domingo, julho 30, 2006

A Democracia em África

Um dos mais importantes países africanos, porque dos mais ricos, porque dos de maior miséria, na saúde, na educação, na habitação, porque um dos que de forma mais consistente alimentou a corrupção de todo o Mundo, vai hoje a votos. A República Democrática do Congo, ex- Congo Kinshaza, ex- Congo Belga, um território, considerado, pelo Pentágono, há mais de 50 anos, como indispensável para a expansão da indústria norte-americana, na sua vertente mais inovadora, pela variedade de metais existentes no seu sub-solo, vai, depois do assassínio de Lumumba,do golpe contra Kasavuvu, pela primeira vez, tentar a via democrática para definir o poder.
Imaginemos que a tentativa resulta e que este país, potencialmente, o mais rico do Mundo, consegue organizar-se de uma forma democrática, dando capacidade de representação às maiorias e também às minorias...Imaginemos que consegue uma forma democrática de orga nizar a economia de, com o tempo, deixar que as várias culturas existentes naquele territótio imenso tenham capacidade de se manifestar...Imaginemos que, depois de eleições justas, o novo poder delas saído, resolve assumir na região em que se inscreve o papel que, teoricamente, lhe cabe, promovendo um diálogo inter-africano na busca das melhores soluções para o Continente.
Não acham que já estamos a imaginar demais?
Isso não nos impede, todavia, de desejar. Desejemos, então!!!

segunda-feira, julho 17, 2006

Os Dez Anos da CPLP

Corria o ano de 1975, a Assembleia Geral da então OUA estava reunida em Kampala, capital do Uganda e, já, com a sala cheia, à espera do presidente em exercício, Idi Amin Dada, eis que este entra numa espécie de trono transportado por quatro homens brancos de grande estatura.

Idi Amin dizia, gargalhando e utilizando um vozeirão incrível: " este é o peso do homem branco".

Terá sido a última reunião da OUA sem agenda, sem objectivos, sem ordem, já que, a partir dessa altura, um novo grupo de países, os de Língua Oficial Portuguesa, passaram a controlar as agendas, os bastidores e , juntamente com outros estados mais organizados, tentaram dar um novo sentido áquela organização continental.

"Os Cinco", como ficaram conhecidos, com o decorrer dos anos, dignificaram em certas circunstâncias, a OUA e a sua coesão era tão forte que cedo foram tentanto institucionalizarem-se a si próprios como um grupo capaz de fazer pressão para que África deixasse de ser o pasto que era.

Criou-se o Grupo dos Cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) - o que, logo de seguida, levou a tentativas várias de interferência, nomeadamente de Portugal, com Mário Soares como primeiro-ministro e Jaime Gama como ministro dos negócios estrangeiros.

A célebre proposta do "Diálogo Continental", que Jaime Gama foi propor a Aristides Pereira, então Presidente da República de Cabo Verde.

A resposta não foi simpática a e as tentativas portuguesas pararam até que apareceu o Brasil na jogada, com José Aparecido a propor uma organização que agrupasse todos os países de Língua Oficial Portuguesa - uma coisa que se chama CPLP e está a fazer dez anos de existência. Ninguém consegue descobrir o que foi feito em seu nome, além de algumas festas de comemoração

A notícia de hoje, todavia, dizia que os tais dez anos seriam assinalados com a assinatura de uma série de acordos e protocolos. Na reunião final, em Bissau, não estariam presentes os Presidentes do Brasil, Lula da Silva, e de S. Tomé e Princípe, Frederique de Menezes.

Mas, enfim, já passaram dez anos. Os Cinco deixaram de existir, a OUA foi substituída por uma UA, cuja existência ninguém nota e estamos todos contentes. Pelo menos já não existe o Idi Amin Dada.

domingo, julho 02, 2006

Cinema de Viva Voz

A propósito das grandes dificuldades que a educação enfrenta um pouco por todo o Mundo, um dia destes, em conversa com um amigo, lembrei-me de uma prática do Colégio Alexandre Herculano do Huambo (Nova Lisboa) de há muitos anos - ainda as respectivas instalações eram na cidade baixa.
O Colégio era dirigido pelos padres espiritanos e a disciplina era uma das suas preocupações, embora, tanto quanto me recordo, se respirasse um clima descontraído. Todavia, regras eram regras e, por exemplo, só os mais velhos podiam sair uma vez por semana do internato para ir ao cinema. Os mais pequenos, só às matinés de domingo, para o que necessitavam de uma autorização dos pais.
Mas os filmes que excitavam as imaginações dos adolescentes e pré-adolescentes passavam à noite.
Ora, normalmente, os mais velhos não tinham dinheiro, as mesadas que as famílias mandavam desapareciam rápidamente, mas os mais novos tinham mesmo alguma dificuldade para gastar o que lhes chegava de casa, pelo que alguém - nunca se saberá quem - inventou um verdadeiro bom negócio, já que servia ambas as partes; os mais novos emprestavam aos mais velhos o dinheiro necessário para que eles fossem ver os tais filmes. No dia seguinte, como contra-partida do empréstimo, os devedores contavam aos credores o filme - o que acontecia durante os intervalos das aulas.
Era um espectáculo presenciar as voltas que dois a dois (um mais velho e um mais novo) davam ao campo de futebol do Colégio. Alguns mais exuberantes, paravam, de vez em quando, imitavam os gestos do que se supunham ser os personagens dos filmes. Estes passeios duravam, às vezes, todos os intervalos dos trabalhos escolares e em alguns casos, prolongavam-se durante as horas dedicadas ao desporto.
Houve um dos mais velhos - e também mais esperto - que tentou modificar o negócio inicial: um dos que fosse ao cinema contava aos "miúdos", em conjunto, a estória do filme.
Não!!! disseram os mais novos. Exigiam uma narrativa personalizada: a quem emprestassem o dinheiro tinha a obrigação de contar o filme. E alguns deles não emprestavam a todos; escolhiam aquele com mais imaginação para a reprodução da estória.
Olhando para trás, não podemos deixar de constatar que o Mundo, sendo mais simples, era também mais feliz. Os problemas da educação ainda se resolviam dentro das escolas e , às vezes, de forma imaginativa, sem necessidade de grandes tecnologias, que fomentam a solidão, as depressões, a competição desenfreada.
Naquele ambiente, que hoje não conseguimos classificar, mas que é motivo de saudade para quem o viveu, cresceu gente de que muito nos orgulhamos hoje. Por exemplo, o António Segadães, fez parte destes grupos (não sei se emprestava ou recebia), mas não deixa de ser, hoje , uma das figuras que mais orgulha uma geração de estudantes de papel, sebenta e grande espírito de solidariedade. Muitos outros andam por aí, mas, hoje lembrei-me deste, do engenheiro português mais laureado de todos os tempos.

quinta-feira, junho 22, 2006

Assassinado?????

Um dia destes parei na SIC Notícias. Estava o Pepetela a ser entrevistado pela Maria João Avilez, que, como sempre, revelava a sua ignorância de forma despudorada. Não admira, portanto que o entrevistado se sentisse fora das suas águas. Desisti da entrevista quando, a entrevistadora, que, durante anos, fez parte do clã pró-Savimbi e fazia viagens à Jamba para falar das plantações de fuba e dos semáforos, disse que o Savimbi tinha sido assassinado.

O Pepetela, coitado, ainda pestanejou forte, mas aceitou e não teve coragem para dizer à senhora que o seu ídolo de outros tempos tinha morrido numa guerra que ele próprio tinha desencadeado e que era responsável pela destruição de um país e pela morte de centenas de milhares de pessoas. Como sempre, na hora, faltou a coragem ao Pepetela para dizer que Savimbi tinha sido um psicopata assassino.

quinta-feira, junho 15, 2006

Encontros e Desencontros

Ando há semanas para escrever esta simples frases: reencontrei o Trabulo. Queria escrevê-la sem emoção, ou com a emoção suficiente para que toda a gente percebesse que este foi (é) um verdadeiro encontro. É que, logo a seguir, estávamos a falar como se nos tivessemos visto há apenas dez minutos.
E...todavia, os desencontros destes 44 anos foram muitos. A última vez que nos tínhamos visto foi em Fevereiro de 1962. A mãe dele tinha falecido há pouco.O curso de medicina ocupava-o por completo e havia algumas tardes que saíamos para jogar bilhar (seria?). A poesia era, nesse tempo, o seu escape. Para mim, o regresso a Angola era uma obsessão - (detestava as "miúdas com soquetes e que se ruborizavam quando se lhes pegava na mão...).
Eu regressei!!! A minha vida ganhou a dimensão africana que, mais tarde, se revelaria um verdadeiro atropelo da minha personalidade, um choque autenticamente "tecnológico" e, apesar de tudo, um confronto cultural de que saí derrotado. Apesar da inexistência de soquetes, das experiências heterodoxas, dos filhos...apesar do amor à terra , às gentes...
Os choques deram origem ao reavivar de outras raízes, de outras memórias, à descoberta da minha condição de desenraízado, vivendo numa terra com quase nove séculos de História, capaz de absorver, internamente, verdadeiras aberrações, como as estórias de violações de crianças praticadas intra-muros familiares e eleições entre pares de uma mesma farça...
Estas, todavia, não eliminavam as outras, as memórias dos tempos felizes e limpos. E sempre lá estava o Trabulo, companheiro de brincadeira de bairro, confidente de estórias verdadeiras ou inventadas na adolescência irriquieta de quem ainda não tinha o Mundo nas mãos, mas, seguramente, iria ter - sem soquetes, de preferência.
A primeira grande notícia veio com o "Mulemba - contos de África" - dois livros num apenas, mas que me revelava o Trabulo saudoso de África - não africano, mas saudoso da envolvência.
Depois foram as notícias sobre o Diário do Salazar: gente zangada, a fazer do Trabulo objecto das suas próprias frustações.
Com meestria, ele apenas fez aquilo que todos nós, da nossa geração, gostaríamos de fazer: imaginar o que era, o que pensava e o que fazia o mafarrico.
De tal forma o fez que conseguiu, nas partes que são pura ficção, imitar a linguagem do António de Santa Comba. No final, não há quem não conclua que o homem era um simples mortal, mas com ambições de poder desmedidas; e encontrou formas para as concretizar.
Não deixa de ser interessante - para mim - que, ao mesmo tempo que lia o Salazar, lia um outro livro do António Trabulo: " Histórias do Caparandanda",uma colecção de contos angolanos compilados por ele e reescritos com a sua linguagem poética. Afinal, a diferença entre os dois livros, está em que Salazar - um personagem real - provocou males reais a personagens reais e os Contos do "Caparandanda", parecendo fábulas, não deixam de ser retratos de outras sociedades em que o mal e o bem se gladiam - embora de formas diferentes e sem que o bem sempre vença.
No mesmo contexto de "estórias de outros tempos" (Caparandanda), tanto os contos angolanos, como a biografia de Salazar, não deixam de ser lições que os mais velhos transmitem aos mais novos. É o encontro possível entre gerações - numa perspectiva africana.
À maneira europeia, um escrito, um livro, um conto, uma fábula, uma crónica tem sempre uma perspectiva política, em que benfiquistas estão de um lado e sportinguistas de outro. Não há encontro possível e a lição a tirar é sempre diferente.
Independentemente dos livros e do gozo que a sua leitura me deu, venho aqui, de um modo demasiado emocionado, talvez, dizer que este reencontro foi - tenho de o confessar - uma das grandes alegrias desta minha condição de desenraízado, que, de vez em quando, lá encontra um pouco da sua própria terra para pensar na justeza dos desígnios dos deuses.
O Trabulo está a escrever muito. Acho que, finalmente, para além da sapiência com que exerce a sua profissão de neurocirgião no Hospital dos Capuchos, encontrou tempos para a sua "vocação": a escrita. Entregou-me um texto-rascunho sobre o "Cunene", o nosso fascínio de adolescentes. Um rio que ele viu uma única vez, durante uma excursão de liceu.
Mais tarde, em circunstâncias bem diferentes, tive a oportunidade de conviver o dia-a-dia- com o Cunene, a primeira maravilha do Mundo. É outro encontro.Ele não precisou do dia-a-dia para sentir o Rio Cunene como eu ainda hoje o recordo.
Estamos Juntos - diriam dois amigos Quiocos.

segunda-feira, junho 12, 2006

O IMENSO NADA

Se a Televisão tivesse aparecido quando um tal César ia ver leões a devorar cristãos talvez o futebol ainda não tivesse conhecido a luz do dia. Haveria por certo, pelos meus lados, um coliseu
municipal e como por aqui não se vislumbra leões, e os lagartos não servem, assistiriamos decerto ao confronto de incompreendidos crentes com varas de porcos ferozes e imundos. Gladiadores a soldo da autarquia haveriam de animar as hostes. Os criadores de presuntos sabiam como minar a resistência dos religiosos: ao cair da noite, abriam as valas e despejavam os degetos pelos ribeiros que abasteciam de água os tementes e desprotegidos do Senhor. Os jogos despertavam, claro, muito entusiasmo e geravam não pouca expectativa. Havia muitos especialistas para comentar e criticar a pouca operacionalidade dos cristãos.
Presumo que os campeonatos do mundo teriam forçosamente de ser todos em Roma, porque eles haveriam de controlar o comércio de leões, cuja missão na Terra era, bem entendido, mastigar com requintes de malvadez uma espécie vagamente humana a que se dava a condição de carne para leão.
A Televisão nunca falhava- Viam-se por vezes dentes avermelhados, ainda com pedaços de carne humana por palitar. Uma festa que as câmaras difundiam, focando os corpos a ser desmembrados e desossados pelos impetuosos reis da selva, tudo minuciosamente descrito e comentado. Quem é que quereria saber de futebol, se o houvesse, para alguma coisa?
Mas não havia Televisão. Nem mesmo quando Napoleão foi ao Egipto. De facto nem quando o Benfica ganhou a Taça Latina. Foi preciso a Isabel vir a Lisboa para o «manholas» ligar a TV.
E cinquenta anos depois ainda não temos leões que alimentar de mitos. Esta noite sonhei com leões, maus como as cobras, embevecidos a escutar o Humberto Coelho e o Toni, que falavam com um chicote na mão e falavam uma língua estrangeira, a deles. De manhã, que bom!, a televisão estava desligada e não se ouvia um pio. Eu podia finalmente ter razão, a minha, sem contestação. A Itália ganhou.Paciência! O que me lixa é que o Togo perdeu e o surdo sou eu. Pois é, pois é, o pior surdo é o que não quer ver. Daqui a cinquenta anos estes gajos da bola já não me chateiam. Vale uma aposta?

domingo, junho 11, 2006

...E JÁ FOI O ÓPIO DO POVO!

Sim,sim, que bem me lembro! É domingo,ponto final, porra. Estou à espera que o dia corra e a tarde finde. Que venha a bola. Queria ter uma razão para adoçar a ansiedade. Queria uma alegria angolana. Não é que eu não tenha nascido na Alfredo da Costa e por cá tenha sentido o efeito do regime ditatorial. Tenho algum direito de não apreciar ditaduras, onde quer que elas imponham a sua força. Mas o apego ao futebol está para além disso. Foi o futebol que conquistou a atenção do poder, mas acabou, como muitos de nós, a servi-lo.
Foi um extinto diário comuna que alertou com ira: o futebol é o ópio do povo. Azar! Uma semana depois viria a Lisboa uma equipa soviética, para uma eliminatória europeia. Duas dúzias de jornalistas moscovitas de não sei quantos pasquins e de canais de televisão! Fartei-me de gozar com Tavares da Silva (sobrinho), que encontrei no Camões a caminho da Brasileira. Desde Luanda que nos davamos bem e continuamos a dar. Tinha-o encontrado uma noite na Mansarda, onde intelectuais e artistas curtiam a noite. Meses depois habitavamos Angola.
A sorte comum foi o regresso às origens.
Isto lembra-me que estou sem ler jornais lisbonenses desde quinta-feira. Exasperei-me com a moda dos jornais imporem toda a espécie de «lixo» que bem entendem e exigirem que o leitor o pague. Não, definitivamente não. Isto vem a propósito de ter lapsos de informação e à falta de melhor espreitei os jornais de fora. Esbarrei com «Le Monde» e pasmei com («Hookergate» à Washington) um escândalo delicioso na área de residência do sr. Bush. Corrupção em alta escala e como o título insinua envolve não poucas pequenas da vida. Desconheço (e devem perceber porquê!) se os jornais portugueses deram conta do escandalo que envolveu altas personalidades empresariais e de organismos do Estado e que viria a culminar com o rolar de cabeças na CIA. A história tem algumas semelhanças que o escandalo denunciado recentemente sobre a FIFA, pois também
inclui a oferta de serviços de prostitutas e aliciantes partidas de pocker. Receio que o livro sobre
a FIFA, bem como outro anterior sobre o COI tenham tido pouca ou nenhuma divulgação por aqui. Neste caso, claramente político, aconselho a leitura do Le Monde do dia 9 (nove), posto à venda, como se sabe, na véspera. É possível o acesso pela NET. Atenção que, ao contrário do que acontece em várias pátrias, há gente já condenada, há outra em vias de, um manda chuva da CIA já se molhou e há negócios com ramificações sabe-se lá até onde...
Mas onde é que eu fui parar! Estava na bola e zangado! Não aguentei o jogo de Holanda, que eu queria ver. Mas aquela malta dita comentadora não se aguenta. Só falam,falam, arengam, misturam alhos com merdas, desviam a atenção, incomodam. Tinha ouvido o José Augusto Marques e ele, sim, ele ajuda a ver o jogo. É discreto e conciso; não inventa, não se desmarca. Não chateia, mas o jogo não dava para muito. Ainda na SIC ouvi outro, também, suportável. No Cabo, senhores! Fiquem calados. Deixem o Toni falar no fim do jogo. Um dos canais minúsculos de notícias, nem sei qual, incluiu um excelente comentador. Simples mas directo. Fácil de ouvir e de entender: Inácio, é ele. Pode-se aprender a arte do comentário, mas é mais natural quando nasce com a pessoa. O que se lastima é não haver nas televisões, sobretudo nas televisões, gente capaz de escolher quem deva e só faça aparecer quem dá jeito ou quem faz jeitos, sem qualquer critério. E agora uma brincadeira inocente:lembram-se como (e porquê) foi «inventada» a tv por cabo???????
Para nos livrar da pub... Fomos todos comidos, os que acreditaram... Boa tarde. Vou esperar
por um doce tropical. Nada de minúsculo. Por favor não empatem...

quinta-feira, junho 08, 2006

NÃO HÁ VOLTA A DAR...

Pois é, pois é: fomos nós que descobrimos o caminho marítimo para a Índia e passámos pelo mostrengo sem lhe ligar. Povoámos a Madeira deserta e acasalámos por África, pelas américas e outros mundos além, onde a carne fosse dócil. O eléctrico e o telefone foram os ingleses que trouxeram. Os portugueses sabiam andar, não sabiam estar. Ainda hoje estão sempre a partir. E se é certo que ele há portugueses por todos os cantos do mundo, lá isso há, isso já não quer dizer nada.
Os africanos famintos fogem dos africanos bem alimentados e espalham-se pela Europa estupefacta. Tempos houve em que africanos atónitos eram conduzidos por europeus para as américas, onde os pré-americanos os americanizaram à força. Hoje as pequenas do Leste são levadas sabe Deus como e para onde! Mas não é só gente carenciada de dinheiro que nos chega daquelas bandas. Quando partem sem destino certo vão em busca de trabalho e de conforto. Mas com eles trazem, sem o saber, tentáculos das mafias, que se expandem e fomentam a criminalidade. A tragédia de uns quantos acaba a servir o sub-mundo.
O alastrar da comunidade chinesa pela Europa, nos nossos dias, tem componente menos dramática, mas não deixa por isso de ter uma causa comum à dos africanos ou dos europeu
Quando era miudo, lembro-me que o meu pai costumava comprar gravatas a um chinês. Nem
sei se poderia simplesmente dizer: ao chinês de Lisboa. Talvez houvesse mais outro, não sei. Depois vieram mais. Não tanto por eu gostar da sopa dos restaurantes deles mas porque tinham que vir, isto é: tinham de abalar de lá para onde quer que fosse.
Lembro-me, e já lá vão mais de trinta anos, que, na África do Sul, em pleno apartheid, os chineses que por lá aparecessem, eram considerados não brancos e tal tinha custos. As leis são o que nós sabemos e onde quer que seja e ali os chineses não, senhor, não podiam. Mas os japoneses, sim senhor, hotel bom e do melhor? Sim, senhor! Tez é tez, taco é taco! Uma coisa são os preconceitos rácicos ou religiosos outra é a veste económica. O volume do porta-moedas branqueia e burila, sobretudo a política económica! Mas era, convenhamos, outro tempo e outro espaço para este tipo de contradições...
Mais do que sair, bem mais do que isso, a maioria dos imigrantes foge alucinada, muitos deles para mortes brutais ou escravatura medonha. O fluxo é excessivo e como as marés é imparável, alaga, inunda, arrasa.
A estabilidade, como argumento, vai desaparecer. Se numa sociedade antropófoga é imoral não comer carne humana, no caos a violência substitui a ordem ou, pior, subverte-a.
Daqui por três ou quatro Séculos tudo isto estará arrumado e a humanidade (se a houver) terá assunto para aulas do ciclo secundário. Entretanto, vamos à bola. Força, meus, força, carago...

DAR UMA VOLTA

A África vai-me ficando para trás, esbate-se na memória. As mukandas do Fernando são como mata-borrão: secam mas não apagam. Por estes dias não há notícia que aguente, o foot supera tudo. O Scolari é o dono da bola e Luís Figo o seu profeta. Timor deita braço de fora, mas Miguel ganhou o lugar. Os australianos chegaram depressa, mas não é por muito madrugar que amanhece mais cedo, devem ter pensado os da GNR, que não toleram excessos de velocidade.E o calor entorpece e o melhor que consegue é fazer sede. Estive para ligar para o Leston, de zangado que o senti, beber um copo alivia a sede e aquieta o espírito. Angola é como é, como a querem e como a moldam os que podem. Como Timor, minha gente, como Timor! Deu no que deu, no que podia dar. Na linha do que havia sido a descolonização em África! Em colaboração clara de cooperar com a política expansionista de Moscovo.O que um certo "25" lhe deu não tinha nem teve a ver com liberdade ou democracia. O que «aquele» revolucionário "25" lhe levou era o abrir a porta aos camaradas soviéticos. Como de resto tentaram também, mas debalde, fazer em Macau. Os chineses não estavam a dormir!Kissinger, por uma vez, não perdeu tempo e pôs o indonésios a travar a intromissão e a integrarTimor. Abandonamos, e deixamos indefeso, um povo que sempre nos respeitou.Quando a União Soviética se dissolveu, a Indonésia fez como o José-africano, que deixou cair o «popular» da República e se arrimou à tolerável democracia. Se os timorenses queriam ser livres, que o fossem, uma vez que os americanos já não se importavam.Pelo meio apareceu o petróleo, porque um «mal» nunca vem só. Mas dá para ter amigalhaços e como se sabe os australianos são para as ocasiões. Verdade se diga que a Austrália já era para os timorenses o que o Brasil foi para os portugueses: pátria de acolhimento.Tem-se visto como não falta por essa Europa fora gente portuguesa, por lá radicada, a receber a equipa lusitana. Não deixamos de ser como somos, por gosto ou necessidade. Mas não apreciamos muito que outros se instalem à nossa porta.Talvez seja por esta característica mesquinha que nos vamos esquecendo de defender a língua que soubemos criar. Fomos saindo de onde estivemos, sem deixar escola, que promovesse o português, a língua de um povo que teve méritos, que foi perdendo. É pena!Não só em Goa, mais recentemente, nem em Damão ou Diu. Quanto da imensa Índia não ouviu e entendeu o português!Imaginam que, uma vez, o Artur Ferreira fez uma pausa nas correrias dos pó-pós e entrou pela Indonésia e se entregou ao pasmo, fotografando magníficos monumentos e marcos de presença portuguesa, carinhosamente preservados. Não foi autorizado a expor as fotos: a Indonésia era suposta martirizar o povo timorense.Uns quatrocentos anos depois, Mário Soares foi a Castelo de Vide pedir perdão pelas maldades exercidas contras os judeus. Que diabo, ainda só passaram trinta anos sobre o abandono miserável de Timor...

sábado, maio 27, 2006

A Minha Mana

A minha mana fez hoje anos - no mesmo dia em que os faria minha mãe. Os filhos fizeram-lhe uma festa no Alentejo. Telefonei-lhe e ela estava feliz. Recomendei-lhe que dissesse aos filhos que a tratassem como uma princesa porque ela era minha rainha. O telefonema ficou por ali. Habituados como estamos a dominar as emoções temos dificuldade em lidar com elas quando surgem, assim como touros largados em calçadas de pedras engorduradas.

Acho, todavia, que é tempo de voltarmos a perceber que os homens se distinguem dos outros animais por uma maior capacidade de exteriorização de emoções - o que não é o mesmo que afirmar que os animais não as têm.

Um abraço do tamanho do Mundo, minha mana.

quarta-feira, maio 24, 2006

Luandino

Quando alguém ( o Vasco Trigo) me chamou para acabar de ouvir a notícia de que o Luandino Vieira tinha sido premiado como o "Prémio Camões" fiquei estarrecido. Ali mesmo, na rua, junto ao carro dele, onde ambos estávamos a ouvir os últimos pormenores, eu lhe garanti não acreditar que o Luandino Vieira aceitasse receber o prémio.
A que propósito - fui eu pensando ao longo da tarde - alguém desassossega outrém que, há anos, disse o que tinha a dizer a propósito da escrita e de si próprio e depois se calou?
Por alma de quem se vem premiar um escritor, cuja obra, já premiada, se não perdeu qualidade, está, todavia, ultrajada pelo que fizeram da realidade que lhe deu origem?
É um desaforo. Luandino sabe que este prémio não tem nada a ver com ele - continuei a pensar com os meus botões.
De resto, acrescentava nas minhas lucubrações, os pressupostos desta atribuição também estão errados. Luandino foi (é) angolano por razões que ele próprio reconhece já não existirem. É um pretexto muito pobre para alguém que , como ele, abdicou de tudo porque não podia transformar nada.
De facto, Luandino não foi capaz de, como fez, por exemplo, Pepetela, descrever como se de uma caricatura se tratasse a sociedade angolana, particularmente a de Luanda.
Também não recorreu à mistificação e à mentira, como faz sistematicamente Agualusa para contar estórias pretensamente ficcionadas mas que relatam factos verdadeiros da vida de pessoas a quem ele deve respeito e a quem nunca pediu autorização para delas se servir.
Era público e notório que Luandino tinha desistido do passado como fonte de inspiração. Todos nós, os seus admiradores, os seus leitores, esperávamos o dia em que um novo Luandino (quiçá com outro apelido que lhe acrescentasse significância) aparecesse nos escaparates das livrarias.
Este júri deste prémio Camões, com as suas "escalas idiotas" veio, seguramente, estragar-nos o nosso gozo e o dele também.
A notícia de hoje - a da renúncia de Luandino - encheu-me de alegria. Além de um escritor notável, continua a ser um Homem.
Afinal, posso continuar a ter dois heróis da luta pela Independência de Angola: o José Luandino Vieira e o Carlos Rocha (Dilolwa)

terça-feira, maio 23, 2006

A Foto e a Barba

Está bem, Fernando. Aqui está a foto, o Sérgio Santimano, o Kok Nam, a barba e... já agora, as meias brancas.

domingo, maio 21, 2006

Regresso

Hoje voltei ao "Romeiro". Desde Novembro de 05 que não escrevia lá uma linha. É difícil, porque para contar os pormenores da história do jornal "África", depois de narrado o essencial, é necessário tempo.
Aconteceu, porém, que o Sérgio Santimano, um notável fotógrafo moçambicano, que começou a sua carreira na AIM de Moçambique, passou por Lisboa e da conversa surgiu a recordação de uma fotografia que o Kok Nam tirou a nós dois - na moto do Sérgio.
Foi para publicar essa foto que voltei ao o-romeiro.blogspot.com para acrescentar mais um pedaço da história do jornal "África".

domingo, maio 07, 2006

Educação e Professores em Angola

A notícia foi publicada por várias agências e glosada em tons diversos: os professores angolanos entraram em greve, exigindo da parte do Governo um salário mínimo de 300 dólares.
Como questão prévia ao que a seguir vou escrever quero garantir que não me move - ao contrário de outros tempos, quando escrevia em jornais de venda pública - ser tomado como um especialista, um crítico, o que quer que seja. E também não estou interessado em desenvolver qualquer influência sobre quem manda em Angola.
Todavia, a notícia da greve dos professores transportou-me para outros tempos, quando, de forma voluntariosa e voluntarista, imaginava possível contribuir para a construção de um sistema de educação eficaz, melhor do que aquele de que me tinha servido, prestigiado e virado para a construção de um novo país, com a capacidade de realizar todas as suas potencialidades.
Pouco tempo depois da Independência de Angola, porém, cheguei à conclusão de que tal não seria possível. A Educação foi mal tratada, os professores relegados para plano secundário e, logo de seguida, vingou a ideia de que o "o melhor seria mandar os estudantes para a URSS e para Cuba".
A Universidade de Luanda, que tinha delegações no Huambo e no Lubango foi praticamente destruída. Aquela não era a Universidade do MPLA, embora provocasse o espanto a todos os que vindos, então, dos chamados países socialistas onde existiam Universidades reputadas, visitavam as suas múltiplas valências.
As Faculdades de Agronomia e Veterinária, sediadas no Huambo tinham, em 1974, condições tão extraordinárias que parecia "engano". O que é que se tinha passado ali? perguntavam os visitantes. As faculdades de Medicina e de Ciências, em Luanda provocavam a mesma estupefacção.
Um grupo de pessoas, nas quais me incluo, fizeram os possíveis por manter, no meio da guerra que dilacerou o país entre 1975 e 1977, provocada pela invasão sul-africana, as condições que permitissem o arranque de todo o sistema na altura própria. O Homero Leitão liderava este grupo e, todas as manhãs, alimentava a nossa esperança de que, em breve, a " nossa Universidade" estaria a funcionar da melhor maneira.
Qual quê?
Agostinho Neto não queria aquela universidade e, por isso, não dava dinheiro, isto é, não havia orçamento. Quando fomos fazer uma reunião com o então ministro da economia, Carlos Rocha, Dilowa, foi-nos negado, inclusivé, a utilização do orçamento que não tinha sido gasto no ano anterior. Estávamos em 1976.
Depois que os sul-africanos abandonaram o território angolano (27 deMarço de 1976) tudo se complicou. Por exemplo, no Lubango, para onde eu tinha regressado em Fevereiro a fim de iniciar as aulas na Faculdade de Letras e fazer outras coisas (tantas!!!) começámos a lidar com uma dificuldade impossível de superar: a qualidade dos professores que nos mandavam de Luanda. Gente que fazia a carreira docente pela via política, gente com cursos tirados na Patrice Lumumba, em Moscovo.
Nenhum dos nossos pedidos para o recrutamento de professores foi atendido e a qualidade do ensino foi-se, degradando de forma irreversível.
Mais tarde, aquela faculdade foi transformada num instituto de formação pedagógica, mas os resultados não parecem ter sido brilhantes.
Entre dificuldades de toda a espécie iam acontecendo peripécias inauditas. Uma delas foi o aparecimento de diplomas falsos trazidos por estudantes do ex- Zaire, que, de resto, foram, aos poucos, tomando conta do sistema.
Quando saí de Angola, a "nossa Universidade"era uma caricatura, com professores que nem a língua conheciam e traduziam do russo para o francês, para, depois, alguém traduzir para português.
Mais tarde, Agostinho Neto autonomeou-se Reitor da "Universidade Agostinho Neto". Não me consta que tal alteração tivesse provocado um milagre. Angola arrastou-se na penúria de quadros e fez do desprezo pelos professores mais uma marca característica de país do terceiro mundo - um terceiro mundo especial, já que o seu sistema de educação tinha sido considerado, pela OUA,nos anos 60, o melhor de toda a África e também porque era, em 1973 um país autosuficiente do ponto de vista alimentar e já exportava carne, milho, farinha de peixe, além dos produtos próprios das indústrias extractivas, tais como o ferro, com uma mistura de ouro que dava para os importadores pagarem o que importavam, cobre, diamantes e, claro, o petróleo.
Num país com estes contornos percebe-se mal que os professores tenham que fazer uma greve para exigir um salário correspondente a 300 dólares.

segunda-feira, maio 01, 2006

Fernando Alves com Sampaio

Lembras-te, Fernando? Não só parecias o Che, como eras cabeludo, jovem e magro. E já tinhas à frente do teu microfone Jorge Sampaio, a transpirar com o calor de Luanda. Ele ainda era do MES, não pensava que algum dia viesse a ser o "Rocard" português. Acho que naquela altura nem punha a hipótese de aderir ao PS, quanto mais um dia vir a ser Presidente da República. Estava com ar cansado e já não me lembro o que terá dito, mas, concerteza, muito parecido ao que todos diziam: nada. Naquele tempo, há 32 anos, era, todavia um "gajo porreiro".

Quem é o "penteadinho", de pulseira na mão esquerda. Da Eclésia?"

Esta foto fui "roubá-la" aqui ao lado, ao "Lusofolia".



domingo, abril 23, 2006

A Coragem de Olhar de Frente

Na evocação da data que se aproxima preciso salientar, para quem me lê e não me conhece,que vivi intensamente o 25 de Abril, esperei por ele muito tempo e hoje, passados 32 anos sobre a data sinto-me enganado, traído, esmagado, porque a esperança já não tem sentido.
Ao olhar para o país que me cerca, sinto-me, de novo, na minha de condição de português, sem nenhuma razão para justificar o "raio" do orgulho que me prende a essa condição.
Pior ainda: os anos passaram e temo que o pior dessa condição me caia em cima quando já não tiver forças nem sequer para um olhar de raiva.
Transcrevo a seguir um texto de António José Saraiva (por favor não confundir com José António Saraiva, cuja última crónica que li no Expresso dizia que finalmente tinha chegado à conclusão de que "havia uma diferença entre os homens e as mulheres") - nunca mais comprei o tal jornal.
O texto que transcrevo é do autor da História da Literatura Portuguesa, escrita de parceria com Óscar Lopes e cujas 912 páginas serviram para me preparar para o meu exame do 7º ano dos Liceus.
Chegou-me via e-mail e eu não podia perder a oportunidade de o transcrever aqui, tanto mais que alguma da sua importância está ligada às relações de Portugal com África.:
O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA
Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no exército, não estava interessado um acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar. Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas dos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas.Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos.Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total.Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquios, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encubria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente.
António José Saraiva

terça-feira, abril 11, 2006

Não É Que Ele Tem Razão ?

O Jornal de Angola de hoje, na sua coluna "Opinião", publica, com o título "As Feridas da Liberdade" uma prosa que reconheço. O texto não é assinado, não me compete, por isso, dizer o nome do autor. Este reconhecimento permite-me,todavia, esclarecer que o texto é oficial.
Por outro lado, não me custa aceitar que desta vez, apesar de certos exageros de algumas generalizações ele tem razão. A Imprensa portuguesa é, normalmente, relativamente aos PALOP paternalista, intrometida, arrogante, desinformada e desinformante.
Reproduzo aqui o tal texto:
A visita oficial do Primeiro-Ministro português a Angola foi um êxito a todos os níveis e marcou o início de uma nova era de relações entre o nosso país e Portugal. José Sócrates e a sua delegação trouxeram um abraço de solidariedade e de amizade do povo Português ao povo Angolano. O diálogo franco e aberto que se estabeleceu entre os mais altos dirigentes dos dois países ajudou a enterrar velhos fantasmas e estabeleceu-se um clima de confiança. Estão criadas todas as condições para aprofundarmos uma relação fraterna, própria de povos que têm uma vivência comum de séculos.Por isso, dificilmente se compreende que muitos órgãos de Informação portugueses tenham desencadeado um coro de insultos contra os mais altos dirigentes angolanos e toda a espécie de mentiras sobre o nosso regime e as nossas instituições. Os fantasmas do colonialismo explicam muito deste comportamento. O racismo, numa primeira linha, responde por esta campanha bi-zarra. Mas a ignorância também joga um papel importante neste autêntico festival de mentiras e calúnias. Muitos líderes de opinião portugueses que se têm destacado nesta campanha caluniosa contra Angola e os seus governantes desconhecem em absoluto o nosso país ou apenas têm conhecimento dele pelas informações que lhes são oferecidas por centrais de intoxicação.Entre eles estão antigos turistas da Jamba que faziam parte da lista de pagamentos de Jonas Savimbi. Nesse grupo de comerciantes da honra está o caricato Director do Jornal “Público” que sem nunca ter posto os pés no nosso país destila em forma de escrita canhestra opiniões fundadas na ignorância e na provocação. Pelos vistos, há escribas que têm sempre um dono pronto a pagar-lhes. Ontem era Savimbi, hoje sabe-se lá quem é. Mas publicar opiniões sobre algo que não se conhece, é de um atrevimento inaudito. Portugal merecia melhor que estes indigentes mentais que publicam desvairados recados a troco de uns tostões. Que lhes façam bom proveito.Qualquer mentecapto compreende que levantar um coro de insultos contra o Presidente da República de Angola, contra os nossos governantes e empresários, não é um acto amistoso. Nenhum jornalista angolano, nenhum comentador, nenhum líder de opinião lembrou à comitiva portuguesa que o direito ao emprego faz parte do elenco dos Direitos Humanos. Ninguém se lembrou de investigar os governantes portugueses por terem permitido que crianças à guarda do Estado Português tivessem sido abusadas sexualmente. Ninguém fez a lista dos corruptos que, segundo magistrados portugueses, crescem como cogumelos à sombra do aparelho de Estado e estão a exaurir a riqueza de Portugal. O que aconteceria em Portugal se o tivéssemos feito?Ainda temos bem presente as reacções dos órgãos de Informação portugueses quando um dirigente angolano opinou sobre membros da família Soares. Não trataram de saber se as declarações eram verdadeiras ou falsas. Foram logo catalogadas de insultos e geraram ondas de indignação. A libertação de Angola das garras do colonialismo doeu a muita gente em Portugal. Ainda dói. Mas esses saudosos do colonialismo, esses racistas dementes, têm de se habituar, de uma vez por todas, que os angolanos são senhores do seu destino. E os partidos políticos angolanos, as nossas instituições não precisam de vozes de burros para se fazerem ouvir. Em Angola existe liberdade de expressão, ninguém precisa de voz de donos que ninguém sabe donde lhes vem a legitimidade democrática. A nossa vem da luta, do combate heróico contra o colonialismo e o fascismo.A nossa liberdade foi construída nos campos de batalha. Para conquistá-la, ficamos cheios de feridas e muitas delas, ainda estão abertas. A visita do Primeiro Ministro português a Angola ajudou a curar algumas. Será por isso que choveram os insultos e as calúnias contra o Presidente da República de Angola e os nossos governantes? A amizade entre os nossos povos tem muitos inimigos!

domingo, abril 09, 2006

BRASSENS AINDA

Sim, claro, bem me lembro. Mas, vê lá tu, meu alucinado amigo, o «meu» Brassens era portuga, melhor dizendo: o ouvia por estas bandas quase europeias. O meu tempo de África foi curto, uma dúzia de anos. Estive entretido a aprender a viver e a curtir os filhos que foram chegando. Ainda hoje acredito que terá sido em Angola onde estivemos melhor, onde fomos menos diferentes, fosse qual fosse a música. Recordo-me de uma vez que passei por Joanesburgo ter passeado com um garoto, filho de um casal sul-africano amigo, e de ter pedido ao miudo que perguntasse ao polìcia uma direcção qualquer, onde eu queria ir. O chui ficou hirto (o garoto era louro e o polícia preto) e olhou para mim. «Sou de Angola», disse-lhe. Ao «oh!» de espanto seguiu-se um sorriso aberto e um braço a apontar a direcção. A mão passsou ao de leve pelos cabelos do garoto. Afinal não era só eu que tinha aquela mania...
E posso acrescentar, sobre Brassens, que detestava polícias, simplesmente por serem polícias e até cantou isso com alguma frequência. Mas um dia...
Há sempre um dia. Um acidente de viação e o cantor muito ferido, com aparente paragem cardíaca e um polícia que se debruça e lhe presta respiração boca a boca e, talvez com isso lhe tenha salvo a vida.
E um Brassens recuperado não tardou a cantar a reconciliação. Não, claro, que ele precisasse de ser um bom cristão. Bastava-lhe cantar como cantava!
Não. No dia 18 não vou estar em Paris. Vou lá estar no fim do mês, uma semanita. Não se pode ter tudo!
É bom quando alguém fica na memória e é bom ter memória de gente como ele ou como Brel ou Otis Readding... E és capaz, Fernando, de me desculpar se eu incluir o Alfredo Marceneiro?
Tem piada que nunca falamos disto entre nós. Foi-nos bastando uma que outra das várias pequenas que foram tema. É verdade que nenhuma dessas cantava. Pois não, mas encantavam...
PS.
Desencantado fiquei eu quando a minha mais que tudo, que fala o francês bem melhor que eu, que nasceu e viveu em França, me advertiu que Brassens não teve acidente de viação. Teve acidente no palco, quando actuava, o que tornou o incidente ainda mais dramático....
o que me torna mais culpado pela negligência. No fim de contas sou (fui) jornalista português e o que é preciso é puxar pela notícia e ficar sujeito aos solavancos. Que me desculpem os puristas
E que me perdoem os que, como eu, creem que a memória não se perde. Pois não, altera-se. Fecunda-nos (no mau sentido)...

quinta-feira, abril 06, 2006

Sócrates em Angola

Há alguns temas para os quais "já não estou". Um deles é o da cooperação entre Portugal e os chamados "PALOP". Todavia, há dias em que, ouvindo os políticos da praça encartados de comentadores, acho que devo voltar à liça.

A viagem de Sócrates a Angola foi, para a imprensa portuguesa, não um "sucesso" - porque é palavra que os jornalistas de hoje não sabem contextualizar - mas uma "operação" bem montada, uma espécie de campanha eleitoral com um único resultado garantido - a vitória.

É engraçado!

Lendo a comunicação social angolana - aquela que pode ser lida - ficamos com a sensação de que esta foi mais uma viagem de um primeiro-ministro português que vai a Angola procurar estatura, credibilidade e - mais uma vez - defender a tese da inevitabilidade das boas relações entre os dois Estados e os dois povos.

O que os políticos de um lado e doutro dizem pode não ser mentira no campo das intenções, mas no domínio das realizações é uma miragem.

Primeiro, em Angola existe um Estado mas vários povos. O slogan "Um Só Povo, Uma Só Nação"não passa disso mesmo, de um slogan. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos anos, quando os povos que não têm acesso à Escola, à Cultura e ao consumo como as gentes de Luanda, perceberem que nem número fazem.

Depois, os portugueses que debitam hoje todos esses desejos, aparentemente legítimos porque fundamentados num legado histórico importante, desconhecem: a colonização portuguesa não foi desenvolvida de acordo com um plano de estado. Foram outros portugueses, com o seu espírito individualista e aventureiro que foram fazendo roças e mulatos, abrindo caminhos e construindo pequenos comércios e escolas. E Igrejas.

O Estado apareceu sempre na figura do chefe de posto que tanto levava o "índigena" para o contrato como chantageava o pequeno comerciante ou o pequeno fazendeiro.

A cooperação organizada estado-a-estado nunca resultará, sobretudo em Angola. Os não sei quantos empresários que foram a Luanda, foram, na grande maioria, passear. Alguns deles, os mais jovens, aproveitaram e mandaram as amantes noutro avião. Os mais velhos aproveitaram para ir ao Mussulo ver as mulatas. Os negócios, esses ficam para conversas reservadas, longe de Luanda e de Lisboa e nunca tratam do importante: um novo envolvimento entre as populações dos dois países, sem constrangimentos.

A ideia de enviar 200 professores portugueses para Angola até parece generosa mas vai revelar-se mais um desastre, um rotundo fracaso. Dir-vos-ia porquê, mas o MNE não me paga a consultoria e, como disse no princípio, há certos temas de que estou cansado.

terça-feira, março 28, 2006

"27 de Março"

É uma data que hoje, seguramente, passa desapercebida em Angola e apenas tem ressonância na cabeça das pessoas que a viveram. 27 de Março de 1976 foi o dia em que, oficialmnte, as forças da República Sul-Aricana passaram para o lado de lá da fronteira de Angola. Ainda assim ficaram em território que não era deles - o a Namíbia.
Em Angola comemorou-se no Lubango. Houve discuros. Lúcio Lara foi o convidado. Presidiu ao comício comemorativo. Aproveitou a ocasião para vergastar mais uma vez o governo de Portugal, nessa altura chefiado por Mário Soares, por não ter ainda reconhecido o governo de Angola.
Todavia, o pormenor mais significativo desse comício foi o grito do então Comissário Provincial da Huíla, Emílio Braz: "Viva o Povo Nhanheca Humbe!". Era o "nitismo" na sua expressão mais ingénua a manifestar-se. Lúcio Lara fingiu que não percebeu.