Começou por ser um repto, mas pode transformar-se num desafio, num toque a reunir de uma enorme tribo destribalizada mas sobrevivente, num grito de quem reivindica o direito ao passado e, de raízes ao léu, consegue identificar, lá longe, o sítio aonde pertencem. "Essas raízes não mergulharão noutra terra" - dizia a feiticeira das margens do Cunene
terça-feira, agosto 17, 2010
ERA E FOI-SE - 65 - 3ºC
Eduardo Malta, meu vizinho de infância, na Victor Cordon, aqui, de Lisboa.Além da capa, encheu uma porção de páginas patrioteiras.
Júlio Castro Lopo prosseguia com a evocação de Paiva Couceiroe já ia na 26ª crónica e anunciava a 3ªparte do livro «Angola», de Paiva Couceiro!
De branco vestido, Tomás erguia os braços à população, atrás, à sua esquerda Silvino, sorridente. O título:«Outra vez. Presidente»!
Luanda de hoje ( de 1965!) é contrastada com Luanda do antigamente, dita pitoresca. A então actual via-se a cores; a outra meio sumida no cinzento triste do tempo, mas extasiava os antigos.
Uma transplantação da córnea, a primeira em Angola,, é salientada numa porção de páginas. Os médicos, esses, era espanhois. Iam regularmente ao Vouga dar contributo generoso. Os colegas portugueses não eram lá muito virados para isso,para generosidades benfeitoras...
Massangano, um dos polos de resistência ao invasor holandês, ganhou uma estrada de acesso, bem merecida, por sinal. Por lá ficou sepultado, desde 1589, Paulo Dias de Novais!
Ao serviço da Cuca, Humberto Madeira visitou Nova Lisboa.
A loucura ensurdecedora dos batuques no danço-congo, em S. Tomé. Acho que nem tinha como ser descrita aquela festa pagã, popularizada que enebriava toda a polulação. O +N+ rompe tranquilamente as barreiras e trás, número a número. imagens da Pátria comum. Do Minho a Macau, de S.Tomé a Oliveira daSerra, do Porto à Guiné!Se fosse preciso ir ao Brasil, por mór da bola, ia-se, pois então! Às corridas de popós na Africa do Sul, pois então, claro. Vai (ia!) onde houvesse que ir. Isso é que distinguia o +N+ dos concorrentes de Lisboa e arredores...
O «Beiral» de Luanda é algo que devia ser revisto todos os semestres ou trimestres. Paz e Caridade generosa. Obra anónima que os homens de Angola ergueram e mantiveram. Olhe-se a fachada do edifício, a sala de refeições, a cozinha, a sala de convívio! Onde encontrar, por aí, nos nossos dias, aqui ou lá, na Angola petrolífera?
Angerino foi aos Dembos. Caramba! Como aquilo é grande e magnífico e espesso e húmido!
Meninos alunos fora levados a Massangano fardados de Mocidade Portuguesa.Do alto olharam os estudantes de Coimbra, idos de passeio. O peso de História é semelhante a qualquer peso: perde-se ou eterniza-se...
Qui, Cabral e Angerino de Sousa foram a Porto Alexandre ver a muralha de casuarinas, um pedaço de Algarve fincado no sul de Angola. Terra de peixe e de pescadores. O reportagem foi do governador-geral!
(continua)...
quarta-feira, junho 23, 2010
As Ajudas a África
A propósito das notícias que vão referindo várias ajudas a África, talvez valha a pena ler a opinião de um economista queniano, recentemente publicada na revista "Der Spiegle"
"Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África!",
afirma economista do Quênia
Especialista explica que a ajuda internacional alimenta a corrupção e impede que a economia se desenvolva, o que destrói a produção agrícola e causa desemprego, mais miséria e mais dependência
Thilo Thielke, em Hamburgo
O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, diz que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África, sobre governantes corruptos e a tendência a exagerar o problema da Aids.
DER SPIEGEL - Senhor Shikwati, a cúpula do G8 em Gleneagles deverá aumentar a ajuda ao desenvolvimento da África...
James Shikwati - Pelo amor de Deus, parem com isso!
DS - Parar? Os países industrializados do Ocidente querem eliminar a fome e a pobreza.
Shikwati - Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.
DS - O senhor tem uma explicação para esse paradoxo?
Shikwati - Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos. E é por isso que eles afirmam que o mundo pararia de girar sem essa ajuda ao desenvolvimento.
DS - Mesmo em um país como o Quênia pessoas morrem de fome todos os anos. Alguém precisa ajudá-las.
Shikwati - Mas são os próprios quenianos quem deveria ajudar essas pessoas. Quando há uma seca em uma região do Quênia, nossos políticos corruptos imediatamente pedem mais ajuda. O pedido chega ao Programa Mundial de Alimentação da ONU --que é uma agência maciça de "apparatchiks" que estão na situação absurda de, por um lado, dedicar-se à luta contra a fome, e por outro enfrentar o desemprego onde a fome é eliminada. É muito natural que eles aceitem de bom grado o pedido de mais ajuda. E não é raro que peçam um pouco mais de dinheiro do que o governo africano solicitou originalmente. Então eles enviam esse pedido a seu quartel-general, e em pouco tempo milhares de toneladas de milho são embarcadas para a África...
DS - Milho que vem predominantemente de agricultores europeus e americanos altamente subsidiados...
Shikwati - ... e em algum momento esse milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho em geral vai diretamente para as mãos de políticos inescrupulosos, que então o distribuem em sua própria tribo para ajudar sua próxima campanha eleitoral. Outra parte da carga termina no mercado negro, onde o milho é vendido a preços extremamente baixos. Os agricultores locais também podem guardar seus arados; ninguém consegue concorrer com o programa de alimentação da ONU. E como os agricultores cedem diante dessa pressão o Quênia não terá reservas a que recorrer se houver uma fome no próximo ano. É um ciclo simples mas fatal.
DS - Se o Programa Mundial de Alimentação não fizesse nada, as pessoas morreriam de fome.
Shikwati - Eu não acredito nisso. Nesse caso, os quenianos, para variar, seriam obrigados a iniciar relações comerciais com Uganda ou Tanzânia, e comprar alimento deles. Esse tipo de comércio é vital para a África. Ele nos obrigaria a melhorar nossa infra-estrutura, enquanto tornaria mais permeáveis as fronteiras nacionais --traçadas pelos europeus, aliás. Também nos obrigaria a estabelecer leis favorecendo a economia de mercado.
DS - A África seria realmente capaz de solucionar esses problemas por conta própria?
Shikwati - É claro. A fome não deveria ser um problema na maioria dos países ao sul do Saara. Além disso, existem vastos recursos naturais: petróleo, ouro, diamantes. A África é sempre retratada como um continente de sofrimento, mas a maior parte dos números é enormemente exagerada. Nos países industrializados existe a sensação de que a África naufragaria sem a ajuda ao desenvolvimento. Mas, acredite-me, a África já existia antes de vocês europeus aparecerem. E não fizemos tudo isso com pobreza.
DS - Mas naquela época não existia a Aids.
Shikwati - Se acreditássemos em todos os relatórios horripilantes, todos os quenianos deveriam estar mortos hoje. Mas agora os testes estão sendo realizados em toda parte, e acontece que os números foram enormemente exagerados. Não são 3 milhões de quenianos que estão infectados. De repente eram apenas cerca de um milhão. A malária é um problema equivalente, mas as pessoas raramente falam disso.
DS - E por quê?
Shikwati - A Aids é um grande negócio, talvez o maior negócio da África. Não há nada capaz de gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. A Aids é uma doença política aqui, e deveríamos ser muito céticos.
DS - Os americanos e europeus têm fundos congelados já prometidos para o Quênia. O país é corrupto demais, segundo eles.
Shikwati - Temo, porém, que esse dinheiro ainda será transferido em breve. Afinal, ele tem de ir para algum lugar. Infelizmente, a necessidade devastadora dos europeus de fazer o bem não pode mais ser contida pela razão. Não faz qualquer sentido que logo depois da eleição do novo governo queniano --uma mudança de liderança que pôs fim à ditadura de Daniel Arap Mois--, de repente as torneiras se abriram e o dinheiro verteu para o país.
DS - Mas essa ajuda geralmente se destina a objetivos específicos.
Shikwati - Isso não muda nada. Milhões de dólares destinados ao combate à Aids ainda estão guardados em contas bancárias no Quênia e não foram gastos. Nossos políticos ficaram repletos de dinheiro, e tentam desviar o máximo possível. O falecido tirano da República Centro Africana, Jean Bedel Bokassa, resumiu cinicamente tudo isso dizendo: "O governo francês paga por tudo em nosso país. Nós pedimos dinheiro aos franceses, o recebemos e então o gastamos".
DS - No Ocidente há muitos cidadãos compassivos que querem ajudar a África. Todo ano eles doam dinheiro e mandam roupas usadas em sacolas...
Shikwati - ... e então inundam nossos mercados com essas coisas. Nós podemos comprar barato essas roupas doadas nos chamados mercados Mitumba. Há alemães que gastam alguns dólares para comprar agasalhos usados do Bayern Munich ou do Werder Bremen. Em outras palavras, roupas que algum garoto alemão mandou para a África por uma boa causa. Depois de comprar esses agasalhos, eles os leiloam na eBay e os mandam de volta à Alemanha -- pelo triplo do preço. Isso é loucura!
DS - ... e esperamos que seja uma exceção.
Shikwati - Por que recebemos essas montanhas de roupas? Ninguém passa frio aqui. Em vez disso, nossos costureiros perdem seu ganha-pão. Eles estão na mesma situação que nossos agricultores. Ninguém no mundo de baixos salários da África pode ser eficiente o bastante para acompanhar o ritmo de produtos doados. Em 1997 havia 137 mil trabalhadores empregados na indústria têxtil da Nigéria. Em 2003 o número tinha caído para 57 mil. Os resultados são iguais em todas as outras regiões onde o excesso de ajuda e os frágeis mercados africanos entram em colisão.
DS - Depois da Segunda Guerra Mundial a Alemanha só conseguiu se reerguer porque os americanos despejaram dinheiro no país através do Plano Marshall. Isso não se qualificaria como uma ajuda ao desenvolvimento bem-sucedida?
Shikwati - No caso da Alemanha, somente a infra-estrutura destruída tinha de ser reparada. Apesar da crise econômica da República de Weimar, a Alemanha era um país altamente industrializado antes da guerra. Os prejuízos criados pelo tsunami na Tailândia também podem ser consertados com um pouco de dinheiro e alguma ajuda à reconstrução. A África, porém, precisa dar os primeiros passos na modernidade por conta própria. Deve haver uma mudança de mentalidade. Temos de parar de nos considerar mendigos. Hoje em dia os africanos só se vêem como vítimas. Por outro lado, ninguém pode realmente imaginar um africano como um homem de negócios. Para mudar a situação atual, seria útil se as organizações de ajuda saíssem.
DS - Se fizessem isso, muitos empregos seriam perdidos imediatamente.
Shikwati - Empregos que foram criados artificialmente, para começar, e que distorcem a realidade. Os empregos nas organizações estrangeiras de ajuda são muito apreciados, é claro, e elas podem ser muito seletivas na escolha das melhores pessoas. Quando uma organização de ajuda precisa de um motorista, dezenas de pessoas se candidatam. E como é inaceitável que o motorista só fale sua língua tribal, o candidato também deve falar inglês fluentemente --e, de preferência, ter boas maneiras. Então você acaba com um bioquímico africano dirigindo o carro de um funcionário da ajuda, distribuindo comida européia e forçando os agricultores locais a deixar seu trabalho. É simplesmente loucura!
DS - O governo alemão se orgulha exatamente de monitorar os receptores de suas verbas.
Shikwati - E qual é o resultado? Um desastre. O governo alemão jogou dinheiro diretamente para o presidente de Ruanda, Paul Kagame, um homem que tem na consciência a morte de um milhão de pessoas --que seu exército matou no país vizinho, o Congo.
DS - O que os alemães deveriam fazer?
Shikwati - Se eles realmente querem combater a pobreza, deveriam parar totalmente a ajuda ao desenvolvimento e dar à África a oportunidade de garantir sua sobrevivência. Atualmente a África é como uma criança que chora imediatamente para que a babá venha quando há algo errado. A África deveria se erguer sobre os próprios pés.
domingo, maio 23, 2010
Tive um Sonho
Estou cansado das mensagens que me chegam com motivos de Angola. Por várias razões: umas porque são um choro pegado, gente que vai aos sítios onde morou, tira fotografias, fala com as pessoas e faz relatos verdadeiramente patéticos do que sentiu ao verificar que os habitante de hoje ainda se lembram dos nomes antigos das ruas, das mesmas ruas que estão lá - agora mais sujas, mas desorganizadas, mas as mesmas casas, sem pintura, umas, a cair aos bocados, outras.
E o lancinante da saudade da mocidade perdida, dos bons "velhos tempos", do amor que os ligava aquelas terras e aquelas gentes.
Muitos deles são os mesmos que antes de 1974/75 debitavam enormes quantidades de amor pelas mesmas terras e pelas mesmas gentes, mas que, ao primeiro sobressalto , se esqueceram disso tudo e fugiram sem um gesto, sem uma palavra, revelando a sua verdadeira condição de colonos que até aí negavam.
Agora, muitos deles, para além do choro sobre o leite derramado fazem a apologia do que noutros tempos criticavam, como é, por exemplo, o Reino de Maconge. Durante muitos anos fomos poucos os que alimentámos a centelha, as tertúlias, o espírito de grupo e- porque não dizê-lo - as bebedeiras mensais, sem mulheres à mistura.
Aparece cada um a reclamar-se conde ou duque ou mais não sei o quê do Reino de Maconge...
Mas, enfim...também estou cansado da Nova Angola dos novos ricos, dos postais tipo Dubai atrás dos quais se escondem desgraças sem tamanho.
Por isso, por princípio, e desde há uns tempos, todas as mensagens, que pelo título, se anunciam como formas de falar de Angola passada ou de Angola de novos ricos saloios, vão para o lixo.
Hoje, porém apareceu-me uma imagem fantástica, eu diria mesmo milagrosa da mais bela estrada de Angola, da Leba. Um Fotógrafo, Kostadin Luchansky, aproveitou várias circunstâncias improváveis para fazer um retrato de sonho da Leba.
É tão bela esta imagem que devia ser aproveitada para uma campanha de informação sobre a verdadeira Angola, com os seus defeitos e as suas virtudes, sem deitar para debaixo do tapete pedaços de História.
Esta imagem fez-me recordar o sonho que eu tive para Angola, um país com igualdade de oportunidades para todos, com uma lei fundamentada nos princípios mais sólidos das culturas do xadrez das gentes que constituem o seu povo; um comércio a ombrear com o internacional, uma indústria com capacidade para transformar as suas matérias primas, uma rede de rodovias e ferrovias que transformassem este enorme espaço num sítio fácil de percorrer, onde fosse possível ir do Lubango a Malanje só para ver um amigo.
Um Estado diferente - porque a sua gente é diferente - e que pudesse servir de exemplo, não apenas aos seus vizinhos africanos, mas a muitos outros estados, incluindo europeus, convencidos de que são democráticos.
Esta imagem fez-me voltar atrás uns anos e voltar a sonhar, a lembrar-me da célebre frase de Luther King: "I Had a Dream". E já agora afirmar que lutei por ele até me convencer de que éramos muito poucos os que o viam.
Leston Bandeira, e Lisboa, 22 de Maio de 2010
sábado, maio 15, 2010
15 de Maio


quinta-feira, abril 22, 2010
Recordar Comparando

sexta-feira, abril 02, 2010
O Povo da Guiné Bissau

Lembro-me de ter uma turma com sessenta alunos, a quem eu dizia: "isto não é uma sala de aulas, é uma sala de espectáculos, só faltam as luzes...", porque, em cima dos sessenta ainda aparecia sempre uma dúzia de assistentes. Gostavam das minhas aulas, o que me lisonjeia, mas não pode fazer com que, analisando a situação, perceba que aquela era uma das dificuldades intransponíveis.
A massificação da Escola traz sempre problemas e na Guiné Bissau, muito mais, já que os dirigentes, os que se apresentavam com o "direito" e não o dever à governação, eram pouco escolarizados e cometiam erros tremendos para plateias de alunos já com alguma preparação.
Lembro-me, por exmeplo, que o Paulo Correia, mandado matar pelo Nino Vieira, foi a uma reunião com estudantes do 6º e 7ºanos da alura para lhes explicar que eles, alunos, tinham a sorte de ter uma Escola que os estava a ensinar porque ele e outros tiveram que abandonar o objectivo da sua preparação pessoal para se dedicarem à tarefa bem mais difícil de lutar pela independência da sua Terra, a Independência, que lhes permitia ter aquela escola, cheia de problemas - é certo - mas uma Escola para Guineenses. Foi aí que Paulo Correia pela adesão com que foi recebido pela Juventude, no fundo, decretou o seu próprio fim. Nino Não perdoava.
Uma outra das minhas dificuldades esteve relacionada com o regresso, já que a vice-reitora, em substituição do Manecas, acrescentou umas regas estapafúrdias às condições de termo dos nossos contratos, porque no baile dos finalistas, um tal Luís Vaz, professor cooperante português foi fazer um discurso que raiava o spinolismo.
Conclusão, fomos todos metidos no mesmo saco, o Buscardini, chefe da segurança, queria que eu fosse lá à polícia buscar o meu passaporte, que, de resto, já tinha sido objecto de chantagem por parte de um aluno que, em pleno exame, de prova escrita, me ameaçou não me entregar o dito se a nota não lhe conviesse...
Nessa altura disse ao embaixador de Portugal em Bissau,Pinto da França, que o "problema " era dele e eu queria o meu passaporte. Consegui regressar a Portugal a 5 de Agosto de 1978. O Luís Vaz ficou por lá mais uns meses...
Analisando a minha actuação como professor naquela ano lectivo longíncuo de 1877/78, acho que cumpri o meu papel. Lembro-me, igualmente, de ter ficado com uma excelente impressão do Povo da Guiné Bissau, desde que fora de Bissau. Na capital andava toda a agente a ver se resolvia um problema, se conseguia um emprego, se obtinha uma promoção, se, finalmente, era nomeado chefe.
Nesse tempo fiz várias viagens, a que mais me impressionou foi a que me levou até ao Norte, na fronteira com o Senegal, na antiga estância de turismo das elites coloniais, Varela, onde ainda havia vestígios de água canalizada, quente e fria, nas habitações espalhadas por um perímetro simpático junto à praia.
Eu, O Zé Nascimento e a Clara Campino divertim-nos com os nossos "hospedeiros", os flupes, islamizados e bons anfitriões.
Antes passámos uma noite em Susana, uma missão católica, dirigida por padres italianos e que, durante toda a noite conversaram connosco e nos explicaram tudo acerca daquela região e da História antiga e mais recente da Guiné Bisssau. Foi nessa noite que eu fiquei a conhecer aquele país e aquele povo.
De Susana para Varela fomos a pé, por caminhos de areia difíceis e penosos de fazer. A Clara, com os seus trinta quilos, lá aguentou a caminhada.
Acho que ela, tal como eu e o Zé, nos lembrávamos da viagem de canoa de Canchungo para S. Domingos em que vimos as piores condições de transporte possíveis de ver no nosso (dos três) universo. Recordo uma mãe, que, para proteger a filha, viajou durante algumas horas numa canoa feita de tronco de árvore, com as pernas colocadas em tal posição que nos parecia que se tocavam, algures por detrás da cabeça, deixando a resguardo um buraco suficientemente espaçoso para caber a sua filhinha de alguns três anos. Isto, no meio de uma multidão que prometia um afundanço da canoa a todo o momento.
Em S. Domingos confraternizámos com o povo da vila que, não sei por que razão, resolveu fazer um batuque durante toda a noite, até às 9 da manhã; um batuque com um som que ainda hoje permanece na minha memória, feito do ruído de palmas de mãos, com um ritmo irrestível.
De S. Domingos alguém nos deu uma boleia para Susana. Depois o luxo acabou. Bem como no regresso.
Desta e doutras viagens ficou-me a memória de um Povo, que naquele tempo tinha muita esperança no futuro. Acreditava sinceramente que a Independência lhe traria grandes benefícios.
Voltei em 1981. Em Fevereiro, como correspondente da ANOP, para substituir o Xavier de Figueiredo, que assitiu ao golpe de estado de 14 de Novembro de 1980. Um verdadeiro auto-golpe, já que o Nino Vieira, apresentado como cabecilha da rebelião, era, na altura, primeiro-ministro, isto é, "Primeiro Comissário" do Governo da República da Guiné Bissau, sendo Luís Cabral, irmão de Amílcar, o Presidente do Conselho de Estado, isto é, Presidente da República.
Em Março - 20 - fui expulso pelo Conselho da Revolução, mas o que presenciei durante estes pouco mais de 40 dias deu para perceber que os caminhos da Guiné Bissau não eram fáceis. Nino, além de dormir com as mulheres dos ministros, viajava e não fazia nada. Vendia as idas à Taywan por um milhão de dólares, depositados na Suiça.
O Povo, o tal povo cheio de esperanças, não existia na sua cabeça, nem na de nenhum dos líderes que com ele existiram, que o substituiram, que ele mandou matar, que mataram a outros. A geração da "guerra de Libertação" é uma geração maldita e, quando ela tiver terminado o país não tem Estado, o Estado não tem país e o Povo tem que ir encontrar outra solução. Por isso, há mais de vinte anos, escrevi: "A Guiné Bissau, como Estado Independente é um PUF histórico".
sábado, março 27, 2010
Manuel Delgado - Ele detestava a mediocridade

Ontem, com muito gosto, acedi ao convite que me foi feito para assistir ao lançamento do livro de compilação de textos do Jornalista Manuel Delgado que me foi dirigido pela sua família. A apresentação do "RABIDANTIBUS" foi feita na Associação Caboverdiana, em Lisboa. Foi um prazer voltar aquele ambiente e rever gente que não via há muitos anos. A Clara Seabra, sobretudo,esposa e companheira de muitos anos do Manel. Os filhos, que eu conheci pequeninos lá estavam, mas não tive oportunidade de falar com eles.Também foi um gosto rever o Luís Carlos Patraquim.
Vim embora a meio da sessão, porque, tal como o Manuel Delgado detesto a mediocridade e a falta de profissionalismo.
Mas já não estou para polémicas. Aproveito o facto de possuir este blogue para esclarecer algumass coisas.
A primeira diz respeito à personalidade de Manuel Delgado
Cabo Verde é um país especial porque, de tempos a tempos, tem a sorte de ter entre os seus filhos, gente com especial inteligência. Era o caso do Manel. Ele estava sempre à frente e não percebia,não aceitava que os outros não o acompanhassem. E isso angustiava-o. Ele traduzia o amor pela sua terra com essa angústia de quem sentia que tudo podia ser diferente e contestava.Não era um homem fácil, já aqui o escrevi, mas era um homem particularmente inteligente.
Porque é que, primeiro o PAIGC e depois o PAICV não lhe deram papéis mais activos, mas visíveis, mais de acordo com as suas capacidades? Porque ele detestava a mediocridade e os primeiros tempos de independência em Cabo Verde foram feitos com muita paciência.
Essa paciência, a certa altura, faltou ao Manel e ele veio para Portugal para, em conjunto comigo e mais um grupo de pesssoas, fazer o melhor jornal que alguma vez se fez em Portugal sobre África.
Não sei precisar a data em que ele veio para Lisboa, mas não foi, seguramente em 1988,foi bem antes. E o jornal português em que ele mais escreveu foi o jornal "África". Acho mesmo que foi o jornal, que não sendo dele - como mais tarde veio a acontecer com o Paralelo 14 - onde ele se sentiu mais livre. Embora contestando - sempre - desde logo a periodicidade do Jornal. Acho que tinha razão.
Ele não veio em 1988 para o Expresso para ser copydesk, "um copydesk inteligente". De resto foi uma pena que o tivessem reduzido a essa condição, já que o Expresso nunca teve ninguém que percebesse alguma coisa do que se passava em África e o Manuel Delgado poderia ter sido uma peça importante na Redacção de um jornal que sempre teve uma posição paternalista relativamente aos africanos, mas está sempre à espreita para ver se aproveita qualquer coisa que venha de África.
Isso também irritava o Manel e, por isso, voltou para a sua terra, onde criou um projecto próprio para, mais uma vez, demonstrar o seu desprezo pela mediocridade pela falta de profissionalismo e pelos jogos pouco claros da política e da economia e outros...
Ontem perdeu-se uma oportunidade de colocar o Manuel Delgado no seu lugar de JORNALISTA, também um "jornalista Caboverdiano", mas, sobretudo um JORNALISTA e não apenas um copydesk inteligente. O Manuel Delgado, mesmo já não estando entre os vivos, ainda assusta.
Felizmente, o Manel tem uma família que faz os possíveis por demonstrar à sociedade que ele não foi um "qualquer", um "copydesk inteligente".
Outros, que também tiveram papel de grande destaque na sociedade cabo-verdiana e morreram na flor da idade não tiveram essa sorte. Por exemplo, é muito estranho que ainda ninguém tenha feito uma compilação de textos do Renato Cardoso.
sexta-feira, março 19, 2010
Limpeza no Lubango HURRAAAHH!!!!!!!

Chega-me, como sempre via net e pontualmente o Novo Jornal - uma excelente publicação de que os angolanos se devem orgulhar. Abro as diversas páginas e descubro numa delas um tema que me interessa paritcularmente por razões de carácter pessoal.
No Lubango o camartelo saiu à rua para tentar dar ordem ao que, depois de trinta anos de desgoverno, corrupção, laxismo e até actos verdadeiramente criminosos porque atentatórios da qualidade de vida de uma população que não pára de crescer.
Por detrás do camartelo essteve o Governador Isaac dos Anjos, um homem "com eles no sítio" que, segundo a reportagem do Novo Jornal, não teve o poio nem dos homens que com ele partilham o governo da província. O próprio MPLA, através de um porta-voz, que deve usar gravata e sapatos brancos bicudos e de verniz, veio condenar a acção de limpeza, levada a cabo no cumprimento de legislação aprovada pela Assembleia Nacional.
Estes últimos trinta anos , cujo poder pertenceu sempre ao MPLA, serviram para construir barracas feias, casas clandestinas em linhas de água, junto às linhas de caminhos de ferro, desenhar estradas e ruas sem rumo.
E porque é que aconteceu tudo isto?
É simples: os camponeses começaram a invair a cidade porque deixaram de ter condições de vida no mato e foram instalando as suas "bikuatas", semaando as suas lavras; no seguimento, os pequenos burgueses corromperam a administração e inventaram a condição de proprietários daqueilo que, de facto, é do Estado.
A mim foram-me chegando fotografias. Nos últimos tempos já faço "delete" sem as ver.
Agora chega-me a reportagem do Novo Jornal e as declarações do Sr. Governador Isaac dos Anjos e eu, adorador do Lubango, a cidade onde passei dos melhores anos da minha vida e onde desenvolvi acções importantes em prole do MPLA que chegou ao poder porque houve muita gente como eu, e fico contente pelo facto de haver um homem que diz BASTA de corrupção. Vamos construir uma cidade onde toda a gente se sinta bem.
Bravo Isaac.
Não teria ficado mal que o Novo Jornal manifestasse uma ponta de apoio a este homem,que, pelos vistos está sózinho. Aos jornalistas também cabe o papel de verificar se a Justiça Social, mesmo dolorosa, está a ser cumprida. Não se pode prejudicar uma comunidade para proteger grupos de chicos espertos corruptos.
domingo, dezembro 20, 2009
OS BÓERES NO PLANALTO DA HUÍLA
Os meus agradecimentos ao meu amigo António Trabulo que me enviou este texto e também algumas das fotografias da sua colecção particular.
Os bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco anos depois.
Criaram raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a Colónia do Cabo à Inglaterra.
Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek. Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados, bateram-se bem, mas foram vencidos.
Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.
Seiscentas famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto, de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por mais.
Ao longo do Trek, os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres, nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram dispersando.
Uns tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene. Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra para se instalarem.
Vale a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.
Em Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar, experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado à cauda dum cavalo.
Os bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros de comprimento, com uma levada de água para cada casal.
Nessa época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda prestada pelos cavaleiros bóeres.
Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.
Os africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.
Existia, no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar. Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.
Os bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região. Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de Almoster.
A segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902 não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na região.
Em 1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.
Quatro famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado. Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana, reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto de 2.000 almas.
Referências:
Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.
Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.
Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.
Fotografias: colecção do autor.
quinta-feira, setembro 17, 2009
1910 - Romance de Antonio Trabulo
terça-feira, julho 21, 2009
Renato Cardoso e os Seus Amigos

Fui colega do Renato Cardoso no Liceu Gil Eanes e depois como segui para Cabinda (onde vivi dez anos) só em 1975 viria a reencontrar o Paín (assim era ele conhecido por nós colegas e outros daquele tempo - nome aplicado pelo Dr. Baltasar Lopes da Silva, quando o Renato leu em francês le paín em vez de pain (pão).
Sabe, desde que mataram o Renato, digo comigo mesma que se fosse a mulher dele teria que descobrir quem o matou. As várias versões aqui impingidas nunca me enganaram. Eu tive o privilégio de ter trabalhado com o Renato nas vésperas da sua morte e sei, porque ele me disse, que algo que estava a atormentá-lo já tinha sido esclarecido. Tinha tido um encontro sobre isso. Ele prometeu vir beber un Gin tónico comigo no domingo para comemorarmos tb o projecto sobre administração pública que acabáramos de traçar com um expert das N.U, Guido de Weerd . Nunca me esqueço daquela manhã, do toque daquele telefone (eu ainda deitada) e a voz do meu marido anunciando-me o acontecimento. Os meus soluços continuam vivos aqui no meu peito e sinto não poder dar a vida ao meu amigo.Fiz um poema que nunca difundi porque não sou poetisa e tb porque as vozes sonoras não pertencem a todos. Não interessa, fi-lo para ele.
Sei também que o Renato não pode estar feliz pois ele tinha todo um projecto de vida que ele não escondia e que fazia questão de anunciar: eu não pretendo morrer, nem vou imigrar, a não ser que me dêem um tiro e eu não possa fazer nada... foi o que ele dissera quando o técnico lhe disse que o país precisava dele para defender o projecto acabado de assinar...
Tudo isso para lhe pedir: por favor escreva mais sobre o que escreveu, difunda o seu artigo ou então de-nos oportunidade de o comentar.
Mas tb questionei porque só em 2005? Compreendo mas não entendo.
Um abraço
Alice Sena Mascarenhas
CP 43 Praia
Ilha de Santiago,
Republica de Cabo Verde
Faz hoje quinze anos que Renato Cardoso foi assassinado na Cidade da Praia. Daqui, de Lisboa, dedico-lhe o meu pensamento, honro a sua memória e declaro a minha saudade de um amigo bom, de um homem inteligente, dedicado à sua terra e à sua gente.
Daqui, de Lisboa, do mesmo sítio onde recebi a notícia fria da sua morte lamento que um manto inexplicável tenha caído por cima de um assassinato hediondo, cujas razões nunca foram devidamente explicadas. Desta mesma cidade que o viu crescer como jurista de grande conhecimento e sabedoria digo da minha tristeza pelo esquecimento a que os seus votam a sua memória.
De dentro do que mais profundo existe em mim rendo a minha homenagem à sua coragem nas inúmeras lutas políticas que travou e de que resultaram sempre avanços para o progresso do seu povo. Faço vénia ao seu empenhamento na luta pelos ideias da democracia, cujos princípios enunciou antes que outros aproveitassem as ondas internacioinais para se perfilarem num combate pelo poder.
Neste triste aniversário, como seu amigo, sinto-me na obrigação de informar os cabo-verdianos que Renato Cardoso, pouco tempo antes de ter sido abatido por um profisisional que não deixou pistas, tinha sido convidado para trabalhar fora da sua terra, a troco de uma proposta milionária - que ele recusou - porque, como dizia, a sua gente precisava dele.
E precisava mesmo. Só que já passaram quinze anos sobre o som dos tiros assassinos e a sua gente já nem se lembra do dia. Os seus pupilos, aqueles em quem ele depositou as suas esperanças, têm , pelo menos, que honrar a sua memória, a sua honradez de carácter, a sua crença num Cabo Verde para todos os cabo-verdianos.
terça-feira, julho 14, 2009
O "Quintal" da Europa
quarta-feira, junho 03, 2009
Arménio Vieira - Prémio Camões

domingo, abril 19, 2009
Retornados O Adeus a África

sábado, abril 04, 2009
"Balada do Ultramar"
Manuel Acácio, um nome conhecido no jornalismo radiofónico de qualidade - que já vai rareando -acaba de publicar um livro com um título atrevido, "Balada do Ultramar". Este romance é uma narrativa corajosa, não da sua própria experiência, mas do entendimento que conseguiu perceber do sofrimento atroz que foi para centenas de milhares de portugueses (brancos e também muitos negros) o abandono das terras onde muitos deles já tinham nascido. Alguns foram atirados fora da terra dos seus avós.
sábado, março 28, 2009
27 de Março de 1976
O Lubango vivia momentos de euforia, de reconstrução, de azáfama, de reorganização. Os operários dos Caminhos de Ferro de Moçamedes (CFM) ajudavam os agricultores, fazendo peças para os tractores avariados, noutras fábricas substituia-se o obsoleto sistema de capatazia por métodos de responsabilização na organização da produção.
Quando, a 18 de Fevereiro tínhamos chegado à cidade, no primeiro voo que partiu de Luanda, muitos de nós não contiveram as lágrimas à vista de uma cidade meia destruída. Os retirantes partiram tudo quanto puderam. Os últimos foram os homens da UNITA, já sob a pressão das tropas cubanas, mas à frente dos "bravos" Mucubais comandados pelo Farrusco, que, naquele dia de 18 de Fevereiro nos recebeu no aeroporto num jeep com uma enorme bandeira vermelha que drapejava fortemente ao vento.
Para muitos de nós - para mim, inclusivé - a guerra tinha terminado naquele dia. Depois foi o arregaçar de mangas: ajudar na reorganização da produção, pôr de pé a Faculdade de Letras, refundar a Rádio Popular de Angola, criar o jornal " A Luta Continua", acorrer aos variados chamamentos, alguns dos quais de madrugada, porque um grupo de "faplas" tinha resolvido fazer das suas.
De Fevereiro de 1976 a Março do mesmo ano muitas coisas aconteceram naquela cidade, cinclusivamente a instalação de uma intriga forte, uma espécie de veneno trazido de Luanda. A Comissão Política da Huíla começou a integrar gente que não se percebia donde vinha. De um dia para o outro, percebi que o único elemento que tinha legitimidade democrática, porque eleito na primeira Assembleia Geral de militantes do MPLA era eu.
E eu não tinha tempo para a intriga e passei a ser olhado, primeiro, como a consciência do grupo. Toda a gente queria falar comigo em privado. Depois o mesmo aconteceu, quando os ministros passaram a visitar o Lubango. Mas, depois, mais tarde, era o "branco", isto é, "português".
Todavia, naquele 27 de Março não deixei de vibrar com a oficialização do "fim" da guerra. Finalmente, Angola podia reconstruir-se e cumprir metas de desenvolvimento que beneficiasse a todos.
Finalmente...
Houve comício com o velho Lúcio Lara. No seu discurso atacou sobretudo a posição de Portugal que ainda não tinha reconhecido o Estado Angolano, proclamado pelo MPLA às 00H00 de 11 de Novembro de 1975.
Emílio Braz, entretanto nomeado Comissário Provincial, também botou discurso e, no final, teve uma expressão que me alertou: " Viva o Povo N'Hanheca Humbe" - o Povo da Huíla.
Fiquei desconfiado, tanto mais que durante a sua proclamação aos presentes afirmou que toda a gente tinha que aprender a língua M'Huíla.
Alguma coisa se passava e fiquei mais atento.Pouco tempo depois concluí que o confronto entre nitistas e netistas também tinha chegado ao Lubango.
Afinal...
A guerra não tinha acabado: o MPLA ajeitava-se para uma disputa fratricida, que haveria de ter o epicentro a 27 de Maio do ano seguinte. As réplicas prolongaram-se por vários meses e custaram a vida a algumas dezenas de milhar de pessoas. Na sua maioria jovens; muitos deles tinham sido meus alunos, quer no Liceu, quer na Faculdade de Letras. Nessa altura porém já não estava no Lubango: eu também fazia parte das listas negras dos dois lados. Não teria tido salvação...
Mas, aquele 27 de Março foi dia de Alegria. Resolvemos rebaptizar a Escola Comercial e Industrial Artur de Paiva: "Escola 27 de Março", de que era directora a minha mulher, Isilda Arruda.
Naquele 27 de Março, Angola estava oficialmente livre de tropas ocupantes. Voltariam, já não de peito aberto, mas a coberto de acordos espúrios com forças angolanas que também queriam o poder absoluto , corrupto e racista, tal como o construiu o MPLA.
E eu, naquela altura, sem desconfiar ainda do que me esperava, voltei a chorar de contentamento. Finalmente... "a minha terra" estava livre.
sábado, março 14, 2009
Portugal/Angola - Bom Senso Só Ajuda
sexta-feira, março 13, 2009
Prémio Dardos

terça-feira, março 03, 2009
Em Memória de Paulo Correia e Muitas outras vítimas
sábado, fevereiro 28, 2009
Semanário "Angolense"


