quarta-feira, novembro 30, 2005

UM TOQUE DE HUMILDADE

Acho que meti água, quando me intrometi no texto do Leston, a propósito do «directo» de Paulo Cardoso. O erro começou quando, para situar a acção, sublinhei que o Paulo já não estava em Luanda. De facto quem não estava em Luanda era eu e daí a confusão. Ainda não tinha chegado. Quando cheguei o Paulo já não estava, de facto. Tenho que apresentar desculpas pelo lapso a quem leu e a Leston Bandeira, bem entendido.
Quem não estava em Luanda, também, era Tavares da Silva. Estava, vê bem Leston, como são
as coisas!, para Sá da Bandeira, a cuidar dos pulmões. Soube das picardias do sobrinho de outro Tavares da Silva, fabuloso jornalista desportivo, cuja caneta dançava ao «som» dos cinco violinos sportinguistas, no falecido «Diário de Lisboa», com Robi Amorim, colega de profissão.
Recuperada a saúde, Tavares da Silva volveu a Luanda e instalou-se na Rádio oficial, com um programa nocturno bem conseguido, que repartia com uma beldade luandina, irmã da namorada. Era, de resto, quase uma praxe, dizia-se em Luanda, que não havia jornalista, oriundo da metrópole que não tivesse ficado hospedado na pensão Sirius, trabalhado no «Comércio» e dormido com uma das Mascarenhas. Exageros, já se vê! Mas, no caso de «O Comércio» era bem verdade.

Já o Robi estava no «Abc», o vespertino da esquerda possível. Os restantes eram nacionalistas, digamos assim, mas interventivos. O Acácio Barradas, inesperado cultor de Agostinho Neto,
mudava-se, então, para o Notícia. Como não havia televisão em Angola, e essa Angola começava a trepidar, jornais e jornalistas, eles próprios eram uma animação a mais, tema de muito mexerico.

No «Comércio» não tinhamos telex, nem recebíamos serviço das agência. Ao lado, o outro vespertino «Província de Angola» recebia o serviço da «Reuter» via África do Sul, logo já
extirpado de inconveniências censuráveis. Tinhamos, isso sim, que improvisar. Com a «escuta»
Gravavam-se noticiários da BBC e de outros estações, na Onda Curta. E cozinhava-se. Hoje, em dia, a papa aparece feita, basta pôr umas vírgulas. Por essa altura, eu patinhava pelas ruas à procura de «fait-divers». À noite fazia a ronda da polícia, bombeiros e hospital. E à tarde não perdia o tribunal de Polícia. A minha secção enchia e eu impava de orgulho. O jornal do lado
teve de admitir um candidato para a secção. A página da «cidade» ganhou projecção. Uma noite
esbarrei, no hospital, com a informação de que um «jornalista» tinha sido internado. Cheio de curiosidade li a nota da ocorrência: «quando andava na venda o...» O pobre ardina fora atropelado, e com gravidade. Mas, outra noite aconteceu...

O Acácio Barradas estava internado e com alguma gravidade. O carro tinha caído à baía, vindo da Ilha. Uma senhora também estava internada, mas alguém tinha tirado a folha, do maço das ocorrências. Já tinha alguns conhecimentos no «Maria Pia» e soube o nome, que nada me dizia, mas tinha notícia. E à saída, um tipo emproado chamou-se e disse: «Nada de notícia. Isto não é para publicar». Disse-lhe que tinha pena, mas não era a mim que ele se devia dirigir.

Quando cheguei à Redacção, e entretanto tinha recolhido mais informação e sabia que a internada era uma conhecida poetisa local e a causa, além de algum alcool, do acidente, o chefão foi-me dizendo «Já sabemos. Não percas tempo. Não vamos dar a notícia. O Charula telefonou. Não vamos entalar um colega». Barafustei e disse-lhe que eles nos iam lixar e dar a notícia. O Araújo não quis acreditar.Explicou-me que o Charula era uma referência e que trabalhou naquele jornal e que era amigo de todos e nós não o íamos deixar mal. E eu teimei: «Olá se vai. Espere-lhe pela pancada».

O Notícia fez reportagem com o caso e carregou nas tintas, com nomes e fotos. Charula de Azevedo era bom jornalistas e não perderia uma oportunidade daquelas. Ao Araújo deve-lhe ter custado, mas pediu desculpa e no fim do mês vi o salário aumentado.

Mas o meu primeiro grande sucesso chegaria pouco depois e ajudou-me a perceber porque é que tanta gente boa tinha entrado por aquele jornal e saia sem demora. Estava de folga e fui ao cinema. Passei pelo jornal, por vício e pediram-me, como passava pelo Hospital, se podia espreitar e telefonar se houvesse alguma novidade. A novidade é que não havia papeis na secretária, à entrada do Banco do Hospital. Estava, não um, mas dois, polícias na sala. Nada. Não há nada, tem de sair, disse-me um deles, acrescentando que queriam a sala livre. Saí, dei a volta e, por dentro, cheguei ao corredor do Banco e, por sorte, surpreendi um médico ao telefone a dizer que já tinham mandado duas ambulâncis, três médicos e não sei quantos enfermeiros.
Quando perguntei para onde?«Homem, para o hospital, claro...oh, que é que está aqui a fazer?»-
Saí antes que ele chamasse os guardas e deparei com uma ambulância prestes a sair e perguntei
ao enfermeiro se ia para o«hospital» e se me podia levar, que estava com pressa Ele disse-me «suba rápido» e lá fui. Era o segundo hospital da cidade e mais vocacionado para os musseques.
Tinha sido um caso aparente de intoxicação e estava cheio de crianças de um asilo. Foi uma noite terrível. Não paravam de chegar veículos com garotos. Vi vários inspectores e agentes da judiciária a interpelar gente do asilo, gente da Pide, ainda era Pide a fazer o mesmo e a tentar saber dos médicos pormenores que identificassem a causa. Não havia polícia a isolar o hospital. Fui atrás de um grupo de pessoal do hospital que carregava uns cobertores enrolados e fui atrás. Ia para a morgue. Despejou cinco corpos sobre outros que lá estavam já. Contei, nessa altura 17 cadáveres de crianças. E fui telefonar para o jornal. Voltei a telefonar pouco depois para dar conta que o governador tinha acabado de chegar e talvez fosse conveniente o director dar um salto e pedi que mandassem também um fotógrafo. Que não, que não valia a pena. Já não havia tempo para mandar fazer as gravuras (coisas desse tempo).
Às três da manhã já havia mais mortes. Do Jornal disseram-me que não telefonasse mais, acabavam de fechar a edição.

Vi uma enfermeira à cabeceira de uma cama, sentada. Era mãe da menina deitada. Tentei
animá-la.

Finalmente, às cinco e tal da manhà a causa estava encontrada. Um produto tóxico comprado numa drogaria para lavagem do cabelo. O droguista e o empregado, angolano, da cor dos angolanos, que querem, não gosto de dizer pretos, estavam detidos. Mas fora lapso do pobre empregado, que nem sabia ler. O patrão tinha-lhe dito vai lá atrás e tira do saco que está, nem sei onde ele disse, mas o rapaz enganou-se. Já estava de saída e passei pela enfermaria. As lágrimas caiam-lhe. A menina acabava de falecer. Foi a última...

O «Comércio» era o único matutino a dar a notícia. Na última página, a duas colunas "Grave caso de intoxicação", sem referência na primeira página. Fora a decisão de Ferreira da Costa. Finalmente eu tinha uma boa razão para não gostar dele.

segunda-feira, novembro 28, 2005

DOS QUE LÁ FORAM E NÃO REZA A HISTÓRIA...

Suponho que a memória de Leston Bandeira é como a minha, tilinta de campaínhas e como a ternura amolece até a carapaça do Fernando Alves tivemos uma evocação cor de rosa de Paulo Cardoso, inegavelmente um vulto notável da Rádio, um radialista (suponho que nem se dizia assim) exímio, até a sacar papeletas! Em Angola pairou por cima de todos nós, não tanto pelo que dizia ou como dizia, mas sobretudo como criava e, sobretudo, como se desenrascava, como improvisava, como resolvia o que parecia irresolúvel.
O homem da Rádio era mais brilhante e criativo que o cidadão. Sem o microfone, Paulo era um
peixe fora de água. Fora do estúdio perdia a cabeça e só arranjava complicações. O «directo» que o Leston contou foi uma beleza. A gravação foi feita para o Huambo (ou seria Sá da Bandeira?), não me lembro bem, mas não para Luanda, ele já lá não estava. Foi saltitando por mór dos seus pecados. De repente voltou a Luanda. Não vencido da vida, mas no melhor do seu espírito criativo. Vinha para criar a Televisão!
E fez, sem proveito para ele, como de costume. Mas foi épico. Subitamente tinha a presidir ao projecto a mais inesperada das individualidades, e a mais sólida, também: São José Lopes, o todo poderoso senhor da polícia política. Depois do tombo da cadeira e consequente morte de Salazar a situação política alterou-se, embora nós, em Angola pouco dessemos por isso. Mas o homem da Pide sabia e sabia que com uma televisão atrás poderia ser mais interventivo.
O Paulo não resistiu a vir a Lisboa exibir-se e mostrar que o exílio africano não o depauperou. Creio que terá havido uma manobra calculada para entravar o projecto, já em fase adiantada e o Paulo foi detido, sob pretexto fútil, com a intenção óbvia de fazer explodir o escândalo, em Luanda. Ele voltou a Angola, mas já sem espaço. A televisão, essa, fez-se mas sem ele e sem fulgor, com o 25 de Abril a bater à porta. Mais curta foi a experiência africana de José Sebag, outro vulto luminoso da Rádio, que se perdia fora dela, que falava e escrevia como poucos. Tinha tudo para ser génio.Não tinha paciência e tinha muita, muita sede...

domingo, novembro 27, 2005

Ainda o 27 de Maio

Leio, na Net, um texto assinado por João Van Dunem e Francisca Van Dunem, ambos irmãos de José Van Dunem, assassinado pelo MPLA na sequência da repressão à tentativa do golpe de 27 de Maio de 1977.
O texto é uma resposta a outro escrito, de Pepetela, publicado no mesmo jornal, o "Angolense", e em que o escritor se diz cansado do silêncio do MPLA relativamente a notícias que correm a seu respeito sobre uma alegada participação no processo de repressão que se seguiu à tentativa de golpe de estado liderada por Nito Alves.
Tal como o João e a Francisca não estou interessado nas intrigas da terra e tal como eles entendo que é tempo de se acabar com o silêncio sobre aquele período negro da História de Angola, durante o qual foram mortas (assassinadas) dezenas de milhares de pessoas, a maior parte das quais jovens com grandes capacidades e que, seguramente, teriam determinado outros caminhos para o país..
Já por diversas ocasiões aqui exprimi a minha posição política anterior ao 27 de Maio. Eu não estava com os "nitistas", mas os "netistas" também não me encantavam. Por isso saí de Angola em Abril de 1977.
Todavia, as notícias que tive de amigos, camaradas e de fontes independentes, levam-se a - sempre que se depare a oportunidade - verberar a chacina que foi levada a cabo em nome da conservação de um poder que apenas serviu para empobrecer um povo.
É tempo de acabar com os silêncios e perceber as cumplicidades pela omissão, também elas causa de um processo que deveria ser devidamenmte escalpelizado para servir de lição aos vindouros.
Talvez tenha mesmo chegado a hora de pedir perdão pelo mal causado. Até a Igreja Católica já pediu perdão...pelos males causados há séculos

JNM/Charles Aznavour/Paulo Cardoso

Ouço, na RDP, Antena 1, o programa de José Nuno Martins, o "Amigo da Música", um dos poucos momentos da Rádio Portuguesa que nos obriga a passar da posição CD para "Tuner". Hoje o tema é Charles Aznavour, uma das vozes que desapareceu das ondas portuguesas há anos.
De repente, na conversa do JNM, ouço a palavra Angola, a recordar um dos pontos de uma famosa digressão do arménio nascido em Paris.
De facto, no final dos anos 60, Aznavour passou por Luanda, onde estava igualmente Paulo Cardoso, um outro nome notável da Rádio Portuguesa e que já tinha passado pelas principais estações de Rádio de Angola. Tive o privilégio de trabalhar com ele no Rádio Clube do Huambo, em 1965.
Quando foi anunciado o espectáculo de Aznavour, no Cinema Restauração, agora transformado em Palácio dos Congressos, Paulo Cardoso, que dirigia na altura uma pequena estação de Rádio , chamada, salvo erro, "Voz de Luanda", anunciou, por sua vez, que iria transmitir o espectáculo em directo.
De imediato, a entidade organizadora do concerto desmentiu, garantindo que Aznavour não permitiria mesmo a gravação.
Paulo Cardoso insistiu em manter o anúncio e em toda a Angola, já habituada às "loucuras " de Paulo Cardoso, o caso passou a ser seguido com particular atenção e grande interesse.
Conseguiria a "Voz de Luanda" transmitir o espectáculo de Aznavour, em directo?
A verdade é que na noite do espectáculo, à hora marcada, a voz grave de Paulo Cardoso, em tom mais baixo do que o habitual, apareceu a anunciar a presença de Charles Aznavour no palco do Restauração, completamente esgotado.
Como foi possível?
Paulo Cardoso montou, com a conivência óbvia dos trabalhadores do restauração, um sistema de microfones e de transmissão via telefónica, na cave do palco e com esse expediente ganhou a aposta. Em consequência foi apresentada mais uma queixa em tribunal contra o mais polémico homem da Rádio que alguma vez passou por Angola e que a marcou com o seu estilo truculento e imaginativo. Um estilo que depois de 1974 foi exportado para Portugal, mas com óbvia perda de qualidade.

sábado, novembro 26, 2005

Incompetência, impotência, conivência

A máxima instância judicial senegalesa já se afirmou "incompetente" para resolver o caso Hissene Habré. E, por isso, recusou a sua extradição para julgamento na Europa.
O homem que, no tranquilo exílio de Dakar, dorme, há quinze anos, com quarenta mil esqueletos, voltou a casa e Wade, sabendo que todos se viram agora para a sua "competência" presidencial, optou por consultar a União Africana. É uma maneira de empatar o processo, pois sabe-se que o presidente do Senegal não se tem querido associar ao primeiro julgamento de um ditador africano. Em fundo, escuta-se já o inevitável rumor de uma perseguição com fundamentos racistas. Como se os 40 mil mortos e os 200 mil torturados de um regime abominável se tivessem tornado incolores... Mas o advogado senegalês que preside à Federação Internacional dos Direitos do Homem não está com meias palavras. Para ele, "o Senegal consagra a impunidade de Hissene Habré".
Por que é que tudo isto era previsivel?

EM ROTA SEM OTA

Foi entre o fim dos anos 30 e o princípio dos 40 que a Portela arribou. Era para lá de Lisboa, num descampado. O mais próximo que por ali medrou foi o musseque da Encarnação, afastado do Areeiro por uma longa avenida, nada fácil de trepar. A Carris não ia além desse Areeiro, com os «eléctricos», que autocarros ainda não havia e «metro» nem se sonhava. Mas o aeroporto era um luxo e merecia demoradas visitas da populaça pasmada a ver os aviões a subir ou descer, ali tão perto!
O musseque, esse, pretendia ser, na altura, a imagem do governo preocupado com os assuntos sociais: um bairro para famílias remediadas, das classes menos favorecidas, mas com alguns favorecimentos à mistura. As rendas eram baixas e a casa revertia para a família após 20 anos de residência. O contra era o isolamento, a distância da «cidade», onde havia que fazer as compras e onde, no fim de contas, se trabalhava. Alguns davam-se ao luxo de possuir bicicletas, mas era preciso ter canetas para tepar a avenida que era ou iria ser Gago Coutinho. Mas, ao domingo, podia-se ir ver o aeroporto: era quase perto. As sanzalas de Chelas e Olivais eram mais distantes.
Deve ter perdurado uma vintena de anos a expansão desse tipo de bairros, que tinham uma designação que já não me recordo. Lembro-me de um anterior, no Porto, no Ameal, onde fui menino e moço, com os meus pais. O pai era natural do Porto, mas zarpara miudo para Lisboa e até era do Benfica, ao contrário daquele braço de família nortenha, cujo apelido era justamente Benfica!
E em Oeiras também. Aliás Oeiras voltou a ter outro, mas sem a característica uni-familiar, antes com edifícios de 4 pisos e sem «herança» ao cabo de vinte anos. A «generosidade» do Estado Novo havia-se esgotado. O modernaço musseque de Alvalade deve ter dado início a novo conceito de bairro económico. Mas os tempos já eram outros. Primeiro, os autocarros chegavam ao aeroporto e ao musseque próximo, depois os popós tornaram-se acessíveis, sobretudo a quem tivesse renda baixa.
A cidade expandiu-se. Alvalade veio pela av. de Roma até à Alameda e do Areeiro foi descendo para além da Encarnação. O aeroporto foi ficando cercado, mesma assim incomodando os candidatos a senhorios. Contudo ele cresceu também. Sei porque trabalhei lá, nas obras de expansão. Fui ferramenteiro.
Tudo isto para dizer que o poiso da Portela resistiu a muito, acomodou-se. Faz parte da cidade
E se o futuro coiso da Ota vai custar muito, por muito tempo, o meu receio é que venha a ser justamente o antigo a pagar a crise, a alimentar os partidos e alguns partidários,bem como satisfazer a gula dos construtores de obras primas ou primogénitas!
Porque é disto que se trata e o governo aceita que o que faz falta é animar a malta. Os 56 mil empregos é fogo de vista. Deixem a Portela em Paz! Façam a Ota onde quiserem e quando quiserem e tanto faz que seja a 17 como a 18, mas não fechem o que está feito. Deixem-no funcionar de dia, reduzam-no ao tráfego da CEE. Pensem no que fazer ao de Beja e lembrem-se que na rota dos tgv os aeroportos não são rentáveis!
E se querem investir no futuro invistam em escolas portuguesas nos países onde se fala português e em países onde Portugal marcou presença. A divulgação da língua é a base do sucesso de qualquer plano tecnológico, por mais manhoso que ele seja, por mais pretencioso que se apresente. Para se chegar acima é preciso começar por baixo...

quarta-feira, novembro 23, 2005

Air Zimbabwe

Ninguém deu grande vento à notícia que chegou, de manhã, na asa da France Presse ( que a colheu no jornal estatal "The Herald"): a companhia aérea do Zimbabwe imobilizou toda a sua frota, por falta de combustivel. Todos os voos foram suspensos. O presidente de admnistração da Air Zimbabwe foi mandado para casa. O aeroporto de Harare era, desde ontem, um lugar de errância de centenas de pessoas impedidas de partir para Joanesburgo, Singapura ou Kampala.
O principal aeroporto de um país pode ficar paralisado por uma tormenta, por uma greve, por uma revolução. Mas neste lugar de pesadelo cada nova notícia é um voo picado para o abismo.
As notícias dos últimos meses sugerem um manual de destruição de um país nas mãos de um louco. Uma destruição metódica, sistemática, persistente.
The Herald conta o espanto dos estrangeiros no país sem check in. O país que não consegue pôr um avião no ar, tal a penúria. O mesmo país de onde , há alguns meses, levantou, com destino ao Dubai, um avião de 200 lugares com um só passageiro a bordo. E não era Mugabe. E não era um delírio autocrata, um luxo de nababo, apenas o retrato de uma gestão caótica num quadro de gestão de linhas raiando o absurdo.
O caso da Air Zimbabwe é a metáfora do impossível golpe de asa. O Zimbabwe de Mugabe é um país de asas no chão.

domingo, novembro 20, 2005

ANDAR ÀS VOLTAS

De cá para lá, quero eu dizer. E não tanto entre Luanda e Lisboa. Mais entre o ontem e o agora, à procura de equilíbrios esquecidos, a moldar a memória de modo a que se possa atenuar alguma coisinha do que lá vai, do que ficou. Não é fácil compreender o presente sem a chave do passado.
Quando se lê o que foi parte da infância do Leston, no Lubango, entende-se melhor o apego que muitos de nós trouxemos, na hora do adeus. Apego que não desaparece nos dias tumultuosos do regresso. E que nem a crítica feroz, que dirige contra a administração de um país rico a esvair-se na miséria, apaga.
Comigo foi diferente. O menino que fui «acordou» em Queluz, junto à estação (de comboios). Desde Alfredo da Costa até então os olhos não registavam. Lembro-me que a primeira vez que o meu pai me levou à bola (ver o Benfica) foi nas Amoreiras. Não me lembro de muito. Vagamente de ter visto os jogadores entrar no campo, porque o velho me pegou ao colo. Do mais patinhei pelo peão e de vez em vez me espantava, talvez de susto, pelo barulho. Foi no Campo Grande, acho que se chamava «28 de Maio», que comecei a ver a bola e «conheci» o Melão.
Tem graça que em Luanda, onde cheguei, a rondar os trinta, deparei com outro ídolo desportivo, mas do hoquei: Cruzeiro, já veterano mas cheio de genica.
Na escola havia retratos do senhor Salazar e do senhor Carmona. Ainda a semana passada vi
fotos de Carmona, mas este é de outro filme e de outra escola. Depois da primária, que acabava com a quarta classe, seguiu-se o curso comercial. Vou continuar o curso mais adiante, agora vou à causa..
Não conheço o Miguel. Conheci vagamente o pai e já depois de ter ido e vindo a África. No jornal onde trabalhava tinha havido mudança de director. Viu-o vagamente passar ao fundo da redacção, trôpego no arrastar-se agarrado a uma bengala e não sabia quem era. Como trabalhava no turno nocturno era natural. De vez em quando marcavam-se serviços no exterior e como estavam em marcha as eleições constituintes coube-me um comício em Almada. Quando lá cheguei era do PS - o comício! Eu já ia sabendo que ir a comícios não era como ir a rebitas, embora aquele tivesse dois nomes femininos: Maria Barroso e Sophia de Mello Breyner. Uma eu sabia que era esposa de Mário Soares, da outra não lhe conhecia o marido, nem de nome.
Escrevinhei um resumo mal disposto do comício que, escrevi, «terminou com uma senhora a dizer poemas épicos de carregar pela boca». E, de repente apareceu-me o director, encostado à bengala: "É pá, tire-me isto. O Sousa Tavares e eu trabalhamos no mesmo escritório!" O director era Proença de Carvalho, que não era coxo, tivera um acidente de moto, creio eu. E foi nesse escritório que me apresentaram a Sousa Tavares e seria minha uma das vozes que, algum tempo depois, se levantou contra o governo de Pintasilgo, que o demitiu da direcção de «a Capital», no próprio dia das eleições intercalares, de que sairia o governo da AD.
Truculento mas ingénuo, Miguel saltitou pela Televisão até arranjar espaço como comentarista, onde tem vindo a amadurecer. Não terá o brilho reluzente do pai, mas é contundente, quase agressivo. E por vezes tem razão, mas não raro o entusiasmo leva-o longe demais. Mas também é verdade que muitos outros mais elaborados e, sobretudo, mais equilibristas, de chatos que são perdem a graça. Li com alguma dificuldades, que já não leio como lia nos autocarros, a crónica sobre costumes, como se dizia no meu tempo, das meninas exibicionistas admoestadas na escola. Embora não a tenha lido toda por mór do solavancos e porque o texto me pareceu desviar-se, pareceu-me correcta a postura, tanto no caso específico, como na generalidade, sobretudo no que toca à justiça: todos o delinquentes têm direitos; as vítimas da delinquência nem por isso.
Mas não só e apenas no foro sexual há violadores e violados, para lá dos direitos à diferença. Também em Espanha atingia o rubro a questão da obrigatoridade de estudar religião católica nos cursos secundários e com nota a contar para a média. E lá aparecia a conotação salazarenga.
E retomo o curso. Tinha, sim senhor, tinha «religião, moral e cívica». Duas vezes por semana, era eu estudante e o Salazar presidente do Conselho. E não podia ultrapassar o número de faltas, tal como nas restantes disciplinas e tinha nota trimestral. Era, sim senhor, resultado da concordata.
Mas não contava, não senhor, não contava para a média, não pesava na nota final. No meu caso pessoal acho que tive alguma sorte com a professora, que deu aulas de religião numa perspectiva histórica. Não me afectou. Não deixei de ser ateu. E quando tive problemas para arranjar emprego não andei a queimar automóveis. Meti-me à sucapa num paquete cheio de soldados e fui para África. Já não há paquetes nos arrebaldes de Paris e a África já não tem para dar, como deu e os primeiros a perceber isso deviam ser os ministros dos governos ditos ocidentais. Alguns fogos podem apagar-se antes de ser ateados.
Mas não adianta muito aprender História passada nem extrapolar dela para o presente. São cada vez menos os que semeiam ventos e cada vez mais os que colhem as tempestades. O dinheiro pode não dar felicidade, lá isso pode, mas oferece abrigo com aquecimento central.
Um minitro europeu bramir contra a poligamia parece inusitado. Capaz de parecer preconceito anti-mourisco. Mitterrand não foi preso ou censurado, nem sequer acusado de delapidar a segurança social com excesso de prole de fontes distintas. Nem ardeu nenhum pópó por causa disso. Mas se for um árabe ou um lestiano...

segunda-feira, novembro 14, 2005

"Predadores"

Pepetela descreve os últimos trinta anos de Luanda, narrando estórias que só podem ser autênticas e atribuídas a um VC, Vladimiro Caposso, todo ele mentira e ao mesmo tempo todo verdade, já que é o retrato a cores dos que em todo este tempo se foram servindo do país para enriquecer, atropelando tudo e todos.
Neste seu último livro - "Predadores" - Pepetela parece, finalmente, libertar-se de si mesmo e apontar o dedo, sem misericórdia, ao bando de corruptos que tomou o poder em nome do Povo há trinta anos.
O retrato da burguesia de Luanda, com um salto ao Lubango, por onde campearam e campeiam ainda alguns campeões da ladroagem, é de um realismo impressionante.
Pepe, acho que tu mesmo te assustaste e no fim deixaste-nos uma nota de esperança depositada na Juventude que precisou de estudar, trabalhar e ser honesta para sobreviver. Oxalá tenhas razão e os Nacibs se multipliquem

domingo, novembro 13, 2005

Um livro

Muito interessante, este "Confronto em África", de Witney W. Schneidman, que fez parte da equipa "africana" da admnistração Clinton e cuja investigação em Portugal mereceu uma bolsa da Fundação Gulbenkian. O livro agarra-nos desde as descrições iniciais do braço de ferro entre Khrushchev e Eisenhower, no controlo do processo pos-colonial em África. Já tenho assunto para grande parte do serão. Levo lidas menos de 30 páginas, mas confirmada uma ideia: se não fossem os Açores ( "a mais imporante base dos Estados Unidos no mundo"), estariamos agora a falar de uma outra noite histórica, em Luanda, mas há 40 anos. Teria sido outra a nossa vida, outras as ressacas, outras as desilusões.
Deviamos ser capazes de cuspir os ses para o lado, como grainhas inúteis. Mas eles estão nas entrelinhas da História, rindo-se na nossa cara. São os fantasmas mais cruéis.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Uma Noite Com Trinta Anos

Já descrevi a minha chegada a Luanda, a 8 de Novembro de 1975, sob a pressão de tropas invasoras do Sul. Os amigos, os conhecidos e os que passaram por uma coisa e outra tinham fugido. Depois, os camaradas, "bazado". Em Luanda, aonde já não ia há alguma tempo, a surpresa quase me paralisou. A cidade não existia, parecia um sítio onde tinha caído uma bomba de neutrões.
Do Lubango até Luanda tinham viajado connosco a Bany e outras criaturas (hoje, por sinal, gente célebre na praça). Quando digo "connosco", quero dizer eu e a Zi, a minha companheira, a minha mulher.
Chegámos a Luanda e, por acaso, encontrámos a casa do Pedro D'Ornelas ( de quem, um dia destes destes, contarei um par de estórias).
Em Casa do Pedro estava ele, a Rita e não sei mais quem. E algumas latas de atum e arroz. Deu uma refeição. No final, olhámos uns para os outros, com alguma dignidade, porque esta coisa da fome perturba, analisámos a situação politico-militar e cada um seguiu o seu caminho.
Dia nove ainda houve um resto do arroz, com a água do atum, mas no dia dez, NADA! De manhã à noite. Nem um grão de arroz. Luanda era uma cidade sem vida. Estava toda a gente escondida em casa. Ninguém atendia o telefone.
Na casa do Pedro encontrámos o Graça, professor de Matemática no Lubango e que também tinha feito " a retirada estratégica" para Luanda. No prédio onde vivia, na Rua Direita de Luanda, havia um apartamento de um amigo, que tinha "bazado", e de que ele tinha a chave.
Subimos não sei quantos andares para nos instalarmos e, por volta das onze da noite, com os estômagos a roncar com fome, começámos a ouvir tiros de armas pesadas. Pensámos: "os zairenses conseguiram entrar..."
Pelos vistos, era preciso inventar um esquema de sair de Luanda sem ser notado. A minha fotografia fazia parte dos dossiés dos invasores: "cortar a barba, ir para o porto...sei lá".
Sem informação, sem rádio, sem nada que nos explicasse o que estava a acontecer, só percebíamos os tiros de armas pesadas e ligeiras.
No dia seguinte percebemos que tudo aquilo eram as comemorações da "Dipanda". Com algumas vítimas à mistura: houve uma família que morreu toda, porque lhe caiu na comemoração da independência uma granada de morteiro lançada por um vizinho que tinha o morteiro e a granada guardados para aquele dia.
O dia 11 não foi muito diferente. A retirada vergonhosa dos portugueses e dos altos comandos, as fantochadas políticas, todas nos passaram ao lado. A nossa gente estava em dificuldades e nós com eles. Comemos mabangas, arroz com feijão, peixe espada frito até ao enjoo.
Um dia, num restaurante que, entretanto, tinha reaberto, segui o inclinar das cabeças de todos os clientes e descobri uma criança que estava a entrar portas adentro. Há que séculos aquela gente não vislumbrava o sorriso de uma criança...
Viver em Luanda transformou-se num acto de fé.
Também dava para a brincadeira: à hora do comércio abrir, sobretudo depois da hora de almoço, dois ou três de nós colocávamo-nos em fila à entra de uma loja. Logo a seguir, se formava uma longa fila de gente que ia perguntando: "camarada, tá a sair o quê?..."
Começou aí a realizar-se a grande capacidade da sociedade angolana para se defender dos sistemas, para se auto-organizar.
Também principiaram aí as grandes fortunas angolanas, ostentadas, trinta anos depois, por personalidades que não as explicam, mas se afirmam, em semanários portugueses ( Expresso) disponíveis para investir em Angola, escondendo que as reais fortunas de que dispoêm estão espalhadas um pouco por toda a parte, inclusivé em Portugal.
Não posso deixar de constatar que há aqui uma convergência de interesses: o do Expresso, que quer instalar-se em Angola, para aproveitar um pouco da ocupação chinesa e o dos detentores de fortunas inexplicáveis que as querem transformar em motivo de honra nacional e até de pretexto para candidaturas à presidência da República.
Ao que a lembrança de uma noite de fome conduz...

quarta-feira, novembro 09, 2005

O que a Rede traz

Não é sequer uma vigília, nem um impasse. Do lado de lá da janela, pressinto o recorte da romanzeira no negrume da noite, a aldeia está mergulhada em sossego, quantos carros terão incendiado a esta hora, na periferia parisiense, os miúdos que trazem nos olhos novas Bagdad?
Estou a pescar na mesma rede que Sarkozy lançou para guglar apoios à política "de firmeza" (patético Sarkozy que ainda acabas guglado por um qualquer Le Pen...).
E onde guglará o deputado Nuno Melo que mandou esperar a sociologia para espumar urgências de ordem nas ruas, contra o "laxismo" da Europa governada "à esquerda", como quem sacode magrebes para trás do sol posto? Cuidai, Chirac, Villepin, Sarkozy, abjectos esquerdalhos, cuidai no que deu! E escusais de guglar, Melo não está para soluções que dispensem o cacete.
Mas ao que vim, perdido no negrume do pinhal a guglar acasos? Vim saber de uma Libéria a votos, em compita final? A esta hora a sorte está ditada, mas ainda não foi pescada na Rede. Espero que Weah leve de vencida a Dama de Ferro. E que isso seja um sinal auspicioso para os trezentos mil refugiados que andam pelas vizinhanças. Que um sono justo chegue para todos, enquanto uns contam votos em Monróvia e outros carros a arder na escumalhândia onde, para desgraça da Humanidade, ninguém parece escutar os avisos do deputado Melo.

segunda-feira, novembro 07, 2005

As Africanas

Na RTP 1 deve ter passado um duende com capacidades sobrenaturais suficientes para ultrapassar a paralisia cerebral daquela gente, a começar por aquele presidente cujo ar até me faz esquecer-lhe o nome.
Acabei de ver um pequeno apontamento, chamado "Retratos de África", em que se relata de uma maneira precisa, sem intermediários, sem o paternalismo do jornalista que faz perguntas "encaminhadoras", a vida, o nascimento e crescimento de cooperativas agrícolas.
Cooperativas dirigidas por mulheres, porque os "homens têm medo das machambas".
"Nós sabemos como pensam os homens: quando têm alguma coisa no bolso pensam na cerveja. As mulheres, quando têm alguma coisa na ponta da capulana, pensam nos livros para as crianças, no sabão para lavar a roupa das crianças..." - assim falou a mulher que parece ser a alma deste movimento.
E garantiu: " não vamos ficar por aqui...vamos continuar".
Oxalá!
É tempo de se saber no resto do Mundo que em África o trabalho é condição das mulheres. Os homens, de uma forma geral, só "deitam ronco".

domingo, novembro 06, 2005

Uma Estória de Maconginos

De vez em quando alguém me aparece a contar jantares e encontros ,a dar notícia de palácios, de "maconginos" proeminentes. Vou escutando e sorrindo. Hoje não há ninguém que não pertença ao reino de Maconge, assim uma Terra do Nunca inventada pelo César da Silveira, o verdadeiro Rei de Maconge, a que sucedeu Mário Saraiva de Oliveira. Um reino que se vulgarizou com uma facilidade extraordinária e que distribui titítulos nobiliárquicos que muita gente está a levar a sério.
O Reino de Maconge é produto de uma imaginação adolescente fértil, a de César da Silveira, que escreveu as Macongíades, traduzindo um certo espírito que se vivia no Liceu Diogo Cão, um pouco no decalque daquilo que se imaginava seria a academia de Coimbra.
O Reino transformou-se, depois, num local de encontro entre antigos estudantes do Liceu, que se reuniam uma vez por mês, sempre no Lubango, para, em ceias monumentais, sempre regadas a vinho, se lembrar a juventude e discutir outras coisas. A poesia era dona e senhora da noite.
Houve uma primeira fase destes encontros em que não era permitida a presença de mulheres. A Organização era composta por cultores do romantismo em que as mulheres não podiam"descer"ao espectáculo decadente da bebedeira, do arroto, das palavras de sons ásperos.
As ceias eram na Casa Verde, dos Irmãos Guerra, e havia sempre uma festa especial quando o Rei subia de Luanda ao Lubango para confraternizar com os seus súbditos.
Foi ainda na Casa Verde que a primeira mulher foi admitida como participante. Foi uma excepção, porque a senhora em questão - Anabela Araújo - não tinha frequentado o Liceu Diogo Cão. Era aluna da Faculdade de Letras da Universidade de Luanda, sita no Lubango, e mulher de Saraiva de Oliveira, representante do rei, quando este não estava presente. Ele próprio se intitulava de vice-rei.
Este era o único título admitido na altura. Nada de condes, nada de duques. Todos nós éramos súbditos de um reino de fantasia.
Os irmãos Guerra tinham um costume interessante: quando já estavam cansados de nós, encharcavam os churrascos de gindungo, convencidos de que assim deixaríamos de comer e nos iríamos embora. Pelo contrário: não só comíamos mais como o vinho rodava a maior velocidade entre os convivas.
A certa altura, por razões que também tinham a ver com o coração de um dos membros do reino, as ceias passaram a realizar-se no Casino da Senhora do Monte.
Numa dessas ceias tentei, mais uma vez, convencer algumas pessoas de que o reino podia, sem dificuldade, transformar-se num movimento político activo.
As respostas eram invariavelmente uma reprimenda. A nossa política era a saudade e o vinho tinto.
Mas, naquela noite havia um motivo suficientemente forte: tinha sido inaugurado o estádio municipal da Senhora do Monte, um belo estádio, a que foi posto o nome de "estádio Silvino Silvério Marques", um ex-governador-geral de Angola, que haveria de voltar mais tarde.
Toda a população do Lubango detestava o senhor e não queria que o seu estádio se chamasse outra coisa que não "Estádio da Senhora do Monte".
Utilizando este consenso, consegui convencer os convivas da ceia daquela noite a realizar uma operação "comando". Às tantas da noite, lá fomos tirar a placa com o nome do dito Silvério Marques.
Nesta operação lembro-me da participação de Pinto Miranda, muito entusiasmado e do Saraiva de Oliveira, mais cauteloso. Havia ainda alguns mais jovens: O Adrega, que era o bispo da Academia na altura e o Ricardo Fonseca, o presidente da Academia do Liceu. Lamento, mas a minha memória não vai mais longe.
Ora, a placa era muito pesada e foi colocada no meu carro - na altura um Ami8 - que andou durante vários dias com a dianteira levantada, o que provocava as mais disparatadas observações dos amigos.
Depois, lá encontrei um local onde a enterrar. Acho que ainda lá está e só eu sei onde. Quando, num futuro distante, alguém a encontrar, espero que não conclua que ali houve um estádio desportivo...
Como resultado desta operação, aquele recinto desportivo nunca se chamou outra coisa, até porque o próprio presidente da Câmara da altura, José Figueiredo Fernandes (Farrica), não mandou colocar outra placa.

Ainda Guebuza

Esta viagem de Guebuza a Lisboa e o pré-acordo sobre a barragem de Cahora Bassa não deixou rasto. Ninguém se atreve a um comentário menos respeitoso, mais ousado. Está tudo de acordo. De acordo com o quê? Ninguém sabe. Eu acho que nem o próprio primeiro-ministro, que tanto e tão alto se congratulou com o tal pré-acordo, sabe exactamente o que fez ou o que vai fazer.
Sua Excelência, o Presidente da República de Moçambique, eleito pelo povo da sua terra em eleições que os observadores internacionais consideraram justas e livres (por isso, o nosso respeito), veio a Portugal com uma importante comitiva de empresários.
A grande maioria daqueles senhores representam empresas cujo proprietário é o próprio Armando Guebuza. É verdade que não chega ao ponto de Nino Vieira que vendia por um milhão de dólares cada viagem a Taiwan, mas que se está a servir do Estado a que preside para enriquecer pessoalmente, parece óbvio.
Serve-se do Estado para enriquecer e não só!
Assistimos ao ridículo de um oficial de diligências da presidência da República de um dos mais pobres estados do Mundo, todo engalanado de cordões dourados e outras bugigangas reluzentes, levar os papéis que Sua Excelência ia ler ao local apropriado num dos anfiteatros da Gulbenkian. A mesma excelência a quem Samora Machel dava chapadas porque, já ministro, fazia disparates, cometia atropelos, tinha pressa em ficar rico.
Serve-se do Estado para ridicularizar o seu próprio povo! Aquele protocolo... já nem o Bush usa.
Os senhores que andaram muito solícitos a apajar sua excelência, são os mesmos que daqui a alguns tempos vamos ouvir a verberar veementemente a chamada corrupção africana, "cuja" começa e acaba na Europa, em capitais como Londres, Paris e... e.... Lisboa.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Senghor

A República do Senegal iniciou os preparativos para as comemorações do centenário do nascimento de Senghor. Léopold Sédar Senghor - o primeiro presidente da República do Senegal - serviu de exemplo a muita gente, foi apontado como dirigente exemplar e, indubitavelmente, África deve-lhe um enorme balanço para o movimento de Independência.
Senghor nasceu a 9 de Outubro de 1906.
Considerado um especial cultor da língua francesa, Senghor demonstrou ao longo do tempo em que exerceu o poder na sua terra uma especial atenção à dependência que essa mesma língua podia criar.
Introduziu o português como língua a ensinar nas escolas do Senegal e hoje existem para cima de 100 mil alunos da nossa língua, ensinada por mais de dez mil professores. Nenhum deles é português.
Portugal não tem nenhum interesse especial por África, nunca conseguiu definir uma política de aproximação com África e libertar-se do complexo de colonizador.
Os governos passam e os africanos vão esquecendo os laços especiais que os uniam a Portugal.
Os governos - da esquerda à direita - ficam-se pelas declarações gongóricas, assim a lembrar os abraços dos brasileiros - que nunca fecham os braços.
Perceber onde estão os elos de ligação, onde começam os interesses e os afectos não é com eles. Ontem, por exemplo, saudaram com grande espalhafato a assinatura de um pré-acordo para a entrega de Cahora Bassa.
Daqui a algum tempo, quando os ingleses, os americanos, os franceses, os sul-africanos e outros estiverem a substituir os portugueses, os tais empresários a quem o ministro da economia garantiu prioridades em Moçambique, vai ser tudo esquecido...
Moçambique está lá demasiado longe e os afectos estão mais virados para a língua inglesa, para o modo de vida inglês - afinal, o modelo de colonização foi o britânico.
O Senegal está aqui perto e um pouco de atenção não ficaria mal. Por exemplo: enviar uns professores de português, uns livros escolares, apoiar um movimento de divulgação da cultura portuguesa e não deixar o Brasil ocupar todo o espaço.
Quando é que o Ministério dos Negócios Estrangeiros se transforma numa instituição verdadeiramente útil?
Que tal associarem-se, desde já, às comemorações do centenário de Senghor?

quinta-feira, novembro 03, 2005

Cahora Bassa

Até comove! Tanta satisfação pela conclusão de um acordo que demorou trinta anos!!! Afinal, era tão fácil. Agora resta-nos esperar pela privatização da propriedade da barragem. Veremos - se conseguirmos, com tanto cabeça de turco no meio - quem vai ser o dono. Será que Guebuza e Chissano estarão de acordo em que o negócio dará para os dois? E quanto tempo mais Cahora Bassa vai funcionar?

quarta-feira, novembro 02, 2005

Os Interesses de Guebuza

Armando Guebuza, presidente de Moçambique está em Lisboa. Vem - ao que dizem - para acertar contas com o Estado português e tentar comprar a parte que a este cabe da Barragem de Cahora Bassa - mais de 80 por cento do capital total.
Este negócio de Cahora Bassa arrasta-se há anos e nunca houve nenhum governo em Lisboa que decidissse, de uma vez por todas, defender os interresses do povo que pagou a construção daquela infraestrutura verdadeiramente excepcional para Moçambique.
Este negócio de Cahora Bassa já envolveu muitos interesses, passando pelo dos sul-africanos que resolveram pagar a preços ridículos a energia importada de Moçambique, uma manobra que teve a conivência de Chissano, também ele interessado em comprar, para ele próprio, uma parte do capital da empresa proprietária da barrragem.
Aparece agora Guebuza, o homem que mais e melhor enriqueceu durante os trinta anos que Moçambique leva de independência. Provavelmente, também tem interessses particulares no negócio, associado, como não pode deixar de ser, a parceiros de Lisboa.
Por isso mesmo não causa nenhuma estranheza que Guebuza tenha recebido dois dos candidatos à Presidência da República. Dois e apenas dois. Porquê? Porque esses já conhecem os negócios e os interesses que estão por detrás de Cahora Bassa, assim como conhecem os meandros da compra de grande parte do Vale do Limpopo.
Para Manuel Alegre é bom não ter sido incluído nestas audiências solenes. É mesmo muito bom que não tenha a confiança de Guebuza. Assim, se ganhar as eleições sempre poderá ponderar, antes de tudo, os interesses portugueses.

Estradas Perdidas

Já estamos indicando os caminhos de navegação contidos em "Estradas Perdidas". Vamo-nos encontrando na Net, sem compadrios, com a intenção de africandar por aí. Se reparares, Fernando, Lisboa parece-se cada vez mais com os lugares da nossa memória. E nessa memória cabe em grande destaque B.Leza - o poeta que verdadeiramente deu dimensão à morna. B. Leza é uma referência indispensável na cultura de todos nós. Não deve, por isso, deitar-se abaixo um local onde o seu nome se prolonga. Quando muito, transformá-lo num espaço decente, de comemoração permanente da poesia de B. Leza.

terça-feira, novembro 01, 2005

B.Leza

Todos quantos, nostalgia à parte, africandamos na velha Lisboa, temos a obrigação de tomar este caso em mãos ( e em pés,marcando o compasso). Nem que seja em serviço mínimo de resistência, cívica, pois claro. O caso é o da nuvem que paira sobre o B. Leza, condenado a sair da casa do Conde Barão. O que podemos fazer? No mínimo, assinar a petição que corre na Net. Encontrei-a num blog que visito com assiduidade, o Estradas Perdidas, do Nuno Ferreira, jornalista e andarilho. Não conheço o Nuno, que pressinto arredio do jogo de salamaleques em que se produz muita baba na blogosfera. Mas gosto dos sítios por onde me leva. E assim mato dois em um: deixo o aviso à navegação, quanto ao B.Leza, e peço ao Leston que faça agulha( ou link, como se diz) com www.estradasperdidas.blogspot.com . Mesmo que o caminho se faça por outros trilhos, africanda-se bué, por ali. Mas, rematando o caso B.Leza,a senhora Câmara bem pode dar um ar da sua graça.

VENTOS PASSADOS/3

Já se falou de soldados fugidores e de guerrilheiros idem, mas eu também fugi algumas vezes!
A primeira vez começou por ser ao contrário. Estava em Lisboa, de férias, em Fevereiro de 75. Saí de Luanda a 3, porque não quis lá estar a 4. Já andava desiludido! Gozei uns dias tranquilos,
ainda que me espantasse com aquele país, que, hoje, recorda Adelino Gomes, no «Público», uma democracia de sentido único, com revolucionarismo festivo. Não tinha a ver comigo. Não percebia ainda aquele «agora» e não me sentia dentro.
Até que de Luanda me telefonaram: os militares tinham ido ao Notícia e prenderam o director. Levaram-no, em mangas de camisa, para o aeroporto, onde o despacharam de avião para Lisboa, onde seria encaminhado para o forte da Trafaria. Era, pois, conveniente que eu voltasse. E lá fui eu para o avião, sem saber ainda que estava a fugir, pois já andavam em Lisboa à procura do Sousa Oliveira, esse, que tinha ultrajado o Copcon ao chamar-lhe «o novo medo»! Em Luanda, passei por casa, a deixar o saco e fui para a Redacção. Outro telefonema: «é pá. pira-te! Eras tu o segundo nome da lista»...
O «segundo da lista» pirou-se e escondeu-se, onde ninguém se lembraria de o procurar: em casa da mãe!Entre o homem da «Casa das Ferramentas» e o Mário, pai do Carlos Fernandes, fez-se o plano da fuga. A FNLA forneceu um "deixa passar" com um nome qualquer e lá fui eu de carro de Luanda para Kinshasa.
Foi lá que tomei conhecimento que o Notícia fora encerrado e que o «Província de Angola» passara para o controlo da FNLA. Ora bem: nessa altura, o governo de transição integrava quadros dos três movimentos revolucionários, além dos portugueses. Não via fechar-se um
jornal, que só era hostilizado por um dos movimentos, com o agreement do governo. Fui isso que eu quis saber junto do gabinete de Holden Roberto. Ele nem sabia que o Notícia tinha fechado, mas o chefe de gabinete, esse sabia e alegou que o semanário estava a pender muito para o MPLA! E percebi. Os dias que levava de «aquartelamento» ajudaram-me a perceber. Ali tudo se pagava e tudo se comprava. Só me faltava saber até que nível ia a sordidez. Pedi para me recambiarem para Luanda. Iam ver. Já sabia o que isso significava. Quase todos os dias chegavam camions de Luanda, traziam quase sempre Sal e levavam, em geral, armamento para Luanda, além de algum contrabando de coisas comuns que escasseassem em Luanda. Almocei
com um dos motoristas e ele aceitou levar-me de volta.
Encontrei-me com ele fora do recinto e abalei sem me despedir. Em Luanda, era a febre dos caixotes. Viam-se já montanhas e montanhas deles no porto e não poucos no aeroporto.
O jornal tinha pouca gente na redacção, mas muito manda chuva. Tinham nomeado para a chefia da redacção um jovem pouco dotado e esperavam que eu andasse com o jornal às costas. Mudei o título para o que, suponho, ainda hoje vigora e quis arrumar a redacção. Que não, o jovem chefe fora nomeado pelo administrador e estava dito. O administrador recebia mimos da secretária, que por acaso era esposa do jovem. Tentei fugir mas não fui muito longe, o ministro mandou-me chamar. Esperei uma hora na sala e saí sem o ver. Passei pelo jornal e combinei fazer uma crónica diária e lá apareceu outro Sousa Oliveira, que se chamou Lopes Guilherme.
Não raro entrava no «Comércio» para um bate-papo com o Araujo e lá mesmo batia a crónica para o jornal do lado. Até que recebi o aviso de Iko Carreira, e, sim, dessa vez zarpei de novo. No Uige estava o Chipenda. Ajudei-o a elaborar uma declaração que ele queria dizer na Rádio e ele arranjou-nos, a mim e ao Renato, um jeep sem gasóleo, que os tempos eram de crise. Fez jeito. Eu encontrei o combustível. Tinha amigos por lá. Os hotéis estavam cheios. E não de turistas! Isso não me assustou. Ainda havia uma base do Instituto do Café. Que bem que nós dormimos, num bom quarto, numa cama macia, feita de lavado! Não era, acreditem, pouca coisa.
No dia seguinte, ao fim da tarde, arrancamos para o Ambriz...
(Continuam as próximas fugas...)