quarta-feira, agosto 24, 2005

VIDA AIRADA

Olha que dois se juntaram à esquina...Olha que dois!
No fim de contas é o África do Leston que volta, que vem para encantar. É só luxo. Não vou precisar de ir a Pedrouços fechar a edição. Quem sabia explicar melhor estas situações era Tavares da Silva, que esteve no Jornal do Congo com o mesmo afinco com que laborou no Diário. Se lhe perguntassem porquê um blog se o que se quer é um jornal? Ele haveria de dizer, com um sorriso maroto:
- Olha, filho, pela mesma razão por que se beija a mão às senhoras...
- ?...
- Tem que se começar por algum lado...
Se vamos recomeçar por aqui é útil clarificar, sobretudo quando não há nada para clarificar!Vocês, os ambos, começaram por ser meninos africanos. Pensava-se que cresciam, mas continuavam meninos. África tomava conta de vocês como se fosse uma ama e vocês os imbondeiros agrestes de estimação.E fizeram-se às damas porque se vestiam de pessoas crescidas.Eram meninos, claro. Um sei eu que se masturbava a olhar a vizinha, que se desnudava num terraço distante;o outro, jogava hoquei como se fora ao berlinde.
Casaram, pois. Continuavam meninos, quase sem dar por isso, mas tiveram raízes. De vez em quando fazem birra, para garantir que continuam meninos ou por serem meninos, como os poetas que não morrem, mesmo que os matem...
Eu abalei para África de barco. Clandestino, já amachucado. Rondava os trinta.E despertei no Comércio. E, de repente era alguém aos meus próprios olhos...
Em Luanda também tinha combóio. O dono do comboio tinha um cinema, o Kipaca. Nunca soube o que o termo significava. Podia ir ao musseque, passando pela Cuca, como quem fosse a Cascais. Os meninos africanos não sabiam, mas Cascais era uma aldeia inglesa, onde se tomava chá e os ingleses eram quase todos velhos e as mulheres deles umas velhas e, por isso, é que o comboio para o Cais do Sodré era bom.
O comboio dos musseques era melhor para qualquer dos lados. Parava onde fosse preciso e para tal nem precisava de estação. De manhã entrava tanta gente que eu comecei a acreditar que um dia havia de ver o comboio inchar, inchar...
Mas o que eu vi, numa manhã de reportagem, foi o comboio parar e logo entrar um magote. Um miudo ficar parado, a chorar. Tinha uma sacola.Devia ir para a escola, mas não conseguia trepar, não havia por onde.O garoto chorava...Eu vi, juro que vi, o maquinista descer da locomotiva. Vi, juro que vi, o matulão chamuscado, pegar na criança, sacudir uns quantos penduras e deposita-la na carruagem...
À noite também havia comboio. Era o comboio Kipaca, que trazia os kipacas para o cinema, no linguajar ferroviário. A linha chegava a Malange. Eu não. Mas fiz muito quilómetro do Lobito para cima. Não era só a cama que era boa, naquele comboio, meus meninos. A comida era excelente, sim senhor, mas o serviço prodigioso.Chegava-se a Nova Lisboa na manhã seguinte, onde descia tranquilamente, mas o comboio prosseguia, até ao Luso. Nunca fiz o percurso completo, mas disfrutei de alguns troços...
Outro dos comboios da minha vida era a ligação Lourenço Marques-Joanesburgo, uma noite completa.Considero uma sorte ter conhecido essas linhas e esses comboios. Choca-me hoje ouvir tanto paleio oco sobre o TGV e sobre a linha que não há e nem se sabe onde vai ser. Quanto comboio, quantos milhares de quilómetros de linhas espalhados sabe Deus por onde, que nós, os de antanho, construimos e pusemos a funcionar, até no Príncipe havia um comboio, minúsculo, sim senhor, mas havia. Já agora digam-se se tenho ou não razão, quando digo que tempo houve que se podia ir de comboio de Benguela à Beira, por via férrea? Quero acreditar que sim e quero acreditar que a África volte a ser para muita gente a festa que foi para mim, na curta dúzia de anos que lá passei...

1 comentário:

Fernando Alves disse...

É bom espreitar-vos por detrás destas persianas de um fim de Verão.