quinta-feira, setembro 17, 2009

1910 - Romance de Antonio Trabulo


Implicado na revolução republicana ocorrida no Porto a 31 de Janeiro de 1891, o sargento João Madruga foi condenado ao exílio em África.



Ao ser indultado, trouxe para Portugal a mulher negra e a filhinha mulata. O diálogo que se transcreve foi estabelecido com Susana Madruga, em Lisboa, no ano de 1909.-



Antes de a conhecer, Benguela tocou-me no nariz. Era de noite e não havia cais para atracar. Tudo o que eu podia ver eram janelas iluminadas ao longe. Cheirava bem. Eu não conhecia aqueles cheiros que adoçavam a escuridão. Soube mais tarde que eram de fruta madura: goiabas, mangas e bananas. Pela manhã, levaram-nos para terra em pequenas embarcações tripuladas por negros. Quando os barquitos encalharam, saltámos para a areia com as taleigas em que guardávamos o pouco que nos tinham deixado levar.- O pai não ia fardado?- Não. Quando nos condenaram ao degredo, também nos expulsaram do exército.- Mandaram-nos para lá para morrerem?- Não foi bem assim. As febres matavam uns tantos. Dos que resistiam, muitos assentavam raízes e faziam-se colonos. Angola precisava de brancos. Pelo menos, era o que se dizia no Porto.- Deram-lhes onde morar?- Enfiaram-nos num casebre com telhado de colmo - lá chamam-lhe capim. Ficava perto da praia. Tinha apenas uma assoalhada, mas era espaçosa. Ali ficámos, até cada um ajeitar a sua vida.- E a terra, era grande?- Seria como uma vila de cá. Em Angola, apenas Luanda era maior. Muitas habitações eram só de um piso. Algumas alongavam-se por um quarteirão inteiro, como carruagens de comboio pegadas umas às outras. Nas casas mais antigas havia grandes quintais com muros altos. Em tempos recuados, prendiam lá os escravos que esperavam barco para o Brasil. Mesmo depois de o tráfico ser banido, os de Benguela continuaram a levantar paredes elevadas que já não serviam para nada.Susana escutava com um ar muito sério.- A minha mãe era escrava? O pai comprou-a?A miúda andava com aquela pergunta debaixo da língua havia anos, com vergonha de a fazer.Madruga sorriu.- Não! A escravatura já tinha acabado. Era uma pessoa livre. Eu gostei dela e ela de mim. Mas tanto a tua avó como a tua bisavó, que ainda conheci, tinham sido libertadas já na idade adulta.- E que é que o pai lá fazia? Como é que ganhava a vida?- Em África, os portugueses tinham essencialmente quatro profissões: padres, soldados, funcionários públicos, e comerciantes. Eu não era padre e fora posto fora do exército. Como não me deixaram ser funcionário, empreguei-me numa casa de comércio. Vendia-se um pouco de tudo e comprava-se cera, borracha, sisal, cereais, couros, gado e marfim. Tudo aquilo vinha de longe, do interior. Em tempos recuados, fizeram-se fortunas com o comércio de escravos. Alguns dos palácios de condes e barões que vês por aí assentam no dinheiro ganho com o aviltamento de seres humanos.- E a comida, como era?- Não passávamos mal. O mar era rico em peixe. Havia hortas com muita variedade de legumes, embora nem todos fossem iguais aos de cá. Criavam-se galinhas, porcos e cabritos. A fruta era boa e muito barata. De vez em quando, comíamos carne de caça. Os negros viviam pior. Alimentavam-se de farinha de milho e mandioca e, claro, de peixe. Gostavam muito de feijão com óleo de palma. O pescado que não se consumia fresco, e que era a maior parte, secava-se. Era vendido em fardos para as terras do interior, que nos compravam também bastante sal.- Que aconteceu aos seus colegas?- Fizeram-se à vida, como eu. O Lameiras, coitado, teve pouca sorte. Morreu com as sezões. Ainda não estava em África há um ano. Benguela ficava no meio de pântanos e lagoas. Abundavam os mosquitos e havia muitas febres. A terra chegou a ser chamada "cemitério de brancos".- E os pretos?- Também adoeciam, mas estavam mais habituados aos males de lá e aguentavam-se melhor. Sabes que Benguela tem uma particularidade diferente das outras terras? - Não. Conte lá...- É a única povoação importante que conheço que mudou de lugar e conservou o nome. E não foi como se os mouros se deslocassem de Lisboa para Sintra. Não! A primeira Benguela, Benguela-Velha, extinguiu-se. No começo do século XVII foi refundada, centenas de quilómetros a Sul. O nome tinha peso na costa africana e o prestígio que lhe estava associado não se podia deitar fora. O rei Filipe II separou o Reino de Benguela do Reino de Luanda e deu-lhe autonomia administrativa. Bem podiam tê-lo aconselhado a escolher um lugar mais saudável...



Em 1910, romance histórico de António Trabulo

1 comentário:

Eduardo Marculino disse...

Parabéns pela ótima postagem.
abraços