quinta-feira, setembro 29, 2005

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA/6

Vou ter de mudar o título. Um amigo telefonou-me a ralhar: "Tu estás maluco. A tua casa nunca foi amarela. Amarela era a chapa que tinha o número da porta!"...
Pois é, a memória prega-nos partidas. A minha é, mas sempre foi, um tudo nada desarrumada. Como não tenho arquivos não sei ao certo se rememoro factos ou se fantasio a realidade deles. De facto, muitas das recordações saltam-me diante dos olhos, mesmo fechados, a partir da realidade presente, como se fosse a versão moderna de um filme antigo. Oiço falar de magistrados, de juizos ou de sentenças e, claro, da independência soberana e sempre foi assim, dependendo claro, a independência, de factores mais ou menos obscuros. E vem-me à ideia um caso passado em Luanda, num tempo em que tudo isto já era assim, mas mais arrumado. Um magistrado andava a tornar-se notado por evidenciar um excessivo rigor pela legalidade dos processos judiciais. Um belo dia viu-se transferido para a Lunda e ficou-se à espera de um ligeiro abrandamento na apreciação dos processos e sobretudo da forma como eram elaborados.
E foi como se uma bomba tivesse explodido. O magistrado foi à Diamang. Os responsáveis locais ficaram desvanecidos, mandaram preparar um lanche e acompanharam o ilustre visitante. O visitante viu dois sujeitos fechados num cubículo, um dos quais algemados. A segurança da empresa, cujo chefe era um prestigiado agente da autoridade, cedido à empresa, aparentemente para dirigir acções de formação de pessoal destinado à vigilância, mas que na prática chefiava o serviço.
O magistrado não foi de meias tintas. Deu voz de prisão ao agente policial e levantou um auto acusando a empresa de cárcere privado. Foi um escândalo de todo o tamanho e nem veio nos jornais. A Censura não achava graça a coisas daquelas e a Diamang, que diabo!, tinha mais taco
que qualquer PT dessas que andam por aí! Mas resolveu o problema do magistrado. Voltou para Luanda e foi colocado no Tribunal de Menores. Mesmo naqueles tempos havia gente difícil de vergar.

1 comentário:

a.filoxera disse...

Encontrei este blog enquanto procurava por "Diamang" no Google.
Gostaria de saber mais sobre um tio que trabalhou na Diamang até falecer, em 1964. Mas provavelmente não poderá ajudar-me...