segunda-feira, julho 31, 2006

Vadu, a voz golpeada

É como se uma nuvem aziaga pairasse sobre a chamada "Geração Pantera" de que, tal como Tcheka, ou Lura, Vadu faz parte. Orlando Pantera, um dos grandes nomes da música cabo-verdiana, teve um fim trágico em 2001. A morte levou-o no dia em que ia viajar para Lisboa, onde tinha estúdios marcados para a gravação do primeiro disco. Apesar do desaparecimento precoce, Pantera é uma espécie de figura tutelar da nova música das ilhas. Ainda há poucos dias encontrei, e guardei junto aos outros Favoritos, um site que acaba de surgir em sua homenagem em www.opantera.com . É um lugar de aconchego.
Agora, vadiando pela net, quando me preparava para apagar a luz, li na edição on line de "A Semana" que o cantor Vadu se encontra hospitalizado em estado grave depois de ter sido esfaqueado este fim de semana no Tarrafal, onde participava num festival de música. Vadu não é, fora de Cabo Verde, tão conhecido como Tcheka ou Lura. Mas é um dos mais promissores "discípulos" de Pantera e esta notícia, nos seus dois parágrafos, puxa a nuvem da tragédia para o coração da noite. A notícia conta que desconhecidos se aproximaram do cantor e o esfaquearam.
Um golpe fundo na garganta. Vadu permanece em estado grave. A voz golpeada ainda antes lhe terem aberto um site na net.

domingo, julho 30, 2006

A Democracia em África

Um dos mais importantes países africanos, porque dos mais ricos, porque dos de maior miséria, na saúde, na educação, na habitação, porque um dos que de forma mais consistente alimentou a corrupção de todo o Mundo, vai hoje a votos. A República Democrática do Congo, ex- Congo Kinshaza, ex- Congo Belga, um território, considerado, pelo Pentágono, há mais de 50 anos, como indispensável para a expansão da indústria norte-americana, na sua vertente mais inovadora, pela variedade de metais existentes no seu sub-solo, vai, depois do assassínio de Lumumba,do golpe contra Kasavuvu, pela primeira vez, tentar a via democrática para definir o poder.
Imaginemos que a tentativa resulta e que este país, potencialmente, o mais rico do Mundo, consegue organizar-se de uma forma democrática, dando capacidade de representação às maiorias e também às minorias...Imaginemos que consegue uma forma democrática de orga nizar a economia de, com o tempo, deixar que as várias culturas existentes naquele territótio imenso tenham capacidade de se manifestar...Imaginemos que, depois de eleições justas, o novo poder delas saído, resolve assumir na região em que se inscreve o papel que, teoricamente, lhe cabe, promovendo um diálogo inter-africano na busca das melhores soluções para o Continente.
Não acham que já estamos a imaginar demais?
Isso não nos impede, todavia, de desejar. Desejemos, então!!!

Bakobo!

Quando hoje votou, na mesa 1019/L, no Instituto La Gombe, perto da residência oficial, em Kinshasa, Joseph Kabila não se conteve no contentamento desmedido. E disse: "Hoje é o dia mais feliz da minha vida". E "disse:"Sou o homem mais feliz do mundo". E os jornalistas anotaram, entretanto, outras frases escorrendo alegria esfusiante. Em redor, os apoiantes batiam palmas e gritavam "bakobo!, bakobo!", que é um sinal de aplauso e agradecimento.
Nos últimos dias, tudo parece correr bem, demasiado bem, no país onde, há anos, tudo corria demasiado mal. Kabila tem, aos 36 anos, a atenção do mundo sobre os seus ombros, não apenas por ser o favorito nas eleições mas porque a via democrática parece vingar na, até agora, apenas designada República Democrática do Congo trazendo consigo a paz, ainda que precária.
Kabila é tido como um político frio, e há muitas zonas de sombra na sua ainda curta biografia.
Mas esta euforia é saudável e merece ser saudada. É que Kabila, o Presidente da República Democrática do Congo, manifesta tamanha exuberância devido ao facto de ter votado pela primeira vez.
Possa esta euforia ser contagiante, numa África onde a via democrática tem o sinal fechado ou faz o seu curso de modo titubeante. Quantos presidentes africanos imaginamos à boca das urnas dizendo, com tamanha euforia ... "sou o homem mais feliz do mundo"?

segunda-feira, julho 17, 2006

Os Dez Anos da CPLP

Corria o ano de 1975, a Assembleia Geral da então OUA estava reunida em Kampala, capital do Uganda e, já, com a sala cheia, à espera do presidente em exercício, Idi Amin Dada, eis que este entra numa espécie de trono transportado por quatro homens brancos de grande estatura.

Idi Amin dizia, gargalhando e utilizando um vozeirão incrível: " este é o peso do homem branco".

Terá sido a última reunião da OUA sem agenda, sem objectivos, sem ordem, já que, a partir dessa altura, um novo grupo de países, os de Língua Oficial Portuguesa, passaram a controlar as agendas, os bastidores e , juntamente com outros estados mais organizados, tentaram dar um novo sentido áquela organização continental.

"Os Cinco", como ficaram conhecidos, com o decorrer dos anos, dignificaram em certas circunstâncias, a OUA e a sua coesão era tão forte que cedo foram tentanto institucionalizarem-se a si próprios como um grupo capaz de fazer pressão para que África deixasse de ser o pasto que era.

Criou-se o Grupo dos Cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) - o que, logo de seguida, levou a tentativas várias de interferência, nomeadamente de Portugal, com Mário Soares como primeiro-ministro e Jaime Gama como ministro dos negócios estrangeiros.

A célebre proposta do "Diálogo Continental", que Jaime Gama foi propor a Aristides Pereira, então Presidente da República de Cabo Verde.

A resposta não foi simpática a e as tentativas portuguesas pararam até que apareceu o Brasil na jogada, com José Aparecido a propor uma organização que agrupasse todos os países de Língua Oficial Portuguesa - uma coisa que se chama CPLP e está a fazer dez anos de existência. Ninguém consegue descobrir o que foi feito em seu nome, além de algumas festas de comemoração

A notícia de hoje, todavia, dizia que os tais dez anos seriam assinalados com a assinatura de uma série de acordos e protocolos. Na reunião final, em Bissau, não estariam presentes os Presidentes do Brasil, Lula da Silva, e de S. Tomé e Princípe, Frederique de Menezes.

Mas, enfim, já passaram dez anos. Os Cinco deixaram de existir, a OUA foi substituída por uma UA, cuja existência ninguém nota e estamos todos contentes. Pelo menos já não existe o Idi Amin Dada.

Harrar Jugol

O Comité do Património Mundial da Unesco esteve reunido, até ontem, em Vilnius, para compôr a lista dos sítios classificados. E pôs cinco flores africanas na lapela. É quase uma estragação, com tanta seca no jardim, mas há "equilibrios" necessários e a lapela é larga.
O que, agora, deu notícia, e esse era o objectivo, foi o facto de, pela primeira vez na história da UNESCO, ter sido inscrito no "quadro de honra" um número igual de sítios africanos e europeus, cinco para cada lado.
Entre os meus amigos andarilhos, só conheço um que possa ter estado, sem o olhar contaminado do turista, em algum dos sítios agora postos na montra do mundo: Carlos Narciso. Se os olhos dele pousarem nesta prosa, talvez se apiedem do pedido implícito. Contas-nos - no teu blog, a que sempre chamarei "Blogda-se", por coisas cá minhas - o que, no teu caderno de viagem, houver sobre Aapravasi Ghat, nas Maurícias? Ou sobre os círculos megalíticos da Gâmbia e do Senegal (a Unesco fala em Senegâmbia, o que tem muito que se lhe diga...)? Ou sobre os sítios de arte rupestre de Chongoni, no Malawi, e Kondoa, na Tanzânia? Ou sobre a cidade fortificada de Harrar Jugol, na Etiópia?
O gesto sem precedentes da Unesco põe África na tituleira ( se bem que a Espanha, sózinha, tenha mais lugares classificados do que toda a África, ao longo destes 34 anos). E traz-me ressonâncias destes lugares do mapa, como Harrar Jugol, onde sempre imagino um Marco Polo levantando poeira. Jugol quer dizer "muralha", a muralha de Harrar, a cidade-fortaleza das 82 mesquitas, no alto da montanha, a mais de 1800 metros de altura. Cidade sagrada do islão, foi durante séculos o lugar central da cultura e da religião islâmicas no Corno de África. Foi independente até ao domínio egípcio, já no século 19. E pouco depois, caiu na alçada do império cristão etíope, e de novo tocada pelo bafo do profeta.
Os meus mapas não dizem se foi neste lugar que, há três meses, a seca prolongada dizimou 95 por cento dos rebanhos. Mas dizem que a canção da guerra anda por perto. E que Harrar Jugol, ainda que abençoada pela Unesco, não será tão cedo a Marvão da Abissínia.

segunda-feira, julho 10, 2006

CPLP da bola

Quando o Mundial estava a dar as últimas ( a expresão é muito adequada, dada a astenia do futebol praticado), lembro-me de ter lido, já não sei onde, nem a que propósito, que o sr. Blair, talvez tomado pela nostalgia do império, dera o seu "apoio" à ideia de uma "selecção britânica". Num mundo marcado pelo mercado, uma selecção "britânica" seria uma espécie de opa da anglofilia para fazer render o peixe á margem da Fifa, presumo. Confesso que não aprofundei o sentido da declaração de Blair, nem cuidei de saber de onde vinha e que alcance e propósito tinha a proposta de uma selecção que traduzisse para os relvados a noção estratégica de potência regional. Mas logo me ocorreu que (nós, os brasileiros tão tristonhos depois do fracasso na Alemanha, os promissores angolanos, os patrícios de Eusébio e os de Xanana, que prefiro lembrar como guarda-redes da Académica do que como ponta de lança timorense da Austrália; enfim, dispenso a rapaziada observadora da Guiné Equatorial) podiamos surpreender o mundo com a selecção da CPLP. Vendo bem talvez fosse a única plataforma de eficácia capaz de vingar em torno da sigla, e Laurentino Dias e António Braga tinham com que se ocupar. A operacionalidade logistica está garantida: em caso de eventual final de competição em Bissau, Nino telefonaria ao amigo Kadafi a pedir limusinas para o transporte dos vips. Em Dili, Camberra desenrascaria. E talvez o Blatter passasse a olhar para nós com outro respeito. E até mesmo o Bush que, como já se percebeu, não é bom da bola.

domingo, julho 02, 2006

Cinema de Viva Voz

A propósito das grandes dificuldades que a educação enfrenta um pouco por todo o Mundo, um dia destes, em conversa com um amigo, lembrei-me de uma prática do Colégio Alexandre Herculano do Huambo (Nova Lisboa) de há muitos anos - ainda as respectivas instalações eram na cidade baixa.
O Colégio era dirigido pelos padres espiritanos e a disciplina era uma das suas preocupações, embora, tanto quanto me recordo, se respirasse um clima descontraído. Todavia, regras eram regras e, por exemplo, só os mais velhos podiam sair uma vez por semana do internato para ir ao cinema. Os mais pequenos, só às matinés de domingo, para o que necessitavam de uma autorização dos pais.
Mas os filmes que excitavam as imaginações dos adolescentes e pré-adolescentes passavam à noite.
Ora, normalmente, os mais velhos não tinham dinheiro, as mesadas que as famílias mandavam desapareciam rápidamente, mas os mais novos tinham mesmo alguma dificuldade para gastar o que lhes chegava de casa, pelo que alguém - nunca se saberá quem - inventou um verdadeiro bom negócio, já que servia ambas as partes; os mais novos emprestavam aos mais velhos o dinheiro necessário para que eles fossem ver os tais filmes. No dia seguinte, como contra-partida do empréstimo, os devedores contavam aos credores o filme - o que acontecia durante os intervalos das aulas.
Era um espectáculo presenciar as voltas que dois a dois (um mais velho e um mais novo) davam ao campo de futebol do Colégio. Alguns mais exuberantes, paravam, de vez em quando, imitavam os gestos do que se supunham ser os personagens dos filmes. Estes passeios duravam, às vezes, todos os intervalos dos trabalhos escolares e em alguns casos, prolongavam-se durante as horas dedicadas ao desporto.
Houve um dos mais velhos - e também mais esperto - que tentou modificar o negócio inicial: um dos que fosse ao cinema contava aos "miúdos", em conjunto, a estória do filme.
Não!!! disseram os mais novos. Exigiam uma narrativa personalizada: a quem emprestassem o dinheiro tinha a obrigação de contar o filme. E alguns deles não emprestavam a todos; escolhiam aquele com mais imaginação para a reprodução da estória.
Olhando para trás, não podemos deixar de constatar que o Mundo, sendo mais simples, era também mais feliz. Os problemas da educação ainda se resolviam dentro das escolas e , às vezes, de forma imaginativa, sem necessidade de grandes tecnologias, que fomentam a solidão, as depressões, a competição desenfreada.
Naquele ambiente, que hoje não conseguimos classificar, mas que é motivo de saudade para quem o viveu, cresceu gente de que muito nos orgulhamos hoje. Por exemplo, o António Segadães, fez parte destes grupos (não sei se emprestava ou recebia), mas não deixa de ser, hoje , uma das figuras que mais orgulha uma geração de estudantes de papel, sebenta e grande espírito de solidariedade. Muitos outros andam por aí, mas, hoje lembrei-me deste, do engenheiro português mais laureado de todos os tempos.