quarta-feira, junho 13, 2007

NO ANTIGAMENTE (3)

Foi a primeira desilusão. Duas colunas discretas, na última página, depois de uma noite trágica! Haveria de ter outras mágoas, próprias da profissão. Mas nenhuma me doeu tanto.
No NOTÍCIA foi diferente. Entrei pouco depois do morte de João Charula e o ambiente ainda se ressentia da sua falta. Da delegação de Lisboa, sobretudo, chegavam os receios de quebra de dinamismo, que o João emprestara ao projecto. Mas a Redacção reagiu pronto e bem. João Fernandes e Acácio Barradas tomaram as rédeas e o projecto editorial prosseguiu sem perturbações.
Também eu tive de caminhar para me impor na Redacção. Aprendi com o espírito do Jornal, como o designavamos; nunca, para nós, foi semanário.
Mas o Notícia merecia, e ainda merece, uma história melhor da que eu sou capaz de descrever e ainda não falta quem a possa descrever.
O que mais me espantava é que de Lisboa chegavam boas entrevistas, no que a Edite se esmerava, mas nada de reportagem que nos esmagasse, a nós, a saloiada africanada. Aquele pedaço salazarengo de Europa continuou igual, mesmo depois do «patrão» tombar da cadeira.
Quando em serviço corriqueiro fui ao Brasil com Marcelo (Caetano) o avião ia repleto de colegas
europeus. Dois deles até tinham levado casaca, smoking só,não dava, era preciso casaca para jantar nas recepções oficiais. Havia imensa curiosidade em ver como iria Marcelo enfrentar os jornalistas brasileiros e as questões que se levantassem sobre presos políticos.
Não custou nada. Marcelo limitou-se a debitar que tinha perguntado quantos detidos desses havia, se é que existiam e tinha obtido a informação de que existiam cinco ou seis, cujos processos estariam quase terminados e mudou de conversa.
Depois da conferência de imprensa, desmarquei-me e fui conversar com umas pequenas brasileiras que tinha conhecido no jantar anterior. Depois, ao fim da tarde, ouvia os colegas a falar disto e daquilo, lia os jornais. Por fim fui ao Cruzeiro e pedi a um colega brasuca que me cedesse algumas fotos.
Regressamos a Lisboa no dia em que a Apollo tripulada iria pousar na Lua.E foi. Muita gente seguiu o acontecimento pela televisão. Nos states nós, Notícia, tinhamos o Quim Cabral e o
Moutinho Pereira, a cobrir o acontecimento. Sem colegas metropolitanos. Nem Rádio, nem gente da RTP, ninguém achou que valia a pena lá ir, lá estar...
A verdade é que a Pide já não se chamava Pide e isso tinha e teve reflexos. Como a censura que, em Lisboa, se considerou que devia mudar de nomenclatura mas manter-se na mesma. E quando, a propósito de uma entrevista ao deputado Balsemão, com muitos cortes de censura, a ponto da chefia entender não a publicar e substituir pela habitual «Ferradura» muito usada
sobretudo quando «a chuva e o bom tempo» era cortada pela Censura. Dessa feita, imagine-se!
do palácio solicitou-se o obséquio de não usar o utensílio da publicidade à Neográfica! E, depois, negociaram-se os cortes, um a um, entre as três partes: Balsemão, Censura e Notícia. A entrevista saiu. Teve alguns cortes, é certo, mas saiu com o aval do deputado .
Voltei a ver primeiro-ministro, nem sei se também era Sua Excelência o Presidente do Conselho, como o antecessor, em Bissau, onde acabava de chegar e de onde ele iria partir para Luanda, daí a nada. E veio-me à memória, a propósito da mania que tinhamos de estar em todas, que o Farinha estava na Guiné, quando o helicóptero com o deputado se despenhou.
Teria algo de mania, mas... foi o Baião que criou o cisma, quando do alto de um prédio, na Marginal, em Luanda, fotografou sem se dar conta, no arranque de uma corrida de automóveis, o acidente espectacular, com a morte de um dos pilotos. À noite, na câmara escura, ao espreitar os negativos, lá estava, sobre a confusão, o corpo todo no ar. A única, bem entendido!
(continua)

2 comentários:

Anónimo disse...

ola ! avo gosto muito das tuas historias .... escreves muito bem e não sou a unica que pensa assim.... bjs grands !!!!!!!! ADOROTE MUITO !!!!!

Carlos Barros disse...

António gosto de ler as tuas "voltas" pela tua amada...Africa.
descobri-te... ou por outra descobri-os...ou seja redescobri-os


C. Barros.