segunda-feira, outubro 31, 2005

VENTOS PASSADOS/2

No Ambriz viveram-se tempos curiosos, entre o veraneio e o dramático. Holden instalara-se em casa do tio de Carlos Fernandes, um amigo inesquecível, que me recebeu em Luanda e me ajudou bastante. À volta do líder da Fnla, o ex-ministro da Saúde do governo de transição, figura praticamente decorativa, Hendrik Vaal Neto e um tal Cascudo, jornalista brasileiro, do «Cruzeiro», que eu conheci no Rio de Janeiro, quando fui cobrir a visita de Marcelo Caetano ao Brasil. Mais tarde voltei a vê-lo, em Luanda, a dirigir uma campanha de promoção, nem me lembro de quê. Depois disso ele terá ido para trabalhar para o movimento de Holden, onde se tornou conselheiro preponderante. Ele e Hendrik tinham em comum algo que os separava: apreciavam a companhia de jovens soldados...
Antes da chegada do primeiro contingente zairense, era o operacional da DGS o estratega das operações, aliás bem sucedidas. É melhor situá-lo. Era um dos mais influentes chefes dos Flechas, os homens da mata. Quase todos ex-guerrilheiros do MPLA eram bem o contrário dos soldados africanos comuns, dos tais que fugiam ao primeiro sinal de perigo. Os «flechas» eram largados algures na mata, para operações nos corredores por onde se infiltravam os guerrilheiros. Era a guerra suja. Não havia prisioneiros, nem condições para isso. Os primeiros resultados, sobretudo pela identificação de algums dos «abatidos», causaram enorme pasmo e alguma desconfiança. Desde então, os grupos de «flechas» levavam uma máquina fotográfica "polaroid". Os resultados continuaram a ser surpreendentes.
Eu conhecia-os. Algum tempo antes tinha feito uma reportagem com os «flechas» E já hão-de perceber porquê.
De 61 a 74 a guerra nas colónias evoluiu. No princípio era todo o dramatismo que qualquer guerra gera. Depois passou a ter o seu lado menos desagradável. Em Luanda, o largo da Portugália (um café vulgar, com esplanada) tornou-se um centro de corretagem. Os militares, a começar de cima, especulavam com divisas, à luz do Sol. A guerra ia-se tornando cada vez mais tolerável. Oficiais de diversas patentes ofereciam-se para mais comissões. Passaram, em geral, a fazer-se acompanhar das esposas, que abichavam lugares nos escolas ou nas repartições do Estado. A partir de 65 morria-se mais nas estradas do que na guerra. Os militares começaram a acomodar-se.
A polícia política cedo se apercebeu do perigo. Não podia, bem entendido, acusar ou hostilizar os militares. Sem outro recurso, montou a alternativa. Não sei de quem foi a ideia, mas sei que
São José Lopes, «zero-zero Lopes», como lhe chamava Rebocho Vaz, a adoptou. Um dos operativos junto dos «flechas» era um inspector, saído do exército com "Torre e Espada", suponho que seja assim que se diz!. Terá tido a sua importância no processo de contacto com a guerrilha da Unita, no Leste, onde os madeireiros já coexistiam com os guerrilheiros da mata, sem problemas. Através deles combinou-se um encontro. O inspector foi despejado do heli e
viu-se rodeado de guerrilheiros. Além das armas visíveis, levava uma pastilha na boca. Não seria feito prisioneiro!Atirou a metralhadora ao chão e disse vamos lá conversar e deixar de suspeitas. Conversaram.
O MPLA começou logo a ter muitos problemas no Leste, mas disso falarei depois. O que arrancou de seguida foi a acção dos «flechas». Os militares não levaram tempo a torcer o nariz e ao palácio do governo começaram a chegar reparos e a situação começou a tornar-se delicada. O director da DGS não foi de modas e pediu ao governador que interferisse junto do Notícia (desculpem, mas ainda hoje não consigo escrever Notícia entre comas!) para uma reportagem sobre os...«flechas»!
Lá fui com o Baião vê-los ser despejados do helicóptero ao cair da noite. E fomos recolhe-los très dias depois, uns 50 km adiante. Fui ao Luso, ver uma sanzala só deles e das respectivas famílias.
O inspector muito condecorado fêz anos e eu ofereci-lhe uma colecção de alicates. Foi muito amarelo, foi, mas mesmo assim um sorriso! A reportagem teve cortes significativos e por uma vez tive um director da Pide a apelar a meu favor. Nem mesmo ele conseguiu levantar mais que metade dos cortes e refilou comigo: "Vocês, jornalistas são uns sacanas, sempre a pôr veneno", mas eu percebi que ele estava só a ser director e que estava tão lixado como eu, a censura era militar...( continua, se o bom Deus quiser).

1 comentário:

maria joão massano disse...

olá,
vi o seu blogg o comentário que fez do ambriz....
os meus pais e irmão, e eu inclusive estavamos lá... falou do manel pópó, que enterramos em Elvas há muitos anos, faleceu num acidente de mota.
gostaria de saber se também conheceu os meus pais...
prata massano diz-lhe algo???? era conhecido pelo mais velho....