: goiabas, mangas e bananas. Pela manhã, levaram-nos para terra em pequenas embarcações tripuladas por negros. Quando os barquitos encalharam, saltámos para a areia com as taleigas em que guardávamos o pouco que nos tinham deixado levar.- O pai não ia fardado?- Não. Quando nos condenaram ao degredo, também nos expulsaram do exército.- Mandaram-nos para lá para morrerem?- Não foi bem assim. As febres matavam uns tantos. Dos que resistiam, muitos assentavam raízes e faziam-se colonos. Angola precisava de brancos. Pelo menos, era o que se dizia no Porto.- Deram-lhes onde morar?- Enfiaram-nos num casebre com telhado de colmo - lá chamam-lhe capim. Ficava perto da praia. Tinha apenas uma assoalhada, mas era espaçosa. Ali ficámos, até cada um ajeitar a sua vida.- E a terra, era grande?- Seria como uma vila de cá. Em Angola, apenas Luanda era maior. Muitas habitações eram só de um piso. Algumas alongavam-se por um quarteirão inteiro, como carruagens de comboio pegadas umas às outras. Nas casas mais antigas havia grandes quintais com muros altos. Em tempos recuados, prendiam lá os escravos que esperavam barco para o Brasil. Mesmo depois de o tráfico ser banido, os de Benguela continuaram a levantar paredes elevadas que já não serviam para nada.Susana escutava com um ar muito sério.- A minha mãe era escrava? O pai comprou-a?A miúda andava com aquela pergunta debaixo da língua havia anos, com vergonha de a fazer.Madruga sorriu.- Não! A escravatura já tinha acabado. Era uma pessoa livre. Eu gostei dela e ela de mim. Mas tanto a tua avó como a tua bisavó, que ainda conheci, tinham sido libertadas já na idade adulta.- E que é que o pai lá fazia? Como é que ganhava a vida?- Em África, os portugueses tinham essencialmente quatro profissões: padres, soldados, funcionários públicos, e comerciantes. Eu não era padre e fora posto fora do exército. Como não me deixaram ser funcionário, empreguei-me numa casa de comércio. Vendia-se um pouco de tudo e comprava-se cera, borracha, sisal, cereais, couros, gado e marfim. Tudo aquilo vinha de longe, do interior. Em tempos recuados, fizeram-se fortunas com o comércio de escravos. Alguns dos palácios de condes e barões que vês por aí assentam no dinheiro ganho com o aviltamento de seres humanos.- E a comida, como era?- Não passávamos mal. O mar era rico em peixe. Havia hortas com muita variedade de legumes, embora nem todos fossem iguais aos de cá. Criavam-se galinhas, porcos e cabritos. A fruta era boa e muito barata. De vez em quando, comíamos carne de caça. Os negros viviam pior. Alimentavam-se de farinha de milho e mandioca e, claro, de peixe. Gostavam muito de feijão com óleo de palma. O pescado que não se consumia fresco, e que era a maior parte, secava-se. Era vendido em fardos para as terras do interior, que nos compravam também bastante sal.- Que aconteceu aos seus colegas?- Fizeram-se à vida, como eu. O Lameiras, coitado, teve pouca sorte. Morreu com as sezões. Ainda não estava em África há um ano. Benguela ficava no meio de pântanos e lagoas. Abundavam os mosquitos e havia muitas febres. A terra chegou a ser chamada "cemitério de brancos".- E os pretos?- Também adoeciam, mas estavam mais habituados aos males de lá e aguentavam-se melhor. Sabes que Benguela tem uma particularidade diferente das outras terras? - Não. Conte lá...- É a única povoação importante que conheço que mudou de lugar e conservou o nome. E não foi como se os mouros se deslocassem de Lisboa para Sintra. Não! A primeira Benguela, Benguela-Velha, extinguiu-se. No começo do século XVII foi refundada, centenas de quilómetros a Sul. O nome tinha peso na costa africana e o prestígio que lhe estava associado não se podia deitar fora. O rei Filipe II separou o Reino de Benguela do Reino de Luanda e deu-lhe autonomia administrativa. Bem podiam tê-lo aconselhado a escolher um lugar mais saudável...



Em 1910, romance histórico de António Trabulo

Terça-feira, Julho 21, 2009

Renato Cardoso e os Seus Amigos


Apesar dos anos passarem rapidamente, há nomes que não me abandonam no meu dia a dia. Renato Cardoso é um deles. Foi um amigo de que me orgulho particularmente. E continuo a estranhar que os Cabo-Verdianos não assinalem devidamente a sua capacidade de trabalho, a sua inteligência brilhante e as suas lutas para que o país possa hoje orgulhar-se dos caminhos que já percorreu, do presente notável de que desfrutam e as esperanças fundadas de um futuro ainda mais risonho.


Com o passar dos anos fica-se com a impressão de que ainda há quem tenha medo da memória do Renato.


Falo aqui hoje dele porque recebi um e-mail de Alice Sena Mascarenhas, uma colaboradora de Renato Cardoso, sua amiga e sua admiradora porque lhe conhecia as qualidades, já que trabalhava de perto com ele. Pede-me a possibilidade de ler o texto de 20 de Setembro de 2005. Pois ele aqui está reposto. Tem a possibilidade de o comentar. Introduzi o sistema de controlo dos comentários porque houve um tempo em que recebia comentários ofensivos, normalmente anónimos. Não será o seu caso. O seu comentário será muito bem vindo, sobretudo porque perfilho a sua ideia de que o crime que matou o Renato não foi devidamente investigado e há por detrás dessa morte uma premeditação óbvia que tem a ver com a evolução que a política de Cabo Verde teve nos anos seguintes .

Estou pessoalmente convencido de que se Renato Cardoso fosse vivo o MpD nunca teria ganho as eleições de 1991. Para além disso - é a primeira vez que faço referência a isto - o Renato pressentia que alguma coisa lhe iria acontecer por aqueles dias. Ele foi assassinado num Sábado e na quinta-feira anterior tinha-me telefonado, pedindo-me para ir à Praia: queria falar comigo, estava com "medo" depois de uma reunião que tinha tido com o Presidente da República de então, Aristides Pereira.

Como vê, Alice, já somos dois com o mesmo tipo de informação...

Acho que tem razão: teria sido necessário fazer tudo para saber quem está por detrás da morte de Renato Cardoso. Eu acho que ainda hoje vale a pena. Sobretudo os Cabo-Verdianos deveriam exigir que a sua memória fosse respeitada e fizesse parte da galeria dos heróis nacionais.


Gostaraia muito que a Alice Sena Mascarenhas partilhasse connosco o seu poema que fez para o Renato.


Quanto à data do texto, percebeu: foi para assinalar o 15º aniversário do acontecimento. Mas, a verdade é que eu escrevi muito sobre o Renato, sobretudo no "África" e também noutros jornais. Não o esqueci e não o vou esquecer


A seguir publico o e-mail de Alice Sena Mascarenhas e o texto de 20 de Setembro de 2005, em que assinalava os 15 anos da morte de Renato Silos Cardoso.

Olá
Não tive a sorte de ler o artigo que escreveu em 2005 (20 de Julho) sobre o Renato que só hoje me chegou às mãos.
Fui colega do Renato Cardoso no Liceu Gil Eanes e depois como segui para Cabinda (onde vivi dez anos) só em 1975 viria a reencontrar o Paín (assim era ele conhecido por nós colegas e outros daquele tempo - nome aplicado pelo Dr. Baltasar Lopes da Silva, quando o Renato leu em francês le paín em vez de pain (pão).

Sabe, desde que mataram o Renato, digo comigo mesma que se fosse a mulher dele teria que descobrir quem o matou. As várias versões aqui impingidas nunca me enganaram. Eu tive o privilégio de ter trabalhado com o Renato nas vésperas da sua morte e sei, porque ele me disse, que algo que estava a atormentá-lo já tinha sido esclarecido. Tinha tido um encontro sobre isso. Ele prometeu vir beber un Gin tónico comigo no domingo para comemorarmos tb o projecto sobre administração pública que acabáramos de traçar com um expert das N.U, Guido de Weerd . Nunca me esqueço daquela manhã, do toque daquele telefone (eu ainda deitada) e a voz do meu marido anunciando-me o acontecimento. Os meus soluços continuam vivos aqui no meu peito e sinto não poder dar a vida ao meu amigo.Fiz um poema que nunca difundi porque não sou poetisa e tb porque as vozes sonoras não pertencem a todos. Não interessa, fi-lo para ele.
Sei também que o Renato não pode estar feliz pois ele tinha todo um projecto de vida que ele não escondia e que fazia questão de anunciar: eu não pretendo morrer, nem vou imigrar, a não ser que me dêem um tiro e eu não possa fazer nada... foi o que ele dissera quando o técnico lhe disse que o país precisava dele para defender o projecto acabado de assinar...

Tudo isso para lhe pedir: por favor escreva mais sobre o que escreveu, difunda o seu artigo ou então de-nos oportunidade de o comentar.
Mas tb questionei porque só em 2005? Compreendo mas não entendo.
Um abraço
Alice Sena Mascarenhas
CP 43 Praia
Ilha de Santiago,
Republica de Cabo Verde

Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Faz hoje quinze anos que Renato Cardoso foi assassinado na Cidade da Praia. Daqui, de Lisboa, dedico-lhe o meu pensamento, honro a sua memória e declaro a minha saudade de um amigo bom, de um homem inteligente, dedicado à sua terra e à sua gente.
Daqui, de Lisboa, do mesmo sítio onde recebi a notícia fria da sua morte lamento que um manto inexplicável tenha caído por cima de um assassinato hediondo, cujas razões nunca foram devidamente explicadas. Desta mesma cidade que o viu crescer como jurista de grande conhecimento e sabedoria digo da minha tristeza pelo esquecimento a que os seus votam a sua memória.
De dentro do que mais profundo existe em mim rendo a minha homenagem à sua coragem nas inúmeras lutas políticas que travou e de que resultaram sempre avanços para o progresso do seu povo. Faço vénia ao seu empenhamento na luta pelos ideias da democracia, cujos princípios enunciou antes que outros aproveitassem as ondas internacioinais para se perfilarem num combate pelo poder.
Neste triste aniversário, como seu amigo, sinto-me na obrigação de informar os cabo-verdianos que Renato Cardoso, pouco tempo antes de ter sido abatido por um profisisional que não deixou pistas, tinha sido convidado para trabalhar fora da sua terra, a troco de uma proposta milionária - que ele recusou - porque, como dizia, a sua gente precisava dele.
E precisava mesmo. Só que já passaram quinze anos sobre o som dos tiros assassinos e a sua gente já nem se lembra do dia. Os seus pupilos, aqueles em quem ele depositou as suas esperanças, têm , pelo menos, que honrar a sua memória, a sua honradez de carácter, a sua crença num Cabo Verde para todos os cabo-verdianos.


Publicada por Leston Bandeira em 8:35 AM 0 comentários

Terça-feira, Julho 14, 2009

O "Quintal" da Europa

Hoje as rádios , as televisões e os jornais deram com alarido e sem nenhum sentido crítico a grande notícia: um conjunto de doze empresas alemãs vai levar a cabo um projecto de criação de um complexo de aproveitamento do Sol do Saara para produzir energia limpa.
Tal energia abastecerá a Europa e suprirá 15 por cento do consumo. Os pormenores acrescentavam que a Senhora Merkel e Durão Barroso estão radiantes com o projecto. Até a Greenpeace exultou e fez um comunicado exortando todo o Mundo a fazer o mesmo.
De todas as notícias que ouvi e li não vi nenhuma referência ao papel de África neste projecto que, "só por acaso" vai ser desenvolvido em território africano.
Fala-se na criação de 250 mil postos de trabalho, na possibilidade de dessalinizar água do mar para aproveitamento das populações locais, mas mais nada.
A Europa, desta vez através do "gigante" germânico, volta a olhar para África como o seu "quintal"...
Dirão os mais colonialistas: ..."mas é aqui tão perto!...."
Pois. É perto, mas é África e aqui, perto, começa a desgraça de milhões e milhões de seres humanos que sempre foram olhados de cima (e já agora, por cima). Esses muitos milhões foram vítimas do facto de África estar aqui tão perto e ser a zona "natural" de expansão da Europa, mais avançada do ponto de vista tecnológico - tal como agora.
E, para além disso, estão a ser vítimas dos seus próprios dirigentes, que, corrompidos pelos europeus, pouco se interessam com a vida dos seus países.
Ora, este projecto megalómano alemão foi anunciado por europeus, comemorado por europeus e não se ouviu falçar de africanos. Será que vão tomar de assalto o deserto do Saara e instalar lá os painéis solares que hão-de produzir a tal energia limpa para os europeus?

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Arménio Vieira - Prémio Camões


Ontem à noite ouvi a notícia e devo ter ficado tão surpreendido como ele próprio: Arménio Vieira era o Prémio Camões 2009.


Fiquei surpreso mas feliz porque se há um poeta em todo o espaço de língua portuguesa que merece este prémio específico é o Arménio já que ele é um cidadão do Mundo, sobretudo pelo conhecimento. Tal como Camões, Arménio Vieira cultiva o saber como forma de estar na vida e faz da poesia a sua um modo particular de afirmação.


Arménio Vieira é Cabo-Verdiano como todos os outros, cultiva o mesmo orgulho das suas raízes, contribuiu com a sua parte para a libertação, não apenas dos seus compatriotas, mas de todos nós, os amarrados por um regime político iníquo, retrógrado e autoritário, mas sente-se um cidadão do Mundo. Sendo um natural de Cabo Verde, a sua obra não se fica pelas ilhas e não pode, por isso, ser considerado um poeta-escritor regional.


Esta é, de resto, a sua característica mais forte. Arménio Vieira, sendo um homem de poucas viagens e de vivências restritas, tem produzido uma obra de cunho universal, revelando influências que vão muito para além das que, inevitavelmente, lhe são transmitidas pelas circunstâncias de vida.


Mas que fique claro para os que, de repente, tendo a obrigação de produzir notícia e comentar acontecimento tão importante, se confrontam com a sua própria ignorância: Arménio Vieira é o maior poeta Cabo-Verdino vivo, mas não é apenas isso. Ele é um poeta que pode e deve ser lido em todo o Mundo. A sua alma de poeta de todos fala.


Oxalá este prémio o tire da penumbra e revele a sua poesia na dimensão que ela merece.

Domingo, Abril 19, 2009

Retornados O Adeus a África




António Trabulo acaba de lançar um novo livro: "Retornados O Adeus a África", uma estória romanceada a partir de vidas vividas em vários tempos e latitudes por gente surpreendida pelas circunstâncias da História que, como um furacão, as sacudiram e fizeram perceber novas dimensões da condição humana.


A acção do romance situa-se em Angola e em Portugal e é construída à volta de dois irmãos gémeos, que, quando nasceram se viraram de costas, o que pareceu à mãe um sinal de mau agoiro.


Era justificada a preocupação, já que ao longo da vida sempre se encontraram em campos opostos, sobretudo no da política, onde um, o Gil, imbuído de ideais nacionalistas haveria de aderir a grupos que não aceitavam a independência de Angola, pelo que teve que assitir aos desmandos da UNITA e da FNLA.

Gil, tal como o José, cuja adesão ao MPLA também não lhe traria a compensação de ver satisfeitos os seus ideiais de igualdade e fraterinade, acabaram por se incoporar na mole imensa de retornados, muitos dos quais viram Portugal pela primeira vez.

Os dois irmãos também disputaram a mesma beldade do Lubango, Lua, cuja estória preenche vári0s tempos e espaços de outros personagens deste romance.

Entre este mundo de gente que se encontrou nas mais diversas circunstâncias, há um branco loiro que não consegue deixar de pensar no seu gado, na sua fazenda e não tem uma vida normal entre a sua gente, despojada, em Angola, dos seus bens e em em Portugal, dos seus hábitos, costumes e rotinas.
Muíla, assim é conhecido o Sidónio, é verdadeiro anti-herói de mais este romance bem conseguido de António Trabulo, apesar de a sua narrativa ficar um pouco distante do sofrimento indizível dos que, de repente, se viram num outro Mundo, muitas vezes escorraçados, vilipendiados.

Em "Retornados, O Adeus a África" não se descobre que a chamada integração eficaz dos regressados se tenha ficado a dever às suas qualidades e não a qualquer golpe de asa das autoridades portuguesas, muito mais interessadas noutras coisas.






Sábado, Abril 04, 2009

"Balada do Ultramar"

Manuel Acácio, um nome conhecido no jornalismo radiofónico de qualidade - que já vai rareando -acaba de publicar um livro com um título atrevido, "Balada do Ultramar". Este romance é uma narrativa corajosa, não da sua própria experiência, mas do entendimento que conseguiu perceber do sofrimento atroz que foi para centenas de milhares de portugueses (brancos e também muitos negros) o abandono das terras onde muitos deles já tinham nascido. Alguns foram atirados fora da terra dos seus avós.

Manuel Acácio revela ao longo das 221 páginas do seu "romance" um trabalho sério, honesto e difícil de investigação - que lhe permitiu descrever cenas reais, sobretudo de Angola e de Portugal. O resultado é uma conclusão que eu vejo pela primeira vez escrita, anda por cima em bom português: os portugueses foram expulsos por razões fundamentalmente racistas e recebidos naquela que teoricamente seria a sua terra por gente que os via como invasores do seu espaço pequenino, miserável, sem qualidade e sem perspectivas.

Neste livro de Acácio está escrito que também os políticos da época e os que se seguiram, voltaram as costas aos despojados de passado, de presente e sem futuro. Aqui está explicada a razão porque há muita gente a negar que a descolonização portuguesa tenha sido uma operação "exemplar e bem conseguida".

A integração mais ou menos pacífica que os chamados "retornados" conseguiram em terras portuguesas foi obra sua, da sua qualidade humana e também das perspectivas abertas de sociedades mais abertas, mais livres e mais solidárias. Portugal beneficiou imenso com esta injecção especial de gente de qualidade excepcional.

Ao contrário, os países entretanto nascidos desta "descolonização exemplar" sentiram claramente a sua falta. Tanto assim que, dos cinco, apenas o mais pobre (Cabo Verde) beneficiou, objectivamete, o seu povo com o acesso à Independência.

A "Balada do Ultramar", uma edição da "Oficina do Livro" retrata as gentes que fizeram parte do primeiro êxodo. Há, todavia, outros, mais silenciosos, mas igualmente importantes para Portugal e ainda mais devastadores para os países para quem os brancos passaram a ser inimigos.


Ao felicitar o Manuel Acácio pelo seu excelente texto, não posso deixar de apontar alguns livros que uma vez por outra aparecem por aí a explorar de forma miserável a saudade dos que ainda se lembram do que deixaram para trás, muitos deles baseados em fotografias dos pais, dos avós e dos amigos, explorando oportunisticamente redes de contactos como prateleiras de hipermercados.