quinta-feira, setembro 29, 2005

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA/6

Vou ter de mudar o título. Um amigo telefonou-me a ralhar: "Tu estás maluco. A tua casa nunca foi amarela. Amarela era a chapa que tinha o número da porta!"...
Pois é, a memória prega-nos partidas. A minha é, mas sempre foi, um tudo nada desarrumada. Como não tenho arquivos não sei ao certo se rememoro factos ou se fantasio a realidade deles. De facto, muitas das recordações saltam-me diante dos olhos, mesmo fechados, a partir da realidade presente, como se fosse a versão moderna de um filme antigo. Oiço falar de magistrados, de juizos ou de sentenças e, claro, da independência soberana e sempre foi assim, dependendo claro, a independência, de factores mais ou menos obscuros. E vem-me à ideia um caso passado em Luanda, num tempo em que tudo isto já era assim, mas mais arrumado. Um magistrado andava a tornar-se notado por evidenciar um excessivo rigor pela legalidade dos processos judiciais. Um belo dia viu-se transferido para a Lunda e ficou-se à espera de um ligeiro abrandamento na apreciação dos processos e sobretudo da forma como eram elaborados.
E foi como se uma bomba tivesse explodido. O magistrado foi à Diamang. Os responsáveis locais ficaram desvanecidos, mandaram preparar um lanche e acompanharam o ilustre visitante. O visitante viu dois sujeitos fechados num cubículo, um dos quais algemados. A segurança da empresa, cujo chefe era um prestigiado agente da autoridade, cedido à empresa, aparentemente para dirigir acções de formação de pessoal destinado à vigilância, mas que na prática chefiava o serviço.
O magistrado não foi de meias tintas. Deu voz de prisão ao agente policial e levantou um auto acusando a empresa de cárcere privado. Foi um escândalo de todo o tamanho e nem veio nos jornais. A Censura não achava graça a coisas daquelas e a Diamang, que diabo!, tinha mais taco
que qualquer PT dessas que andam por aí! Mas resolveu o problema do magistrado. Voltou para Luanda e foi colocado no Tribunal de Menores. Mesmo naqueles tempos havia gente difícil de vergar.

domingo, setembro 25, 2005

Um Dia Difícil

A escrita está-me no sangue. Há "milhares de anos" que passo ao papel as minhas emoções, que sinto este não sei quê à frente de uma folha em branco. Mesmo quando o tema é apenas profissional, há como que um medo de não acertar na palavra certa, de não chegar à ideia que tenho na cabeça.
Tantos anos de profissão também foram como que castrando o impulso da emoção. O pessoal foi ficando amarrado a regras, a leis e mergulhando lá no fundo.
A blogoesfera tem-me libertado de algumas das regras e tenho solto alguma coisa de pessoal. É uma forma de deixar escritos aos amigos, à família.
Hoje é um dia difícil.
Antes de vos dizer porquê, quero deixar-vos algumas estórias.
Vivi algum tempo no Chiange, "terra de perdizes", na tropa. Antes que o capitão me enviasse, como represália, para o Chitado, tinha a família comigo. O meu filho mais velho tinha nessa altura dois anos e pouco.
Naquela terra havia um problema de abastecimentos, pelo que para variar a alimentação era preciso ir à caça: perdizes, rolas, coelhos, coisas assim, pequenas, para não darem muito trabalho.
A envolvente do Chiange é uma floresta de espinheiras onde existem rolas todo o ano. Aos domingos, eu e o meu filho, Ruca, íamos à caça. Ficávamos debaixo de uma espinheira e ele avisava-me quando poisava uma. Tinha um ouvido especial. Eu sempre tentava a habilidade de ferir uma para que as outras poisassem naquela árvore. Usava com mestria uma arma de pressão de ar.
O jantar já não tinha que ser o habitual.
O Ruca ficou um amante da caça e, com cinco anos, ainda com a pressão de ar debaixo do braço direito, porque não a conseguia encostar no ombro, matou o seu primeiro pássaro.
Todos os domingos, de madrugada, me acordava para irmos à caça - isto já no Lubango. E lá íamos para as terras adjacentes à estrada que ligava a cidade ao Km 16.
Foi crescendo até que chegou o 25 de Abril, com nove anos. Toda a movimentação política da altura o entusiasmou muito e rapidamente, porque eu me envolvi de alma e coração na luta política ao lado do MPLA, ele se transformou num "pioneiro" militante.
O entusiasmo foi crescendo e eu não conseguia que ele lesse nada que não fosse marcadamente político. Com uma excepção: "Os Capitães da Areia", de Jorge Amado. Leu-o de um fôlego.
De um momento para o outro, o Ruca só falava de política e na escola transformou-se num verdadeiro líder.
Já em 1976, depois de terminada a invasão sul-africana, com a situação mais ou menos normalizada, as aulas a decorrer, houve na então Escola do Ciclo, um movimento de contestação a uma professora. Os alunos exigiam a sua demissão.
A situação nas escolas não era fácil, até porque os professores também já não eram muitos. O então ministro da educação, António Jacinto, foi ao Lubango para avaliar algumas situações, entre elas aquela contestação. Promoveu uma reunião geral da escola e tentou demover o movimento contestatário.
Foi ele mesmo que me contou: sempre que a discussão parecia resolvida, o "Bandeirinha" levantava-se e repunha a argumentação, sempre em bases correctas de luta pela democracia na escola.
Na altura, António Jacinto perguntou-me se era eu que o ensinava - que era, de resto, o boato que corria nma cidade. Tive que lhe explicar que já não tinha tempo disponível para me encarregar do meu filho: além de gerir a Faculdade de Letras, onde também dava aulas, fazia uma jornal, dirigia a Rádio, onde formava um enorme grupo de jovens e administrava o principal complexo industrial da cidade.
O meu filho, que, entretanto, tinha aderido à JMPLA, sempre que falava comigo era de política e a conversa acabava com ele a chamar-me de "reaccionário de novo tipo" - o que na linguagem nitista ( que dominava completamente a Jota) significava "maoista".
Tido como adversário dos nitistas, eu era alvo de uma marcação "homem a homem". Em Novembro de 1976, os homens de Nito Alves promoveram uma assembleia geral de militantes, levada a efeito no auditório do Rádio Clube da Huíla, já transformado por mim em "Radio Popular".
Como estratégia cheguei à assembleia bastante tarde, mas os rapazes da Jota, quase todos meus alunos ou ex-alunbos e a quem eu tinha ensinado alguns truques, esperaram pela minha entrada na sala e um deles levantou-se para dizer "proponho o camarada Leston Bandeira para a mesa".
Proposta aprovada e eu aniquilado...
Os nitistas tomaram o poder na Huíla e para o conseguirem fizeram daquela assembleia uma verdadeira vergonha: misturaram política com a vida pessoal, fizeram acusações torpes, recorreram a tudo.
Era o Nito Alves a preparar-se para o golpe que aconteceria em Maio do ano seguinte.
Alguns dias depois, o próprio foi ao Lubango para, obviamente, ser recebido em apoteose. Eu era ainda responsável pelo DIP, o único membro da direcção que eles pouparam (eu era, de resto, à época da assembleia geral, o único membro da direcção do MPLA eleito. Não soube nunca como é que os outros apareceram).
Naquela qualidade imaginei um poster, que o MPLA exibe hoje no seu museu, com o Agostinho Neto a cortar cana de açucar (uma fotografia notável) e o poema do Helder Neto que terminava dizendo que Neto se escreve com "e".
Esse poster teve várias versões: uma com o fundo em verde e outras com o fundo branco, mas é uma obra de luta política notável. O Avelino Pichel, o dono da Gráfica da Huíla, ajudou-me muito na sua concepção.
Pois bem, enquanto Nito Alves discursava na varanda da Associação Comercial, militantes escolhidos distribuiam o poster. O homem ficou desorientado e até chegou a falar de Jesus Cristo e dos Evangelhos.
A Jota apertou a marcação e agora já não era apenas comigo. Era também a Zi, a minha mulher, naquele tempo directora da ex-Escola Industrial e Comercial Artur de Paiva, depois rebaptizada de Escola 27 de Março, data oficial da retirada das tropas sul-africanas da fronteira Sul.
Numa estratégia de confronto pessoal, os meus ex-alunos, conquistaram-me o filho, levaram-no a discursar em comícios para camponeses, puseram-no a alfabetizar turmas de adultos. Era uma espécie de herói do nitismo. Chegou mesmo a assinar, apenas com quase 12 anos, documentos de conspiração.
Já aqui contei a minha fuga, em vésperas da tentativa de golpe nitista.
A ressaca foi terrível e o Ruca acabou por se sentir perseguido e, mais tarde veio ter comigo a Lisboa. Cansado da política, encontrava na escola portuguesa poucas razões para se entusiasmar. E nem mesmo o futebol, de que era exímio praticante, o fez aderir à vida portuguesa. Apaixonou-se. Acabou por casar aos 18 anos. Telefonou-me uma quinta-feira, para me dizer que casava no domingo. Se eu queria ir. Que não!
A mãe veio de Angola e apadrinhou.
Deu para o torto e quando se sentiu perdido voltou aos braços do seu amigo, companheiro, camarada e pai. Trabalhou comigo no "África" e ainda tentou uma conspiraçãozita...Voltou a apaixonar-se e a apaixonar-se e a apaixonar-se e um dia, com uma das suas paixões voltou à sua verdadeira paixão: à sua terra, ao Lubango, onde estavam os seus amigos e os caminhos da caça que ele conhecia tão bem. Onde estava o espaço dele, o oxigénio dele. Fui vê-lo ao Lubango e os seus olhos brilhavam de novo. Não havia dificuldades que o vergassem. Havia de vencer - assegurava-me. E eu acreditava.
Até que, há 14 anos, num 25 de Setembro, alguém me telefonou a dizer que o meu filho já não era o meu filho. Um simples desastre com uma moto, de que também era apaixonado, tinha-lhe murchado o brilho dos olhos. Desde aí, todos os dias passaram a ser mais difíceis, mas este gostava de o riscar do calendário.

Pedro Pires

Pedro Pires está em Lisboa e tudo indica que irá anunciar a sua recandidatura à Presidência da República de Cabo Verde, numa próxima ocasião, naturalmente em Cabo Verde.
Ainda sem ter a certeza de tal recandidatura, aqui estou a exprimir o meu total apoio, a minha inteira solidariedade.
Pedro Pires é um dos fundadores da Pátria Cabo-verdiana, um dos homens que mais trabalhou para viabilizar um país em que poucos acreditavam. Mesmo uma grande parte dos cabo-verdianos não cria na possibilidade de a sua terra se transformar num Estado respeitado.
As carências eram de tal ordem que o desespero era a resposta mais pronta, mais compreensível.
Todavia, o grupo que liderou a independência de Cabo Verde ( e durante um certo tempo, em simultâneo, a da Guiné Bissau) era proveniente de uma "nata" especial de homens: eram filhos de gente que apostou tudo na educação dos filhos; eles próprios eram conhecedores das dificuldades dos pais.
Para estudar tiveram que sacrificar os melhores anos das suas vidas; abandonaram as famílias, a sua terra. Só lhes restava estudar e intreressar-se pela envolvente que determinava a segregação em que a sua gente vivia.
O contacto com outros jovens, provenientes de outras terras, mas sujeitos, afinal, aos mesmos condicionalismos, abriu horizontes, criou solidariedades, ajudou a definir estratégias, a procurar apoios.
Pedro Pires é um dos impulsionadores de todo o movimento de luta anti-colonial verificado em Portugal e nas suas colónias. Fugido de Portgal em 1961, juntamente com um grupo de angolanos, que fez a rota de Marrocos/Argélia, depressa se juntou a Amilcar Cabral em Konackry.
Desempenhou todas as tarefas de militante empenhado na luta armada, dirigiu frentes de combate e, quando, finalmente, a possibilidade da Independência se colocou, ele foi o homem que encabeçou as negociações. Rodeado de um grupo de jovens - alguns dos quais ainda estudavam, nomeadamente na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa - conduziu as negociações que levaram à Declaração de Independeência da República de Cabo Verde, em 5 de Julho de 1975.
Durante 15 anos foi primeiro-ministro de um governo verdadeiramente heróico, já que, ao contrário de outros países, potencialmente muito ricos, Cabo Verde, muito pobre, foi crescendo, graças à tenacidade de políticas independentes, que não aceitavam transformar o povo cabo-verdiano num povo de assistidos, miseráveis, pendurados na caridade internacional.
No princípio dos anos 80 Cabo Verde crescia entre sete e oito por cento. E foi resolvendo os seus problemas. Por essa mesma altura, Aristides Pereira anunciava que "já não se morria de fome em Cabo Verde".
Foi Pedro Pires que, antecipando-se ao movimento da Perestroika, introduziu em Cabo Verde a discussão da liberdade política e pôs em causa o mono-partidarismo.
Quando, nos finais da década de oitenta, se iniciou a luta política, tendo já em mira um sistema multipartidário, Pedro Pires e os seus ministros foram insultados, vilipendiados por panfletos anónimos em que eram acusados de todo o tipo de corrupção. Todos eles "tinham contas no estrangeiro e privilégios sem conta".
Este movimento de panfletos anónimos foi claramente apoiado pelas principais figuras que entretanto se consideraram da oposição, sendo que algumas delas, como, por exemplo, Carlos Veiga, tinham enriquecido à custa de chorudos salários, pagos pelas tabelas internacionais das Nações Unidas, para elaborarem projectos de lei - tarefas que cabiam perfeitamente no seu estatuto de cidadãos (juristas) nacionais.
A Igreja Católica, comandada pelo bispo, D. Paulino Évora também teve o seu papel. Alguns dos panfletos anónimos sairam das suas tipografias.
Em 1991 o PAICV perdeu as eleições para o MpD, comandado por Carlos Veiga e durante dez anos desbaratou o capital acumulado pelo PAIGC/PAICV nos primeiros 15 anos de Independência do país.
Pedro Pires teve que voltar a viver na casa da mãe. Afinal, as acusações de que fora alvo e que contribuiram para a sua derrota eleitoral revelaram-se totalmente falsas.
Os seus conterrâneos da Ilha do Fogo, emigrantes nos Estados Unidos, cotizaram-se para lhe comprar um carro.
Voltou ao começo. Tinha que pôr de pé o PAICV. Encontrei-me várias vezes com ele durante esse período difícil. Viajava sózinho, tomava conta da agenda, das viagens, mas nunca desistiu. Disputou a liderança do partido em diversas circunstâncias e em 2001, depois de o PAICV, contrariando todas as sondagens, ter ganho a maioria absoluta nas eleições legislativas, Pedro Pires foi eleito, a seguir, por sufrágio universal e directo, como Presidente da República de Cabo Verde.
Já passou os setenta anos, Pedro Pires, mas continua com a mesma energia do primeiro-ministro que montou gabinete nas antigas instalações da Câmara Municipal da Praia e trabalhava desde as oito da manhã até altas horas da noite.
Mais do que um chefe político, Pedro Pires é, hoje, um pai de todos os cabo-verdianos, capaz da palavra certa, do conselho correcto e da acção decidida pela defesa da sua terra e da Pátria que ajudou a construir.
A sua recandidatura, mais do que um acto de justiça é uma acção de prevenção, porque a alternativa é, de novo Carlos Veiga, um verdadeiro compressor da política que tudo sacrifica em nome dos interesses dos seus familiares e dos seus amigos.

sábado, setembro 24, 2005

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA/5

Da segunda vez que fui à Muxima não foi por ser dos jornais, foi por devaneio. Fomos em dois carros vulgares de lineu, mas habituados aos caminhos angolanos. Eu ia de esposa, como um dos arquitectos, que levava a dele, outro arquitecto, um poeta madeirense e uma jovem senhora, muito badalada, à época, por ter sido envolvida num tórrido caso de homicídio.Poeta e arquitecto iam com o turvo olhar posto na dama.
Os casais puderam entreter-se com a paisagem, com o bucolismo da paisagem, passeando ao longo da fortaleza e assistindo ao ritual religioso com emoção. Como era fim de semana havia muita gente. Não só os crentes, creio que devia dizer as crentes, pois eram elas que faziam a despesa da conversa.
Na minha primeira visita fora-me facultada toda a história da "resistência". Fora em serviço, acompanhando a visita oficial, a primeira de um governador-geral, ao distrito de Luanda, o maior da «Província»!...
Visitar o distrito de Luanda não foi, não era, pouco coisa. Não tanto pelo tamanho, mas pelo conteudo. Foi a primeira vez que «vi» Catete. Até então era um ponto de passagem, quando se ia de viagem e só por alturas do Dondo é que se começava a pensar em almoçar. Desta vez deu para visitar a vila e com passagem pelo quartel militar. A Lia Gama morava por lá. Ela tinha casado recentemente e Catete como uma insólita lua de mel. De uma vez que o casal foi a Luanda acabamos por estender a noite folgazã e, de repente tinha-se perdido o transporte de retorno. Fui apanhar o Manel Ricardo, à saída do jornal. O Manuel Ricardo já era oficial miliciano, mas mantinha uma colaboração certo no jornal, onde o pai foi chefe de redacção. O Manel lá teve de fazer de motorista ao recruta. Gosamos um bocado com isso.
Claro que deixei o fotógrafo a cobrir a visita ao posto e fui beber um copo com a Lia. Ao fim da tarde fez-se paragem na reserva da Quissama, onde tinhamos à nossa espera um acampamento magnifico de bungalows. A visita ao parque foi de manhã e o que se viu de bichos não teve tamanho. Os fotógrafos deliravam. Quanto maiores eram os bichos mais pachorrentos pareciam. Dei por mim a pensar que os bichos tinham apreendido o turismo como meio de vida, uma espécie de reforma antecipada. Pobre fauna! Quantos deles não ficaram sem direitos adquiridos, ou mastigados por humanos famintos ou sem dentes ou outras partes dos esqueletos.
Naquele dia, porém, a viagem era uma lição da Natureza a pretexto de política administrativa.
Visitaram-se sanzalas. Ouvi discursos e baboseiras várias. A mata, sim a mata, era uma presença tremenda, inatingível. A Quissama tinha ficado para trás, já não se viam feras, mesmo que ali estivessem não se viam. Daquilo de se deixar ver ou não deixar, sabiam tudo.
Ao fim da tarde chegamos ao Muxima.
Jantou-se e pela noite dentro tivemos batucada. Já tinha visto algumas batucadas antes, no cinema. Ao vivo é como a cocacola publicitada pelo poeta-mór, que como se sabe gozou grande parte da sua infância e adolescência em África, «primeiro estranha-se, depois entranha-se».
Adormeci tranquilo, como se a África inteira me estivesse a sussurrar ao ouvido!
Alguma da História do meu país mora ali. Oxalá não se perca...

sexta-feira, setembro 23, 2005

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA/4

Uma noite destas dei por mim na Muxima. Sem nenhuma razão aparente. Vislumbrava umas vagas muralhas,um vago hotel, com quartos fortificados com parede de rede mosqueteira. Um povoado, à beira do rio imenso, com uma igreja nem sei se deva dizer épica, mas é o adjectio que me ocorre devido à presença e à força que lhe é emprestada pela crença religiosa. A Senhora da Muxima de então era uma luz de esperança e devoção. Vi muitas mulheres do povo, sentadas na igreja, a murmurar baixinho, como se cada uma estivesse só. Recordo-me de ter visto, numa manhã, uma mulher entrar, debitar os preceitos de modo atarefado e sentar-se a olhar a imagem da santa. Falou com ela. Desfiou as desditas, deu conta do que fez e trouxe à santa, do que lhe suplicou e de como cumpriu o que prometeu. Do que esperou dela e dela não recebeu. E eu pasmava e olhava em redor.
Não era fácil chegar à Muxima. Além das picadas extensas, havia que passar por cima de rios, em barcaças. Foi ali um dos vértices do triângulo onde os portugueses se mantiveram escondidos, durante o período dos Filipes, quando o território ultramarino foi ocupado pelos holandeses. Sessenta anos de comunhão, sem traições, sem que alguém tenha sido denunciado, sem que algum dos nossos tenha sido preso ou descoberto pelos novos ocupantes. É, quero crer, uma página de História na qual o heroísmo acentou na fraternidade, tão especial no espaço e no tempo que teve de ser santificada.Páginas de uma história esquecida.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Renato Cardoso

Faz hoje quinze anos que Renato Cardoso foi assassinado na Cidade da Praia. Daqui, de Lisboa, dedico-lhe o meu pensamento, honro a sua memória e declaro a minha saudade de um amigo bom, de um homem inteligente, dedicado à sua terra e à sua gente.
Daqui, de Lisboa, do mesmo sítio onde recebi a notícia fria da sua morte lamento que um manto inexplicável tenha caído por cima de um assassinato hediondo, cujas razões nunca foram devidamente explicadas. Desta mesma cidade que o viu crescer como jurista de grande conhecimento e sabedoria digo da minha tristeza pelo esquecimento a que os seus votam a sua memória.
De dentro do que mais profundo existe em mim rendo a minha homenagem à sua coragem nas inúmeras lutas políticas que travou e de que resultaram sempre avanços para o progresso do seu povo. Faço vénia ao seu empenhamento na luta pelos ideias da democracia, cujos princípios enunciou antes que outros aproveitassem as ondas internacioinais para se perfilarem num combate pelo poder.
Neste triste aniversário, como seu amigo, sinto-me na obrigação de informar os cabo-verdianos que Renato Cardoso, pouco tempo antes de ter sido abatido por um profisisional que não deixou pistas, tinha sido convidado para trabalhar fora da sua terra, a troco de uma proposta milionária - que ele recusou - porque, como dizia, a sua gente precisava dele.
E precisava mesmo. Só que já passaram quinze anos sobre o som dos tiros assassinos e a sua gente já nem se lembra do dia. Os seus pupilos, aqueles em quem ele depositou as suas esperanças, têm , pelo menos, que honrar a sua memória, a sua honradez de carácter, a sua crença num Cabo Verde para todos os cabo-verdianos.

sábado, setembro 17, 2005

Os Heróis e as Vítimas

Chega-me a notícia de que alguns "heróis" se preparam para narrar em livro - que alguém há-de escrever - as suas vidas heróicas. Sem falar de nomes, uma vez que a notícia apenas traduz uma intenção, não posso deixar de fazer um aviso à navegação. Os heróis morreram - alguns foram mortos com balas nas costas... e outros serviram de carne para canhão
Os que agora se chegam à frente para contar estórias fugiram sempre na hora certa e reapareceram estranhamente com verdadeiras fábulas nas línguas.
Hoje quero prestar homenagem a alguns dos que tombaram porque se disponibilizaram para defender a terra que era sua de uma invasão de tropas estrangeiras.
Estamos em Outubro de 1975. Em Agosto, o MPLA tinha tomado conta da cidade do Lubango e , desde então, as notícias de uma concentração anormal de tropas na fronteira com a Namíbia recomendavam a necessidade de um reforço militar da região.
Todavia, tal não aconteceu, o MPLA como que esperava uma intervenção militar a Sul, por parte da República da África do Sul para a exibir à comunidade internacional. E até as tropas cubanas, que já se encontravam nessa altura em Angola, preparavam uma linha de defesa a meio do território. Estava decidido: todo o Sul, até Novo Redondo, inclusivé, seria entregue ao inimigo. As populações? Que interessava isso?
A invasão não se fez esperar. Com uma cavalgada sem paragens, um simples grupo de reconhecimento depressa se pôs às portas do Lubango, tomando, sem resistência, a cidade. Alguns dos que agora "ameaçam" com a estória das suas vidas heróicas pura e simplesmente fugiram às suas responsabilidades e puseram o corpo ao fresco.
Por causa deles muitos outros morreram.
Entre eles, um jovem estudante universitário, José Sequeira, que era chamado de "Cubas". Não sei por que razão, mas era assim que o conhecíamos na faculdade.
Na onda de pânico que se seguiu ao aparecimento das tropas sul-africanos, vários grupos de jovens, sem experiência militar, resolveram partir ao encontro do inimigo.
Foram presas fáceis, abatidos tiro a tiro e mais tarde recolhidos por funcionários e camions da Câmara Municipal. Enterrados em valas comuns.
Depois que as tropas sul-africanas, pressionadas pela diplomacia americana e pela pressão militar cubana, retiraram, voltei ao Lubango. A cidade tinha sido vandalizada pelos vários grupos de assaltantes e criminosos que por lá foram passando: sul-africanos, mercenários. UNITA, FNLA, todos contribuiram para o descalabro. Tarefas ingentes nos esperavam. Esse regresso não foi, todavia, pacífico. Contá-lo-ei lá mais para a frente.
Dois ou três meses depois do regresso, verificado a 18 de Fevereiro de 1976, fui procurado por um senhor que dizia chamar-se José Sequeira. Vinha de Luanda. Alguém lhe indicou o meu nome como sendo a pessoa capaz de resolver o grande drama da sua vida. Tinha perdido o rasto de seu filho. Algumas notícias davam-no como morto, outras alimentavam-lhe a esperança de ter escapado e se encontrar algures.
Esta última versão era suportada por sua mãe que, sistematicamente, dizia ter recebido telefonemas do seu querido neto, o Zé.
Eu tinha a certeza de que o "Cubas" tinha morrido, mas não tinha provas. Fiquei sem palavras, mas prometi ao pai daquele meu amigo fazer os possíveis para o ajudar. Nesse mesmo dia, falei com o camarada Cassiano, que trabalhava na Faculdade de Letras e era o presidente do Comité do MPLA na zona conhecida como o quilómetro nove ( na estrada que ligava o Lubango à fronteira Sul).
Expliquei-lhe o que se passava; prontificou-se de imediato a ir connosco ao local, onde, segundo ele, o camarada "Cubas" tinha tombado.
Percorremos em silêncio um caminho de mato desde a estrada até a umas árvores indicadas pelo Cassiano. Parou e explicou que o filho daquele homem que ali estava tinha sido morto atrás daquela árvore, ainda marcada por balas que também a trespassaram, ou simplesmente rasparam.
Cassiano era peremptório e a sua certeza fez-me baixar os olhos. Que dizer a um pai que ainda tem alguma esperança e, de repente, alguém lhe diz: "o seu filho morreu aqui"?
Com os olhos baixos percebi uns vidros verdes no chão. Debrucei-me e apanhei-os. Era os estilhaços dos óculos do "Cubas". Não havia qualquer dúvida. Os três os reconhecemos.
José Sequeira pai estremeceu e suponho que para reprimir o grito que teria solto se estivesse sózinho, deu-me um abraço. Ficámos abraçados por largo tempo e não mais trocámos uma palavra. Levei-o de volta ao Grande Hotel da Huíla onde estava hospedado e nunca mais dele tive notícias.
O "Cubas"- e não só - foi vítima não apenas da sua juventude e do seu voluntarismo. Foi vítima da incapacidade do MPLA de organizar o que quer que fosse e do oportunismo e da ganância e da cobardia de muitos dos chamados dirigentes.
Espero que alguns deles, antes de publicarem as suas "biografias heróicas", repensem as suas responsabilidades do passado.
E já agora, uma sugestão ao poder angolano: é tempo de prestar homenagem a quem deu a vida por ideais que o tempo rasgou, mas que alimentaram a esperança e os sonhos de uma juventude que nenhum movimento político mereceu.

A QUESTÂO DOS LADOS

Preferi assim (o título) porque gosto mais de tratar de certos assuntos no feminino. Ver, como foi visto ( e logo por quem!), uma menina na cama do padre é quase pejorativo para o sacerdote, mas se for a dama a seduzir o prelado é quase divino. No livro de Da Vinci explica-se isso melhor! Torna-se displicente recordar o «padre Amaro». Desde sempre os portugueses embrulharam essas coisas num esclarecido «a carne é fraca»...
E fraca parece ser a dignidade de certos políticos, envolvidos em eleições próximas.
Comentar a intrigalhada que foi o frente-a-frente autárquico é mais comum entre comadres e isto não tem nada a ver com o facto casual de um deles se chamar Maria e o outro lembrar um verbo de encher. Nem provavelmente as senhoras que vendem hotaliças no Bulhão seriam capazes de tamanha vulgaridade.Passo por cima, não quero saber, mas a conversa, a que não assisti, apenas vi um pedaço no Telejornal, que delirou com a facécia, suficiente, adiante-se, para me poupar o incómodo, de ir votar. Naquelas criaturas, não, muito obrigado! E, nos outros, sem querer pôr em causa a capacidade e a postura, nem vale a pena! E se não posso evitar o inevitável, posso abster-me.
Mas quem se devia abster de dizer o que disse, no Funchal, sobre o «off shore» no arquipélago
era o senhor economista, que já foi ministro das Finanças. Se o tivesse dito em Lisboa, Londres ou Nova Iorque, muito bem, mas tê-lo feito na Madeira, aonde fora convidado, cheira a frete.
Valha-nos Co Adriaanse, um exemplo de democrata, para quantos o quiserem ouvir! Um sujeito deste género é que fazia arranjo para a Câmara de Lisboa...
Mais discreto andará, alguém, em Angola a empurar a selecção para o Mundial de 2006. Falta um pontinho, um só que seja... Desculpem, não é africano quem quer, só o é quem pode ou merece. Eu nem sempre consigo e, em verdade vos digo, que não me lembrei de outra coisa para africandar!...

sexta-feira, setembro 16, 2005

O Sr. Freitas

Antes que volte a aquecer - é que eu vou mesmo contar o que me aconteceu na terra que eu ajudei a "libertar" - ainda tenho a estória do dr. Freitas para contar. Ocorreu-me a propósito daquele despropósito de me colocarem numa turma de repetentes, porque um chefe de secretaria idiota mandava e pronto.

No Liceu toda a gente detestava o sr. Freitas e todos perguntávamos pelo sr. Vieira, um senhor que mais tarde foi promovido a chefe da Secretaria do Liceu Diogo Cão e que tratava connosco com urbanidade.

Portanto, quem tinha um problema da secretaria chegava ao balcão e perguntava: " o sr. Vieira?". Resposta do chefe da secretaria, o tal sr. Freitas " o sr. Viêira non tá, foi cagá". Assunto encerrado.

Um dia, o sr. Freitas foi de licença graciosa, para Gôa - dizia-se . E por um dia daqueles o dr. Higino Vieira, com o seu ar sério, com os óculos em cima do papel, começou a chamar-nos à secretaria, para assinarmos os selos das propinas - assim uns selos castiços, com uns mochos amarelos, verdes, azúis.

Chegávamos ao balcão da secretaria e ele tinha um livro enorme com os selos colados e dizia: "assina aqui". Lá fazíamos o melhor que sabíamos e outro assunto arrumado.

A coisa começou a ser comentada: "então porque é que andamos agora a assinar os selos do ano passado, de há dois, de há três anos ?"

Fácil: o sr. Freitas tinha um único acto simpático para com os alunos do Liceu Diogo Cão: aceitava o dinheiro das propinas, não nos obrigava a ir aos serviços de Finaças (Fazenda) comprar o selos.

Só que... metia o dinheiro no bolso e quando foi de graciosa, mais ninguém soube dele.

Para que tudo ficasse certo, alguém (os Serviços de Educação, naturalmente) comprou os selos para nós assinarmos

Auto-penitência

Voltemos atrás, para isto não ficar muito pesado.

Férias grandes do meu terceiro ano do Liceu. Lubango. A vida correu-me mal pela primeira vez. Quando cheguei ido de Nova Lisboa, matriculei-me no terceiro ano - já vos contei o meu exame do segundo na Escola 32 .

Começo das aulas. O movimento habitual, ver as pautas, saber a turma. O meu nome não aparece em parte nenhuma. Fui à Secretaria falar com o sr. Freitas, o chefe da dita, um goês com um sotaque estranho.

O homem achou muito natural que o meu nome aparecesse como o nº 14 do 2º C. Era fácil resolver. Transferiu-me para o nº45 do 3ºC.

Quando às vezes ouço as conversas dos professores de hoje não raro deixo escapar um sorriso. Acham insuportável - e eu até entendo - turmas de 25, 28 alunos.

Eu coexisti com mais 44 outros numa turma do terceiro ano do Liceu - tinha eu 12/13 anos. Alguns dos meus colegas eram repetentes e ali cultivava-se, sobretudo a indisciplina. Era fácil ser herói por um dia e depois ganhar-lhe o gosto. Foi o que me aconteceu. E, de repente -o tempo passa sempre a correr - estava reprovado. Uma dor funda no peito, um desgosto imenso por causa dos olhos tristes do pai, do ar desgostoso da mãe.... essas coisas.

Resolvi cumprir a minha própria petinência: não sair de casa, não jogar a bola, não jogar hóquei e basquetebol e tudo isso. Ler. Passou a ser o meu único afazer. De manhã à noite, lia.

Alimentava o meu novo vício na biblioteca da Missão do Lubango, uma casa onde viviam os missionários que trabalhavam no Sul de Angola. Quando vinham ao Lubango tinham ali a sua casa. E moravam lá também os que exerciam o ministério na cidade.

Lá conheci o venerável Padre Carlos Esterman, um alsaciano de barbas hisurtas e cabeça lúcida, autor de uma obra notável sobre os usos e costumes dos povos do Sudoeste angolano.

Uma ou duas vezes por semana saía de casa e ia à Missão levar uns e trazer outros livros. Mais tarde, quando o padre Gonçalves resolveu criar uma Biblioteca paroquial, eu e o meu irmão é que a organizámos. Muitos anos depois ainda lá fui descobrir as fichas escritas com a minha letra de adolescente.

Um dia, depois de almoço, fui buscar mais livros. A biblioteca estava fechada. Fui bater à porta de um dos padres, que, por acaso, a ia abrir, sem contar comigo. Em cima da cama, com olhar assustado estava uma das rapariguinhas que eu via por lá, no serviço domésico. O sr. padre ficou escarlate, meteu a mão no bolso e deu-me a chave da biblioteca, que nunca mais ficou fechada.

A cena baralhou-me a cabeça, mas, logo a seguir, resolvi começar a ler outras coisas. Entre elas Pittigrilli.

quarta-feira, setembro 14, 2005

As Armas

Aquele país já não cabia nas suas ideias estreitas. Os termos da libertação por eles definidos já estavam cumpridos.
Estas duas frases de um dos meus anteriores escritos desencadeadaram algumas tempestades. Nada de grave. São os mesmos argumentos, as mesmas preocupações de quando, em Abril de 1977, nas vésperas da tentativa de golpe de estado de Nito, cheguei a Lisboa cansado, farto de todas as tropelias de um poder cego, capaz apenas de gerir os conflitos internos de si mesmo, tentei publicar, escrever, falar, dizer, o que me ia na alma. "vais dar armas à direita... vais... não sei o quê... e mais sei quantos..."
Lembro-me, inclusivé, que por essa altura alguém recuperou o título de um jornal " A Gazeta do Mês". O Adelino Gomes, assim uma espécie de "vaca sagrada" do chamado "jornalismos da esquerda", chefe de Redacção da publicação, prontificou-se a publicar-me alguns textos . O primeiro que lhe mandei chamava-se qualquer coisa como "O Poder Assimilado dos Africanbos" e, no essencial, afirmava que as entidades e os homens que tinham tomado o poder em África, em nome do povo africano, mais não faziam do que exercer o poder em nome de valores das sociedades industrializadas, quer do Ocidente, quer do Oriente, e que os valores dos povos africanos estavam a ser mais espezinhados do que tinham sido com a colonização.
Houve uma espécie de escândalo de confraria e o meu texto foi publicado em corpo oito, num verdadeiro buraco de composição. Não me parece que alguém o tenha lido, o Adelino tinha cumprido o seu papel de "papa" e eu não publiquei mais nada.
Desta vez, todavia, é diferente. Aqui estou na Net, para explicar aquelas duas frases.
É muito simples.
As únicas bandeiras que os movimentos de libertação agitavam eram as da segregação racial. Uns de uma maneira, outros de outra. O MPLA, sem perceber que o trabalho contratado já não era compulsivo e que as regras definiam uma série de obrigações dos empregadores, insistiu na ideia do trabalho "escravo". Resultado: destruiu toda a estrutura produtiva do país.
Pelo seu lado, a UNITA reclamava-se representante dos povos Ovimbundus, esquecendo o mais elementar: todos esses povos tinham sido, ao longo dos tempos, os mais destribalizados, porque também os mais activos aliados da penetração colonial do litoral para o interior. Os ovimbundus serviam, sobretudo, na administração colonial.
A FNLA, finalmente, na senda do que havia realizado em Março de 1961, seguindo os ensinamentos de Franz Fanon, defendia, pura e simplesmente, a guerra contra os brancos, mulatos e negros que soubessem ler.
O desenvolvimento do país, o bem estar das populações...tudo isso era conversa de colonos.
Quando se esperava que as forças políticas protagonistas de uma guerra de 13 anos aparecessem com propostas no sentido de colocar a democracia no centro de toda a a discussão, não. Todas elas tinham uma ambição: conquistar o poder absoluto. Tudo podia ser - e foi - sacrificado em nome deste objectivo.

RECORDAÇÕES PARA NÂO RECORDAR

O amigo que me telefonou de Macau estava perdido de riso. Tinha lido num jornal de lá uma crónica sobre a brigada do reumático.
Reconheço que eu próprio me afastei muito da realidade militar, desde que o 25 de Abril deu no que deu. Os militares deram o seu golpe, ganharam a «guerra» deles, recolheram aos quarteis e a malta que se lixasse.
Agora parece que estão noutra. A brigada do reumático é que parece igual e de qualidade muito semelhante. Acomodados tal e qual, com a mesma falta de graça e com a sensação de que nada de mal lhes pode acontecer. Esperam do governo um porvir iluminado e generoso.
Os revoltados podem não ter razão; podem não concordar com a perda de direitos, liberdades e garantias de bem estar, como os outros cidadãos comuns. Os cidadãos comuns não têm mais razões e menos direitos, mas não têm armas. Claro que podem manifestar-se atrás dos sindicatos, mas é um blá-blá sem significado ou consequência, ainda que uma vez ou outra possa aliviar a consciência.
Nos países africanos qualquer sargento pode levantar-se e,se for lépido, tomar o poder, mastigar os adversários ou simplesmente fuzilá-los. Mesmo sem necessidade de se manifestar previamente. Com a economia pelo caminho que leva a nossa e nos arrasta com ela, quanto tempo faltará para que um qualquer sargento nos possa valer?

terça-feira, setembro 13, 2005

Com os olhos de mais do que ler

Ali vai ele, com o seu passo trôpego, desenhando gestos impossíveis em luta corpo a corpo com o vento e com o invisivel fio de prumo que afina o norte de um homem; ali vai ele, sem saber que o sigo com o olhar, de uma ternura preocupada, da janela do meu terceiro andar de periferia.
Nesta rua que ele vence, chegado talvez de Lisboa, no comboio suburbano, eu já encontrei, num antigamente perdido, o meu querido amigo Agostinho da Silva, já saudei o poeta José Bento (que é assiduo, no seu passo lento muito elegante) e o Augusto Raposeiro (que conduzia o Chaimite do Carmo no mágico 25A e resiste com uma livraria chamada Astrolábio, aqui onde mal chega a rádio para ler o mundo quanto mais o apetecimento de o ler impresso...), mas ele, o Manuel da Lello, é o meu herói secreto, com o seu olhar doce, a sua serenidade aflita, a sua delicadeza ferida pela doença que tolhe os movimentos não o seu desejo de que eles sejam dança.
O olhar do Manuel da Lello (da livraria Lello, de Benguela) tem uma luz que pousa no nosso ombro, uma luz táctil. É um olhar que olha e lê, que nos olha e nos lê, numa espécie de esperanto que é um dom, talvez. Ou uma sageza.
O Manuel, meu amigo de falas intermitentes, nestes dias de uma pressa desvairada, foi um anjo da guarda das minhas primeiras leituras. Eu tinha 17, 18 anos, voz grave que enganava quem me sabia só da Rádio, e entrava com os meus olhos de ler, ávidos, na casa dos livros de que ele era o faroleiro tranquilo e amável. E ele, quando viu nesses olhos as perguntas que eu ainda não sabia fazer, passou-me, sussurrados, alguns livros para as mãos. Um deles, "As Novas Cartas Portuguesas". E outros, muitos, igualmente proibidos. Devo-lhe muito mais do que isso.
Devo-lhe o tanto de que me fui esquecendo e que me deu com os seus olhos de mais do que ler.
Passou agora na minha rua, a sonhar acácias.
E eu segui-o da minha janela, como se pudesse aconchegar os seus movimentos de uma coragem dorida, contra o vento.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Tarzan Taborda

Chegou a ser duplo em Hollywood, partilhou o seu naco de glória com John Wayne e com um tal Robert Mitchum e isso não foi pouco. Sei do que falo. Mitchum, que foi vagabundo (aliás, preso por vadiagem) antes de, tantas vezes, me desafiar a que segurasse, a seu lado, com os cotovelos, balcões de saloon, pousara os olhos na viçosa Marilyn, em "River of no Return",no ano em que eu nasci, e já me fizera acreditar que tudo é possível, nas gloriosas matinés do Cine Benguela.
Nessa minha África de salas às escuras, eu era mais de oestes e menos de tarzans. Ainda por cima, o musculoso Albano de Penamacor chegou a Luanda quando eu já folheava o "Notícia" com olhos "entendidos", imitando secretamente o ar falsamente distraido e sonolento do amigo de Wayne. Mas, não obstante ter apanhado de ouvido, na esplanada do Tan-Tan, que "aquilo da luta livre era tudo combinado", fui tocado pelo halo dos deuses, quando o gigante com tanga de leopardo começou a distribuir bifardos em sucessivos focinhos, de cidade em cidade, enchendo estádios e atordoando caluandas e cabeças de pungo, de Luanda a Porto Alexandre. A mistura de Tarzan e Hércules, com sotaque beirão, irradiava a luz de um Olimpo de papelão em quadros de uma tocante "humanidade". Qual Weissmuller! O Taborda, agora desaparecido, o Albano de Penamacor, foi sempre o meu Tarzan. Escolha de instinto juvenil, os cotovelos segurando o balcão do saloon ao lado do sonolento Mitchum que, soube-o mais tarde, foi pugilista profissional antes de fazer cera com o gigante, agora exilado na Fonte da Telha. "Isto a vida dá muitas voltas", diria eu se não parecesse conversa de retornado...

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA/3

Li hoje duas crónicas de Leston Bandeira que bem gostaria de assinar, mas semprer que tentei descrever aquela realidade, sentia-me com falta de peso para expressar posição na matéria. Quando referi,ao de leve, o Instituto do Café, sem pôr a tónica no peso que impunha em Londres e na influência que exercia sobre países vizinhos ao «nosso», senti receio que me atribuissem algum compadrio com o regime. Recordo-me de uma vez, quando um secretário de Estado do Comércio, visitou Luanda, o governador Rebocho Vaz, um dos que ainda não tinha percebido que a «colónia» o ultrapassava e fugia da mão, ter pedido aos directores dos meios de comunicação para mandarem alguém ao Palácio, para um curto encontro com o senhor Secretário. E fez algumas recomendações, as quais deviam ser expressas aos jornalistas, para não chatearem o membro do governo de Lisboa. Como sou sábio perguntei a alguém do Instituto que diabo havia eu de perguntar ao enviado do Lisboa?
Café era assunto tabu. Digamos que funcionava como que um acordo de cavalheiros: o governo não se intrometia com a estratégia do Instituto e este não beliscava na política do governo. Portanto, imaginem, quando no intervalo de um golo de um qualquer golo de alcool, do mais caro, eu intervim, com um pequeno introito: «Mal pareceria, senhor secreário deEstado, estarmos em Angola e não se falar de café»... Um silêncio gelado e eu sentindo as orelhas a arder prossegui: «Não será exagero da nossa parte, sendo Portugal (?) , nesta altura o maior produtor mundial de café, os portugueses serem os únicos cidadãos dos países consumidores de café a não beber café puro, continuarmos a beber essa mistura arcaica?»
O homem de Lisboa sorriu e respondeu de forma bem humorada: «vocês têm razão!». Lembrou o que toda a gente sabia: que inicialmente a mistura teve por base salvar a cultura da chicória (a que se juntava, sem ser referido, grão feijão e outras anormalidades) o que forçava o café de Lisboa a ser quase tão mau como o espanhol! E ele, membro do governo, revelava que este caso estava em vésperas de ser reapreciado. De facto duas semanas depois a legislação foi modificada e o café passaou a ser café, só café...e que café (publicidade de uma marca de nescafé)!
Nesse dia, o homem do Instituto clarificou: «tinha que ser um estranho a levantar a questão. Na imprensa não se podia abordar o assunto, que a censura cortava e o Instituto e o governo não dialogavam. Em todo o caso do outro lado estava Marcelo Caetano, mais maleável do que o homem das botas...

O Princípio

O pós-25 de Abril em Angola, para quem ansiava pelo fim do sistema não foi fácil. O território vivia sob o mais forte obscurantismo. Ninguém esclarecia nada nem ninguém. As conversas de que os programas radiofónicos dos movimentos de libertação tinham grandes audiências no interior, é pura fantasia. Para a população que vivia em Angola não havia guerra. Os seus efeitos estavam contidos em parcelas diminutas do território.

Para quem, como eu, tinha feito quase quatro anos de tropa em diversas circunstâncias, aquela guerra não passava de uma indústria. Estou convencido de que mais de 60 por cento do orçamento contabilizado como para custear a guerra era pura e simplesmente roubado. O roubo começava no cabo do rancho e continuava por aí fora até chegar às altas instâncias, aquelas que controlavam as grandes compras de material de guerra, material auto, fardamentos, logística, etc.

A notícia do 25 de Abril foi recebida no Lubango, onde me encontrava na altura, com grande alegria por meia dúzia de pessoas e com grande ansiedade pela grande maioria. O nome do general Spínola preocupou a meia dúzia e alegrou a maioria.

Eu era o director da Rádio Comercial de Angola (ainda estou para saber onde é que o Emídio Rangel foi arranjar aquela ideia de que foi ele que mandou dar a notícia do golpe em Lisboa...). Tinha o privilégio de ter a trabalhar comigo o Fernando Alves, então um jovem e talentoso jornalista que tinha a minha total confiança. O Leonel Cosme era o administrador delegado.

Nesse mesmo dia, aquela Rádio (Comercial) se transformou na primeira voz livre de Angola. Olhando para trás sou capaz de admitir que cometemos alguns erros. Mas pagámo-los, porque, entretanto, o Comandante Venâncio Guimarães Sobrinho, mandatário de todos os accionistas da Rádio Comercial, na prática a única Rádio privada de Angola, nos despediu com um argumento de substância: "eu não lhes pago para dizerem bem de mim, mas, seguramente, também não lhes pago para dizerem mal de mim..."

O pior foi receber a indemnização a que tínhamos direito. O nosso (meu) interlocutor foi o engº. Cardoso e Cunha, genro de Venâncio Guimarães e o administrador de todos os seus empreendimentos. O diálogo entre mim e ele não foi simpático, mas pagou. A Rádio Comercial foi, de novo, entregue a um senhor chamado Carlos Alberto - que esqueceu o que estava a acontecer no país.

Eu e o Fernando Alves ficámos desempregados. A Zi, que era professora, além de trabalhar na Rádio Comercial, ficou triste mas tinha emprego, o Saraiva Coutinho fez um jogo de cintura e lá continuou, o Carlos Carvalho, um dos frutos da nossa "Rádio Escola" embarcou para Lisboa...

Eu concorri para dar aulas no Liceu Diogo Cão. Fomos despedidos em Setembro de 1974, depois de ainda termos tido o prazer de silenciar a Rádio Comercial por três minutos para assinalar o assassínio de Salvador Allende. Antes disso citámos tudo, desde Nietchze a Mao Tsetung e apoiámos todas as lutas, desde que contra patrões retrógrados.

domingo, setembro 11, 2005

A estórias da História

Tem-me dado prazer recordar alguns dos primeiros anos da minha vida passada no Paraíso, antes que o Senhor tivesse mandado Lucifer para nos expulsar.

Prometo voltar a eles, mas talvez seja tempo de começar a satisfazer a curiosidade dos que, de vários modos e em diversas circunstâncias me incitam a escrever o que sei, o que presenciei. É tempo.

Só um parêntesis para lembrar Mário Pinto de Andrade, com quem estabeleci relações de amizade em Cabo Verde. Nas longas conversas que íamos tendo, havia quase sempre uma provocação minha: "então, Mário, quando é que conta aquilo que queremos saber, os bastidores da luta, as razões do abandono, essas coisas todas?"

"Sabes como é que começou a Revolta Activa? Um miúdo, assim como tu, chegou-se ao pé de mim, e com o mesmo jeito, perguntou: então, camarada, quando é tomamos posição?" O miúdo de então era o Adolfo Maria.

Todos sabemos que a Revolta Activa acabou por não se traduzir em grandes resultados. Foi uma divisão importante dentro do MPLA, com muitos dos seus intelectuais de maior valia a abandonarem a linha dominante de Neto.

As minhas estórias não terão seguramente consequências , mas tenho a curiosidade de saber se esclarecerão algumas dúvidas.
Vamos a elas.
A primeira grande questão a colocar é a de saber se quem chegou para tomar o poder, em 1974, sabia o país que os esperava?
A minha resposta é não.
Ninguém dos que andavam na mata ou nas chancelarias a promover a luta pela Independência de Angola sabia exactamente que terra queriam libertar. Falavam todos de uma realidade que já não existia e esqueciam, deliberadamente, a nova Angola.
Mais grave que esquecer a nova realidade económica , era esquecer a sua nova realidade social, assente no desenvolvimento de um sistema escolar que a própria OUA classificou como o mais avançado de África, na aplicação de novas leis do trabalho, que eliminaram totalmente toda a realidade praticamente esclavagista que vigorou até ao início dos anos 60.
Toda a propaganda política era desenvolvida em cima de realidades mortas, portanto, quando os dirigentes, quer do MPLA, quer da UNITA quer da FNLA, chegaram ao terreno ficaram estupefactos e sentiram-se ultrapassados.
Aquele país já não cabia nas suas ideias estreitas. Os termos da libertação por eles definidos já estavam cumpridos. Em 1974, do que se tratava era dar independência política a uma sociedade que já o era do ponto de vista económico e social.
Não o entenderam assim os libertadores do povo e utilizavam uma terminologia política arcaica, falando, por exemplo, em reconstrução nacional como se o país tivesse suido destruído. Ora, a verdade é que Angola era um estado em plena construção, com milhares de quilómetros de estradas a rasgá-lo de Norte a Sul, do mar para o interior, com uma indústria cada vez mais pujante, com uma agricultura que garantia autonomia alimentar e já permitia a exportação de alguns produtos, com uma agropecuária de grande luxo, que também já impulsionava a exportação de carne.
O que é que estava mal ? A dependência de uma estrutura anquilosada, de um sistema político retrógrado, de uma organização económica que desviava para os cofres do Banco de Portugal as divisas conseguidas com o ferro, diamantes, petróleo, café, farinha de peixe, carne, milho, etc., etc. exportados de Angola.
Quando os tais libertadores chegaram de que falavam? Todos eles destilavam ódios raciais. Era preciso desalojar os que, mercê do seu empenhamento, do seu trabalho do seu amor à terra, tinham construído aquele que, juntamente com a República da África do Sul, eram os únicos com reais possibilidades de se constituirem em estados africanos independentes.

sábado, setembro 10, 2005

O Retiro (2)

A Missão da Huíla era o centro nevrálgico de uma região agrícola, ela própria convertida numa enorme quinta onde se produzia de tudo. O trabalho começava cedo e o recolher pouco depois do pôr do Sol. "Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer".

Não me lembro quantos eram os "retirantes", mas não seriam mais de vinte, todos entre os 14 e os 16 anos, que eram, naturalmente, obrigados a cumprir um programa. O coordenador de toda a actividade era o sr. Padre Mário, um goês rechochundo e que ainda tinha aquela pronúnica peculiar da sua gente.

Assim que chegámos, eu e o Trabulo fomos dar uma volta pelas redondezas e logo arranjámos maneira de comprar uns arcos e flechas a uns pastores, que igualmente nos ensinaram os fundamentos de toda a tecnologia. Aprendemos a fazer os arcos (acho que ainda hoje sei), as flechas e a atirar.

Estava , portanto, definido o nosso passatempo e enquanto os restantes membros do grupo ouviam palestras, rezavam e faziam penitências várias, nós os dois testávamos a nossa pontaria - todos os dias melhores.

Todavia, um dia rebentou uma daquelas tempestades africanas. O dia fez-se noite. Os raios choviam quase tanto como água. Faziam um barulho impressionante :"RaaahhhhBuuuuoom!!!" e um clarão ofuscante. À volta da Missão havia uma mata com árvores bem altas.

Nesse dia, não havia testes de pontaria. Tivémos que ir com os outros cumprir o programa. O meu irmão já andava zangado comigo, desde o primeiro dia.

Numa sala relativamente grande, com uma mesa também demasiado grande para as circunstâncias, o padre Mário dissertava ácerca do Inferno do diabo, do pecado e essas coisas. Ele estava sentado numa ponta da mesa e o candeeiro a petróleo colocado na outra, pelo que o padre estava na semi-penumbra e todos nós na penumbra total. Eu e o Trabulo estávamos no fundo da sala e observávamos a cena e, pelo meu lado, apercebi-me do efeito das palavras do padre.

A tempestade durou toda a palestra e prolongou-se pelo jantar. Quando amainou era tempo de deitar.

Nessa noite os dois archeiros do grupo resolveram fazer de fantasmas e, com uns lençóis na cabeça, entraram em cena na camarata onde dormiam todos. Foi o pavor.

De tal modo que, o padre Mário apareceu em pijama e zangado, a perguntar: "mas, afinal, isto é um retiro ou uma cóboiada?"

No regresso a casa ficou" combinado", entre mim e o meu irmão", que tudo tinha corrido execelentemente e eu me tinha comportado como um verdadeiro exemplo. O arco e as flechas eram apenas um "souvenir". Só muitos anos depois lhes perdi o norte.

sexta-feira, setembro 09, 2005

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA/2

Para entender os que cresceram em África, não basta ter lá estado, como eu, uma dúzia de anos. Vivi a experiência de ver os filhos crescer e, depois, de novo em Lisboa, roído de saudades deles, que era afinal, e também, a nostalgia africana. Hoje, os filhos já ultrapassaram a idade que eu tive, quando saí. Não sei se eles têm ou não a nostalgia da mocidade, mas têm, isso sim, um rancho de filhos. Quero que eles saibam que também eu podia ter sido campeão...
Já entenderam porque não posso recordar as brincadeiras com odor a Jacarandá ou a olhar os imbondeiros casmurros. Para poder africandar, como os outros, tenho de procurar matéria comum ou improvisar, de modo a não parecer que faço batota.
Recuo pelo tempo até chegar a Melão, o avançado africano chegado ao Benfica nos anos 40. Habilidoso, mas franzino, de futebol curto. Tão ágil como frágil. Não devia ser pouca coisa roçar constantemente pela terra batida, onde então se jogava e se jogou por muito campo lusitano, anos e anos a fio, até à entrada dos idos de 80 (!), quando um ministro PS, com pelouro do desporto, determinou o fim do foot prof em terra batida. Foi o Estado a arcar com subsídios para os arrelvamentos...
Antes disso, antes mesmo do 25 de Abril, calhou ao Leixões receber um clube, creio que suiço, para a Taça das Cidades com Feira, que antecedeu a extinta Taça Uefa. E jogou em casa, num daqueles pré-históricos campos de terra batida, para pasmo suiço. O Leixões havia perdido por cinco-zero, na primeira mão, mas apurou-se ao vencer em casa por seis-zero o adversário. Foi um escândalo, por causa do campo. Por isso, o governo determinou e a Federação mandou cumprir que qualquer clube envolvido em competições internacionais teria de jogar em estádios devidamente arrelvados. Logo depois, sobrava outro escândalo: num sorteio, saiu a uma equipa portuguesa enfrentar-se com um conjunto da Alemanha de Leste!
Salazar achou demais e não perdeu tempo a clarificar: não senhor,ponto final, parágrafo. A Portugal não vem ninguém oriundo de países comunistas, tufa, toma lá e vai-te curar! E lá foi o clube da minha terra jogar: primeiro na suja e feia Alemanha de Leste; e o segundo match na Alemanha Ocidental!
O ridículo foi mais forte e pesou mais. Pesou tanto que isso acabou.

Por volta de 76/77, já Melão não jogava à muito e o Eusébio também não, o Benfica foi a Moscavide (!!!), onde empatou a zero; para a segunda mão, na Luz (com relva), os soviéticos chegavam a Lisboa na véspera do jogo, numa altura em que «O Diário» conduzia uma luta ideológica contra o futebol, «o ópio do povo!», e que os meios de comunicação social burgueses
embriegavam os que os liam, viam ou ouviam. Ir ao futebol era pior que ir à missa...
Nem imaginam o que os pobres comunas tiveram de engolir a seguir...
Na comitiva soviética vinha uma centana de jornalistas, de não sei quantos jornais, rádio e televisão, para ver, comentar e transmitir...
Remédio santo: acabou o «ópio do povo»...

O Melão era, já o disse, habilidoso, mas o Sporting da época era mais forte e ganhava mais campeonatos. A meio da década, até o Belenenses conseguiu o seu título de campeão nacional, que conserva religiosamente e que, como se sabe, foi o único. Quando finalmente Melão ganhou o campeonato (49/50) perdeu o lugar. Rogério até aí extremo esquerdo, passou a ocupar o lugar do africano, que desiludido foi para Setubal, acabar a carreira.
Mas logo a seguir, na época seguinte, outro africano, do Lobito, chegava ao Benfica: Águas, de seu nome! No fim de 54 era Otto Glória, que vinha empurrar o Benfica para cima, muito por terem chegado, na mesma altura, dois africanos da pesada: Costa Pereira e Coluna. Começava o ciclo encarnado, assente, é bom que se reconheça, nos africanos, aos quais se juntou em 61 um tal Eusébio, mesmo a tempo de também ser campeão europeu. Águas,Coluna e Eusébio foram para mim o Vasco da Gama às avessas, dobrram o Adamastor e trouxeram perfume africano para a Europa!

Um dia destes vou ter de africandar para trás para outro folguedos e trazer à memória Peyroteo, o africano branco do Lubango, se disser Huila, eles batem-me! E, bem entendido, o Espirito Santo, preto, mas tão lisboeta como eu, aqui nascidos. E hei-de lembrar um marroquino, que vi, na Cruz Quebrada, jogar pela selecção francesa, pouco depois do fim da guerra: Ben Barek, um regalo!
Na minha adolescência teria ganho, não duvidem, a qualquer deles, a jogar matraquilhos. Só que...não havia campeonato!

quinta-feira, setembro 08, 2005

O crivo dos dias

Há dias, a caminho da casa da aldeia, no pinhal profundo da Beira, a chuva breve retirava o fogo da paginação atónita deste Verão, escutei na rádio o desespero do presidente da câmara de Mação.
"Ardeu o pinhal que me viu nascer", dizia o autarca, emocionado. A paisagem da Beira era uma continuada cicatriz de cinza, uma dor de alma.
Na aldeia, fui com os meus pais ver o que "nos" ardera. O pinhal, por toda aquela encosta, "até além, para lá das oliveiras". As oliveiras eram restos de braços sem corpo, arrancados de um chão em que tudo derretera, vómito negro da terra e de imaginários, subterrâneos, altos fornos. Em redor do que restara dos troncos de árvores, buracos que permaneceram fumegando durante dois ou três dias. Diz-se que foram encontrados estranhos objectos lançados do ar, indícios que alevantam um rumor maligno. Caminhei por entre os destroços do pinhal, passei junto ao tanque que tinha sempre um manto de musgo, (ali recolhi, em sucessivos invernos, o chão de um presépio) vi os figos mirrados, como azeitonas paradoxais, nos braços das figueiras mortas e, enquanto retinha as lágrimas, aspirei profundamente o olor do chão queimado.
Fragrância absurda, alcatrão de caruma impregnado no vento, que nem o vento leva, de que nem o vento se livra, que nem a chuva lava.
Pelo caminho velho, no regresso à casa onde a minha infância teve presépios, num ou outro natal entre áfricas, veio-me a nostalgia do cheiro das grandes queimadas, na Ganda. Mas não fui capaz de partilhar essa furtiva memória, essa inesperada visitação de uma felicidade triste, com os meus velhos pais separados das suas árvores.
Nessa noite, o telejornal mostrou novas imagens de New Orleans. Ao longo destes dias, diante da crónica estuporada da América insuportavelmente vulnerável (aí está, pelo ângulo da tragédia, a metáfora da decadência do império) eu tinha-me confrontado como uma legenda recorrente, um aguilhão subliminar: "eis o Ruanda das águas". E ali estava, agora, escrita numa parede da New Orleans submersa, mostrada na televisão, em letras garrafais, a palavra ÁFRICA. Durou um, dois segundos, não consegui ler a linha de letras que antecedia a palavra perturbadora. Pareceu-me ter percebido "Wellcome to Africa".
Na velha casa da Beira, a memória estilhaçada não parou de arder.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Do Outro Lado

Tinha a intenção de contar, a seguir, o segundo episódio deste retiro que o meu irmão, muito votado ao serviço do senhor na época, montou para nós, pobres pecadores. Não deixem de ler que vai ser, pelo menos, divertido...
Acontece, entretanto, que o António Gonçalves resolveu contar a sua estória da Casa Amarela, narrando episódios curiosos da passagem dele pelos palcos da chamada guerra civil angolana.
Só para dizer que nos cruzámos em alguns itinerários. Eu estava do outro lado e tenho estórias divertidas, dramáticas, de vida e de morte, que hei-de contar.
Agora, só assinalo este facto: nós os dois, aparentemente, e na prática, em lados opostos de uma guerra, acabámos amigos, camaradas de trabalho num jornal com uma linha editorial que nos cobria a ambos e , agora, companheiros de escrita de um blog, onde as diferenças, podendo existir, são, afinal, motivo para o fortalecimento de uma amizade de que me orgulho.
A certa altura, o António diz que ele e o Renato Ramos, que eu conheci no Alvor, foram para o Lubango, a fim de tomar conta da Rádio. A Rádio, por aquelas paragens, entretanto, tinha uma história diferente da colonial: já se chamava Rádio Popular, tinha sido organizada por mim e além do português, transmitia em mais quatro línguas nacionais.
A FNLA dele e a UNITA do Savimbi nunca a conseguiram pôr a funcionar esta estrutura aperentemente complexa.
Nesse mesma Rádio, quando os soldados sul-africanos entraram, de armas apontadas à procura de um loiro, que era eu, encontraram o Caldeira. Encostaram-no à parede, mas por sorte dele, apareceu alguém que me conhecia e disse : "não é esse!"
Coitado do Caldeira, um óptimo técnico de Rádio, acabou por morrer num desastre de viação, provocado por um fapla doido, na esquina do Rádio Clube com a Pensão Lubango, então transformada em prisão da DISA e já depois de a UNITA e FNLA, mais os sul-africanos que os acompanhavam, terem sido corridos para além da fronteira do Cunene

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

Em boa e honesta verdade não faço ideia de que cor seria o prédio onde morei, em Luanda. Era um rés-do-chão, com um pequeno pátio ajardinado, mesmo diante do Cemitério Velho. Ali morou, antes de ser expulso de Angola, Robi Amorim e a família. Uma notícia sem visto da Censura custava uma carreira, mesmo que atingisse uma família com crianças. Um regime fascista tinha essa prerrogativas. Durante os dez anos seguintes não dei conta de outros casos semelhantes, em Angola.
Quando já não havia fascismo e os militares restituiram a liberdade, esses mesmos militares foram ao «Notícia» prender o meu irmão, que era director do semanário. E levaram-no até ao avião, que o trouxe até Lisboa, de onde seguiu para a Trafaria. Suponho que a culpa foi minha. Estava de férias, justamente em Lisboa, e mandei para Luanda uma pequena reportagem sobre ocupações de casas devolutas e livre arbitrariedade dos militares do Copcon, que achavam bem umas e mal outras, conforme o proprietário fosse ou não de família conveniente. E titulei «Copcon « O novo medo», como estava de férias, assinei com o pseudónimo costumeiro: Sousa Oliveira. Procuraram-no em Luanda e depois em Lisboa. Já ia a caminho de Luanda, para assumir a publicação. Mas à chegada logo me preveniram: tu és o segundo da lista... Não foi como em Lisboa, no Diário de Notícias, que a agitação partiu de dentro, ainda que comandada por fora.
Bazei e fui para Kinshasa. O meu irmão acabou por ser libertado alguns dias depois, com a indicação que não podia ausentar-se do país. Perante isso, o mais natural é que quisesse sair. Em Elvas, um amigo disse-lhe: aguenta que eu vou saber. E soube que na fronteira não havia qualquer aviso que lhe tolhesse o passo. Assim sendo, ele voltou para Lisboa. Comprou um bilhete de avião para Luanda e foi...
Em Luanda arrumou as suas coisas e rumou ao Brasil. O automóvel, que deveria seguir para Lisboa, foi roubado e por lá ficou.
Também eu voltei a Luanda, sem espaço para a informação progressista, que achava que eu devia ser preso. Fiquei pelo «Província de Angola», na posse da FNLA. Achei que assim ninguém enganava ninguém. Só fiz uma coisa positiva: mudei o cabeçalho: tirei a «província» do título, que passou a ser «Jornal de Angola», que ainda hoje se mantém, na posse do Estado, bem entendido.
Ainda fui a Nakuru, assistir à Cimeira. À chegada, a delegação angolana foi saudada pelo presidente do Quénia. Aquele, sim, aquele tinha ganho a guerra da independência aos ingleses, da maneira mais corajosa: negociando e sabendo que após a negociação seria preso. Foi solto no último dia de domínio inglês e proclamou-se presidente no dia seguinte. Exigiu uma fragata, em permanência, ao largo de Mombaça, por causa das moscas. Nunca foi necessária, até ao fim, o líder dos «mau-mau», Jomo Keniata manteve a chefia do estado.
Quem não ficou muito tempo mais, em Luanda fui eu. Um certo dia, ao princípio da noite, um jeep parou perto de mim. Um recado de Iko Carreira, aconselhava-me a não estar visível nos próximos dias. Fiz-me de novas e o jovem consultou o bloco de notas,percorreu com o dedo até encontrar o meu nome, não vislumbrei muito mas vi um nome ante e dois outros a seguir ao meu. Aquilo era sério. Fui avisar o Renato Ramos e um colega da Rádio. Este estava já a preparar a saída e tinha garantido lugar no avião para o Brasil dois dias depois. Não partiu. Na manhã seguinte, no estúdio da Rádio, de onde retirava papeis para levar, foi denunciado e logo detido. Foi passar uns dias, arrecadado na praça de touros. Eu e o Renato fretamos um taxi aéreo para Nova Lisboa (Huambo), o que não despertou suspeitas, porque ia ser inaugurada no dia seguinte a Feira Industrial da capital do Huambo. Na altura de embarque dissemos ao piloto que teríamos de ir buscar um colega ao Uíge e daí seguiriamos para o Huambo. Não seguimos.
Chipenda gostava de nos poder ajudar, mas não tinha carro disponível. Jeep arrangei, sem dificuldade, entre os conhecidos, mas sem carburante. Isso Chipensa dispensou, dois bidons e escolta armada. Lá fomos até ao Ambriz, onde estava Holden com os seus conselheiros, que incluiam um jornalista brasileiro, suposto estar igualmente ao serviço da CIA, alguns guerrilheiros e uma companhia de militares zairenses. Faltavam poucos dias para a proclamação da independência. Holden acreditava que podia chegar a Luanda, a tempo. Os militares avançavam no terreno, não encontravam grande resistência, o que gerava natural euforia. Mas os soldados não queriam ficar à noite, nas zonas ocupadas, Desse modo, na manhã seguinte, tinham que perder tempo com nova operação de limpeza. Até que, de repente, houve um contra- ataque. Os cubanos faziam a sua aparição na área. Um avião da Taag, que tinha desertado para o Ambriz já tinha dado conta de desembarque de cubanos em Novo Redondo, mas em Luanda ninguem admitia isso, nem os militares portugueses. Ali estavam eles. Os zairenses não aguentaram e fugiram, saqueando tudo pelo caminho...
Voltava-se ao princípio. Santos e Castro, irmão do ex-governador-geral de Angola, chegou com um punhado ex-comandos. Eram eficientes e dispunham de alguns carros de assalto. Retomaram a limpeza da área circundante. Então vieram mais militares zairenses, com um núcleo de comando autoritário, que modificou a estratégia. É que eles pensavam ter uma solução que tornaria tudo mais fácil. Começaram por fazer incursões para o interior. Deram a entender que iam preparar a invasão de Luanda por Catete, de modo a que o MPLA reduzisse a resistência no Morro da Cal.
Entretanto os sul-africanos apareceram com um duas unidades de um tipo de canhão novo, que iria ser experimentado, que era suposto arrazar o morro da Cal e bombardear Luanda, permitindo o avanço sobre a capital.
Por essa altura, a sul, uma coluna de mercenários portugueses e guerrilheiros da Unita avançou até Sá da Bandeira e daí avançou para Nova Lisboa, onde a FNLA e a UNITA iriam proclamar a independência. Tiveram uma caminhada bem mais fácil do que o que contavam e continuaram a avançar, já depois da independência, pelo litotal, em direcção a Luanda, onde chegou a pairar algum pânico.
Enquanto isso, no Ambriz, festejava-se a próxima tomada de Luanda. Os canhões iam entrar em acção. O primeiro disparou sobre Luanda e o engenho explosivo seguiu viagem. Não sei se caiu no mar se em alguns recanto de Luanda. Mas o segundo disparo encravou e matou o perador. O segundo canhão não funcionou. Os sul africanos foram-se embora muito depressa. No terreno as coisas alteraram-se. As peças do MPLA dispunham de maior alcance e para avançar o lado da FNLA ficava debaixo de fogo.
Depois sucedeu tudo em catadupa. Os americanos mudaram de presidente e deixaram de apoiar Holden e Savimbi. Reconheceram o governo de Angola. No terreno, os zairenses perderam a altivez e ficaram cheios de saudade de casa.. O conselheiro brasileiro de Holden tomou-me de ponta e o coronel Santos e Castro avisou-me para ter cuidado e deixar-me de passeios nocturnos. O aparelho da Taag acabou por nos levar, a mim e ao Renato, a Sá da Bandeira. O pretexto era reactivar a Rádio. Havia alguma normalidade na cidade. O cinema funcionava e quem não se importasse de ver o mesmo filme uma dúzia de vezes, podia ir ao cinema quando lhe apetecesse. Ainda fui a Moçâmedes. Cheguei mesmo a ir ao Uige e passar pelo Ambriz, já esvaziado, sem Holden.
Em Windhoek procurei uma peça para reparar um emissor de rádio. Um dos observadores
sul-africanos avisou-nos de que nenhum aparelho deveria levantar voo no dia seguinte. Tudo indiciava que a Africa do Sul ia intervir, com um ataque aéreo, ao mesmo tempo que a coluna militar, que já estava em Porto Amboim avançasse. Em Luanda tinham-se preparado condições para que os altos dirigentes pudessem abandonar a capital. A ponte do Kuanza estava dinamitada para explodir se o inimigo avançase, por ali.
O dia seguinte foi todo ele de tranquilidade. Nenhum movimento aéreo ou terrestre. O observador sul- africano sumiu-se. Novamente com o Renato saíamos de cena sobre a hora. Desta feita em três BMW's, novinhos em folha, que nos levaram até Windhoek. Dali para Joanesburgo, onde passei o Natal, depois Lisboa...
Sá da Bandeira nunca mais foi Sá da Bandeira. Unita e FNLA pegaram-se e só ficaram os homens de Savimbi. Depois o MPLA regressou e a Huila renascia!

terça-feira, setembro 06, 2005

O Retiro

O Lubango, com a Serra á volta e a sua estrutura urbano rectilínea, onde tudo era fácil, fascinou-me. Tanto mais que, logo a seguir, encontrei o Tony Carranca, que conhecia de Coimbra -as licenças graciosas - essas coisas, viagens.

Com um amigo seguro, as coisas ficaram fáceis e o habitual jogo das conquistas de espaço - a que já estava habituado pelas sucessivas mudanças de domicílio - atenuado. A habilidade para o futebol e para o hóquei fizeram o resto. Em pouco tempo estava como se lá tivesse vivido desde sempre.

Educado na religião católica, com treino de ajudante de missa e tudo, rapidamente entrei para a JEC(Juventude Escolar Católica). Eu e o meu irmão, que, igualmente depressa, ficou o presidente, com eleições e tudo. Comigo fazendo parte da lista dele.

Confesso-me pouco tocado pelo sentimento religioso e a missa e a JEC eram mais uma forma de agradar à família e, particularmente ao meu irmão,(nós éramos os irmãos perfeitos, onde estava um estava o outro) do que uma convicção profunda.

Um dia, o presidente da JEC lembrou-se de organizar um "retiro espiritual". O padre Martinho Noronha, então secretário do Bispo, D. Altino Ribeiro Santana, e assistente da JEC, a poiou a ideia; e escolheram como local ideal para o evento, a Missão da Huila, situada a uns vinte e poucos quilómetros do Lubango.

Eu pus-me imediatamente de fora da "coisa". "Não vou!" - disse peremptório. O meu irmão usou todos os argumentos possíveis para me convencer. Além do mais eu era membro da direcção e, por isso, "tinha que dar o exemplo".

"não quero saber disso, tenho uns treinos de hóquei e uns jogos de futebol para fazer precisamente nesses dias" - era tempo de férias.

Noite. Jantar. Sete horas da tarde, como sempre. Ninguém podia atrasar-se.

O pai está com o ar dos grandes dias. "Mau.. pensei, que será desta vez?"

Vira-se para mim e interroga-me sobre as razões que me levam a não querer ir fazer o retiro que o meu irmão organizou. Expliquei, mas antes disso olhei o meu irmão. Corou.

"Pois então, meu filho, podes não ir, mas naqueles dias em que decorrer o retiro, não sais de casa".

Voltei a olhar o meu irmão. No dia seguinte lá fomos. A meio do caminho, a minha disposição já tinha mudado, tinha comigo o Trabulo e alguns planos para me divertir.

DE COIMBRA AO CUNENE (3)

A Marília, além do mais, uma moçamedense, pelo menos tão convicta como qualquer tripeiro, amigo de Pinto da Costa!, trabalhava no escritório do pai, que era despachante. Foi ela que me
«explicou» o Namibe e muitas das suas nuances, mas foi o «Turra» que me levou pelo deserto dentro, algumas vezes.

Não sei, nunca soube, o que dizer do deserto. Por vezes custa não ser capaz, como Miguel Torga,
de cantar a paisagem humana ou geográfica. Mas sei que me fascinou. Dentro dele, a única referência era o Sol. Tudo o mais areias aquecidas que refulgiam, escondendo perigos terríveis. Até o andar de jeep pelo deserto das areias não é simples nem de aconselhar a novatos.

E foi também a Marília que me «despachou» para a Baía dos Tigres. Na realidade era um pedaço do deserto que o mar isolou, mas a ilha manteve teimosamente a designação de baía. Bonita e perigosa era, inóspita não. Era sobretudo , acho que já o referi antes, um «entreposto» de pesca.

As primeiras tentativas de ocupação correram mal. Casa de tijolo e cimento ou barracas de madeira «desapareciam» às primeiras rajadas de vento. Ficavam soterradas. A solução foi construir habitações e armazéns sobre colunas, de modo a que por baixo circulasse o ar e o vento, e, bem entendido, as areias passassem.

Não havia ruas, nem travessas ou largos. Não dava. Mas tinha pista de avião!
Era feita de placas sólidas de pedra e cimento, encostadas umas às outras, até ser suficiente. Embora fosse pista, tinha casas de cada lado. As casas, bem entendido, não estavam encostadas
e um ou outro jeep circulava, se fosse preciso. Ai habitava o admnistrativo, vulgo chefe de posto,
e o respectivo gabinete. Era ele que acendia e apagava a Luz, proveniente de um motor limentado a gasóleo. O posto de correio e a habitação do funcionário. O clube recreativo. E não sei que mais. Eram umas cinco ou seis de cada lado.
Assentemos que era uma rua, onde se circulava a pé ou de jeep e onde, também, de vez em quando, subiam ou desciam aviões...
Aos domingos, a população espalhada pela ilha, reunia-se no clube, transportando previamente
o jantar domingueiro. Durante a tarde, pequenos grupos, por afinidades, percorriam a pista de um lado para o outro conversando, enquanto as mulhres, sentadas no clube conversavam e preparavam a mesa. As crianças faziam de crianças; corriam, subiam e desciam escadas e escondiam-se debaixo das casas. Às horas do futebol, todos se sentavam para ouvir o relato. Não havia televisão, que sorte!

Lembro-me de ter comido um pastel de nata e ter ficado assombrado. Era macio e muito saboroso. Na Baía dos Tigres não havia comércio. Nem intermarchée, nem pastelaria. Mas havia bolos, os bolos que habitualmente vemos em pastelarias. Eram feitos em casa. A velha história: quem não tem cão caça com gato!

Aparentemente era uma ilha cheia de nada, carregada de gente feliz. Zanguei-me comigo por ter
citado a Baía dos Tigres. Para mim funciona como recordações de infância, como as que os «manos» do blog tão bem sabem expressar! O que eu de facto não queria era interrogar-me, porque senti que ia doer.

Talvez melhor do que eu, Vera Lagoa contou no «Diário Popular» o que viu na Baía dos Tigres, depois de ter descido a Leba, pela estrada nova, ainda inacabada, e com uma paragem para almoço saboroso no Caraculo, como lhe recomendei.

Mas, hoje, como estará? Oxalá bem, com gente boa, que peixe por ali não falta...

domingo, setembro 04, 2005

A estória dos que as não contam

Era 1974/75. A jovem, nascida em Angola, donde nunca tinha saído, de 18 anos, chegou a Portugal em função de uma decisão que não era sua. Os pais tinha decidido. Tinha acabado o sétimo ano, que, naquela altura, dava acesso à Universidade, com exame de aptidão ou não - dependia das médias.
A vida, todavia, deu uma cambalhota e a Universidade ficou longe. O problema era a sobrevivência. Viver, dormir em cama lavada, tomar banho, comer. Vestir era o menos, desde que tivesse sabão para lavar à noite e vestir de dia.
Tempos difíceis. Foi ao Serviço de emprego e disse: "só ainda não estou preparada psicologicamentre para servir a dias. De resto, aceito tudo."
Conseguiu um emprego numa fábrica de conservas como operária, no turno das 11 da noite às 6 da manhã. Trabalho didícil, descascar legumes, ágia fria, mesmo no Inverno, bata e lenço na cabeça. Mesmo assim matriculou-se na Universidade e arranjava maneira de ir assistir às aulas. Fez a licenciatura que queria .
Um dia, o director do Serviço de Emprego, que, na altura lhe arranjou aquele emprego, foi a sua casa pedir-lhe desculpa. "não havia mais nada, não era possível... ele bem sabia que não era compatível, mas face à sua determinação..."
Anda por aí. Não faz o seu "mujimbo" com toda a gente, mas sente uma alegria interior particular. Cumpriu o que o pai - homem severo e exigente - sempre quis. Se é para estudar, estuda-se.
Conto eu por ela. Estamos juntos, miúda!

Saudosice

Esta anda-me aqui atravessada, desde ontem. Na dobra do almoço, piquei, na RTP-2, imagens do Benoliel. Fiquei por ali. Era um programa sobre Formação, Acções de Formação, coisa que o valha. A dado momento, surge uma certa Isabel Angelino, que já vi em cartazes de rua enaltecendo métodos de depilação, soletrando uns dizeres, muito à maneira do que é agora dado fazer-se, finais de frase suspensos em trejeitos de boca de peixinho de aquário, tudo muito silabado, muito tacteado em vogais abertas,. E vai ela diz assim: " Vamos falar agora de processos de candidatura. Antes de mais, é preciso apresentar o chamado curriculum vitai..."
Isto vem a propósito da já aqui referida saudosice. É que uma broa destas seria impensável no velho Rádio Clube de Benguela de há 35 anos. Ou, pelo menos, não ficaria impune.

sábado, setembro 03, 2005

Estamos Juntos

Quem escreve habitualmente, sabe: se não nos precavemos, corremos o risco de ir atrás das palavras. Neste caso, deste blog, tenho que confessar: a minha participação nele tinha outro objectivo. Acredito que ainda terei capacidade para recuperar a intenção inicial, mas, agora, está a dar-me algum prazer seguir o curso das recordações.
Todavia, a verdade é que tenho sempre a preocupação de explicar-me tudo o que me acontece. porquê? Mantenho a pergunta, como as crianças entre os 3 e 6 anos.
Porquê ? esta urgência em contar estórias, recordar factos, pessoas?
É um vício africano, aprendido ao longo dos anos.
Estou a utilizar este novo meio tecnológico para um hábito, um costume dos Tchokwe's a que sempre atribui a dimensão de uma verdadeira demonstração de amizade.
Eu explico:
Quando dois amigos se encontram, depois de uma ausência mais ou menos prolongada, cada um faz a narrativa do que lhe aconteceu durante o tempo que mediou a separação. Primeiro um, sem interrupção, depois o outro.
No final, ambos pronunciam a célebre expressão: "Estamos juntos" - uma expressão que a maior parte dos angolanos usa sem saber o seu real significado.
Este hábito é o "Mujimbo", uma palavra que os angolanos, especialmente os luandenses utilizam de forma preversa, atribuindo-lhe o significado de boato. Nada disso.
Então, meus amigos, eu estou usando a Net para fazer convosco o meu Mujimbo. Estou à espera da vossa estória. Que vos aconteceu desde a última vez que nos vimos?

A Mudança - Lubango

As estórias que venho contando situam-se nos anos 50, altura em que Angola era terreno aberto para um colonialismo retrógrado, com um sistema de trabalho montado na base dos contratados, homens autênticamente capturados nas suas terras pelos chamados "angariadores", com a colaboração activa das autoridades administrativas, os chefes de posto e administradores de concelho.
Ainda me lembro da minha surpresa ao ver, pela primeira vez, homens amarrados uns aos outros, guardados à vista de chicote empunhado por cipaios (agentes da autoridade negros que usavam umas fardas mais ou menos miseráveis e que podiam ser verdadeiramente carrascos para a sua gente).
Estes contratados alimentavam as grandes roças do Norte, propriedade dos verdadeiros colonialistas e que hoje estão a regressar a Angola pela mão dos que dizem ter tomado o poder em nome do Povo. As grandes plantações de algodão e de café do Norte de Angola pertenciam a gente que não vivia lá.
Essa era uma das realidades. A outra era o completo desinteresse pelo desenvolvimento daquele território (14,5 vezes maior que Portugal) com um potencial económico inimaginável (o que aliás continua a verificar-se, porque os tais novos donos do país, só conseguem imaginá-lo à maneira dos colonos. E há, seguramente, um milhão de outras).
As leis eram verdadeiras aberrações. Por exemplo, não podia cultivar-se oliveiras ou vinha - culturas que tinham condições excepcionais na zona de Moçâmedes - para que os produtores da Metrópole pudessem continuar a usufruir da exclusividade daquele mercado.
Angola era, portanto, uma terra deprimida. Lembro-me de as pessoas se referirem à Huíla (naquela altura um distrito, com uma extensão 2,5 maior que Portugal) como uma "terra pobre".
O sistema de educação, como já percebeu, era restrito (dois liceus, um no Lubango e outro em Luanda) . Em algumas das outras cidades havia colégios, normalmente caros.
Nós éramos dois a frequentar o Colégio D. João de Castro, em Nova Lisboa. Ficava pesado nas finanças da família. Por isso, o meu pai pediu a transferência para o Lubango. E lá fomos.
A viagem começava às sete da manhã e não se sabia quando acabava, porque a estrada que ligava as duas cidades era uma verdadeira plantação de buracos. Terra vermelha. Fizémos a viagem em tempo de férias - que já coincidiam com as da "Metrópole" - e, portanto, era tempo de pó e não de chuva.
O autocarro em que viajámos( mãe e mais quatro filhos; o pai já lá estava) era misto, isto é, de passageiros e de carga. O compartimento para os passageiros tinha uma divisão: para brancos e para negros.
Parecia um barco no alto mar, o motor gemia, o motorista, que viajava com a mulher, transpirava e ia parando para descansar os braços, para desentorpecer as pernas. Havia paragens obrigatórias: Caala, Cuima, Caconda, Caluquembe, Cacula, Hoque... e , finalmente chegámos. Era noite. Tínhamos jantar à espera - a família de um colega do meu pai, o sr. Pacheco, um madeirense amável e solidário, tinha-nos obsequiado com essa atenção.
Lembro-me que eu queria era dormir, mas o barulho do motor do autocarro continua a gemer-me na cabeça.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Ainda o Irmão Celso

Tenho que voltar atrás. Primeiro, para saudar o verdadeiro campeão do Cassoco, o Fernando Alves - que nos presenteou com uma estreia de gala. Repararam nos nomes que ele juntou? E, como sempre, estou com ele: força Weah! África bem precisa de líderes diferentes.

Dou outro passo atrás, para responder à Rita.

De facto, o "Velha", cujo nome completo é Américo Vieira Lopes, deu umas chicotadas no Irão Celso e depois fugiu pela janela, servindo-se do cabo do pára-raios.

A atitude teve, todavia, efeitos e o Américo acabou por ter que recorrer ao Liceu Salvador Correia, em Luanda.

Mas, já agora que estou com a mão na massa, posso adiantar alguma coisa sobre o Irmão Celso, o marista de quem se tinha medo.

Houve um ano que foi meu professor de Religião e Moral, uma cadeira para a qual não havia nota, mas a cujas aulas era obrigatório assistir.

O Irmão Celso passava a vida a assustar as colegas, dizendo-lhes que estavam a caminho do pecado e do inferno porque andavam a "provocar os jovens, com os decotes e as saias curtas".

Coitadas! Era ainda o tempo dos saiotes e, por conseguinte, das saias em balão, abaixo do joelho. Lembro-me de tentar contar-lhes as saias. Havia uma que usava sete debaixo da bata.

Estou a lembrar-me da Lena , da Dalida, da Dórida, da Felicidade, dos rostos delas, de todas as outras, arrasadas, surpreendidas, assustadas e o Irmão Celso, carregando nos esses e nos errres, apontando o dedo. Eram 50 minutos por semana de verdadeiro pesadelo.

PASSADICES

Estou à vontade.Eu próprio levantei a questão, e logo no princípio, no blog. Amarrar-se uma pessoa ao passado é como perder o comboio. É parar na estação errada. Mas também concordo com o Leston na intransigente defesa da memória do que ficou para trás. Recuando no tempo pode encontrar-se uma lição útil para entender melhor as dúvidas que o presente nos coloca.
Mas no passado não havia computador. O mais o parecido foram os sinais de fumo. No entanto, há 60 anos, e 60 anos é muito passado, já havia bomba atómica. Há 30 anos na China só havia bicicletas. Vão lá ver agora. A ler o passado que o «diário de notícias» mostra pode ver-se como de um ano para o outro tanta coisa foi mudando. Só a guerra no mundo não parou...

Basta!, disse ele, que sentia o baú cheio de sucessos. Mas porque não? - ter-se-á inquirido, perplexo. Porque não?Mandou tudo às urtigas e perfilou-se, preparado para alguns espantos...

O PS ficou numa encruzilhada. Já estava, o que ainda não tinha era dado por isso! Almeida Santos achou bem e talvez ache melhor voltar a ser ministro da Justiça. E porque não? Sei lá, respondam vocemecês...
Maria Barroso podia, era natural, dar outro jeito na Cruz Vermelha. É mais difícil, lá isso é, imaginar Victor Constâncio, de novo, nas Finanças, a ter que fazer o retrato do défice a Mário Soares.
Se, por via disto, Eanes emigrasse até teria graça e evitava-lhe a maçada de ter de voltar a candidatar-se daqui a cinco anos! Saída que não tem Freitas do Amaral, que será, por este andar, o senhor que se segue, devidamente acolitado na campanha por Jerónimo de Sousa.
É difícil imaginar um futuro mais radioso.
Jardim não terá remédio. Só lhe resta o grito do Epiranga (rouco)...

Mário Soares é, não o esquecamos, o preferido de Alfredo Barroso; e conta com o apoio incondicional de Ventura Martins, via «diário de notícias». Que dúvidas restam? Como é que alguém pode perder nestas circunstâncias...
Alegre já não tem caminho. É só passado. Mal assente no presente e zás, caixote de lixo. Sócrates também perde espaço e arrisca-se a acabar nos biodegradáveis, apesar de aparecer todo aperaltado numa apresentação para a qual não meteu prego nem estopa.
É isto o que faz trazer o passado de volta: confundir o presente e perder a fé no futuro.
Foi o que nos fizeram ou que escolhemos que nos fizessem ou tudo junto que deu esta sopa, que hoje temos para pôr na mesa...
Só que, apesar de tudo, o homem sonha e, como disse o poeta, só por isso o mundo pula e avança. Pois! Mas deixa sempre alguns para trás. Ou será que há falta de sonhadores em África? Os que havia vieram embora. Eu posso, claro que posso, lembrar-se como era a Baía dos Tigres, uma ilha de areia, com muito peixe à volta, mas como será hoje, se ainda existir?

Vai, Weah!

Este meio Agosto, à sombra da grande alfarrobeira da casa de Cacela, pôs-se-me um riso largo enquanto mergulhava nas "Memórias de um Craque", de Fernando Assis Pacheco. Não percam estas soberbas fintas do Assis, resgatadas, pela Assírio e Alvim, aos arquivos do "Record" de 1972. Tão desmesurado como o vazio que nos deixou, o "maior craque da rua Guerra Junqueiro" afina a pontaria na narração prazenteira e comovente de uma saga iniciada na "arte de guarda-redes", não desprezando campeonatos " de botões", incursões pelo hóquei em patins com stick desproporcionado (lembrei-me de ti, Leston,), gloriosas jornadas de matrecos com moedas do D. Carlos dos Bigodes ou uma cena de caça às rãs do Choupal com vista a acção punitiva no talho de um tal Bernardino avesso a futebóis.
Este reencontro com a voz singular do Assis, com aquilo a que Manuel António Pina chama, num tocante posfácio, a "presença a nosso lado", reconduziu-me ao bairro do Cassoco, vizinho do bairro de Benfica tão celebrado pelo poeta Aires de Almeida Santos, onde tantas tardes esfolei as pernas e abracei o pó, guardião de uma minuciosa desatenção, um olho no fio de jogo e outro nos gestos das quitandeiras do mercado ou no assobio do velho Freitas que me acenava com Sandokans e "7 Balas" como quem troca cromos (saía-me muito o Vaqueiro, do Leixões). Foi no bairro do Cassoco que subi de escalão num outro campeonato, quando descobri que aquele senhor careca, em calções, duas vivendas adiante, era o mesmo da fotografia do "Notícia", a melhor revista do mundo em que me fiz, com um naipe de craques melhores que o Miccoli (o da tatuagem do Guevara na perna, ideia soberba que me escapou nessa adolescência já de ícones rubros) . O senhor careca era Henrique Rola da Silva, querido mestre de sempre, a quem me orgulho de ter mostrado, para avaliação crítica, o meu primeiro texto atolado em ques. Os outros craques, qual Real Madrid, qual Manchester, davam pelos nomes de José Sebag, Herberto Helder, Edite Soeiro, José Manuel da Nóbrega, Moutinho Pereira, eu sei lá, capitaneados por um certo António Gonçalves, doutorado em ironia e finta curta. Façam o obséquio de uma vénia discreta, que lá vem agora o poeta Góia, montado na sua bicicleta, com um poema acabado de sair do forno e cuido que o vai ler, feito agora mesmo, a este vosso criado posto a penantes para o outro lado da cidade onde, não tarda, ficará horas intermináveis pendurado à janela de um estúdio da rádio que há-de tomar de assalto pela mesmissima ponderosa razão que, a fazer fé num poema do Livro Sexto de Sophia, justificou a tomada de Cacela (e eis como as pontas se unem, ou os pretextos...). Mas por que carga de água isto leva um grito de guerra monroviano em título e se esfuma assim, como se dos dedos escoasse a areia do Cassoco onde o único craque era o meu irmão Nuno (que os dirigentes do Benfica de Benguela vinham buscar de carro para os treinos e, surpreendentemente se fez dragão quando o mundo desabou em ponte aérea e a nossa longínqua infância recolheu aos balneários)? Porque estou à espera de um golo mágico do liberiano que se prepara para o contrato de uma vida. Depois de falhanços como o de Chipenda (que andou pela Coimbra do Assis ) estou à espera de ver o que sai desta jogada de Weah. É uma jogada de baliza aberta, vai Weah, não falhes, enquanto eu mudo de post...

O "Velha" e o Irmão Celso

Devo começar este post com duas alegrias: descobri, entretanto, um comentário da Rita a dizer que é a fã nº1 deste blogue. É uma grande alegria. Mas eu conheço a Rita e, embora não a consiga imaginar a escrever coisas só para ser simpática, é a Rita . E fico à espera de mais comentários dela

No post anterior, em que falo do saudosismo e da saudade, aparece um comentário de um Jb que não conheço e me dá a sensação de ter descoberto no direito ao passado, tal como eu, um direito fundamental.

Vamos então a ele: o nosso passado risonho, triste, mas que foi vivido por nós, que faz parte de nós mesmos e não é, de certeza, crime ou pecado.

Não posso garantir a estas estórias uma organização cronológica. Um dias destes vou voltar a Nova Lisboa, vestida de pó, calçada de poeira, sem luz eléctrica - era o CFB que alimentava a cidade.

Hoje - porque tenho o Raúl Durão à minha frente - lembrei-me de uma história bem castiça do Internato dos Maristas do Lubango ( ex- Sá da Bandeira- toda a gente lhe chamava Lubango, apesar do nome ilustre do patrono). É que o Raúl foi marista e meu colega de turma - dá outras estórias.

O Internato servia de apoio, fundamentalmente, ao Liceu Diogo Cão. O Pessoal vinha de todo o lado, do Lobito, de Benguela, de Moçâmedes, de Quilengues, de Caluquembe, de Nova Lisboa, eu sei lá... de tudo quanto era canto. Os do Norte iam para Luanda.

A garotada, que frequentava desde o primeiro ao sétimo ano do Liceu, habitava no Internato dos Maristas. Que tinham pedido ao governo de Salazar autorização para um Colégio inteiro, isto é, com internato, aulas e tudo. Autorização negada.

Os Maristas tinham em Silva Porto, Bié, actual Cuito ( um nome sem justificação aparente) um colégio, onde tinha sido aluno Jonas Malheiro (Savimbi). Savimbi tinha tido um professor especial: o Irmão Celso, que, entretanto, foi colocado no Lubango.

O Internato estava dividido - no que aos alunos dizia respeito - em "menores, médios e maiores", sendo que os médios, porque correspondiam à idade mais difícil (adolescentes puros e duros) estavam entregues à vigilância do Irmão Celso, um cultor da disciplina.

Castigava com dureza e usava um chicote de arame em determinadas ocasiões.

Num ano determinado, os maristas tinham como hóspede um miúdo "danado", indisciplinado a sério: chamava-se Américo e muitos anos depois fez ( e faz) carreira como economista "danado" de competente, mas, um dia, repetidamente, infringiu as regras do internato( tenho algumas, posso vir a contá-las).

O Irmão Celso resolveu que estava na hora de castigar o "velha", nome pelo qual era conhecido em todo o Liceu Diogo Cão, e chamou-o ao segundo andar, à sala do castigo. Era brasileiro (acho que ainda é, porque há pouco tempome deram notícia de uma visita que terá feito a Lisboa) e no seu português carregado de erres e esses enumerou as falhas do "velha". A seguir puxou do chicote feito de fios eléctricos, que tinha atrás das costas.

A resposta do "Velha", do Américo, foi imediata, puxou de um chicote de arame, que tinha, igualmente, atrás das costas.

Ao pânico do Irmão Celso respondeu o Amércio Vieira com um salto para a janela e uma fuga, servindo-se do cabo do pára-raios.

Estava tudo planeado e o Irmão Celso viu-se aflito para reconstruir a sua autoridade. Quanto ao Velha foi para casa de família e acabou o Liceu com excelentes notas.

Não gostei muito das opções políticas dele, mas, enfim, hoje recordo-o como uma espécide de D'Artaghan, capaz de lutar por causas perdidas. A última vez que o vi pareceu-me enorme, mas recordo a ternura com que me abraçou. Tínhamos saudades um do outro e de nós mesmos. Mas, nesse encontro divertimo-nos. Isso eu asseguro.