domingo, dezembro 25, 2005

Recordação de Natal

Dezembro de 1972. Um bom amigo foi visitar-me a casa da minha irmã, onde estava com os meus filhos. Fazer-me uma surpresa, dar-me um presente. No regresso, na subida da estrada que vinha do aeroporto, no Lubango, a chamada subida da Mobil, a oficina do Amâncio, um louco, que vinha da esquerda ampanhou o Fiat 850 do Humberto Ricardo e atirou-o a não sei quantos metros, já para lá da rua que descia para o campo do Benfica.
O Ricardo foi para o Hospital e todos nós nos mobilizámos à sua volta. Entrou em coma, estado que manteve por onze dias, sempre vigiado pelos drs. Palha e Carneiro e pelo Enfermeiro Serafim Jorge, membro fundador da AMI.
Foi para Luanda e voltou - nunca à sua vida normal, porque entre a pancada do louco e os vários meses de Hospital, ficou muito do seu humor, da sua sagacidade, da sua enorme alegria de viver e algum do seu encanto.
Aconteceu, entretanto, o 25 de Abril e a confusão administrativa estabeleceu-se. As Companhias de Seguros aproveitaram para não pagar o que tinham para pagar e o Ricardo teve que resolver os seus problemas sózinho. Tinha tirado o "brevet" há pouco tempo, mas o desastre tirou-lho. E, com ele, os seus grandes sonhos de voar céus altos, lonjuras distantes.
Todos os Natais, além de outras lembranças, tenho este Ricardo a entrar-me pela cabeça e a encher-ma de "ses". Viva, Humberto, Boas Festas!

"O Último Adeus..."

No título deste post falta uma palavra. Não a escrevo porque não quero, de algum modo, fazer publicidade a um escrito - que me foi oferecido com a melhor das intenções - mas que reflecte a displicência dos nossos dias. Eu diria mesmo: o atrevimento da ingnorância. Um homem, com carteira profissional de jornalista, com um curriculum descrito no próprio livro e que o dá como repórter de várias guerras, atreve-se a um sub-título como "História das Relações Entre Portugal e Angola - Do Início da Guerra Colonial Até à Independência".
E depois, em 366 páginas, sem contar com o glossário de siglas e a bibliografia, só contam as citações. Até a organização do livro se tem pés não tem cabeça e se tem pés também não tem mãos.
E isto deve-se a um simples facto: quem tem o saber e a capacidade não está para isso. É uma grande embrulhada de mentiras. Só os anos vão dar conta delas. Entretanto, algumas editoras aproveitam o eventual interesse de um certo público ainda virado para a "saudade" e vão tentando ganhar algum dinheiro com narrativas completamente desprovidas de sentido. Que o dinheiro lhes seja leve.

sábado, dezembro 17, 2005

Chico Bamba/ Congo

As pessoas que regulam estas geringonças da Net devem ter boas razões para alterar procedimentos. Era bom, todavia, que as explicassem aos simples mortais utilizadores.
Eu explico: até há pouco tempo, escrevia um texto e, quando o queria publicar indicava o dia, a hora e os minutos em que tal operação estava a ser feita. Desse modo, havia uma sequência cronológica dos meus textos e eu tinha a certeza de quem passasse pelo blogue descobria, num primeiro olhar, a novidade.
Agora não tenho essa possibilidade. Os textos são publicados às horas mais disparatadas. Mas, até hoje, nunca me tinha acontecido que um texto publicado hoje (dia 17 de Dezembro) apareça no blogue pertencendo ao dia 14, antes de outros dois ou três. Sendo assim, os leitores habituais, ou não, deixam de ter a possibilidade de ler aquele texto.
Acontece que hoje acabei um texto sobre o Chico Bamba e o Congo - um texto que tem uma estória porque já foi enviada para uma página jurássica da AAENLH que nunca o publicou.
Consigo, entretanto, perceber a lógica da sua publicação a 14 de Dezembro: é que o guardei como draft nesse mesmo dia. Só que o texto foi acabado e publicado a 17. E eu tenho algum interesse na sua divulgação. Por isso, aqui estou a fazer a publicidade devida: mais abaixo, com data de 14 de Dezembro está um escrito sobre o Chico Bamba e seu irmão Congo.

Artur Queiroz/Carlos Pacheco/Agostinho Neto

O "Público" da última quarta-feira, 14 de Dezembro, publica uma carta de Artur Queiroz como resposta a um texto que Carlos Pacheco publicou no mesmo jornal, com o título "Agostinho Neto: a sacralização de um déspota".
Não li o texto do Carlos Pacheco, mas o título é claro.
A carta de Artur Queiroz não tem a virtude da clareza. É de resto, uma enorme confusão, um retrato de uma personalidade sempre muito gongórica na afirmação do seu próprio papel e sem conseguir evitar, na escrita, a corrida atrás das palavras.
A pergunta sobre se Neto podia ser um ditador nas frentes de combate é uma figura de estilo. Neto nunca esteve nas frentes de combate. A ele competia-lhe fazer a administração dos apoios que o MPLA ia recebendo e, com o seu prestígio internacional, dar notícia da situação no país.
Quanto à distribuição dos apoios, havia o célebre caderno de papel azul onde ele inscrevia as verbas que dava aos comandantes. E só dava aos que se portavam bem, isto é, aos que pensassem como ele... (está prática foi transferida para a governação da República).
E, depois há as mortes estranhas de Hoji Ya Henda, com ferimentos nas costas e, posteriormente, elevado à condição de grande herói da Juventude; a da Camarada Deolinda, promovida, depois de assassinda em condições nunca esclarecidas e atribuídas a uma emboscada da FNLA, à categoria de inspiradora da OMA, a Organização da Mulher Angola. E ainda a notícia do atentado contra Joaquim Pinto de Andrade, em Brazzaville. E mesmo Lúcio Lara terá um lugar nessa lista de atentados.
E já depois do 25 de Abril, a morte do Comandante Gika, em Cabinda; a tentativa de liquidação de Chipenda, da qual resultou a morte de "Valódia"...
A chamada "política da maçã" podre era isso mesmo, a estratégia de um déspota que preferia "dar corda" aos adversários políticos e depois, na hora certa, liquidá-los fisicamente. Foi o que fez com Nito Alves, protagonista de uma dissidência cuja solução poderia ter sido política e acabou num verdadeiro banho de sangue e num contra-golpe ultra-fascista.
Queiroz estranha que se possa chamar ditador e déspota a um político com apenas quatro anos de poder. Ele estranha porque não esteve lá, a sofrer o poder único, de um homem único. Era interessante saber porque é que Artur Queiroz fugiu de Angola, tão cedo, quase logo a seguir à declaração da Independência.
Se ele lá tivesse estado teria percebido como é que Agostinho Neto barrou todas as iniciativas políticas, desmontou todo o sistema económico sem nenhuma alternativa, acicatou os vários racismos e se promoveu à condição de figura exclusiva da vida nacional. Desde presidente da República até reitor da Universidade, ele foi tudo. A sua fotografia estava em todo o lado, a começar pelas notas de Kwanzas, que foram apresentadas ao povo numa operação desenvolvida com grande mestria (desenhada pelo Saidy Mingas), mas que acabou num colossal roubo, já que os dinheiros arrecadados nunca foram devolvidos.
A carta de Queiroz tem algumas passagens pitorescas, coloridas mesmo, como aquela da dissolução da DISA. Neto mudou-lhe apenas o nome, tal como Marcelo Caetano fez com a PIDE. Neto foi ainda mais longe: não lhe chamava nada... E mais aquela do convívio diário com Agostinho Neto no bairro do saneamento. Terá sido por causa desse convívio que apareceu em Lisboa, no Página Um, quando em Angola se sentia a pressão do partido único, comandado por um homem único? Terá sido para recuperar esse convívio que em 1978 foi a Bissau pedir desculpa, não se sabe bem do quê, aos acessores de Neto, quando ele se foi encontrar com Eanes ?
Será a recordação desse convívio diário que o leva a afirmar-se convictamente como militante do MPLA, embora viva em Portugal há trinta anos?

sexta-feira, dezembro 16, 2005

DO MAL O MENOS?

Diziam os de antanho que a fome aguça o engenho e como, hoje, parece mal ter fome, temos crise. É natural que a crise vá dando vontade de comer e um dia destes vamos dar por nós a ir de novo em busca de alimento, lá por onde o houver. Que a Europa esteja em crise, acredito, mas a crise dela, lá mais para cima (e o cima começa mesmo aqui ao lado) é menos intensa.
Não foi, é verdade, só a fome que fez de muitos de nós emigrantes. Na década de sessenta muitos fugiram à guerra, mas muitos outros aperceberam-se que para além da guerra havia trabalho e comia-se bem. Havia perspectivas, havia férias e sonhavam-se futuros radiosos.
Já sabem como acabou o filme. Voltamos a casa e não tardou a faltar o pão. E casa onde não há pão...
Não estou a prever nada de muito imprevisível, mas a Europa tem agora mais escolha. A gentinha de Leste, que sobrou da tutela soviética e do modelo social moscovita já anda a gatinhar pela «nossa» França ou coisas «nossas» onde se fale inglês ou alemão e não sei que mais linguajares estrangeiros. Mesmo que nos vão matando honestos madeirenses com impiedosas regularidade os que restam, restam, ficam. Porque será? Não se precipitem, não os avaliem mal. A causa, o mal, ficou para trás. Que país é este? Que fizemos/fazemos dele?
Mesmo a África que deixamos e aceitamos que se afirmasse e que mergulhou no caos, mesmo essa tem horizontes de esperança. Já não são tantos os jovens que vêm estudar aqui. Aos poucos vou perdendo os netos de vista. Vão estudar no Cabo. Não é só mais perto, é mais próximo do que é preciso.
Está visto, com a velocidade com que este país não anda, não tarda estaremos de abalada para aprender a estar onde já estivemos! Um vizinho meu, com quem costumava jogar cartas «regressou» à Austrália. Fê-lo discretamente já lá vai um pouco mais de três meses. A esposa e dois miudos ficaram por cá. Ontem a vizinha botou escritos em forma de pancarta de imobiliária, sobre o muro. O português que primeiro disse que todos os caminhos vão dar a Roma sabia o que dizia...

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Chico Bamba/ Congo

Relendo o que está para trás neste blogue descubro a promessa (minha) de recuperar aqui um texto que mandei para a Associação de Antigos Estudantes de Nova Libsoa Huambo(AAENLH) - logo à partida uma coisa complicada e de que eu sou membro. Na página da Net desta coisa aparece sempre o Rui Gomes com um sorriso velho de galã nunca realizado e um apelo a textos de homenagem ao Chico Bamba e ao Congo.

Um dia, enchi-me de brios - fui amigo de ambos - e escrevi alguns episódios( naturalmente pessoais, mas que envolviam o Chico e Congo num período de tempo bastante alargado). Enviei o escrito para o e-mail do tal Rui Gomes, que foi meu colega no Liceu de Nova Lisboa, ele e todos os prof. drs. que são nomeados na tal página jurássica, a propósito de tudo e de nada. De resto, penso que tal exagero é feito à revelia dos próprios, mas o Rui Gomes...

Já que falamos de personalidades - os únicos lembrados pela AAENLH - seria interessante tentar saber onde andam os outros, aqueles que foram nossos colegas e que, muitas vezes, por circunstâncias adversas da vida não se aproximam e não são lembrados.

É óbvio que para aquele presidente, com aquela pose, nada disso conta.

Tentemos, então, reconstruir o tal texto que o Rui Gomes mandou para o lixo electrónico do seu computador, tal como um censor de outros tempos inutilizava um escrito com um simples lápis azul.
É muito natural que esta segunda tentativa saia melhor que a primeira
Tentemos.
Antes de falar das circunstâncias em que conheci o Chico e o Congo e aquelas em que a nossa amizade se desenvolveu, gostaria de lembrar um outro membro da família: a Gaby, a drª. Gabriela Antunes, de quem fui amigo em condições especiais da história da República.
O Colégio D. João de Castro (nunca me interroguei sobre a razão deste nome) ficava na Avenida 5 de Outubro. Ocupava uma grande parte do quarteirão que fazia esquina com a rua que ligava a avenida ao que, mais tarde, seria a Avenida da Granja. O Palácio do Governador ficava na curva seguinte.
Do outro lado da Avenida 5 de Outubro estava o Colégio Adamastor e o apeadeiro do combóio, sem nenhuma estrutura de apoio, apenas uma zona terraplanada, onde os passageiros esperavam, nomeadamente " O Piolho", o nome pelo qual era conhecido o combóio, de duas carruagens, que transportava os estudantes de Nova Lisboa para a Caala.
Nesse terreno se derimiam as questiúnculas criadas durante as aulas, nos intervalos, já que o prof. Cabral - director do D. João de Castro - não consentia nas brigas, fossem elas o que fossem.
Frequentava eu o segundo ano do Liceu - o tal que haveria de me levar ao exame na Escola 32 - e apaixonei-me, doidamente, por uma colega, de olhos azúis, cujo nome ainda hoje recordo. Não o escrevo porque tenho receio de, por alguma razão que nem sequer imagino, poder fazer-lhe algum mal.
Um "rústico" da turma, rapaz alto, e óculos, cujo nome não recordo, disse qualquer coisa sobre o objecto da minha paixão que me pareceu ofensivo. Tanto bastou para que ficasse marcado um "ajuste de contas" no final das aulas - no apeadeiro do piolho.
Eu tinha 11/12 anos, era muito pequeno, cresci - embora pouco - a partir dessa idade, mas tinha o "génio" de um guerreiro. O meu adversário estava claramente surpreendido porque avaliou-se mal. Estava eu dando-lhe umas "chapadas", umas "galhetas", umas "lamiras"umas... quando ouvi uma voz com um ligeiro tom irónico:"... oh miúdo, ainda te vais magoar...o melhor é parar com isto..."
Olhei em direcção áquela voz e reconheci o Chico (quem não o conhecia em Nova Lisboa?). Com um sorriso bem disposto aproximou-se de nós os dois, disse qualquer coisa sobre a parvoíce de fazer aquelas cenas frente a tanta gente ( só então reparei que a colina que protegia a linha do CFB da Avenida e era coberta de acácias estava cheia de "mirones", quase todos eles com uma bicicleta segura e um sorriso irónico nos lábios)
O Chico Bamba lá nos convenceu a fazer " as pazes". Apertámos a mão e o espectáculo acabou. Para mim, tudo bem, tinha defendido a "minha amada"(naquela altura eu lia muito o Júlio Diniz...).
Asssim foi estabelecido o meu primeiro contacto com o Chico Bamba.
Semanas mais tarde, não sei como, mas seguramente levado por amigo, a um domingo de manhã, fui ter a uma piscina, perto da casa onde morava. A piscina era a "dos Machados", adjacente a uma fábrica de sabão que a família Machado, igualmente proprietária do África Hotel, tinha.
Nadar era uma coisa que me fascinava e eu não sabia. O pessoal que já lá estava brincou comigo, provocou-me, alguns deles tinham-me visto na tal briga... e eu lá fui tentando fazer daquela minha passagem pela piscina alguma coisa que, pelo menos, não me desprestigiasse. O Chico chamou-me e, com um jeito de professor nato, explicou-me os vários estilos de natação. Entrou na piscina e ensinou-me tudo, fazendo.
Eu disse que sim, olhei e ouvi, mas fiquei quieto. Então o Chico saiu da piscina, pegou em mim e com toda a força da sua capacidade atlética, que naquele tempo era enorme, atirou-me para o meio da piscina.
Enquanto me sentia ir ao fundo, perder o pé, todas aquelas coisas horrorosas que acontecem a quem se sente perdido num mar de água sem a poder beber, fui rememorando a lição do Chico e, paulatinamente, saí a nadar bruços, com todas as regras de respiração, numa técnica que mais tarde aperfeiçoei e me levou a vencer algumas provas na piscina do Ferrocia. Uma técnica que, muitos anos depois, ensinei ao meu filho mais novo que se transformou num nadador tecnicamente irrepreensível.
O Chico riu-se com aquela gargalhada que fazia dele uma companhia desejada e disse :"...afinal estavas a enganar a malta, tu sabes nadar, e bem..."
Começou ali a nossa amizade. Fez de meu treinador de natação, ajudou-me a libertar de montes de fantasmas, passava pelo "ringue" da Feira, ao cimo da Granja, onde eu andava a aperfeiçoar a minha patinagem, brincava comigo, dizia piadas, mas estimulava-me. Achava que eu iria ser um "grande patinador". Ele sabia que me irritava, porque eu queria era jogar hoquei em patins.
De repente, a família transfere-se para Sá da Bandeira. Lá ficam os amigos e entre eles o Chico. Tive algumas oportunidades de estar com ele, ou simplesmente de o ver, nas deslocações que ele fazia ao Lubango para disputar os quadrangulares de hóquei entre selecções de cidades, nas Festas da Senhora do Monte.
Eu fui, entretanto, aperfeiçoando as minhas qualidades de "patinador" e também de jogador de hóquei em patins e um dia, depois de uma grande confusão no Liceu Diogo Cão, o meu pai resolveu transferir-me para o Colégio Alexandre Herculano (também nunca me questionei sobre o nome), em Nova Lisboa.
Ora, o Chico era o treinador de tudo no Alexandre Herculano e como eu não tinha altura para o Basquetebol, embora fosse hábil para o jogo, resolveu fazer de mim um jogador de andebol. E lá fiz parte da equipa que se sagrou, em Silva Porto, contra a forte equipa dos maristas locais, campeã provincial da Mocidade Portuguesa de Andebol. E, sempre que era necessário, dava um jeito na equipa de voleibol.
Na final do campeonato de andecol, a assistência dos maristas elegeu-me como sua "vítima" principal e sempre que eu tinha a bola choviam as piadas e até alguns insultos. Eu ia respondendo e foi-se criando um clima de grande tensão. No final do jogo, com a nossa vitória, eu era ainda mais "vítima" e, quando um grupo de alunos do Colégio de Maristas de Silva Porto se foi aproximando de mim, notoriamente com más intenções, eu fui-me aproximando do Chico.
Colocou-me o braço por cima do ombro, olhou para os candidatos a algozes, sorriu, encheu o peito e disse: "então, rapaziada, e se vocês nos mostrassem a cidade...?"
Foi um fim de tarde óptimo, durante a qual acabámos por fazer novas e boas amizades.
O Chico era assim, mas quando a alternativa era o convencimento por meios mais físicos, ele também os sabia utilizar. Vi-o, uma vez, de um só golpe, rasgar a intrincada rede de cordões que lhe seguravam os patins aos pés e partir à desfilada para a bancada do campo da Feira para pôr na ordem alguém que não parava de o insultar.
A chegada do Chico ao campo de treinos era sempre um momento de alegria e de respeito. Não precisava de ralhar, de falar alto, de fazer cara feia. Todos nós aceitávamos o que nos dizia, cumpriamos as suas instruções.
Quando regressei a Nova Lisboa, vinha cheio de entusiasmo com a ideia de poder jogar no Óquei Clube, onde jogava o Chico, o Daniel, o Figueiredo e outros. O Óquei era, contudo, um clube com limitações e, portanto, a entrada de mais um jogador significava a necessidade de comprar um equipamento, patins, e tudo o resto. Portanto, o Chico foi adiando, adiando... até que o Ferrovia de Nova Lisboa, onde eu jogava futebol, através do Zeca Araújo, do Lubango, me convenceu e eu integrei-me, com 15 anos, na equipa de Hóquei em Patins do Ferrovia de Nova Lisboa.
Um dia foi-nos dito que iriamos inaugurar um "ringue" de patinagem em Quinjenje, a alguns quilómetros de Nova Lisboa. Foi-me dito para esperar o autocarro numa paragem frente ao palácio do governador, na Cidade Alta, onde eu morava.
Quanto lá cheguei, com os meus patins, o meu stick e o meu ar contente, já lá estava o Chico, que me olhou surpreendido: "...estás a fazer aqui, miúdo?..." Não sei o que disse, mas ficou claro que eu ia jogar pelo Ferrovia contra o Óquei Clube na tal inauguração.
O Chico Bamba, depois da surpresa inicial, percebeu, lamentou e voltou a ser o amigo de sempre. Durante os dias de estadia em Quinjenje divirtia-se com o meu aptetite de adolescente. No jogo, a primeira vez que joguei contra ele, deu-me algumas lições práticas: chamava-se à tabela, no seu meio campo e aí, sem me magoar e a rir-se, castigava-me nas pernas com o stick. Ia sempre dizendo: "...vê lá se aprendes, miúdo".
Entretanto, a minha vida de estudante ia sofrendo voltas e mais voltas e consegui transferir-me do Alexandre Herculano para o Liceu de Nova Lisboa, ainda instalado no prédio da Lello e na Associação Comercial.
As aulas de Educação Física e o Desporto que lhe estava associado tinham lugar no Ginásio do Sporting Clube do Huambo e um dia, o Chico lá voltou a ter uma surpresa: apareceu com a sua equipa de basquetebol do Alexandre Herculano para disputar um jogo contra a equipa do Liceu.
Eu estava do outro lado. Tínhamos como orientador e professor um senhor chamado, salvo erro, Portugal Colaço, que era apenas boa pessoa. O Chico deu-nos uma "surra" e riu-se.
Foi neste período da minha vida que estabeleci com o Congo relações pessoais. Toda a gente o conhecia em Nova Lisboa. Gordo, em cima de uma bicicleta reforçada, sempre com máquina fotográfica pronta para uma fotografia, o Congo escrevia sobre Desporto e ia assistir a todos os jogos, inclusivé os de juniores (futebol). Como já disse, eu fazia parte da equipa de juniores do Ferrovia de Nova Lisboa e, no final de cada jogo, lá tinha o Congo a chamar-me "peneirento", o que, segundo ele, seria a minha desgraça. Não sei se foi. A verdade é que jogar futebol foi das coisas que mais prazer me deu na vida.
Os anos correram e um dia eu aparecia no Rádio Clube do Huambo, no tempo em que por lá andavam a Maria Dinah, o Aurélio(...), o Fernando Pereira, O Ribeiro Cristóvão, o Paulo Cardoso e o Congo...
Lembrou-se logo de mim e recordou a minha habilidade para o futebol e outras modalidades. Ficámos camaradas de trabalho, verdadeiros amigos. O Congo nunca se zangava com ninguém, sempre tentava perceber as dificuldades dos outros, embora houvesse atitudes que não desculpava.
Nos anos seguintes, em Nova Lisboa ou no Lubango, tivemos oportunidade de trocar provas de amizade real.
Até que todos fomos sacudidos por uma guerra que ninguém desejou embora todos pensássemos nas possibilidades que a todos se abririam num país independente.
E a guerra dispersou-nos. Ficámos sem saber uns dos outros. Foi-se construindo em cima da realidade que sempre nos tinha envolvido uma coisa estranha que ninguém entendia. Eu envolvi-me na política, outros preferiram não o fazer, mas, no final, acabámos todos, embora longe uns dos outros, mais perto do que imaginávamos.
Um dia fui encontrar o Congo em Proença-a-Nova. Era Verão e ele curtia o pouco calor que lá chegava. Tomava conta de um salão de jogos. Sempre rodeado de jovens, sempre bem disposto. Ficou contente por me ver. Pouco tempo depois do nosso encontro faleceu. A notícia abalou-me
Em relação ao Chico, sei da sua presença em Castro Verde. Por amigos comuns soube que não está muito disposto a recordar. Respeito-lhe a vontade. Um abraço, Chico, velho mestre da vida!

segunda-feira, dezembro 12, 2005

PEREGRINAR

Não se trata, bem entendido, de devoção. Já gostei mais do Benfica do que gosto hoje em dia. Viajar, sim, mas da maneira que os reformados podem: de memória. Sempre que chove na minha aldeia memorizo o suave entardecer e o pôr-do-Sol, no Morro da Lua! Sempre que à noite, a tiritar de frio, passeio o cão, imagino-me sentado no Miramar a desfrutar o filme!
Ir pelo tempo fora não aquece nem arrefece. Mas pode ajudar a entender quando se está disposto a tolerar. A intransigência reflecte, por certo, algumas fragilidades. Toda e qualquer insegurança requer carapaça espessa e desconfiada.
Eu tenho dúvidas, logo existo. Caramba!, desconfio que estou a ir longe demais! Inflecte, rapaz, inflecte. Limita-te aos poetas do povo, que ensinam sem canudo, foi-me soprando algum antanho apiedado. É por via desses sopros que eu mais naturalmente canto: «...e o polícia malfeitor que só malvadez contém/ prendeu a pobre velhinha/qu'andava a roubar flores/ p'ra pôr no túmulo da mãe!», do que me defendo com um concludente: «mas sei que não vou por aí»! Tempo houve que tal saber régio ocupava lugar e não raro saía caro!
Deve ser por isto que me acolhi à aldeia, numa rua com três casas. E cada casa é um acaso. Não há ódios nem rancores/ Tem-se amor pela vida alheia/ cada qual seu pão grangeia. Não é bem assim, convenhamos. Ninguém é primo de ninguèm, todas as casas têm fechadura e à noite
vê-se televisão. Calha melhor buscar da cabeça alguém como Cezarini, que me apareceu uma noite destas, com Sampaio, no Telejornal: «no país no país no país onde os homens são só até ao joelho». Eu sei, eu sei, por aqui nem ao artelho se chega, são os recos quem mais ordena. É a grunhir que a gente se entende.
Que mares nunca dantes navegados nos afundem. Que Louçã nos defenda e o bom profeta nos Alegre o caminho!

domingo, dezembro 11, 2005

A Recandidatura de Pedro Pires

Um dos homens que nos longínquos inícios dos anos 6o decidiu abandonar a posição mais ou menos confortável de estudante e rumar o desconhecido em nome de um ideal que hoje parece quase óbvio - a Independência de Cabo Verde e também da Guiné Bissau - , que assumiu as difícies negociações políticas contra os que entendiam que Cabo Verde era "um caso à parte" e, portanto, não haveria independência e que, depois, em quinze anos seguidos conseguiu construir uma terra, considerada até então como "um país inviável", mesmo por ilustres figuras cabo-verdianas, e elevá-la à condição de país africano respeitado, com direito à palavra no panorama internacional, é, de novo, notícia pela positiva.
Pedro Verona Pires anunciou a sua recandidatura à Presidência da República de Cabo Verde no passado dia 9, prometendo permitir a continuidade no caminho do sucesso do desenvolvimento alcançado pelo país nos últimos cinco anos.
Este parece ser o argumento decisivo para a sua campanha, já que em 1991, o PAICV entregou à democracia pluripartidária um país em franco progresso que depois foi hipotecado, vendido a retalho, por democratas do cifrão. É para evitar um retrocesso ao esquema neo-liberal protagonizado por Carlos Veiga, que durante dez anos beneficiou a família e os amigos, que Pedro Pires se apresenta, de novo, como candidato.
Com o meu inteiro e absoluto apoio. Por isso, aqui deixo a sua declaração integral de recandidatura.
AOS CABOVERDIANOS:
Caros compatriotas,

Estou aqui para vos dizer que após ponderada reflexão decidi recandidatar-me à presidência do nosso país.

É verdade que fui muito incentivado nesse sentido por amigos e compatriotas representantes das mais diferentes áreas e grupos da nossa sociedade civil e política, porém devo afirmar que a minha decisão última foi tomada exclusivamente pensando naquilo que acredito serem neste momento os interesses de Cabo Verde.

Nunca escondi que todas as ambições da minha vida, quer enquanto combatente, quer enquanto Primeiro-Ministro, quer também como Presidente da República, têm tido como referencial o nosso país e o que penso ser o melhor para nós todos. O meu compromisso de sempre tem sido colocar a minha experiência, o meu patriotismo, as minhas faculdades, ao serviço de Cabo Verde e dos Cabo-verdianos.

No presente, o nosso país está a atravessar um momento da sua história apenas comparável aos gloriosos anos seguintes à independência. A senda que vimos trilhando nos últimos 5 anos deve ser salvaguardada e devidamente acarinhada para que as sementes que estão agora a ser lançadas, tanto em Cabo Verde como na nossa diáspora, como até junto da comunidade internacional, venham a produzir os frutos que todos desejamos para o bem-estar do nosso povo.

É a consciência profunda da necessidade de não deixar interromper este novo ciclo nacional iniciado em 2001 que me leva a aceitar esta recandidatura. Penso ser claro para todos que Cabo Verde precisa continuar a ter um Presidente que seja o garante da estabilidade e serenidade necessárias à continuação do seu desenvolvimento humano, económico, social e cultural, tendo como objectivo último a construção de uma sociedade onde ninguém se sinta excluído ou marginalizado.

As minhas ambições são no sentido de continuarmos a avançar cada vez mais, rumo a uma sociedade mais justa, mais humana, mais democrática. Julgo ter cumprido o compromisso assumido em 2001 de fazer do mandato que agora termina um projecto aglutinador de vontades que envolvesse os jovens, as mulheres e os homens de todos os estratos sociais das nossas ilhas, com o objectivo de afastar de vez a situação de desconfiança e de falta de perspectiva de futuro em que o país se encontrava mergulhado.

Julgo igualmente ter contribuído, dentro das minhas forças e da minha experiência, para que Cabo Verde voltasse a reencontrar o caminho ascendente da história iniciada em 1975, para que os cabo-verdianos resgatassem o sentimento de patriotismo, de dignidade e de orgulho nacional.

Nesse sentido, procurei exercer uma magistratura presidencial próxima do cidadão, prudente e crítica, independente dos partidos políticos, mas tendo sempre em atenção as fragilidades do nosso país e assente na necessidade da manutenção do equilíbrio institucional.

Não me limitei a ser um observador passivo dos problemas de Cabo Verde. Respeitando estreitamente as competências constitucionais dos outros órgãos de soberania, auscultei sempre as posições dos diferentes partidos políticos, facto que me permitiu intervir sempre e quando achei necessário, agindo no entanto em colaboração com o governo na busca de soluções para os problemas que continuamos a enfrentar em cada dia.

Escutei regularmente a sociedade civil. Acarinhei o poder municipal. Destaquei o mérito. Incentivei o exercício do dever de memória e de reconhecimento. Estimulei o comprometimento com o futuro do país e o compromisso entre os objectivos de curto e médio prazo. Incentivei o associativismo. Coloquei em agenda a necessidade da consolidação e do aperfeiçoamento sucessivo do desempenho das instituições do Estado de Direito.

No plano internacional, tenho sido um incansável promotor da imagem e dos interesses do nosso país. Igualmente, não me tenho poupado a esforços no sentido de prevenir, tanto a opinião pública, em geral, como as instituições, em particular, do lugar chave que a paz, a estabilidade política e a segurança detêm nos processos de estabilização e desenvolvimento dos Estados africanos.

Exerci, pois, uma magistratura de influência activa, dentro dos poderes conferidos pela Constituição. Sem alardes desnecessários, procurei não poucas vezes colmatar o vazio ainda existente no nosso país provocado pela não eleição da figura constitucional de Provedor da Justiça.

Sempre acreditei que Cabo Verde precisa de uma acção politica que se desenvolva com sentido de futuro. Sempre acreditei que o secular fatalismo das crises provocadas pelas secas e fomes subsequentes poderia ser vencido pela vontade e pela acção do homem cabo-verdiano. Esses exaltantes 30 anos de independência, com todas as suas partes boas e menos boas, mostraram-nos ao mundo como um povo de valor, um povo que pode e deve orgulhar-se da sua obra.

Porém, temos que prosseguir: na construção da nossa economia, na extensão da nossa educação, no aprofundamento da nossa democracia, tudo isso com vista a uma sociedade de maior tolerância e justiça social.

A minha experiência dos últimos 5 anos mostrou-me que o Presidente da República pode desempenhar um papel muito importante, quer na promoção externa, quer na mobilização das energias nacionais para os grandes desafios que o nosso país está a enfrentar e precisa continuar a enfrentar com sucesso, com vista ao bem estar de todos os cabo-verdianos, dentro e fora do país. Daí que o meu anseio seja no sentido de continuarmos em frente, ainda que à custa de sacrifícios de ordem pessoal.

Cabo Verde precisa de um Presidente da República que projecte uma imagem de honestidade, de ambição para com o país. Um Presidente no qual os cabo-verdianos se reconheçam como seu símbolo, e como símbolo de um país que ganhou direito a estar no concerto das nações através da invencível arma que é a dignidade do seu povo, o comprometimento firme e a honestidade dos seus governantes.

Todos os povos passam por momentos históricos determinantes em que se ultrapassam a si próprios para atingirem objectivos antes, por muitos, julgados intransponíveis. Pela segunda vez na nossa História dos últimos 30 anos, Cabo Verde encontra-se num desses momentos. Com efeito, estamos vivendo um período de grandes desafios, que no entanto temos todas as condições para vencer, e que temos que vencer: de reformas importantes, e que não podem nem devem ser adiadas; de oportunidades promissoras que em cada dia estão-nos surgindo e que têm que ser rigorosa e atempadamente aproveitadas. E tudo isto requer confiança, espírito de risco, audácia e vontade empreendedora.

Eis porque decidi continuar a colocar toda a minha experiência, todas as minhas relações, tudo que aprendi na minha já longa vida política, ao serviço deste novo e exaltante momento nacional, por forma a não desperdiçarmos esta oportunidade única de nos libertarmos, de vez, das amarras do subdesenvolvimento económico, social e científico.

Ao posicionar-me como candidato à minha própria sucessão na Presidência da República, posiciono-me antes de mais como patriota. Mas também como homem de bom senso, como construtor de consensos.

Porém, e sobretudo, como cidadão amante deste país e que vem perseguindo sempre e incansavelmente, o sonho de um Cabo Verde próspero e respeitado pela obra dos seus filhos.

Para esse desígnio nacional, todos somos necessários e todos somos para ele chamados!

Cidade da Praia, 9 de Dezembro de 2005.

Pedro Pires

Quase 50 Anos

O MPLA comemorou ontem 49 anos. Pelo menos, o 10 de Dezembro de 1956 é apontado como a data da constituição de um "Amplo Movimento Popular de Libertação de Angola!", expressão retirada de um comunicado redigido por Mário Pinto de Andrade.
A constituição deste movimento congregou boas vontades, sobretudo do campo intelectual, que reunindo-se à de outras paragens do Mundo, nomeadamente a de outras regiões ainda sob o domínio colonial, ou dele saídas há pouco tempo, haveriam de levar ao desencadeamento de várias acções, umas populares, como o 4 de Fevereiro, outras nem tanto, como o "proceso dos 50". E, finalmente, à Guerra de Libertação Nacional.
O caminho percorrido foi intenso, diversificado e a História destes quase cinquenta anos é nebulosa, muitas vezes cinzenta e muitas outras, claramente mentirosa. Agora que este movimento político, cujo actuação foi fundamental no cumprimento do desígnio para que foi criado - a Independência de Angola - está a chegar a uma idade respeitável (meio século) , talvez esteja chegada a altura de um comportamento adulto, responsável, no domínio da História. Que sejam disponíveis aos historiadores, incluindo os independentes, todos os arquivos históricos do MPLA, incluindo aqueles que continuam nas mãos de personalidades que se entendem a si próprias como detentoras da verdade sobre o MPLA.
Seria interessante que na comemoração dos 50 anos de existência, o MPLA pudesse abrir os seus baús da História.
Que 2006 seja para o MPLA "O Ano da Verdade Histórica". Aqui fica o desafio.

sábado, dezembro 10, 2005

Ao telemóvel, no deserto

O homem tem um olhar perdido como o de Harry Dean Stanton, em "Paris, Texas". Estava ainda agora, já tinha caído o avião na Nigéria, mas nem ele nem eu o podiamos saber, num café perto de uma das estações de comboio da linha de Sintra. Eu trago jornais e pão quente. Ele derrota, com a paciência de quem podia amestrar martirindindes, uma cerveja . Sento-me numa das poucas mesas vagas, de costas para ele, fixo-lhe o rosto. Sulcos fundos, o cabelo já muito grisalho, apanhado em rabo de cavalo. Está de botas e jeans. É magro, seco de carnes, deve caminhar como se levitasse. Já o vi mais vezes, com o seu olhar líquido, como que fixando um lugar remoto. É o mesmo olhar de Harry Dean Stanton e podia, até, crescer do chão a música de Ry Cooder. Por instantes, desligo-me do rosto e do olhar muito vincados, abro um dos jornais sobre a mesa, mexo o café. Mas toca, na mesa atrás de mim, o telemóvel. É o homem que tem o olhar perdido do Harry Dean Stanton quem fala, agora, enchendo o café com uma voz que fustiga um alazão, que monta em pêlo um riso magoado, uma voz a galope pelo deserto que é o vasto mundo, a voz de alguém que projecta a alegria para longe, furando a escuridão que as luzes de natal não alumiam. Também podia ser um Cristo metafórico e suburbano, pregando no deserto a alegria ao telemóvel, mas é um homem que, tal como a personagem de "Paris, Texas", parece não ter feito outra coisa senão caminhar no deserto recordando a sua vida antiga. Isto é o que eu presumo porque conheço esta toada nas frases curtas, esta espécie de preguiça idiomática, esta língua do sul, esta maneira de saborear os verbos, estas vogais como pássaros que não cabem na boca, seripipis loucos com saudades do Ernesto Lara na mesa de um café da mais triste periferia.
Pergunta-me como é que eu sei que ele falava para África. Eu não sei como é que sei, mas falava. E digo-te mais: falava para Angola. Aquele riso não tem outra matriz. Só pode.
Mantenho-me de costas para o homem, aiué que estes olhos talvez tenham levantado poeira no meu bairro, ia jurar que o sacana do Harry Dean Stanton virou cucas e nocais debaixo da árvore do Bar Ferreira, não posso virar-me, não posso interpelar este riso na voz, mais quente que as castanhas que ali estão a assar ao pé do quiosque, pouco diz o homem que permita tecer uma teia, não há uma narrativa, apenas uma cantinela de exclamações, "tá bem", ele diz muitas vezes "tá bem", e no fim da conversa, depois de acertado um encontro para um mês do outro lado do mar, um mês de casuarinas junto às águas, ele sugere que comam "camarão", "vamos comer camarão até rebentar", diz ele. Não diz "gambas", diz "camarão" como se estivesse sentado numa esplanada de Moçâmedes a fazer tempo para o Circuito das Festas do Mar. E que diz mais, o homem que parece o Harry Dean Stanton? Diz "tchau", mas com o "t" sumido. É tão do sul, de antes de andar perdido no deserto, procurando a sua vida antiga.
Agora ele passa por mim, como se levitasse. Vejo-o sair para a rua, como se fosse fazer uma longa viagem. Nada lhe pesa o mundo.
Vê se ainda há matrindindes no Coringe, o rio seco da minha infância, muadié.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

ONTEM,HOJE E AMANHÃ?!

A questão é saber se o hoje como ontem vai descambar no amanhã igual ao de ontem. Os ontens são todos passados e os amanhãs, todos, terão direito à esperança, ainda que, por certo, alguns vão acabar mal. Passei alguns dissabores quando defendi, e defendo, que Portugal teve no
Século XX, não posso escrever século passado senão fico a sentir-me cheio de bolor, dois homens providenciais: Salazar e Soares!
Era uma ilação minha. Não pertencia a nenhuma campanha eleitoralista, não tinha que ver com preconceitos políticos. Em períodos próximos e muitos delicados do país Salazar e Soares tinham sido determinantes a enfrentar as crises sociais que se viveram. Em comum só tinham aparentemente uma coisa: a minha profunda animosidade. Nunca gostei, nem admirei o primeiro e sempre detestei o segundo. Qualquer deles sobrou de sublevações militares e ambos, por sua vez, as domesticaram
Aprendi da lição da história algumas coisas: os militares não são gente de confiar e os magistrados, ainda menos.
Não vos vou prevenir. Quando chegar a hora vocês vão ter de enfrentar as coisas como nós enfrentamos, com mais ou menos reflexos. Aparentemente, hoje é mais complexo. E nem tanto por Soares ser mais idoso ou Jerónimo ser quase infantil, mas porque a Europa unida faz alguma confusão.
No mais está tudo na mesma. Não é de hoje os problemas de emprego. Tivemos um prémio Nobel arredado do posto de trabalho, um intectual ilustre emigrado nos Estados Unidos. E não foram só os salazarianos, outros ilustres descobriram antes as Américas ou deram voltas ao globo. E nem todos os que sairam comunas regressaram na mesma. Quando referi sobre um despedido recente a sua veia despedidora anterior era só a memória a dar voltas a teias de aranha. Um sobrinho não é um tio, faz fretes, além de outras coisas. Aceito que um despedidor
seja vilipendiado, mesmo que o despedido não seja modelo de virtudes, aceito tudo, mas sou de tempo dos filmes em que os maus acabavam sempre lixados, ainda que os lixadores fossem uns filhos da mãe.
Mas não me custa reconhecer que bem podia ter ficado calado. Sou eu que vou ter de pagar os copos, um dia destes, se o Fernando não for de gostos dispendiosos...

Cooperação - Será Desta?

A palavra cooperação tem tido, nos últimos trinta anos, vários significados e nenhum deles muito lisongeiro, já que, na maior parte dos casos, ela se confunde com outras , gastas pelo tempo, queimadas pela História, anátemas de povos e de regimes políticos.
É fácil hoje associar à palavra cooperação uma outra que se banalizou por todo o Mundo - corrupção - que alastra como mancha de óleo em África na Ásia, na América Latina e se espalha pela Europa e pela América do Norte. Para os mais acusados - os africanos - a corrupção nasceu efectivamente na Europa e na América do Norte, porque lá estão os corruptores e sem eles não era possível o fenómeno com mais responsabilidade no atraso de grande parte do Mundo e na riqueza sem nome de uns poucos.
A cooperação, todavia, continua a ter um lugar importante na discussão das políticas dos Estados. Nos últimos tempos, inclusivé, já se vai percebendo que ela pode ter um papel no desenvolvimento do hemisfério Sul, desde que os fluxos de transferências financeiras, tecnológicas e outros sejam devidamente controlados e não deixados à mercê da voracidade de verdadeiros grupos de mal-feitores que dizem representar os seus povos.
É evidente que esse controlo tem que começar nos chamados países doadores, aqueles que contribuem com dinheiro, com mão de obra especializada e" now how" tecnológico para o desenvolvimento dos chamados projectos de cooperação.
O controlo tem que ser tão rigoroso como o de uma casa de família a viver de um salário médio e com objectoivos ambiciosos para a educação dos filhos e manutenção de um património de dignidade.
Sem esse rigor não há programas de cooperação que resistam e os recursos, muitas vezes colocados com a maior boa vontade à disposição de governos irresponsáveis, podem traduzir-se em mais miséria, em mais razões para o desespero, mais justificação para a emigração clandestina, mais lenha para as várias fogueiras em que ardem as diversas correntes de terrorismo internacional.
Por onde principiar o rigor? Desde logo por uma centralização de políticas e a edificação de um sistema de controlo. Por exemplo, em Portugal, não é possível manter o esquema de todos os ministérios, todas as instituições oficiais manterem programas autónomos de cooperação.
Esta descentralização é uma das razões do insucesso prolongado da chamada política de cooperação portuguesa. Ao longo destes anos assisti a coisas verdadeiramente inacreditáveis. Devo confessar que o espectáculo me levou a afastar progressivamente destas questões, porque - confesso -não tenho tendências masoquistas... e os erros sucessivos e repetidos, levados a cabo por gente evidentemente medíocre mas a quem o poder sempre concede uma espécie de escudo protector, me levaram à descrença total.
Volto agora a falar da cooperação porque me parece existirem razões para ter esperança. Desde logo porque a equipa dos negócios estrangeiros responsável pela matéria parece ter percebido algumas coisas fundamentais: que não é possível desenquadrar a política nacional das preocupações globais e que é necessário romper com " a tradição de descentralização orçamental da cooperação", que envolve, "igualmente uma descentralização de decisões administrativas e políticas" e, por isso, "constitui um obstáculo maior à racionalidade, à eficiência e à eficácia da Cooperação Portuguesa", tal como se lê no documento agora aprovado pelo Conselho de Ministros, com o tiítulo "Uma Visão Estratégica para a Cooperação Portuguesa".
Nesse mesmo documento aponta-se um outro mal crónico das várias tentativas de desenhar uma política de cooperação: " a dispersão de centros de decisão administrativa e política em matéria de cooperação não só tem inviabilizado uma política de cooperação, na qual as diversas actividades de cooperação correspondam a um paradigma e desígnio comum, como tem deixado órfã a questão da responsabilidade política por essas actividades".
São bons princípios estes. Esperemos para ver. Por mim têm o benefício da dúvida. Continuarei a dar nota deste documento.

Debate A Sério

Sem intermediários, sem regras duramente negociadas, eis que, neste blogue, se abriu um debate rijo, sério, de cavalheiros, sobre a acção de um homem menor, que, por acaso, eu conheço: o "dr". José Manuel dos Reis Barroso. E conheço de outros tempos, de outras canalhices, de outras encomendas e de outros despedimentos.O Fernando e o António vão deixar-me entrar no debate sobre o homem e o profissional, a que eu acrescento, o moço de recados. A estória de mais este despedimento sem dignidade está, afinal, contada, pela própria vítima, em carta dirigida ao algoz. Reparem. Leiam com atenção os excertos que eu seleccionei. Escusam de me agradecer o facto de eu continuar a ser "bem informado". Para vocês os dois , abraços e a promessa de um almoço a sério, um dia destes, lá para os lados do Cais do Sodré, bem longe da Rua João Couto, que, por sorte, não é "do Coito":


Exmo. Sr. Administrador-Delegado:

A carta endereçada por V. Exa. ao signatário, assinada, embora, a 28 de Outubro de 2005, saiu de Lisboa por Correio Azul Int – como se vê pelo carimbo – a 16 de Novembro de 2005, não cumprindo, assim, o estipulado no artigo citado. Penso, assim, que devo, pelo menos, para efeitos de pagamento, entender que deixo de ter contracto com a agência Lusa a partir de 15 de Dezembro.Por outro lado, ao citar a cláusula sexta – que estipula que cada parte pode denunciar o contrato desde que avise com 30 dias de antecedência, e só isso - terá de ver igualmente as cláusulas a seguir, uma das quais tem a ver com o pagamento das despesas. E aí tenho mais de um ano de não recebimento dessas mesmas despesas. Enviei atempadamente os justificativos. A partir de determinado momento, e sem nada me ser dito, deixaram de me pagar. Quero, portanto, receber esses dinheiros.
(...)
Desde que a actual Direcção tomou conta dos destinos da LUSA, anotei, desde logo, que não havia muito a fazer. E isto porque não havia (nem há) sensibilidade para as coisas das Comunidades. Como não havia (nem há) sensibilidade para as coisas da Lusofonia.Entenda-se, a este propósito, que até ali, e falando apenas do meu trabalho, a média de produção era de 2 a 3 notícias por dia.
A partir dali, para conseguir uma média de 2 a 3 notícias por semana, tinha de lutar e de levar ao extremo a minha habilidade de “furar” o que me parecia ser o “sistema”.
(...)
País este que é cada vez menos uma Nação de 10 milhões de habitantes, mas sim de, no mínimo, 15 milhões de Portugueses que vivem espalhados pelos quatro cantos. E isto para não entrar o campo da Lusofonia, em que são cada vez menos as informações que chegam aos grandes (ou pequenos) Jornais.Depois de várias “démarches” continuei a anotar que, das duas uma: ou não publicavam as notícias ou as truncavam de tal modo, naquilo a que eufemisticamente chamam editar, que era uma mexerufada em que ninguém se entendia.
(...)
Tenha-se em atenção que de cada 5 notícias que enviava, saía na melhor das hipóteses, uma...Ora, sou um Jornalista profissional desde sempre. Na minha vida profissional, que encetei logo depois de deixar de estudar, fiz SÓ Agências de Notícias, Jornais (especialmente diários), Rádio e Televisão. E sempre no sector da Informação. Nunca fiz mais nada. Nunca ganhei um cêntimo de outras actividades (que me lembre, pelo menos). Na LUSA estava a sofrer tratos de polé, sobretudo da parte de quadros intermédios que tinham como missão fazer com que eu e mais alguns colegas verdadeiramente profissionais saissem da agência.Ainda recentemente, quando da deslocação do Sporting Clube de Portugal a Toronto, dei comigo, ao intervalo, a telefonar para a LUSA, para dar nota de que ao intervalo o Sporting estava a ganhar por 1-0. Disseram-me que não, que não valia a pena. Mesmo assim, no final, fiz uma nota com o resultado, os marcadores, etc. Publicaram-na, sim, e a própria “A Bola” utilizou-a.
(...)
Na LUSA, nunca esta Direcção me deu instruções para mudar seja o que for. Se houve alterações no estilo, nunca me mandaram o novo livro de estilo. Se houve alterações na forma de actuar, nunca me deram a mínima instrução sobre isso. O que é capaz de explicar muita coisa.
(...)
Não peço a V. Exa. que reveja a denúncia do meu contracto de prestação de serviço, embora isso só honrasse quem está à frente dos destinos da LUSA Agência de Notícias de Portugal. E não lhe peço por saber que essa tomada de posição não está no espírito da “nossa” agência. Peço-lhe, isso sim, que denuncie, se entender, o meu contrato de prestação de serviços, mas com UM MÍNIMO DE DIGNIDADE, isto é, que me faça sair da LUSA, que servi durante cerca de 20 anos, com esse mesmo MÌNIMO DE DIGNIDADE. Isso acabaria por honrar a própria Agência de Notícias.
Apresento a V. Exa os meus melhores cumprimentos,
Fernando Cruz Gomes

terça-feira, dezembro 06, 2005

O nome de um homem

António, não carrego, a respeito de episódios antigos que desconheço e que, vagamente, afloras, nenhuma "cruz". O meu ponto é este: um profissional competente é descartado, num tempo de irisão de valores, e eu não fico indiferente. Porque o conheço? Porque sou seu amigo? Não. Nunca falei com o Fernando Cruz Gomes. Respondo assim: porque o nome dele é um nome inteiro, o que ele assina dignifica-o, desenvolvia, com brio, um trabalho importante, é um nome retirado do seu posto por um capricho. Diante deste quadro, é meu dever indignar-me. Este homem é um nome grande do meu ofício e há fortes indícios de pressões de bastidores no seu afastamento. Isso me basta.
Eu não suporto que, neste nosso ofício, tipos mediocres investidos de poder, ousem riscar do mapa os que lhes são incómodos. O Fernando Cruz Gomes, ainda que seja o que tu dizes saber não está sob julgamento de carácter: ao contrário, neste episódio, é ele a "vítima". E ainda que fosse a pior criatura do universo, respondo-te que o Céline era um tipo execrável mas um imenso poeta. Este nome ecoa na minha cabeça, há muitos anos. É suficientemente importante para que o transformem, de forma insidiosa, num nome kleenex.
Um abraço.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A CRUZ E OS GOMES

Sou amigo demais do Fernando e de menos do Cruz Gomes. Háuma diferença maior entre o mais novo e mais idoso do que entre maneiras de ser. O Fernando há-de morrer menino e o outros já era idoso quase antes de nascer. Li a correr, antes de entender. Não comento nem analiso a questão laboral, se for essa. Quero apenas salvaguardar um tipo de moral, que, graças ao lá de cima, não é convencional. Como sou amigo de um e não sou do outro logo não sou suspeito de ser isento. Ao menos isso!.
Mas deve ser levado em linha de conta. Se alguém andou sempre ao colo do poder, não tem nada a ver com um passado muito recente, foi Cruz Gomes. Se alguém abusou dessa circunstância para além do razoável foi o dito Cruz. Se há alguém a quem o dito nunca prejudicou foi a mim. Nem beneficiou, sejamos claros. Mas lixou muito boa gente. Chegou a ser demasiado reles para ser citado. Que me lembre chegou a exigir a renúncia a um cargo, por um colega, para não só obter o cargo para si, como para exigir favores da colega comprometida. Aoa 70 anos ainda sou vulnerável. Há filhas de putices imperdoáveis. E espero que o Fernando me perdõe e me ofereça uma dúzia de copos, de boa qualidade...

Fernando Cruz Gomes

A Agência Lusa acaba de "ruar" Fernando Cruz Gomes, o "homem do Canadá". A notícia não anda aí nos bares da intrigalhada orgânica, nem fez, ainda, sequer, uma "local" de indignação. Cruz Gomes não é da nova guarda reluzente, não usa o manual de estar "in". Está longe e, pelos vistos, out, depois de 20 anos a servir lusas e enepês e anopes e diásporas.
Fernando Cruz Gomes é um meu "mais velho" do ofício que já não chefiava o Rádio Clube de Benguela quando eu me sentei, à mesa do estúdio, para defender o meu primeiro ordenado num certo 1 de julho de 1970. Nesse tempo, no imediatamente antes do meu acesso à liturgia, eu lembro-me de o ver de longe e de ver o olhar de respeito que os outros, do ofício, pousavam nele. Ele foi sempre o líder nas muitas rádios por onde africandou, foi sempre um veterano, um indiscutível. Em rigor, eu não conheci Fernando Cruz Gomes; mas também não conheci D. João da Câmara, nem foi preciso. Seria infamante precisar desse "conhecimento" para saber o que era, é, para nós todos,os desse tempo, os dessa tribo, evidência maior. A palavra de homens assim é ancorada no latim e na solidez de gestos antigos. Há homens que são o seu próprio nome sem preço.
O percurso de Fernando Cruz Gomes não coincidiu com o meu nos anos de brasa. Eu presumo que ele é um homem de direita, ele ter-me-á pressentido como um esquerdista tomado de boa fé, arpoador de causas que depois se tornaram desumanas a meus olhos, para dor minha. Teremos confluido, tardiamente, num cepticismo capaz de gerar entusiasmos e na meia dúzia de valores essenciais pelos quais um tipo se deve bater até ao fim. Como o de Pátria, é claro. Não sei, nem curo de o perguntar, se no peito dele a ideia de Pátria acolhe o que Alegre ousou vir dizer e Cavaco, bem avisado, já repetiu, 3 vezes numa frase, há dias. No meu, acolhe.
Estou a cruzar cenários para chegar aqui: Pelo que sei da carta que Fernando Cruz Gomes, veterano de jornais, rádios e televisões, escreveu aos circuntanciais algozes, o meu mestre à distância deixa claro o convencimento de que o seu afastamento corresponde a uma "retaliação encomendada". A carta de Fernando termina pedindo um "mínimo de dignidade", o que, escreve ele, acabaria por "honrar a própria agência de notícias". Meu mestre à distância: isso são coisas que se peçam? Estás mesmo "out"!

quarta-feira, novembro 30, 2005

UM TOQUE DE HUMILDADE

Acho que meti água, quando me intrometi no texto do Leston, a propósito do «directo» de Paulo Cardoso. O erro começou quando, para situar a acção, sublinhei que o Paulo já não estava em Luanda. De facto quem não estava em Luanda era eu e daí a confusão. Ainda não tinha chegado. Quando cheguei o Paulo já não estava, de facto. Tenho que apresentar desculpas pelo lapso a quem leu e a Leston Bandeira, bem entendido.
Quem não estava em Luanda, também, era Tavares da Silva. Estava, vê bem Leston, como são
as coisas!, para Sá da Bandeira, a cuidar dos pulmões. Soube das picardias do sobrinho de outro Tavares da Silva, fabuloso jornalista desportivo, cuja caneta dançava ao «som» dos cinco violinos sportinguistas, no falecido «Diário de Lisboa», com Robi Amorim, colega de profissão.
Recuperada a saúde, Tavares da Silva volveu a Luanda e instalou-se na Rádio oficial, com um programa nocturno bem conseguido, que repartia com uma beldade luandina, irmã da namorada. Era, de resto, quase uma praxe, dizia-se em Luanda, que não havia jornalista, oriundo da metrópole que não tivesse ficado hospedado na pensão Sirius, trabalhado no «Comércio» e dormido com uma das Mascarenhas. Exageros, já se vê! Mas, no caso de «O Comércio» era bem verdade.

Já o Robi estava no «Abc», o vespertino da esquerda possível. Os restantes eram nacionalistas, digamos assim, mas interventivos. O Acácio Barradas, inesperado cultor de Agostinho Neto,
mudava-se, então, para o Notícia. Como não havia televisão em Angola, e essa Angola começava a trepidar, jornais e jornalistas, eles próprios eram uma animação a mais, tema de muito mexerico.

No «Comércio» não tinhamos telex, nem recebíamos serviço das agência. Ao lado, o outro vespertino «Província de Angola» recebia o serviço da «Reuter» via África do Sul, logo já
extirpado de inconveniências censuráveis. Tinhamos, isso sim, que improvisar. Com a «escuta»
Gravavam-se noticiários da BBC e de outros estações, na Onda Curta. E cozinhava-se. Hoje, em dia, a papa aparece feita, basta pôr umas vírgulas. Por essa altura, eu patinhava pelas ruas à procura de «fait-divers». À noite fazia a ronda da polícia, bombeiros e hospital. E à tarde não perdia o tribunal de Polícia. A minha secção enchia e eu impava de orgulho. O jornal do lado
teve de admitir um candidato para a secção. A página da «cidade» ganhou projecção. Uma noite
esbarrei, no hospital, com a informação de que um «jornalista» tinha sido internado. Cheio de curiosidade li a nota da ocorrência: «quando andava na venda o...» O pobre ardina fora atropelado, e com gravidade. Mas, outra noite aconteceu...

O Acácio Barradas estava internado e com alguma gravidade. O carro tinha caído à baía, vindo da Ilha. Uma senhora também estava internada, mas alguém tinha tirado a folha, do maço das ocorrências. Já tinha alguns conhecimentos no «Maria Pia» e soube o nome, que nada me dizia, mas tinha notícia. E à saída, um tipo emproado chamou-se e disse: «Nada de notícia. Isto não é para publicar». Disse-lhe que tinha pena, mas não era a mim que ele se devia dirigir.

Quando cheguei à Redacção, e entretanto tinha recolhido mais informação e sabia que a internada era uma conhecida poetisa local e a causa, além de algum alcool, do acidente, o chefão foi-me dizendo «Já sabemos. Não percas tempo. Não vamos dar a notícia. O Charula telefonou. Não vamos entalar um colega». Barafustei e disse-lhe que eles nos iam lixar e dar a notícia. O Araújo não quis acreditar.Explicou-me que o Charula era uma referência e que trabalhou naquele jornal e que era amigo de todos e nós não o íamos deixar mal. E eu teimei: «Olá se vai. Espere-lhe pela pancada».

O Notícia fez reportagem com o caso e carregou nas tintas, com nomes e fotos. Charula de Azevedo era bom jornalistas e não perderia uma oportunidade daquelas. Ao Araújo deve-lhe ter custado, mas pediu desculpa e no fim do mês vi o salário aumentado.

Mas o meu primeiro grande sucesso chegaria pouco depois e ajudou-me a perceber porque é que tanta gente boa tinha entrado por aquele jornal e saia sem demora. Estava de folga e fui ao cinema. Passei pelo jornal, por vício e pediram-me, como passava pelo Hospital, se podia espreitar e telefonar se houvesse alguma novidade. A novidade é que não havia papeis na secretária, à entrada do Banco do Hospital. Estava, não um, mas dois, polícias na sala. Nada. Não há nada, tem de sair, disse-me um deles, acrescentando que queriam a sala livre. Saí, dei a volta e, por dentro, cheguei ao corredor do Banco e, por sorte, surpreendi um médico ao telefone a dizer que já tinham mandado duas ambulâncis, três médicos e não sei quantos enfermeiros.
Quando perguntei para onde?«Homem, para o hospital, claro...oh, que é que está aqui a fazer?»-
Saí antes que ele chamasse os guardas e deparei com uma ambulância prestes a sair e perguntei
ao enfermeiro se ia para o«hospital» e se me podia levar, que estava com pressa Ele disse-me «suba rápido» e lá fui. Era o segundo hospital da cidade e mais vocacionado para os musseques.
Tinha sido um caso aparente de intoxicação e estava cheio de crianças de um asilo. Foi uma noite terrível. Não paravam de chegar veículos com garotos. Vi vários inspectores e agentes da judiciária a interpelar gente do asilo, gente da Pide, ainda era Pide a fazer o mesmo e a tentar saber dos médicos pormenores que identificassem a causa. Não havia polícia a isolar o hospital. Fui atrás de um grupo de pessoal do hospital que carregava uns cobertores enrolados e fui atrás. Ia para a morgue. Despejou cinco corpos sobre outros que lá estavam já. Contei, nessa altura 17 cadáveres de crianças. E fui telefonar para o jornal. Voltei a telefonar pouco depois para dar conta que o governador tinha acabado de chegar e talvez fosse conveniente o director dar um salto e pedi que mandassem também um fotógrafo. Que não, que não valia a pena. Já não havia tempo para mandar fazer as gravuras (coisas desse tempo).
Às três da manhã já havia mais mortes. Do Jornal disseram-me que não telefonasse mais, acabavam de fechar a edição.

Vi uma enfermeira à cabeceira de uma cama, sentada. Era mãe da menina deitada. Tentei
animá-la.

Finalmente, às cinco e tal da manhà a causa estava encontrada. Um produto tóxico comprado numa drogaria para lavagem do cabelo. O droguista e o empregado, angolano, da cor dos angolanos, que querem, não gosto de dizer pretos, estavam detidos. Mas fora lapso do pobre empregado, que nem sabia ler. O patrão tinha-lhe dito vai lá atrás e tira do saco que está, nem sei onde ele disse, mas o rapaz enganou-se. Já estava de saída e passei pela enfermaria. As lágrimas caiam-lhe. A menina acabava de falecer. Foi a última...

O «Comércio» era o único matutino a dar a notícia. Na última página, a duas colunas "Grave caso de intoxicação", sem referência na primeira página. Fora a decisão de Ferreira da Costa. Finalmente eu tinha uma boa razão para não gostar dele.

segunda-feira, novembro 28, 2005

DOS QUE LÁ FORAM E NÃO REZA A HISTÓRIA...

Suponho que a memória de Leston Bandeira é como a minha, tilinta de campaínhas e como a ternura amolece até a carapaça do Fernando Alves tivemos uma evocação cor de rosa de Paulo Cardoso, inegavelmente um vulto notável da Rádio, um radialista (suponho que nem se dizia assim) exímio, até a sacar papeletas! Em Angola pairou por cima de todos nós, não tanto pelo que dizia ou como dizia, mas sobretudo como criava e, sobretudo, como se desenrascava, como improvisava, como resolvia o que parecia irresolúvel.
O homem da Rádio era mais brilhante e criativo que o cidadão. Sem o microfone, Paulo era um
peixe fora de água. Fora do estúdio perdia a cabeça e só arranjava complicações. O «directo» que o Leston contou foi uma beleza. A gravação foi feita para o Huambo (ou seria Sá da Bandeira?), não me lembro bem, mas não para Luanda, ele já lá não estava. Foi saltitando por mór dos seus pecados. De repente voltou a Luanda. Não vencido da vida, mas no melhor do seu espírito criativo. Vinha para criar a Televisão!
E fez, sem proveito para ele, como de costume. Mas foi épico. Subitamente tinha a presidir ao projecto a mais inesperada das individualidades, e a mais sólida, também: São José Lopes, o todo poderoso senhor da polícia política. Depois do tombo da cadeira e consequente morte de Salazar a situação política alterou-se, embora nós, em Angola pouco dessemos por isso. Mas o homem da Pide sabia e sabia que com uma televisão atrás poderia ser mais interventivo.
O Paulo não resistiu a vir a Lisboa exibir-se e mostrar que o exílio africano não o depauperou. Creio que terá havido uma manobra calculada para entravar o projecto, já em fase adiantada e o Paulo foi detido, sob pretexto fútil, com a intenção óbvia de fazer explodir o escândalo, em Luanda. Ele voltou a Angola, mas já sem espaço. A televisão, essa, fez-se mas sem ele e sem fulgor, com o 25 de Abril a bater à porta. Mais curta foi a experiência africana de José Sebag, outro vulto luminoso da Rádio, que se perdia fora dela, que falava e escrevia como poucos. Tinha tudo para ser génio.Não tinha paciência e tinha muita, muita sede...

domingo, novembro 27, 2005

Ainda o 27 de Maio

Leio, na Net, um texto assinado por João Van Dunem e Francisca Van Dunem, ambos irmãos de José Van Dunem, assassinado pelo MPLA na sequência da repressão à tentativa do golpe de 27 de Maio de 1977.
O texto é uma resposta a outro escrito, de Pepetela, publicado no mesmo jornal, o "Angolense", e em que o escritor se diz cansado do silêncio do MPLA relativamente a notícias que correm a seu respeito sobre uma alegada participação no processo de repressão que se seguiu à tentativa de golpe de estado liderada por Nito Alves.
Tal como o João e a Francisca não estou interessado nas intrigas da terra e tal como eles entendo que é tempo de se acabar com o silêncio sobre aquele período negro da História de Angola, durante o qual foram mortas (assassinadas) dezenas de milhares de pessoas, a maior parte das quais jovens com grandes capacidades e que, seguramente, teriam determinado outros caminhos para o país..
Já por diversas ocasiões aqui exprimi a minha posição política anterior ao 27 de Maio. Eu não estava com os "nitistas", mas os "netistas" também não me encantavam. Por isso saí de Angola em Abril de 1977.
Todavia, as notícias que tive de amigos, camaradas e de fontes independentes, levam-se a - sempre que se depare a oportunidade - verberar a chacina que foi levada a cabo em nome da conservação de um poder que apenas serviu para empobrecer um povo.
É tempo de acabar com os silêncios e perceber as cumplicidades pela omissão, também elas causa de um processo que deveria ser devidamenmte escalpelizado para servir de lição aos vindouros.
Talvez tenha mesmo chegado a hora de pedir perdão pelo mal causado. Até a Igreja Católica já pediu perdão...pelos males causados há séculos

JNM/Charles Aznavour/Paulo Cardoso

Ouço, na RDP, Antena 1, o programa de José Nuno Martins, o "Amigo da Música", um dos poucos momentos da Rádio Portuguesa que nos obriga a passar da posição CD para "Tuner". Hoje o tema é Charles Aznavour, uma das vozes que desapareceu das ondas portuguesas há anos.
De repente, na conversa do JNM, ouço a palavra Angola, a recordar um dos pontos de uma famosa digressão do arménio nascido em Paris.
De facto, no final dos anos 60, Aznavour passou por Luanda, onde estava igualmente Paulo Cardoso, um outro nome notável da Rádio Portuguesa e que já tinha passado pelas principais estações de Rádio de Angola. Tive o privilégio de trabalhar com ele no Rádio Clube do Huambo, em 1965.
Quando foi anunciado o espectáculo de Aznavour, no Cinema Restauração, agora transformado em Palácio dos Congressos, Paulo Cardoso, que dirigia na altura uma pequena estação de Rádio , chamada, salvo erro, "Voz de Luanda", anunciou, por sua vez, que iria transmitir o espectáculo em directo.
De imediato, a entidade organizadora do concerto desmentiu, garantindo que Aznavour não permitiria mesmo a gravação.
Paulo Cardoso insistiu em manter o anúncio e em toda a Angola, já habituada às "loucuras " de Paulo Cardoso, o caso passou a ser seguido com particular atenção e grande interesse.
Conseguiria a "Voz de Luanda" transmitir o espectáculo de Aznavour, em directo?
A verdade é que na noite do espectáculo, à hora marcada, a voz grave de Paulo Cardoso, em tom mais baixo do que o habitual, apareceu a anunciar a presença de Charles Aznavour no palco do Restauração, completamente esgotado.
Como foi possível?
Paulo Cardoso montou, com a conivência óbvia dos trabalhadores do restauração, um sistema de microfones e de transmissão via telefónica, na cave do palco e com esse expediente ganhou a aposta. Em consequência foi apresentada mais uma queixa em tribunal contra o mais polémico homem da Rádio que alguma vez passou por Angola e que a marcou com o seu estilo truculento e imaginativo. Um estilo que depois de 1974 foi exportado para Portugal, mas com óbvia perda de qualidade.

sábado, novembro 26, 2005

Incompetência, impotência, conivência

A máxima instância judicial senegalesa já se afirmou "incompetente" para resolver o caso Hissene Habré. E, por isso, recusou a sua extradição para julgamento na Europa.
O homem que, no tranquilo exílio de Dakar, dorme, há quinze anos, com quarenta mil esqueletos, voltou a casa e Wade, sabendo que todos se viram agora para a sua "competência" presidencial, optou por consultar a União Africana. É uma maneira de empatar o processo, pois sabe-se que o presidente do Senegal não se tem querido associar ao primeiro julgamento de um ditador africano. Em fundo, escuta-se já o inevitável rumor de uma perseguição com fundamentos racistas. Como se os 40 mil mortos e os 200 mil torturados de um regime abominável se tivessem tornado incolores... Mas o advogado senegalês que preside à Federação Internacional dos Direitos do Homem não está com meias palavras. Para ele, "o Senegal consagra a impunidade de Hissene Habré".
Por que é que tudo isto era previsivel?

EM ROTA SEM OTA

Foi entre o fim dos anos 30 e o princípio dos 40 que a Portela arribou. Era para lá de Lisboa, num descampado. O mais próximo que por ali medrou foi o musseque da Encarnação, afastado do Areeiro por uma longa avenida, nada fácil de trepar. A Carris não ia além desse Areeiro, com os «eléctricos», que autocarros ainda não havia e «metro» nem se sonhava. Mas o aeroporto era um luxo e merecia demoradas visitas da populaça pasmada a ver os aviões a subir ou descer, ali tão perto!
O musseque, esse, pretendia ser, na altura, a imagem do governo preocupado com os assuntos sociais: um bairro para famílias remediadas, das classes menos favorecidas, mas com alguns favorecimentos à mistura. As rendas eram baixas e a casa revertia para a família após 20 anos de residência. O contra era o isolamento, a distância da «cidade», onde havia que fazer as compras e onde, no fim de contas, se trabalhava. Alguns davam-se ao luxo de possuir bicicletas, mas era preciso ter canetas para tepar a avenida que era ou iria ser Gago Coutinho. Mas, ao domingo, podia-se ir ver o aeroporto: era quase perto. As sanzalas de Chelas e Olivais eram mais distantes.
Deve ter perdurado uma vintena de anos a expansão desse tipo de bairros, que tinham uma designação que já não me recordo. Lembro-me de um anterior, no Porto, no Ameal, onde fui menino e moço, com os meus pais. O pai era natural do Porto, mas zarpara miudo para Lisboa e até era do Benfica, ao contrário daquele braço de família nortenha, cujo apelido era justamente Benfica!
E em Oeiras também. Aliás Oeiras voltou a ter outro, mas sem a característica uni-familiar, antes com edifícios de 4 pisos e sem «herança» ao cabo de vinte anos. A «generosidade» do Estado Novo havia-se esgotado. O modernaço musseque de Alvalade deve ter dado início a novo conceito de bairro económico. Mas os tempos já eram outros. Primeiro, os autocarros chegavam ao aeroporto e ao musseque próximo, depois os popós tornaram-se acessíveis, sobretudo a quem tivesse renda baixa.
A cidade expandiu-se. Alvalade veio pela av. de Roma até à Alameda e do Areeiro foi descendo para além da Encarnação. O aeroporto foi ficando cercado, mesma assim incomodando os candidatos a senhorios. Contudo ele cresceu também. Sei porque trabalhei lá, nas obras de expansão. Fui ferramenteiro.
Tudo isto para dizer que o poiso da Portela resistiu a muito, acomodou-se. Faz parte da cidade
E se o futuro coiso da Ota vai custar muito, por muito tempo, o meu receio é que venha a ser justamente o antigo a pagar a crise, a alimentar os partidos e alguns partidários,bem como satisfazer a gula dos construtores de obras primas ou primogénitas!
Porque é disto que se trata e o governo aceita que o que faz falta é animar a malta. Os 56 mil empregos é fogo de vista. Deixem a Portela em Paz! Façam a Ota onde quiserem e quando quiserem e tanto faz que seja a 17 como a 18, mas não fechem o que está feito. Deixem-no funcionar de dia, reduzam-no ao tráfego da CEE. Pensem no que fazer ao de Beja e lembrem-se que na rota dos tgv os aeroportos não são rentáveis!
E se querem investir no futuro invistam em escolas portuguesas nos países onde se fala português e em países onde Portugal marcou presença. A divulgação da língua é a base do sucesso de qualquer plano tecnológico, por mais manhoso que ele seja, por mais pretencioso que se apresente. Para se chegar acima é preciso começar por baixo...

quarta-feira, novembro 23, 2005

Air Zimbabwe

Ninguém deu grande vento à notícia que chegou, de manhã, na asa da France Presse ( que a colheu no jornal estatal "The Herald"): a companhia aérea do Zimbabwe imobilizou toda a sua frota, por falta de combustivel. Todos os voos foram suspensos. O presidente de admnistração da Air Zimbabwe foi mandado para casa. O aeroporto de Harare era, desde ontem, um lugar de errância de centenas de pessoas impedidas de partir para Joanesburgo, Singapura ou Kampala.
O principal aeroporto de um país pode ficar paralisado por uma tormenta, por uma greve, por uma revolução. Mas neste lugar de pesadelo cada nova notícia é um voo picado para o abismo.
As notícias dos últimos meses sugerem um manual de destruição de um país nas mãos de um louco. Uma destruição metódica, sistemática, persistente.
The Herald conta o espanto dos estrangeiros no país sem check in. O país que não consegue pôr um avião no ar, tal a penúria. O mesmo país de onde , há alguns meses, levantou, com destino ao Dubai, um avião de 200 lugares com um só passageiro a bordo. E não era Mugabe. E não era um delírio autocrata, um luxo de nababo, apenas o retrato de uma gestão caótica num quadro de gestão de linhas raiando o absurdo.
O caso da Air Zimbabwe é a metáfora do impossível golpe de asa. O Zimbabwe de Mugabe é um país de asas no chão.

domingo, novembro 20, 2005

ANDAR ÀS VOLTAS

De cá para lá, quero eu dizer. E não tanto entre Luanda e Lisboa. Mais entre o ontem e o agora, à procura de equilíbrios esquecidos, a moldar a memória de modo a que se possa atenuar alguma coisinha do que lá vai, do que ficou. Não é fácil compreender o presente sem a chave do passado.
Quando se lê o que foi parte da infância do Leston, no Lubango, entende-se melhor o apego que muitos de nós trouxemos, na hora do adeus. Apego que não desaparece nos dias tumultuosos do regresso. E que nem a crítica feroz, que dirige contra a administração de um país rico a esvair-se na miséria, apaga.
Comigo foi diferente. O menino que fui «acordou» em Queluz, junto à estação (de comboios). Desde Alfredo da Costa até então os olhos não registavam. Lembro-me que a primeira vez que o meu pai me levou à bola (ver o Benfica) foi nas Amoreiras. Não me lembro de muito. Vagamente de ter visto os jogadores entrar no campo, porque o velho me pegou ao colo. Do mais patinhei pelo peão e de vez em vez me espantava, talvez de susto, pelo barulho. Foi no Campo Grande, acho que se chamava «28 de Maio», que comecei a ver a bola e «conheci» o Melão.
Tem graça que em Luanda, onde cheguei, a rondar os trinta, deparei com outro ídolo desportivo, mas do hoquei: Cruzeiro, já veterano mas cheio de genica.
Na escola havia retratos do senhor Salazar e do senhor Carmona. Ainda a semana passada vi
fotos de Carmona, mas este é de outro filme e de outra escola. Depois da primária, que acabava com a quarta classe, seguiu-se o curso comercial. Vou continuar o curso mais adiante, agora vou à causa..
Não conheço o Miguel. Conheci vagamente o pai e já depois de ter ido e vindo a África. No jornal onde trabalhava tinha havido mudança de director. Viu-o vagamente passar ao fundo da redacção, trôpego no arrastar-se agarrado a uma bengala e não sabia quem era. Como trabalhava no turno nocturno era natural. De vez em quando marcavam-se serviços no exterior e como estavam em marcha as eleições constituintes coube-me um comício em Almada. Quando lá cheguei era do PS - o comício! Eu já ia sabendo que ir a comícios não era como ir a rebitas, embora aquele tivesse dois nomes femininos: Maria Barroso e Sophia de Mello Breyner. Uma eu sabia que era esposa de Mário Soares, da outra não lhe conhecia o marido, nem de nome.
Escrevinhei um resumo mal disposto do comício que, escrevi, «terminou com uma senhora a dizer poemas épicos de carregar pela boca». E, de repente apareceu-me o director, encostado à bengala: "É pá, tire-me isto. O Sousa Tavares e eu trabalhamos no mesmo escritório!" O director era Proença de Carvalho, que não era coxo, tivera um acidente de moto, creio eu. E foi nesse escritório que me apresentaram a Sousa Tavares e seria minha uma das vozes que, algum tempo depois, se levantou contra o governo de Pintasilgo, que o demitiu da direcção de «a Capital», no próprio dia das eleições intercalares, de que sairia o governo da AD.
Truculento mas ingénuo, Miguel saltitou pela Televisão até arranjar espaço como comentarista, onde tem vindo a amadurecer. Não terá o brilho reluzente do pai, mas é contundente, quase agressivo. E por vezes tem razão, mas não raro o entusiasmo leva-o longe demais. Mas também é verdade que muitos outros mais elaborados e, sobretudo, mais equilibristas, de chatos que são perdem a graça. Li com alguma dificuldades, que já não leio como lia nos autocarros, a crónica sobre costumes, como se dizia no meu tempo, das meninas exibicionistas admoestadas na escola. Embora não a tenha lido toda por mór do solavancos e porque o texto me pareceu desviar-se, pareceu-me correcta a postura, tanto no caso específico, como na generalidade, sobretudo no que toca à justiça: todos o delinquentes têm direitos; as vítimas da delinquência nem por isso.
Mas não só e apenas no foro sexual há violadores e violados, para lá dos direitos à diferença. Também em Espanha atingia o rubro a questão da obrigatoridade de estudar religião católica nos cursos secundários e com nota a contar para a média. E lá aparecia a conotação salazarenga.
E retomo o curso. Tinha, sim senhor, tinha «religião, moral e cívica». Duas vezes por semana, era eu estudante e o Salazar presidente do Conselho. E não podia ultrapassar o número de faltas, tal como nas restantes disciplinas e tinha nota trimestral. Era, sim senhor, resultado da concordata.
Mas não contava, não senhor, não contava para a média, não pesava na nota final. No meu caso pessoal acho que tive alguma sorte com a professora, que deu aulas de religião numa perspectiva histórica. Não me afectou. Não deixei de ser ateu. E quando tive problemas para arranjar emprego não andei a queimar automóveis. Meti-me à sucapa num paquete cheio de soldados e fui para África. Já não há paquetes nos arrebaldes de Paris e a África já não tem para dar, como deu e os primeiros a perceber isso deviam ser os ministros dos governos ditos ocidentais. Alguns fogos podem apagar-se antes de ser ateados.
Mas não adianta muito aprender História passada nem extrapolar dela para o presente. São cada vez menos os que semeiam ventos e cada vez mais os que colhem as tempestades. O dinheiro pode não dar felicidade, lá isso pode, mas oferece abrigo com aquecimento central.
Um minitro europeu bramir contra a poligamia parece inusitado. Capaz de parecer preconceito anti-mourisco. Mitterrand não foi preso ou censurado, nem sequer acusado de delapidar a segurança social com excesso de prole de fontes distintas. Nem ardeu nenhum pópó por causa disso. Mas se for um árabe ou um lestiano...

segunda-feira, novembro 14, 2005

"Predadores"

Pepetela descreve os últimos trinta anos de Luanda, narrando estórias que só podem ser autênticas e atribuídas a um VC, Vladimiro Caposso, todo ele mentira e ao mesmo tempo todo verdade, já que é o retrato a cores dos que em todo este tempo se foram servindo do país para enriquecer, atropelando tudo e todos.
Neste seu último livro - "Predadores" - Pepetela parece, finalmente, libertar-se de si mesmo e apontar o dedo, sem misericórdia, ao bando de corruptos que tomou o poder em nome do Povo há trinta anos.
O retrato da burguesia de Luanda, com um salto ao Lubango, por onde campearam e campeiam ainda alguns campeões da ladroagem, é de um realismo impressionante.
Pepe, acho que tu mesmo te assustaste e no fim deixaste-nos uma nota de esperança depositada na Juventude que precisou de estudar, trabalhar e ser honesta para sobreviver. Oxalá tenhas razão e os Nacibs se multipliquem

domingo, novembro 13, 2005

Um livro

Muito interessante, este "Confronto em África", de Witney W. Schneidman, que fez parte da equipa "africana" da admnistração Clinton e cuja investigação em Portugal mereceu uma bolsa da Fundação Gulbenkian. O livro agarra-nos desde as descrições iniciais do braço de ferro entre Khrushchev e Eisenhower, no controlo do processo pos-colonial em África. Já tenho assunto para grande parte do serão. Levo lidas menos de 30 páginas, mas confirmada uma ideia: se não fossem os Açores ( "a mais imporante base dos Estados Unidos no mundo"), estariamos agora a falar de uma outra noite histórica, em Luanda, mas há 40 anos. Teria sido outra a nossa vida, outras as ressacas, outras as desilusões.
Deviamos ser capazes de cuspir os ses para o lado, como grainhas inúteis. Mas eles estão nas entrelinhas da História, rindo-se na nossa cara. São os fantasmas mais cruéis.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Uma Noite Com Trinta Anos

Já descrevi a minha chegada a Luanda, a 8 de Novembro de 1975, sob a pressão de tropas invasoras do Sul. Os amigos, os conhecidos e os que passaram por uma coisa e outra tinham fugido. Depois, os camaradas, "bazado". Em Luanda, aonde já não ia há alguma tempo, a surpresa quase me paralisou. A cidade não existia, parecia um sítio onde tinha caído uma bomba de neutrões.
Do Lubango até Luanda tinham viajado connosco a Bany e outras criaturas (hoje, por sinal, gente célebre na praça). Quando digo "connosco", quero dizer eu e a Zi, a minha companheira, a minha mulher.
Chegámos a Luanda e, por acaso, encontrámos a casa do Pedro D'Ornelas ( de quem, um dia destes destes, contarei um par de estórias).
Em Casa do Pedro estava ele, a Rita e não sei mais quem. E algumas latas de atum e arroz. Deu uma refeição. No final, olhámos uns para os outros, com alguma dignidade, porque esta coisa da fome perturba, analisámos a situação politico-militar e cada um seguiu o seu caminho.
Dia nove ainda houve um resto do arroz, com a água do atum, mas no dia dez, NADA! De manhã à noite. Nem um grão de arroz. Luanda era uma cidade sem vida. Estava toda a gente escondida em casa. Ninguém atendia o telefone.
Na casa do Pedro encontrámos o Graça, professor de Matemática no Lubango e que também tinha feito " a retirada estratégica" para Luanda. No prédio onde vivia, na Rua Direita de Luanda, havia um apartamento de um amigo, que tinha "bazado", e de que ele tinha a chave.
Subimos não sei quantos andares para nos instalarmos e, por volta das onze da noite, com os estômagos a roncar com fome, começámos a ouvir tiros de armas pesadas. Pensámos: "os zairenses conseguiram entrar..."
Pelos vistos, era preciso inventar um esquema de sair de Luanda sem ser notado. A minha fotografia fazia parte dos dossiés dos invasores: "cortar a barba, ir para o porto...sei lá".
Sem informação, sem rádio, sem nada que nos explicasse o que estava a acontecer, só percebíamos os tiros de armas pesadas e ligeiras.
No dia seguinte percebemos que tudo aquilo eram as comemorações da "Dipanda". Com algumas vítimas à mistura: houve uma família que morreu toda, porque lhe caiu na comemoração da independência uma granada de morteiro lançada por um vizinho que tinha o morteiro e a granada guardados para aquele dia.
O dia 11 não foi muito diferente. A retirada vergonhosa dos portugueses e dos altos comandos, as fantochadas políticas, todas nos passaram ao lado. A nossa gente estava em dificuldades e nós com eles. Comemos mabangas, arroz com feijão, peixe espada frito até ao enjoo.
Um dia, num restaurante que, entretanto, tinha reaberto, segui o inclinar das cabeças de todos os clientes e descobri uma criança que estava a entrar portas adentro. Há que séculos aquela gente não vislumbrava o sorriso de uma criança...
Viver em Luanda transformou-se num acto de fé.
Também dava para a brincadeira: à hora do comércio abrir, sobretudo depois da hora de almoço, dois ou três de nós colocávamo-nos em fila à entra de uma loja. Logo a seguir, se formava uma longa fila de gente que ia perguntando: "camarada, tá a sair o quê?..."
Começou aí a realizar-se a grande capacidade da sociedade angolana para se defender dos sistemas, para se auto-organizar.
Também principiaram aí as grandes fortunas angolanas, ostentadas, trinta anos depois, por personalidades que não as explicam, mas se afirmam, em semanários portugueses ( Expresso) disponíveis para investir em Angola, escondendo que as reais fortunas de que dispoêm estão espalhadas um pouco por toda a parte, inclusivé em Portugal.
Não posso deixar de constatar que há aqui uma convergência de interesses: o do Expresso, que quer instalar-se em Angola, para aproveitar um pouco da ocupação chinesa e o dos detentores de fortunas inexplicáveis que as querem transformar em motivo de honra nacional e até de pretexto para candidaturas à presidência da República.
Ao que a lembrança de uma noite de fome conduz...

quarta-feira, novembro 09, 2005

O que a Rede traz

Não é sequer uma vigília, nem um impasse. Do lado de lá da janela, pressinto o recorte da romanzeira no negrume da noite, a aldeia está mergulhada em sossego, quantos carros terão incendiado a esta hora, na periferia parisiense, os miúdos que trazem nos olhos novas Bagdad?
Estou a pescar na mesma rede que Sarkozy lançou para guglar apoios à política "de firmeza" (patético Sarkozy que ainda acabas guglado por um qualquer Le Pen...).
E onde guglará o deputado Nuno Melo que mandou esperar a sociologia para espumar urgências de ordem nas ruas, contra o "laxismo" da Europa governada "à esquerda", como quem sacode magrebes para trás do sol posto? Cuidai, Chirac, Villepin, Sarkozy, abjectos esquerdalhos, cuidai no que deu! E escusais de guglar, Melo não está para soluções que dispensem o cacete.
Mas ao que vim, perdido no negrume do pinhal a guglar acasos? Vim saber de uma Libéria a votos, em compita final? A esta hora a sorte está ditada, mas ainda não foi pescada na Rede. Espero que Weah leve de vencida a Dama de Ferro. E que isso seja um sinal auspicioso para os trezentos mil refugiados que andam pelas vizinhanças. Que um sono justo chegue para todos, enquanto uns contam votos em Monróvia e outros carros a arder na escumalhândia onde, para desgraça da Humanidade, ninguém parece escutar os avisos do deputado Melo.

segunda-feira, novembro 07, 2005

As Africanas

Na RTP 1 deve ter passado um duende com capacidades sobrenaturais suficientes para ultrapassar a paralisia cerebral daquela gente, a começar por aquele presidente cujo ar até me faz esquecer-lhe o nome.
Acabei de ver um pequeno apontamento, chamado "Retratos de África", em que se relata de uma maneira precisa, sem intermediários, sem o paternalismo do jornalista que faz perguntas "encaminhadoras", a vida, o nascimento e crescimento de cooperativas agrícolas.
Cooperativas dirigidas por mulheres, porque os "homens têm medo das machambas".
"Nós sabemos como pensam os homens: quando têm alguma coisa no bolso pensam na cerveja. As mulheres, quando têm alguma coisa na ponta da capulana, pensam nos livros para as crianças, no sabão para lavar a roupa das crianças..." - assim falou a mulher que parece ser a alma deste movimento.
E garantiu: " não vamos ficar por aqui...vamos continuar".
Oxalá!
É tempo de se saber no resto do Mundo que em África o trabalho é condição das mulheres. Os homens, de uma forma geral, só "deitam ronco".

domingo, novembro 06, 2005

Uma Estória de Maconginos

De vez em quando alguém me aparece a contar jantares e encontros ,a dar notícia de palácios, de "maconginos" proeminentes. Vou escutando e sorrindo. Hoje não há ninguém que não pertença ao reino de Maconge, assim uma Terra do Nunca inventada pelo César da Silveira, o verdadeiro Rei de Maconge, a que sucedeu Mário Saraiva de Oliveira. Um reino que se vulgarizou com uma facilidade extraordinária e que distribui titítulos nobiliárquicos que muita gente está a levar a sério.
O Reino de Maconge é produto de uma imaginação adolescente fértil, a de César da Silveira, que escreveu as Macongíades, traduzindo um certo espírito que se vivia no Liceu Diogo Cão, um pouco no decalque daquilo que se imaginava seria a academia de Coimbra.
O Reino transformou-se, depois, num local de encontro entre antigos estudantes do Liceu, que se reuniam uma vez por mês, sempre no Lubango, para, em ceias monumentais, sempre regadas a vinho, se lembrar a juventude e discutir outras coisas. A poesia era dona e senhora da noite.
Houve uma primeira fase destes encontros em que não era permitida a presença de mulheres. A Organização era composta por cultores do romantismo em que as mulheres não podiam"descer"ao espectáculo decadente da bebedeira, do arroto, das palavras de sons ásperos.
As ceias eram na Casa Verde, dos Irmãos Guerra, e havia sempre uma festa especial quando o Rei subia de Luanda ao Lubango para confraternizar com os seus súbditos.
Foi ainda na Casa Verde que a primeira mulher foi admitida como participante. Foi uma excepção, porque a senhora em questão - Anabela Araújo - não tinha frequentado o Liceu Diogo Cão. Era aluna da Faculdade de Letras da Universidade de Luanda, sita no Lubango, e mulher de Saraiva de Oliveira, representante do rei, quando este não estava presente. Ele próprio se intitulava de vice-rei.
Este era o único título admitido na altura. Nada de condes, nada de duques. Todos nós éramos súbditos de um reino de fantasia.
Os irmãos Guerra tinham um costume interessante: quando já estavam cansados de nós, encharcavam os churrascos de gindungo, convencidos de que assim deixaríamos de comer e nos iríamos embora. Pelo contrário: não só comíamos mais como o vinho rodava a maior velocidade entre os convivas.
A certa altura, por razões que também tinham a ver com o coração de um dos membros do reino, as ceias passaram a realizar-se no Casino da Senhora do Monte.
Numa dessas ceias tentei, mais uma vez, convencer algumas pessoas de que o reino podia, sem dificuldade, transformar-se num movimento político activo.
As respostas eram invariavelmente uma reprimenda. A nossa política era a saudade e o vinho tinto.
Mas, naquela noite havia um motivo suficientemente forte: tinha sido inaugurado o estádio municipal da Senhora do Monte, um belo estádio, a que foi posto o nome de "estádio Silvino Silvério Marques", um ex-governador-geral de Angola, que haveria de voltar mais tarde.
Toda a população do Lubango detestava o senhor e não queria que o seu estádio se chamasse outra coisa que não "Estádio da Senhora do Monte".
Utilizando este consenso, consegui convencer os convivas da ceia daquela noite a realizar uma operação "comando". Às tantas da noite, lá fomos tirar a placa com o nome do dito Silvério Marques.
Nesta operação lembro-me da participação de Pinto Miranda, muito entusiasmado e do Saraiva de Oliveira, mais cauteloso. Havia ainda alguns mais jovens: O Adrega, que era o bispo da Academia na altura e o Ricardo Fonseca, o presidente da Academia do Liceu. Lamento, mas a minha memória não vai mais longe.
Ora, a placa era muito pesada e foi colocada no meu carro - na altura um Ami8 - que andou durante vários dias com a dianteira levantada, o que provocava as mais disparatadas observações dos amigos.
Depois, lá encontrei um local onde a enterrar. Acho que ainda lá está e só eu sei onde. Quando, num futuro distante, alguém a encontrar, espero que não conclua que ali houve um estádio desportivo...
Como resultado desta operação, aquele recinto desportivo nunca se chamou outra coisa, até porque o próprio presidente da Câmara da altura, José Figueiredo Fernandes (Farrica), não mandou colocar outra placa.

Ainda Guebuza

Esta viagem de Guebuza a Lisboa e o pré-acordo sobre a barragem de Cahora Bassa não deixou rasto. Ninguém se atreve a um comentário menos respeitoso, mais ousado. Está tudo de acordo. De acordo com o quê? Ninguém sabe. Eu acho que nem o próprio primeiro-ministro, que tanto e tão alto se congratulou com o tal pré-acordo, sabe exactamente o que fez ou o que vai fazer.
Sua Excelência, o Presidente da República de Moçambique, eleito pelo povo da sua terra em eleições que os observadores internacionais consideraram justas e livres (por isso, o nosso respeito), veio a Portugal com uma importante comitiva de empresários.
A grande maioria daqueles senhores representam empresas cujo proprietário é o próprio Armando Guebuza. É verdade que não chega ao ponto de Nino Vieira que vendia por um milhão de dólares cada viagem a Taiwan, mas que se está a servir do Estado a que preside para enriquecer pessoalmente, parece óbvio.
Serve-se do Estado para enriquecer e não só!
Assistimos ao ridículo de um oficial de diligências da presidência da República de um dos mais pobres estados do Mundo, todo engalanado de cordões dourados e outras bugigangas reluzentes, levar os papéis que Sua Excelência ia ler ao local apropriado num dos anfiteatros da Gulbenkian. A mesma excelência a quem Samora Machel dava chapadas porque, já ministro, fazia disparates, cometia atropelos, tinha pressa em ficar rico.
Serve-se do Estado para ridicularizar o seu próprio povo! Aquele protocolo... já nem o Bush usa.
Os senhores que andaram muito solícitos a apajar sua excelência, são os mesmos que daqui a alguns tempos vamos ouvir a verberar veementemente a chamada corrupção africana, "cuja" começa e acaba na Europa, em capitais como Londres, Paris e... e.... Lisboa.