terça-feira, abril 11, 2006

Não É Que Ele Tem Razão ?

O Jornal de Angola de hoje, na sua coluna "Opinião", publica, com o título "As Feridas da Liberdade" uma prosa que reconheço. O texto não é assinado, não me compete, por isso, dizer o nome do autor. Este reconhecimento permite-me,todavia, esclarecer que o texto é oficial.
Por outro lado, não me custa aceitar que desta vez, apesar de certos exageros de algumas generalizações ele tem razão. A Imprensa portuguesa é, normalmente, relativamente aos PALOP paternalista, intrometida, arrogante, desinformada e desinformante.
Reproduzo aqui o tal texto:
A visita oficial do Primeiro-Ministro português a Angola foi um êxito a todos os níveis e marcou o início de uma nova era de relações entre o nosso país e Portugal. José Sócrates e a sua delegação trouxeram um abraço de solidariedade e de amizade do povo Português ao povo Angolano. O diálogo franco e aberto que se estabeleceu entre os mais altos dirigentes dos dois países ajudou a enterrar velhos fantasmas e estabeleceu-se um clima de confiança. Estão criadas todas as condições para aprofundarmos uma relação fraterna, própria de povos que têm uma vivência comum de séculos.Por isso, dificilmente se compreende que muitos órgãos de Informação portugueses tenham desencadeado um coro de insultos contra os mais altos dirigentes angolanos e toda a espécie de mentiras sobre o nosso regime e as nossas instituições. Os fantasmas do colonialismo explicam muito deste comportamento. O racismo, numa primeira linha, responde por esta campanha bi-zarra. Mas a ignorância também joga um papel importante neste autêntico festival de mentiras e calúnias. Muitos líderes de opinião portugueses que se têm destacado nesta campanha caluniosa contra Angola e os seus governantes desconhecem em absoluto o nosso país ou apenas têm conhecimento dele pelas informações que lhes são oferecidas por centrais de intoxicação.Entre eles estão antigos turistas da Jamba que faziam parte da lista de pagamentos de Jonas Savimbi. Nesse grupo de comerciantes da honra está o caricato Director do Jornal “Público” que sem nunca ter posto os pés no nosso país destila em forma de escrita canhestra opiniões fundadas na ignorância e na provocação. Pelos vistos, há escribas que têm sempre um dono pronto a pagar-lhes. Ontem era Savimbi, hoje sabe-se lá quem é. Mas publicar opiniões sobre algo que não se conhece, é de um atrevimento inaudito. Portugal merecia melhor que estes indigentes mentais que publicam desvairados recados a troco de uns tostões. Que lhes façam bom proveito.Qualquer mentecapto compreende que levantar um coro de insultos contra o Presidente da República de Angola, contra os nossos governantes e empresários, não é um acto amistoso. Nenhum jornalista angolano, nenhum comentador, nenhum líder de opinião lembrou à comitiva portuguesa que o direito ao emprego faz parte do elenco dos Direitos Humanos. Ninguém se lembrou de investigar os governantes portugueses por terem permitido que crianças à guarda do Estado Português tivessem sido abusadas sexualmente. Ninguém fez a lista dos corruptos que, segundo magistrados portugueses, crescem como cogumelos à sombra do aparelho de Estado e estão a exaurir a riqueza de Portugal. O que aconteceria em Portugal se o tivéssemos feito?Ainda temos bem presente as reacções dos órgãos de Informação portugueses quando um dirigente angolano opinou sobre membros da família Soares. Não trataram de saber se as declarações eram verdadeiras ou falsas. Foram logo catalogadas de insultos e geraram ondas de indignação. A libertação de Angola das garras do colonialismo doeu a muita gente em Portugal. Ainda dói. Mas esses saudosos do colonialismo, esses racistas dementes, têm de se habituar, de uma vez por todas, que os angolanos são senhores do seu destino. E os partidos políticos angolanos, as nossas instituições não precisam de vozes de burros para se fazerem ouvir. Em Angola existe liberdade de expressão, ninguém precisa de voz de donos que ninguém sabe donde lhes vem a legitimidade democrática. A nossa vem da luta, do combate heróico contra o colonialismo e o fascismo.A nossa liberdade foi construída nos campos de batalha. Para conquistá-la, ficamos cheios de feridas e muitas delas, ainda estão abertas. A visita do Primeiro Ministro português a Angola ajudou a curar algumas. Será por isso que choveram os insultos e as calúnias contra o Presidente da República de Angola e os nossos governantes? A amizade entre os nossos povos tem muitos inimigos!

domingo, abril 09, 2006

BRASSENS AINDA

Sim, claro, bem me lembro. Mas, vê lá tu, meu alucinado amigo, o «meu» Brassens era portuga, melhor dizendo: o ouvia por estas bandas quase europeias. O meu tempo de África foi curto, uma dúzia de anos. Estive entretido a aprender a viver e a curtir os filhos que foram chegando. Ainda hoje acredito que terá sido em Angola onde estivemos melhor, onde fomos menos diferentes, fosse qual fosse a música. Recordo-me de uma vez que passei por Joanesburgo ter passeado com um garoto, filho de um casal sul-africano amigo, e de ter pedido ao miudo que perguntasse ao polìcia uma direcção qualquer, onde eu queria ir. O chui ficou hirto (o garoto era louro e o polícia preto) e olhou para mim. «Sou de Angola», disse-lhe. Ao «oh!» de espanto seguiu-se um sorriso aberto e um braço a apontar a direcção. A mão passsou ao de leve pelos cabelos do garoto. Afinal não era só eu que tinha aquela mania...
E posso acrescentar, sobre Brassens, que detestava polícias, simplesmente por serem polícias e até cantou isso com alguma frequência. Mas um dia...
Há sempre um dia. Um acidente de viação e o cantor muito ferido, com aparente paragem cardíaca e um polícia que se debruça e lhe presta respiração boca a boca e, talvez com isso lhe tenha salvo a vida.
E um Brassens recuperado não tardou a cantar a reconciliação. Não, claro, que ele precisasse de ser um bom cristão. Bastava-lhe cantar como cantava!
Não. No dia 18 não vou estar em Paris. Vou lá estar no fim do mês, uma semanita. Não se pode ter tudo!
É bom quando alguém fica na memória e é bom ter memória de gente como ele ou como Brel ou Otis Readding... E és capaz, Fernando, de me desculpar se eu incluir o Alfredo Marceneiro?
Tem piada que nunca falamos disto entre nós. Foi-nos bastando uma que outra das várias pequenas que foram tema. É verdade que nenhuma dessas cantava. Pois não, mas encantavam...
PS.
Desencantado fiquei eu quando a minha mais que tudo, que fala o francês bem melhor que eu, que nasceu e viveu em França, me advertiu que Brassens não teve acidente de viação. Teve acidente no palco, quando actuava, o que tornou o incidente ainda mais dramático....
o que me torna mais culpado pela negligência. No fim de contas sou (fui) jornalista português e o que é preciso é puxar pela notícia e ficar sujeito aos solavancos. Que me desculpem os puristas
E que me perdoem os que, como eu, creem que a memória não se perde. Pois não, altera-se. Fecunda-nos (no mau sentido)...

quinta-feira, abril 06, 2006

Sócrates em Angola

Há alguns temas para os quais "já não estou". Um deles é o da cooperação entre Portugal e os chamados "PALOP". Todavia, há dias em que, ouvindo os políticos da praça encartados de comentadores, acho que devo voltar à liça.

A viagem de Sócrates a Angola foi, para a imprensa portuguesa, não um "sucesso" - porque é palavra que os jornalistas de hoje não sabem contextualizar - mas uma "operação" bem montada, uma espécie de campanha eleitoral com um único resultado garantido - a vitória.

É engraçado!

Lendo a comunicação social angolana - aquela que pode ser lida - ficamos com a sensação de que esta foi mais uma viagem de um primeiro-ministro português que vai a Angola procurar estatura, credibilidade e - mais uma vez - defender a tese da inevitabilidade das boas relações entre os dois Estados e os dois povos.

O que os políticos de um lado e doutro dizem pode não ser mentira no campo das intenções, mas no domínio das realizações é uma miragem.

Primeiro, em Angola existe um Estado mas vários povos. O slogan "Um Só Povo, Uma Só Nação"não passa disso mesmo, de um slogan. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos anos, quando os povos que não têm acesso à Escola, à Cultura e ao consumo como as gentes de Luanda, perceberem que nem número fazem.

Depois, os portugueses que debitam hoje todos esses desejos, aparentemente legítimos porque fundamentados num legado histórico importante, desconhecem: a colonização portuguesa não foi desenvolvida de acordo com um plano de estado. Foram outros portugueses, com o seu espírito individualista e aventureiro que foram fazendo roças e mulatos, abrindo caminhos e construindo pequenos comércios e escolas. E Igrejas.

O Estado apareceu sempre na figura do chefe de posto que tanto levava o "índigena" para o contrato como chantageava o pequeno comerciante ou o pequeno fazendeiro.

A cooperação organizada estado-a-estado nunca resultará, sobretudo em Angola. Os não sei quantos empresários que foram a Luanda, foram, na grande maioria, passear. Alguns deles, os mais jovens, aproveitaram e mandaram as amantes noutro avião. Os mais velhos aproveitaram para ir ao Mussulo ver as mulatas. Os negócios, esses ficam para conversas reservadas, longe de Luanda e de Lisboa e nunca tratam do importante: um novo envolvimento entre as populações dos dois países, sem constrangimentos.

A ideia de enviar 200 professores portugueses para Angola até parece generosa mas vai revelar-se mais um desastre, um rotundo fracaso. Dir-vos-ia porquê, mas o MNE não me paga a consultoria e, como disse no princípio, há certos temas de que estou cansado.

terça-feira, março 28, 2006

"27 de Março"

É uma data que hoje, seguramente, passa desapercebida em Angola e apenas tem ressonância na cabeça das pessoas que a viveram. 27 de Março de 1976 foi o dia em que, oficialmnte, as forças da República Sul-Aricana passaram para o lado de lá da fronteira de Angola. Ainda assim ficaram em território que não era deles - o a Namíbia.
Em Angola comemorou-se no Lubango. Houve discuros. Lúcio Lara foi o convidado. Presidiu ao comício comemorativo. Aproveitou a ocasião para vergastar mais uma vez o governo de Portugal, nessa altura chefiado por Mário Soares, por não ter ainda reconhecido o governo de Angola.
Todavia, o pormenor mais significativo desse comício foi o grito do então Comissário Provincial da Huíla, Emílio Braz: "Viva o Povo Nhanheca Humbe!". Era o "nitismo" na sua expressão mais ingénua a manifestar-se. Lúcio Lara fingiu que não percebeu.

segunda-feira, março 27, 2006

A Propósito... Os Mucubais

Carlos Narciso, no seu blog "Escrita em Dia", a propósito do meu texto sobre bosquímanes, lembrou-se de uma estória passada nas faldas da Serra Chela com um grupo de homens "em tronco nu", que exigiam a uma escolta militar do MPLA tão só que lhes pedissem autorização para atravessar o seu território.
Uma vez que foram "os meus" Bosquímanes a suscitar esta recordção ao CN, é bom esclarecer que aquele grupo de homens semi-nus não eram Bosquímanes. Só podiam ser Mucubais.
Já agora, a propósito do texto do "Escrita em Dia", recordo aqui este povo, guerreiro e pastor , que mantém a respeito do seu "território" um sentimento de pertença muito acentuado. Daí a minha conclusão, relativamente ao grupo que travou o CN e a sua escolta militar.
Ora, o território "mucubal"estende-se pelas encostas da Serra da Chela, entra pelo Deserto do Namibe e chega muito perto do Chiange, Serra abaixo. As suas relações com o povo Nhanheca Humbe , a que pertencem os camponeses da Huíla sempre foram complicadas.
Na chamada "guerra de 39" os portugueses derrotaram pesadamente os Mucubais e confinaram-nos à Chela e ao Deserto, deixando o Planalto para os povos camponeses. Nunca esqueceram esta derrota.
Quando, em 1975, os sul-africanos invadiram Angola, tentaram, depois de terem construído a sua rectaguarda no Lubango, fazer a ligação com Moçâmedes, sem o conseguirem, porque os Mucubais, ao perceberem que havia um guerra de "brancos contra negros", se aliaram aos negros e - uma curiosidade - com a ajuda de um português que havia fugido do Hospital com a ajuda do médico, dr. Garcês Palha e do Padre Jorge, secretário do então Bispo da Huíla, impediram que tal ligação se fizesse.
Farrusco, um operário da Fábrica de Cervejas N'Gola, ex-comando do Exército Português, foi aceite pelos Mucubais e, juntos, fizeram gorar os planos dos "carcamanos".
No final desta primeira fase da guerra, vencidos que foram os sul-africanos, os Mucubais decidiram colher os benefícios de terem estado ao lado dos vencedores e principiram a roubar o gado aos M'Huilas, sobretudo aos que viviam mais próximo da Serra.
Por outro lado, ao serem recrutados para o Exército angolano em formação, não aceitavam ficar nos quartéis. Recebiam as armas e rumavam para as suas casas. Não são integráveis num grupo com gente de outros lados, de outras etnias...
O MPLA, sem saber com o que estava a lidar começou a reprimir aquilo que eles consideravam os seus justos anseios, que eram os de recuperar o prestígio e a riqueza perdidos em 39 contra o exército dos brancos (os portugueses de então).
O desconhecimento do MPLA relativamente aos Mucubais era de tal forma que, em Outubro de 1976, quando Agostinho Neto visitou pela primeira vez o Lubango, houve dois incidentes curiosos.
O primeiro teve a ver precisamente com o então Presidente da RPA. Havia uma reunião marcada para as 14H30 com um grupo de quadros do MPLA do Lubango. Esperámos até às 16H30.
À entrada do palácio do Governador (então chamado Comissário) esteve durante todo este tempo uma delegação de Mucubais, para ser recebida por Agostinho Neto. Queriam colocar-lhe as suas questões específicas e dizer - muito naturalmente para eles - que a guerra tinha sido ganha pelo seu povo.
O Presidente desceu as escadas, aproximou-se da delegação , com os seus turbantes vistosos e braços cruzados sobre o peito, sempre de olhos erguidos, e pediu a um dos seus seccretários que retirasse da pasta a máquina fotográfica. E então, perante a estupefacção de alguns de nós, acercou-se do grupo para que lhe tirassem uma fotografia. Comportamento igual ao de qualquer turista impressionado com o ar "exótico" do grupo.
Neto nem os ouviu, seguiu para a reunião. Um dia destes falarei desse acontecimento.
O outro incidente aconteceu no dia seguinte, durante o comício presidido por Neto. Quando algém ia começar a falar foi interrompido por uma voz imperativa que vinha da assistência. Era um mucubal que ordenava à sua gente que se aproximasse da tribuna, já que eles eram os vitoriosos, tinham sido eles a ganhar a guerra contra os sul-africanos.
Houve um burburinho, com a multidão a agitar-se e o numeroso grupo de Mucubais que ali estava ocupou, sem cerimónia, as primeiras filas da assistência. Só depois disso o comício principiou.
Com o andar do tempo, as relações MPLA/ Mucubais deterioraram-se significativamente e julgo saber que ainda hoje não são brilhantes, apesar de o poder ter recorrido algumas vezes à força das armas.

terça-feira, março 21, 2006

Bosquímanes de Angola

Há um povo em África, que se chama a si mesmo o Povo de Sahn ("Povo de Deus"), com múltiplas designações, de acordo com a zona que habitam (ou habitavam), ou, mais propriamente, por onde circulavam, mas que pode ser identificado de uma forma reconhecida, não só em toda a África, como fora dela: os Bosquímanes.
No Botswana, cujo presidente considerou os bosquímanes "povo de segunda", esta gente está a ser expulsa das terras dos seus antepassados com o pretexto de nelas serem instalados parques de caça para turistas se divertirem com a morte dos animais selvagens, uma das fontes de subsistência dos bosquímanes.
África não está nem aí para a luta deste povo de gente nómada, com hábitos alimentares estranhos, com deuses ainda mais estranhos, com uma língua difícil, mas com uma grande capacidade de serem solidários uns com os outros.
Lembro-me de, há alguns anos, quando deambulei pelos matos do Cuvelai com um grupo deles ,da necessidade de passarmos longe das sanzalas dos membros de outros grupos étnicos, para não sermos corridos à pedrada ou à frente dos cães que também pareciam detestar aqueles homens e mulheres pequeninos e amarelos, mal vestidos e sempre à procura de raízes para se alimentarem ou de algum animal, mesmo morto, para uma refeição mais suculenta.
A propósito desta perseguição levada a cabo pelo Botswana aos bosquímanes lembrei-me dos trabalhos do Padre Carlos Esterman sobre este grupo humano e dos mapas da sua localização, sobretudo no Sudoeste de Angola, embora a sua presença fosse assinalada também mais para Leste.
Lembro-me, igualmente, de que os sul-africanos os utilizaram como pisteiros para a invasão que fizeram de Angola, em Outubro de 1975.
Espero que esta lembrança - naturalmente retida na memória de muito mais gente - não tenha nenhuma influência no modo como em Angola se cuida da segurança e, sobretudo, da sobrevivência dos Bosquímanes angolanos, que não se tenha alinhado pela classificação do presidente do Botswana.

domingo, março 12, 2006

Mais de Trinta Anos Depois

O Jornal de Angola, na sua edição "online" de hoje, destaca na primeira página a intervenção do secretário geral do MPLA durante "o primeiro encontro dos comités de acção de Luanda do MPLA", Dino Matross.
Não consegui evitar um estremecimento, mesmo tendo feito uma leitura displicente do texto. De resto, para confirmar a impressão inicial tive mesmo que me esforçar para o ler todo, com a esperança de me ter enganado num primeiro momento.
Nada. Nenhum engano; mais de trinta anos depois, os dirigentes do MPLA - Dino Matross já o era em 1974 - não conseguiram mudar o discurso. As mesmas banalidades de sempre, ditas com as mesmas "palavras de ordem".
Não se vislumbra uma ideia política, a indicação de um objectivo concreto, de um caminho limpo a seguir.
O jornalista que escreve o texto é, claramente militante. Ele próprio ajuda à festa da banalidade: "Dino Matross apontou as grandiosas tarefas da consolidação dos resultados alcançados com a conclusão da primeira fase do processo de reorganização das estruturas do MPLA".
E mais à frente; "João Paulo referiu que coloca-se agora a tarefa de adequar a mensagem política do MPLA ao imperativo de responder, de forma clara, objectiva e oportuna, às necessidades, inquietações e anseios das populações e de agir no sentido de resolver os problemas fundamentais".
Meu Deus!
Se estas palavras tivessem a capacidade de resolver alguma coisa, Angola já estaria a ocupar a posição que lhe compete em África e no Mundo.
O pior é que os protagonistas continuam os mesmos e os problemas do povo muito semelhantes, muito embora se vá falando num crescimento encómico espantoso no país. E os resultados estão a beneficiar quem?

quarta-feira, março 08, 2006

Seca na Huíla (Comentário)

O Camarada Fernando Alves referiu aqui no nosso blogue a questão da Seca na Huíla, noticiada no Jornal de Angola e referida pelo ministro da Administração do Território numa linguagem que faz lembrar os burocratas de Bruxelas ou do raio que os parte - burocrata é burocrata, ponto final.
Este senhor ministro que foi "ver in loco" - uma fórmula que todos os bons "locutores" angolanos aprenderam - a desgraça dos - segundo eles - 600 mil camponeses - diz que a situação ainda não é de catástrofe.
Não o seria se ele e o governo dele e já agora o governador da Huíla, um ex-futebolista, cujo passatempo de agora é colecionar dinheiro fora do país, tivessem uma solução.
É que a seca na Província da Huíla vem de há anos, repete-se ciclicamente e cada vez com mais intensidade, porque a concentração das populações leva a um sistemático abate de árvores para fornecimento de lenha e de carvão, a primeira para suprir as necessidades das populações locais e o segundo para venda nos grandes centros urbanos.
Este fenómeno - é evidente - combate-se com medidas de lonmgo prazo, como sejam o fornecimento de combustíveis alternativos, Onde estão eles, na Huíla?
Depois, há o crescimento do número de cabeças de gado, um fenómeno com uma componente política muito forte e que o MPLA urbano não tem capacidade para resolver.
Com a destruição do sistema colonial, que nos últimos anos tentava incorporar no sistema comercial os criadores tradicionais de gado, para quem a posse de um maior número de cabeças de gado significa sobretudo um estatuto social mais elevado e, por isso, mais compensador, tudo voltou ao princípio.
Só se matam - para as festas( casamentos, óbitos, mufikos, etc.) bois velhos. Os outros deixam-se envelhecer e o parque vai aumentando de tal maneira que não há - não pode haver - capim para todos.
Este é um problema muito complicado, mas não se fica pela Huíla, ele vai mais para Sul, para o Cunene ( há por aí uns cuanhamas que talvez queiram ir ajudar...) , onde o capim é de outra espécie e se reproduz por semente. Isto quer dizer que, mal chovem as primeiras pingas, o capim rebenta e as enormes manadas de gado irrompem por aí fora trasnformando tudo em campos de futebol de terra batida.
O problema da seca da Huíla tem anos. Lembro-me das minhas angústias sobre se ia ou não chover, sobre se já tinha começado a chover na Chibia, na Cahama, na Humpata, em Quilengues, em Caluquembe. E a cada notícia de chuva era o sorriso, partilhado por toda a gente, que, embora vivendo na cidade, de ocupações marcadamente urbanas, como era a minha, sentia a terra a embebedar-se com a água que lhe caía do céu.
Ainda hoje não percebo os homens da Rádio e da Televisão em Portugal para quem "bom tempo" é "tempo de praia". Ora, a verdade é que há um "bom tempo" com chuva, com neve, com frio.
Oh! Fernando! obrigas-me a um grande esforço de rememoração - dolorosa, em alguns aspectos.
Houve anos em que quase rezámos para que chovesse. Um dia, de um ano qualquer, mas seguramente, lá para Fevereiro ou Março, eu e o Leonel Cosme - trabalhávamos juntos no Rádio Clube da Huíla - saímos disparados numa carrinha citroen que ele tinha para ver a chuva encher os rios da Mapunda, o Tchipunpunhimi e outros. Lembro-me ainda da nossa felicidade por verificarmos que, finalmente, a terra ia ser apaziguada e as populações poderiam fazer as suas vidas tranquilamente, com alguma confiança nas colheitas.
A Huíla é uma Terra de camponeses: foi isso que eu disse ao Lopo do Nascimento quando ele, armado em primeiro-ministro, foi ao Lubango anunciar a nacionalização do pequeno comércio. Avisei-o, aos murros em cima da longa mesa da Associação Comercial: "dentro de pouco tempo vamos ter a cidade invadida pelos camponeses a perguntar quem lhes compra o milho os bois, a massambala, o massango, as peles e tudo o resto".
" Por razões políticas..." dizia ele, temos de nacionalizar. E eu respondia: "por razões políticas não podemos nacionalizar".
As "razões políticas" dele eram umas - as instruções da URSS - e as minhas eram outras - o interesse do povo camponês da Huíla.
Mais tarde, ao serviço do nosso jornal, Fernando, voltei à Huíla, fui mais abaixo a um território que, de resto, fez parte, durante muitos anos do "Distrito da Huíla" e que eu conhecia bem por ter lá vivido cerca de um ano: Chiange ( terra de perdizes) e Cahama. Levou-me um jovem licenciado da República da Tchecoslováquia em engenharia pecuária ( que coisa será esta?), que não conhecia a região e não estava preocupado com porra nenhuma. Estava fascinado apenas com o facto de lhe terem dado um "jeep" com zero quilómetros para me levar ao Chiange.
Era Janeiro de um ano qualquer. Ainda não fim de mês e o responsável político máximo da zona confidenciava-me o horror de uma seca que se anunciava, uma vez que ainda não tinha chovido uma única vez. Fui ouvindo as desgraças, tirando fotografias dos terreno pelados e dos bois mortos plantados por entre espinheiras.
Durante uma merenda servida na casa do administrador do sítio, a mesma casa que tinha sido habitada pelo anterior secretário da administração colonial, o Eduardo Vitória Pereira, fiquei a saber que aquela gente era de Malange, não conhecia a região e nem sequer sabia que ali, no Chiange, começava a chover no fim de Janeiro. E depois não parava mais.
Descobri rapidamente a razão por que me tinham convidado a fazer ali uma reportagem: os cubanos ( que haviam construído uma base aérea na Cahama e tinham feito um monumento verdadeiramente estranho, porque escreveram numa placa de pedra uma carta de Fidel de Castro aos "combatenmtes cubanos" ) abandonaram a região e os criadores tradicionais voltaram com o seu gado, entretanto multiplicado nas terras mais para o Sul.
Os bois chegaram e derrotaram todo o capim, portanto, mesmo antes de a época das chuvas ter o seu início habitual, já o gado morria.
É um fenómeno semelhante ao que aconteceu na Etiópia. Os bois ocupam o lugar das pessoas, a chuva não chega, porque, entretanto, as florestas são derrotas e o deserto vai-se instalando, perante os braços cruzados de ministros balofos, convencidos de que o Mundo vaio continuar a ser movimentado com petróleo.
Neste episódio do Chiange havia ainda um outro pormenor de política pura: o MPLA tinha receio de que a UNITA ocupasse as posições abandonadas pelos cubanos e queria chamar as organizações das Nações Unidas para tomar conta da região.
Simples...
Espero que por detrás das declarações deste Fontes Pereira a quem, obviamente, falta o Melo e , com o diz o Fernando, a capacidade para montar tenda, não estejam outras intenções escondidas e que seja dispensada aos camponeses da Huíla - um povo que muito me ensinou e a quem muito devo - toda a ajuda para que eles possam continuar a ser camponeses na sua terra.
Desejo ardentemente que um país produtor de petróleo, como Angola, não esteja a tentar construir uma situação de catástrofe no Sul do país e não tenha mecanismos institucionais para mobilizar os recursos indispensáveis à concretização de uma política de solidariedade nacional - que não passse pelos vários caciques predadores que existem entre o aparelho do estado e o povo - para, posteriormente, mobilizar a chamada solidariedade internacional.

sábado, março 04, 2006

África e os Compromissos

Toda a África se movimenta hoje segundo esquemas de organização capitalista. As ideias do socialismo, do comunismo e outras, desapareceram. Os Estados africanos aderiram clara e notoriamente à ideia das leis do mercado, a que, em muitos casos - eu diria, na maioria - sobrepoêm a lei dos mais fortes, dos mais influentes, dos homens que, dominando o aparelho de estado, dominam os negócios e atropelam todas as regras, esquecem todas as leis.

Muitos deles fizeram a marcha da libertação, da conquista da Independência, servindo-se de ideias generosas de igualdade, fraternidade, "a terra a quem a trabalha", eu sei lá, coisas que Marx escreveu, Lenine adulterou e Staline amachucou.

Todavia, essas ideias deram para reunir gente, construir grupos de lutadores, levar a bom termo guerras contra os ocupantes que" só praticavam injustiças".

As regras do capitalismo, tal como ele nasceu, estavam, todavia, sujeitas a a uma ética muito escrupulosa, muito rígida, baseada nos princípios dos cristãos protestantes, para quem a palavra dada era um contrato assinado.

Estes princípios passaram ao lado da maioria dos homens que, entretanto, foram aparecendo a dirigir os novos estados africanos e a substituir as velhas ideias generosas de igualdade, fraternidade e outras "balelas" pela do lucro.

Pior ainda: comportam-se como se a palavra compromisso não existisse, como se os contratos assinados de nada valessem. O que conta são eles, os seus projectos, mesmo que não sejam pessoais. Quando precisam de alguma coisa concordam com todos os compromissos, quando deixam de precisar esquecem e nem aparecem.

Este não é um bom caminho. Este comportamento será a ruina de ÁFRICA, sobretudo se alguns dos Estados que até aqui constituiam a grande excepção, adoptarem a regra geral que é a de não pagar os compromisos assumidos.

quarta-feira, março 01, 2006

Emílio Braz

A propósito da demissão do general Fernando Miala do seu poderoso cargo de chefe dos serviços secretos de Angola, ocorreu-me a estória de Emílio Braz, meu velho amigo e combatente do MPLA desde a primeira hora. Era natural de Jau, um aldeamento perto do Lubango e, tal como todos os chefes africanos, quando chegou ao lugar de Comissário da Huíla,mandou fazer uma estrada directa da capital da província à sua terra natal.
Era daqueles militantes habituados às inúmeras horas das reuniões políticas do MPLA. No meio batia um "cochilo" e, quando acordava, dava logo opinião sobre o assunto em discussão.
Foi o único "quadro" que o MPLA mandou para o Sul de Angola, logo após o seu reconhecimento legal como partido político (movimento de libertação). Tinha tirado um curso de ajudante de veterinário na União Soviética e a sua última missão na guerrilha tinha sido "tomar conta dos burros que transportavam o armamento pesado".
Como o MPLA tinha relativamente ao Sul a ideia de que era território de reaccionários e racistas, mandou para lá o Emílio Braz.
A verdade, todavia, é que o Emílio pensava bem e pensava, de uma forma geral, ao lado do seu povo.
O mal foi o poder. Com a fuga para Luanda, face à invasão sul-africana, Emílio Braz, na capital, ficou ao alcance da influência de Nito e Alves, regressou ao Lubango e, pouco tempo depois, foi nomeado comissário provincial (governador). Aí começaram os disparates: casamento com uma jovem conterrânea, com cântigos e danças na Sé Catedral, a estrada para o Jau e o completo distanciamento do povo para se virar, decididamente, ao lado das forças nitistas contra os brancos, mulatos, etc.
Com a tentativa falhada de golpe de estado do Nito Alves, Emílio Braz escapou a mortandade porque se escondeu durante uns tempos, tendo aparecido anos mais tarde, já não como militante do MPLA, já não com funções ao nível do Estado, mas como comerciante de carvão.
Foi nessa condição que o reencontrei muitos anos depois, no meu primeiro "regresso" ao Lubango. Depois de uma longa conversa, recordando tempos antigos, ele lembrou-me uma velha máxima: " no MPLA é sempre assim, umas vezes está-se em cima, outras em baixo".
Foi também nesse dia que soube que José Eduardo dos Santos tinha estado no Lubango precisamente no dia 27 de Maio de 1977. A fazer o quê? Ninguém soube explicar.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Eleições em Cabo Verde - Sempre a Mesma Coisa

Na última sexta-feira, o Supremo Tribunal de Justiça de Cabo Verde decidiu pela improcedência das impugnações das leições legislativas e presidenciais, apresentadas pelo MpD e por Carlos Veiga contra, respectivamente, as vitórias do PAICV e Pedro Pires.
Como sempre, o MpD e Carlos Veiga (já repararam no minúsculo "p" da sigla?) usam de estratégias administrativas para tentar ganhar na secretaria o que perderam no terreno da luta política.
E que conseguiram eles? Parar o país durante quase um mês . Sobre esta paragem há já muita gente a queixar-se e as consequências em alguns sectores podem ser graves. Em Cabo Verde há mesmo gente que já nem sequer atende os telefones.

sábado, fevereiro 25, 2006

Miala

A notícia vem de Luanda. Em Lisboa passa ao lado do noticiário normal. Os jornais existem para pentear meia dúzia de macacos, que se olham e reolham ao espelho antes de sair de casa.
O Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, demitiu o seu chefe dos Serviços Secretos, o General Miala, acerca de quem se dizia que não havia negócio em Angola que não passasse por ele. Ou, que era um pretendente ao cargo do ZéDu.
A demissão foi anunciada em comunicado da Presidência da República e a esta hora há muita gente a transpirar - é que, em Luanda, está um calor danado.
Não se sabe ainda quem será o substituto de Miala. Seguramente será alguém muito jovem. Vai uma aposta?

O TEMPO E O MODO

O título não é original, o tempo também não e eu ainda menos. Passei uns dias fora. Revi amigos e recantos onde vivi uns anos feliz. Nada de muito distante, uma noite de comboio lento, mas confortável, bastou. Deu para ver como se multiplicaram as lojas chinesas. São muitas, são! Mas são discretos, os chineses das lojas. Aceito que, afinal, não são todos iguais. Sobretudo as mulheres que, pelos vistos, aceitaram tornar-se atraentes.
Vi imensos ingleses a beber cerveja, a cantar e a partir vidros das portas de café-cervejarias. Quando era mais novo, caramba, meus, muito mais novo, conheci uma inglesa que me explicou que os ingleses só «faziam ao sábado», porque tinham semana inglesa, o que os obrigava a embebedar-se à sexta, cumprir o dever ao sábado e descansar ao domingo para enfrentar a semana. Não se podia contar com eles aos sábados, mas nos outros dias da semana, mesmo que fosse domingo, era uma alegria!
À noite os ingleses ganharam ao Real causando uma real desilusão ao madrilenos. Palpitou-me
que, desta vez, seria Mourinho a pagar a factura. E regressei a tempo de ver...
Mas vi também que o meu país tinha evoluido. Sexo escaldante irrompia através da imprensa , em grande e á francesa! É verdade que nada de muito novo, salvo a terminologia pura e dura. Mas como qualquer saloio inveterado, choquei-me mais pelas palavras do que pelos actos. Mas diverti-me bastante pelo excesso de machismo do escritor escandalizado pela audácia libertina
da cronista, que pôs o preto no branco (salvo seja!) que as mulheres fingem, na cama, mais do que se pensa. Fingem um prazer que não sentem ou que não se lhes soube dar. E é aqui que se sobressalta o machismo, receoso de lhe ser avaliada a competência!
Vá lá, vá lá! não se zanguem uns com as outras e vice-versa. É a falar, ou a truca-trucar, que o maralhal se entende.Quanto mais se falar melhor se compreende. Mas reconheço que falar de cama, com terminologia latina não faz ponta. E um pouquinho de fingimento ajuda e estimula,
como cantou o poeta «... que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente».
Lembro outro poeta, quando durante uma noite orgíaca se falou do beijo divino e ele contou de um conterrâneo, que se gabava de manhã: «todos os dias aparecem feitos, na Madeira, 200 minetes. Eu faço dois. Quem faz os outros?» A grosseria abre caminho e ainda bem, é mais estimulante, sobretudo quando se afirma e mais ainda quando a afirmação surge da ala feminina,
muito mais desinibida, mais consistente, não se limita a falar entre muros, escreve. Um pontapé na ética, nos costumes. Convenhamos que é mais estimulante e ousado que forjar gravuras.
Sobretudo porque foi possível debater sexo sem a componente poética ou amorosa. Com gritinhos a sério ou a fingir o sexo é para usar e o amor para se fazer. A questão que sobra é saber quem e como poder dar a machadinha no matrimónio...
Entretanto cada qual faça o que pode, como puder e onde puder. E toca a fingir que se faz tarde...

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Mwanawasa Não Desiste


Zambie : nouvelle inculpation de Chiluba - 15/2/2006
L’ancien président zambien Frederick Chiluba comparaîtra à partir de jeudi pour une nouvelle inculpation concernant le détournement de 507 millions de dollars (426 millions EUR) de fonds publics, a annoncé mercredi un procureur.

Chiluba, qui a dirigé la Zambie de 1991 à 2001, a plaidé non coupable lorqu’il a brièvement comparu une première fois mardi dans ce dossier, a précisé le procureur Mutembo Nchito. "Nous avons dû actualiser le dossier en fonction de nouveaux chiffres. Nous les avons révisés et le procès commencera jeudi", a-t-il déclaré.

Chiluba avait été jugé en décembre 2003 pour détournement de fonds publics, mais les procédures s’étaient enlisées et il avait été relaxé en septembre 2004. Il avait cependant été à nouveau inculpé depuis.

Chiluba est mis en cause avec plusieurs de ses anciens collaborateurs, dont l’ex-directeur des renseignements, Xavier Chungu, qui a fui le pays.

L’ancien président est interdit de sortie de territoire jusqu’à l’issue de son procès.

Le gouvernement a également engagé une procédure civile contre Chiluba et 17 anciens fonctionnaires devant la justice britannique pour le détournement de 13 millions de livres (23,3 millions USD/19,1 millions EUR).

La Haute cour de Londres a ordonné en novembre 2004 le gel des avoirs de l’ancien président et de 14 de ses collaborateurs.

La procédure contre Chiluba a été lancée depuis l’arrivée au pouvoir de son successeur, Levy Mwanawasa, qui a nommé une équipe spéciale pour enquêter sur la corruption et les détournements de fonds durant les dix années précédentes.

Zambie : nouvelle inculpation de Chiluba - 15/2/2006
L’ancien président zambien Frederick Chiluba comparaîtra à partir de jeudi pour une nouvelle inculpation concernant le détournement de 507 millions de dollars (426 millions EUR) de fonds publics, a annoncé mercredi un procureur.

Chiluba, qui a dirigé la Zambie de 1991 à 2001, a plaidé non coupable lorqu’il a brièvement comparu une première fois mardi dans ce dossier, a précisé le procureur Mutembo Nchito. "Nous avons dû actualiser le dossier en fonction de nouveaux chiffres. Nous les avons révisés et le procès commencera jeudi", a-t-il déclaré.

Chiluba avait été jugé en décembre 2003 pour détournement de fonds publics, mais les procédures s’étaient enlisées et il avait été relaxé en septembre 2004. Il avait cependant été à nouveau inculpé depuis.

Chiluba est mis en cause avec plusieurs de ses anciens collaborateurs, dont l’ex-directeur des renseignements, Xavier Chungu, qui a fui le pays.

L’ancien président est interdit de sortie de territoire jusqu’à l’issue de son procès.

Le gouvernement a également engagé une procédure civile contre Chiluba et 17 anciens fonctionnaires devant la justice britannique pour le détournement de 13 millions de livres (23,3 millions USD/19,1 millions EUR).

La Haute cour de Londres a ordonné en novembre 2004 le gel des avoirs de l’ancien président et de 14 de ses collaborateurs.

La procédure contre Chiluba a été lancée depuis l’arrivée au pouvoir de son successeur, Levy Mwanawasa, qui a nommé une équipe spéciale pour enquêter sur la corruption et les détournements de fonds durant les dix années précédentes.

Zambie : nouvelle inculpation de Chiluba - 15/2/2006
L’ancien président zambien Frederick Chiluba comparaîtra à partir de jeudi pour une nouvelle inculpation concernant le détournement de 507 millions de dollars (426 millions EUR) de fonds publics, a annoncé mercredi un procureur.

Chiluba, qui a dirigé la Zambie de 1991 à 2001, a plaidé non coupable lorqu’il a brièvement comparu une première fois mardi dans ce dossier, a précisé le procureur Mutembo Nchito. "Nous avons dû actualiser le dossier en fonction de nouveaux chiffres. Nous les avons révisés et le procès commencera jeudi", a-t-il déclaré.

Chiluba avait été jugé en décembre 2003 pour détournement de fonds publics, mais les procédures s’étaient enlisées et il avait été relaxé en septembre 2004. Il avait cependant été à nouveau inculpé depuis.

Chiluba est mis en cause avec plusieurs de ses anciens collaborateurs, dont l’ex-directeur des renseignements, Xavier Chungu, qui a fui le pays.

L’ancien président est interdit de sortie de territoire jusqu’à l’issue de son procès.

Le gouvernement a également engagé une procédure civile contre Chiluba et 17 anciens fonctionnaires devant la justice britannique pour le détournement de 13 millions de livres (23,3 millions USD/19,1 millions EUR).

La Haute cour de Londres a ordonné en novembre 2004 le gel des avoirs de l’ancien président et de 14 de ses collaborateurs.

La procédure contre Chiluba a été lancée depuis l’arrivée au pouvoir de son successeur, Levy Mwanawasa, qui a nommé une équipe spéciale pour enquêter sur la corruption et les détournements de fonds durant les dix années précédentes.
Lendo a Agência Afrique Central ficamos a saber que Mwanawasa, o actual presidente da Zâmbia não desiste de tentar inculpar o seu antecessor, Frederik Chiluba, bem como membros do seu gabinete, nomeadamente Xavier Xungu, ex-chefe dos serviços secretos da Zâmbia e que, entretanto, continua a ser procurado pelos homens de Mwanawasa, que já foram, inclusivé, a Angola, pressionar o governo local para lhe entregar Xungu, depois que este deu uma entrevista ao semanário "Angolense". Xungu nuna esteve em Angola depois que saiu de Lusaka.
A fúria de Mwanawasa pode vir a ter consequências trágicas, tanto para Chiluba, entretanto, impedido de sair do país, como para Xungu.
Talvez fosse bom que a comunidade internacional ficasse mais atenta ao que se pode passar na Zâmbia nos próximos tempos...

domingo, fevereiro 19, 2006

As Diferenças Assustadoras

Fala-se cada vez mais em globalização, uma palavra que já entrou nos dicionários de todos os vendedores e serve de bengala a todos os negócios.
A palavra é, todavia, perigosa, porque pode ser encarada sob vários prismas. A globalização financeira está feita, ou quase. O capital cada vez menos tem pátria e os capitalistas já vendem as respectivas mães a prestações.
A globalização das tecnologias está, sob o ponto de vista dos consumidores ainda muito distante e a dos produtores não existe, não se fala dela e não faz parte dos planos de quem detém as respectivas capacidades.
A globalização das mercadorias, consideradas de uma forma geral, está a caminho, mas com um cada vez mais acentuado desiquilibrio para o lado de quem apenas tem matérias primas em favor dos que produzem manufacturas.
A globalização das pessoas está a fazer-se à força. O velho conflito Norte/Sul, a que muito boa gente chamou diálogo, acentua-se e o velho paradigma Europa, que se tem olhado a si mesmo de uma forma arrogante começa a ficar cercado, não apenas pelas globalizações financeira, tecnológica e de mercadorias, mas sobretudo pelo desejo de globalização das pessoas.
O Mundo começa a ficar virado do avesso - eu diria mesmo - perigoso, porque a chamada "falta de valores" está a dar lugar a um "excesso de valores" e, quer uma, quer outra forma, não resolvem as questões fundamentais do nosso tempo, que têm, sobretudo a ver com as asssutadoras diferenças que se têm vindo a acentuar entre os vários mundos.
Uma delas é, por exemplo, sobre a capacidade de produzir informação entre o Norte e o Sul. O abismo que se cavou é tão grande que até dói.
Num destes últimos dias recebi de um amigo um exemplar de um jornal que se publica em Angola e a seu propósito escrevi um post que era mais um grito do que outra coisa. Eu bem poderia ter explicado as razões dos termos usados , bem como os motivos da utilização dos nomes das pessoas que nele apareceram, mas acho que não vale a pena. Embora aquelas pessoas tenham responsabilidades na actual situação, elas não conseguem, tal como eu, ultrapassar a sua condição de vítimas.
Preferi fazer "delete"... mas que o jornal é mau, é, que só daqui a muito tempo vão conseguir fazer melhor, é verdade. Por isso me apetece gritar!!!

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

E Vão Cinco

No seguimento da saudação que fiz ao Comandante Pedro Pires, de novo, por mérito próprio, através de uma eleição democrática, Presidente da República de Cabo Verde, aqui vai o meu abraço para o Maurício de Carvalho e para a sua equipa, responsável pela concepção e execução da campanha para as legislativas, ganhas com maiora absoluta pelo PAICV e responsável pela concepção e concretização dos tempos de antena da campanha de Pedro Pires.

Com estas duas somam já cinco as vitórias eleitorais que Maurício de Carvalho conseguiu em Cabo Verde, desde 2001.

Aqui está um facto relevante, já que, tanto em 2001 como em 2006, a Textimédia, de Maurício de Carvalho, teve adversários poderosos. Por exemplo, a equipa responsável pela campanha de Carlos Veiga foi a mesma que venceu as presidenciais em Portugal.

Bravo Maurício!

BRAVO, COMANDANTE

Da Cidade da Praia, chegam notícias da vitória da recandidatura de Pedro Pires à Presidência da República de Cabo Verde. Aqui estou, por isso, a regozijar-me com o facto e não apenas porque tenho a honra de me considerar seu amigo pessoal, mas porque reconheço nesta vitória a justiça que o Povo Cabo-verdiano lhe deve.
Pedro Pires pertence a uma pleíade notável de dirigentes africanos, particularmente de Cabo Verde, que lutou pela independência da sua terra, que a reconstruiu e, depois, a entregou ao povo, sujeitando-se de motu próprio - já que foi ele a promover as condições para tal - a eleições livres e justas, das quais saiu vencedor por duas vezes.
E sempre contra o mesmo adversário. Que não lutou por nada e apenas aproveitou aquilo que os outros construiram para enriquecer, a ele e aos amigos.
As sucessivas derrotas de Carlos Veiga significam, por um lado, que os cabo-verdianos estarão, finalmente, livres dele - não acredito que volte a candidatar-se ao que quer que seja - e, por outro, uma verdade: só conseguiu ganhar eleições, aproveitando, em 1991, a confusão, beneficiando do impulso dado pelo PAICV para o multipartidarismo e dos panfletos anónimos, miseráveis, que apontavam ao PAICV e aos seus dirigentes, acções verdadeiramente inacreditáveis. Tão inacreditáveis que nunca conseguiram ser provadas.
Por tudo isto, BRAVO, COMANDANTE PEDRO PIRES.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

AO SABOR DO TEMPO

É o tempo que tempera a História e a molda, conservando ou remodelando a longa caminhada. Pelo caminho vai-se perdendo a memória de realidades incómodas e retocando os feitos épicos. Sei melhor que Afonso Henriques fundou uma nacionalidade e menos como foi enganando o Papa, ao tempo uma espécie de notário, onde se ia registar a sociedade. Mas sei que Egas Moniz foi de baraço ao pescoço para honrar a palavra. E palavra que não me lembro porque é que o rei amarrou a mãe pelos cabelos.
Pedro amou Inês e isso tem sido alimento de poesia. Mas foi igualmente um caso de traição conjugal, mas disso não se canta nem em prosa nem em verso. O Marquês de Pombal era rijo. Enfrentou o terramoto e recuperou Lisboa. Mas mandou matar três gerações de Távoras. Ainda assim não foi ele que inventou o radicalismo.
A Igreja cristã torturava um senhor que teve a ousadia de pensar que a Terra pudesse girar em volta do Sol. Mais tarde, um senhor na Alemanha pensava que a Alemanha era demasiado pequena para a sua ambição. Em Londres o Rei andava distraído. Em Paris cosia-se roupa e comia-se no Moulin Rouge. Em Lisboa, o Presidente do Conselho não ia, mandava. De facto mandou alguns para longe!
Ao tempo, a política era um pouco como a liberdade de imprensa. Cada qual fazia o que lhe apetecia. Hitler invadiu a Polónia e começava uma guerra que alastrou por quase toda a Europa.
Os ingleses chamaram Churchill e ele fez como o treinador do Nacional: pôs-se à defesa. De Gaulle pôs-se a andar. Os judeus que puderam fugiram. Os que não puderam foram presos e passaram fome. Seis milhões dizimados com requintes de malvadez. Salazar não ia, mandava. Mandou os portugueses produzir e poupar e comer racionado.
Os japoneses também entraram na guerra. Bombardearam uma ilha americana e ocuparam as Filipinas, China, a Indonésia e não me lembro que mais. Mais tarde tiveram que pagar a factura, levando com duas bombas atómicas, made in USA.
Com a paz vieram outras guerras, umas ditas de libertação, outras nem por isso. Havia uma fria, bem gélida, por sinal, e outras bem quentinhas... Mesmo assim um mundo novo ressurgia, com nova arrumação.Parecia uma coisa simples, parecia...
No Quénia, acho eu, era a África a aparecer, de mansinho! Os «mau-mau». Recordo-me, ainda menino, das graçolas: «um mau-mau comer um bom-bom». Os quenianos não deram muita importância. Os ingleses negociaram a independência, depois de terem prendido Jomo Kenniata.
Os franceses tiveram a Indochina e a Argélia, o que não foi pouca coisa. Começar as experiências nucleares foi como lamber as feridas. A «bomba A» parecia uma espécie nova de seguro de vida.
Quem tem bomba não tem inimigos! Errado, profundamente errado!
O terrorismo irrompeu como reacção. Quem não tem cão caça com gato. Na guerra convencional
os bombardeamentos aéreos matavam indistintamente quem não estivesse resguardado e arrasaram cidades inteiras. O terrorismo faz o mesmo, sem aviões, sem exército. Alimenta-se de religião e semeia ódios. Daqui por dois mil anos a História deve ser outra. Bush nome de avenida. Ben Laden, faculdade de direito, Médio Oriente, discussão académica sobre a guerra dos cem anos. Talvez o Benfica vá à frente, o TGV já chegue ao Pragal. E ainda haja quem goste de mulheres...

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Presidenciais em Cabo Verde

No próximo domingo, dia 12, o povo cabo-verdiano vai ser chamado a eleger o seu Presidente da República. Como há cinco anos, o grande combate é entre Pedro Pires e Carlos Veiga. Dizem-me da Cidade da Praia que do lado de Pedro Pires há agora o receio do muito dinheiro que aparece do lado de Carlos Veiga, cujo tio vendeu a cimenteira à Cimpor para poder ajudar o sobrinho. É que o tio também já foi ajudado...
O medo é o da compra de BI e cartões de eleitores, a forma usada para evitar que os adversários votem. Vai uma grande azáfama no controlo dos portadores de pastas esquisitas... por todo o país.

domingo, fevereiro 05, 2006

Recordações

A Regina Mirandela da Costa (Peyroteo) teve a amabilidade de me enviar esta fotografia, encontrada nas recordações do seu marido. É uma equipa de basquetebol da Académica da Huíla e que tem a particularidade de ter, além do prof. Mirandela da Costa (13), o Joaquim Pintado(4) e o Rui Alexandrino(15). Além de mim próprio (12) e o Manuel João (7). Dos nomes dos dirigentes só me lembro do da direita, o tenente Rocha. O outro, o da esquerda, era professor do Liceu Diogo Cão e, na altura, presidente da Académica da Huíla.
Pintado (com quem também joguei andebol) é ainda hoje considerado o melhor jogador desta modalidade em Portugal, Mirandela da Costa teve um papel importante na organização do Desporto em Portugal e Rui Alexandrino é dos militares mais condecorados de todos os tempos em Portugal.
Não sei o que é feito do Manuel João e eu ando por aqui - de repente, alguém me lembra que fiz outras coisas, com outras gentes.
Obrigado, Regina.

4 de Fevereiro

Para o MPLA - partido único, marxista-leninista, esta era a data do início da História de Angola. Tudo o resto, tudo quanto se tinha passado anteriormente não existia. A não ser a publicação de um manifesto, redigido por Mário Pinto de Andrade em que se falava da necessidade da criação de um "Amplo Movimento Popular de Libertação de Angola", com a data de 10 de Dezembro de 1956. Esse ficou como o dia da fundação do MPLA. Desconheço se em Angola estas duas datas continuam a ser feriado nacional , ou se é apenas uma ou mesmo nenhuma.
O 4 de Fevereiro é, todavia, uma data importante na História do país, a exigir investigação cuidada, porque à sua volta de criaram muitos mitos, se desenvolveram alianças políticas que continuam e se criaram verdadeiras dinastias de domínio económico.
Para mim o 4 de Fevereiro é o dia da morte do Joaquim, um amigo, que era do Kipungo e estava na tropa para cumprir aquilo que na altura se chamava um dever cívico. Não sabia nada de política e morreu , vítima de um tiro disparado certamente sem intenção, mas que fez dele a única vítima desta data que durante anos foi empolada e é agora nada se compararmos o contexto dos acontecimentos de então com o que, entretanto, acontece em Angola e, sobretudo fora de Angola, a mando dos angolanos que cheagaram ao poder por causa de vítimas como o Joaquim do Kipungo.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

DÓ DE ALMA

Ele há coincidências. Por vezes pesam ou magoam. Tinha olhado atentamente para os dois lados da rua não fosse alguém conhecido ou de família ver-me entrar na ginjinha da Eugénio dos Santos, de onde saí, alegremente a cuspir os caroços. Sem cuspir ostensivamente os caroços, para o chão, a ginja não tem metade da graça!
E comecei por não achar graça às lojecas com bugigangas artesanais sob as arcadas do Palácio da Independência. Uma das quais a dar a sua de alfarrabista e eu a aproveitar para fazer a minha de literato de meia tijela e no meio da lixarada não é que vejo um opúsculo minúsculo de Salgado Zenha, com Francisco e tudo na capa: «A Prisão do Doutor Domingos Arouca», edição de 72, da Afrontamento, do Porto, impressa, imagine-se!, na Gráfica Firmeza, que tinha sede na Rua da Boavista!
A parte literária, digamos assim, nem ocupava uma página: « Domingos Arouca -- condenado a quatro anos de prisão maior --, encontra-se na cadeia há mais de sete.
Preso e julgado em Moçambique, expia a condenação a milhares de quilómetros dos seus -- na Metrópole.
O degredo já não existe nas leis portuguesas. Mas existe para Domingos Arouca. Pare ele e tantos outros -- negros como ele".
Domingos Arouca é advogado. Formou-se em direito, ensinado em Lisboa. Que direito se ensina em Lisboa? Que direito se decreta em Lisboa? Que é, em suma,o direito de Lisboa?
Qual será?
Domingos Arouca -- moçambicano, negro e amigo --, qual será?».
Desconheço se o «grito» foi autorizado ou proíbido; se chegou a Lisboa, se esteve ou não em algum escaparate; se mereceu (ou não) crítica. O «meu» tem na contracapa um selo da Livraria Sá da Costa.
Após uma simples biografia do condenado, em que se dá conta de que Arouca após o ensino primário foi trabalhar, como escriturário-praticante, no gabinete de um advogado até aos 16 anos. Ingressou, então, como aluno na Escola Técnica de Enfermagem, de Lourenço Marques
(o opúsculo, recordem-se, é de 72), onde se diplomou.
Até aos 21 anos exerceu a profissão de enfermeiro. Os acasos da sorte permitiram-lhe vir para Portugal, onde trabalhou e estudou para completar o curso dos liceus e formar-se em Direiro pela Universidade de Lisboa, em 1960. Foi o primeiro advogado preto ou negro, como quiserem.
Regressado ao habitat natural foi nomeado consultor do Banco Nacional Ultramarino, em Lourenço Marques e Vogal do Tribunal Administrativo de Moçambique, funções que se viu compelido a abandonar poucos meses depois por «motivos políticos».
Exercia advocacia em Lourenço Marques, quando em Maio de 65 foi preso pela PIDE. Acabava de tomar posse do cargo de presidente do Centro Associativo dos Negros de Moçambique, para o qual fora eleito por aclamação. Era acusado de pertencer à Frelimo e responsável pela subversão psicológica no sul de Moçambique.
Julgado e condenado a pena de 4 anos de prisão e medidas de segurança posteriores de 6 meses a 3 anos.
Sete anos depois, ainda preso, mas já Portugal, despertou a curiosidade por ter iniciado uma greve de fome, «com desusada ressonância em Portugal e sobretudo no estrangeiro» e dela deu pormenorizada conta Salgado Zenha.Tudo o que se sucede é terrivelmente angustiante: a descrição minuciosa das «peças fundamentais do processo de providência extraordinária de habeas corpus». Fico a saber que até o início do julgamento foi, em cima da hora, adiado por haver conhecimento de que a visita do Papa iria merecer governo uma amnistia. Desse modo esperou-se que a amnistia fosse publicada para, então, se dar início ao julgamento, privando o
arguido de qualquer perdão. Houve outros perdões durante os sete anos que se seguiram, mas deles Domingos Arouca não beneficiou nem um segundo. E deu-se conta de outras «igualdades desiguais» como a que ocorreu em 70 em consequência do movimento de solidariedade dos advogados portugueses a favor dos seus 3 colegas então presos por motivos políticos: Domingos Arouca, Monteiro Matial e Saúl Nunes. Os dois últimos foram postos em liberdade, mas Domingos Arouca continuou preso. Dois eram brancos, um era negro. E adiante lá vinha a referência: «Disse-se que foi o Ministro do Ultramar que opôs o seu veto à saída do moçambicano. Porque ele era negro?».
Fiz uma pausa para pensar quem seria, em 72, o ministro do Ultramar?
Provavelmente o pai de alguém hoje bem na vida. Mas o processo tem outras curiosas, gostava mais de as qualificar de «saborosas», coincidências, como o acordão do tribunal militar, que recusa a inconstitucionalidade da medida de segurança que impôs e é invocada no recurso. O blá-blá se não é, parece rídiculo e um tanto asqueroso. Vale que é assinado pelo Cor. de Cavalaria, José Luís Canalhas...
Teria sido melhor se assinasse no singular...
Mas foram dirigidos apelos ao presidente do Conselho, que já não era o «botas», de que não se conhece resposta e ao bastonário da Ordem dos Advogados e foi este que deu a pista do ministro do Ultramar.
Num romance de Urbano Tavares Rodrigues definiu-se qualquer coisa como «crueldade testicular», expressão que exasperou Luís Pacheco, mas que, no fim de contas, talvez faça sentido. Uma crueldade que não se entende nem se explica, que atrofia. E que ficou sem julgamento. Reduziu-se todo o horror da opressão policial e militar a um só personagem.Já depois dele, ainda o Supremo Tribunal de Justiça se permitia mandar o requerente à « merda», mas fê-lo com generosidade: «Não é devido imposto de justiça»...
« Lisboa, 5 de Julho de 1972.
ass.) Adriano Vera Jardim
António Pedro Sameiro
Alberto Victor Pires Fernandes Nogueira
Manuel Falcão Nunes Garcia
Fui presente -- Manuel Lopes Maia Gonçalves».

Não sei nem quero saber se toda ou alguma desta gente ainda vive, nem é isso hoje que importa, mas notar que, bem ou mal, a revolução não trouxe nenhum programa de justiça. Uma dúzia e tal de «pides» foram incomodados, não muito, mas foram. Mais nada. Mais ninguém. Estive em Lisboa, logo a seguir ao 25 de Abril e assisti à leitura da sentença das «três Marias» foram absolvidas. Foi uma festa na sala. Para trás ficaram ignorados os instrutores do processo, os piedosos instigadores. De Salgado Zenha retenho a memória do homem que rompeu a concordata e restituiu o direito das pessoas serem livres umas das outras. Foi um momento de glória, que ele bem mereceu...

terça-feira, janeiro 24, 2006

As Partidas dos Arquivos

A revisitação dos arquivos tem sempre a mesma surpresa: andamos a viver a mesma vida, sempre ao serviço dos mesmos. O que transcrevo a seguir é um comentário meu, publicado em 1993, no jornal " A Capital.




CÂNTIGO DA PRIMAVERA



Em França, o governo caiu sob o peso de três milhões de dsempregados, em Espanha, Felipe Gonzalez olha os gráficos, as sondagens e o tempo a correr: 20 por cento da população activa não tem satisfeito o seu «direito fundamenteal» ao trabalho.
Na velha Albion, os ingleses desocupados são 11,4 por cento, em Itália, onde as estatísticas, tal como os políticos, não são de fiar, há 9,8 de desempregados e em Portugal, cujas estatísticas funcionam como canção de embalar, o desemprego subiu, no mês de Fevereiro, 14,7 por cento.Só os países desenvolvidos têm 33 milhões de desempregados, conhecidos das estatísticas.
No resto do Mundo, onde nem sequer há estatísticas, ou são piores do que as portuguesas e italianas, há milhões de homens e mulheres que nunca tiveram emprego, isto é, nunca foram pagos regular e sistematicamente pela cedência das suas capacidades físicas e/ou intelectuais.Grande parte deste resto do Mundo representa o paraíso para os empresários de sucesso do nosso tempo: não há estatísticas e qualquer um pode ser despedido a qualquer hora, pelo que todos os «bons gestores» podem pôr em prática a receita mais eficaz para resolver os problemas derivados da quebra de lucros: a empresa está mal, depede-se tanto por cento do seu efectivo de trabalhadores e tudo volta à normalidade.
É desse resto do Mundo que vem a lição para a Europa e para os Estados Unidos, onde os despedimentos são de todos os dias e atingem sempre os que, ingenuamente, continuam a reclamar o seu «direito ao trabalho», sem nunca terem pensado, ou pelo menos, expresso em voz alta, que deveriam reclamar o seu «direito à preguiça».O saneamento das empresas do nosso tempo está a fazer-se à custa de níveis assombrosos de desemprego e, contudo, o sistema progride, pelo que é, no mínimo, curial, pensar que o desemprego é o sangue do sistema em que vivemos e que, afinal, já produziu esta aldeia global em que não só a comunicação é instantânea.
O desemprego também o é. Atente-se nesta notícia das páginas interiores dos jornais, publicada tipo «faire divers»: o novo presidente-director-geral da companhia americana IBM, Luis Gerstner, tem um salário mensal de 300 mil contos, mais um prémio anual de 225 mil, além de outros prémios e promessas.A IBM tem fábricas um pouco por toda a parte.
Na Europa também, onde, no final de 1992 empregava cerca de 90 mil pessoas. Agora, nos «próximos doze meses», vão ter que «mostrar o que valem» porque se prevê uma redução de, pelo menos, 10 por cento dos seus efectivos.Para que Gerstner tenha direito a todas as suas remunerações e ao exercício pleno do seu «direito à preguiça», milhares de outros vão ter que se incorporar nas marchas de protesto para reclamarem o seu «direito ao trabalho».
São as marchas da Primavera, de todas as primaveras: os sindicalistas já a têm marcada nas agendas: «Abril e Maio, tempo de protesto». Combinaram-na com os políticos, de cujas mesas se tornaram íntimos, e todos os anos vão cantando o cântigo do desemprego, campo fértil para as promessas de Verão, que hão-de frutificar lá para o fim do ano, com a distribuição dos lucros, uma fogueira que aquece sobretudo os que sabem conservar o combustível do sistema: desempregados qb.
Alguns milhares de pessoas por essa Europa fora sairam ontem à rua para dizer qualquer coisa como «não pode existir Europa social sem respeito pelos trabalhadores». Muita gente nas ruas, discursos alguns e depois o regresso a casa, enquanto a houver, para um fim de semana pacífico, sem grandes problemas de consciência: os sindicalistas protestaram, os políticos ouviram, os trabalhadores deixaram por momentos de trabalhar, os empresários anteciparam o fim de semana, a comunicação social noticiou e os desempregados existiram.
Podemos, pois, dormir tranquilos, o sistema funciona, apesar de algumas deficiências: não é que agora, um pouco por toda a Europa, só se fala de políticos corrompidos por empresas, algumas das quais, periodicamente, necessitam de saneamentos económico-financeiros, tendo, para o efeito, que recorrer a despedimentos em massa?Pequenas falhas, contudo.
Com algum tempo e paciência se chegará a uma forma legislativa adequada ao enquadramento da cooperação entre políticos e empresários. Dessa maneira, os sindicalistas poderão mudar algumas estrofes do cântigo da Primavera e os desempregados permanecerão unidos, cada vez melhor organizados para os desfiles sasonais.
Mais de dez anos depois eu pareço um oráculo. Que pena!!!


segunda-feira, janeiro 23, 2006

Uma Vitória a Sério

O PAICV obteve ontem uma vitória expressiva nas eleições legislativas de Cabo Verde, em que teve como principal adversário o MpD. Com 52 por cento dos votos expressos, José Maria Neves viu renovada a confiança do povo cabo-verdiano para mais um mandato de cinco anos, durante o qual se espera que novos projectos estruturantes da economia cabo-verdiana garantam igualmente o desenvolvimento de uma sociedade apostada na solução dos problemas sociais, terminando, assim, com os vestígios ainda existentes do neo-liberalismo catastrófico dos tempos da governação de Carlos Veiga.
Carlos Veiga apresenta-se como candidato às eleições presidenciais, tendo como principal adversário Pedro Pires, o actual presidente. As sucessivas derrotas do MpD e de Carlos Veiga são demonstrativas de que os cabo-verdianos não se deixam enganar.

sábado, janeiro 21, 2006

Amílcar Cabral II

Em Janeiro de 1992, no jornal "A Capital", escrevi um texto sobre Amílcar Cabral, que agora aqui recordo:
COM ELE VIVO TUDO SERIA DIFERENTE
AMÍLCAR CABRAL
Os acontecimentos iriam suceder-se a uma velocidade vertiginosa.Vivíamos os primeiros 20 dias do primeiro mês do ano de 1973. Amílcar Cabral é morto por um correlegionário, à frente de sua mulher, Ana Maria, depois de se ter recusado a «entregar-se» a um comando de revoltosos do PAIGC, mais tarde apanhados e fuzilados e que muita gente conota, ora com os serviços de informação portugueses e com o então general Spínola, ou com o presidente da República da Guiné, Sékou Touré.Um ano e pouco mais tarde, em Lisboa, acontecia o 25 de Abril e, sucessivamente todas as colónias portuguesas ascenderam à condição de estados independentes.
Faz, portanto, amanhã, vinte anos que o tiro soou. E, contudo, o som parece ainda ecoar nas planuras guineenses e nas serranias cabo-verdianas, com insistentes apelos ao resto de África, desiludida com as promessas de uma independência anunciada há mais de trinta anos e que nunca mais chega.
Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, Guiné Bissau, filho do professor primário Juvenal Cabral, cabo-verdiano de origem. Amílcar acabaria, de resto, por viver a maior parte da sua adolescência em Cabo Verde, na Cidade da Praia. A juventude, essa passou-a em Lisboa e em Angola. Na capital portuguesa, a frequentar a Faculdade de Agronomia, pela qual obteve o diploma de engenheiro agrónomo. Em Angola, envolvido em importantes estudos agronómicos, que lhe permitiram conhecer algumas regiões daquele país.
Quando voltou à Guiné Bissau já tinha a experiência profissional que lhe permitiu fazer um levantamento social do país, parte do qual foi curiosamente publicado por um boletim da Guiné, editado pelo Ministério do Ultramar, no princípio dos anos 50.Foi no decorrer dos trabalhos de campo na Guiné Bissau que Amilcar Cabral foi amadurecendo as ideias que mais tarde haveria de colocar em prática, ao serviço do PAIGC.
Ele próprio se sentia como protagonista de uma aliança indestrutível: nascido na Guiné Bissau, criado em Cabo Verde, licenciado em Lisboa, foi como cidadão português que conheceu outras parcelas de África.As teorias da unidade que desenvolveu como político e que aplicou à concepção de um sistema de um partido/dois estados acabaram por servir perfeitamente a estratégia de luta de libertação, já que à operacionalidade dos terrenos da Guiné Bissau, o teatro ideal para uma guerra de guerrilha, juntava a importância geo-estratégica de Cabo Verde na conjuntura da época, marcada pela «guerra fria» entre as duas super-potências.
Em Janeiro de 1973 a guerra estava quase no fim. As conversas entre o pessoal do gabinete do então governador da Guiné portuguesa, general António de Spínola, e a direcção do PAIGC já iam avançadas e havia , nessa altura, indicações de que Amilcar Cabral e o general Spínola se poderiam encontrar brevemente.É nesse contexto, difícil de entender hoje, que o tiro de 20 de Janeiro deve ser ouvido.
A morte de Amilcar Cabral foi a morte de um homem multifacetado, apto a entender a linguagem dos diplomatas, mas também capaz de delinear uma estratégia militar alternativa, suficientemente empenhado para ultrapassar as suas próprias dificuldades no domínio de uma língua, e, ao mesmo tempo, bastante ousado para aceitar fazer uma entrevista nessa mesma língua, apenas porque era importante à divulgação dos objectivos da luta.
Capaz de viver nos matos africanos, entender os anseios das suas gentes e interpretar a sua vontade, não fugia ao diálogo elaborado de qualquer literato ocidental, nem ao entusiasmo dos seus próprios homens pelo futebol.Em 1966 a guerrilha abrandou um pouco para que os guerrilheiros pudessem seguir com atenção e entusiasmo a carreira da equipa portuguesa no mundial de futebol de Inglaterra.
Comandante militar de um grupo que foi engrossando com gente das mais diversas proveniências, conseguiu conciliar a admninistração de uma justiça severa, para não quebrar a disciplina, com as disputas nascidas no seio desse mesmo grupo, sem abdicar do essencial da sua estratégia.
Uma estratégia de luta, não adaptada à realidade gerada com a independência política dos dois paises em nome dos quais Amilcar Cabral lutou: Guiné Bissau e Cabo Verde, cuja «unidade» resistiu pouco tempo à sua morte.Pouco interessa que os partidos que assumiram a liderança política naqueles dois paises tenham incluído na sua linguagem o slogan «Cabral ka muri» (Cabral não morreu).É que a sua morte afectou de maneira indelével a história desses dois estados e não só: muito provavelmente, o rumo dos acontecimentos em Angola teria sido bem diferente do que tomou, já que Amilcar Cabral tinha uma grande influência junto dos dirigentes do MPLA, nomeadamente junto de Agostinho Neto, afinal o principal responsável pela condução de uma política de afastamento de Portugal, que Amilcar Cabral, certamente, nunca teria apadrinhado, mesmo com os condicionalismos dos compromissos assumidos pelo MPLA com a URSS.
Amilcar Cabral teria este ano 70 de idade. É impossível imaginar qual teria sido o seu percurso e como teria reagido aos ventos que a histórias entretanto soprou, mas os testemunhos dos que com ele privaram deixam, pelo menos, a possibilidade de podermos afirmar que com ele teria sido diferente. É isso que os camponeses da Guiné Bissau querem significar, quando se recusam a aceitar a sua morte. É isso que o cidadão cabo-verdiano, sendo embora do MPD, actual partido no poder, quer dizer quando aceita Amilcar Cabral como o «pai» da sua própria cidadania.

Amilcar Cabral

Faz hoje 33 anos que Amílcar Cabral foi morto. Era já noite, em Conackry , quando um grupo de homens se aproximou do então Secretário Geral do PAIGC, tentanto manietá-lo e, dessa maneira, concretizar um "golpe"na direcção daquele movimento de libertação. A aproximação foi feita à saída dos escritórios do Partido e, perante a resistência de Amílcar, um dos homens baleou-o. O Comandante caiu junto ao Volkswagen que usava na capital da Guiné Conackry. Ana Maria Cabral estava junto dele.
Na sequência do golpe, Aristides Pereira foi amarrado e conduzido para alto mar, num barco, que, supõe-se, rumaria Bissau.
Entretanto, as forças leais a Amílcar reagiram e anularam o golpe. Infelizmente já não conseguiram evitar o assassinato mais dramático das lutas de libertação nacional ocorridas em três das cinco ex-colónias portuguesas. De facto, o dirigente guineense, de origem cabo-verdiana, foi de todos o mais brilhante político e estratega, concebendo uma luta política e uma guerra de libertação para dois países, unificados por um Partido.
O sucesso da guerra foi, todavia, uma das razões do desencadear de ódios de tipo racista, já que, perante a perspectiva de uma vitória, o poder começou a apetecer a toda a gente, independentemente de competências. Percebeu-se, mais tarde, que a todos bastava evocar a condição de combatente para ter direito a mordomias e à exploração desenfreada dos recursos do Estado entretanto criado.
Basta lembrar que a Guiné Bissau foi o país de toda a história da cooperação internacional que mais dinheiro recebeu da comunidade internacional e que, no final, nada restou.
A morte de Amílcar trazia consigo a morte da estratégia de unidade entre Cabo Verde e Guiné Bissau, que acabou por acontecer, definitivamente em 14 de Novembro de 1980.
Trinta e três anos depois da morte de Amílcar Cabral e mais de 25 da morte do seu projecto político, Cabo Verde está em vésperas de um quarto acto eleitoral para uma Assembleia Legislativa e de uma quarta eleição de um Presidente da República. O país deixou de ser "inviável" já há muitos anos e o seu crescimento económico vai garantindo melhorias significativas na vida dos seus habitantes.
A Guiné Bissau corre cada vez mais o risco de ser engolida a Norte e a Sul, já que, depois do golpe de 1980 nunca conseguiu ser mais que uma cidade-estado, onde se concentra a maioria da população para tentar sacar do aparelho do estado uma forma de sobrevivência. O resto é o vazio e a população sente-se entregue a si própria, pelo que vai resolvendo os seus problemas mais a Norte ou Mais a Sul, mas sempre em francês.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

UM DIA MAIS QUE ONTEM

Um dia mais às vezes pesa arroubas. Lembro-me de menino e moço ter ido à travessa das Salgadeiras. Encolhido e nervoso, com dez escudos no bolso. Nada de confusões. Ia a um estabelecimento legalizado efectuar uma transacção absolutamente natural. Não posso deixar de sorrir, com nostalgia, por ter usado um termo dúbio, sem intensão pervertida. Segundo a terminologia da época, digamos, ia perder os três. Era comum a senhora perguntar se era isto ou aquilo ou só o natural ou, em alguns casos ser mais convencional: «aqui, rico, só o natural».
O mais natural de tudo era ficar embaraçado e não saber que dizer. Seguiam-se as risadas e uns quantos remoques brejeiros.
O mesmo género de embaraço e de timidez voltei a senti-lo aos 20 anos, quando os mancebos
iam às sortes. Mandavam-os despir e pendurar as roupas nos cabides. Não havia bancos e muitos menos cabides. Havia muito barulho, muita gargalhada e algum embaraço, como era o meu caso. Mas nunca me esqueci desse dia. Um jovem, vermelho de vergonha, alvo de chacota geral devido à erecção formidável que exibia. De súbito apareceram, vestidos, três militares graduados, que se riam, mas foram abrindo espaço para chegar junto do bem atestado recruta:
«Então o que é isso, rapaz? Porque é que estás assim?»
Dois deles voltaram-se e com gestos mandaram calar os alvoraçados. No entretanto a única coisa que baixou foi a cabeça atarantado rapaz: «Saiba vossa mercê que é por mór dos cuzes...»!
Hoje li com gosto a versão mais ou menos histórica de Vasco Pulido Valente sobre os últimos três presidentes. Ele tem estatuto que lhe permite triturar seja quem for que tenha morado em Belém nos últimos trinta anos, bem como os amigos dilectos. Pela minha parte havia-me limitado a salientar que Mário Soares não era bem o que Sócrates tinha dito e fico feliz por alguém, bem melhor do que eu o ter demonstrado. Pintado por ele, toda aquela gente presidenciada se expôr desnuda.
Gente totalmente vestida cada vez se vê menos. Resta o manto diáfano da fantasia sobre o
procurador-geral da República...

UM DIA MAIS QUE ONTEM

Um dia mais às vezes pesa arroubas. Lembro-me de menino e moço ter ido à travessa das Salgadeiras. Encolhido e nervoso, com dez escudos no bolso. Nada de confusões. Ia a um estabelecimento legalizado efectuar uma transacção absolutamente natural. Não posso deixar de sorrir, com nostalgia, por ter usado um termo dúbio, sem intensão pervertida. Segundo a terminologia da época, digamos, ia perder os três. Era comum a senhora perguntar se era isto ou aquilo ou só o natural ou, em alguns casos ser mais convencional: «aqui, rico, só o natural».
O mais natural de tudo era ficar embaraçado e não saber que dizer. Seguiam-se as risadas e uns quantos remoques brejeiros.
O mesmo género de embaraço e de timidez voltei a senti-lo aos 20 anos, quando os mancebos
iam às sortes. Mandavam-os despir e pendurar as roupas nos cabides. Não havia bancos e muitos menos cabides. Havia muito barulho, muita gargalhada e algum embaraço, como era o meu caso. Mas nunca me esqueci desse dia. Um jovem, vermelho de vergonha, alvo de chacota geral devido à erecção formidável que exibia. De súbito apareceram, vestidos, três militares graduados, que se riam, mas foram abrindo espaço para chegar junto bem atestado recruta:
«Então o que é isso, rapaz? Porque é que estás assim?»
Dois deles voltaram-se e com gestos mandaram calar os alvoraçados. No entretanto a única coisa que baixou foi a cabeça atarantado rapaz: «Saiba vossa mercê que é por mór dos cuzes...»!
Hoje li com gosto a versão mais ou menos histórica de Vasco Pulido Valente sobre os últimos três presidentes. Ele tem estatuto que lhe permite triturar seja quem for que tenha morado em Belém nos últimos trinta anos, bem como os amigos dilectos. Pela minha parte havia-me limitado a salientar que Mário Soares não era bem o que Sócrates tinha dito e fico feliz por alguém, bem melhor do que eu o ter demonstrado. Pintado por ele, toda aquela gente presidenciada se expôr desnuda.
Gente totalmente vestida cada vez se vê menos. Resta o manto diáfano da fantasia sobre o
procurador-geral da República...

segunda-feira, janeiro 16, 2006

AVANÇAR PARA TRÁS

Não tem nada de complicado, nem se confunde com ficar parado. É diferente de não ser assim nem assado. E é exactamente o contrário de ir em frente. É como se fosse a nadar para o largo, o longo além e a maré o trouxesse tranquilamente para a praia, frustrando um qualquer suicídio patético. E a propósito do aumento das rendas dei por mim a viajar. As questões sociais fascinam-me. Não que eu pague renda. Fui pagando por uma até ser minha. Mas nem moro lá.
Serve para os filhos, quando aparecem por Lisboa. Ou para o neto, um que ainda estuda por cá. Os irmãos e os primos optaram pelo Cabo. É isto! Seja por onde for que eu tente ir acabo sempre
perdido em África.
«Primeiro entranha-se; depois entranha-se» foi a expressãp publicitária que Pessoa utilizou para «vender» cocacola. O poeta precisava de comer, pelo menos quase tanto como o comum dos mortais! Mas a frase ainda hoje me parece mais propícia para definir África, o mais ultrajado dos continentes. Nem chegou a uma dúzia de anos a minha experiência africana! À chegada estranhei, claro, o clima e a sinfonia nocturna dos insectos. A osga que vi na parede do quarto da pensão onde pernoitei era mais clara e menos repulsiva do que as europeias, que vira antes. Ali, o bicho, tornava-se o objecto doméstico anti-mosquito tão respeitado como a seguir descobri que era o abutre, o operacional preferido da mãe natureza para zelar pela qualidade de vida!Era isso, era. Primeiro estranhava-se; depois aprendia-se. A África entranha-se, essa é que é essa e o
poeta que cresceu e estudou em África passou por isso!
Trinta anos depois do meu regresso continuo «desterrado». Avesso à chuva e ao Sol, ao frio e ao Verão tórrido. Eternamente desconfiado das instituições e dos políticos, dos polícias e dos ladrões.
O período eleitoral não ajuda nada o meu espírito confundido, que não entende este modo arruaceiro de propor um presidente como quem vende banha da cobra, uma pomada comprovadamente mágica, que tanto cura a sarna como a impotência. Ontem ouvi o ministro de Estado e no pedaço que escutei não se falou de governação mas de eleição presidencial e espantou-me que alguém culto, livre e voluntariamente de esquerda procurasse condicionar o voto ao seu semelhante, em nome de uma mentira voluntária. Em boa e honesta verdade o homem, o político, mesmo quando presidente, nunca foi um modelo de pacificação ou de estabilidade. Não foi o pai nosso que esteve em Belém!
Não. Não foi. Foi sim o político ajustador de contas. Primeiro entre iguais, começando pelo então secretário geral do PS (é hoje presidente do Banco de Portugal), que se viu constragido a bater estrondosamente com a porta. O próprio Sampaio, que se seguiu no largo do Rato, não teve vida fácil, mas a derrota eleitoral mais ou menos prevista levou-o à demissão e à pacificação.
No segundo mandato tudo mudou. Cavaco embevecido pela cordialidade belenense nem quis ter candidato e quando de Belém lhe começaram a apertar os calos nem quis acreditar. Depois foi o
calvário. Afinal o presidente tinha poderes, tinha meios e não tinha contemplações.
Se alguém neste país sabe utilizar os poderes presidenciais para derubar adversários é esse idoso candidato ao retorno. Mas o governo também sabe e por isso procura pôr-se à sombra. É um facto que não soube gerir o conflito interno que estalou com a desfeita a Manuel Alegre. É manifesto que nem Mário Soares, nem o PS e menos o governo acreditaram que Alegre pudesse constituir um estorvo.
Aquando da sucessão de Eanes, o quadro existente pareceu favorável à direita, consubstanciado em Freitas do Amaral, que reunia o apoio do PSD e CDS. Do lado esquerdo perfilavam-se Salgado Zenha, Lurdes Pintasilgo e Mário Soares. Proveniente de uma série de governos de maioriaa absolutamente desastradas e quando era ao PS que mais se apresentava a factura, Soares, desgastado, aceitou candidatar-se em condições melindrosas.
O problema que se levantou à esquerda era delicado. Por um lado o PC de Cunhal detestava Mário Soares, mas temia-o. Apostar em Zenha era uma aposta razoável. Por uma vez o PC podia pescar em águas do PS, mas Maria de Lurdes Pintasilgo intrometia-se perigosamente. Um pouco como Alegre, ela acreditava que tinha sido ludibriada por Eanes. Ela que dera a cara pelo presidente ao chefiar um governo de transição, tinha ido a Belém saber de Eanes se podia avançar uma candidatura, crente que um sim significaria apoio. Mas não significou. Eanes preferiu apoiar Zenha, que reunia também a preferência do PC.
E nas hostes de Freitas do Amaral discutia-se qual o adversário desejado para a segunda volta. Curiosamente o adversário menos temido era Mário Soares. A desavença centrava-se em saber qual dos outros, Zenha ou Pintasilgo era mais perigoso!
Cunhal lastimou que os votos em Pintasilgo tivessem afastado Zenha da segunda volta, mas mobilizou e mobilizou-se para apoiar Soares. Não sei se chegou ou não a arrepender-se. Fosse como fosse Soares derrubou a direita, esfarelou o governo do PSD, entreabriu a porta a Sampaio e saiu pela esquerda alta. Acostumou-se a dizer que era um corredor de fundo. Vinte anos depois já não deve correr tanto, mas ainda anda ali para as curvas.
Em Angola uma vez por outra fala-se de eleições e depois muda-se de conversa. Mas África não é só a petrolífera Angola. Em Cabo Verde vão acontecer eleições legislativas este domingo e as presidenciais já se vislumbram no horizonte. Tem que se começar por algum lado. Bolas! não posso dizer isto sem me lembrar logo do inditoso Tavares da Silva, que dizia a mesma coisa sempre que beijava a mão à senhoras...

O "Desenterrado Cabo-Verdiano"

Enquanto em Portugal se faz uma campanha para eleições presidenciais, em Cabo Verde ocorre uma para eleições legislativas( 22 de Janeiro), mas já está no terreno a pré-campanha para as presidenciais. A vitória do PAICV parece assegurada nas legislativas, tanto mais que o governo, liderado por José Maria Neves durante cinco anos, está, só agora, a mostrar a obra que realizou, pela simples razão de que nunca teve capacidade de a ir mostrando através dos órgãos de comunicação nacional, totalmente dominados pela oposição, inclusivé a Televisão pública.
A eleição presidencial parece ser mais difícil porque também em Cabo Verde vai aparecer um "desenterrado" político: Carlos Veiga.
Tal como Cavaco Silva, por mais de dez anos nada fez do ponto de vista político. Aliás, abandonou o governo antes das eleições de 2001, para se candidatar à Presidência da República tendo sido derrotado.
Foi primeiro-ministro pelo MpD depois de , em 1990 e princípios de 1991 ter feito um campanha verdadeiramente sórdida, servindo-se de panfletos anónimos em que se acusavam os principais dirigentes do PAICV de corrupção e apoiando-se numa igreja retrógada, reaccionária, habituada a viver às costas de um povo trabalhador e sofredor.
Fez a primeira legislatura até ao fim , a segunda abandonou-a, mas ele e os seus amigos ficaram todos ricos.
A grande diferença entre Pedro Pires e Carlos Veiga é avaliada por este facto: Pires, depois de 15 anos de governação de um país que ninguém acreditava pudesse ver a ser viável, quando abandonou o poder teve que ir viver para casa da mãe. Nem uma casa tinha. Parta ter carro, foi necessário que os emigrantes da Ilha do Fogo, a viver nos Estados Unidos, se cotizassem para lhe comprarem um.
Mas o país era conhecido em todo o Mundo, tinha um grande prestígio internacional e os seus índices de crescimento económico impressionavam os analistas mais optimistas.
Pires não abandonou o Partido, reconstruíu-o, abriu-o a novas lideranças a quem emprestou a sua experiência e as suas relações internacionais.
Carlos Veiga começou a enriquecer à custa do regime de partido único , que nunca se atreveu a criticar de forma aberta, de peito aberto, sempre escondido por detrás de processos sujos e comportando-se com o Estado como qualquer técnico internacional, cobrando os serviços que prestava segundo as tabelas das Nações Unidas.
Depois que abandonou o lugar de primeiro-ministro, os seus amigos e os seus familiares eram ricos. Abandonou o partido e dedicou-se aos negócios, passando a maior parte do tempo fora.
Para trás ficou um Estado sem dinheiro, apesar das privatizações integradas num sistema neo-liberal económico catastrófico. Com Carlos Veiga no poder, Cabo Verde perdeu o que de mais importante tinha - o grande prestígio internacional, que ditava uma confiança total dos financiadores dos grandes projectos de construção do país.
Com Carlos Veiga, as grandes obras agrícolas e todo o processo de reflorestação foram abandonados, o povo cabo-verdiano começou a rumar as cidades, onde como em toda a África, começou a juntar-se gente e mais gente em condições cada vez menos humanas. Hoje, a Cidade da Praia sugere o Líbano e, do ponto de vista urbanístico, não tem solução.
Nada disso interessava, nada disso interessou a Carlos Veiga, que afundou o país numa crise só conhecida durante os temos coloniais. A corrupção aconteceu de forma quantificável. Um dos seus braços direitos transformou-se no proprietário de uma rede nacional de distribuição alimentar. Pouco anos antes não tinha dinheiro nem para roupa...
Mas a memória do povo costuma ser curta e é provável que, depois de dez anos, também em Cabo Verde, o povo se esqueça do que deve a Carlos Veiga. Ele, seguramente, não se lembrará que enriqueceu à custa de um povo pobre.
É provável, por isso, que a disputa eleitoral seja rija, mas a honestidade de Pedro Pires e a grandeza do seu nome, reconhecido internacionalmente como um dos dirigentes dignos de toda a África, não deixarão de o impôr para mais um mandato na Presidência da República de Cabo Verde, onde seria desejável nunca entrassem homens como Carlos Veiga, para não se transformar em mais um mercado do "plateau".

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Eanes

É um pouco difícil passar ao lado, completamente, do actual momento de Portugal com presidenciais à porta, sobretudo porque o que está em causa nesta eleição é a eventualidade de um regresso a um passado tão longínquo que até assusta, ao tempo dos militares que faziam a guerra nas colónias, faziam comissões sobre comissões e só quando os seus privilégios começaram a ser tocados se lembraram que talvez houvesse uma saída política para a situação.
Passei quase quatro anos a vê-los, sei do que falo.
O General Eanes foi dos que sempre fez todas as guerras coloniais, de todas as maneiras, aos tiros e nas psicos. Sempre foi um enigma para mim. Ao contrário da maior parte dos analistas políticos, que, em certa altura, se especializaram na leitura dos discuros eanistas, eu nunca consegui perceber nada para além do que via: óculos escuros, patilhas e um tom de voz autoritário, a roçar a violência.
Confesso que as atitudes do general, depois que saiu da Presidência me surpreenderam e até fiquei mais aberto a tentar percebê-lo.
Hoje, todavia, ouvi na Rádio ( com todos os riscos que isso implica, já que não se pode - de todo - confiar nos critérios jornalísticos) um discurso do General em que ele põe a nu o seu verdadeiro entendimento do poder. Para ele, quanto mais, melhor.
Dizia o General Eanes que era muito importante uma vitória do Cavaco, logo à primeira volta, porque isso significa uma determina força política, confere autoridade, bla...bla...bla...
Então, onde é que está o democrata? Para que precisa o presidente de força, de autoridade? Para impôr o quê?
Ora aí está um favor que o general fez às candidaturas de esquerda: revelou a verdadeira natureza de quem está por detrás de Cavaco. Além de que é estranho ver Eanes a apoiar poderes ocultos, que pagam mas não mostram a cara...ele sempre teve fama de homem franco, claro. Ou será, que também essas características faziam parte das patilhas, dos óculos escuros e da voz imtimidatória?

terça-feira, janeiro 10, 2006

Os Amigos do Rola

Tenho um amigo muito especial, o Rola da Silva, Henrique, que me retribui a amizade. É uma amizade de que me orgulho muito. O Rola é um intelectual honesto, estudioso, interessado, que não se importa de colocar aquilo que sabe à disposição de quem quer que seja. Tem uma vasta obra publicada e as suas crónicas em diversos jornais de Angola e também de Portugal fizeram dele um analista considerado. Com uma experiência muito importante em Macau publicou pelo menos três livros sobre a realidade daquele território sob a dominação portuguesa.
Foi um importante colaborador do jornal "África" e aí, não só a sua experiência no campo dos jornais e do jornalismo foi preciosa como a sua amizade valeu por milhares de colaborações.
O Rola, que actualmente vive em Benavente, numa casa onde, se entrar mais um livro terá ele de sair, faz parte da minha vida de várias formas. Uma delas tem a ver com os seus amigos da adolescência. Uma adolescência que já aconteceu há muitos anos.
Um grupo de homens, que, enquanto adolescentes frequentavam o mesmo café, na zona de Picoas e, a maior parte, era estudante do Liceu Camões, há mais de sessenta anos, encontra-se hoje, nas primeiras segundas feiras de cada vez, para almoçar juntos.
Hoje era o dia e eu tinmha prometido aparecer porque o Henrique resolveu já há uns tempos juntar-me ao seu grupo de de amigos.
Só que a vida não permitiu ( continuo a pensar que consigo resolver tudo e vou atrás de todos os problemas).
O almoço aconteceu, pela primeira vez, num restaurante nas Picoas e não na Praça do Chile, pela simples razão de que um dos membros do grupo, afectado por um "acv" já há uns tempos, era conduzido por um filho a todos os almoços e no Chile era difícil estacionar o automóvel que o deixaria para o almoço.
Era, carinhosamente, tratado pela "alcunha" que o tinha marcado nos tempos do Liceu, o "TimTim".
Chegava, com um olhar meigo, estendia a mão a todos, saboreava aqueles momentos de convívio com os amigos e, depois, lá ia, amparado pelo filho e por muitos de nós.
Hoje o Tim Tim não apareceu. Faleceu, entretanto. Docemente, enquanto dormia, explicou o filho, acompanhado de uma irmã, que fizeram questão de ir ao almoço com os amigos do pai.
E eu não estava lá para dizer aos filhos do "Tim Tim " o quanto apreciava a presença daquele pai, que embora doente, parecia sereno consigo mesmo e com a vida.
Tenho a certeza de que os amigos do Rola, entretanto feitos meus amigos, terão sabido transmitir aos filhos do "Tim Tim" a cereteza de uma amizade válida em todas as dimensões.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

VENHA O DIABO E ESCOLHA

Foi o que me ocorreu depois de reflectir, quando os angolanos tiveram eleições. O que contou para os angolanos, para a esmagadora maioria deles foi o exercício de afirmação, um tipo de liberdade que nunca tiveram. Os dados estavam viciados à partida. A soma dos votos seria, como foi, irrelevante. De um lado um muito mau; do outro um muito péssimo. Fosse qual fosse
o efeito da soma das cruzes o resultado seria o mesmo: o calvário.
O problema com as eleições é a falta de sentido. Não se escolhe o melhor por ser melhor. Nem sequer o mais hábil por ser mais hábil, como ocorre por aqui, neste pedaço da Europa. As mais das vezes são as forças da inércia a comandar os destinos. Quando Salazar caíu da cadeira, o regime não percebeu logo que estava enferrujado. Marcelo, que inventou as «conversas em família», que o afilhado haveria de continuar, tentou arejar as ideias e a governação, mas logo o regime torceu o nariz, escorando-se no almirante Thomaz (a grafia é para sublinhar as teias de aranha!). Mas a idade é o que é, mesmo quando não parece, e o sucessor do botas pôs o Presidente da República a falar, pela televisão, aos portugueses. Foi o fim da macacada. E o fim do regime, a cair de podre.
Inevitavelmente há um fim para tudo e nisso eu acredito e nem preciso de participar. Basta-me estar quieto. Quando insistem comigo para participar, que não é só um direito, é igualmente um dever, eu murmuro para dentro: «Sim,pois, mas já dei»...
A ideia de andar para trás não rejuvenesce. Em Luanda estão tristes por falta de eleições. E candidatos ? Quem como e onde? Qualquer general trapalhão,pode dar um golpe e ser feliz, mas sem esse risco de sangue não há como, salvo se um qualquer Bush precisar de gasolina para o isqueiro...