sábado, dezembro 17, 2005

Artur Queiroz/Carlos Pacheco/Agostinho Neto

O "Público" da última quarta-feira, 14 de Dezembro, publica uma carta de Artur Queiroz como resposta a um texto que Carlos Pacheco publicou no mesmo jornal, com o título "Agostinho Neto: a sacralização de um déspota".
Não li o texto do Carlos Pacheco, mas o título é claro.
A carta de Artur Queiroz não tem a virtude da clareza. É de resto, uma enorme confusão, um retrato de uma personalidade sempre muito gongórica na afirmação do seu próprio papel e sem conseguir evitar, na escrita, a corrida atrás das palavras.
A pergunta sobre se Neto podia ser um ditador nas frentes de combate é uma figura de estilo. Neto nunca esteve nas frentes de combate. A ele competia-lhe fazer a administração dos apoios que o MPLA ia recebendo e, com o seu prestígio internacional, dar notícia da situação no país.
Quanto à distribuição dos apoios, havia o célebre caderno de papel azul onde ele inscrevia as verbas que dava aos comandantes. E só dava aos que se portavam bem, isto é, aos que pensassem como ele... (está prática foi transferida para a governação da República).
E, depois há as mortes estranhas de Hoji Ya Henda, com ferimentos nas costas e, posteriormente, elevado à condição de grande herói da Juventude; a da Camarada Deolinda, promovida, depois de assassinda em condições nunca esclarecidas e atribuídas a uma emboscada da FNLA, à categoria de inspiradora da OMA, a Organização da Mulher Angola. E ainda a notícia do atentado contra Joaquim Pinto de Andrade, em Brazzaville. E mesmo Lúcio Lara terá um lugar nessa lista de atentados.
E já depois do 25 de Abril, a morte do Comandante Gika, em Cabinda; a tentativa de liquidação de Chipenda, da qual resultou a morte de "Valódia"...
A chamada "política da maçã" podre era isso mesmo, a estratégia de um déspota que preferia "dar corda" aos adversários políticos e depois, na hora certa, liquidá-los fisicamente. Foi o que fez com Nito Alves, protagonista de uma dissidência cuja solução poderia ter sido política e acabou num verdadeiro banho de sangue e num contra-golpe ultra-fascista.
Queiroz estranha que se possa chamar ditador e déspota a um político com apenas quatro anos de poder. Ele estranha porque não esteve lá, a sofrer o poder único, de um homem único. Era interessante saber porque é que Artur Queiroz fugiu de Angola, tão cedo, quase logo a seguir à declaração da Independência.
Se ele lá tivesse estado teria percebido como é que Agostinho Neto barrou todas as iniciativas políticas, desmontou todo o sistema económico sem nenhuma alternativa, acicatou os vários racismos e se promoveu à condição de figura exclusiva da vida nacional. Desde presidente da República até reitor da Universidade, ele foi tudo. A sua fotografia estava em todo o lado, a começar pelas notas de Kwanzas, que foram apresentadas ao povo numa operação desenvolvida com grande mestria (desenhada pelo Saidy Mingas), mas que acabou num colossal roubo, já que os dinheiros arrecadados nunca foram devolvidos.
A carta de Queiroz tem algumas passagens pitorescas, coloridas mesmo, como aquela da dissolução da DISA. Neto mudou-lhe apenas o nome, tal como Marcelo Caetano fez com a PIDE. Neto foi ainda mais longe: não lhe chamava nada... E mais aquela do convívio diário com Agostinho Neto no bairro do saneamento. Terá sido por causa desse convívio que apareceu em Lisboa, no Página Um, quando em Angola se sentia a pressão do partido único, comandado por um homem único? Terá sido para recuperar esse convívio que em 1978 foi a Bissau pedir desculpa, não se sabe bem do quê, aos acessores de Neto, quando ele se foi encontrar com Eanes ?
Será a recordação desse convívio diário que o leva a afirmar-se convictamente como militante do MPLA, embora viva em Portugal há trinta anos?

4 comentários:

Anónimo disse...
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Anónimo disse...
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Anónimo disse...

com que então a eliminar os comentários das pessoas? SACANA e, mais do que isso, MARICAS!!!!

Anónimo disse...

o tal queiroz anda em portugal a enganar pessoas. não tem palavra, não tem honra, é o bandalho por excelência