terça-feira, dezembro 26, 2006

Os Livros

De há uns tempos a esta parte têm aparecido alguns livros curiosos relatando experiências de vidas vividas nas antigas colónias, hoje países independentes.
Muitos deles falam das coisas extraordinárias presenciadas por gente longe das suas terras e descrevem acontecimentos da sua vida que, por terem sido vividos longe do seu habitat, lhes parecem dignos de letra de forma, de livro.
Por este Natal um amigo ofereceu-me um livro intitulado " A Última Jóia", que o autor, Luís Rodrigues, classifica como " a história de Angola que ainda ninguém escreveu".
A classificação é atrevida, já que o livro é a narrativa das venturas e desventuras da sua família por vários cantos de Angola e também por Moçambique. Por sinal, o autor viveu no Lubango em anos durante os quais por lá andei. E fala de alguns personagens e acontecimentos que são do meu conhecimento. O Machado Cruz era, de facto um malfadado informador da PIDE, um miserável, capaz de matar a própria mãe para obter o que quisesse. E o Amâncio da Mobil também era informador, embora não fosse tão mau como o Machado Cruz
Todavia, o Leonel Cosme, sendo um dos donos da ideia das "Publicações Inbondeiro" não era professor primário - e não é . O Garibaldino de Andrade, sim, esse era professor primário.
Hortênsio de Sousa, a quem chamavam "a garganta do Império", foi Governador da Huíla.
Não é verdade que o clima do Lubango fosse, ou seja, tão difícil. As pessoas não desmaiavam na rua por causa da altitude e os homens não andavam sempre de casaco. O Lubango só era frio de madrugada, nos meses de Maio Junho e Julho. Em Agosto, de vez em quando, já chovia. Tinha e suponho que aina tenha uma temperatura média anual na ordem dos 25 graus centígrados.
E, oh! senhor dr. Luís Rodrigues, os bosquímanes não tiveram nada a ver com os "flechas", uma tropa de elite formada pela PIDE para operações especiais no Norte e no Leste. Os Bosquímanes foram utilizados pelo exército sul-africano como pisteiros durante a invasão de Angola, iniciada a 23 de Outubro de 1975.
Não me consigo lembrar da pessoa e também não consegui acabar de ler o livro, embora lhe reconheça o mérito que atribuo a todas estas narrativas pessoais: a História também se faz com as pequenas estórias, mas é preciso ter cuidado: o Cosme não vai saber que lhe atribuem a função de professor primário e as pessoas que trabalharam com o Mário Saraiva de Oliveira também não vão apreciar que ele possa ter sido considerado um notável da Rádio.
Também não apreciei certas "intimidades" com gente da PIDE e sobretudo que num livro de 350 páginas não haja uma referência às gentes das terras por onde passou. Era tudo só paisagem e viagens por terrenos difíceis, onde deixava enterrar os jeeps com demasiada facilidade. Aquela, a caminho do Cuchi, com o Zé Peyroteu, aconteceu, seguramente porque não era ele que ia a conduzir...

sábado, dezembro 23, 2006

UM BELO PASSEIO...

... ao Porto, do Leston, deu no que deu e que com sabor nos descreveu. E eu, que descia do Camões, afinal com algum a propósito, de telemóvel ao ouvido, fui ouvindo deliciado. Atravessei o Rossio e fui à ginja, às Portas de Santo Antão. Depois de cuspir, discretamente os caroços, abeirei-me da livralhada, mesmo em frente. E não é que estavam, bem à vista, cinco livros, cinco
de Luandino Vieira!
Comprei-os todos e, imaginem, ao abrir «velhas estórias» esbarro logo com: «capa de João da Câmara Leme»! Nem fazia ideia que eles se tivessem conhecido. O João, casado com uma finlandesa, personagem de que já vos vendi alguma coisa, quando o apresentei, em Luanda, ao Troufa Real, a propósito de um ser descendente de Gungunhana e outro de Mouzinho. Afinal o Natal existe e mexe.
Lembrei-me de ser novato em Luanda e estar sentado, na redacção do «Comércio», a mexericar qualquer coisa, quando um sujeito entra, acompanhado de uma jovem senhora. Meio torcido, como calculam, Ferreira da Costa recebeu-os no meio da Redacção. Luandino tinha sido politicamente preso porque em Lisboa que lhe deram o prémio pelo livro e a polícia política não brincava em serviço, mas havia gente que discordava e o assumia. Ali estava um desses, que acompanhava a esposa de Luandino, tornado maldito não pelo livro que escrevera, mas pelo prémio que grangeara.
Tudo isto em cima de umas notas que o Manuel Ricardo me mandara sobre a guerra em Angola vista de Moscovo. As dúvidas do escritor sobre perdas e danos de militares soviéticos em Angola, designadamente no Cuito Quanavale. Eu já lá não morava aquando dessa guerra. Mas estive lá. Um pequeno grupo de jornalistas que descrevera a resistência aos ataques da Unita e de forças militares sul-africanas fora alvo de chacota da propaganda de Savimbi, que alegava que ps jornalistas tinham sido enganados e levados para outros locais. O Cuito tinha sido tomado pela Unita.
Fui eu, lá, que confirmei aos colegas que estavamos efectivamente no Cuito, que eu bem conhecia a confluência dos dois rios. Lá estava quando os bombardeamentos nos convenceram a retornar ao blindado e sair de lá. Mas soldados angolanos e cubanos lá estavam e por lá ficaram.
E fora na viagem, que nos levou a Nova Lisboa, Silva Porto (morto, como dizíamos no nosso tempo) e Serpa Pinto (Pó, idem). No aeroporto de Silva Porto não só vimos militares soviéticos, como tivemos oportunidade de falar com um dos oficais. Por essa altura não se escondiam. Mas também, verdade se diga que, não consta que se tenham envolvido em operações militares na região. Viajei em aviões soviéticos, de diferentes tamanhos e alguns casos com tripulações angolanas.
Antes de sair de Angola, no Ambriz e em Sá da Bandeira, vi diferentes intervenientes. Vi norte-americanos, da Cia ou coisa que o valha, mas nenhum soldado, além dos zairotas e de portu-
gueses, participaram na guerra ao lado de Holden Roberto. Com a Unita, de Savimbi, a participação sul-africana foi mais intensa, ainda que eles não comungassem. Era mais cada um do seu lado, em Pretória o apharteid ainda vigorava!
Não, não me parece que o escritor russo tenha motivos para crer que tenham morrido em Angola mais russos do que se diz. Os cubanos sim, esses foram bem mais carne para canhão. mas russos não.
Logo que passe o Natal vou-me ao Leston e onde estiver vou-lhe às garrafas. Vamos beber e rir
agarrados ao passado que nos passou, mas que está sempre por aí a espreitar...

"...Às Vezes..."

Combóio Alfa, Porto-Lisboa. Saiu às 21H15 e haveria de chegar três horas depois. Éramos três, vinhamos animados, as reuniões tinham corrido bem e eu ia apreciando particularmente o entusiasmo dos dois jovens que partilham comigo um projecto profissional.

No enfiamento oblíquo da minha visão, do lado direito, vem um homem curtido pelo Sol, de óculos redondos, a ler jornais. É uma cara que eu conheço, o tempo não o descaracterizou. "É o Luandino..." penso. "Só pode ser..." Levantei-me, aproximei-me dele e, pedindo desculpa pela interrupção, fiz a pergunta, com a entoação de quem afirma: "Luandino Vieira...

Olhou para mim com curiosidade: "...às vezes sou..." Disse o meu nome. Abriu o sorriso e apertou-me a mão com vigor. Desejei-lhe felicidades para o seu novo livro, que, por acaso, tinha levado comigo para ir lendo e voltei para o meu lugar.

No final da viagem, veio ter comigo: "você, há bocado, disse que era o Leston Bandeira...". "Sim, foi o que disse". Veio então o abraço forte... já não nos víamos há tantos anos. "...Pois...ainda há dias estivemos, eu e um jornalista....".

- "O Fernando Alves..." atalhei.
-" Isso...ainda há dias estivemos a falar de si..."

E eu com o livro na pasta, sem me ocorrer pedir-lhe um autógrafo.

Havia alguém à espera do José, Luandino Vieira, às vezes... e lá nos despedimos. Ainda lhe disse: "também sou amigo do seu irmão, com quem fiz grandes jogos de Hóquei em patins".

Este foi o segundo momento especial da minha ida ao Porto. O outro está contado no post abaixo.

Para um único dia não foi mau. Tenho que ir mais vezes ao Porto.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Os Irmãos Unidos

- "Sabe, venho muito poucas vezes ao Porto... movimento-me mal ... só de Taxi..." - digo eu.
- " Como todos os lisboetas...raramente vêm ao Porto..." responde o meu interlocutor.
E assim começa uma reunião, que, para mim, era importante. Fiquei sem saber o que dizer porque a verdade é que estas questões muito portuguesas continuam a passar-me ao lado.
Todavia, esta minha ida ao Porto teve dois momentos que valem a pena ser partilhados. O primeiro tem a ver com a minha dificuldade em me movimentar na capital nortenha - só de Táxi.
À saída de uma primeira reunião, em Matosinhos, numa praça de Táxis estava estacionado apenas um. Eu e os meus companheiros entrámos, demos o endereço para onde queríamos seguir e o senhor, de setenta anos, (disse-nos depois) e com ar enxuto começou por nos explicar que, "nesta altura, o serviço que os senhores me estão a dar é ouro...mas eu não o posso fazer porque..." e explicou-nos que tinha um compromisso a que não podia faltar: tinha que levar uma senhora para fazer hemodiálise. Mas nós não deixaríamos de ficar servidos porque ele ia já telefonar a um amigo, para marcar encontro connosco. O seu amigo concluiria o serviço e nós não lhe pagaríamos nada a ele.
Ainda tentei protestar, mas o senhor, com um olhar de falcão, sem pestanejar, não hesitou na recusa. E foi falando: que tinha começado um curso de relações humanas em África e o estava a concluir. Todas as manhãs saía de casa por volta das cinco da manhã com um projecto e quando regressava o tinha completado.
- " E então, onde é que iniciou esse tal curso de relações humanas?..." - perguntei.
- "Em Angola - em Benguela, no Lobito, em Nova Lisboa, no Lubango..."
- "Então e como é que o senhor se chama?"
- "Fernando Marta..."
-"Irmão do Emílio Marta" - disparei eu.
- "Como é que o senhor sabe?"
Lá lhe expliquei que tinha trabalhado na Rádio e que, naquele tempo fazíamos tudo, incluindo relatos de corridas de automóveis e que o nome Emílio Marta era dos mais sonoros, que me lembrava de ter relatado algumas vitórias dele e alguns desaires também.
O Emílio já eu conhecia, das corridas, dos banquetes para entrega dos prémios, no Casino da Senhora do Monte, no Grande Hotel da Huíla e no Hotel Mombaka. O Outro irmão dos "Irmãos Unidos" - assim se chamava a firma de automóveis que eles tinham em Benguela - conheci-o numa praça de Táxis, em Matosinhos, a bendizer da sua vida passada e presente. Com alguma saudade pelo meio, mas quem é que aos setenta não tem saudade?

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Joseph Ki-Zerbo

Nasceu no Bourkina Faso e deu ao Mundo lições de História de África. Era, de resto, o seu historiador mais escutado, mais respeitado e também aquele ácerca de quem havia maiores expectativas e até mesmo uma certa ansiedade.
Morreu Ki-Zerbo. E a notícia é-me transmitida, assim, brutalmente, no rodapé de um programa de informação sobre África, da chamada RTP África e, certamente, feito por quem de África conhece algumas marginais.
Exactamente o contrário do que defendia Zerbo, que classificava África como o wagon de mercadorias do combóio do desenvolvimento. À semelhança do sec. XVI, "sem identidade, nós", os africanos ,"somos um objecto da História, um instrumento utilizado pelos outros, um utensílio".
A notícia da sua morte, um dos maiores historiadores de toda a África, bem ficou a ilustrar esta sua definição do Continente que lhe fica a dever muito do pouco que o Mundo hoje conhece da sua História.
Bem que apetece gritar: Viva K-Zerbo... mas já de nada vale. Morreu...assim rezava um rodapé de um programa informativo chamado "Repórter África".

O General

Um dia destes, à noite - uma vez sem exemplo - vi um debate naquele programa "Prós e Contras". Escrevo hoje sobre ele por várias razões. A principal fica para o fim.

Percebi muito bem as inquietações dos militares. Não percebi os despautérios daquele politólogo cujo nome me esqueci ( e não creio que valha a pena esforçar-me por o nomear), mas que me parecia o António Guterres disfarçado de rato.

O dr. Proença de Carvalho, como sempre, estava ali para não se comprometer.

O General Loureiro dos Santos compromete-se um passo à frente, recua dois e volta a atacar em passo mais comprido.

O Almirante Vieira Matias, apesar da prudência, aventurou-se em campos mais abertos, habituado às perspectivas mais rasgadas dos horizontes marítimos.

Da intervenção destes eleitos pela Fátima , cujos critérios nunca têm uma explicação plausível - sempre podem estar escondidos debaixo de alguma coisa ou por de trás de uma qualquer parede - podemos concluir quer os militares portugueses continuam a ter classe, a saber o que querem e a perceber que estão a ser enganados.

Essa percepção é ainda mais clara, quando da plateia, assim como uma espécie de segunda escolha, surge o general da força aérea, Fernando Seabra, com um discurso firme, seguro, sem hesitações e sem gestos descabidos.

Fiquei a ver o programa porque me pareceu alguém conhecido e, de repente, naquele perfil sereno e firme, descobri o Fernando, filho da drª Lídia, minha professora de Física, e do Engº Seabra, que um dia me emprestou um avião para ir fazer um relato de futebol ao Luso.

O mesmo Fernando, sem tirar, nem pôr. Senti-me orgulhoso. Lembro-me das nossas conversas junto ao então Rádio Clube da Huíla, no Lubango, tenho muita saudade da drª Lídia, minha ouvinte atenta dos programas de música clássica e daqueles tempos em que discutíamos o que hoje já nenhum jovem imagina poder questionar. O Mundo era nosso.

Olha, Fernando, afinal o Mundo foi tomado por meia dúzia de ignorantes a a nós apenas nos resta cuidar dos netos ou esperar que eles apareçam. E ter Esperança no Renascimento do Bom Senso, na confiança das pessoas de bem. Não é ter Fé, porque isso nos conduz a um caminho sem saída e ainda acabamos nas garras de algum pastor alemão, daqueles que andaram a afiar as unhas durante muito tempo.

terça-feira, dezembro 05, 2006

PRESENTE NO PRETÉRITO DO CONJUNTIVO

Eu estava no Ambriz. Por ali tinha havido mudanças. Um jovem brasileiro, que tinha brevet para pilotar avionetas ia-se embora. O governo do seu país tinha reconhecido o governo de Luanda, o que o «forçava» a suspender a colaboração à coligação FNLA/UNITA. Eu não via o porquê! Dias antes, o jovem, tinha efectuado um voo nocturno sobre Luanda. Acompanhado por um colega meu, o voo destinava-se a tentar deixar cair sobre a Emissora Oficial um engenho explosivo. Não faço a menor ideia onde terá caído a granada. O piloto não conhecia de Luanda o suficiente e o Renato não possuia experiência de despejar fosse o que fosse de um avião. A Emissora não silenciou, nem fez referência ao «atentado», nos noticiários nocturnos.
Já vos dei testemunho de que vi no Ambriz gente, aparentemente secreta americana. Um que outro acompanhou algumas das incursões militares zairotas. Com as mudanças na presidência dos states o envolvimento visível desapareceu. Observadores sul-africanos apareceram em cena. Assistiram ao fiasco que foi a tentativa de avançar sobre Luanda e desadaram, como eu, que subi para o Lubango.
No Ambriz costumava ouvir em onda curta os noticiários nocturnos da Emissora de Lisboa. Eram como os antigos, do tempo salazaresco, mas de sinal contrário, talvez mais ferverosos.
Em Sá da Bandeira fui, imagine-se!, ao cinema. O serviço no hotel continuava excelente. Havia, sim senhor, um contingente militar sul-africano algures junto do aeroporto, Na cidade não se viam. Os oficiais apareciam, de vez em quando, no hotel, mas discretos, à civil. No Huambo (para mim ainda era Nova Lisboa) estava um governo, tal como em Luanda estava outro. A diferença era subtil: um era popular; o outro, democrático!
Deu para ir a Whindoek fazer compras. Depois foi o regresso às origens, via Joanesburgo, onde passei a consoada do Natal com um casal amigo. O casal continua amigo, mas já não sul-africano: optou pela nacionalidade australiana.
Mal cheguei a Lisboa tinha outro casal à espera para celebrar o fim de ano. O «misterioso» 25 de Novembro já lá ia. Encontrei, portanto um PC comedido e a jogar à defesa, por assim dizer.
Em Fevereiro, Maria Armanda Falcão reaparecia com «O Diabo», onde estive algum tempo antes de ingressar no Jornal Novo. Retomei colaboração no semanário de Vera Lagoa por mór da bomba que puseram à porta. Foi, bem entendido, uma bomba escondida com rabo de fora. O militarismo exacerbado perdia as estribeiras e detestava críticas. Gostava de se sentir heroico e, sobretudo, activista.
O PC era bem entendido aquilo que o deixavam ser. Trepara demais até ao fatídico 25 de Novembro e foi-se estatelando a partir de então. Sem força não tem poder. A ideologia não dá nem para os alfinetes.
Em Abril, as chamadas forças da ordem não souberam ou não quiseram resistir. Marcelo Caetano retirara-lhes alguma visibilidade. A DGS sentia-se como mera burocracite.
Em Novembro estava tudo confuso. O vanguardismo de esquerda acreditou mas não estava preparado para enfrentar resistência. Mas os comandos eram de outro filme. Com eles podia-se resistir. Eles quiseram, puderam e souberam. Spínola não sabia, Costa Gomes tirou o curso.
Esbate-se a memória quando se debate o marxismo ou o fascismo. Na Itália e em França, por exemplo, foram fortes e poderosos. O partido comunista francês foi durante anos o mais sólido. Só com coligações à direita se chegava ao poder. Os sindicatos eram poderosos e essa mistura permitia aos trabalhadores franceses um nível de vida impar na Europa. Mas lá está: era preciso que o governo de direita cedesse e ele sabia ceder.
Na Itália ensaiava-se o euro comunismo. A experiência, como se sabe, deu para o azar. Os regismes marxistas foram enfraquecendo e na própria União Soviética estoirou. Mas estes inflectiram depressa e ensaiam agora sistema que teria decerto a simpatia do mais celebrado nacionalista de Santa Comba. E parece que vão andando, não sei se cantando e rindo, levados. Levados, isso sim!
Pinochet e Fidel, um de cada lado, chegam ao fim da vida intactos. Já antes, Salazar morreu na paz do Senhor, que o terá(quem sabe?) empurrado da cadeira. Franco expirou de morte natural. Só o pobre do Adolfo optou pelo suicídio...
O sobrinho do tio esfalfa-se a demonstrar que não há dúvidas. Era tudo comuna, eram todos comunas.

terça-feira, novembro 28, 2006

A FINGIR SE FINOU

Não estou seguro de que Mário, se pudesse ver ou ouvir, gostasse por aí além do que se tem dito dele, do que foi e do que criou. No fim de contas sabe-se dele o que ele quis que se soubesse. Que fingiu ser poeta ou, sei lá, que fingiu ser pintor.
Vangloriar um morto à fartazana, quando pouco se lhe ligou em vida, é como roubar um cego Só que o cego não vê, mas ainda sofre; o morto não vê, nem ouve, nem sofre. Se pudesse decerto que haveria de matar-se mais de riso e de gozo!
Acho que já referi uma procissão que se passeou por Lisboa e pediu bençãos para as polícias por onde passava, incluindo a da António Maria Cardoso e culminou, no Camões, a suplicar à Santa a expulsão de Satanás do Bairro Alto, que seguimos atónitos. Creio que me extasiei a vê-lo saborear a caminhada. Mexia os lábios, um tique nele, como se mastigasse uma delícia divina. Já no Gelo e depois do primeiro golo do café o ouvi, enfim, comentar deliciado, que interrompia, por vezes para insistir:«É verdade, não é? Pediram à santa que abençoassse a Polícia de»... Eu acenava, que sim, mas a inquietude reptia-se: «Eu ouvi, não ouvi?»...
E lembro-me de ter estado num quarto, na Madalena, que por acaso não era o dele, mas o do Ernesto e da Fernanda, para uma de ocultismo. Como não podia deixar de ser o Pessoa apareceu, discreto, mas terrivelmente puxado pelo prato, que rodava na mesa. Só um poeta podia ter transmitido do além: «Eu sinto em mim outras dores que visto gulosamente».
E foi no Gelo que o Forte foi preso pela Pide, à hora do almoço. Para que não subsistissem dúvidas ele gritou: «Estou a ser preso pela Pide, estou a ser...» e foi levado ante um mal estar
silencioso. Um dos mudos e pálidos era eu. O Henrique, recém-casado, com dois filhos miudos e uma mulher difícil, já tinha sido levado. Não resistiu muito e falou. Era a história do capitão encontrado morto no Gincho. Fora esse capitão que entregara armas para a revolução maluca dos jovens intelectuais e artistas. A revolução consistia em assaltar o Rádio Clube, nas instalações na linha, durante a emissão gravada dos «companheiros da alegria», e pôr no ar uma gravação a anunciar a revolução e a incitar o povo a sair à rua. Não houve ataque nenhum, bem entendido. No dia aprazado só três intrépidos revolucionário se encontraram no Royal. O Manel (de Castro) disse logo que não ia, não senhor. No Emissor, à noite, só estava um velho e ir armado assaltar um velho não era revolução não era nada...
Entretanto as armas, na sua maioria, continuavam escondidas num consultório médico, no Estoril. O Henrique ficara com uma. Como era um revolucionário «experimentado» conseguiu que a arma se disparasse, em casa, furando o chão de madeira, mas sem ferir alguém no andar debaixo.
E quando o cap foi encontrado as investigações depressa levaram a Pide à Parede, para levar o Henrique.
E, depois, o Forte, no Gelo, supostamente armado. Não estava, claro. Apurou-se que um dos envolvidos era jornalista da ANI, que foi intimado a ir à Pide. Foi o director que lhe deu a novidade. Ele respondeu logo: «Não vou». De facto não foi. Nem houve azar. O Henrique saiu, devidamente referenciado como «o que falou»; o Forte saiu depois, mas teve que pagar uns trocados. O Henrique morreu em França. Fui lá. E lá encontrei uma carta de Cesariny, entre a papelada.
E foi no Gelo que encontrei uma vez o Pacheco eufórico a querer pagar-me o café, clamando: «O Mário Henrique é corno outra vez»! O Pacheco sentia-se, ele sim, «corno» de Cesariny, que vinha à estampa fora da Contraponto do «editor pusilânime», como Mário invectivou Van Krika!
Para ser feita, a história do Grupo do Gelo seria certamente trágica. Ao longo dos anos foram morrendo, aparentemente dizimados por uma maldição sublime, que amava decerto os que quria perder. Alguns morreram meninos, como o Escada por maleitas ou opção. Das letras só um monstro resiste, persistentemente acordado: Herberto Helder, nascido por assim dizer no Gelo e apaparicado pela Olga, o toque africano, suficiente para justificar o enquadramento...

domingo, novembro 19, 2006

DANTES E DEPOIS

Muitas vezes pior que dantes é o depois. Deve ser no entretanto que não se fez a agulha devida e o rumo perdeu-se. Uma pausa para reflectir - isso, isso! Mas o comboio do destino não espera, não. Os comboios são implacáveis e prometem sempre destinos cor de rosa. Quando se chega ao romper da aurora, não há taxis; e ao cair da noite o destino não tem nem a cor, nem o perfume que a viagem prometia!
É como as páginas coloridas, que não se lêem, das revistas, ou dos espaços televisivos, úteis para lavar as mãos: não constam do programa. Como o comboio do Bush, que saiu engalanado, com lotação esgotada, rumo ao dáká-isso e nunca mais lá chega.
Andei anos de zanga com um rei que deu o Ceilão a um tipo qualquer que casou com a filha. Nos tempos dos el-reis o Ceilão e as outras «províncias ultramarinas» não eram nossas, como eu o sujeito de Santa Comba gostavamos que fossem, eram deles, como eles demonstraram. Uns deram de uma maneira, outros de outros jeitos. Uns deram, outros largaram. Os que ficaram é que pagam, depois, as favas. Mude o que mudar, onde, quando e quanto, haverá sempre quem mande e quem pague as favas. Mesmo que seja do Benfica, ou que nem seja! Eu por aqui vou pagando mais e ganhando menos. Enquanto puder. Depois, oh! depois...ah!, depois, será enfim meu o reino dos céus...

sexta-feira, novembro 10, 2006

ANAIS

Para ser grande Afonso prendeu a mãe numa masmorra do castelo, em Guimarães. Bem que se esfalfou Pimenta Machado, por aquelas mesmas bandas, mas nunca deixou de ser pequeno. Pedro coroou uma defunta. Para se dar por ele, Vasco teve de navegar até à Índia. Há quem pense que Egas Moniz ganhou o Nobel para chatear Salazar. Spínola tinha monóculo, mesmo assim Almeida Santos não gostou dele. E quanta gente boa não terá passado ao lado da História?
Em 19 de Janeiro de 1976 eu completava 41 anos. Calma, calma, que não sou candidato, é só uma coincidência. Esbarrei num acontecimento, com essa data e, toca de me encostar. Nesse dia o Conselho da Revolução entendia nomear uma comissão de averiguação a casos de violência perpetrados contra presos sujeiros às autoridades militares.
Sobre a matéria a comissão redigiu um realatório. Não sei como esse então pouco divulgado documento, impresso pela Casa da Moeda, me chegou às mãos. Lembro-me, isso sim, de me ter merecido um comentário depreciativo, na altura muito na moda: «Afinal só mudaram as moscas!». Era, bem entendido, uma setença precipitada, própria de quem vira a existência, até então pacata, virada do avesso. Acabava de dizer adeus a África e recomeçava a ter de fazer pela vida, na minha terra natal, que reencontrava como território hostil.Um mais entre tantos
retornados e odiosos colonialistas.
Os portugueses não deixaram de ser portugueses por ter desabrochado uma revolução, quase
ridícula na sua ingenuidade bélica mas festivamente vitoriosa. Os «pides» ficaram quietos mas o espírito pidesco não desapareceu, limitou-se a mudar de coloração. O relatório que referi, assinado por: Henrique Alves Calado, Brigadeiro, que presidiu, José Júlio Galamba de Castro,ten. cor.Art., Rogério Francisco Tavares Simões,cap.frag.,Manuel José Alvarenga de Sousa Santos,ten.cor.pil-av. António Gomes Lourenço Martins,Juiz de Direito, Ângelo Vidal de Almeida Ribeiro, advogado, José de Carvalho Rodrigues Pereira, advogado, Francisco de Sousa Tavares,advogado, o relatório, ia dizendo, não deixou margem para dúvidas: tinha havido excessos vergonhosos.
Mas não tive razão na minha precipitada conclusão. Não tinham sido só as moscas a mudar!
O relatório era por si só a bandeira da mudança. O poder instalado permitira que se averiguasse, reconhecia os erros e assumia-os.
Abstenho-me de transcrever pormenores do Relatório porque o que me interessa sublinhar é a sua simples existência. Não se trata de um documento elaborado por uma facção contra outras. A lista de personalidades que constituiu a Comissão é elucidativa sobre a abrangência política. É estou em crer um documento histórico de incalculável valor humano e deve ter sido seguramente a primeira manifestação plural de democracia neste país, onde não me lembro se houve mais.
Foi precisa coragem. Oxalá a História não os deixe na penumbra...

sexta-feira, outubro 27, 2006

O óscar Telefonou

Ontem o Óscar telefonou. Estava de passagem para a Guiné Bissau. "Era só para dar um aceno"(esta frase lembrou-me o Saraiva Coutinho, que estava sempre a acenar aos ouvintes). Fiquei contente com o telefonema do Óscar porque afinal não se esqueceu mesmo de nós.Mais: falava verdade quando me disse que tinha perdido os meus contactos.

O telefonema do Óscar fez-me lembrar aquele fabuloso ano lectivo de 1976/77 em que, apesar da guerra, todas as Escola angolanas abriram, incluindo todas as Faculdades da Universidade de Angola.

Foi nesse contexto que conheci o Óscar. Fiz discurso e tudo para, em Abril de 1976, abrir o ano lectivo na Faculdade de Letras do Lubango. Com notícia no "Jornal de Angola " e a desaprovação do então Ministro da Educação, António Jacinto. O MPLA não estava nada virado para a abertura de faculdades fora de Luanda. A pequena burguesia da capital queria tudo para eles.

O Óscar e outro(a)s luandenses subiram a Chela e foram frequentar os cursos da Faculdade de Letras.

Aos poucos foi-se transformando numa figura incontronável da Faculdade, fazendo amigos e amigas.Uma em particular, mas sempre sem demasiadas manifestações. Discretamente. E nós, os amigos dele e dela, da Bany, fomos vaticinando o casamento - o que enfurecia a futura noiva.

Ontem o Óscar telefonou e eu lembrei-me dos dois, casados há quase trinta anos, e de muitos outros, cujo paradeiro desconheço mas de quem gostaria de ter notícias.

É que montar aquela Faculdade, administrar aqueles cursos, gerir alguns conflitos graves entre professores mais ou menos baldas e imcompetentes e alunos militantes, mais da política do que do estudo, tudo isso deu muito trabalho, mas acho que compensou.

Pelo menos o Óscar ontem telefonou e prometeu que, no regresso da Guiné Bissau, se tiver tempo, dá uma saltada aqui a casa. Ficamos à espera, Óscar.

quarta-feira, outubro 18, 2006

À TOA

Sei menos do 25 do que devia. Só cheguei a Lisboa no sábado, depois do almoço. Tinha almoçado no Entroncamento, num comboio que vinha do Porto e trazia restauração de comer e nós, eu e o Baião, vinhamos de Madrid e troquei,ali, de comboio justamente para comer.
Não faz grande sentido dizer que vinhanos de Madrid. Na realidade vinhamos de Luanda, de onde saimos num avião sul-africano, que fazia escala técnica em Luanda, mas não podia admitir passageiros, nem despejá-los. Os rumores dos acontecimentos de Lisboa já eram como dado adquirido. Já se sabia que Marcelo estava no Carmo, mas ainda não se sabia que Santos e Castro já estava «indisponível». Entretanto os voos para Lisboa estavam suspensos. O aeroporto da Portela estava encerrado. Por tudo isso foi possível solicitar autorização para voar e para sair com algum dinheiro europeu. O Baião esqueceu-se do documento militar, mas até isso, vejam lá, até isso foi, ainda o 25 madrugava, ultrapassado.
Nas Canárias, outra escala técnica, comprei os primeiros jornais que li sobre o «golpe de Lisboa». De manhã, em Paris, os jornais traziam grandes parangonas sobre
o acontecimento da véspera. Ficamos a saber que o aeroporto de Lisboa continuava fechado. Optei por seguir para Madrid, onde contava poder apanhar um comboio para Lisboa ou, pelo menos, até à fronteira. Depois logo se via. Se fosse preciso passava-se de salto. Os voluntariosos portugas de Angola não se assustavam com pouco.
Claro que em Madrid nada se sabia, a não ser que comboio continuava a não ter saída prevista. O chefe da estação admitiu, que sim, que era provável que a meio da tarde já houvesse informação, mas confirmou-me o que eu queria ouvir: o comboio dessa noite iria pelo menos até à fronteira.
Atocha não era, nem pouco mais ou menos, como é hoje, Era bem mais aconchegada e não faltava onde mastigar bom presunto e engolir algumas cervejas. Convenientemente atrazado o comboio acabou por zarpar, com destino a Lisboa.
Eu fui tratar do hotel e o Baião alugar carro. Na recepção, o empregado tinha o colarinho desapertado e a gravata descida. Percebi que o País estava a mudar...
Descemos a avenida a businar e a trocar cravos com o povo frenético, que mostrava a sua intensa satisfação, aquele não era o povo que lava no rio, como Amália cantou. Cantava e ria, como se diz no hino. Cruzamos com duas ou três manifs, que engrossavam à medida que avançavam.
Não me recordo já de qual deles chegou primeiro, creio que foi Cunhal. Mário Soares terá chegado depois. Ou não? Pode ter sido ao contrário. Não estou a puxar a brasa à minha sardinha, sei que asisti à chegada do fugitivo de Peniche.Foi uma festa. Qualquer pretexto, naqueles dias, mobilizava multidões. Já não via tanta gente junta desde que Riquita chegou, coroada, a Luanda...
Vivi esses dias alucinados e fui-me espantando com o desenrolar dos acontecimentos e em especial com o que se ia dizendo. O primeiro deles a decepcionar-me foi o homem das baladas de Coimbra, que cantou Grandola, o hino da revolução. Era a linguagem crua e dura, tanto tempo silenciada, que me foi soando excessiva e me trouxe à terra. Passei a fazer o que devia: ver, ouvir e contar e deixar-me de lérias.
A liberdade expandia-se a revolução triunfava, mas num hotel, na avenida da Liberdade o director da DGS de Angola aguardava por instruções. Certamente por coincidência o colega inspector do Moçambique também estava em Lisboa. O mais curioso é que os dois regressaram aos repctivos postos de trabalho juntos. Vi os dois no aeroporto. Eu sabia que eles estavam lá e soube pelo próprio Costa Gomes, que me asseverou que as coisas no ultramar teriam que continuar como estavam até que se estabelecessem condições que permitissem estabelecer diálogo com todas as partes. Fui pedir ao «zero-zero Lopes», como lhe chamava o ex-governador Rebocho Vaz, que me levasse para Luanda textos e fotos das reportagens que estavamos a fazer. Costa Gomes emendou a mão, já em Luanda, quando Maria Virgínia lhe perguntou: «O que é que aqueles homens fazem aqui»? E o general respondeu que vinham arrumar as coisas deles e voltar para Lisboa.
Em Lisboa continuava eu e cheio de curiosidade para assistir ao primeiro primeiro de Maio pós revolução. Ver muita gente já não me impressionava; ouvir as mesmas coisas já enfastiava. Depois de descer a Alameda, deixei o Baião a fazer bonecos e abalei para o sossego de um bar. Foi aí que decidi ir ao Funchal.
Fui, fomos. Creio que já contei esta parte, que foi o grande sucesso do par de obscuros jornalistas ultramarinos, que foram de manhã à Madeira. regresaram à noite a Lisboa e traziam todas as fotos dos políticos deportados, entre os quais Marcelo e Thomaz e a sua dele encantadora esposa, graçola que o batalhão imenso de fotógrafos de todas as agências e de todos os jornais não conseguira, apesar de chegarem antes e sairem depois de nós...
Trinta e picos anos depois é que me ocorreu perguntar-me. Como é possível fazer uma revolução daquelas sem dar um tiro um só que fosse?...
Houve um tiro, sim senhor, mas foi depois, na António Maria Cardoso, à porta da DGS...

segunda-feira, outubro 16, 2006

Carlos Pacheco/António Gonçalves

Quem acompanha desde o início este blog sabe que ele nasceu de um desafio do Fernando Alves numa altura em que eu, cansado de ouvir gente a falar de um jornal que havia fundado e dirigido há anos, resolvi contar a história do "África" no "Romeiro".
Quem me desafiou à criação de um blog em que se falasse de outras Áfricas sabia que eu não lhe resistiria e lá vou dando a minha colaboração, tanto quanto o tempo deixa.
Comigo, além do Fernando, trouxe o António Gonçalves, que foi um dos chefes de redacção
do "África", mas, sobretudo, foi o esteio em que o Notícia, a mais importante revista que se publicou em espaço dominado pela língua portuguesa, até 1974, se apoiou durante muito tempo. António Gonçalves, Sousa Oliveira e outros pseudónimos que ele usou, foram colegas de Herberto Helder, José Sebag e outros.
O António tem um património pesssoal vivido na profissão de jornalista absolutamente inigualável e tem-nos brindado, no seu jeito sarcástico, único, com a narrativa de alguns episódios importantes também para a História de Portugal, também para a História de Angola.
Mas, o António não se propõe fazer História - ele apenas contas estórias. Que podem ser, evidentemente, pistas para quem quer fazer História. E algumas delas são muito fáceis de seguir.
O Carlos Pacheco - que há mais de um ano me pediu informações sobre determinadas circunstâncias, um pedido que satisfiz na hora sem nunca ter recebido sequer a indicação de que tinha recebido a minha mensagem -vem agora quase como que exigir ao António Gonçalves que seja mais claro.
O António saberá muito bem respoder a esta questão - felizmente ele não precisa de terceiros para o defender - , mas eu não posso deixar de dizer ao Carlos Pacheco que se porte como um verdadeiro historiador e siga as pistas de alguém que apenas quer voltar a fazer o que sempre fez com um enorme prazer : escrever.
Este blog segue as regras da deontologia profissional que sempre regeu a actividade profissional dos três jornalistas que o fazem, mas aqui, neste espaço, não temos patrão.
Desculpa, lá, António, mas os donos das nossas cabeças, dos nossos escritos, dos nossos sonhos...não cabem na nossa mesa. A propósito, agora, quando voltares de Paris ,vamos reunir o Conselho de Redacção naquela tasca, quase restaurante, lá para o Cais do Sodré. O Fernando fica, por esta via, convocado.

domingo, outubro 15, 2006

SINAIS

Estar na aldeia e não ver as casas aconteceu-me algumas vezes. Tapar o Sol com a peneira só funciona com quem estiver, no mínimo, ensonado. Hoje sei que andei muitas vezes a «dormir na forma».
Quando, com o Quim Cabral, fui à Guiné, Salazar já tinha tombado da cadeira e, por isso, encontrei em Bissau o prof. Caetano, Marcelo de seu nome, que estava de partida para Luanda .
Cheguei ali imbuido da «minha importância» porque o Comando Militar em Luanda não só acedera a dar-nos boleia em avião militar, como desviara o aparelho da rota pelo Sal para nos depositar direitinhos na capital guineense.
Quem não esteve presente durante a visita do Presidente do Conselho (lembram-se? Era assim que se chamava ao primeiro-ministro!) foi o coronel (ou coisa assim) responsável pela Força Aérea na província. O coronel tinha ido a Cabo Verde, alegadamente para recolher a equipa de reportagem do Notícia, que se deslocava à Guiné! O «desencontro» foi glosado à mesa, ao jantar na esplanada do restaurante. Podia ser distraíradodo e não ver casas, mas as cascas das ostras, aos montes, espalhadas pelo chão da rua dos bares, cafés ou restaurantes tinham-me desvairado.
Parecia-me pelo menos tão bom como cuspir caroços de ginja para a rua, nas Portas de Santo Antão.
Na manhã seguinte Spínola ia sair. O coronel interferiu e o governador acedia a levar um de nós. Teria o fotógrafo de ir só, mas o helio voltou a poisar, desceu um elemento da segurança e
juntei-me ao Quim. O general queria conversa e evidência. Um par de «terroristas» tinha sido capturado por um grupo militar que fazia uma operação de rotina. E era nisso que consistia a deslocação do general, pensei eu. O duo ia carregado de material escolar: pequenos livros e cadernos destinados ao ensino a garotos, e era constituído por um homem, com as mãos amarradas atrás das costas e uma mulher. O guerrilheiro estava visivelmente asustado, mas a dama infundia respeito pelo porte. Olhou-nos com fria indiferença e nem respondeu aos bons dias! Spínola olhou o material escolar, folheando os manuais também com indiferença e ninguém se ralou quando eu escolhi três ou quatro exemplares e os guardei. Eram giros e feitos com gosto.
Dali o general rumou para um amplo quartel, bem no meio do mato e quase silencioso. Spínola falou com o comandante e com um ou outro dos oficiais. Nada de muito cerimonioso. Depois um almoço razoavelmente frugal.
Só percebi porque se dera Spínola ao incómodo de nos levar ali, quando o «nosso» coronel me revelou que o contingente militar aquartelado estava todo de castigo há mais de um mês, à espera de regressar a casa, na «metrópole», por ter terminado a comissão. O incidente que gerou o castigo teve a ver com uma falha de vigilância, que terá posto em causa a segurança de quartel.
Levei também o meu tempo a perceber os porquês da relação cordial com o coronel aviador, que voltei a encontrar, em Nampula, uns anitos depois, quando visitei Moçambique para recolher material para um caderno especial sobre a «província». Um "breefing" alucinante sobre a situação militar. Aterrador. A guerra estava praticamente perdida. «Aquilo» não fazia sentido, sobretudo dito por militares a jornalistas, numa sala reservada.
Dei-me ao cuidado de convidar o coronel para almoçar e confrontei-o. Ele não reagiu, não comentou nem respondeu. Limitou-se a vago aceno de impotência e mudou de assunto, passando a contar-me uma graçola: os jovens oficiais tinham convencido o comandante a ir a Lisboa candidatar-se à presidência, que toda a gente e todos os militares estavam a contar com ele. O sujeito veio mesmo a Lisboa e foi alvo de chacota.
Senti-me baralhado e fui com o Baião para a Ilha de Moçambique, regalar a vista e aconchegar o estômago. O que aquilo era bonito e tranquilo! Com militares de lá, que fui sondando, nada de preocupante parecia estar a acontecer. Nada que se comparasse com Angola; ali o clima era de guerra e havia confrontos, com baixas dos dois lados, mas sem impacte nas populações urbanas.
Alguns meses depois o «meu» coronel era um dos nomes sonantes do Conselho da Revolução.
Chegou atrasado à fotografia, porque no 25 ainda estava em Moçambique, mas o lugar era já dele. Eu tinha tido os sinais. Estive na aldeia e não soube ver as casas. Creio que o coronel, ele também, acabou por se perder na aldeia,tal como outro galvanizado general, outro dos que deu barraca...
Que a coisa vinha de trás parece agora não haver dúvidas. Não terá sido por acaso que a PIDE baixou para DGS e ficou tranquilamente a ver passar os comboios. Sem esquecer que Marcelo
«deixou» Tomás ir à Televisão mostrar-se e ser mostrado, como já o fizera antes ao augusto António, o da Estrela...
Haveria provavelmente duas paralelas. De qual delas seria a coluna que saiu das Caldas e não chegou à calçada do Carriche? E qual delas pensou Marcelo que chegou ao Terreiro do Paço?

Eu dormia tranquilamente em Luanda e já confessei que não vi as casas. Foi um amigo que me telefonou de Joanesburgo quem me alertou. O governador também deve ter sido surpreendido ao descobrir que estava na paralela errada. Também tinha tido um sinal: tinha detectado algo
confusionista no chefe das FA de Angola e pedira ao irmão, militar, que governava o Quanza Sul, que apurasse qualquer coisa. O futuro candidato da AD a Belém tranquilizou o mano do governador. Convirá, talvez, sublinhar que, num desses entretantos, Costa Gomes esteve em Luanda, em plena vigência da brigada do reumático e pode ter confundido o antigo director
de um campo de prisioneiros políticos, no sul de Angola, atraindo-o para uma das paralelas.
São muitas coincidências.
A aldeia sempre lá esteve. Onde diabo se escondiam as casas? Por experiência própria posso assegurar que o pior cego não é afinal o que não quer ver, mas o que não sabe ver. Se isto é admitir que sou burro, que posso fazer...

terça-feira, outubro 10, 2006

REMOER NO MOLHADO

...E no 4 de Fevereiro, pela manhã, abalei de férias. Deixei Angola inteira para o sr. Agostinho que ia chegar ao princípio da tarde. A minha fé no novo país esvaíra-se. Os garotos estavam fora de Angola. Lisboa exultava de liberdade. Otelo não era mais aquele tímido militar que conheci em Lusaka: chefiava o Copcon. O Copcon afigurou-se-me depressa uma sorte de polícia política fardada. Actuavam um pouco ao jeito da polícia dos automóveis: na dúvida disparavam, depois logo se via.O primeiro-ministro era também um militar irrisório e um político desastrado.Ao tempo, aquela guerra não era minha. Estava de férias. Apaixonei-me e pratiquei uma porção de loucuras saudáveis. Pelo meio ia mandando umas bocas para Luanda sobre o que ia acontecendo por cá. A propósito de incidentes que se geraram por mór da ocupação dita selvagem de uma casa devoluta, por trabalhadores carenciados gerou uma notícia, publicada em Luanda, sob o título «Copcon o novo medo». Foi como que o azar dos Távoras. O Notícia foi encerrado, o director preso e remetido para Lisboa, para a Trafaria, para ser mais exacto. Nunca foi ouvido, nem acusado. Simplesmente preso. E eu chamado a Luanda, na presunção de que o semanário retomaria a normalidade. Mas não. Por acaso o Sousa Oliveira não existia, era pseudónimo. mas era ele o segundo nome da lista de expulsões. Claro que o que fechou a revista não foi o fait divers, mas a independência face aos poderes políticos, quer os do MFA, quer os dos três movimentos ditos de libertação.
Tive que me pôr a recato, mas dessa vez não regressei a Lisboa. Passadas semanas, o assunto esmoreceu e eu entrei para a «Província de Angola». O matutino tinha sido praticamente entregue à FNLA. A Emissora Oficial era controlada pelos esquerdistas de esquerda, tão de esquerda que por vezes o MPLA até se zangava com eles. Mudei o nome ao pasquim e ainda hoje estou grato ao país por ter mantido o nome que escolhi: «Jornal de Angola». Claro que a linha é outra e o jornal pontua a política do governo.
Depois do Alvor e já com a independência à vista ainda houve uma tentativa de pacificação entre os três movimentos angolanos, em Nakuru, cidade natal de Jomo Keniatta, no Quénia. Deu em nada. O inevitável confronto explodiu em Luanda, de onde o MPLA expulsou UNITA e FNLA.
Holden Roberto instalou-se no Ambriz; Savimbi, no Huambo. A chegada dos cubanos a Novo Redondo evidenciava claramente que a questão angolana entrava noutro domínio: o Ocidente e o Leste assumiam-se como partes interessadas, através de terceiros. A África do Sul apoiava a Unita; o Zaire, a FNLA. «Dissidentes» portugueses, inseguros em África, que não se identificavam com as opções do 25 de Abril, distribuiam-se pelas diversas frentes, mas de um modo geral todos se foram distanciando, quer do lado progressista, quer do conservador. Tropas zairotas entraram em acção apoiando (e comandando) as operações, mas desmotivando o grupo português de ex-comandos, entre os quais um prestigiado coronel, que não entendia a estratégia zairenses, que se saldou por um fisco de todo o tamanho, acabando por uma fuga desordenada, mas saqueando todas as fazendas pelo caminho. Chegaram a largar armamento militar, para arrecadar máquinas de costura ou de lavar roupa.
A Sul as coisas passaram~se de modo semelhante, ainda que se deva salientar que a força sul-africana nunca se misturou com os combatentes da Unita, também eles muito atraídos pelos bens alheios. O governo do Huambo foi sol de pouca dura. Enquanto do lado sul-africano foi posssível avançar até Benguela e depois prosseguir até Porto Amboim.
Em Luanda, por essa altura, havia natural preocupação. O esforço militar concentrava-se no morro a norte de Luanda para suster o avanço dos zairenses da FNLA, mas perante a pouca resistência em Benguela, a solução foi dinamitar a ponte novinha sobre o Quanza e ficar à espera.
Por essa altura alguns dos operacionais lusitanos progressistas sentiu necessidade de visitar a família no enclave (Portugal, na gíria local). Vim encontrar, mais tarde, dois deles a trabalhar na Renascença...
Inesperadamente a ofensiva pelo norte fracassou. Como os zairenses não sabiam recuar, preferiram fugir de uma guerra que não era deles, ala que se faz tarde, causando um efeito de castelo de cartas. No sul, os sul africanos desistiram e foram para casa. Os guerrilheiros da Unita ficaram sem apoio e sem comando. Do Huambo o governo esfumou-se. Na Huila a Unita chegou a vias de facto com a FNLA, que se sumiu. Mais a norte, Holden retornava a Kinshasa, A FNLA desaparecia de cena. Sem americanos a dar ordens e pagar a factura, Mobutu desinteressava-se.
Savimbi consolava-se por ter ganho a guerra dele. Agora ou ele ou nada. Os sul africanos sentiam que o apharteid não podia aceitar outro regime socialista à porta. Precisava de Savimbi.
Mas o camarada do pai socialista europeu e do filho idem, não tinha muito com que ajudar e o apharteid, uma forma repelente de fascismo, o qual, como se viu, ruiu antes do próprio Savimbi
dar a alma ao criador.
Isto é «o linhas gerais», ficam por ampliar pormenores, daqueles que se agarram à memória, pedaços da história por fazer. Até já...

quarta-feira, outubro 04, 2006

MEMÓRIA DE TEMPOS PERDIDOS/2


Podia começar por explicar que o Mundo é pequeno, se tal constituisse alguma novidade. O Mundo é como é e as surpresas só surpreendem quem sonha ser surpreendido. Um E-mail de Nova Iorque, de Manel Ricardo,alertava-me: «Estás muito bonito, hoje (domingo), no Diário de Notícias». Não compro jornais ao domingo, nem nos outros dias em que são mais caros, mas tinha lido a crónica sobre o segundo volume das quase memórias de Almeida Santos. Não me acrescentou muito mas deve surpreender algumas cabeças. O que eu não notei foi a foto que ilustrava o texto. Lá estava eu, barbudo e despenteado, o mais bonito que era capaz, e com uma inusitada máquina fotográfica na mão, a uns metros de Agostinho Neto e de oficiais do exército português dos quais nem me lembra os nomes.
Mas é, foi, um momento histórico, ainda em 74, no Leste de Angola, em plena floresta cerrada. O presidente do MPLA reunia com militares lusitanos para preparar a entrada e instalação do MPLA no território até então português. Dos oficiais portugueses que lá estiveram só retive o nome de Pezarat Correia que, suponho eu, já fazia parte do movimento revolucionário «25 de Abril».
Como jornalista já tinha assistido ao encontro de Mário Soares, na altura ministro dos Negócios Estrangeiros, do primeiro governo provisório, que se fez acompanhar (ou terá acompanhado?) um tímido militar: Otelo, esse mesmo, ao encontro, ia dizendo, com Samora Machel, emLusaka, mas viver aqueles instantes na mata, em Angola, foi mais empolgante. E se estava ali fiquei a dever isso, vejam lá!, a Manuel Ricardo, jovem colega do «Província de Angola», como então se chamava o matutino. A mulher chegara-me da «graciosa» na véspera e eu tinha optado por uma noite de hotel. Ao fim da tarde o convite inesperado chegava à Redacção do Notícia: o António Gonçalves é convidado a ir ao Luso.
«O António não está», avisaram «Pode ir outro?»...
«Não, não pode. Só o António Gonçalves»...
Foi o diabo para me encontrarem e foi por mero acaso que o meu director encontrou o Manel Ricardo
e lhe deu conta. Ele sabia, foi ele que nos levou, a mim e à mulher, ao Hotel.
Já no avião, rumo ao Luso, Hermínio Escórcio confirmava-me que fora dele a exigência e confirmava também que ia haver encontro com líder histórico. Foi por isso que eu «apareci» de máquina fotográfica na mão.
O problema foi, depois de um segundo percurso de helicóptero, ficarmos quase a cem metros de distáncia da tenda montada no meio da clareira, onde já estavam os oficais portugueses e a delegação do MPLA. Os repórteres queixavam-se de que não podiam ver, nem ouvir, mas os militares de guarda não deixavam ninguém ultrapassar a corda.
Havia um «deles», no entanto, que se passeava junto da tenda e de vez em quando espreitava e depois continuava a patinhar, batedo uma chapa aqui e ali. Mas esse eu conhecia. Era «célebre».
Fora da vez em que fui, com o Baião, a Lusaka e, claro, procuramos encontrar os supostos refugiados políticos do MPLA. As autoridades locais não aceitaram o termo «guerrilheiros»!
Foi assim que conheci Iko Carreira e outros cujos nomes já não me ocorrem, entre os quais o heroi-fotógrafo. Abatera um helióptero na mata, quando estava escondido no topo de uma
árvore. O aparelho voou na sua direcção, a rasar as copas. Assustado disparou e nem sabe como
nem porquê a ameaça voadora espatifou-se no solo.
Aos herois não se levantam obstáculos. Pedi-lhe que me levasse a máquina e me fizesse alguns bonecos. Depois foi simples. A reunião acabou e os repórteres puderam ver e ouvir o que uns e outros quiseram dizer. Eram tempos de esperança, mas adivinhava-se que três movimentos hostis entre si era muita fruta, demasiados galos para um poleiro.
Desde então começou a ouvir-se martelar pregos nos caixotes. Não ia haver saídas pela esquerda alta. Mas levamos algum tempo para perceber isso...

terça-feira, outubro 03, 2006

Soares e Mandela

Ontem, no canal 5 , lá estavam o Mário Crespo e Mário Soares. A Falar de Nelson Mandela. Utilizando os adjectivos tolerância, compreensão e outros do género, Soares concluiu em relação a Mandela - e muito bem - que este homem marcou uma época.
Não consegui deixar de comparar o discurso de há alguns dias de Soares a propósito de Savimbi, a quem louvava e considerava uma espécie de herói nacional, exactamente com os adjectivos contrários.
Vá-se lá entender!

sábado, setembro 30, 2006

SAVIMBAR

Não. De maneira nenhuma vou contestar o «patrão»; nem sequer vou propor nome para próxima futura tasca; nem sequer, ele próprio, o defunto, a estar em causa. Surge naturalmente como a procriação: é preciso começar por algum lado. Tinha a intenção de me servir da acidez de Leston Bandeira para alastrar o leque de zurzidos mas...
Antes, bem entendido, dei a desconfiada mirada pelos pasquins. Fixei-me no «fundo» sobre estradas e más consequências das ditas. Os africanos, em geral, e os angolanos, em particular, deviam pôr os olhos na questão rodoviária e meditar. Escolher melhor os projectistas e assegurar a qualidade dos engenhocas para evitar as consequências arrepiantes, que por cá bem se conhecem. Ele há um princípio para tudo e nada melhor do que começar bem. Sabemos hoje que substituir uma má estrada por uma magnífica autopista não resolve o problema de sinistralidade -- agrava-o, torna-o mais veloz e mais sinistro. A causa maior dos acidentes de
viação resulta dos automobilistas. Quanto melhor é o carro pior para o despiste ou colisão; e pior que um carro topo de gama é uma estrada melhor.
O comentário do articulista do «DN» põe o dedo na ferida ao sublinhar a pouca eficácia na repressão e parece contentar-se com a denúncia da resposabilidade de muitos que projectaram e construiram, especialmente a estrada para o Algarve ou as voltinhas do Marão, tudo mais ou menos «emparedado» na IP5, de má memória.
Não faço ideia como é que o articulista conduz mas tenho para mim que, em geral, as árvores não se metem à frente dos carros. Uma má estrada incomoda a condução, chateia o motorista, não o obriga a suicidar-e ou a matar o próximo. O alcool não afecta a qualidade da estrada, mas pode lixar os cornos ao condutor.
Tempos houve que por alguma razão uma estrada de longa recta, com duas faixas para cada sentido, bem no sul da França, ficou para sempre conhecida pela «estrada dos portugueses». Façam o favor de não me perguntar porquê!
A rábula do controlo eventual é uma treta. Em boa verdade limita-se ao que se conhece como caça à multa e não tem efeito para além disso. E, hoje em dia, já é possível fazer um pouco mais para enfrentar o problema com alguma eficácia. A vigilância permanente das estradas por radar não é um mito. A carta de condução por pontos já existe em alguns países.
Posso asseverar que em França, por exemplo, a «pontuação» e as multas electrónicas resultaram. Conheço bem o percurso Lisboa-Paris e verifiquei como em muito pouco tempo se notou essa diferença. Não tanto pelas multas, mas pela ameaça latente de ficar sem carta.
Em boa verdade, meu caro Leston, o guerreiro Savimbi nada teve a ver com isto. O trânsito dele era clandestino. Seria tão terrorista quanto o terá sido Geraldes, «o sem pavor»!
O Ben Laden começou a saga dele, evidentemente heroica, a resistir à ocupação soviética. Só depois é que «virou» terrorista. As únicas bombas atómicas que mataram gente eram americanas e a ideia americana era a de avisar o próximo «do quem te avisa teu amigo é».
Depois foram os, então, soviéticos. E depois...pois os outros. Dissuadir não se vê como. Em boa verdade a bomba atómica é o que se quiser, é como a água benta: cada qual toma a que quer.
Mata muito, mata demais. Savimbi começou no MPLA. Só depois se estabeleceu por conta própria. Não demorou muito, no Leste, a usar a expressão «primeiro entre iguais», enfrentando a guerrilha marxista. Contou com a ajuda da PIDE. Os madeireiros do Luso sabiam isso bem. Trabalhavam tranquilos. Sei do que falo, conheci o inspector que desceu à mata, sozinho, para o encontro. Por alguma razão, depois, ele teve apoios sul-africanos e americanos. Morreu porque nas guerras alguém tem que morrer. Se era terrorista? Acho que sim, onde está a duvida?
Mas, meus senhores: e os outros?
Que fique claro que em nenhum momento me referi a Mário Soares. Dele creio simplesmente que é confusionista. Pode não gostar-se dele. Ainda hoje eu creio que ele foi um homem providencial. Mas isto é outra história...

sexta-feira, setembro 29, 2006

Soares e Savimbi

Nem sempre posso, mas quando tenho a sorte do meu lado, assim que antevejo a possibilidade de certos personagens aparecerem na televisão, desligo, mudo de canal ou saio, vou embora. Pronto. Já não estou para os aturar...
Mas, hoje não foi possível.Num dos canais nacionais falou-se do lançamento de um livro sobre Savimbi, dos seus últimos meses, bla..bla..bla. E Eu tive que ouvir. Tinha cerimónia em casa, não podia fazer nada do que habitualmente faço, nem abandonar a sala. E engoli aquilo tudo, até mesmo Mário Soares a dizer um chorrilho de disparates sobre o seu grande amigo Savimbi: " que tinha lutado até à morte, com fome e não sei que mais, não pelo poder, não pelo dinheiro e não por mais não sei porquê. Acho que não chegou a dizer que o homem lutou pelo povo...se o disse, pelo menos, nessa altura, tinha conseguido desligar o cérebero - que é outra maneira.
Mário Soares, que apoiou Savimbi a mando da Internacional Socialista, depois de 1975, que durante os acordos do Alvor manobrou a favor da UNITA, continua a querer manipular a oipinião pública, esquecendo-se de um pormenor importante: depois que Savimbi foi morto, numa guerra que ele desencadeou e durante a qual foram destruidas várias cidades e mortas centenas de milhares de pessoas - não houve mais tiros, deixou de haver guerra.
Afinal quem a fez, quem a queria? E os diamantes que serviam de sustento a traficantes de armas, aventureiros de todo o tipo, estão aonde?
Porque é que Mário Soares volta sempre ao "freedmon fighter" a propósito de Savimbi e não percebe que Angola, esteve sujeita durante quase trinta anos a um poderoso psicopata assassino?(Há mais de vinte anos que escrevi isto mesmo e a TSF "varreu-me" do seu naipe de especialistas porque algum tempo antes da morte de Jonas Malheiro, repeti a afirmação).
Alcides Sacala tem todo o direito de escrever a sua própria epopeia e evocar os seus demónios, mas ... Mário Soares, esqueça Angola. Dele e de Savimbi, sobretudo - evidentemente - deste, Angola só conheceu mentira e desgraça.

terça-feira, setembro 19, 2006

Euros com pauzinhos

Caro António: á boleia da penultima das tuas deliciosas prosas, em que anunciavas a próxima aprendizagem do manuseio dos pauzinhos, deixo aqui números fresquinhos, de agora.
As trocas comerciais entre a China e os Palop aumentaram 68 % no último semestre.
O volume de negócios foi de 8,6 mil milhões de euros entre Janeiro e Julho.
Números destes não se conseguem só com lojas dos 300. Embora elas proliferem nas capitais palopianas. Vale a pena, aliás, seguir com atenção a reunião marcada para Macau, na próxima semana.

segunda-feira, setembro 18, 2006

PELOS TEMPOS IDOS E VINDOS

O sonho de quantos sonham viajar pelo futuro é, bem entendido, moldar a presente. Ir ao futuro, mesmo à sucapa, seria a maneira mais segura de albardar burro. Conhecer por antecipação a senha do euro-milhões era porreiro, mas estou em crer que o retorno à realidade tem por obrigação divina andar suficientemente atrazado para afastar o turvo olhar do lucro fácil.
Já a maneira como se molda o passado, como se procura explicá-lo, também não é inocente. A «lavagem» de factos e personagens tem em vista adocicar as questões da actualidade, caiar a fachada para tapar a ruina.
Ontem dei uma espreitadela ao prof, ainda o Porto não tinha aberto o activo. No meio do paleio dele sobre o procurador que aí vem, veio o Porto e meteu um golo, que eu não vi. É por estas e por outros que eu não gosto de muito sujeitos palradores. Era óbvio que ele não sabia quem vai ser a criatura escolhida, como é demasiado óbvio que ele gostava de saber antes dos outros saberem... Mas foi quando ele publicitou o livro de Almeida Santos que prestei atenção. De maneira simpática, o comentador foi prevenindo que se trata da versão do dirigente socialista. O prof acreditava que Almeida Santos tinha sido amigo do pai, o (então) advogado preferiu reduzir a mera cortesia.
Almeida Santos, a quem ouvi, uma vez, dizer que não tinha feito voto de pobreza, a propósito da maneira como se despediu de Lourenço Marques, descreve o que viveu e ao que assistiu. Espero ler, se o book não for caro ou algém simpático mo emprestar, a sua quase memória, que se deve, muito provavelmente, traduzir por memória corrigida e aumentada...
O prof comentarista surpreendeu-se pela citação de que Spínola teria revelado que Marcelo não se importava que a guerra na Guiné tivesse sido perdida. Foi verdade. Spínola zangou-se bem com isso. Não por mór da Guiné, bem entendido, mas por ele, Spínola guerreiro. Perante o cenário que o general expunha, Marcelo terá dito: «E então? Se perder perdeu...» O general de Salazar perdeu Goa e ele não deixou as colónias por causa disso.
Se Spínola não perdeu definitivamente a guerra, acabou por perder, com estrondo, a sua posição no 25 de Abril. Pôs-se a milhas. A guerra portuguesa em África não foi perdida pelos militares, mesmo se eles nunca pareceram capazes de a ganhar. Foi perdida pelo Estado Novo, por Salazar, que cedo percebeu o que estava a acontecer no mundo do pós guerra. Acreditou
que podia dar a volta por cima, substituindo colónias por províncias ultramarinas. Se tivesse, logo que perdeu Goa, mudado a capital da «pátria una e indivisível» para Luanda talvez tivesse criado um dilema político complicado às estâncias internacionais.
É giro! Vinha do Brasil, aonde acompanhei o já citado Marcelo (padrinho) , quando o homem pisou a Lua. O homem pode ir longe no espaço, mas não consegue andar no tempo. Nem para a frente nem para trás. O papa caiu em si, a infalibilidade esmoreceu.
De manhã já era segunda-feira. Estava a lavar os dentes que me restam quando dei por mim a rir: os metereologistas, esses, passeiam no tempo, prevêem o futuro, sabem hoje o que vai ser amanhã. Que pena Sócrates não ser metereologista...

sábado, setembro 16, 2006

OLHOS EM BICO

De repente parece que se deu, ainda que com alguma estranheza, pela influência chinesa em África. Mais do que espanto causa preocupação. E, no entanto, é cada vez mais forte e vasta a acomodação amarela no seio da própria Europa. De facto, o parisiense Le Monde tem agitado com visível preocupação o crescimento físico e económico dos chineses em África, a ponto de já ter questionado: «A África será já chinesa dentro de um decénio?». O vespertino parece recear que sim, considerando o crescimento da teia chinesa quase como um fenómeno. Não é. Paris, de resto, pode ser apontado como um bom exemplo para os jornalistas da casa. Na capital francesa vêem-se chineses por todos os lados. A nosso lado, no «metro» ou nos autocarros. Lojas fast food
em todas as avenidas, ruas ou travessas; grandes superfícies comerciais adquiridas e já com redes de abstecimento próprias! Árabes e africanos perdem espaço, notam-se menos. Os chineses são tranquilos, quase silenciosos. Não carregam, nem parecem adquirir, questões religiosas ou políticas para criar choques ideológicos. Parecem pacíficos e persistentes em comprar casas e lojas, hoteis e supermercados.
Por cá, na Graça ou no Terreiro do Paço, não se dá por isso ou dá-se menos, mas eles também estão por cá. Discretos vão-se instalando, sem hostilizar Sócrates ou arcebispos de Braga. Se fosse necessário até aturavam qualquer Santana que aparecesse no Parque Mayer! Dão-nos a ideia de estar à espera que o preço das casas se humanize para comprar e comprar e comprar. Por ora dormem nas lojas que montaram e adquiriram. Na minha aldeia havia um restaurante chinês, como nas outras aldeias por aí fora. De vez em quando ouvia-se alguém sugerir:«Vamos almoçar ao china»? Um dia destes, para parecer evoluido pus a mesma questão: «Vamos ao china?», mas a resposta pronta já foi:«qual»?
Preocupado, como os colegas do Le Monde não estou. Não receio pela independência do meu país. Tenho, isso sim, é receado algumas vezes pela dependência. Não acredito em Bruxas, mas como os anos passam depressa, confesso que vou aprender a comer com pauzinhos...

terça-feira, setembro 12, 2006

PORQUE É SETEMBRO

Não andei, ó meu, tanto como isso por França, não senhor: só o absolutamente indispensável. O que fiz, isso sim, foi imensos périplos por África, geralmente ao deitar. Claro que a minha África não é a mesma que cantam os meus negros colegas, gaita!, queria dizer distintos. Vou ter que escrever antes da refeições...
A África da memória é inesquecível, mas só para gastos de casa. Como é que se pode divagar sobre Porto Alexandre? Ou rememorar o bife obsceno que me serviam em Salazar, ainda no tempo do governo lisbonense do senhor Dalatando. E no entanto vi-os muitas vezes a jogar a bola. «Os Dinizes» e os do «Independente»! Vocês imaginam um clube do deserto a chamar-se «independente», naquele tempo? Os do «café» e os «peixeiros» mexiam bem na bola, divertiam-se com ela. Acho que nunca ganharam o campeonato. O «apito dourado» era uma porra. De cada vez que Pinto da Costa telefonava para o Valentim lá se lixava o «Independente», o que até enfurecia as areias do deserto! Se era o Filipe a pressionar outro que tinha que ser Pinto, visto que são uns trinta pintos a um osso e para lixar os do «café» qualquer deles servia. O que os lixou a todos foi haver magistratura, cheia de telefones disfarçados a ouvir as conversas. Claro que, como era África «aquilo» não deu em nada, não é como cá. Aqui a Justiça é célere não é o faz que anda mas não anda que se usa trópicos, Lá o árbitro leva o taco para casa e pronto, tá feito. Havia de ser cá...
Lá vi uma data de gente com carros bons, bonitos ou maus a andar depressa. Quando acertam em algém é uma chatice, o que é preciso é andar e depressa. Quase que multaram um ministro que ia devagarinho pela Marginal a espreitar o pôr do Sol, mas como era ministro não multaram porra nenhuma. Havia de ser cá...
Em Luanda quase que houve escândalo por causa das escutas. As conversas gravadas começaram a aparecer nos jornais, umas atrás das outras. Apurou-se que não havia nada de mal. É obrigatório mandar os registos secretos para qualquer lado. As televisões compram os melhores assuntos, do estilo: «quem anda a comer quem» e os da bola vão para os pasquins.
Podem não acreditar mas o senhor procurador- geral nem sequer comentou. Pasmei e botei
comentário: «só aqui, só aqui»!
Foi então que acordei meio estremunhado, não estava lá. Em Setembro, geralmente não saio daqui. O outro lado do Atlântico não me parece muito saudável e a África não progride. Aqui é tudo diferente e para melhor, tudo cresce, até a economia. Quem é que quer sair,hein!(a)



(a) - o último apague a luz...

sábado, setembro 09, 2006

Descobri um sítio

Como quando eramos miúdos e partilhavamos descobertas de lugares (espinheiros carregados de martrindindes no leito seco do Coringe ou praias onde tudo era possível), venho só avisar que descobri um sítio. Uma clareira. Um portal, como se diz.
www.afriblog.com
Prometo que volto cá, em breve. Mas passem por lá. Mas contem só a gente que mereça.

terça-feira, agosto 29, 2006

A Leste Tudo de Novo

Confesso que já respondi ao teu texto, meu velho amigo ( já lá vão mais de 50...eh...eh...eh). Foi na noite de ontem, mas, hoje, logo pela manhã, não gostei do que tinha escrito. Sabes como é: havia qualquer coisa que não correspondia. E apaguei. Fiz "delete", pensando que teria de voltar ao tema do Leste, que, em certas circunstâncias, jogando com o meu nome, tu usaste maravilhosamente.
Lembrei-me, a propósito do título do teu texto de um outro , escrito no "África": " A Leston Tudo de Novo". Era uma época feia. Toda a gente nos atacava porque não percebia por que razão um grupo desconhecido, sem o beneplácito de qualquer partido ou de outra confraria qualquer, mantinha um jornal de qualidade. Suponho mesmo que foi na altura em que decidimos passar de Quinzenário a Semanário.
Estou sem tempo para fazer essa pesquisa, mas lembro-me da emoção que as tuas palavras, encadeadas com um talento que te reconheço desde os teus 16 anos, me provocou. Não exactamente a mesma que me fez humedecer os olhos agora com o teu "Ao Leston que já voltou do Leste", mas quase.
Ir ao Leste, depois de tudo quanto se passou, foi uma proeza. Descobrir uma Juventude, já não socialista, mas ávida de saber o que se passa à sua volta, descortinar os vícios de uma aristocracia, cuja nata vive em Londres e não em Moscovo, perceber que os mecanismos do "império" estão montados num país que, para ser o mais rico, só lhe falta querer mostrar a riqueza que ainda tem escondida, descobrir que o poder bolchevique apenas mudou de roupagem e que o povo gosta...
Descobrir tudo isso e mais as montanhas dos impressionistas que eu procuro por toda a parte onde vou: salas de Gauguin, Degas, Monet,Cézane, Pissarro, Renoir, a par das outras como Picasso, Matisse, Kandiski...
Descobrir isso e uma dúzia - ou mais - de homens, meus companheiros num dos voos, exibindo bilhetes da TAG e o mesmo ar humilde daqueles outros de que nos lembramos a descer dos "paquetes" com as taleigas às costas, mas com a esperança de que o facto de absorverem menos luz lhes daria alguma vantagem, foi uma aventura.
A chegada a Lisboa é sempre um sofrimento: tenho a sensação de que tenho que fazer alguns exercícios para adpatar não só o corpo mas a cabeça à dimensão do "aquário" que me destinaram. Quem terá sido?
A única alegria é a de poder contar com os amigos - também eles fartos de se interrogarem sobre se o fado é uma canção ou um programa de governo.
Para terminar, e a propósito do Leste, lembro aqui aquela tua outra crónica, "Bué de Sede" (Ainda hás-de fazer uma selecção e publicar um livro...hen?) em que tu desafiavas a CIA ou a KGB a mandar o cheque, uma vez que toda a gente acusava o "África" de ser pago por uma delas.
Desta vez, porém, ao desembarcar em Lisboa também trazia na cabeça os olhos daqueles camponeses "ex-soviéticos" (russos?), segurando com força o bilhete da TAG, que os levaria a um mundo novo.

sábado, agosto 26, 2006

Ao Leston, que já voltou do Leste

Bem me tinha parecido que havia gente em casa.
Voltaste com mais do que o Ermitage nos olhos, meu velho, e foi bom ler-te, regressado. Já temia que secassem as flores do blog, contigo longe, e eu a ler romances no areal e o António talvez a flanar Paris.
Passei a tarde debaixo da sombra da alfarrobeira, que o ar queima. Mas fui-me chegando ao cheiro que vem da casa,não tarda está pronta a caldeirada que fui comprar ao mercado de Tavira. Lá encontrei uma colega de liceu que não via há quase 40 anos e que se lembrava, até, do quintal da minha casa, no Cassoco. Foi um encontro caloroso e comovente. Meu caro: eu não me lembro do quintal da minha casa no Cassoco, salvo um mamoeiro alto de onde escorreguei uma vez, caindo desamparado sobre o portão de ferro, com a parte que os defesas escondem, nos penalties.
Escrevo-te porque choveu na ilha do Fogo. Ontem, talvez hoje. Acaba de chover, no Fogo, e numa ou outra ilha do arquipélago. Agora que as notícias dão a primavera mais precoce e o o outono mais tardio e os verões se nos põem inundados na Europa de onde vens, não sei se ainda é notícia uma chuva no Fogo, em Agosto. Há-de ser, sim, veio no jornal electrónico. 96 mm de água medidos no Fogo, tu me dirás. O jornal falava em "chuva mansa" e, nisso, vislumbro um doce acolhimento, uma ideia de benesse. Uma carícia dos deuses aos tão flagelados do vento leste.
Quanto ao mais, onde houve em tempos um cordão dunar que o mar levou, nesta ponta da Ria Formosa,há agora o alegre pisoteio dos veraneantes. No dorso ferido de morte de uma velha duna fincam os guarda-sóis e caparicam-se, aos magotes, desprezando o areal de verões passados. Talvez o inverno abra sobre este flanco feliz das águas mansas de sotavento a boca do adamastor. Amarinho o mamoeiro da memória. Lembro-me de quando não chovia há muito tempo nessas tuas ilhas amadas. Ainda não havia jornais electrónicos. Um abraço

domingo, agosto 20, 2006

A "Invasão" Está Aí

Em 1958, o então jovem Sékou Touré, cidadão francês da chamada África Ocidental Francesa, depois de ter comparticipado no esforço de guerra para derrotar as hostes de Hitler disse "NÃO" à integração do que viria a chamar-se de Guiné Conackry no território francês.

Este foi o primeiro grito de revolta africana contra a dominação europeia. E podia ter tido o significado da expressão de uma aliança de África com uma certa Europa capaz de substituir valores retrógrados de superioridades rácicas e outros por conceitos de solidariedade, pelo respeito e pelo direito à diferença.
Outras independência se seguiram à da Guiné Conackry. Lembro-me de ter passado em Dakar nas vésperas da declaração da independência do Senegal. A euforia e o medo misturavam-se no ambiente geral da cidade, cuja imagem mais forte que guardo é a do mercado.

Quando chegou a vez da Independência da jóia da coroa francesa - Argélia - o resultado foi uma guerra em que morreram milhões de pessoas.

O Reino Unido também foi cedendo alguns dos territórios que a Conferência de Berlim lhe tinha outorgado, mas deixou que os Botha e companhia instalassem o regime do apartheid na República da África do Sul, cujo problema não era a independência política, e que Ian Smith alimentasse o sonho de uma Rodésia independente conduzida pela minoria branca.

Com as colónias portugueses aconteceu o que se sabe: depois de guerras que constituiram sobretudo indústrias para uma meia dúzia de maduros e que tiveram como único objectivo manter artificialmente mercados para onde os portugueses mandavam toda a sorte de porcarias, impedindo, ao mesmo tempo, que em certas colónias ,se desenvolvessem sectores como a agricultura e a indústra, que lhes permitisse uma maior autonomia, o Estado português abandonou sem honra, glória e mesmo sem educação as suas colónias.

Portugal adoptou, como o resto da Europa, a atitude de esperar para ver. "Vamos ver o que eles fazem sem nós...".

E, entretanto, grupos económicos e de aventureiros foram imitando o que similiares de outras nacionailidades já faziam: aderiram ao método da corrupção, na continuação de uma exploração que continuava a beneficiar os antigos exploradores - não os colonos que estiveram no terreno e construiram verdadeiros países onde a vida seria progressivamente mais fácil para todos - mas os que, vivendo nas metrópoles, conheciam das colónias apenas os números das contas bancárias.

A estes grupos de exploradores, transformados agora em corruptores, juntaram-se os corruptos, que ascenderam ao poder nas antigas colónias, agora países independentes.

Esta combinação foi desastrosa para as populações em nome das quais se lutou pela independência e a quem se instilaram sentimentos racistas e xenófobos: os explorados de ontem são os super-explorados de hoje; os exploradores de ontem são os corruptores de hoje e os lutadores pela liberdade de ontem são os interlocutores de um sistema económico liberal onde tudo vale e tudo se esquece.

África é um amontoado de desgraças, de miséria, de onde se foge, mesmo tendo como quase certa a morte.

A Europa procura esconder o conhecimento do que por lá se passa e os homens de negócios continuam a encontrar-se em hotéis de luxo com os seus imitadores africanos com quem dividem grande parte das riquezas que saqueiam, sem, todavia compartilharem a miséria, a morte, a fome, a doença, o obscurantismo, que se instalam nos antigos impérios coloniais europeus.

A desgraça já é, porém, tão grande que começa a trasvasar e a chegar às costas dos mares europeus na forma mais absoluta da miséria e do desespero.

Já não é mais possível esconder a estupidez a cegueira dos dirigentes europeus dos últimos quase sessenta anos, que não perceberam a importância do Continente Africano na salvaguarda dos interesses de ambos os continentes - uma salvaguarda tanto mais posssível, quanto se salvassem as diferenças étnicas, culturais e políticas.
Os europeus, todavia, agarraram-se à sua "superioridade" civilizacional, tentaram impôr regras de organização política e no rescaldo dos falhanços verificados aumentaram os níveis de exploração até ao impossível.
Para que constasse foram, em assembleias engravatadas e montadas para o efeito, lamentando a situação e fazendo apelos a ajudas que transformassem os povos africanos em povos assistidos, incapazes, ou pelo menos com sérias dificuldades em desenvolver os seus próprios recursos.
E o que acontece agora?
A Europa está cercada por todos os lados: pelos Estados Unidos com o seu desenvolvimento programado na guerra preventiva; pela China, um estado totalitário, ditatorial, a dominar a seu belo prazer o sistema económico liberal inventado com a conivência da Uniâo Europeia; pela Índia, uma superpotênca no domínio das novas tecnologias.
Para Leste ressurge o império russo e os seus aliados, que rapidamente se reorganizarão em termos económicos, aproveitando também as regras do liberalismo económico e esquecendo o tão propalado sistema social europeu, já moribundo em toda a União Europeia.
E aqui perto, África a desmoronar-se, com a sua gente em debandada, à procura, na Europa, de um sítio onde, pelo menos, possa viver tranquilamente, com uma refeição por dia e os filhos por perto.
Os barcos chegam. São cada vez mais pequenos - dizem as notícias - mas cada vez mais carregados de potenciais cadáveres.
As elites europeias, que exploram miseravelmente os seus povos e também os africanos e nada fizeram para perceber que melhor seria auxiliar um "desenvolvimento africano"vão ter que resolver o problema dos africanos na Europa.
Como dizia o prof. Agostinho da Silva, a "invasão" do Norte pelo Sul já começou há muitos anos. Mas agora é mais visível e mais dramática - acrescento eu

segunda-feira, agosto 14, 2006

Saudades de Dom Helder

Sentado à sombra da alfarrobeira, abro, sobre os joelhos, a janela que dá para o mundo e é como se escutasse, de novo, as canções ao desafio que dois nordestinos cantaram para mim e para o Manuel Vilas Boas quando, em reportagem pelo litoral brasileiro, chegámos uma tarde, sem pinga de fôlego, ao cimo da longa rampa da catedral de Olinda. Nunca esquecerei essa tarde em que os trovadores de uma desgarrada sacro-profana para turistas aconchegaram o nome de Dom Helder Câmara ao som dorido dos violões, antes de nos deixarem em meditação junto à campa rasa que guarda os ossos de um homem raro. O velho sacristão da catedral de Olinda haveria de nos mostrar os paramentos que Paulo VI ofertara a Dom Helder e de nos contar histórias dos dias dificeis do arcebispo que a ditadura militar não vergou.
Dom Helder travou muitos combates contra a fome, a miséria e a injustiça e tinha uma campanha em marcha, lançada no final da década de 90, com a Fundação Joaquim Nabuco, a chamada Campanha Ano 2000 Sem Miséria cujos resultados não pôde verificar porque a morte o levou em 27 de Agosto de 1999.
Agora, sentado á sombra da alfarrobeira, ocorre-me que aquela ingreme rampa de acesso á catedral de Olinda, foi, porventura, para Dom Helder, uma metáfora da montanha de Sísifo, porque, ainda que muitos tenham tomado em mãos o testemunho do arcebispo, o crime se propaga mais velozmente que o sucesso dos combates solidários. A miséria cresceu no mundo e já nem nos lembramos do patamar de esperança estabelecido por Dom Helder para o Ano 2000.
E tudo isto me ocorre porque chegou hoje à ilha do Fogo, em Cabo Verde, uma delegação do Projecto Dom Helder da Câmara. A delegação vai permanecer no Fogo até dia 18, a convite do Programa de Luta contra a Pobreza em Meio Rural. Estamos face a uma parceria em projectos de desenvolvimento local, coisa da chamada sociedade civil. A boa semente pega sempre, mesmo em terra seca. Esta é uma lição a tirar, uma década passada sobre a fraca sementeira da CPLP.
Eu gostava de estar no Fogo, por estes dias, e ir com a delegação do Projecto Dom Helder da Câmara à Cooperativa de Produção de Vinho de Chã das Caldeiras e aos outros lugares onde se está semeando. Mas essa é a reportagem fora da agenda. Gostava de ouvir os do Fogo e os do Projecto sobre uma frase de Dom Helder: "Quando dou pão aos pobres, chamam-me santo. Quando pergunto pelas causas da pobreza, chamam-me comunista". Talvez colhesse apenas palavras, espantos, murmúrios, desalentos. Alguma coisa seria. Quanto ás sementeiras institucionais, nem dão pão aos pobres, nem perguntam pelas causas da pobreza.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Um Só Povo Uma Nação

Estou há muitos anos afastado do quotidiano angolano. Durante muitos anos não consegui afastar-me, mas, depois de "tanta porrada e tão mau viver" só os masoquistas resistem. Os masoquistas ou os verdadeiros heróis.
Hoje vi, em DVD, um filme sobre a actividade da Ana Clara Guerra Marques, cujo pai tive o orgulho de encontrar nas "batalhas" por uma Universidade capaz de transmitir conhecimento universal, e não posso deixar de me assombrar com o que aquela mulher franzina, criadora de uma escola de dança, de uma companhia de bailado, acusada de uma série de "pecados" ideológicos por ensinar música clássica aos angolanos, conseguiu com uma arte tão rica, tão difícil e tão fácil, como a dança, concretizar a ideia do MPLA de "Um Só Povo, Uma Só Nação".
Na realidade em mais nenhuma actividade desenvolvida em trinta anos de independência é tão visível a facilidade de entendimento entre todos os angolanos. Quando eles dançam, misturando a dança clássica com o que aprendem nos movimentos das danças tradicionais, conseguem mostrar a facilidade de construir uma Nação com vários Povos.
No mesmo filme também aparece muita gente a falar do esforço da "miúda". Ainda bem que ela também conseguiu eliminar as chamadas "barreiras ideológicas". Os meus agradecimentos pelos momentos gratificantes, impensáveis, de que hoje usufruí. É bom voltar a pensar que o slogan pode traduzir uma realidade, sobretudo se for através da cultura. E já agora, obrigado pelo verdadeiro heroísmo de uma vida dedicada a todos nós, mesmo aos descrentes.

As guerras de África não valem meia Floribella

Pep Guardiola (campeão europeu pelo Barcelona e um dos raros futebolistas que pensa em voz alta) foi almoçar ao Las Rozas, em Madrid, com o velho guionista Rafael Azcona, autor de "Los Europeos". "El Pais", que pagou a conta, encheu, com o paleio de ambos á mesa, a última página da edição de hoje. A conversa de Pep com Rafael é um acontecimento.
Anoto uma observação do guionista e escritor, a respeito da guerra: "Leio os jornais desde que faço uso da razão e sempre me serviram uma guerra na primeira página. Quando terminava uma, começava outra. Deve ser para gastar as balas".
Ora esta constatação de um homem antigo e atento ao andar do mundo cai-me na sopa de uma manhã em que levei por diante a leitura de "Um homem sem pátria", de Kurt Vonnegut ( um livro notável, um humor de lâminas afiadas, uma ironia às vezes cáustica, às vezes magoada e comovente). Vonnegut (que é um dos mais reputados autores norte-americanos e homem tão antigo como Rafael Azcona) desenvolve, a páginas tantas, o fio de razões pelas quais, no seu entender, o mundo teme e detesta a América e faz um voo rasante sobre as guerras que ocupam a agenda mediática. "A guerra é hoje uma forma de entretenimento televisivo", remata Vonnegut.
Foi por causa de uma guerra em África que eu retive, pela primeira vez, a expressão "os senhores da guerra". Mas, pegando na legenda de Vonnegut, constato que, por mais "senhores" que sejam os cabos de guerra, em Mogadíscio ou nos confins do Sudão, eles não alcançaram o generalato do Olimpo televisivo. As guerras escondidas e esquecidas da Àfrica de hoje não chamam para o pó da savana os Zés ou as Márcias que nos servem em directo, com as azeitonas e os espargos e as fatias de pata negra, as "operações terrestres no sul do Libano".
A verdade é que, por mais que matem, e matam bué, as eternas e esquecidas guerras de África
não valem meia Floribella. Devia haver uma OMC das guerras. Ou uma ERC, ou lá o que é...

segunda-feira, julho 31, 2006

Vadu, a voz golpeada

É como se uma nuvem aziaga pairasse sobre a chamada "Geração Pantera" de que, tal como Tcheka, ou Lura, Vadu faz parte. Orlando Pantera, um dos grandes nomes da música cabo-verdiana, teve um fim trágico em 2001. A morte levou-o no dia em que ia viajar para Lisboa, onde tinha estúdios marcados para a gravação do primeiro disco. Apesar do desaparecimento precoce, Pantera é uma espécie de figura tutelar da nova música das ilhas. Ainda há poucos dias encontrei, e guardei junto aos outros Favoritos, um site que acaba de surgir em sua homenagem em www.opantera.com . É um lugar de aconchego.
Agora, vadiando pela net, quando me preparava para apagar a luz, li na edição on line de "A Semana" que o cantor Vadu se encontra hospitalizado em estado grave depois de ter sido esfaqueado este fim de semana no Tarrafal, onde participava num festival de música. Vadu não é, fora de Cabo Verde, tão conhecido como Tcheka ou Lura. Mas é um dos mais promissores "discípulos" de Pantera e esta notícia, nos seus dois parágrafos, puxa a nuvem da tragédia para o coração da noite. A notícia conta que desconhecidos se aproximaram do cantor e o esfaquearam.
Um golpe fundo na garganta. Vadu permanece em estado grave. A voz golpeada ainda antes lhe terem aberto um site na net.

domingo, julho 30, 2006

A Democracia em África

Um dos mais importantes países africanos, porque dos mais ricos, porque dos de maior miséria, na saúde, na educação, na habitação, porque um dos que de forma mais consistente alimentou a corrupção de todo o Mundo, vai hoje a votos. A República Democrática do Congo, ex- Congo Kinshaza, ex- Congo Belga, um território, considerado, pelo Pentágono, há mais de 50 anos, como indispensável para a expansão da indústria norte-americana, na sua vertente mais inovadora, pela variedade de metais existentes no seu sub-solo, vai, depois do assassínio de Lumumba,do golpe contra Kasavuvu, pela primeira vez, tentar a via democrática para definir o poder.
Imaginemos que a tentativa resulta e que este país, potencialmente, o mais rico do Mundo, consegue organizar-se de uma forma democrática, dando capacidade de representação às maiorias e também às minorias...Imaginemos que consegue uma forma democrática de orga nizar a economia de, com o tempo, deixar que as várias culturas existentes naquele territótio imenso tenham capacidade de se manifestar...Imaginemos que, depois de eleições justas, o novo poder delas saído, resolve assumir na região em que se inscreve o papel que, teoricamente, lhe cabe, promovendo um diálogo inter-africano na busca das melhores soluções para o Continente.
Não acham que já estamos a imaginar demais?
Isso não nos impede, todavia, de desejar. Desejemos, então!!!

Bakobo!

Quando hoje votou, na mesa 1019/L, no Instituto La Gombe, perto da residência oficial, em Kinshasa, Joseph Kabila não se conteve no contentamento desmedido. E disse: "Hoje é o dia mais feliz da minha vida". E "disse:"Sou o homem mais feliz do mundo". E os jornalistas anotaram, entretanto, outras frases escorrendo alegria esfusiante. Em redor, os apoiantes batiam palmas e gritavam "bakobo!, bakobo!", que é um sinal de aplauso e agradecimento.
Nos últimos dias, tudo parece correr bem, demasiado bem, no país onde, há anos, tudo corria demasiado mal. Kabila tem, aos 36 anos, a atenção do mundo sobre os seus ombros, não apenas por ser o favorito nas eleições mas porque a via democrática parece vingar na, até agora, apenas designada República Democrática do Congo trazendo consigo a paz, ainda que precária.
Kabila é tido como um político frio, e há muitas zonas de sombra na sua ainda curta biografia.
Mas esta euforia é saudável e merece ser saudada. É que Kabila, o Presidente da República Democrática do Congo, manifesta tamanha exuberância devido ao facto de ter votado pela primeira vez.
Possa esta euforia ser contagiante, numa África onde a via democrática tem o sinal fechado ou faz o seu curso de modo titubeante. Quantos presidentes africanos imaginamos à boca das urnas dizendo, com tamanha euforia ... "sou o homem mais feliz do mundo"?

segunda-feira, julho 17, 2006

Os Dez Anos da CPLP

Corria o ano de 1975, a Assembleia Geral da então OUA estava reunida em Kampala, capital do Uganda e, já, com a sala cheia, à espera do presidente em exercício, Idi Amin Dada, eis que este entra numa espécie de trono transportado por quatro homens brancos de grande estatura.

Idi Amin dizia, gargalhando e utilizando um vozeirão incrível: " este é o peso do homem branco".

Terá sido a última reunião da OUA sem agenda, sem objectivos, sem ordem, já que, a partir dessa altura, um novo grupo de países, os de Língua Oficial Portuguesa, passaram a controlar as agendas, os bastidores e , juntamente com outros estados mais organizados, tentaram dar um novo sentido áquela organização continental.

"Os Cinco", como ficaram conhecidos, com o decorrer dos anos, dignificaram em certas circunstâncias, a OUA e a sua coesão era tão forte que cedo foram tentanto institucionalizarem-se a si próprios como um grupo capaz de fazer pressão para que África deixasse de ser o pasto que era.

Criou-se o Grupo dos Cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) - o que, logo de seguida, levou a tentativas várias de interferência, nomeadamente de Portugal, com Mário Soares como primeiro-ministro e Jaime Gama como ministro dos negócios estrangeiros.

A célebre proposta do "Diálogo Continental", que Jaime Gama foi propor a Aristides Pereira, então Presidente da República de Cabo Verde.

A resposta não foi simpática a e as tentativas portuguesas pararam até que apareceu o Brasil na jogada, com José Aparecido a propor uma organização que agrupasse todos os países de Língua Oficial Portuguesa - uma coisa que se chama CPLP e está a fazer dez anos de existência. Ninguém consegue descobrir o que foi feito em seu nome, além de algumas festas de comemoração

A notícia de hoje, todavia, dizia que os tais dez anos seriam assinalados com a assinatura de uma série de acordos e protocolos. Na reunião final, em Bissau, não estariam presentes os Presidentes do Brasil, Lula da Silva, e de S. Tomé e Princípe, Frederique de Menezes.

Mas, enfim, já passaram dez anos. Os Cinco deixaram de existir, a OUA foi substituída por uma UA, cuja existência ninguém nota e estamos todos contentes. Pelo menos já não existe o Idi Amin Dada.

Harrar Jugol

O Comité do Património Mundial da Unesco esteve reunido, até ontem, em Vilnius, para compôr a lista dos sítios classificados. E pôs cinco flores africanas na lapela. É quase uma estragação, com tanta seca no jardim, mas há "equilibrios" necessários e a lapela é larga.
O que, agora, deu notícia, e esse era o objectivo, foi o facto de, pela primeira vez na história da UNESCO, ter sido inscrito no "quadro de honra" um número igual de sítios africanos e europeus, cinco para cada lado.
Entre os meus amigos andarilhos, só conheço um que possa ter estado, sem o olhar contaminado do turista, em algum dos sítios agora postos na montra do mundo: Carlos Narciso. Se os olhos dele pousarem nesta prosa, talvez se apiedem do pedido implícito. Contas-nos - no teu blog, a que sempre chamarei "Blogda-se", por coisas cá minhas - o que, no teu caderno de viagem, houver sobre Aapravasi Ghat, nas Maurícias? Ou sobre os círculos megalíticos da Gâmbia e do Senegal (a Unesco fala em Senegâmbia, o que tem muito que se lhe diga...)? Ou sobre os sítios de arte rupestre de Chongoni, no Malawi, e Kondoa, na Tanzânia? Ou sobre a cidade fortificada de Harrar Jugol, na Etiópia?
O gesto sem precedentes da Unesco põe África na tituleira ( se bem que a Espanha, sózinha, tenha mais lugares classificados do que toda a África, ao longo destes 34 anos). E traz-me ressonâncias destes lugares do mapa, como Harrar Jugol, onde sempre imagino um Marco Polo levantando poeira. Jugol quer dizer "muralha", a muralha de Harrar, a cidade-fortaleza das 82 mesquitas, no alto da montanha, a mais de 1800 metros de altura. Cidade sagrada do islão, foi durante séculos o lugar central da cultura e da religião islâmicas no Corno de África. Foi independente até ao domínio egípcio, já no século 19. E pouco depois, caiu na alçada do império cristão etíope, e de novo tocada pelo bafo do profeta.
Os meus mapas não dizem se foi neste lugar que, há três meses, a seca prolongada dizimou 95 por cento dos rebanhos. Mas dizem que a canção da guerra anda por perto. E que Harrar Jugol, ainda que abençoada pela Unesco, não será tão cedo a Marvão da Abissínia.

segunda-feira, julho 10, 2006

CPLP da bola

Quando o Mundial estava a dar as últimas ( a expresão é muito adequada, dada a astenia do futebol praticado), lembro-me de ter lido, já não sei onde, nem a que propósito, que o sr. Blair, talvez tomado pela nostalgia do império, dera o seu "apoio" à ideia de uma "selecção britânica". Num mundo marcado pelo mercado, uma selecção "britânica" seria uma espécie de opa da anglofilia para fazer render o peixe á margem da Fifa, presumo. Confesso que não aprofundei o sentido da declaração de Blair, nem cuidei de saber de onde vinha e que alcance e propósito tinha a proposta de uma selecção que traduzisse para os relvados a noção estratégica de potência regional. Mas logo me ocorreu que (nós, os brasileiros tão tristonhos depois do fracasso na Alemanha, os promissores angolanos, os patrícios de Eusébio e os de Xanana, que prefiro lembrar como guarda-redes da Académica do que como ponta de lança timorense da Austrália; enfim, dispenso a rapaziada observadora da Guiné Equatorial) podiamos surpreender o mundo com a selecção da CPLP. Vendo bem talvez fosse a única plataforma de eficácia capaz de vingar em torno da sigla, e Laurentino Dias e António Braga tinham com que se ocupar. A operacionalidade logistica está garantida: em caso de eventual final de competição em Bissau, Nino telefonaria ao amigo Kadafi a pedir limusinas para o transporte dos vips. Em Dili, Camberra desenrascaria. E talvez o Blatter passasse a olhar para nós com outro respeito. E até mesmo o Bush que, como já se percebeu, não é bom da bola.

domingo, julho 02, 2006

Cinema de Viva Voz

A propósito das grandes dificuldades que a educação enfrenta um pouco por todo o Mundo, um dia destes, em conversa com um amigo, lembrei-me de uma prática do Colégio Alexandre Herculano do Huambo (Nova Lisboa) de há muitos anos - ainda as respectivas instalações eram na cidade baixa.
O Colégio era dirigido pelos padres espiritanos e a disciplina era uma das suas preocupações, embora, tanto quanto me recordo, se respirasse um clima descontraído. Todavia, regras eram regras e, por exemplo, só os mais velhos podiam sair uma vez por semana do internato para ir ao cinema. Os mais pequenos, só às matinés de domingo, para o que necessitavam de uma autorização dos pais.
Mas os filmes que excitavam as imaginações dos adolescentes e pré-adolescentes passavam à noite.
Ora, normalmente, os mais velhos não tinham dinheiro, as mesadas que as famílias mandavam desapareciam rápidamente, mas os mais novos tinham mesmo alguma dificuldade para gastar o que lhes chegava de casa, pelo que alguém - nunca se saberá quem - inventou um verdadeiro bom negócio, já que servia ambas as partes; os mais novos emprestavam aos mais velhos o dinheiro necessário para que eles fossem ver os tais filmes. No dia seguinte, como contra-partida do empréstimo, os devedores contavam aos credores o filme - o que acontecia durante os intervalos das aulas.
Era um espectáculo presenciar as voltas que dois a dois (um mais velho e um mais novo) davam ao campo de futebol do Colégio. Alguns mais exuberantes, paravam, de vez em quando, imitavam os gestos do que se supunham ser os personagens dos filmes. Estes passeios duravam, às vezes, todos os intervalos dos trabalhos escolares e em alguns casos, prolongavam-se durante as horas dedicadas ao desporto.
Houve um dos mais velhos - e também mais esperto - que tentou modificar o negócio inicial: um dos que fosse ao cinema contava aos "miúdos", em conjunto, a estória do filme.
Não!!! disseram os mais novos. Exigiam uma narrativa personalizada: a quem emprestassem o dinheiro tinha a obrigação de contar o filme. E alguns deles não emprestavam a todos; escolhiam aquele com mais imaginação para a reprodução da estória.
Olhando para trás, não podemos deixar de constatar que o Mundo, sendo mais simples, era também mais feliz. Os problemas da educação ainda se resolviam dentro das escolas e , às vezes, de forma imaginativa, sem necessidade de grandes tecnologias, que fomentam a solidão, as depressões, a competição desenfreada.
Naquele ambiente, que hoje não conseguimos classificar, mas que é motivo de saudade para quem o viveu, cresceu gente de que muito nos orgulhamos hoje. Por exemplo, o António Segadães, fez parte destes grupos (não sei se emprestava ou recebia), mas não deixa de ser, hoje , uma das figuras que mais orgulha uma geração de estudantes de papel, sebenta e grande espírito de solidariedade. Muitos outros andam por aí, mas, hoje lembrei-me deste, do engenheiro português mais laureado de todos os tempos.