sexta-feira, setembro 02, 2005

O "Velha" e o Irmão Celso

Devo começar este post com duas alegrias: descobri, entretanto, um comentário da Rita a dizer que é a fã nº1 deste blogue. É uma grande alegria. Mas eu conheço a Rita e, embora não a consiga imaginar a escrever coisas só para ser simpática, é a Rita . E fico à espera de mais comentários dela

No post anterior, em que falo do saudosismo e da saudade, aparece um comentário de um Jb que não conheço e me dá a sensação de ter descoberto no direito ao passado, tal como eu, um direito fundamental.

Vamos então a ele: o nosso passado risonho, triste, mas que foi vivido por nós, que faz parte de nós mesmos e não é, de certeza, crime ou pecado.

Não posso garantir a estas estórias uma organização cronológica. Um dias destes vou voltar a Nova Lisboa, vestida de pó, calçada de poeira, sem luz eléctrica - era o CFB que alimentava a cidade.

Hoje - porque tenho o Raúl Durão à minha frente - lembrei-me de uma história bem castiça do Internato dos Maristas do Lubango ( ex- Sá da Bandeira- toda a gente lhe chamava Lubango, apesar do nome ilustre do patrono). É que o Raúl foi marista e meu colega de turma - dá outras estórias.

O Internato servia de apoio, fundamentalmente, ao Liceu Diogo Cão. O Pessoal vinha de todo o lado, do Lobito, de Benguela, de Moçâmedes, de Quilengues, de Caluquembe, de Nova Lisboa, eu sei lá... de tudo quanto era canto. Os do Norte iam para Luanda.

A garotada, que frequentava desde o primeiro ao sétimo ano do Liceu, habitava no Internato dos Maristas. Que tinham pedido ao governo de Salazar autorização para um Colégio inteiro, isto é, com internato, aulas e tudo. Autorização negada.

Os Maristas tinham em Silva Porto, Bié, actual Cuito ( um nome sem justificação aparente) um colégio, onde tinha sido aluno Jonas Malheiro (Savimbi). Savimbi tinha tido um professor especial: o Irmão Celso, que, entretanto, foi colocado no Lubango.

O Internato estava dividido - no que aos alunos dizia respeito - em "menores, médios e maiores", sendo que os médios, porque correspondiam à idade mais difícil (adolescentes puros e duros) estavam entregues à vigilância do Irmão Celso, um cultor da disciplina.

Castigava com dureza e usava um chicote de arame em determinadas ocasiões.

Num ano determinado, os maristas tinham como hóspede um miúdo "danado", indisciplinado a sério: chamava-se Américo e muitos anos depois fez ( e faz) carreira como economista "danado" de competente, mas, um dia, repetidamente, infringiu as regras do internato( tenho algumas, posso vir a contá-las).

O Irmão Celso resolveu que estava na hora de castigar o "velha", nome pelo qual era conhecido em todo o Liceu Diogo Cão, e chamou-o ao segundo andar, à sala do castigo. Era brasileiro (acho que ainda é, porque há pouco tempome deram notícia de uma visita que terá feito a Lisboa) e no seu português carregado de erres e esses enumerou as falhas do "velha". A seguir puxou do chicote feito de fios eléctricos, que tinha atrás das costas.

A resposta do "Velha", do Américo, foi imediata, puxou de um chicote de arame, que tinha, igualmente, atrás das costas.

Ao pânico do Irmão Celso respondeu o Amércio Vieira com um salto para a janela e uma fuga, servindo-se do cabo do pára-raios.

Estava tudo planeado e o Irmão Celso viu-se aflito para reconstruir a sua autoridade. Quanto ao Velha foi para casa de família e acabou o Liceu com excelentes notas.

Não gostei muito das opções políticas dele, mas, enfim, hoje recordo-o como uma espécide de D'Artaghan, capaz de lutar por causas perdidas. A última vez que o vi pareceu-me enorme, mas recordo a ternura com que me abraçou. Tínhamos saudades um do outro e de nós mesmos. Mas, nesse encontro divertimo-nos. Isso eu asseguro.

8 comentários:

Rita disse...

Nunca comentaria nada apenas para ser simpática... aliás, em três blogues da sua autoria, esta será a segunda ou terceira vez que o faço!
Gosto realmente destas histórias, divirto-me a lê-las e especialmente a imaginá-las. No fundo, também eu sou uma verdadeira saudosista : )
Por fim, fica uma pergunta: chegou a levar com o chicote? : )

Anónimo disse...

O nome "Cuito" vem do rio com o mesmo nome que passa a cerca de 1km da cidade.

Anónimo disse...

O irmão Celso, segundo me disseram, está em Ermesinde a tratar de uns "delinquentes a sério". Um dia deixo-lhe lá roupa para os miúdos e dou-lhe um abraço.

Anónimo disse...

Confirmo. O irmão Celso está no Lar Marista em Ermesinde. Já o visitei várias vezes.
Continua a mesma personalidade, nos seus oitenta e ... anos.
Fui aluno dele nos maristas de 71 a 75.
Abraços maristas

Anónimo disse...

Confirmo. O irmão Celso está no Lar Marista em Ermesinde. Já o visitei várias vezes.
Continua a mesma personalidade, nos seus oitenta e ... anos.
Fui aluno dele nos maristas de 71 a 75.
Abraços maristas

Anónimo disse...

Confirmo. O irmão Celso está no Lar Marista em Ermesinde. Já o visitei várias vezes.
Continua a mesma personalidade, nos seus oitenta e ... anos.
Fui aluno dele nos maristas de 71 a 75.
Abraços maristas

Anónimo disse...

Confirmo. O irmão Celso está no Lar Marista em Ermesinde. Já o visitei várias vezes.
Continua a mesma personalidade, nos seus oitenta e ... anos.
Fui aluno dele nos maristas de 71 a 75.
Abraços maristas

Francisco Pinto disse...

Boas Anónimo, gostaria imenso que entrasse em contacto comigo para poder falar consigo a cerca do irmão Celso e sobre tudo o que passou nos maristas pois o meu pai foi aluno dele nesses anos e queria imenso fazer reviver todos estes momentos ao meu pai pois ele ADOROU passar lá aqueles tempos e fala-me de histórias com um brilho nos olhos que me dá este incentivo de o fazer reviver tudo isto.
francdcpinto37@gmail.com Entre em contacto comigo Por favor, iria ajudar imenso :)
Cumprimentos