quinta-feira, abril 27, 2006

Ki-Zerbo

Andei a espreitar alfarrabistas, para os lados do Camões, almocei junto ao rio, fiz uma sesta, comi uma laranja, e sentei-me a ler o recém-chegado "Para quando África?", um livro que, há 3 anos, quando saiu nas Editions de l'Aube, ganhou o prémio Témoin du Monde, da RFI. É um acontecimento que a Campo das Letras tenha garantido, agora, a edição portuguesa desta longa conversa de René Holenstein, um historiador do Burkina Faso, com o seu compatriota Joseph Ki-Zerbo, o grande Ki-Zerbo que dirigiu, para a Unesco, a História Geral de África e foi o primeiro africano a obter, na Sorbonne, o doutoramento em História.
Lembro-me de Maria de Lourdes Pintasilgo ( que saudades) me ter falado, algumas vezes, do grande historiador africano, seu amigo. Aí o tenho, em todo o esplendor de uma conversa que pede a sombra da árvore. Ki-Zerbo começa por discorrer sobre a unidade e o "esboroamento" de África, tão de mãos vazias na troca de mensagens culturais de que não deve abdicar quando estabelece trocas comerciais. "Enviamos para o Norte", diz ele, "objectos que não têm qualquer mensagem cultural a dar aos nossos parceiros. A troca cultural é muito mais desigual do que a troca dos bens materiais (...) Quando se utiliza estes bens, entra-se na cultura daquele que os produziu. Somos transformados pelo vestuário europeu que usamos, pelo cimento com o qual construimos as nossas casas, pelos computadores que recebemos. Tudo isso nos molda, enquanto nós enviamos para os países do Norte o algodão, o café e o cacau bruto que não contém valor acrescentado específico".
Sobre o facto de África ser o berço da humanidade: "Estou certo de que se Adão e Eva tivessem aparecido no Texas, ouviriamos falar disso todos os dias na CNN".
Vou-me sentar ali ao fundo da rua, na esplanada, enquanto o dia tem luz. A ver se dou um avanço no livro. Hei-de lembrar-me, por certo, algumas vezes, com ternura e saudade, de Maria de Lourdes Pintasilgo.

domingo, abril 23, 2006

A Coragem de Olhar de Frente

Na evocação da data que se aproxima preciso salientar, para quem me lê e não me conhece,que vivi intensamente o 25 de Abril, esperei por ele muito tempo e hoje, passados 32 anos sobre a data sinto-me enganado, traído, esmagado, porque a esperança já não tem sentido.
Ao olhar para o país que me cerca, sinto-me, de novo, na minha de condição de português, sem nenhuma razão para justificar o "raio" do orgulho que me prende a essa condição.
Pior ainda: os anos passaram e temo que o pior dessa condição me caia em cima quando já não tiver forças nem sequer para um olhar de raiva.
Transcrevo a seguir um texto de António José Saraiva (por favor não confundir com José António Saraiva, cuja última crónica que li no Expresso dizia que finalmente tinha chegado à conclusão de que "havia uma diferença entre os homens e as mulheres") - nunca mais comprei o tal jornal.
O texto que transcrevo é do autor da História da Literatura Portuguesa, escrita de parceria com Óscar Lopes e cujas 912 páginas serviram para me preparar para o meu exame do 7º ano dos Liceus.
Chegou-me via e-mail e eu não podia perder a oportunidade de o transcrever aqui, tanto mais que alguma da sua importância está ligada às relações de Portugal com África.:
O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA
Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no exército, não estava interessado um acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar. Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas dos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas.Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos.Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total.Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquios, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encubria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente.
António José Saraiva

segunda-feira, abril 17, 2006

Ainda não

Ainda não. Mas o tempo de Idriss escoa-se. Até porque Paris não pode estar com um pé dentro e a ELF fora. E, ainda que a Exxon e os malaios ditem as regras do jogo que conta, o braço de ferro com o Banco Mundial, por causa da aplicação das receitas do pipeline, deve ter-lhe ditado a sorte. Faltam menos de quinze dias para o homem esbarrar na impossibilidade física de se candidatar às eleições, não obstante ter alterado a Constituição para o efeito.

sábado, abril 15, 2006

Idriss pode ter já caído

As tropas francesas em Djamena mantêm o cordão, já reforçadas com 150 homens chegados de Libreville. Mas pode ser demasiado tarde para salvar o amigo Idriss. Nos círculos da oposição tchadiana cresce a convicção de que o ditador teria fugido para a Líbia. No terreno, os velhos tanques russos cedidos por Tripoli não conseguem travar o avanço das rápidas e artilhadissimas Totoya com que os rebeldes fazem o cerco às mais estratégicas guarnições governamentais. A cidade de Tissi parece ter caído. Desmorona-se o cenário de uma farsa: o homem que os sudaneses ajudaram a derrubar Hibre, é agora apeado por Cartum. A França não consegue repetir a acção da Licorne na Costa do Marfim, sem dar muito nas vistas. É melhor ir "picando" a BBC...

sexta-feira, abril 14, 2006

Carne para canhão

Idriss Deby tem muito que agradecer a Chirac, com quem falou várias vezes ao telefone nos últimos dias. Tudo indica que a dívida de gratidão do presidente tchadiano (que teve a guerrilha às portas do palácio) vai muito para lá das facilidades logísticas disponibilizadas pelos franceses, no transporte de soldados governamentais tchadianos para as zonas da fronteira com o Sudão.
A força militar francesa no Tchad foi,aliás, reforçada.
Idriss cortou relações com Cartum e tem uma carrada de razões para o fazer.
Mas fez mais do que isso: chantageou as Nações Unidas e a União Africana, ameaçando expulsar os 200 mil refugiados sudaneses do Darfur, dos campos tchadianos cuja situação justificoui, há poucos dias, palavras desesperadas de Guterres.Tal como os senhores de Cartum, o presidente tchadiano não é flor que se cheire. E os refugiados são, mais uma vez, a desprezível carne para canhão num conflito onde há demasiadas cortinas de fumo.

terça-feira, abril 11, 2006

Não É Que Ele Tem Razão ?

O Jornal de Angola de hoje, na sua coluna "Opinião", publica, com o título "As Feridas da Liberdade" uma prosa que reconheço. O texto não é assinado, não me compete, por isso, dizer o nome do autor. Este reconhecimento permite-me,todavia, esclarecer que o texto é oficial.
Por outro lado, não me custa aceitar que desta vez, apesar de certos exageros de algumas generalizações ele tem razão. A Imprensa portuguesa é, normalmente, relativamente aos PALOP paternalista, intrometida, arrogante, desinformada e desinformante.
Reproduzo aqui o tal texto:
A visita oficial do Primeiro-Ministro português a Angola foi um êxito a todos os níveis e marcou o início de uma nova era de relações entre o nosso país e Portugal. José Sócrates e a sua delegação trouxeram um abraço de solidariedade e de amizade do povo Português ao povo Angolano. O diálogo franco e aberto que se estabeleceu entre os mais altos dirigentes dos dois países ajudou a enterrar velhos fantasmas e estabeleceu-se um clima de confiança. Estão criadas todas as condições para aprofundarmos uma relação fraterna, própria de povos que têm uma vivência comum de séculos.Por isso, dificilmente se compreende que muitos órgãos de Informação portugueses tenham desencadeado um coro de insultos contra os mais altos dirigentes angolanos e toda a espécie de mentiras sobre o nosso regime e as nossas instituições. Os fantasmas do colonialismo explicam muito deste comportamento. O racismo, numa primeira linha, responde por esta campanha bi-zarra. Mas a ignorância também joga um papel importante neste autêntico festival de mentiras e calúnias. Muitos líderes de opinião portugueses que se têm destacado nesta campanha caluniosa contra Angola e os seus governantes desconhecem em absoluto o nosso país ou apenas têm conhecimento dele pelas informações que lhes são oferecidas por centrais de intoxicação.Entre eles estão antigos turistas da Jamba que faziam parte da lista de pagamentos de Jonas Savimbi. Nesse grupo de comerciantes da honra está o caricato Director do Jornal “Público” que sem nunca ter posto os pés no nosso país destila em forma de escrita canhestra opiniões fundadas na ignorância e na provocação. Pelos vistos, há escribas que têm sempre um dono pronto a pagar-lhes. Ontem era Savimbi, hoje sabe-se lá quem é. Mas publicar opiniões sobre algo que não se conhece, é de um atrevimento inaudito. Portugal merecia melhor que estes indigentes mentais que publicam desvairados recados a troco de uns tostões. Que lhes façam bom proveito.Qualquer mentecapto compreende que levantar um coro de insultos contra o Presidente da República de Angola, contra os nossos governantes e empresários, não é um acto amistoso. Nenhum jornalista angolano, nenhum comentador, nenhum líder de opinião lembrou à comitiva portuguesa que o direito ao emprego faz parte do elenco dos Direitos Humanos. Ninguém se lembrou de investigar os governantes portugueses por terem permitido que crianças à guarda do Estado Português tivessem sido abusadas sexualmente. Ninguém fez a lista dos corruptos que, segundo magistrados portugueses, crescem como cogumelos à sombra do aparelho de Estado e estão a exaurir a riqueza de Portugal. O que aconteceria em Portugal se o tivéssemos feito?Ainda temos bem presente as reacções dos órgãos de Informação portugueses quando um dirigente angolano opinou sobre membros da família Soares. Não trataram de saber se as declarações eram verdadeiras ou falsas. Foram logo catalogadas de insultos e geraram ondas de indignação. A libertação de Angola das garras do colonialismo doeu a muita gente em Portugal. Ainda dói. Mas esses saudosos do colonialismo, esses racistas dementes, têm de se habituar, de uma vez por todas, que os angolanos são senhores do seu destino. E os partidos políticos angolanos, as nossas instituições não precisam de vozes de burros para se fazerem ouvir. Em Angola existe liberdade de expressão, ninguém precisa de voz de donos que ninguém sabe donde lhes vem a legitimidade democrática. A nossa vem da luta, do combate heróico contra o colonialismo e o fascismo.A nossa liberdade foi construída nos campos de batalha. Para conquistá-la, ficamos cheios de feridas e muitas delas, ainda estão abertas. A visita do Primeiro Ministro português a Angola ajudou a curar algumas. Será por isso que choveram os insultos e as calúnias contra o Presidente da República de Angola e os nossos governantes? A amizade entre os nossos povos tem muitos inimigos!

domingo, abril 09, 2006

BRASSENS AINDA

Sim, claro, bem me lembro. Mas, vê lá tu, meu alucinado amigo, o «meu» Brassens era portuga, melhor dizendo: o ouvia por estas bandas quase europeias. O meu tempo de África foi curto, uma dúzia de anos. Estive entretido a aprender a viver e a curtir os filhos que foram chegando. Ainda hoje acredito que terá sido em Angola onde estivemos melhor, onde fomos menos diferentes, fosse qual fosse a música. Recordo-me de uma vez que passei por Joanesburgo ter passeado com um garoto, filho de um casal sul-africano amigo, e de ter pedido ao miudo que perguntasse ao polìcia uma direcção qualquer, onde eu queria ir. O chui ficou hirto (o garoto era louro e o polícia preto) e olhou para mim. «Sou de Angola», disse-lhe. Ao «oh!» de espanto seguiu-se um sorriso aberto e um braço a apontar a direcção. A mão passsou ao de leve pelos cabelos do garoto. Afinal não era só eu que tinha aquela mania...
E posso acrescentar, sobre Brassens, que detestava polícias, simplesmente por serem polícias e até cantou isso com alguma frequência. Mas um dia...
Há sempre um dia. Um acidente de viação e o cantor muito ferido, com aparente paragem cardíaca e um polícia que se debruça e lhe presta respiração boca a boca e, talvez com isso lhe tenha salvo a vida.
E um Brassens recuperado não tardou a cantar a reconciliação. Não, claro, que ele precisasse de ser um bom cristão. Bastava-lhe cantar como cantava!
Não. No dia 18 não vou estar em Paris. Vou lá estar no fim do mês, uma semanita. Não se pode ter tudo!
É bom quando alguém fica na memória e é bom ter memória de gente como ele ou como Brel ou Otis Readding... E és capaz, Fernando, de me desculpar se eu incluir o Alfredo Marceneiro?
Tem piada que nunca falamos disto entre nós. Foi-nos bastando uma que outra das várias pequenas que foram tema. É verdade que nenhuma dessas cantava. Pois não, mas encantavam...
PS.
Desencantado fiquei eu quando a minha mais que tudo, que fala o francês bem melhor que eu, que nasceu e viveu em França, me advertiu que Brassens não teve acidente de viação. Teve acidente no palco, quando actuava, o que tornou o incidente ainda mais dramático....
o que me torna mais culpado pela negligência. No fim de contas sou (fui) jornalista português e o que é preciso é puxar pela notícia e ficar sujeito aos solavancos. Que me desculpem os puristas
E que me perdoem os que, como eu, creem que a memória não se perde. Pois não, altera-se. Fecunda-nos (no mau sentido)...

sábado, abril 08, 2006

Brassens, Numpuby,"Couleurs d'Afrique"

Gosto muito de Brassens, do desejo de mundo do menino que cresceu olhando o Mediterrâneo, da sua veia libertária e do desmedido amor pelas palavras, da onda jazzística que corre as suas canções. No leitor de cd's do carro, rodam, regularmente, "Les amoureux des blancs publics", "Brave Margot", "La Mauvaise Reputation", que provocam em mim, ainda hoje, o mesmo estremecimento de quando as passava, como quem partilha um segredo, nas emissões de há 35 anos, no Rádio Clube de Benguela.
Esta tarde, ao ler diagonalmente o sitio Africultures, encontrei o anúncio de um espectáculo marcado para 3ª feira, dia 18, no Theatre des Blancs Manteaux, em Paris ( meu caro António, se lá estiveres, vai por nós e conta-nos...): "Brassens en Afrique". São canções de Brassens adaptadas pelo cantor e guitarrista camaronês Kristo Numpuby, um dos mais importantes divulgadores da música assiko, a música tradicional da etnia bassa. O Africultures sublinha o swing que havia, que há, nas cançóes de Brassens, um swing "despojado", mas contagiante. Por isso, os africanos "não poderiam escapar-lhe". Africultures recorda o quanto Brassens foi apreciado nos anos 70 na África sub-sahariana e o modo como Numpuby e os seus músicos o perpetuam nas noites quentes das caves da África negra.
Numpuby é um músico camaronês da diáspora que quis estar presente, este sábado, em St. Hilaire de La Côte, em Isére, a 40 kms de Grenoble, no festival "Couleurs d'Afrique". St. Hilaireé uma aldeia de pouco mais de mil habitantes, com forte actividade rural e um gosto antigo pelo associativismo, que mantém vivo, desde 1989, o chamado Comité de Trocas: é uma espécie de geminação informal, nascida da criatividade da comunidade e orientada para uma causa humanitária. O outro pólo do Comité é a aldeia burkinabé de Orodara, a 435 kms de Ouagadougou, já perto da fronteira com o Mali, 16 mil habitantes (dos quais, mais de metade com menos de 20 anos), em terras de fraco valor agrícola. O festival (um encontro de danças, música, contos, comidas e bebidas de Africa) é uma das iniciativas do Comité de Trocas Orodara/St.Hilaire, uma das bandeiras de uma ideia maior que fez nascer em Orodar uma biblioteca, infantários e mecanismos de ajuda ao acesso de crianças á educação. Cada 16 euros recolhidos hoje em St. Hilaire permitem garantir um ano de escolaridade a uma criança. Cada 40, um ano de infantário. E há o resto. Por exemplo, a recuperação de moinhos para o fabrico artesanal de pão em Orodara.
Brassens, que fez uma tournée pela África do Norte, nos anos 50, haveria de gostar de escutar este Kristo Numpuby, as suas canções jazzísticas passadas no moinho do assiko, puxando para a escola os meninos de Orodara. As últimas canções que ele gravou, já muito doente, foram a favor de uma Associação que o Lino Ventura criou para apoiar crianças desvalidas.

quinta-feira, abril 06, 2006

Sócrates em Angola

Há alguns temas para os quais "já não estou". Um deles é o da cooperação entre Portugal e os chamados "PALOP". Todavia, há dias em que, ouvindo os políticos da praça encartados de comentadores, acho que devo voltar à liça.

A viagem de Sócrates a Angola foi, para a imprensa portuguesa, não um "sucesso" - porque é palavra que os jornalistas de hoje não sabem contextualizar - mas uma "operação" bem montada, uma espécie de campanha eleitoral com um único resultado garantido - a vitória.

É engraçado!

Lendo a comunicação social angolana - aquela que pode ser lida - ficamos com a sensação de que esta foi mais uma viagem de um primeiro-ministro português que vai a Angola procurar estatura, credibilidade e - mais uma vez - defender a tese da inevitabilidade das boas relações entre os dois Estados e os dois povos.

O que os políticos de um lado e doutro dizem pode não ser mentira no campo das intenções, mas no domínio das realizações é uma miragem.

Primeiro, em Angola existe um Estado mas vários povos. O slogan "Um Só Povo, Uma Só Nação"não passa disso mesmo, de um slogan. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos anos, quando os povos que não têm acesso à Escola, à Cultura e ao consumo como as gentes de Luanda, perceberem que nem número fazem.

Depois, os portugueses que debitam hoje todos esses desejos, aparentemente legítimos porque fundamentados num legado histórico importante, desconhecem: a colonização portuguesa não foi desenvolvida de acordo com um plano de estado. Foram outros portugueses, com o seu espírito individualista e aventureiro que foram fazendo roças e mulatos, abrindo caminhos e construindo pequenos comércios e escolas. E Igrejas.

O Estado apareceu sempre na figura do chefe de posto que tanto levava o "índigena" para o contrato como chantageava o pequeno comerciante ou o pequeno fazendeiro.

A cooperação organizada estado-a-estado nunca resultará, sobretudo em Angola. Os não sei quantos empresários que foram a Luanda, foram, na grande maioria, passear. Alguns deles, os mais jovens, aproveitaram e mandaram as amantes noutro avião. Os mais velhos aproveitaram para ir ao Mussulo ver as mulatas. Os negócios, esses ficam para conversas reservadas, longe de Luanda e de Lisboa e nunca tratam do importante: um novo envolvimento entre as populações dos dois países, sem constrangimentos.

A ideia de enviar 200 professores portugueses para Angola até parece generosa mas vai revelar-se mais um desastre, um rotundo fracaso. Dir-vos-ia porquê, mas o MNE não me paga a consultoria e, como disse no princípio, há certos temas de que estou cansado.

segunda-feira, abril 03, 2006

U.A., aiué!

A amargura dos dias é semelhante para os tchadianos da zona de fronteira e os"zurgas" do Darfur, marcados para o extermínio, para o primeiro genocídio do século XXI. Estava aqui a reler notas antigas e encontrei um relato de um enviado do "Independent" ao Darfur: úm dia, conta ele, as milícias "entraram num campo de refugiado defendido por um contingente da U.A.. 37 pessoas foram massacradas e nem um tiro foi disparado contra as milícias". O repórter chamou a este lugar "a mini-Srbenica de Darfur".
A amargura dos dois lados da linha que nem une nem divide é tão semelhante que todos devem acolher, sem reservas, um velho provérbio sudanês: "Nunca beijes quem seja capaz de te devorar"