sexta-feira, novembro 10, 2006

ANAIS

Para ser grande Afonso prendeu a mãe numa masmorra do castelo, em Guimarães. Bem que se esfalfou Pimenta Machado, por aquelas mesmas bandas, mas nunca deixou de ser pequeno. Pedro coroou uma defunta. Para se dar por ele, Vasco teve de navegar até à Índia. Há quem pense que Egas Moniz ganhou o Nobel para chatear Salazar. Spínola tinha monóculo, mesmo assim Almeida Santos não gostou dele. E quanta gente boa não terá passado ao lado da História?
Em 19 de Janeiro de 1976 eu completava 41 anos. Calma, calma, que não sou candidato, é só uma coincidência. Esbarrei num acontecimento, com essa data e, toca de me encostar. Nesse dia o Conselho da Revolução entendia nomear uma comissão de averiguação a casos de violência perpetrados contra presos sujeiros às autoridades militares.
Sobre a matéria a comissão redigiu um realatório. Não sei como esse então pouco divulgado documento, impresso pela Casa da Moeda, me chegou às mãos. Lembro-me, isso sim, de me ter merecido um comentário depreciativo, na altura muito na moda: «Afinal só mudaram as moscas!». Era, bem entendido, uma setença precipitada, própria de quem vira a existência, até então pacata, virada do avesso. Acabava de dizer adeus a África e recomeçava a ter de fazer pela vida, na minha terra natal, que reencontrava como território hostil.Um mais entre tantos
retornados e odiosos colonialistas.
Os portugueses não deixaram de ser portugueses por ter desabrochado uma revolução, quase
ridícula na sua ingenuidade bélica mas festivamente vitoriosa. Os «pides» ficaram quietos mas o espírito pidesco não desapareceu, limitou-se a mudar de coloração. O relatório que referi, assinado por: Henrique Alves Calado, Brigadeiro, que presidiu, José Júlio Galamba de Castro,ten. cor.Art., Rogério Francisco Tavares Simões,cap.frag.,Manuel José Alvarenga de Sousa Santos,ten.cor.pil-av. António Gomes Lourenço Martins,Juiz de Direito, Ângelo Vidal de Almeida Ribeiro, advogado, José de Carvalho Rodrigues Pereira, advogado, Francisco de Sousa Tavares,advogado, o relatório, ia dizendo, não deixou margem para dúvidas: tinha havido excessos vergonhosos.
Mas não tive razão na minha precipitada conclusão. Não tinham sido só as moscas a mudar!
O relatório era por si só a bandeira da mudança. O poder instalado permitira que se averiguasse, reconhecia os erros e assumia-os.
Abstenho-me de transcrever pormenores do Relatório porque o que me interessa sublinhar é a sua simples existência. Não se trata de um documento elaborado por uma facção contra outras. A lista de personalidades que constituiu a Comissão é elucidativa sobre a abrangência política. É estou em crer um documento histórico de incalculável valor humano e deve ter sido seguramente a primeira manifestação plural de democracia neste país, onde não me lembro se houve mais.
Foi precisa coragem. Oxalá a História não os deixe na penumbra...

2 comentários:

Manuel Neves Bancaleiro disse...

Tem um Blog interessante....
Hoje em dia a transmissão de conhecimentos e de opiniões através da blogosfera é algo que os poderes instituídos jamais conseguirão controlar.
Força...não nos deixemos manipular...independentemente de divergências ideológicas ...credos ou religiões.
Adicionarei o seu blog como link ao meu blog, se para tal me der autorização.

Obrigado
Podem ler-me em Manuel Bancaleiro - Algumas Verdades em:

http://manuel-bancaleiro.blogspot.com

Manuel Bancaleiro

JotaCê Carranca disse...

Pasei por aqui e gostei