sexta-feira, dezembro 21, 2007

Manuel Delgado


A notícia chegou hoje de manhã. Fria como o dia, cinzenta como o céu: morreu o Manuel Delgado.


Jornalista cabo-verdiano, com um talento notável para a escrita, o Manuel Delgado tinha, para além disso, uma capacidade de análise política ímpar, o que fazia dele um elemento importante na sociedade cabo-verdiana, tendo, ao longo dos anos, desempenhado o papel de conselheiro político do PAICV.


Conheci o Manuel Delgado em Cabo Verde, quando lá estive como correspondente da ANOP. Não era um homem fácil.


Mais tarde, quando fundei o jornal "África", o Manuel Delgado veio trabalhar comigo e a sua colaboração revelou-se importante, também pelos contactos que tinha.


Com o fim do "África" acabou por ir trabalhar para o Expresso, onde não foi devidamente aproveitado, acabando por regressar a Cabo Verde onde fundou um jornal na Net, em que, mais um vez, demonstrava todos os seus talentos.


A fotografia que ilustra este texto foi obtida durante um encontro que ele teve com o então Primeiro Ministro de São Tomé e Príncipe, Celestino Costa.
Para os seus filhos e para a Clara, que tendo deixado de ser sua mulher não deixou de ser sua amiga, um abraço forte.

sábado, dezembro 15, 2007

Ame-a ou Deixe-a em Paz



Já recebi dezenas de vezes no meu e-mail uma série de fotografias de Angola com o título "Angola, ame-a ou deixe-a em paz".


Devo dizer que a tal mensagem me irrita por duas razões fundamentais: a primeira é que as imagens são, na sua grande parte, muito pouco significativas. Por exemplo, o rio Cunene parece uma mulola.


E o que querem dizer com a expressão "deixe-a em paz"?


Devemos esquecer a cleptocracia, a miséria, a doença a indignidade do povo? Devemos esquecer que Angola é um país de recursos inesgotáveis que poderiam propiciar a toda a sua população uma vida decente, com altos padrões de qualidade e que em vez disso, enquanto os dirigentes ocupam fazendas, compram carros e aviões, viajam para todo o Mundo, são sócios de todas as grandes empresas, se empenham em dificultar os investimentos que não passam pelo seu controlo, o povo morre de cólera, de tuberculose, de paludismo, não tem escolas para os filhos, não tem comida para se alimentar?


É isso que querem que esqueçamos?


Todos, mesmo aqueles que , ingenuamente, contribuiram para entregar o poder ao MPLA e depois foram expulsos ou, pura e simplesmente, para não serem abatidos, tiveram que fugir?

O que se pretende com esta campanha, que, aparentemente, tem a intenção de revelar um país de imagens belas e surpreendentes - ainda que o não consigam porque quem coleccionou as imagens não conhece - seguramente- o país?


Quem me quer tirar o direito, de modo definitivo, ao meu passado?


Quem está preocupado com a minha ( e milhões de outras) memórias?
Por exemplo, do Fragata, filho do enfermeiro Fragata do Lubango e que, seguramente para não ver a desgraça que vai acontecendo na sua terra, preferiu ir viver para Cabo Verde. A sua fotografia, a ilustrar este texto representa uma homenagem a todos quantos não estão dispostos a atirar o passado para o caixote do lixo e também não estão dispostos a fazer o papel cortesãos de uma classe possidente sem classe, sem cultura e sem escrúpulos e disposta a pagar a bom preço uma palmada nas costas.


Outra das razões que me leva a não fazer circular o e-mail é que tudo o que lá está, ou é natural , ou foi construído ainda no tempo da colonização. Este poder, com mais de trinta anos só destruiu e enriqueceu.

terça-feira, dezembro 11, 2007

A Cimeira Espectáculo

A Presidência Portuguesa da União Europeia está radiante com o sucesso da Cimeira Europa-África.O próprio presidente da Comissão da UE demonstrou a sua felicidade pelo êxito que a reunião alcançou. Dos africanos também vieram manifestações de regozijo que importa salientar, sobretudo da Unão Africana e do presidente da respectiva Comissão.

Será, de resto, muito difícil afirmar o contrário. A Cimeira foi, de facto, um sucesso: do ponto de vista mediático, espectacular, cumpriu a rigor. Os chefes africanos fizeram em Lisboa o que fazem nas sus terras: quando se deslocam incomodam toda a gente e não se importam com o mal estar que geram.

Os objectivos enunciados foram todos alcançados - acrescenta-se.

E que objectivos eram esses?
Falar de igual para igual, "olhos nos olhos", abordar a questão da má governação e dos direitos humanos, numa "cimeira sem tabus": criar uma estratégia conjunta para a solução de alguns dos principais problemas africanos, nomeadamente no campo da saúde e do desenvolvimento "amigo do ambiente", com a preocupação de travar as mudanças climáticas.

Fácil! Nada de concreto, tudo conversa.

A questão da má governação e dos direitos humanos foi atirada para cima de Mugabe e, em parte, para Kadhafi. Os outros passaram todos por cumpridores dos direitos humanos e bons governantes.

Todavia, se analisarmos as relações Europa-África sob outros pontos de vista, diferentes dos inerentes à imagem e às expectativas dos grupos que a organizaram, depressa constataremos que ainda estamos muito longe de um real entendimento entre africanos e europeus. Tudo irá permanecer na mesma.

A primeira razão é esta: não se trata de normalizar relações em pé de igualdade entre africanos e europeus, mas sim entre negros e brancos. Seja lá, seja cá. O que é necessário é deixar de considerar que os africanos são negros e os europeus, brancos.

Nos anos 60, o slogan era " África é dos negros". O movimento de Independência, que tinha começado logo a seguir ao final da II Guerra Mundial e cuja concretização se iniciou com a Independência da Guiné Conacry, com o célebre "NON" de Sékou Touré, aprofundou o slogan e, na prática, as guerras de libertação foram alimentadas com o ódio racista de negros contra brancos.

Com as independências conseguidas, na maior parte dos países africanos assitiu-se a uma verdadeira expulsão sistemática dos brancos de África. Há países que só recuperarão desta expulsão (que o prof. Agostinho da Silva comparava à expulsão dos Judeus de Portugal e da Espanha) daqui a muitas gerações.

Apesar disso, os teimosos (os brancos que continuam nesses países) não têm um tratamento de igualdade. Pelo contrário: na maior parte das vezes são mesmo descriminados.

O ódio racista ainda se manifesta em algumas declarações de certos chefes de estado, como por exemplo, Robert Mugabe, para quem os brancos são os culpados de tudo. Kadhafi - outro exemplo - afirma que o mal de África foi o colonialismo e que, portanto, agora, a Europa deve pagar para que África possa ter a mesma qualidade de vida dos europeus.
Na verdade, o quotidiano da maior parte dos países africanos é vivido tendo como pano de fundo esse ódio racista, de que vão aproveitando os dirigentes para, quando as coisas correm pior, o alimentarem ainda mais.

Ora, a verdade é que os colonos criaram e desenvolveram países cheios de potencialidades - que as independências destruiram. Muitos deles, mais de trinta anos depois ainda não conseguiram, nem sequer manter esquemas de ensino ou reparar as redes viárias, enquanto, por outro lado, as fortunas escandalosas se multiplicam. Os povos africanos já foram mais espoliados pelos seus governantes em cerca de meio século do que pelos brancos em quatro ou cinco séculos de colonização.

Em resultado do que aconteceu em África após as independências, a Europa começou a ser invadida pacificamente pelos africanos (isto é, pelos negros). Inclusivamente, inciou-se um movimento de emigração clandestino de cujos resultados catastróficos, um dia destes, os Europeus , isto é, os brancos, serão acusados.
E esse movimento continua, porque os negros preferem vir passar, muitas vezes, grandes sacrifícios em terras que - convenhamos - também lhes são hostis, do que viver situações de miséria irreversível entre a sua gente.

Será que esta Cimeira abriu o caminho para numa próxima reunião se possa considerar "África não é dos negros", assim como a Europa "não é dos brancos". Que cada um tem direito à terra onde nasceu e deseja viver?
Ou, pelo contrário, esta cimeira abriu mais portas para um entendimento entre os dirigentes africanos e os homens de negócios europeus, donde surgirá mais corrupção, mais miséria para os povos africanos e mais riqueza para quem os dirige, assim como para os brancos que funcionam como corruptores - é que a corrupção é sempre uma concertação de dois actores...

Histórias Antigas

Aqui já há uns meses contei neste blogue uma das muitas e velhas estórias luandenses de outros tempos. Nela falava de um desastre de automóvel e de um colega de profissão, o Acácio Barradas, que, entretanto, não conseguiu perceber que, para intervir no dito texto e rectificar o que havia para rectificar, lhe bastava elaborar um comentário. Este é um blogue que os permite.
O Acácio tentou contactar com os autores do dito blogue, mas só agora me chegou o respectivo texto, que, com todo o gosto aqui reproduzo, abrindo-lhe a primeira página do Africandar.
Como o Acácio Barradas facilmente compreenderá, apenas lhe retiro o nome a quem o texto foi dirigido e a quem, seguramente, não chegou, porque, de outro modo teria feito o que agora vou fazer.

Não costumo ler blogues. Não tenho nada contra, mas o excesso desmotiva. E como, para encontrar uma pérola, o trabalho é imenso, acabo por lhes passar ao lado. Mas não há regra sem excepção e, assim, eis-me a escrever-te por causa de um blogue de que és colaborador.
Dá-se o caso de me terem chamado a atenção para o referido blogue, de seu nome «Africandar», por nele eu ser referido num post de António Gonçalves. O post já é de Novembro de 2005, mas só agora o li. E diz o seguinte:

«O Acácio Barradas estava internado e com alguma gravidade. O carro tinha caído à baía, vindo da Ilha. Uma senhora também estava internada, mas alguém tinha tirado a folha, do maço das ocorrências. Já tinha alguns conhecimentos no “Maria Pia” e soube o nome, que nada me dizia, mas tinha notícia. E à saída, um tipo emproado chamou-me e disse: “Nada de notícia. Isto não é para publicar”. Disse-lhe que tinha pena, mas não era a mim que ele se devia dirigir.
«Quando cheguei à Redacção, e entretanto tinha recolhido mais informação e sabia que a internada era uma conhecida poetisa local e a causa, além de algum álcool, do acidente, o chefão foi-me dizendo: “Já sabemos. Não percas tempo. Não vamos dar a notícia. O Charula telefonou. Não vamos entalar um colega”. Barafustei e disse-lhe que eles nos iam lixar e dar a notícia. O Araújo não quis acreditar. Explicou-me que o Charula era uma referência e que trabalhou naquele jornal e que era amigo de todos e nós não o íamos deixar mal. E eu teimei: “Olá se vai. Espere-lhe pela pancada”.
«O Notícia fez reportagem com o caso e carregou nas tintas, com nomes e fotos. Charula de Azevedo era bom jornalista e não perderia uma oportunidade daquelas. Ao Araújo deve-lhe ter custado, mas pediu desculpa e no fim do mês vi o salário aumentado.»

Depois de ter lido isto, procurei no referido blogue algum mecanismo que me permitisse comentar directamente o escrito. Mas não encontrei nada que o autorizasse, o que a meu ver é um pouco estranho, pois costuma ser regra dos blogues que se prezam aceitar o direito de resposta. Eis porque, em recurso, me dirijo a ti, solicitando que intermediarizes junto do blogue e do autor do texto, António Gonçalves, o meu comentário, que aliás é simples:

O António Gonçalves, com a idade e a natural perda de memória, devia ter algum cuidado na rememoração de factos. Volta não volta (como ele próprio já admitiu no respeitante à gravação pirata de Aznavour por Paulo Cardoso), troca datas e personagens e contribui para lançar uma confusão desnecessária na pequena história luandense. O caso por ele relatado, de um acidente de automóvel que caíu na baía de Luanda, está longe de me ter como protagonista. Pelo contrário, fui eu o primeiro jornalista a dar pela ocorrência, que se verificou de madrugada. E como eu era noctívago e a ilha era um dos meus passeios frequentes, rumo ao Tamar e a outras casas de diversão nocturna, deparei com o acontecimento e chamei de imediato ao local o repórter fotográfico Raul Moreira, que fez a imagem dos «náufragos» e do carro a ser pescado na ponte que liga a ilha à cidade. Como é óbvio, publiquei a notícia, devidamente acompanhada da imagem do carro sinistrado, embora sem as fotografias dos «náufragos». De facto, viajava no carro uma poetisa, que por acaso era também sócia-gerente de uma grande empresa de Luanda. E como essa empresa dava publicidade aos órgãos de informação, houve pressões para abafar a notícia, visto que não era conveniente saber-se que a dita poetisa andava de noite na boémia com amigos e amigas que não sabiam controlar os copos, ao ponto de saltarem para as águas da baía em plena madrugada dentro de um automóvel. Não foi, portanto, o Charulla que andou a pedir a quem quer que fosse para não se dar a notícia. Aliás, o Charulla, que a par de ser jornalista controlava uma agência de publicidade, tinha o grande mérito de não favorecer a agência à custa da informação. O jornalista, nele, era mais forte que o homem de negócios, por isso ficou imperturbável com a notícia que fiz da ocorrência. Creio até, se a memória não me atraiçoa (como infelizmente acontece ao António Gonçalves) que lhe aplicou uns pòzinhos de ironia, em que aliás era perito.
Mas então, como é que o António Gonçalves me terá envolvido nesta peripécia? Sonhou, apenas? Não, não sonhou. Simplesmente confundiu dois casos distintos e, sob a influência do surrealismo a que foi atreito em Lisboa no Café Gelo, acabou por fazer inconscientemente um «cadáver esquisito».
Realmente, nos primórdios dos anos 60, eu tive um violento desastre na estrada de Catete e fui parar em coma ao hospital, aí sendo submetido a melindrosa intervenção cirúrgica que durou cinco horas. Só acordei passados dois dias, de braço ao peito e perna suspensa. Na altura, eu era chefe de redacção da revista Notícia e tinha-me deslocado, ao volante do meu carocha, a um posto militar localizado nos arredores de Luanda, a fim de me avistar com o «nosso alferes» Xico Orta, a cuja habilidade para o desenho recorria com frequência para ilustrar determinados textos da revista. Já no regresso a Luanda, em plena estrada de Catete, o lusco-fusco do sol posto e os faróis acesos de um camião que viajava em sentido contrário, geraram um cone de sombra no qual mergulhei sem me aperceber que havia um camião estacionado na berma, sem luzes nem triângulo luminoso que me alertassem. O embate foi brutal, tendo o meu carro saltado para a via da esquerda e carambolado no camião que vinha em sentido contrário e que também capotou. Não morri porque não calhou e, vendo o estado em que o carocha ficou, reduzido a sucata, quase seria tentado a pensar num milagre, não fosse estar certo de que nenhum santo ou santa usaria os poderes que eventualmente tivesse em minha defesa.
Tudo isto não teria especial relevância, não se desse o caso de incluir um pormenor algo picante: é que comigo seguia uma senhora da chamada «melhor sociedade local», que tinha a particularidade de não ser a minha «extremosa esposa». Tratava-se, isso sim, da (recentemente falecida) pintora Teresa Gama, então considerada a ovelha ranhosa da família Neves e Sousa, tal como eu era considerado a ovelha ranhosa da família da minha mulher, cujo apelido Pereira do Nascimento evoca desde logo o meu sogro, que era então uma figura de grande gabarito e larga influência. Daí que, por interferência de ambas as famílias, Neves e Sousa e Pereira do Nascimento, tenham sido movidas influências no sentido de abafar a notícia do acidente. Tais influências foram tais e tantas que, mesmo no Hospital Maria Pia, onde eu e a Teresa Gama estávamos internados, havia ordens terminantes para nenhum saber do outro por intermédio dos médicos, das enfermeiras e até dos serventes. A situação era de tal forma aberrante, que tive de recorrer aos préstimos da minha «extremosa esposa». Foi ela, a presumível ofendida pelo suspeito adúltero que eu era, que a meu pedido se prontificou a procurar o quarto onde a Teresa Gama estava internada, certificando-se do seu estado e trazendo-me as informações que ninguém me dava. Isso não significa que tivesse aceite a minha «infidelidade», pois logo que tive alta apercebi-me de que a minha casa passara a ter um único inquilino: eu. Mulher e filhos tinham voado para longe.
Se o Charulla teve ou não teve qualquer interferência nas maquinações para esconder a notícia, ignoro. Mas tudo me leva a crer que o tenha feito, embora de facto não se coibisse de dar a imagem do acidente na revista Notícia, mas sem referir o nome da senhora acompanhante. Tal omissão não a fez certamente por boas razões, mas por ter um ciúme diabólico da Teresa Gama, que ele não compreendia como era capaz de resistir aos seus encantos, preferindo um tipo como eu. Em resultado desta patologia, acabei por ser despedido da revista, sem apelo nem agravo. O administrador da publicação, António Alves Simões, mancomunado com o Charulla, chamou-me para me despedir, invocando a interferência da PIDE nesse sentido. É claro que PIDE não passou de um falso pretexto alinhavado à pressa para substituir a verdadeira razão: «dor de corno». Na sequência deste despedimento – e como era preciso dar alguma justificação do mesmo aos leitores da revista –, foi publicada uma notícia em que se invocavam, sem os especificar, «factos graves». Dirigi-me à revista para exigir explicações sobre esta notícia e o Charulla recebeu-me aos gritos e empurrou-me pela escada abaixo, o que na altura era para mim algo complicado, pois tinha um braço em gesso e um joelho entrapado.
Como é natural, a invocação de «factos graves» para o meu despedimento levou muita gente a querer saber o que de realmente grave eu fizera, pois o mais plausível, na versão corrente, era eu ter assaltado o cofre da empresa, o que eventualmente justificaria a minha vida nocturna e o meu êxito aparente junto das mulheres. Houve, felizmente, um jornalista que não se deixou enredar pelo diz-se-diz-se e, depois de investigar as verdadeiras causas, escreveu e publicou na revista Semana Ilustrada, dirigida por Alfredo Diogo Júnior, uma bem humorada crónica em que, perante o enigma dos «factos graves» que me eram atribuídos, encontrou a solução recorrendo a uma velha expressão francesa: «cherchez la femme». O jornalista que se arvorou em Poirot para chegar a esta sábia conclusão, pondo meia Luanda a rir, foi nem mais nem menos do que o famoso Ernesto Lara Filho.
A história vai longa, mas para ser devidamente entendida achei que não devia poupar pormenores. Resta-me acrescentar que, depois de todas estas bizarrias, o Charulla tornou-se proprietário da revista Notícia e, abafados os velhos ressentimentos, resolveu convidar-me a voltar ao «local do crime». E assim aconteceu, ao que parece com o agrado do António Gonçalves, que a propósito do ambiente que eu instituí na redacção, já me prestou justiça ao escrever no mesmo blogue:

«No “Notícia”, depois, encontrei a grande alegria de viver e um companheirismo exemplar de Acácio Barradas, então Chefe de Redacção, e de Joaquim Cabral, um grande fotógrafo e um bom amigo. Angola viria a seguir. Sem o «N» não teria andado tanto em tão pouco tempo...»

Enfim, não há nada como um «happy end», à boa maneira dos velhos tempos de Holywood.

Acácio Barradas.

sábado, outubro 13, 2007

O 27 de Maio em Angola

As edições ASA lançaram no dia 27 de Sembro, em Lisboa, na Sociedade de Geografia um livro assinado por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, com o título "Purga em Angola - Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunem o 27 de Maio de 1977".



Estive lá, comprei o livro, já o li.



Já exprimi muitas vezes a minha opinião sobre o que aconteceu a seguir à tentativa de golpe de estado do 27 de Maio. Já verberei, inclusivé, que se tente branquear a imagem de Agostinho Neto, falando dos seus escritos - poemas incluídos - para fazer esquecer a sua prática política, marcada pela ignorância, pela soberba, arrogância e pelo institnto sanguinário que o foi acompanhando ao longo da sua carreira política - Hoji Ya Henda, Deolinda Rodrigues, Gika e outros, além das tentativas frustradas de se ver livre de adversários políticos - e que culminou com um massacre indiscriminado num contra-golpe autenticamente fascista.



Este livro apresenta, todavia, apenas um lado de toda esta trama política e cobre a tentativa efectiva de golpe de estado levada a cabo por um grupo organizado em torno de Nito Alves.

Eu fui testemunha presencial de muitos acontecimentos anteriores ao 27 de Maio que já denunciavam as reais intenções de Nito,tendo inclusivé, sentido a necessidade de fugir de Angola perante a inevitabilidade de um confronto entre os dois blocos. Ganhasse quem ganhasse o meu fim engrossaria o número dos que agora se contam.



Nito Alves e a sua gente, organizada sobretudo no interior da JMPLA, já tinham tomado o poder político e, em alguns casos, militar, em grande parte das Províncias. Por exemplo, na Huíla, cuja capital, o Lubango, foi local de encontro para vários dos conspiradores. Monstro Imortal encontrou-se várias vezes com o Comandante da Frente Sul, o major Evady, que, mais tarde conseguiu sacudir o labéu de "nitista" e veio a ser Comissário da Província.



Na Huíla esteve também José Eduardo dos Santos, exactamente no dia 27, em casa de um parente, o então Comissário Provincial, Belarmino Van Dunem. A fazer o quê?



O Comandante da CPPA ( Polícia de Segurança), em 1976, um tal Comandante Martinho, natural de Malange e nitista, fez todas as barbaridades possíveis. Foi ele que inaugurou a célebre e tétrica prática de jogar gente na Fenda da Tundavala.

Mandava fazer rusgas na casa dos brancos, de madrugada. Um dia mandou chicotear um colono, nos testículos, o Velho Maximino Borges, por ter encontrado numa sua mala, uma bandeira portuguesa.



Numa outra altura mandou prender um jornalista da então Rádio Popular, que eu tinha criado, e durante toda a noite os seus lacaios espancaram o Celso apenas porque ele trabalhava na Rádio Popular.




Logo a seguir escrevi um texto no jornal " A Luta Continua", que eu também tinha criado, denunciando a ocorrência. Suponho que o tal comandante era analfabeto... mas em Luanda havia muita gente letrada e o jornal que saía às quartas no Lubango, chegava a Luanda às quintas de manhã e logo esgotava, porque nessa altura já se vivia sob a tutebla de um dos mais violentos educadores do povo - este netista - Costa Andrade, o N'Dunduma - director do Jornal de Angola e que só permitia escritos a louvar o partido.


Depois que cheguei ao Lubango, em Fevereiro de 1976, fiz um enorme esforço em todas as áreas onde podia ajudar e mesmo naquelas onde os meus conhecimentos não eram assimm tantos.

Uma das coisas que fiz foi enviar informação via rádio - uma tarefa que me ocupava horas - para o Jornal de Angola.


Ora, eu não lia o que era publicado e quando, mais tarde, fui a Luanda fiquei surpreendido com o que "tinha escrito". N'Dunduma e os seus lacaios retalharam-me completmente os textos e chegaram a negar afirmações minhas ou a afirmar negações escritas por mim.


Quando tentei falar com ele para lhe chamar, no mínimo, fascista, não me recebeu. Era um senhor muito importante...


Afinal, os diversos conflitos pseudo-políticos que ocorriam nessa altura em Angola resumiam-se a um facto muito simples: os vários grupos do MPLA, quando chegaram a Angola ficaram surpreendidos com o que encontraram e elegeram como principais inimigos os que tinham construído aquele país que eles não entendiam. Para eles Angola ainda era a mesma de 1950.
De resto, isso ainda acontece hoje: os construtores de Angola, que o MPLA destruiu em apenas dois anos são os verdadeiros inimigos dos dirigentes aburguesados e ignorantes de Angola.
Mas não só: também são mal vistos em Portugal.
Sempre que se fala de algum assunto mais ou menos histórico referente a Angola, enquanto colónia, ou província ultramaria, ou o que quer que seja, nunca se pergunta nada a quem lá viveu, lutou e sofreu para construir um país que tinha condições , já em 1973, para ser , de facto, independente.
Até que apareceram os "libertadores", que como disse o Rola da Silva "se mataram uns aos outros como cães".

Entretanto, instalou-se na cidade do Lubango, bem como por todo o país, depois de , mais ou menos Maio ou Junho de 1976, um clima de verdadeiro terror, porque, no regresso de Luanda para o Lubango, depois que os sul-africanos abandonaram o território, em 27 de Março, a maior parte dos quadros do MPLA vinham doutrinados pela gente de Nito Alves. Incluia-se neste número o primeiro Comissário Provincial, Sumbo Braz, que principiou a fazer discursos racistas e regionalistas que assustavam. Um homem ponderado ficou, de repenete, desaustinado.





Tive a oportunidade de, durante a abertura do ano lectivo de 1976/77, na Faculdade de Letras do Lubango, ser duro com ele. Já estava a ficar farto de tudo.




Os nitistas tomaram o poder numa Assembleia Geral de Militantes, realizada do Auditório do ex- Rádio Clube da Huíla de uma forma perfeitamente organizada e orquestrada. Começaram por esperar pela minha entrada na sala para pedirem a minha nomeação para a mesa como secretário. Os anti-nitistas ficaram sem a sua principal arma...



Depois acusaram toda a gente de tudo, remexeram na vida privada dos dirigentes, acusando uns de incesto e outros de coisas ainda piores. No final, o único que ficou, fui eu. De resto, eu era o único que restava da primeira assembleia de militantes realizada ainda em 1974.



Não seria, todavia, pacífica a minha continuação como dirigente. Comecei a ser atacado por todos os lados. A Camarada Arlete, por exemplo, numa reunião sobre informação dissse que o jornal " A Luta Continua" não estava dirigido "às massas". Obteve como resposta uma gargalhada: " A Camarada não sabe que as massas são analfabetas?".


Tão analfabetas como o comandante da Polícia, ou como um membro do Conselho de Administração da Moagem do Venâncio Guimarães Sobrinho, do qual eu era o presidente. Um dia, descobri que ele tinha um documento ao contrário e fingia um grande esforço de compreensão da sua leitura.


Tinha sido lá colocado pelo Santos, outro nitista, delegado do Ministério da Indústria na Huíla. Claro que o mandei para um grupo de alfabetizandos...


O Livro de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus serve como denúnica dos massacres horrorosos levados a cabo por uma chusma de sanguinários que seguiram a ordem do chefe : "não vamos perder muito tempo", mas passa completamente ao lado do contexto em que tudo ocorreu, limitando-se a falar do que aconteceu em Luanda e referindo-se ao resto do país apenas para contar os massacres. É pena, porque é mais uma oportunidade perdida.


sexta-feira, outubro 12, 2007

Amilcar Cabral - Uma Biografia






As edições "Tinta-da-China" vão lançar no dia 24 deste mês o livro "O Fazedor de Utopias, uma biografia de Amilcar Cabral", de um escritor angolano, António Tomás.


Bárbara Bulhosa, responsável pela "Tinta-da-China", teve a amabilidade de me mandar um e-mail contendo não apenas alguns elementos informativos como o próprio texto.



Fico extremamente agradecido. Não apenas a ela, mas ao António Tomás pela sua iniciativa, já que Amílcar Cabral - quanto a mim o mais lúcido e inteligente lider africano da era moderna - está há demasiado tempo esquecido. Os africanos raramente falam do seu exemplo, dos seus ensinamentos e nunca procuram neles o caminho para a solução de problemas verdadeiramente inacreditáveis - veja-se o que aconte por esta altura na Guiné Bissau, exactamente a pátria que Amílcar libertou.




Deste esquecimento são responáveis os dirigentes da Guiné Bissau para quem Amílcar tinha um "pecado original": era Cabo-verdiano.



Em Cabo Verde também há culpas deste apagamento de Amílcar. Primeiro foi o MpD que tentou apagar a sua memória, já que ela era sempre ligada ao PAICV e depois, o próprio PAICV, que, em vez de nacionalizar e mesmo internacionalizar a imagem do grande lider, fecha-a dentro das suas paredes iedológicas, num processo quase autofágico de uma memória que já devia ser considerada "património mundial".



Oxalá " O Fazedor de Utopias" recupere vigores e capacidades antigos que ajudem África a sair do pântano em que se encontra.

sexta-feira, setembro 21, 2007

David Mestre



Nos finais dos anos oitenta eu viajava muito para Luanda, onde, por vezes, ficava por longas temporadas. Nessas alturas, para além de trabalhar para o "África", integrava-me na equipa do David Meste, no "Jornal de Angola", desde a altura em que ele foi nomeado como director. O meu nome, de resto, figurava na ficha técnica. Esta imagem mostra-me ao lado do David no dia em que se comemorou a sua nomeação como director do "Jornal de Angola".

Desde esse dia ficou assente que eu fazia parte da equipa e ele tinha acerca de nós os dois ideias muito definidas.

Dizia ele, com a sua voz meia rouca: "tu é que percebes de política,comigo é a literatura". Dentro desse princípio, nas alturas em que eu estava em Luanda, muitos dos editoriais do JA tinham a minha autoria. Alguns deles provocaram desassoguegos na classe política.


O David era um profissional esforçado, competente, cheio de paciência com a qualidade de alguns dos seus colaboradores e esforçou-se muito por organizar o seu jornal o melhor que lhe permitiam os meios que lhe colocavam à disposição. Ainda como Chefe de Redacção organizou uma exposição sobre o JA em cuja inauguração explicou ao então ministro da Informação, Boaventora Sousa Cardoso, todo o processo de feitura do jornal.

O David Mestre era um excesivo em muitos capítulos da sua vida e ligava pouco à sua própria saúde.

Quando eu estava em Luanda, almoçávamos, normalmente no Hotel Panorama - devo confessar que nunca eram almoços leves -. O Manuel Dionísio e outros jornalistas, de vez em quando, também nos faziam companhia. O jantar era em casa do David. Quem o fazia era a Terezinha, a quem ele, carinhosamente, tratava de "moranguinho".

A imagem ao lado mostra a Terezinha por detrás do David - sempre a tomar conta dele. Tenho pena que a imagem seja má, mas é a única que tenho.

As nossas vidas deixaram de se encontrar porque o "África" fechou e eu deixei de ir a Luanda. Ainda estivémos juntos um dia em que ele veio a Lisboa e fomos O "Pereirinha de Alfama" comer um cozido à portuguesa - uma espécie de obrigação que ele cumpria sempre que vinha a Lisboa.


Depois cansou definitivamente de Luanda e da vida que o rodeava, da mediocridade, da corrupção, dos critérios políticos, da vida das elites e da pobreza do povo. Já nem os jantares de cacusso nos quintalões das Ingombotas lhe alegravam o coração. Veio para Lisboa e um dia deu uma entrevista a uma das televisões. Deitou todo o fel fora. Tinha feito um bypass, mas, a seguir continuou com a mesma vida de excessos. A notícia da sua morte chegou-me já tarde. Que a "Moranguinho" estava em Lisboa - disseram-se. Nunca consegui o contacto dela para lhe dizer o quanto eu sentia a sua perda - que também era minha.
Tenho, verdadeiramente, saudades do David Mestre, cujo nome verdadeiro era Filipe Mota Veiga e cuja vida tinha começado muito mal: aos cinco anos viu o pai matar a mãe.
Para terminar, aqui fica a imagem do poeta e do crítico literário, despido de fatos emprestados. Ele mesmo, o autêntico, o homem que viveu permanentemente insatisfeito, sobretudo consigo mesmo. Uma insatisfação bem retratada na sua poesia, a que os angolanos pouco ligam porque, para eles, o David era apenas mais um branco a ocupar um lugar que não lhe pertencia, apesar de ter doado ao Estado angolano o que lhe coube da herança familiar - que não era tão pouco assim

quinta-feira, setembro 06, 2007

Pedro Pires

Pedro Verona Rodrigues Pires, CMDT.PEDRO PIRES, hoje Presidente da República de Cabo Verde é um Homem notável. Conheci-lhe a acção política muito de perto desde 1981, altura em que fui para a Cidade da Praia como Correspondente da ANOP.

A primeira vez que falei com ele informalmente - sem ser em conferência de imprensa ou qualquer outra acção do tipo - foi quando me fui despedir porque havia terminado a minha comissão de jornalista delegado da ANOP em Cabo Verde.

Quando cheguei ao país ia com o rótulo de "expulso" da Guiné Bissau, o país até há bem pouco tempo, "irmão-aliado". Fui, por isso, recebido com um pé meio atrás, apesar de o Secretário de Estado da Comunicação Social da altura, Corsino Fortes, me ter recebido com a maior das simpatias.
Acho que se percebeu cedo que eu não seria fácil. Quinze dias depois de estar instalado sugeri a um alto quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros que me desse informação sobre os desenvolvimentos da política da chamada "África Austral" - guerra em Angola, Namíbia, África do Sul, etc. - que eu apoiaria a política externa de Cabo Verde, até porque concordava plenamente com os seus princípios.
Foi o alarme. É que, de facto, Cabo Verde, desde 1979 que tentava fazer a mediação entre Angola e a África do Sul...mas, notícias nem vê-las. Começaram comigo!!! e acabram comigo!!!

A verdade é que eu não tinha nenhuma informação concreta, apenas conhecia muito bem a realidade mais abaixo e percebi (cheirou-me) que ali seria o sítio ideal para tentar alguma coisa e fui utilizando os meus processos - que o Renato Cardoso, tempos mais tarde comparou aos do autor da "Rapariga do Tambor", John Le Carré -. As notícias foram surgindo.

E eram mesmo notícias... Tanto que Pedro Pires teve que ir ao Sal fazer um comício para explicar ao povo e ao Mundo que "Cabo Verde estava, como sempre esteve disponível, para encontrar soluções pela via do diálogo para os conflitos africanos".

E eu continuei a noticiar - contra a "raiva" do MNE, Silvino da Luz - os encontros entre americanos e angolanos, mais sul-africanos, mais namibianos... e mais e mais. A tal ponto que, um dia, em vez de utilizarem a Ilha do Sal, - onde tinha sido construída uma casa especialmente para os encontros - foram para o Mindelo e fecharam o tráfego aéreo. Por acaso foi uma maldade porque eu sabia exactamente quem ia estar no Mindelo, Sam Nujoma, e não consegui lá estar. Mas fiz a notícia. Silvino da Luz espumou, mais uma vez. ( Um dia destes falarei aqui desta minha relação "conflituosa com Silvino da Luz...)

Pedro Pires dirigiu o governo de Cabo Verde durante 15 anos seguidos, transformando a terra num Estado viável, num país de esperança e foi ele o responsável pela preparação do caminho para o pluripartidarismo, um caminho planeado durante anos...

Apesar do sistema de partido único, o Governo de Cabo Verde daquela altura tinha um grande prstígio internacional pelo rigor com que cumpria os seus compromissos e pela consistência com que defendia os seus princípios.
Pedro Pires foi recebido por toda a parte com grandes manifestações de simpatia. Numa dessas viagens, a Espanha, tive o gosto de o acomopanhar e verificar que Felipe Gonzalez apreciava particularmente o esforço que os Cabo-verdianos faziam para se afirmarem na cena internacional.

Com o advento do pluripartidarismo em Cabo Verde e depois de
um campanha verdadeiramente vergonhosa, o PAICV perdeu as eleições e Pedro Pires -
que não tinha conseguido ganhar, sequer para uma casa - voltou para casa da mãe e disposto a r
econstruir das quase cinzas o seu partido.

Dez anos depois ganhou as eleições presidenciais, feito que repetiu cinco anos depois. Hoje ainda é o Chefe de Estado de Cabo Verde e a sua mais forte garantia.

Neste texto despretensioso em que o mostro com alguns anos mais novo - agradeça - deixo-lhe um forte abraço e a manifestação da minha mais profunda admiração.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Mário Pinto de Andrade


Organizando fotografias, lendo o que foi sendo escrito no jornal "Africa", deparo, invetivalmente, com recordações, algumas das quais me fazem sentir saudades de algumas pessoas. É o caso do Mário Pinto de Andrade, falecido já há mais de 17 anos.
Conheci este "intelectual africano", como gostava de ser designado - detestava que o classificassem como político - na Guiné Bissau. Era ele ministro da cultura do governo de Luís Cabral. E a verdade é que o sector da cultura estava bem entregue, sempre muito movimentado, com iniciativas que davam a Bissau uma existência no campo da cultura que muito poucas outras capitais africanas teriam naquela altura. Foi na Guiné Bissau, durante este mandato de Pinto de Andrade que tive a oportunidade de assitir a alguns filmes que nem sequer passaram por Lisboa.
Mais tarde, depois do golpe de Novembro de 80, que o levou a desligar-se de Bissau e a procurar Cabo Verde, passámos algumas horas a conversar, sobre a actualidade africana e, muito particularmente, Angola.
Perguntava-lhe eu: "...então, Mário, quando é que temos a História que está por fazer do movimento de libertação...?
Respondia-me ele, com aquele sorriso matreiro e a voz um pouco nasalada: "...sabes como é que começou a Revolta Activa...? Sabes?... foi quando um miúdo, como tu, veio com essa mesma conversa: "... então, mais velho, quando é que nós sabemos a verdade histórica...quando é que esses documentos nos dizem o que esteve e o que está mal...? O resultado foi o que se viu.
A posição dele não era a de um espectador, relativamente a Angola, embora a sua preocupação fosse muito mais ampla, à escala de toda a África.
Escrevia de vez em quando para o África, cuja redacção o entrevistou por diversas vezes. Lembro, por exemplo, uma entrevista que me deu no Mindelo, a propósito das comemorações dos 50 anos da Revista Claridade e em que ele falava da esperança de que o caminho seguido pelas autoridades da Praia fosse seguido, em primeiro lugar, por todos os outros quatro de Língua Portuguesa e, logo de seguida, pelos países da África Ocidental.
De resto, alguns dias depois da conversa, tida no quintal do Hotel 5 de Julho para que ele não desperdissasse uma oportunidade de apanhar Sol, ele seguiria para Dakar, onde, com Maria do Céu Carmo Reis ( outra angolana que não vivia na sua terra), Samir Amin, Houtounndji Benin e outros, iria participar no "Forum do Terceiro Mundo" e onde seria debatida "a dimensão cultural do Desenvolvimento em África".
A sua opinião era estudada com respeito e funcionava, muitas vezes, como conselheiro especial, por exemplo, do Presidente Aristides Pereira.
Se havia alguém que conhecia profundamente as várias peripécias do movimento global de libertação dos Cinco era o Mário Pinto de Andrade, que, de vez em quando, gostava de contar algumas estórias.
Por exemplo,nos primeiros tempos da organização do MPLA, que contava com o apoio activo da Argélia, ele saía, muitas vezes do gabinete de Ben Bella, o então presidente daquele país do Magrebe, com um monte de notas de dólar embrulhadas em jornal.
Foi pena que tivesse insistido na ideia de que a sua visão das coisas, desde o começo, a ser divulgada, não ajudaria muito a solucionar os problemas ,que eram muitos.
A sua última posição política relativamente a Angola era a de que, no interior das forças políticas e da sociedade civil angolanas se encontraria gente para procurar e concretizar um consenso para uma solução. Ao lembrar hoje o Mário Pinto de Andrade, o amigo e o africano de grande valor, não posso deixar de lamentar que o tempo não o tivesse deixado escrever tudo quanto sabia.

domingo, agosto 26, 2007

As Fotos do Eduardo Baião


Há uns dias publiquei aqui duas fotografias de uma mesma mulher mucubal. De uma linda mulher, diga-se.Serviram de ilustração a algumas observações sobre coisas feias que estão a acontecer lá para o Sul.


As fotografias, todavia, foram muito comentadas, não directamente no texto, mas por gente amiga que telefonou. Houve mesmo quem afirmasse lembrar-se da reportagem da Revista "Notícia" em que elas apareceram.


É verdade, as fotografias foram publicadas no "Notícia" e são da autoria de Eduardo Baião, infelizmente já falecido, mas que ocupou um lugar muito destacado como repórter fotográfico.


Por sorte, já que possuo outras fotografias dessa reportagem, que o António Gonçalves, enquanto Chefe de Redacção do África, fez o favor de ceder, publico hoje uma imagem que revela o Baião em plena acção, ajeitando o seu "modelo" para a tal reportagem. Esta é uma foto do António Gonçalves.

sexta-feira, agosto 24, 2007

MAIS DO MESMO

Hoje foi um Vasco pouco polido a maltratar Robert Mugabe, tratado de assassino. Até se lhe pode, e deve, chamar pior, que a questão não é, nem foi, essa, mas a lusitana falta de jeito para o negócio. Deixar de fora da cimeirice um racista tirano, assassino e desonesto, especialmente detestado pelos ingleses, podia pressupor que os outros convidados fossem criaturas comuns. Que não eram já se sabia e se dúvidas houvesse logo foram desfeitas: «Com ele ou nada». E não podia deixar de ser! Além de racistas desumanos e desonestos não são parvos, sabem que se um deles for apeado os outros vão começar a tropeçar. Mas se o problema dos ocidentais, piedosos e tementes a Deus, é cuidar da saúde e do estômago aos africanos famintos, façam favor, ide, depressa e em força, como diria um ilustre cultor de africanidade. Desde que paguem portagem, bem entendido!

sábado, agosto 18, 2007

MODOS E MODAS





A modos que andamos confusos, a julgar pelo DN, que confronta ministro e secretário de Estado,
a propósito da vinda ou ausência de Mugabe, chefe de estado de um país africano, que foi colónia
inglesa. O matutino classifica Mugabe como um dos mais ferozes ditadores africanos. Não conheço ditador que se destacasse por ter bom coração, por ser crente da democracia ou por ajudar os velhinhos a atravessar o Rossio, a 5ªAv. ou o Arco do Triunfo! O ditador, coitado, é apenas, e só, ditador, nada mais que isso! Alguns romanos, dos primeiros a ficar para a História, ficaram na memória por serem amigos dos animais: nunca esqueciam de alimentar os pobres leões cativos. Nem por isso deixaram de morrer incompreendidos.
Melhor sorte teve o marquês de Pombal, ditador do reino, que, entre outras maldades, mandou liquidar duas famílias inteiras, até à terceira geração, e tem uma estátua reluzente, em Lisboa, ao lado de um leão. Ou Franco, que recuperou a monarquia da república débil e aleitou o Rei, que lhe sucedeu. Enquanto vivo chacinou uns quantos etarras, nacionalistas incompreendidos, um tudo nada insaciáveis. É verdade que o de Santa Comba foi o que foi, mas em boa e honesta verdade o Zé dos Bigodes ficou a dever-lhe uma data de anos de boa imagem de anti fascita, que não era nem nunca foi, como de resto a História não tardou a revelar!
Não foi um ditador sanguinário que subscreveu o despejo de duas bombas atómicas sobre gente viva, que logo deixou de viver.
Mas a questão existe. Há ditadores. Alguns são presidentes, de países, de bancos, de juntas, de câmaras. É quase absurdo considerar ditador demoníaco, e agravado por não gostar de ingleses, o presidente do Zimbabwe, sem classificar os restantes ditadores de outros países africanos, com os quais, aliás, os países ditos democráticos negoceiam e não raro por ínvios caminhos.
Ontem li que o sujeito que molestou uma criança foi preso. Já tinha sido preso e condenado a 16 anos pelo mesmo motivo. Cumpriu parte da pena e saiu. Voltou a ser preso e condenado, pelo mesma violência e voltaria a sair. Se o jornal não exagerou, ainda voltou a ser preso por molestar outra criança. Dá a ideia de que não é proíbido molestar crianças, desde que haja paciência para ir pagando as facturas. Não sei se não seria melhor ir viver no Zimbabwe...

quarta-feira, agosto 15, 2007

Os Casamentos "Tradicionais" e a Desagregação Familiar


Estas duas fotografias, feitas com grande meestria representam a mesma mulher junto da sua gente. São Mucubais, que vivem entre o deserto de Moçamedes e as faldas da Serra da Chela, à procura dos melhores pastos para o seu gado. Vivem, essencialmente do que lhes dão os rebanhos: carne e leite. Por volta de 1975 eram cerca de 35.000 individuos e tiveram um papel fundamental na guerra contra a África do Sul, já que impediram a ligação entre o Lubango e Namibe com a segurança que os sul-africanos desejariam.
O seu terrritório, muito amplo, vai do Namibe ao Chiange e tem como vizinhos os Nhanheca Humbe (muílas e mogambos).
Entre estes dois grupos estão a acontecer pequenas desgraças que podem transformar-se numa catástrofe. É que os "senhores do poder", reclamando práticas da tradição vão às aldeias de criadores de gado e de agricultores escolher as filhas casadoiras (que, no caso, se considera logo após a primeira menstruação - o mufiku).
Nos primeiros tempos não pagavam, sequer o que a tradição manda, o chamado "alambamento", normalmente constituído por bois e por peças de utilidade doméstica, como mantas e outras coisas.
Os pais protestaram e agora os bois lá aparecem. Assim como os filhos produtos destas relações tradicionais, mas que, na prática, não têm pai, nem família. A sociedade camponesa do Sul de Angola, ao que se supõe com a excepção dos mucubais, está a ficar desagregada, por culpa dos senhores que praticam "o casamento tradicional", indo de jeep buscar e devolver as noivas. Não há ninguém que olhe por isto, ou Angola virou terra de cafagestes puros, sem respeito por nada nem por ninguém, nem por si próprios . E ainda falavam dos colonos com duas famílias... Pelo menos eles assumiam os filhos!!!

quinta-feira, julho 26, 2007

Já Agora, a Propósito de História...

Têm-me chegado notícias indicadoras de que há como que uma "febre" em volta das várias "histórias da Rádio Angolana. Acho muito bem que elas todas possam, um dia, ter contribuido para uma História o mais completa possível da Rádio Angolana. E nela, seguramente, terá de haver um lugar destacado para Sebastião Coelho.
Leonel Cosme publicou em Fevereiro de 2003 um texto que, com a devida vénia, aqui reproduzo, na certeza de estar a contribuir para o esclarecimento de algumas "febres" mais altas que por aí campeiam.
IN MEMORIAM DE SEBASTIÃO COELHO
SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA RADIO ANGOLANA

Por LEONELCOSME

Ouvi falar de Sebastião Coelho, pela primeira vez, em 1951, quando ele foi contratado para chefiar a produção do Rádio Clube de Moçâmedes, facto memorável logo pela razão de ser o primeiro radialista (como então se dizia) natural de Angola que se tornava profissional da Rádio. Outros profissionais de nome feito na Metrópole já dirigiam a produção das emissoras assoctativas, como eram os Rádios Clubes - Santos e Sousa, Humberto de Mergulhão, Natália Bispo, Fernando Curado Ribeiro e Carlos Mendes, nomeadamente - em Luanda, Benguela, Nova Lisboa e Sá da Bandeira, mas acontecimento fora a contratação de um jovem radialista formado em Nova Lisboa, sob a "batuta" de dois nomes sonantes - Curado Ribeiro e sua "alter ego" Joana Campino, senhora de vasta cultura, licenciada em Letras e conhecida como declamadora de grande mérito. Neste papel a vi, ao lado de Sebastião Coelho, no festival promovido pelo Rádio Clube da Huila, enquadrado na realização do I Congresso da Rádio Angolana, em que participaram todos os chefes de produção das emissoras angolanas, para debaterem - o que ocorria pela primeira vez, desde o seu surgimento duas décadas atrás - os problemas "existenciais" dos Rádios Clubes, que de associações clubísticas tendiam a tornar-se em verdadeiras empresas, necessitadas de suporte financeiro para, através da publicidade e da comercialização dos seus programas, caminharem no sentido duma crescente profissionalização dos seus colaboradores eventuais e não reunerados.
Mas já havia quem pensasse que a Rádio (pela cobertura, em audiência, que fazia do território) poderia ser o mais importante meio de consciencialização cultural e (esta não explicitamente) política, pois atingia espaços públicos onde não chegava a imprensa.
Isto começou a ser visível em Luanda, a partir de 195 1, através de programas culturais do Rádio Clube de Angola, de Luanda, em que se fizeram ouvir as primeiras vozes de um assumido
Movimento dos Noyos Intelectuais de Angola (dinamizado por jovens poetas como António Jacinto, Leston Martins e Humberto da Silvan), que se propunha divulgar os novos valores da "poesia angolana", feita por "angolanos", como Viriato da Cruz (na época funcionário administrativo no Liceu de Sá da Bandeira, cidade académica que lhe inspiraria ainda um poema tão anódino como "Sá da Bandeira", que comparou com um pratinho de louça de Rouen...Cochat Osório, Ermelinda Xavier, Lília da Fonseca e Maurício Gomes, todos integrantes de uma colectânea mimeografada, que fez história, Antologia dos Novos Poetas de Angola, na qual participavam ainda aqueles "fundadores" do MNIA e que eram, também, os dinamizadores da
"revista" cultural da mesma Associação dos Naturais de Angola que" editara" a Antologia, igualmente histórica Mensagem.
Sebastião Coelho, à frente da emissora de Moçâmedes, dá guarida e colabora, em parceria com Leston Martins, então naquela cidade, num programa de divulgação dos jovens poetas angolanos, que era igualmente apresentado no Rádio Clube de Benguela, em colaboração com a jornalista Helena Soeiro (Mensurado, por casamento com outro jornalista, José Mensurado também ele um dos dinamizadores da Mensagem.
Na pequena e mais puxada ao Sul cidade de Angola - fundada, só na segunda metade do século XIX, por colonos luso-brasileiros fugidos de Pernambuco às defenestrações nativistas e sem assinaláveis tradições culturais - tem particular significado a acção quase "missionária" de Sebastião Coelho, apoiando a entronização, no Namibe, de um Movimento da "novi-angolanidade", que os seus promotores já queriam ver distinto do "lusotropicalismo teorizado pelo brasileiro nordestino Gilberto Freyre, aproveitado pelo regime colonial e, ainda hoje, como que travestido numa difusa "crioulidade" que é, no fundo, um desvio da "angolanidade" defendida pelos "mensageiros" com o sentido de afirmação de uma personalidade autónoma e prospectivamente africana.
Sebastião Coelho, ao longo dos anos em que me relacionei com ele, sobretudo por motivos profissionais, mas não só (uma ligação que durou até aos primeiros meses de 1976, comigo já em
Portugal e ele em vésperas de partir para a Argentina), fez a sua" guerra" pela angolanidade, sem anúncio nem ostentação.
Discreto, mas atento, agia como podia e era preciso naquele "tempo de cicio", no dizer do poeta Jofre Rocha: mesmo que os ouvintes "distraídos" não tivessem intuído um projecto nacionalista"
da realização, no Rádio Clube do Huambo, do Cruzeiro do Sul, o primeiro programa (com capa publicitária) falado numa língua nacional, o umbundo, e, depois, a partir dos seus Estúdios Nor~
te, em Luanda, as "mensagens" que eram enviadas, através dos Rádios Clubes, que o retransmitiam, no programa Café da Noite- ele espalhava a semente da "diferença" de ser angolano, nas suas crónicas, diálogos e prosódia, com graça, cordialidade e subtileza. Ficou célebre o seu slogan: Caféda Noite- Café de Angola, boa música em boa companhia. A música era predominantemente angolana e a companhia (os temas e as vozes) também.
O seu sentido nacionalista manifestava-se, de resto, em vários domínios: pelos anos 60. colaborando com a Liga Nacional Africana, recebo dele o convite para elaborar um artigo sobre literatura angolana que seria publicado na revista daquela Liga, ANGOLA; na mesma década, sinto-o, na sombra, a apoiar a minha posição de defesa dos "direitos .... adquiridos" pelos Rádios Clubes, quando a Rádio Comercial de Angola, recém-criada em Sá da Bandeira por dois ex-profissionais do Rádio Clube da Huíla que quiseram apostar na "iniciatiava privada", se empenhavam na proibição de os "clubes radiofónicos" explorarem a publicidade. Não lhes bastava já o privilégio de emitir para todo o território, através de um emissor de 10 kws, quando os Rádios Clubes estavam confinados a 1 kw.
Por iniciativa do Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), então dirigido por um militar atento à problemática, o major Alves Cardoso, realiza-se em Luanda o I Colóquio da Radiodifusão de Angola (estava esquecido o I Congresso ocorrido, cerca de dez anos antes, na Huíla, em que compareceram delegados dos Rádios Clubes e Rádios comerciais (então já duas, que acabariam por ser controladas pelo mesmo grupo económico).
Em nome do Rádio Clube da Huíla, assumo virtualmente o papel de "inimigo público nº 1 do favorecimento da Rádio privada em detrimento da Rádio Associativa, que, não sendo do Estado, prestava um serviço público de incidência regional, pois não visava o lucro, o que aliás era reconhecido pelo próprio Estado, que lhe ia concedendo, pelo Governo ou as autarquias, subsídios mais ou menos regulares.
Tenho em Sebastião Coelho (na altura proprietário da agência de publicidade Estúdios Norte) um aliado não declarado... O Colóquio deixou em suspenso a possibilidade de os Rádios Clubes se tomarem em sociedades cooperativas, o que obrigaria a uma alteração dos seus Estatutos, portanto gozando do "direito expresso" e já não consuetudinário de explorar a publicidade.
Como eu, Sebastião Coelho pensava que os Rádios Clubes, pela sua natureza associativa, com direcções democraticamente eleitas, eram o único espaço de relativa autonomia onde se manifestava a "opinião pública" das populações angolanas.
Por ironia da história, como consequência dos "ventos de mudança", em 1975 (em tempo de grande agitação política, como se sabe ou imagina), o principal administrador, em Luanda, da
Rádio Comercial de Angola, Mota Veiga, confia a Sebastião Coelho, com quem mantinha relações de grande confiança, a direcção das duas emissoras do grupo: a de Luanda e a de Sá da Bandeira. E, ironia das ironias, delega em mim (o "inimigo" confesso) a administração da Rádio Comercial de Angola, em Sá da Bandeira, que durou, com Leston Bandeira e Fernando Alves na direcção da informação e programas até que o MPLA perdeu o controlo da cidade, e consequentemente da Imprensa e da Rádio locais, com a ascensão dos profissionais ( e o beneplácito do sócio minoritário da empresa, residente naquela cidade, Venâncio Guimarães Sobrinho) apoiantes das forças coligadas da FNLA-UNITA, que se mantiveram até depois da chegada à cidade do exército sul-africano, no dia 23 de Outubro de 1975.

Depois da independência de Angola, ainda Sebastião Coelho se bateu contra a hegemonia de uma Rádio Nacional' centralizadora, fazendo dos ex-Rádio Clubes emissoras de repetição e assim
coartando as autonomias regionais. No livro que publicou em 1999, Angola-História e Estórias da Informação (que constitui a melhor fonte de informações conhecida sobre este e outros temas), ele diz suficientemente do seu desgosto por não ter visto concretizadas as expectativas.
Nestas estava incluída a criação de uma Escola de Jornalismo, para o que, no início de 1976, fui convidado para ser seu adjunto. Com o salvo-conduto à minha disposição, no aeroporto de Lis-
boa, para regressar a Angola, razões fortes, de natureza familiar, impediram a sua imediata utilização, retendo-me em , Portugal.
A Escola de Jornalismo pensada por Sebastião Coelho, em que se preparariam os futuros profissionais da Imprensa, Rádio e Televisão (da qual também foi um iniciador, após uma temporada de "estágio" passada na América do Sul), para com competência e sentido ético entrarem no futuro ciclópico que tinham pela frente, não chegou a arrancar.
Não voltei a contactar com ele, para lhe perguntar o que acontecera exactamente. Mas, ao receber a notícia de que partira para a Argentina, imaginei a resposta que me daria e que li, duas décadas depois, naquele seu referido livro - "... deixando atrás o país onde nasci, o princípio de Nação que ajudei a criar com amor, durante uma vida de trabalho, sacrificios e esperanças.
Mas era impossível continuar a lutar contra moinhos de vento." - e que outro jornalista, Júlio Guerra, recupera para o prefácio ao mesmo, com o seu comentário: "Sonhamos, meu caro
Sebastião, um sonho que, apesar de tudo, continua vivo. É a nossa Sagrada Esperança" .
É de irrecusável justiça reter de Sebastião Coelho a memória do profissional mais completo (cronista, repórter, locutor, produtor e administrador) que a actividade audiovisual, designadamente a Rádio, conheceu até agora em Angola.

Nota da Redacção - Com efeito, Sebastião Coelho integrou, de 1972 a 1974-, um grupo liderado pdo conhecido radialista Paulo Cardoso, falecido há dois anos nos EUA, que, embora sem autorizaçãogovernamental, conseguiu montar em Luanda uma estação de tdevisão por cabo, a Tdevisão de Angola, TVA.Vem a talhe de foice dizer que, mesmo sem possibilidade de ser aprovada oficialmente devido aos circunstancialismos da época, aquda estação, cujos estúdios estavam instalados numa cave dum prédio um pouco acima do Hotd Trópico, chegou
a receber a visita do General Costa Gomes, que ali se deslocou pouco antes de sair de ter terminado a sua comissão como comandante em chefe das ForçasArmadasportuguesas

segunda-feira, julho 23, 2007

A Crise Dos Aviões

Para quem não conhece ou não acompanha de perto ertas realidades de alguns países africanos, como, por exemplo, Angola, a notícia de que a TAAG, a sua companhia aérea, tinha entrado na lista negra da União Europeia e, por isso, os seus aviões não podem voar para os países europeus, deve ter sido um choque. Mesmo porque, ultimamente as palavra que mais acompanham Angola são "progresso" e "crescimento".
Como é que um país em crescimento e em progresso pode ficar, de repente, nesta situação vergonhosa e causadora de prejuízos incalculáveis?
A resposta é simples: os tais crescimento e desenvolvimento só dizem respeito a quem não precisa de utilizar as estruturas que podem considerar-se como definidoras da normalidade do país. É gente que está acima de tudo, incluindo da necessidade de um bilhete normal para um avião normal para uma viagem, que, em muitos casos, é a primeira ou uma de muitos em muitos anos.
A crise dos aviões revela, de uma outra maneira, a realidade de um país que mais de trinta anos depois de ter declarado a sua independência nacional está cada vez mais dependente de um grupo de gente verdadeiramente insasiável no seu desejo de ser cada vez mais rico e estar cada vez mais longe da triste realidade de um Povo que não vê alternativas nem para os netos.

quinta-feira, julho 05, 2007

Progresso (?)

De vez em quando os amigos aparecem e contam as coisas da terra e eu vou ficando abismado. Há, a respeito do desenvolvimento de Angola (Luanda) um grande entusiasmo, há portugueses a ir e a ficar, maravilhados com as oportunidades de negócio, com o crescimento da cidade (Luanda) e com muitas outras coisas.
Eu vou ouvindo e fazendo perguntas. A minha curiosidade vai sempre muito fundo e as pessoas ficam confundidas. Espero sempre que chegue um amigo confiável para ser esclarecido.
As pessoas que habitavam as zonas onde está a ser construída a chamada "Luanda Sul" são pura e simplesmente atiradas para mais longe. São as elites a conquistar espaço fora da chamada cidade velha, onde as casas estão "podres", as ruas impraticáveis e as multidões asfixiantes.
Todavia, os que, entretanto se vão instalando na Luanda Sul, têm que arranjar um amigo com casa na cidade velha para poder dormir perto do respectivo emprego porque, caso contrário, têm que se levantar às três da manhã para chegar às nove da manhã.
E o progresso, fora de Luanda? As sementes para os camponeses? A saúde para esses mesmos camponeses? As escolas para os seus filhos?
A todas estas perguntas, a resposta é nada, zero.
Por favor, não me falem de progresso em Angola. Aceito que dissertem sobre o enriquecimento das elites de Luanda, um enriquecimento sem justificação e sem utilidade, porque é uma elite saloia, incapaz de deixar de pensar em si mesma apenas e investir, em benefício de todos, o dinheiro que lhes entra nos bolsos sem saberem muito bem como.

domingo, junho 24, 2007

Guiné Bissau - um PUF histórico

Fui professor na Guiné Bissau, nos idos de 70. Voltei a Bissau depois do golpe de 14 de Novembro de 1980 como correspondente da ANOP, condição que mentive durante 4o dias, findos os quais fui expulso. Deram-me um prazo de 20 horas para sair.

Foi sobretudo na primeira circunstância que melhor conheci o país, ainda sob a presidência de Luís Cabral. Havia um Estado organizado - tão bem quanto o poderia ser - com alguns sectores a funcionar razoavelmente e podia descobrir-se uma estratégia de desenvolvimento, embora alguns erros cometidos não tenham uma explicação plausível.

O golpe de 14 de Novembro de 1980 foi sobretudo contra os caboverdianos. O homem que apareceu a liderá-lo - Nino Vieira - era o primeiro-ministro do governo de Luís Cabral. Um primeiro-ministro que nasceu da necessidade de estabelecer equilíbrios entre guineenses e caboverdianos e nada mais. Nino era, praticamente, analfabeto e a sua ocupação preferida eram as mulheres. Muitas das suas namoradas de circunstância vinham a Lisboa para comprar vestidos e outras coisas . Quem pagava era Nino, isto é, o governo, isto é a cooperação internacional.
Para perceber esta afirmação é necessário saber que a Guiné Bissau foi o país que recebeu da parte da comunidade internacional a maior ajuda que foi prestada a um país depois da independência.
Com o golpe, Nino, elevado à condição de presidente, começou a sentir-se ameaçado de todos os lados e à sua ocupação preferida juntou outra; eliminar os seus possíveis adversários. O país acentuou as deficiências, o Estado passou a ser um amontoado de amigos, sem competência ou de homens que, pressionados, tinham que aceitar lugares de ministérios mais difíceis.
As coisas foram piorando e Bissau transformou-se numa cidade-estado sem lei, onde o principal objectivo era sobreviver.
Com Nino, a Guiné Bissau trasnformou-se num dos mais pobres países do Mundo, sem que para isso haja razões naturais. O descontentamento cresceu e estendeu-se ao sector onde o grande guerrilheio da guerra anti-colonial tinha grande influência: ao exército.
A instabilidade política provocou crises sobre crises e o "fundo" estava cada vez mais "fundo".
O homem do barrete vermelho foi outro episódio da história da Guiné Bissau que ninguém consegue explicar.
Até que Nino regressou ao poder, quase que por um passe de mágica.
E o que é que acontece?
Neste momento discute-se, publicamente, a hipótese de uma associação da Guiné Bissau com o Senegal e sabem-se pormenores da miséria guineense que atinngem as raias do incrível, com pedidos dramáticos para o fornecimento de gasolina...
Já escrevi há mais de vinte anos que não descubro qualquer hipótese de a Guiné Bissau poder continuar a afirmar-se como país independente, com um estado autónomo, regido por guineenses.
Hoje reafirmo essa convicção, na certeza de que o eventual anúncio desta associação com o Senegal, despertará na Guiné Conackri o velho sonho da "Grande Guiné". No final, o mal menor será uma divisão entre os vizinhos do Norte e do Sul.
Deste modo também será resolvido de vez o velho imbróglio das fronteiras marítimas da Guiné Bissau, que mercê de um acordo entre Salazar e De Gaulle, estão em desacordo com as leis internacionais, o que tem impedido a exploração do petróleo que existe no mar da Guiné Bissau.
Provavelmente, este será o primeiro golpe na Carta da ex-OUA que impede a todos os estados independentes de África alterar as fronteiras herdadas da colonização. Nessa perspectiva, daqui a alguns anos, os professores de História dirão aos seus alunos: "aqui, nesta zona, houve, em tempos, a tentativa de um estado independente"...foi um puf histórico.

sábado, junho 16, 2007

NO ANTIGAMENTE (6)

A deixa foi a brincar, a sublinhar o vício do chamariz: títulos com sabor a escândalo! O dia a dia luandino era semelhante a tantos outros e o impacte maior resultava do crescimento abrupto da cidade, que ia inchando de gente da noite para o dia. Mas não era a agulha a esconder a montanha. Angola repovoava-se em todas as direcções. O avião estava para o grosso do território (qu'é pra não tar a dizer colónia, qu'a censura não gostava), como o maximbombo para a cidade. O taxi aéreo florescia e as estradas, decentes, que começaram a aparecer permitiram não só morar nos arrebaldes, como ir até Nova Lisboa, até Benguela ou Lobito. Do Huambo podia seguir-se até Sá da Bandeira e descer para Moçâmedes, que tinha uma praia cheia de meninas bonitas. O mundo não acabava ali. Ainda havia estrada, pelo deserto fora, até Porto Alexandre.
Não estou a fazer o roteiro e já ontem referi a correria até ao Luso, bem pelo interior.É melhor encostar aqui, antes que desate a falar dos comboios.
Gaita! É sempre o mesmo. Logo que entro em Angola perco-me. Ah! Hoje era para matar alguém. As cidades principais não eram, nesse tempo, especialmente violentas, daí que não fosse preciso muito para causar pasmo. Uma manhã soube-se que um homem tinha sido morto a tiro,
nessa noite, no morro da Samba.
Depois soube-se que se tratava de um par, que estava a namorar, junto ao carro. Um ruído qualquer alertou o homem, que avançou na direcção do ruído.Um tiro abateu-o. A dama que estava com ele correu, ajoelhou-se e procurou reanimá-lo. Ouviu outro carro arrancar e levantou-se para pedir socorro. Mas o carro seguiu. Vestiu-se de desceu, aflita, à procura de socorro.
Quando a polícia chegou ao local verificou o óbito e alertou a Judiciária.
A vítima era um homem casado e a esposa não se encontrava em Luanda, na altura. A mulher que o acompanhava na altura do crime era professora numa escola do Estado. Os dois mantinham uma ligação discreta extra conjugal.
E, de repente, a cidade pareceu encolher-se. Só se falava do crime da Samba. De facto, depois de ter sido ouvida no local do crime e de ter seguido para casa, a jovem professora voltou à Judiciária, para ser de novo confrontada com os agentes e ficou detida. Tudo isto se ia sabendo pelos diários. Faltava o Notícia ao sábado.
Os pobres repórteres andavam numa fona para tentar saber alguma coisa. Enquanto a(ainda misteriosa) dama estava a ser ouvida, um dos agentes soprou-me: «De vez em quando a menina vai à varanda, para o director poder assinar papéis urgentes». O Baião sumiu-se dali e passado um pedaço voltou e acenou-me com a cabeça. Bom, já tinhamos «boneco». E que foto! A jovem encostada à varanda a chorar...
Ao fim da tarde sabia-se pouco, mas já tinhamos «bonecos».
E sabia-se que a jovem tinha indicado a matrícula do carro que vira sair, depois do tiro. Essa matrícula não correspondia. De facto correspondia. O que divergia era a interpretação. Por hábito de professora de meninos tinha dito« jê» em vez de «jota» e a polícia procurara um «g».
E foi outro escândalo. O carro era de um empregado bancário, e conhecido colaborador desportivo da «Província de Angola». A fuga tinha uma motivação credível , ao tempo a homossexualidade era embaraçosa.
Houve, claro, outros ingredientes que alimentaram a especulação. Por todos os cantos se sopravam nomes de presumíveis culpados. A professora foi solta, mas não pôde voltar à Escola. A «santa madre igreja» impunha regras morais, que cada qual desrespeitava como podia mas a benzer-se. Foi complicado tratar do funeral da vítima. A igreja onde o defunto comungava não o aceitou para o velório. Mas outro padre, de outra freguesia aceitou-o.
E a vida seguiu o seu rumo. Até o director da Judiciária mudou, Era um magistrado mais dinâmico, que mantinha, uma boa relação com a Imprensa e televisão não tinhamos. Recordo-me que, pelo Natal ,o surpreendi com um embrulho. Uma caneta, nada mais que isso.Os dois agentes mais próximos dele tiveram as garrafas do costume.
E um belo dia, quer dizer, uma alta madrugada bateram-me à porta de casa. Era o director daPJ
e uns três colaboradores próximos. Vinham radiantes. Tinham acabado de obter a confissão do assassino da Samba. Um simples mirone. Um tipo que se movimentava de motorizada e que, à noite, ia espreitar os casais românticos. Durante o dia, de vez em quando surripiava umas coisas aqui, outras ali, enfim, fazia pela vida. E foi justamente por isso que foi apanhado. Por coisa sem importância. O que o tramou foi a montanha de jornais (e de Notícias!) amontoados. E todos se referiam ao crime da Samba. Um dos agentes suspeitou. Foi tiro e queda!
Foi assim que soube que nas saídas nocturnas o pequeno larápio levava com ele a mulher. O requinte era poder gamar uma recordação dos casalinhos amorosos! Numa dessas surtidas, apanharam um susto. Mas o sujeito não desistiu e toca de comprar uma pistola. Foi ao mato experimentar a arma, para ver como era. Sentiu-se seguro. Na noite seguinte, com a mulher, voltou à lide. Foram ao morro da Samba ver o amor. O homem que espiavam levantou-se
e caminhou na direcção deles, sem os ver. Assustou-se. Mas agora tinha arma. E disparou. Um tiro. Um só. Foi o bastante. Desgraçou-se.
Para mim foi um inferno. Era quinta-feira. O Notícia estava pronto, A conferência de imprensa na Judiciária ia ser marcada para o meio-dia. Cabia-me acordar o meu director e a ele acordar o chefe das oficinas. Escrever, paginar e imprimir um suplemento para pôr na rua ao princípio da tarde.
Outros crimes houve com tanto ou mais impacte. Dois deles ficaram-me na memória, mas mais pelo lado obscurantista da Justiça, sempre difícil de entender ou aceitar. Um deles, na terra do meu editor, na Huila, nesse tempo eu dizia Sá da Bandeira, mas ele, bem entendido, não teve nada a ver com aquilo, apesar de ter reconhecidamente mau feitio. Uma senhora, viuva, foi morta, em casa. Ao tempo a investigação criminal fora de Luanda dependia do procurador delegado do MP, creio que era assim que se dizia, a «Judite»não era para ali chamada. As averiguações não encontraram pistas e o processo de investigação ficou parado. O filho da senhora, empresário de construção civil, bem relacionado em Luanda, lastimou-se junto do governo. O governador encaminhou-o para a Judiciária. E terá telefonado para o director com um «Vê lá o que se pode fazer».
Foram mandados dois agentes à Huila. Ao cabo de três dias de investigação. Detiveram três irmãos, vizinhos da senhora e rumaram com eles a Luanda. Nessa mesma noite um deles confessou. Foi feita a reconstituição do crime, no local, e o processo seguiu para a Huila, onde o
procurador do MP entendeu não encontrar matéria suficiente para levar o réu a julgamento.
Caso semelhante haveria de ocorrer em Luanda, mas com outros contornos.
Uma das candidatas a miss Angola foi assassinada e encontrada morta na banheira de uma casa de banho, em Luanda. O administrador do Notícia, que tinha tido uma relação com a jovem foi investigado e detido. Acabou acusado e o processo seguiu para tribunal, sem confissão e sem qualquer elemento de prova. E o juiz não deduziu acusação , devolveu o processo e soltou o arguido. Na PJ o processo foi posto na gaveta e não teve mais investigação. Nos idos, o conceito de Justiça tinha preconceitos e parecia sofrer de ciumeiras. Entre nós, na actualidade já não existem decerto ciumeiras, nem preconceitos. Há gavetas... enormes!

sexta-feira, junho 15, 2007

NO ANTIGAMENTE (5)

«E Deus criou Eusébio», título da responsabilidade do chefe de redacção, tinha mais a ver com a idolatria pelo crack do que a manchete obrigada a mote dos nossos dias. No Notícia, a preocupação pela capa da revista fazia sentido, mas a manchete era em geral feminina e acalorada. As chamadas à capa eram poucas e sobre assuntos que os leitores já aguardavam com impaciência. Evoco a entrevista de Edite Soeiro ao «pantera negra» porque, nessa edição, a parte de baixo do bikini da menina da capa era de malha e o censor em Lisboa acreditava ver entre as malhas cruzadas uns pelos escurecidos e creio que ele se serviu de uma lupa para ver melhor. Moral da história: não autorizava. Em Luanda já estava impressa e desde a véspera que ia na camioneta a caminho do Lobito, onde apanharia o comboio, até ao Luso.
Em Lisboa foi preciso improvisar. Foi assim mesmo: a manchete «E Deus criou Eusébio» cruzou por cima do arrendado calçãozinho e salvou o pudor censório.
Menos sorte teve o Baião. Fomos a S.Tomé, por alturas da guerra do Biafra.Mal chegados e ainda sem hotel fomos a correr para um avião. Era um casamento que ia ter lugar por cima da linha do Equador, entre um piloto e uma enfermeira um e outra ao serviço das igrejas humanistas que procuravam acudir às populações indefesas, dizimadas pela guerra. Os aviões levavam mantimentos e traziam feridos para improvisados hospitais de lona, onde médicos e enfermeiras voluntários ajudavam.
O Baião teve artes de convencer a noiva a posar. Na manhã seguinte, e cedo, à noite de núpcias,
a jovem fez a vontade ao fotógrafo a fomos até junto do mar fazer os bonecos. Não estava maquillada. Foi levantar, lavar à pressa, pentear o cabelo no carro e vai disto. Não só com a bata, mas, também de bikini. Era bonita.
A reportagem sobre o dramatismo que se vivia, incluiu o casamento, bem entendido e uma das fotos da noiva junto do mar, mas não foi capa. A Censura cortou. Não havia razão, mas cortou. E cortou não pelas fotos mas pelo facto do carnaval do Rio de Janeiro ter sido pouco antes e de terem aparecido na imprensa de Lisboa algumas fotos do corso que escandalizaram a Igreja, o que levou a que o governo impusesse um período de recato, com ordem à Censura de não deixar passar nada...
E foi justamente em S.Tomé que, pela primeira vez vi o dr. Mário Soares. Estava na pista do aeroporto, junto a um bimotor, de conversa com os tripulantes. Dei por isso porque o responsável pela polícia política estava a dizer ao colega que assistia à chegada dos passeiros de Luanda «já disse que não queria aquele cavalheiro na pista»...
Haveria de vê-lo numa África mais profunda, em Luzaka, a dar conta aos poucos jornalistas que ali estavamos também, para saber do que poderia sair da reunião com a Frelimo. Estafado o ministro parecia vergado ao peso do colonialismo maquiavélico que representavamos. Sabia pouco de África e de africanos. Deviamos despir o colonialismo e zarpar. A seu lado o estratega Otelo, natural de Moçambique, mudo e quedo.
Não tardou que em Moçambique a situação se fosse alterando a Frelimo entrou discretamente mas entrou. O assalto ao Rádio Clube nem sei o que foi. Estive lá mas não percebi. Terá sido um apalpar de terreno. Nada se movimentou. Os «assaltantes» sairam pelas trazeiras tranquilamente e foram para o hotel mais snob de todos. Estive lá e vi -os, como eu, sentados na esplanada, a conversar. Dormiram a zarparam manhã cedo. Haveria de ver o mais gordo deles
uns dias depois na Mutamba. «Olá! E então?» disse-lhe. Encolheu os ombros. Nem respondeu e abalou...
Tive sorte de conhecer Moçambique bem, de cima a baixo. Viajei de comboio de Lourenço Marques para Joanesburgo já nesse período conturbado da transição. Comia-se bem, naquele comboio. Joanesburgo era uma boa imagem de colonialismo puro e duro. Fui lá para ver o meu filho, que estava em casa de um casal amigol sul-africano. Havia, claro, muito comerciantes portugueses, em grande parte madeirenses. Tinham aprendido a ser brancos, que era uma coisa que não sabiam, quando foram para lá. Deu para o azar. Agora é complicado ser branco, mesmo madeirense e sobretudo ser comerciante. Não houve revolução para mudar de governo. Foi para muito mais. Só que o muito mais nunca mais chega! E o casal meu amigo já não é sul africano.
Adquiriu a nacionalidade australiana. Até as netas já são naturalmente australianas. Está-se por lá muito bem, mesmo se às vezes faz mau tempo!
E é tempo de ir jantar. Deixo para amanhã o crime da Samba...

quinta-feira, junho 14, 2007

NO ANTIGAMENTE (4)

Rememorar o passado, mesmo sem rede, é menos difícil do que parece. Já vos disse que fui de barco, nem sei se sublinhei o suficiente para se entender que foi viagem clandetina. Mas regressei de avião, sem mala. Só. A família ficou e com ela tudo o que tinhamos.
Por cá encontrei outros que vieram à frente. Juntamente com eles e outros que vieram depois reintroduzimo-nos e retomámos o caminho, perdendo-nos aos poucos uns dos outros.
Quem nunca se esqueceu de se juntar anualmente e acamaradar foram os hoquistas angolanos, malta gira e bem animada. Cruzeiro, já veterano, empurrou os bancários e fêz deles uma equipa que animou os campenatos de Luanda. Sá da Bandeira e Moçâmedes também contribuiam. Ainda não era como Moçambique mas já dava para grandes e animadas jogatanas. O que começou por diversão empurrou-me a intervir da única maneira que estava ao meu alcance: levei o desporto para o Jornal. Vesti outra pele e os desportos entraram para ficar. Ainda vi o Peyroteo e o critiquei como seleccionador, que dirigia a equipa angolana no jogo contra Moçambique. O Rafael Soares perorava sobre hoquei, basquete, foot, como se percebesse daquilo tudo. Não brinquem comigo. Ir ao Luso ver um jogo de bola não era brinquedo. E uma das vezes fui lá de carro, com outros quase tão irresponsáveis como eu. Meninos, aquilo era o mesmo que ir daqui a Berlim. As estradas já davam. O problema não era esse, mas sim o tempo que se perdia nas áreas em que só se podia prosseguir em coluna militar. Ter cartão de jornal dava alguma credibilidade. Fomos dando desculpas que íamos só ali a diante, buscar uma encomenda e vínhamos já. Lá fomos indo estrada fora. Atravessou-se a Lunda e chegámos ao Moxico sem problema. No domingo assistimos ao jogo e invoquei o meu drama de atarefado e regressei de avião.
O único problema é quando alguém pretendia falar com o Rafael, que era quase tão difícil de encontrar como a Maria Gabriela, que fazia o «correio do coração» ou o Sousa Oliveira, que se encarregava dos crimes. Eram os mais solicitados. Muitos ramos de flores e caixas de chocolates chegavam para a Maria Gabriela. De uma vez um sujeito que se identificou como da Pide pretendia falar com a «senhora». Expliquei que se tratava de pseudónimo e que não podíamos quebrar o sigilo. E fui teimando e acabei por perguntar qual era o assunto. O sujeito acabou por admitir que suspeitava que um dos temas tratados tivese a ver com ele. Avancei com uma solução. A «senhora», quando trazia o texto, entregava o correio tratado e recolhia o novo. Eu teria a carta do assunto dele, dobrada, para não se ver a assinatura, e mostrava-lha.
Se ele reconhecesse a letra, muito bem, se não, escusava de saber de quem era a carta. Ele aceitou. E eu pedi à secretária da direcção que copiasse o original. Quando ele voltou,mostrei a carta e ele ficou muito satisfeito, abanou a cabeça satisfeito. Que bom, que bom, não era com ele...
E nem era por aqui que ia começar. Tinha por intenção mostrar que é bem o presente que nos ajuda a recordar. O caso Charrua, por exemplo, ia acontecendo comigo, que nem trabalhava para o Estado. Terá tido mais a ver com café, que em Angola era qualquer coisa! Por mór do Instituto e do Quim Cabral, que lá estava, fui ao Uíge ver como o Instituto tinha incentivado os... porra, como é que se diz? Os autoctones?os naturais? os indígenas? Bom, os pretos da região
a fazer café, a plantá-lo, a cuidar e a subsidiá-los nesse arranque. Até então eram os comerciantes que geriam, à moda deles, a situação. E faziam-no, bem entendido, à moda deles!, explorando desalmadamente o gentio.
Devo abrir um parentesis lembrando o papel preponderante que o comerciante representou no povoamento e desenvolvimento das regiões em Angola. Era gente rude, sem instrução bancária e fizeram, à moda deles, o que o Estado e a Economia deixaram por fazer. O Instituto permitia-se intervir no Uíge porque possuia uma filosofia diferente dos governos de então e porque dispunha de um prestígio extremamente importante no mundo do Café, designadamente em Londres. E foi no decorrer de uma visita que se fez à região, promovida pelo Instituto, para mostrar o sucesso da operação, quando chegou a altura dos petiscos e dos copos e das graçolas que eu fui denunciado por ter proferido uma chalaça injuriosa para com o Governador Geral. O dito ficou ofendido e chamou-me ao Palácio para me dar conta do sua indignação. Como eu não era funcionário público, informou-me que ia entregar-me à DGS.
Sai dali e fui direitinho ao gabinete de São José Lopes e contei-lhe a facécia. «Esses gajos do Uíge não têm juizo», disse ele. «O menino vai escrever ao governador a dizer que concorda que o assunto seja levado à DGS, e deixe comigo...»
Eu deixei, mas o governador não era parvo. Percebeu e, nessa noite, no decurso de um beberete
não sei a propósito de quê , e onde eu estava, disse coisas sobre a maldicência e como ele estava disposto a acabar com aquilo. Para começar já tinha mandado um jornalista para a "Judite".
E lá fui à Judiciária e pedi para ser acareado com vil denunciante. Era colaborador do Notícia
e viu a redacção do Jornal desmenti-lo. O processo foi para a gaveta. Jornalista pesava mais que director de entidades públicas.Outros tempos...



(continua)

quarta-feira, junho 13, 2007

NO ANTIGAMENTE (3)

Foi a primeira desilusão. Duas colunas discretas, na última página, depois de uma noite trágica! Haveria de ter outras mágoas, próprias da profissão. Mas nenhuma me doeu tanto.
No NOTÍCIA foi diferente. Entrei pouco depois do morte de João Charula e o ambiente ainda se ressentia da sua falta. Da delegação de Lisboa, sobretudo, chegavam os receios de quebra de dinamismo, que o João emprestara ao projecto. Mas a Redacção reagiu pronto e bem. João Fernandes e Acácio Barradas tomaram as rédeas e o projecto editorial prosseguiu sem perturbações.
Também eu tive de caminhar para me impor na Redacção. Aprendi com o espírito do Jornal, como o designavamos; nunca, para nós, foi semanário.
Mas o Notícia merecia, e ainda merece, uma história melhor da que eu sou capaz de descrever e ainda não falta quem a possa descrever.
O que mais me espantava é que de Lisboa chegavam boas entrevistas, no que a Edite se esmerava, mas nada de reportagem que nos esmagasse, a nós, a saloiada africanada. Aquele pedaço salazarengo de Europa continuou igual, mesmo depois do «patrão» tombar da cadeira.
Quando em serviço corriqueiro fui ao Brasil com Marcelo (Caetano) o avião ia repleto de colegas
europeus. Dois deles até tinham levado casaca, smoking só,não dava, era preciso casaca para jantar nas recepções oficiais. Havia imensa curiosidade em ver como iria Marcelo enfrentar os jornalistas brasileiros e as questões que se levantassem sobre presos políticos.
Não custou nada. Marcelo limitou-se a debitar que tinha perguntado quantos detidos desses havia, se é que existiam e tinha obtido a informação de que existiam cinco ou seis, cujos processos estariam quase terminados e mudou de conversa.
Depois da conferência de imprensa, desmarquei-me e fui conversar com umas pequenas brasileiras que tinha conhecido no jantar anterior. Depois, ao fim da tarde, ouvia os colegas a falar disto e daquilo, lia os jornais. Por fim fui ao Cruzeiro e pedi a um colega brasuca que me cedesse algumas fotos.
Regressamos a Lisboa no dia em que a Apollo tripulada iria pousar na Lua.E foi. Muita gente seguiu o acontecimento pela televisão. Nos states nós, Notícia, tinhamos o Quim Cabral e o
Moutinho Pereira, a cobrir o acontecimento. Sem colegas metropolitanos. Nem Rádio, nem gente da RTP, ninguém achou que valia a pena lá ir, lá estar...
A verdade é que a Pide já não se chamava Pide e isso tinha e teve reflexos. Como a censura que, em Lisboa, se considerou que devia mudar de nomenclatura mas manter-se na mesma. E quando, a propósito de uma entrevista ao deputado Balsemão, com muitos cortes de censura, a ponto da chefia entender não a publicar e substituir pela habitual «Ferradura» muito usada
sobretudo quando «a chuva e o bom tempo» era cortada pela Censura. Dessa feita, imagine-se!
do palácio solicitou-se o obséquio de não usar o utensílio da publicidade à Neográfica! E, depois, negociaram-se os cortes, um a um, entre as três partes: Balsemão, Censura e Notícia. A entrevista saiu. Teve alguns cortes, é certo, mas saiu com o aval do deputado .
Voltei a ver primeiro-ministro, nem sei se também era Sua Excelência o Presidente do Conselho, como o antecessor, em Bissau, onde acabava de chegar e de onde ele iria partir para Luanda, daí a nada. E veio-me à memória, a propósito da mania que tinhamos de estar em todas, que o Farinha estava na Guiné, quando o helicóptero com o deputado se despenhou.
Teria algo de mania, mas... foi o Baião que criou o cisma, quando do alto de um prédio, na Marginal, em Luanda, fotografou sem se dar conta, no arranque de uma corrida de automóveis, o acidente espectacular, com a morte de um dos pilotos. À noite, na câmara escura, ao espreitar os negativos, lá estava, sobre a confusão, o corpo todo no ar. A única, bem entendido!
(continua)