quarta-feira, setembro 07, 2005

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

Em boa e honesta verdade não faço ideia de que cor seria o prédio onde morei, em Luanda. Era um rés-do-chão, com um pequeno pátio ajardinado, mesmo diante do Cemitério Velho. Ali morou, antes de ser expulso de Angola, Robi Amorim e a família. Uma notícia sem visto da Censura custava uma carreira, mesmo que atingisse uma família com crianças. Um regime fascista tinha essa prerrogativas. Durante os dez anos seguintes não dei conta de outros casos semelhantes, em Angola.
Quando já não havia fascismo e os militares restituiram a liberdade, esses mesmos militares foram ao «Notícia» prender o meu irmão, que era director do semanário. E levaram-no até ao avião, que o trouxe até Lisboa, de onde seguiu para a Trafaria. Suponho que a culpa foi minha. Estava de férias, justamente em Lisboa, e mandei para Luanda uma pequena reportagem sobre ocupações de casas devolutas e livre arbitrariedade dos militares do Copcon, que achavam bem umas e mal outras, conforme o proprietário fosse ou não de família conveniente. E titulei «Copcon « O novo medo», como estava de férias, assinei com o pseudónimo costumeiro: Sousa Oliveira. Procuraram-no em Luanda e depois em Lisboa. Já ia a caminho de Luanda, para assumir a publicação. Mas à chegada logo me preveniram: tu és o segundo da lista... Não foi como em Lisboa, no Diário de Notícias, que a agitação partiu de dentro, ainda que comandada por fora.
Bazei e fui para Kinshasa. O meu irmão acabou por ser libertado alguns dias depois, com a indicação que não podia ausentar-se do país. Perante isso, o mais natural é que quisesse sair. Em Elvas, um amigo disse-lhe: aguenta que eu vou saber. E soube que na fronteira não havia qualquer aviso que lhe tolhesse o passo. Assim sendo, ele voltou para Lisboa. Comprou um bilhete de avião para Luanda e foi...
Em Luanda arrumou as suas coisas e rumou ao Brasil. O automóvel, que deveria seguir para Lisboa, foi roubado e por lá ficou.
Também eu voltei a Luanda, sem espaço para a informação progressista, que achava que eu devia ser preso. Fiquei pelo «Província de Angola», na posse da FNLA. Achei que assim ninguém enganava ninguém. Só fiz uma coisa positiva: mudei o cabeçalho: tirei a «província» do título, que passou a ser «Jornal de Angola», que ainda hoje se mantém, na posse do Estado, bem entendido.
Ainda fui a Nakuru, assistir à Cimeira. À chegada, a delegação angolana foi saudada pelo presidente do Quénia. Aquele, sim, aquele tinha ganho a guerra da independência aos ingleses, da maneira mais corajosa: negociando e sabendo que após a negociação seria preso. Foi solto no último dia de domínio inglês e proclamou-se presidente no dia seguinte. Exigiu uma fragata, em permanência, ao largo de Mombaça, por causa das moscas. Nunca foi necessária, até ao fim, o líder dos «mau-mau», Jomo Keniata manteve a chefia do estado.
Quem não ficou muito tempo mais, em Luanda fui eu. Um certo dia, ao princípio da noite, um jeep parou perto de mim. Um recado de Iko Carreira, aconselhava-me a não estar visível nos próximos dias. Fiz-me de novas e o jovem consultou o bloco de notas,percorreu com o dedo até encontrar o meu nome, não vislumbrei muito mas vi um nome ante e dois outros a seguir ao meu. Aquilo era sério. Fui avisar o Renato Ramos e um colega da Rádio. Este estava já a preparar a saída e tinha garantido lugar no avião para o Brasil dois dias depois. Não partiu. Na manhã seguinte, no estúdio da Rádio, de onde retirava papeis para levar, foi denunciado e logo detido. Foi passar uns dias, arrecadado na praça de touros. Eu e o Renato fretamos um taxi aéreo para Nova Lisboa (Huambo), o que não despertou suspeitas, porque ia ser inaugurada no dia seguinte a Feira Industrial da capital do Huambo. Na altura de embarque dissemos ao piloto que teríamos de ir buscar um colega ao Uíge e daí seguiriamos para o Huambo. Não seguimos.
Chipenda gostava de nos poder ajudar, mas não tinha carro disponível. Jeep arrangei, sem dificuldade, entre os conhecidos, mas sem carburante. Isso Chipensa dispensou, dois bidons e escolta armada. Lá fomos até ao Ambriz, onde estava Holden com os seus conselheiros, que incluiam um jornalista brasileiro, suposto estar igualmente ao serviço da CIA, alguns guerrilheiros e uma companhia de militares zairenses. Faltavam poucos dias para a proclamação da independência. Holden acreditava que podia chegar a Luanda, a tempo. Os militares avançavam no terreno, não encontravam grande resistência, o que gerava natural euforia. Mas os soldados não queriam ficar à noite, nas zonas ocupadas, Desse modo, na manhã seguinte, tinham que perder tempo com nova operação de limpeza. Até que, de repente, houve um contra- ataque. Os cubanos faziam a sua aparição na área. Um avião da Taag, que tinha desertado para o Ambriz já tinha dado conta de desembarque de cubanos em Novo Redondo, mas em Luanda ninguem admitia isso, nem os militares portugueses. Ali estavam eles. Os zairenses não aguentaram e fugiram, saqueando tudo pelo caminho...
Voltava-se ao princípio. Santos e Castro, irmão do ex-governador-geral de Angola, chegou com um punhado ex-comandos. Eram eficientes e dispunham de alguns carros de assalto. Retomaram a limpeza da área circundante. Então vieram mais militares zairenses, com um núcleo de comando autoritário, que modificou a estratégia. É que eles pensavam ter uma solução que tornaria tudo mais fácil. Começaram por fazer incursões para o interior. Deram a entender que iam preparar a invasão de Luanda por Catete, de modo a que o MPLA reduzisse a resistência no Morro da Cal.
Entretanto os sul-africanos apareceram com um duas unidades de um tipo de canhão novo, que iria ser experimentado, que era suposto arrazar o morro da Cal e bombardear Luanda, permitindo o avanço sobre a capital.
Por essa altura, a sul, uma coluna de mercenários portugueses e guerrilheiros da Unita avançou até Sá da Bandeira e daí avançou para Nova Lisboa, onde a FNLA e a UNITA iriam proclamar a independência. Tiveram uma caminhada bem mais fácil do que o que contavam e continuaram a avançar, já depois da independência, pelo litotal, em direcção a Luanda, onde chegou a pairar algum pânico.
Enquanto isso, no Ambriz, festejava-se a próxima tomada de Luanda. Os canhões iam entrar em acção. O primeiro disparou sobre Luanda e o engenho explosivo seguiu viagem. Não sei se caiu no mar se em alguns recanto de Luanda. Mas o segundo disparo encravou e matou o perador. O segundo canhão não funcionou. Os sul africanos foram-se embora muito depressa. No terreno as coisas alteraram-se. As peças do MPLA dispunham de maior alcance e para avançar o lado da FNLA ficava debaixo de fogo.
Depois sucedeu tudo em catadupa. Os americanos mudaram de presidente e deixaram de apoiar Holden e Savimbi. Reconheceram o governo de Angola. No terreno, os zairenses perderam a altivez e ficaram cheios de saudade de casa.. O conselheiro brasileiro de Holden tomou-me de ponta e o coronel Santos e Castro avisou-me para ter cuidado e deixar-me de passeios nocturnos. O aparelho da Taag acabou por nos levar, a mim e ao Renato, a Sá da Bandeira. O pretexto era reactivar a Rádio. Havia alguma normalidade na cidade. O cinema funcionava e quem não se importasse de ver o mesmo filme uma dúzia de vezes, podia ir ao cinema quando lhe apetecesse. Ainda fui a Moçâmedes. Cheguei mesmo a ir ao Uige e passar pelo Ambriz, já esvaziado, sem Holden.
Em Windhoek procurei uma peça para reparar um emissor de rádio. Um dos observadores
sul-africanos avisou-nos de que nenhum aparelho deveria levantar voo no dia seguinte. Tudo indiciava que a Africa do Sul ia intervir, com um ataque aéreo, ao mesmo tempo que a coluna militar, que já estava em Porto Amboim avançasse. Em Luanda tinham-se preparado condições para que os altos dirigentes pudessem abandonar a capital. A ponte do Kuanza estava dinamitada para explodir se o inimigo avançase, por ali.
O dia seguinte foi todo ele de tranquilidade. Nenhum movimento aéreo ou terrestre. O observador sul- africano sumiu-se. Novamente com o Renato saíamos de cena sobre a hora. Desta feita em três BMW's, novinhos em folha, que nos levaram até Windhoek. Dali para Joanesburgo, onde passei o Natal, depois Lisboa...
Sá da Bandeira nunca mais foi Sá da Bandeira. Unita e FNLA pegaram-se e só ficaram os homens de Savimbi. Depois o MPLA regressou e a Huila renascia!

1 comentário:

Fernando Alves disse...

Caro António, é com um estremecimento forte que leio este teu diário dos dias em que viamos a realidade de "campos opostos".
Felizmente há uma terceira margem do rio e é bom estar a teu lado vendo passar as águas.
Por esses dias, surgiu uma fotografia do Holden junto a uma placa que dizia "Luanda". A coisa cheirava a montagem. Terá sido bluff do conselheiro brasileiro?