quinta-feira, agosto 25, 2005

Era na Escola 32

Era na Escola 32, na alta. Perto havia uma cadeia, o Hospital Novo e a Polícia Judiciária. O bairro era um bairro arejado, de moradias de primeiro andar e jardim. Muitos anos depois, o Liceu de Nova Lisboa seria construído lá perto, bem como a Escola Comercial e Industrial.
Mas, naquele tempo, só lá havia a Escola 32- Primária.

Do Liceu Diogo Cão, do Lubango, vinham os professores para fazer o exame do segundo ano. Precedidos de fama de muito exigentes, de más caras - pelo menos era o que dizia o velho Cabral, mais as suas duas filhas, Olga e Odete, mais a sua mulher, D. Aninhas.

A mim não me meteram medo os tais do Lubango. Desempoeirado, montado na bicicleta que o meu pai me emprestava para aquela empresa especial, apresentei-me a exame e consegui passar à oral. O velho Cabral fez uma festa - eu acho que ele não acreditava muito nas minhas potencialidades.

As orais a decorrer e eu entretido num grande jogo de futebol no recreio da 32. Futebol era comigo mesmo. O hóquei também, mas o futebol era amor mais antigo...

De repente, aparece todo alvoraçado, o velho Cabral : " que me chamavam para a prova de português.."

Lá fui a correr, entrei na sala esbaforido, a sacudir a poeira da roupa, peguei num livro e sentei-me, ainda afogueado, à frente daqueles dois senhores e uma senhora, que, com ar interrogador procuravam saber as razões de todo aquele tropel. Ignorei as interrogações oftálmicas e preparei-me para o interrogatório.

O Lucas, o dr. Lucas, que haveria, mais tarde, de ser meu professor no Diogo Cão e, mais tarde ainda, no Salvador Correia, professor vigilante da minha prova escrita de OPAN, pergunta-me: "então, das lições que acabámos de ler, qual delas queres?"

Sabia lá eu que lições tinham as vítimas anteriores lido. Esbocei o meu melhor sorriso e disse: "uma qualquer".
- Então, e qual é o plural de qualquer?
Aí quase garagalhei. "É quaisquer".

Lá atrás, na umbreira da porta, o velho professor Cabral riu satisfeito - eu vi pelo canto do olho que deixou de fazer aquela cara de zangado e de me ameçar com a mão em forma de cutelo.

A seguir foi um verdadeiro espectáculo. E lá passei para o terceiro ano do Liceu - soube-o já a noite tinha caído. Montado na "burra" da família, rumei o Bairro de Santo António no meio de uma escuridão tremenda, mas com o coração aos pulos de contentamento. Não propriamente por mim - que, naquela altura, a bola e os patins me bastavam - mas pelos outros, pelo meu pai, pela minha mãe e também pelo meu irmão e irmãs, todos a sofrer em casa, à minha espera.

2 comentários:

LS disse...

Assim de repente fui, pela sua mão, imaginando como se um filme, a estória que nos conta, já antes tinha espreitado o combóio e o hoquei (que as espreitadelas concupiscentes ficam no campo do sorriso cúmplice - púberes afortunados com vizinhança generosa!) e tinha ficado à escuta. Venham mais cinco, e mais, e mais ainda. Estórias de vida, devidas, bem contadas, numa celebração que já deixei pelo meu humilde cantinho. Bem-vindos sejam a este salão de festas.
Um abraço
Luís Sequeira

toix disse...

O Cabral não era mau tipo, apesar da palmatória que ainda usava e que eu experimentei uma vez que jurei para nunca mais. Já a Aninhas trocava-me os ovos gordos, alguns com duas gemas, que a minha Mãe me mandava da Cela, por uns ranhosos das galinhas dela. Dizia que era para os pôr a chocar. Só mais tarde percebi que os ovos não sendo galados serviam era para fazer umas belas omeletes para os netinhos.