segunda-feira, janeiro 15, 2007

SIM

Creio que foi Giscard que utilizou a expressão «sim, mas...» com suficiente veneno para levar
De Gaulle a retirar-se do poder e ir para casa, onde nem teve muito que esperar para o fim derradeiro!
Alegre cantou a lembrar que «...há sempre alguém que recusa, há sempre alguém que diz não»!
Aqui pelas cercanias sei que nem vale a pena pedir a um vizinho dinheiro emprestado. Ele diz sempre que não. Mas verdade se diga que um pouco mais adiante há uma interessante vizinha, que amíude diz que sim.
Como sou antigo, às vezes a memória atropela-me as ideias. Quando os meus pais me levaram para a Victor Cordon, no ano em que fui para a escola, ainda perdurava a guerra na Europa. O Um pouco acima do largo do Chiado, o Ginásio funcionava e passava filmes alemães. À esquina da Garret funcionava um pomposo centro de propaganda nazi. Além dos filmes alemães e americanos e da propaganda de uns e outros, vivia-se como se podia. Com racionamento restritivo e mercado negro complementar. O Bairro Alto era um baluarte de fado e prostituição.
Quando ia para a escola passva pela rua do Ferregial, que também tinha «meninas», mais à frente, nas escadinhas não sei de quê também as havia. E depois na Boavista.
Habituei-me, como me habituei às gaivotas, que via das águas-furtadas e junto ao rio, ao Cais do Sodré. Na minha casa havia uma torneira de água na cozinha e outra no cubículo, que dispunha de uma sanita e um lavatório, a que a minha mãe chamava casa de banho. Ao lado, na casa dos vizinhos, mais antigos no prédio, a dita casinha não tinha torneira, nem água canalisada. Só na cozinha. O banho, propriamente dito, tomava-o na cozinha, num alguidar de zinco. Cozinhava-se a carvão e era a carvão que se aquecia a água para o banho semanal...
Além de ir à escola, ao Conde Barão, ia por vezes aos Cais do Sodré, onde além dos eléctricos e da estação de comboios, havia muitos bares de «pequenas» e havia uma loja que vendia gelo. O gelo que eu comprava, de vez em quando, era para a minha mãe, sempre a seguir às visitas que ela fazia à parteira!
«Sim»! Era isso mesmo que eu ia fazer ao Cais do Sodré, antes de perceber. Não se discutia se sim ou não. Era assim. Claro que nesse tempo era tudo proíbido, mas tolerado, desde que evitados maus desenlaces.
À mistura havia estórias mais sórdidas, como as das garotas que se traziam da aldeia para para ajudar a senhora nas lides da casa e aliviar a miséria das famílias do campo. À meninas aconteciam quase sempre desgraças ou com o leiteiro que ia à porta ou o marçano da mercearia ou, o mais frequente, o filho do patrão ou próprio e a dona da casa expulsava a desgraçada. Não faltava quem soubesse encaminhar as desvalidas.
Não poucas famílias se agrediam entre si, em nome de um puritanismo remeloso que expulsava
a filha devassa que deshonrara o chefe de família. Florescia o negócio da prostituição legalizada. Havia bem mais prostíbulos acessíveis naquele tempo do que lojas chinesas nos dias que correm!
A religião dominante impunha a castidade.
Foi a pílula que trouxe a paz, já depois da moral cristão ter sido aliviada da liberalização comercial do sexo a xis à hora. Passou à clandestinidade. Não dispõe de meios legais, mas é as mais das vezes despenalizada e com direito a promoção nos jornais diários. Agora com a lamúria sobre o aborto sim ou aborto não ainda é pior que o antigamente. Uma dona Manuela, senhora razoavelmente feia, «não quer apoiantes do "sim"nos tempos de antena do PSD», citava ontem o «DN». Veio-me à memória uma intervenção de Natália Correia, na Assembleia da República, já lá vão uns anitos, quando um deputado do CDS afirmou no hemiciclo que o coito devia ser unicamente para procriar e a poetiza foi dizendo que não sabia o que concluir do facto do deputado centrista só ter dois filhos...
Mas parece-me mais perigoso meter bispos na conversa. Nos católicos o atavismo é congénito. Desde que matirizaram um pobre cientista que descobrira que a Terra girava em volta do Sol...
deviam ter perdido o direito de impor dogmas. Mas a gente comum tem direito às dúvidas e às preferências e sobretudo à opção que a consciência lhe dite...

2 comentários:

Anónimo disse...

HÁ BLOG´S QUE VAL APENA EXISTIR

Um texto muito bom ,tal qual o que se passa neste cantinho .

A descrição dos anos 50 e 60 ,penso que seria mais ou menos por essa altura, bem eu na entrada já da terceira idade vem á memória imagens parecidas.

Obrigada

africamente disse...

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