terça-feira, agosto 30, 2005

DE COIMBRA AO CUNENE

Era mais comum expressar: Portugal de Minho a Timor. Impressionante. Mas como colonialista mais moderado escolhi a versão reduzida. Claro que, muito provavelmente, nem virá a propósito, mas como diria um amigo já citado, «tem que se começar por algum lado»!
Esta experiência de convívio através do computador reaproximou-me de Africa, talvez seja melhor dizer dos africanos voluntários ou voluntariosos, mas dou conta que apesar de tudo não virei africano. Quis sê-lo; quis ficar. Mas não deu. Tive de regressar e durante algum tempo uma foto de um grupo de jornalistas que estiveram em Nakuru, onde eu me incluia, esteve exposta no aeroporto de Luanda. Um circulo à volta da minha cabeça indicava que era um dos procurados.
Já lá voltei depois, mais de uma vez, como diria um ministro saliente do actual governo. E fui bem recebido, de ambas as vezes.

Hoje percebo que fui um simples emigrante em África, o mesmo que o comum dos portugueses tem sido em França ou no Brasil, na Alemanha ou nos Estados Unidos, na Venezuela ou no Canadá, na Austrália ou no Luxemburgo ou na própria África do Sul, porque o mundo não é, e nunca foi, demasiado grande para os portugueses.
Não tenho as raízes que têm, por exemplo, os meus filhos, um que nasceu em Luanda, e os outros dois que para lá foram meninos e que não se imaginam fora do seu habitat natural. Mas mantenho o sentimento de gratidão por uma terra que me deu a oportunidade de afirmação suficiente para aguentar o resto do percurso.
As memórias que retenho e deixo sair são as de trabalho e de amizades. Não foi lá que saltei ao eixo, nem precisei de musseque ou sanzala para afirmação de virilidade. Por cá não faltavam lugares para isso, fruto de miséria ou moral doentia ou religião revoltante.
Comecei a trabalhar três dias depois de chegar a Luanda. Nada mau se levarmos em conta que desembarquei no porto de Luanda a um sábado à noite e na terça entrava no «Comércio», graças ao Rosa Duarte, amigo de Carlos Fernandes, jovem artista plástico, que também passeou pelo Gelo, antes de se radicar com a família, em Luanda, e que muito me ajudou a ambientar-me.

Deram-me como função «a cidade». Tinha de fazer a súmula dos acidentes, na esquadra e nos hospitais, dos casos de polícia, levados ao Tribunal de Polícia, cujo juiz era habitualmente o director da PJ.
Surpreendentemente, para mim, a página ganhou alguma notoriadade, a ponto do jornal concorrente, de maior dimensão, decidir admitir alguém para a mesma tarefa.Achei curioso que não tivessem optado por alguém experimentado. Fizeram exactamente o mesmo que o jornal do lado(de facto eram paredes meias, no centro da cidade e cada um deles com oficinas próprias).
Menos dotado, talvez, tirava menos partido da informação recolhida. Isso favoreceu-me.
Causou-me alguma impressão quando me apercebi quem era o director do jornal. Ferreira da Costa, ao tempo, doente em Lisboa. Mas logo soube que não era eu quem iria morder a mão que me alimentava. Mulher e filhos já vinham no barco a caminho de Luanda. E mais...a mulher já emprego no BCA. Ela ainda nem sabia que tinha lugar no primeiro banco privado da p... do território. Um executivo do Banco tinha aparecido, à noite, no Jornal, para pôr anuncio para empregado para o sector de estrangeiro, logo que falasse inglês. Vendeu-se-lhe logo a Kátia, que sabia inglês, francês e Finlandês. O português é que era um pouco mascavado, mas esquecemo-nos disso e o assunto ficou resolvido.
As coisas aconteciam, as oportunidades surgiam ao virar da esquina. Como era diferente a Lisboa que me viu nascer...

Quando Ferreira da Costa regressou a Luanda, fui como todos os colegas ao aeroporto. Era o único que o não conhecia. No dia seguinte o jornal assinalava o regresso do director com um cabeçalho a toda a largura da primeira página e onze linhas de título!
Pessoalmente nunca tive problemas com ele. Quando saí fiquei a dever-lhe alguns favores.
No «Notícia», depois, encontrei a grande alegria de viver e um companheirismo exemplar de Acácio Barradas, então Chefe de Redacção, e de Joaquim Cabral, um grande fotógrafo e um bom amigo. Angola viria a seguir. Sem o «N» não teria andado tanto em tão pouco tempo...
(continua, sDq).

3 comentários:

Lis disse...

Joaquim Cabral é meu tio-avô. Grande fotógrafo sim!

S.P. disse...

Ferreira da Costa era o meu avô. Aquando da sua doença foi publicado um livro de crónicas, onde nas entrelinhas se adivinhava a doença, constituindo um depoimento impressionante, uma autêntica lição de vida, face à morte: "As chaves do Inferno"

Renato disse...

Bom... a mim cabe-me o menos honroso lugar deter sido leitor de ambos...