terça-feira, agosto 17, 2010

ERA E FOI-SE - 65 - 3ºC

Com a capa podia acontecer tudo. A 14 de Agosto apareceu Américo Tomás. Além de sócio do Belenenses, era presidente da República.Nessa condição, retatado pelo pintor
Eduardo Malta, meu vizinho de infância, na Victor Cordon, aqui, de Lisboa.Além da capa, encheu uma porção de páginas patrioteiras.
Júlio Castro Lopo prosseguia com a evocação de Paiva Couceiroe já ia na 26ª crónica e anunciava a 3ªparte do livro «Angola», de Paiva Couceiro!
De branco vestido, Tomás erguia os braços à população, atrás, à sua esquerda Silvino, sorridente. O título:«Outra vez. Presidente»!
Luanda de hoje ( de 1965!) é contrastada com Luanda do antigamente, dita pitoresca. A então actual via-se a cores; a outra meio sumida no cinzento triste do tempo, mas extasiava os antigos.
Uma transplantação da córnea, a primeira em Angola,, é salientada numa porção de páginas. Os médicos, esses, era espanhois. Iam regularmente ao Vouga dar contributo generoso. Os colegas portugueses não eram lá muito virados para isso,para generosidades benfeitoras...
Massangano, um dos polos de resistência ao invasor holandês, ganhou uma estrada de acesso, bem merecida, por sinal. Por lá ficou sepultado, desde 1589, Paulo Dias de Novais!
Ao serviço da Cuca, Humberto Madeira visitou Nova Lisboa.
A loucura ensurdecedora dos batuques no danço-congo, em S. Tomé. Acho que nem tinha como ser descrita aquela festa pagã, popularizada que enebriava toda a polulação. O +N+ rompe tranquilamente as barreiras e trás, número a número. imagens da Pátria comum. Do Minho a Macau, de S.Tomé a Oliveira daSerra, do Porto à Guiné!Se fosse preciso ir ao Brasil, por mór da bola, ia-se, pois então! Às corridas de popós na Africa do Sul, pois então, claro. Vai (ia!) onde houvesse que ir. Isso é que distinguia o +N+ dos concorrentes de Lisboa e arredores...
O «Beiral» de Luanda é algo que devia ser revisto todos os semestres ou trimestres. Paz e Caridade generosa. Obra anónima que os homens de Angola ergueram e mantiveram. Olhe-se a fachada do edifício, a sala de refeições, a cozinha, a sala de convívio! Onde encontrar, por aí, nos nossos dias, aqui ou lá, na Angola petrolífera?
Angerino foi aos Dembos. Caramba! Como aquilo é grande e magnífico e espesso e húmido!
Meninos alunos fora levados a Massangano fardados de Mocidade Portuguesa.Do alto olharam os estudantes de Coimbra, idos de passeio. O peso de História é semelhante a qualquer peso: perde-se ou eterniza-se...
Qui, Cabral e Angerino de Sousa foram a Porto Alexandre ver a muralha de casuarinas, um pedaço de Algarve fincado no sul de Angola. Terra de peixe e de pescadores. O reportagem foi do governador-geral!
(continua)...

quarta-feira, junho 23, 2010

As Ajudas a África


A propósito das notícias que vão referindo várias ajudas a África, talvez valha a pena ler a opinião de um economista queniano, recentemente publicada na revista "Der Spiegle"


"Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África!",

afirma economista do Quênia


Especialista explica que a ajuda internacional alimenta a corrupção e impede que a economia se desenvolva, o que destrói a produção agrícola e causa desemprego, mais miséria e mais dependência

Thilo Thielke, em Hamburgo

O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, diz que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África, sobre governantes corruptos e a tendência a exagerar o problema da Aids.

DER SPIEGEL - Senhor Shikwati, a cúpula do G8 em Gleneagles deverá aumentar a ajuda ao desenvolvimento da África...

James Shikwati -
Pelo amor de Deus, parem com isso!

DS - Parar? Os países industrializados do Ocidente querem eliminar a fome e a pobreza.

Shikwati -
Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.

DS - O senhor tem uma explicação para esse paradoxo?

Shikwati -
Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos. E é por isso que eles afirmam que o mundo pararia de girar sem essa ajuda ao desenvolvimento.

DS - Mesmo em um país como o Quênia pessoas morrem de fome todos os anos. Alguém precisa ajudá-las.

Shikwati -
Mas são os próprios quenianos quem deveria ajudar essas pessoas. Quando há uma seca em uma região do Quênia, nossos políticos corruptos imediatamente pedem mais ajuda. O pedido chega ao Programa Mundial de Alimentação da ONU --que é uma agência maciça de "apparatchiks" que estão na situação absurda de, por um lado, dedicar-se à luta contra a fome, e por outro enfrentar o desemprego onde a fome é eliminada. É muito natural que eles aceitem de bom grado o pedido de mais ajuda. E não é raro que peçam um pouco mais de dinheiro do que o governo africano solicitou originalmente. Então eles enviam esse pedido a seu quartel-general, e em pouco tempo milhares de toneladas de milho são embarcadas para a África...

DS - Milho que vem predominantemente de agricultores europeus e americanos altamente subsidiados...

Shikwati -
... e em algum momento esse milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho em geral vai diretamente para as mãos de políticos inescrupulosos, que então o distribuem em sua própria tribo para ajudar sua próxima campanha eleitoral. Outra parte da carga termina no mercado negro, onde o milho é vendido a preços extremamente baixos. Os agricultores locais também podem guardar seus arados; ninguém consegue concorrer com o programa de alimentação da ONU. E como os agricultores cedem diante dessa pressão o Quênia não terá reservas a que recorrer se houver uma fome no próximo ano. É um ciclo simples mas fatal.

DS - Se o Programa Mundial de Alimentação não fizesse nada, as pessoas morreriam de fome.

Shikwati -
Eu não acredito nisso. Nesse caso, os quenianos, para variar, seriam obrigados a iniciar relações comerciais com Uganda ou Tanzânia, e comprar alimento deles. Esse tipo de comércio é vital para a África. Ele nos obrigaria a melhorar nossa infra-estrutura, enquanto tornaria mais permeáveis as fronteiras nacionais --traçadas pelos europeus, aliás. Também nos obrigaria a estabelecer leis favorecendo a economia de mercado.

DS - A África seria realmente capaz de solucionar esses problemas por conta própria?

Shikwati -
É claro. A fome não deveria ser um problema na maioria dos países ao sul do Saara. Além disso, existem vastos recursos naturais: petróleo, ouro, diamantes. A África é sempre retratada como um continente de sofrimento, mas a maior parte dos números é enormemente exagerada. Nos países industrializados existe a sensação de que a África naufragaria sem a ajuda ao desenvolvimento. Mas, acredite-me, a África já existia antes de vocês europeus aparecerem. E não fizemos tudo isso com pobreza.

DS - Mas naquela época não existia a Aids.

Shikwati -
Se acreditássemos em todos os relatórios horripilantes, todos os quenianos deveriam estar mortos hoje. Mas agora os testes estão sendo realizados em toda parte, e acontece que os números foram enormemente exagerados. Não são 3 milhões de quenianos que estão infectados. De repente eram apenas cerca de um milhão. A malária é um problema equivalente, mas as pessoas raramente falam disso.

DS - E por quê?

Shikwati -
A Aids é um grande negócio, talvez o maior negócio da África. Não há nada capaz de gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. A Aids é uma doença política aqui, e deveríamos ser muito céticos.

DS - Os americanos e europeus têm fundos congelados já prometidos para o Quênia. O país é corrupto demais, segundo eles.

Shikwati -
Temo, porém, que esse dinheiro ainda será transferido em breve. Afinal, ele tem de ir para algum lugar. Infelizmente, a necessidade devastadora dos europeus de fazer o bem não pode mais ser contida pela razão. Não faz qualquer sentido que logo depois da eleição do novo governo queniano --uma mudança de liderança que pôs fim à ditadura de Daniel Arap Mois--, de repente as torneiras se abriram e o dinheiro verteu para o país.

DS - Mas essa ajuda geralmente se destina a objetivos específicos.

Shikwati -
Isso não muda nada. Milhões de dólares destinados ao combate à Aids ainda estão guardados em contas bancárias no Quênia e não foram gastos. Nossos políticos ficaram repletos de dinheiro, e tentam desviar o máximo possível. O falecido tirano da República Centro Africana, Jean Bedel Bokassa, resumiu cinicamente tudo isso dizendo: "O governo francês paga por tudo em nosso país. Nós pedimos dinheiro aos franceses, o recebemos e então o gastamos".

DS - No Ocidente há muitos cidadãos compassivos que querem ajudar a África. Todo ano eles doam dinheiro e mandam roupas usadas em sacolas...

Shikwati -
... e então inundam nossos mercados com essas coisas. Nós podemos comprar barato essas roupas doadas nos chamados mercados Mitumba. Há alemães que gastam alguns dólares para comprar agasalhos usados do Bayern Munich ou do Werder Bremen. Em outras palavras, roupas que algum garoto alemão mandou para a África por uma boa causa. Depois de comprar esses agasalhos, eles os leiloam na eBay e os mandam de volta à Alemanha -- pelo triplo do preço. Isso é loucura!

DS - ... e esperamos que seja uma exceção.

Shikwati -
Por que recebemos essas montanhas de roupas? Ninguém passa frio aqui. Em vez disso, nossos costureiros perdem seu ganha-pão. Eles estão na mesma situação que nossos agricultores. Ninguém no mundo de baixos salários da África pode ser eficiente o bastante para acompanhar o ritmo de produtos doados. Em 1997 havia 137 mil trabalhadores empregados na indústria têxtil da Nigéria. Em 2003 o número tinha caído para 57 mil. Os resultados são iguais em todas as outras regiões onde o excesso de ajuda e os frágeis mercados africanos entram em colisão.

DS - Depois da Segunda Guerra Mundial a Alemanha só conseguiu se reerguer porque os americanos despejaram dinheiro no país através do Plano Marshall. Isso não se qualificaria como uma ajuda ao desenvolvimento bem-sucedida?

Shikwati -
No caso da Alemanha, somente a infra-estrutura destruída tinha de ser reparada. Apesar da crise econômica da República de Weimar, a Alemanha era um país altamente industrializado antes da guerra. Os prejuízos criados pelo tsunami na Tailândia também podem ser consertados com um pouco de dinheiro e alguma ajuda à reconstrução. A África, porém, precisa dar os primeiros passos na modernidade por conta própria. Deve haver uma mudança de mentalidade. Temos de parar de nos considerar mendigos. Hoje em dia os africanos só se vêem como vítimas. Por outro lado, ninguém pode realmente imaginar um africano como um homem de negócios. Para mudar a situação atual, seria útil se as organizações de ajuda saíssem.

DS - Se fizessem isso, muitos empregos seriam perdidos imediatamente.

Shikwati -
Empregos que foram criados artificialmente, para começar, e que distorcem a realidade. Os empregos nas organizações estrangeiras de ajuda são muito apreciados, é claro, e elas podem ser muito seletivas na escolha das melhores pessoas. Quando uma organização de ajuda precisa de um motorista, dezenas de pessoas se candidatam. E como é inaceitável que o motorista só fale sua língua tribal, o candidato também deve falar inglês fluentemente --e, de preferência, ter boas maneiras. Então você acaba com um bioquímico africano dirigindo o carro de um funcionário da ajuda, distribuindo comida européia e forçando os agricultores locais a deixar seu trabalho. É simplesmente loucura!

DS - O governo alemão se orgulha exatamente de monitorar os receptores de suas verbas.

Shikwati -
E qual é o resultado? Um desastre. O governo alemão jogou dinheiro diretamente para o presidente de Ruanda, Paul Kagame, um homem que tem na consciência a morte de um milhão de pessoas --que seu exército matou no país vizinho, o Congo.

DS - O que os alemães deveriam fazer?

Shikwati -
Se eles realmente querem combater a pobreza, deveriam parar totalmente a ajuda ao desenvolvimento e dar à África a oportunidade de garantir sua sobrevivência. Atualmente a África é como uma criança que chora imediatamente para que a babá venha quando há algo errado. A África deveria se erguer sobre os próprios pés.

domingo, maio 23, 2010

Tive um Sonho

Estou cansado das mensagens que me chegam com motivos de Angola. Por várias razões: umas porque são um choro pegado, gente que vai aos sítios onde morou, tira fotografias, fala com as pessoas e faz relatos verdadeiramente patéticos do que sentiu ao verificar que os habitante de hoje ainda se lembram dos nomes antigos das ruas, das mesmas ruas que estão lá - agora mais sujas, mas desorganizadas, mas as mesmas casas, sem pintura, umas, a cair aos bocados, outras.


E o lancinante da saudade da mocidade perdida, dos bons "velhos tempos", do amor que os ligava aquelas terras e aquelas gentes.


Muitos deles são os mesmos que antes de 1974/75 debitavam enormes quantidades de amor pelas mesmas terras e pelas mesmas gentes, mas que, ao primeiro sobressalto , se esqueceram disso tudo e fugiram sem um gesto, sem uma palavra, revelando a sua verdadeira condição de colonos que até aí negavam.


Agora, muitos deles, para além do choro sobre o leite derramado fazem a apologia do que noutros tempos criticavam, como é, por exemplo, o Reino de Maconge. Durante muitos anos fomos poucos os que alimentámos a centelha, as tertúlias, o espírito de grupo e- porque não dizê-lo - as bebedeiras mensais, sem mulheres à mistura.


Aparece cada um a reclamar-se conde ou duque ou mais não sei o quê do Reino de Maconge...


Mas, enfim...também estou cansado da Nova Angola dos novos ricos, dos postais tipo Dubai atrás dos quais se escondem desgraças sem tamanho.


Por isso, por princípio, e desde há uns tempos, todas as mensagens, que pelo título, se anunciam como formas de falar de Angola passada ou de Angola de novos ricos saloios, vão para o lixo.


Hoje, porém apareceu-me uma imagem fantástica, eu diria mesmo milagrosa da mais bela estrada de Angola, da Leba. Um Fotógrafo, Kostadin Luchansky, aproveitou várias circunstâncias improváveis para fazer um retrato de sonho da Leba.


É tão bela esta imagem que devia ser aproveitada para uma campanha de informação sobre a verdadeira Angola, com os seus defeitos e as suas virtudes, sem deitar para debaixo do tapete pedaços de História.


Esta imagem fez-me recordar o sonho que eu tive para Angola, um país com igualdade de oportunidades para todos, com uma lei fundamentada nos princípios mais sólidos das culturas do xadrez das gentes que constituem o seu povo; um comércio a ombrear com o internacional, uma indústria com capacidade para transformar as suas matérias primas, uma rede de rodovias e ferrovias que transformassem este enorme espaço num sítio fácil de percorrer, onde fosse possível ir do Lubango a Malanje só para ver um amigo.


Um Estado diferente - porque a sua gente é diferente - e que pudesse servir de exemplo, não apenas aos seus vizinhos africanos, mas a muitos outros estados, incluindo europeus, convencidos de que são democráticos.


Esta imagem fez-me voltar atrás uns anos e voltar a sonhar, a lembrar-me da célebre frase de Luther King: "I Had a Dream". E já agora afirmar que lutei por ele até me convencer de que éramos muito poucos os que o viam.


Leston Bandeira, e Lisboa, 22 de Maio de 2010

sábado, maio 15, 2010

15 de Maio




Oficialmente, em Angola, a estação seca (do cachimbo) principiava - não se se ainda é assim - a 15 de Maio.


O cacimbo anunciava-se antes disso, com a cor das tardes de um amarelo difícil de igualar. Havia, também, lá para as serras, uma brisa, que, de madrugada se transformava em vento gélido, a ponto de, em Junho, as baixas ficarem brancas com a geada que se formava.


Era 15 de Maio de 1965 e a meio da manhã, o meu número foi dito aos altifalantes da Escola de Sargentos Milicianos de Nova Lisboa. Devia dirigir-me à cabine telefónica. Fi-lo a correr, estava à espera de notícias. Do outro lado, alguém me disse: " és pai de um belo rapaz, que nasceu hoje às sete da manhã. Está tudo bem."


Nada disse, larguei o telefone e fui à procura de um sítio onde pudesse estar sozinho e gozar aquela notícia. Finalmente, o meu filho tinha nascido.


E dentro de mim cresceu uma revolta ainda maior do que a que já me enchia o peito, quando o capitão Silva, comandante da 1ª Companhia, não entendeu que aquele fosse motivo para eu poder ir a casa, que ficava a 450 kms. Naquele ano, esses quilómetros demoravam muito tempo a percorrer; não havia asfalto e ter carro era só para gente rica. Eu iria de maximbombo.


Só consegui licença para ir ver o meu filho três semanas depois, princípio de Junho, com o frio a cortar quem se apresentasse desprotegido nas estradas.


O Dionísio, que também andava naquela macacada, tinha um mini. Eu e ele juntámos mais três manos e arrancámos.


Pouco depois da Caconda o carro partiu e eu quase não aguentava a ansiedade. E agora?... Esperamos, foi a resposta unânime. Mas, eu não estava disposto a ficar ali à espera de um qualquer milagre.


Aconteceu, o tal milagre: apareceu o Rui Marques Luís com a sua potente moto e ele todo artilhado: calças e casaco de cabedal, botas, capacete, óculos, luvas, enfim, tudo a que um motociclista a viajar por aquelas madrugadas de cacimbo tinha direito.


Parou e logo lhe foi posta a questão de me dar boleia. Olhou para mim, vestido como quem ia dar um passeio no picadeiro e chamou-me maluco. "Vais morrer enregelado, não aguentas, não penses nisso, etc., etc... e todos os outros (mais três, a repetir o coro).


Que se danassem, eu tinha o meu filho para ver e não houve quem me demovesse.


A viagem foi um verdadeiro tormento com alguns intervalos, quando encontrávamos uma fogueira que aquecia os pastores e por ali ficávamos a aquecer-nos e a falar do frio, das vacas e coisas assim.


Quando cheguei ao Lubango não sentia nenhuma parte do meu corpo. O Rui deixou-me em casa e eu fui directamente ver o meu filho: "oh! pá, chegou o teu pai".


Acho que não consegui dizer mais nada: meteram-me numa cama, rodeado de sacos de água quente, com todos os cobertores que havia lá em casa ( não sei mesmo se não foram pedir alguns ao vizinho) e puseram-me o rapaz ao pé de mim para eu ir olhando.


Para mim tinha começado uma nova vida, eu sentia uma nova responsabilidade e, mesmo quando na tropa tive que suportar provocações de todo o tipo, consegui resistir à tentação de seguir alguns companheiros que, entretanto, se puseram ao fresco noutras paragens.


Aquele menino, a quem foi posto o nome de Mário Rui ( a junção do nome do meu irmão mais velho e meu tio mais novo, praticamente da nossa idade) e a quem, não sei porquê alguém, ou eu mesmo, chamou de Ruca, passou a ser a minha responsabilidade absoluta e a minha saudade permanente, já que passei muito tempo sem o ver...


Com cinco anos ia comigo à caça das perdizes, com sete/oito anos era um craque na bola na Casa dos Rapazes, com dez anos era um "revolucionário"a quem só consegui "impingir" os "Capitães da Areia" do Jorge Amado como leitura entusiástica: "aqui também tem a revolução..." dizia-me todo empolgado.

Aos onze anos chamava-me "reaccionário de novo tipo" e aderiu ao movimento da Jota MPLA que apoiava o Nito Alves.


Com 14 anos juntou-se de novo a mim e apaixonou-se - uma coisa que lhe acontecia muito - mas, desta vez, foi a sério. Com a Vivalda deu casamento. Perguntou-me a uma quinta-feira se eu queria ir ao casamento que seria no domingo seguinte. Disse que não.


Quando as coisas deram para o torto sabia que podia contar com o pai. Voltámos à relação de camaradagem, voltou a apaixonar-se não sei quantas vezes e houve uma outra a sério -a Valentina , na foto aqui com ele.
Levou-a com ele para o Lubango, para a sua Terra, porque as saudades eram muitas. Fui lá visitá-lo. Estava um perfeito lubanguense. Não perdeu o vício da caça e acho que vivia feliz.

Hoje são 15 de Maio e o Ruca faria 45 anos. A última fotografia mostra-o um homem confiante em si. Eu confiava nele.



quinta-feira, abril 22, 2010

Recordar Comparando


Sentei-me à frente de um microfone para valer numa Estação de Rádio a sério no dia 20 de Dezembro de 1962. Para nada de especial, fazendo o que todos os princiantes faziam: naquela altura apresentávamos os programas de "discos a pedidos". É certo que nos bastidores íamos fazendo outras coisas, aquilo que permitia a uma emissora como aquela, o Rádio Clube da Huíla, funcionar 18 horas por dia.


A paixão pela Rádio não é daquelas que arrefece e se esvai aos poucos;não, aquece e chega a temperaturas insuportáveis, toma mesmo conta de nós, não pensamos noutra coisa. Acho que falo por muitos milhares de noutros "doidos da Rádio".


Fui trabalhando com várias pessoas, fui experimentando outras formas de comunicar: jornais, sobretudo, já que, naquela altura as alternativas se ficavam por aí.


Lembro-me de ter trabalhado com um radialista fabuloso, o Paulo Cardoso, no Rádio Clube do Huambo. Nessa altura também por lá andavam a voz magnífica da Maria Dinah, o peralvilhismo consequente do Aurélio Alves, o servilismo um tanto amedrontado do Fernando Pereira a descontrção do Ribeiro Cristóvão (simultânamete comercial da Cerveja Cuca), a displicência do Congo e muitos outros, cujos nomes agora não me ocorrem.


Nessa Rádio aconteceu um episódio digno de ser recordado e que me permite fazer a ligação ao que pretendo.



O Paulo Cardoso estava na Rádio até às três, quatro da manhã e tinha dias que saía quando a emissão ia reabrir, lá para as seis. Num dia desses, o Paulo estava a caminho do Hotel onde residia, no seu Gordini castanho, a alta velocidade como sempre e com o receptor respectivo ligado. A senhora que abriu a emissão não era profissional, fazia umas horas e proveitava para, enqanto corriam os discos ir fazendo umas peças de tricot. Então, naquele dia, abriu a emissão com o habitual discurso...."bom dia senhores ouvintes....." e quando o acabou esqueceu-se de fechar o microfone e começou a falar com o Orlando, que era o técnico de controlo da emissão e que estava do outro lado do vidro.


A senhora, falando da vida, o Orlando a ouvir e a responder e o Paulo a dar meia volta ao automóvel e a entrar porta dentro do Rádio Clube do Huambo, aos berros, com aquele vozeirão que ele tinha. Disse coisas que mais ninguém diria. A senhora enfiou o tricot na mala, passou de lado junto do homenzinho pequenino que era o Paulo Cardoso e foi para casa. Acho que nunca mais quis ver microfones à frente.


O Paulo Cardoso passava aquele tempo todo à noite no Rádio Clube porque não queria repetir as notícias que toda a gente tinha, provenientes da então Emissora Nacional. Ele queria na sua antena novidades e dava-se ao luxo de, em directo, nos noticiários do Rádio Clube do Huambo, de hora a hora, traduzir do Inglês e do Francês notícias captadas de outras ondas, de outras origens.


Para ele era fundamental ser o primeiro, ser original, ter coisas diferentes para os seus ouvintes.

E tinha. Com o Paulo Cardoso, nós os profissionais da Rádio daquele tempo, aprendemos quase tudo.


Por isso, do ponto de vista profissional, da única realidade que tenho saudades é da Rádio. Muitas saudades.


Mas não são apenas as saudades que me levam hoje a escrever sobre estas coisas. É também a imcompreensão pelo que se passa com a Rádio em Portugal. Todos os postos emissores começam pela manhã a dar - todos - as mesmas notícias, que, ou vão buscar aos jornais, ou à Lusa. Cada um tem os seus comentadores, que comentam, invariavelmente as mesmas coisas; a maior parte das vezes sem grande conhecimento do que estão a falar.


Passa-se de Rádio para Rádio e ouvem-se às mesmas horas, as mesmas notícias, redigidas da mesma maneira, às vezes com os mesmos erros. Hoje, por exemplo, a nomeação de um marmanjo com nome de treinador de futebol para o cargo de governador do banco de Portugal (mais um que nos vai dizer que ganhamos mais do que devemos...) chegou a irritar-me.


Hoje voltei a chegar à conclusão de que os homens e as mulheres (ela agora são mais) que fazem o jornalismo da Rádio se espiam uns aos outros com a intenção de dizerem todos a mesma coisa e da mesma maneira. Nenhum deles se atreve a ir buscar notícias a outras fontes a dar informação e a não limitar-se a ser o eco da frequência do lado.


Hoje, tal como noutros dias concluí que falta coragem aos homens e mulheres que fazem o jornalismo na nossa terra (afinal nas televisões e nos jornais o fenómeno é o mesmo...). Não se atrevem à diferença. Nelas percebe-se, mas neles, falta-lhes "cojones". Tenho que confessar a minha vergonha por ainda me associar, nem que seja apenas pela saudade a este grupo profissional.

sexta-feira, abril 02, 2010

O Povo da Guiné Bissau


Estive por duas vezes na Guiné Bissau, uma como professor, tendo-me calhado em sorte, porque fui dos últimos a chegar, a tarefa de ensinar português e à noite, aos alunos que tentavam completar cursos. Acabou por ser gratiticante, apesar de alguns problemas , uns relacionados com o alojamento, outros com o próprio funcionamento do Liceu Kwame N'Krumah, cujo reitor era o Manecas, um bem intenciondo, sacrificado, um verdadeiro patriota, que largou o seu próprio curso para ir, a correr, ajudar o seu país nas ingentes tarefas da Independência, mas a quem, evidentemente, faltavam recursos.

Lembro-me de ter uma turma com sessenta alunos, a quem eu dizia: "isto não é uma sala de aulas, é uma sala de espectáculos, só faltam as luzes...", porque, em cima dos sessenta ainda aparecia sempre uma dúzia de assistentes. Gostavam das minhas aulas, o que me lisonjeia, mas não pode fazer com que, analisando a situação, perceba que aquela era uma das dificuldades intransponíveis.

A massificação da Escola traz sempre problemas e na Guiné Bissau, muito mais, já que os dirigentes, os que se apresentavam com o "direito" e não o dever à governação, eram pouco escolarizados e cometiam erros tremendos para plateias de alunos já com alguma preparação.

Lembro-me, por exmeplo, que o Paulo Correia, mandado matar pelo Nino Vieira, foi a uma reunião com estudantes do 6º e 7ºanos da alura para lhes explicar que eles, alunos, tinham a sorte de ter uma Escola que os estava a ensinar porque ele e outros tiveram que abandonar o objectivo da sua preparação pessoal para se dedicarem à tarefa bem mais difícil de lutar pela independência da sua Terra, a Independência, que lhes permitia ter aquela escola, cheia de problemas - é certo - mas uma Escola para Guineenses. Foi aí que Paulo Correia pela adesão com que foi recebido pela Juventude, no fundo, decretou o seu próprio fim. Nino Não perdoava.

Uma outra das minhas dificuldades esteve relacionada com o regresso, já que a vice-reitora, em substituição do Manecas, acrescentou umas regas estapafúrdias às condições de termo dos nossos contratos, porque no baile dos finalistas, um tal Luís Vaz, professor cooperante português foi fazer um discurso que raiava o spinolismo.

Conclusão, fomos todos metidos no mesmo saco, o Buscardini, chefe da segurança, queria que eu fosse lá à polícia buscar o meu passaporte, que, de resto, já tinha sido objecto de chantagem por parte de um aluno que, em pleno exame, de prova escrita, me ameaçou não me entregar o dito se a nota não lhe conviesse...

Nessa altura disse ao embaixador de Portugal em Bissau,Pinto da França, que o "problema " era dele e eu queria o meu passaporte. Consegui regressar a Portugal a 5 de Agosto de 1978. O Luís Vaz ficou por lá mais uns meses...

Analisando a minha actuação como professor naquela ano lectivo longíncuo de 1877/78, acho que cumpri o meu papel. Lembro-me, igualmente, de ter ficado com uma excelente impressão do Povo da Guiné Bissau, desde que fora de Bissau. Na capital andava toda a agente a ver se resolvia um problema, se conseguia um emprego, se obtinha uma promoção, se, finalmente, era nomeado chefe.

Nesse tempo fiz várias viagens, a que mais me impressionou foi a que me levou até ao Norte, na fronteira com o Senegal, na antiga estância de turismo das elites coloniais, Varela, onde ainda havia vestígios de água canalizada, quente e fria, nas habitações espalhadas por um perímetro simpático junto à praia.

Eu, O Zé Nascimento e a Clara Campino divertim-nos com os nossos "hospedeiros", os flupes, islamizados e bons anfitriões.

Antes passámos uma noite em Susana, uma missão católica, dirigida por padres italianos e que, durante toda a noite conversaram connosco e nos explicaram tudo acerca daquela região e da História antiga e mais recente da Guiné Bisssau. Foi nessa noite que eu fiquei a conhecer aquele país e aquele povo.

De Susana para Varela fomos a pé, por caminhos de areia difíceis e penosos de fazer. A Clara, com os seus trinta quilos, lá aguentou a caminhada.

Acho que ela, tal como eu e o Zé, nos lembrávamos da viagem de canoa de Canchungo para S. Domingos em que vimos as piores condições de transporte possíveis de ver no nosso (dos três) universo. Recordo uma mãe, que, para proteger a filha, viajou durante algumas horas numa canoa feita de tronco de árvore, com as pernas colocadas em tal posição que nos parecia que se tocavam, algures por detrás da cabeça, deixando a resguardo um buraco suficientemente espaçoso para caber a sua filhinha de alguns três anos. Isto, no meio de uma multidão que prometia um afundanço da canoa a todo o momento.

Em S. Domingos confraternizámos com o povo da vila que, não sei por que razão, resolveu fazer um batuque durante toda a noite, até às 9 da manhã; um batuque com um som que ainda hoje permanece na minha memória, feito do ruído de palmas de mãos, com um ritmo irrestível.

De S. Domingos alguém nos deu uma boleia para Susana. Depois o luxo acabou. Bem como no regresso.

Desta e doutras viagens ficou-me a memória de um Povo, que naquele tempo tinha muita esperança no futuro. Acreditava sinceramente que a Independência lhe traria grandes benefícios.

Voltei em 1981. Em Fevereiro, como correspondente da ANOP, para substituir o Xavier de Figueiredo, que assitiu ao golpe de estado de 14 de Novembro de 1980. Um verdadeiro auto-golpe, já que o Nino Vieira, apresentado como cabecilha da rebelião, era, na altura, primeiro-ministro, isto é, "Primeiro Comissário" do Governo da República da Guiné Bissau, sendo Luís Cabral, irmão de Amílcar, o Presidente do Conselho de Estado, isto é, Presidente da República.

Em Março - 20 - fui expulso pelo Conselho da Revolução, mas o que presenciei durante estes pouco mais de 40 dias deu para perceber que os caminhos da Guiné Bissau não eram fáceis. Nino, além de dormir com as mulheres dos ministros, viajava e não fazia nada. Vendia as idas à Taywan por um milhão de dólares, depositados na Suiça.

O Povo, o tal povo cheio de esperanças, não existia na sua cabeça, nem na de nenhum dos líderes que com ele existiram, que o substituiram, que ele mandou matar, que mataram a outros. A geração da "guerra de Libertação" é uma geração maldita e, quando ela tiver terminado o país não tem Estado, o Estado não tem país e o Povo tem que ir encontrar outra solução. Por isso, há mais de vinte anos, escrevi: "A Guiné Bissau, como Estado Independente é um PUF histórico".

sábado, março 27, 2010

Manuel Delgado - Ele detestava a mediocridade


Ontem, com muito gosto, acedi ao convite que me foi feito para assistir ao lançamento do livro de compilação de textos do Jornalista Manuel Delgado que me foi dirigido pela sua família. A apresentação do "RABIDANTIBUS" foi feita na Associação Caboverdiana, em Lisboa. Foi um prazer voltar aquele ambiente e rever gente que não via há muitos anos. A Clara Seabra, sobretudo,esposa e companheira de muitos anos do Manel. Os filhos, que eu conheci pequeninos lá estavam, mas não tive oportunidade de falar com eles.Também foi um gosto rever o Luís Carlos Patraquim.

Vim embora a meio da sessão, porque, tal como o Manuel Delgado detesto a mediocridade e a falta de profissionalismo.

Mas já não estou para polémicas. Aproveito o facto de possuir este blogue para esclarecer algumass coisas.

A primeira diz respeito à personalidade de Manuel Delgado

Cabo Verde é um país especial porque, de tempos a tempos, tem a sorte de ter entre os seus filhos, gente com especial inteligência. Era o caso do Manel. Ele estava sempre à frente e não percebia,não aceitava que os outros não o acompanhassem. E isso angustiava-o. Ele traduzia o amor pela sua terra com essa angústia de quem sentia que tudo podia ser diferente e contestava.Não era um homem fácil, já aqui o escrevi, mas era um homem particularmente inteligente.

Porque é que, primeiro o PAIGC e depois o PAICV não lhe deram papéis mais activos, mas visíveis, mais de acordo com as suas capacidades? Porque ele detestava a mediocridade e os primeiros tempos de independência em Cabo Verde foram feitos com muita paciência.

Essa paciência, a certa altura, faltou ao Manel e ele veio para Portugal para, em conjunto comigo e mais um grupo de pesssoas, fazer o melhor jornal que alguma vez se fez em Portugal sobre África.

Não sei precisar a data em que ele veio para Lisboa, mas não foi, seguramente em 1988,foi bem antes. E o jornal português em que ele mais escreveu foi o jornal "África". Acho mesmo que foi o jornal, que não sendo dele - como mais tarde veio a acontecer com o Paralelo 14 - onde ele se sentiu mais livre. Embora contestando - sempre - desde logo a periodicidade do Jornal. Acho que tinha razão.

Ele não veio em 1988 para o Expresso para ser copydesk, "um copydesk inteligente". De resto foi uma pena que o tivessem reduzido a essa condição, já que o Expresso nunca teve ninguém que percebesse alguma coisa do que se passava em África e o Manuel Delgado poderia ter sido uma peça importante na Redacção de um jornal que sempre teve uma posição paternalista relativamente aos africanos, mas está sempre à espreita para ver se aproveita qualquer coisa que venha de África.

Isso também irritava o Manel e, por isso, voltou para a sua terra, onde criou um projecto próprio para, mais uma vez, demonstrar o seu desprezo pela mediocridade pela falta de profissionalismo e pelos jogos pouco claros da política e da economia e outros...

Ontem perdeu-se uma oportunidade de colocar o Manuel Delgado no seu lugar de JORNALISTA, também um "jornalista Caboverdiano", mas, sobretudo um JORNALISTA e não apenas um copydesk inteligente. O Manuel Delgado, mesmo já não estando entre os vivos, ainda assusta.

Felizmente, o Manel tem uma família que faz os possíveis por demonstrar à sociedade que ele não foi um "qualquer", um "copydesk inteligente".

Outros, que também tiveram papel de grande destaque na sociedade cabo-verdiana e morreram na flor da idade não tiveram essa sorte. Por exemplo, é muito estranho que ainda ninguém tenha feito uma compilação de textos do Renato Cardoso.

sexta-feira, março 19, 2010

Limpeza no Lubango HURRAAAHH!!!!!!!



Chega-me, como sempre via net e pontualmente o Novo Jornal - uma excelente publicação de que os angolanos se devem orgulhar. Abro as diversas páginas e descubro numa delas um tema que me interessa paritcularmente por razões de carácter pessoal.

No Lubango o camartelo saiu à rua para tentar dar ordem ao que, depois de trinta anos de desgoverno, corrupção, laxismo e até actos verdadeiramente criminosos porque atentatórios da qualidade de vida de uma população que não pára de crescer.

Por detrás do camartelo essteve o Governador Isaac dos Anjos, um homem "com eles no sítio" que, segundo a reportagem do Novo Jornal, não teve o poio nem dos homens que com ele partilham o governo da província. O próprio MPLA, através de um porta-voz, que deve usar gravata e sapatos brancos bicudos e de verniz, veio condenar a acção de limpeza, levada a cabo no cumprimento de legislação aprovada pela Assembleia Nacional.

Estes últimos trinta anos , cujo poder pertenceu sempre ao MPLA, serviram para construir barracas feias, casas clandestinas em linhas de água, junto às linhas de caminhos de ferro, desenhar estradas e ruas sem rumo.

E porque é que aconteceu tudo isto?

É simples: os camponeses começaram a invair a cidade porque deixaram de ter condições de vida no mato e foram instalando as suas "bikuatas", semaando as suas lavras; no seguimento, os pequenos burgueses corromperam a administração e inventaram a condição de proprietários daqueilo que, de facto, é do Estado.

A mim foram-me chegando fotografias. Nos últimos tempos já faço "delete" sem as ver.

Agora chega-me a reportagem do Novo Jornal e as declarações do Sr. Governador Isaac dos Anjos e eu, adorador do Lubango, a cidade onde passei dos melhores anos da minha vida e onde desenvolvi acções importantes em prole do MPLA que chegou ao poder porque houve muita gente como eu, e fico contente pelo facto de haver um homem que diz BASTA de corrupção. Vamos construir uma cidade onde toda a gente se sinta bem.

Bravo Isaac.

Não teria ficado mal que o Novo Jornal manifestasse uma ponta de apoio a este homem,que, pelos vistos está sózinho. Aos jornalistas também cabe o papel de verificar se a Justiça Social, mesmo dolorosa, está a ser cumprida. Não se pode prejudicar uma comunidade para proteger grupos de chicos espertos corruptos.

domingo, dezembro 20, 2009

OS BÓERES NO PLANALTO DA HUÍLA






Os meus agradecimentos ao meu amigo António Trabulo que me enviou este texto e também algumas das fotografias da sua colecção particular.



Os bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco anos depois.



Criaram raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a Colónia do Cabo à Inglaterra.



Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek. Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados, bateram-se bem, mas foram vencidos.



Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.



Seiscentas famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto, de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por mais.



Ao longo do Trek, os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres, nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram dispersando.



Uns tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene. Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra para se instalarem.



Vale a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.



Em Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar, experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado à cauda dum cavalo.



Os bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros de comprimento, com uma levada de água para cada casal.



Nessa época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda prestada pelos cavaleiros bóeres.



Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.



Os africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.



Existia, no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar. Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.



Os bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região. Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de Almoster.



A segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902 não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na região.



Em 1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.



Quatro famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado. Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana, reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto de 2.000 almas.






Referências:



Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.



Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.



Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.



Fotografias: colecção do autor.







quinta-feira, setembro 17, 2009

1910 - Romance de Antonio Trabulo


Implicado na revolução republicana ocorrida no Porto a 31 de Janeiro de 1891, o sargento João Madruga foi condenado ao exílio em África.



Ao ser indultado, trouxe para Portugal a mulher negra e a filhinha mulata. O diálogo que se transcreve foi estabelecido com Susana Madruga, em Lisboa, no ano de 1909.-



Antes de a conhecer, Benguela tocou-me no nariz. Era de noite e não havia cais para atracar. Tudo o que eu podia ver eram janelas iluminadas ao longe. Cheirava bem. Eu não conhecia aqueles cheiros que adoçavam a escuridão. Soube mais tarde que eram de fruta madura: goiabas, mangas e bananas. Pela manhã, levaram-nos para terra em pequenas embarcações tripuladas por negros. Quando os barquitos encalharam, saltámos para a areia com as taleigas em que guardávamos o pouco que nos tinham deixado levar.- O pai não ia fardado?- Não. Quando nos condenaram ao degredo, também nos expulsaram do exército.- Mandaram-nos para lá para morrerem?- Não foi bem assim. As febres matavam uns tantos. Dos que resistiam, muitos assentavam raízes e faziam-se colonos. Angola precisava de brancos. Pelo menos, era o que se dizia no Porto.- Deram-lhes onde morar?- Enfiaram-nos num casebre com telhado de colmo - lá chamam-lhe capim. Ficava perto da praia. Tinha apenas uma assoalhada, mas era espaçosa. Ali ficámos, até cada um ajeitar a sua vida.- E a terra, era grande?- Seria como uma vila de cá. Em Angola, apenas Luanda era maior. Muitas habitações eram só de um piso. Algumas alongavam-se por um quarteirão inteiro, como carruagens de comboio pegadas umas às outras. Nas casas mais antigas havia grandes quintais com muros altos. Em tempos recuados, prendiam lá os escravos que esperavam barco para o Brasil. Mesmo depois de o tráfico ser banido, os de Benguela continuaram a levantar paredes elevadas que já não serviam para nada.Susana escutava com um ar muito sério.- A minha mãe era escrava? O pai comprou-a?A miúda andava com aquela pergunta debaixo da língua havia anos, com vergonha de a fazer.Madruga sorriu.- Não! A escravatura já tinha acabado. Era uma pessoa livre. Eu gostei dela e ela de mim. Mas tanto a tua avó como a tua bisavó, que ainda conheci, tinham sido libertadas já na idade adulta.- E que é que o pai lá fazia? Como é que ganhava a vida?- Em África, os portugueses tinham essencialmente quatro profissões: padres, soldados, funcionários públicos, e comerciantes. Eu não era padre e fora posto fora do exército. Como não me deixaram ser funcionário, empreguei-me numa casa de comércio. Vendia-se um pouco de tudo e comprava-se cera, borracha, sisal, cereais, couros, gado e marfim. Tudo aquilo vinha de longe, do interior. Em tempos recuados, fizeram-se fortunas com o comércio de escravos. Alguns dos palácios de condes e barões que vês por aí assentam no dinheiro ganho com o aviltamento de seres humanos.- E a comida, como era?- Não passávamos mal. O mar era rico em peixe. Havia hortas com muita variedade de legumes, embora nem todos fossem iguais aos de cá. Criavam-se galinhas, porcos e cabritos. A fruta era boa e muito barata. De vez em quando, comíamos carne de caça. Os negros viviam pior. Alimentavam-se de farinha de milho e mandioca e, claro, de peixe. Gostavam muito de feijão com óleo de palma. O pescado que não se consumia fresco, e que era a maior parte, secava-se. Era vendido em fardos para as terras do interior, que nos compravam também bastante sal.- Que aconteceu aos seus colegas?- Fizeram-se à vida, como eu. O Lameiras, coitado, teve pouca sorte. Morreu com as sezões. Ainda não estava em África há um ano. Benguela ficava no meio de pântanos e lagoas. Abundavam os mosquitos e havia muitas febres. A terra chegou a ser chamada "cemitério de brancos".- E os pretos?- Também adoeciam, mas estavam mais habituados aos males de lá e aguentavam-se melhor. Sabes que Benguela tem uma particularidade diferente das outras terras? - Não. Conte lá...- É a única povoação importante que conheço que mudou de lugar e conservou o nome. E não foi como se os mouros se deslocassem de Lisboa para Sintra. Não! A primeira Benguela, Benguela-Velha, extinguiu-se. No começo do século XVII foi refundada, centenas de quilómetros a Sul. O nome tinha peso na costa africana e o prestígio que lhe estava associado não se podia deitar fora. O rei Filipe II separou o Reino de Benguela do Reino de Luanda e deu-lhe autonomia administrativa. Bem podiam tê-lo aconselhado a escolher um lugar mais saudável...



Em 1910, romance histórico de António Trabulo

terça-feira, julho 21, 2009

Renato Cardoso e os Seus Amigos


Apesar dos anos passarem rapidamente, há nomes que não me abandonam no meu dia a dia. Renato Cardoso é um deles. Foi um amigo de que me orgulho particularmente. E continuo a estranhar que os Cabo-Verdianos não assinalem devidamente a sua capacidade de trabalho, a sua inteligência brilhante e as suas lutas para que o país possa hoje orgulhar-se dos caminhos que já percorreu, do presente notável de que desfrutam e as esperanças fundadas de um futuro ainda mais risonho.


Com o passar dos anos fica-se com a impressão de que ainda há quem tenha medo da memória do Renato.


Falo aqui hoje dele porque recebi um e-mail de Alice Sena Mascarenhas, uma colaboradora de Renato Cardoso, sua amiga e sua admiradora porque lhe conhecia as qualidades, já que trabalhava de perto com ele. Pede-me a possibilidade de ler o texto de 20 de Setembro de 2005. Pois ele aqui está reposto. Tem a possibilidade de o comentar. Introduzi o sistema de controlo dos comentários porque houve um tempo em que recebia comentários ofensivos, normalmente anónimos. Não será o seu caso. O seu comentário será muito bem vindo, sobretudo porque perfilho a sua ideia de que o crime que matou o Renato não foi devidamente investigado e há por detrás dessa morte uma premeditação óbvia que tem a ver com a evolução que a política de Cabo Verde teve nos anos seguintes .

Estou pessoalmente convencido de que se Renato Cardoso fosse vivo o MpD nunca teria ganho as eleições de 1991. Para além disso - é a primeira vez que faço referência a isto - o Renato pressentia que alguma coisa lhe iria acontecer por aqueles dias. Ele foi assassinado num Sábado e na quinta-feira anterior tinha-me telefonado, pedindo-me para ir à Praia: queria falar comigo, estava com "medo" depois de uma reunião que tinha tido com o Presidente da República de então, Aristides Pereira.

Como vê, Alice, já somos dois com o mesmo tipo de informação...

Acho que tem razão: teria sido necessário fazer tudo para saber quem está por detrás da morte de Renato Cardoso. Eu acho que ainda hoje vale a pena. Sobretudo os Cabo-Verdianos deveriam exigir que a sua memória fosse respeitada e fizesse parte da galeria dos heróis nacionais.


Gostaraia muito que a Alice Sena Mascarenhas partilhasse connosco o seu poema que fez para o Renato.


Quanto à data do texto, percebeu: foi para assinalar o 15º aniversário do acontecimento. Mas, a verdade é que eu escrevi muito sobre o Renato, sobretudo no "África" e também noutros jornais. Não o esqueci e não o vou esquecer


A seguir publico o e-mail de Alice Sena Mascarenhas e o texto de 20 de Setembro de 2005, em que assinalava os 15 anos da morte de Renato Silos Cardoso.

Olá
Não tive a sorte de ler o artigo que escreveu em 2005 (20 de Julho) sobre o Renato que só hoje me chegou às mãos.
Fui colega do Renato Cardoso no Liceu Gil Eanes e depois como segui para Cabinda (onde vivi dez anos) só em 1975 viria a reencontrar o Paín (assim era ele conhecido por nós colegas e outros daquele tempo - nome aplicado pelo Dr. Baltasar Lopes da Silva, quando o Renato leu em francês le paín em vez de pain (pão).

Sabe, desde que mataram o Renato, digo comigo mesma que se fosse a mulher dele teria que descobrir quem o matou. As várias versões aqui impingidas nunca me enganaram. Eu tive o privilégio de ter trabalhado com o Renato nas vésperas da sua morte e sei, porque ele me disse, que algo que estava a atormentá-lo já tinha sido esclarecido. Tinha tido um encontro sobre isso. Ele prometeu vir beber un Gin tónico comigo no domingo para comemorarmos tb o projecto sobre administração pública que acabáramos de traçar com um expert das N.U, Guido de Weerd . Nunca me esqueço daquela manhã, do toque daquele telefone (eu ainda deitada) e a voz do meu marido anunciando-me o acontecimento. Os meus soluços continuam vivos aqui no meu peito e sinto não poder dar a vida ao meu amigo.Fiz um poema que nunca difundi porque não sou poetisa e tb porque as vozes sonoras não pertencem a todos. Não interessa, fi-lo para ele.
Sei também que o Renato não pode estar feliz pois ele tinha todo um projecto de vida que ele não escondia e que fazia questão de anunciar: eu não pretendo morrer, nem vou imigrar, a não ser que me dêem um tiro e eu não possa fazer nada... foi o que ele dissera quando o técnico lhe disse que o país precisava dele para defender o projecto acabado de assinar...

Tudo isso para lhe pedir: por favor escreva mais sobre o que escreveu, difunda o seu artigo ou então de-nos oportunidade de o comentar.
Mas tb questionei porque só em 2005? Compreendo mas não entendo.
Um abraço
Alice Sena Mascarenhas
CP 43 Praia
Ilha de Santiago,
Republica de Cabo Verde

Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Faz hoje quinze anos que Renato Cardoso foi assassinado na Cidade da Praia. Daqui, de Lisboa, dedico-lhe o meu pensamento, honro a sua memória e declaro a minha saudade de um amigo bom, de um homem inteligente, dedicado à sua terra e à sua gente.
Daqui, de Lisboa, do mesmo sítio onde recebi a notícia fria da sua morte lamento que um manto inexplicável tenha caído por cima de um assassinato hediondo, cujas razões nunca foram devidamente explicadas. Desta mesma cidade que o viu crescer como jurista de grande conhecimento e sabedoria digo da minha tristeza pelo esquecimento a que os seus votam a sua memória.
De dentro do que mais profundo existe em mim rendo a minha homenagem à sua coragem nas inúmeras lutas políticas que travou e de que resultaram sempre avanços para o progresso do seu povo. Faço vénia ao seu empenhamento na luta pelos ideias da democracia, cujos princípios enunciou antes que outros aproveitassem as ondas internacioinais para se perfilarem num combate pelo poder.
Neste triste aniversário, como seu amigo, sinto-me na obrigação de informar os cabo-verdianos que Renato Cardoso, pouco tempo antes de ter sido abatido por um profisisional que não deixou pistas, tinha sido convidado para trabalhar fora da sua terra, a troco de uma proposta milionária - que ele recusou - porque, como dizia, a sua gente precisava dele.
E precisava mesmo. Só que já passaram quinze anos sobre o som dos tiros assassinos e a sua gente já nem se lembra do dia. Os seus pupilos, aqueles em quem ele depositou as suas esperanças, têm , pelo menos, que honrar a sua memória, a sua honradez de carácter, a sua crença num Cabo Verde para todos os cabo-verdianos.


Publicada por Leston Bandeira em 8:35 AM 0 comentários

terça-feira, julho 14, 2009

O "Quintal" da Europa

Hoje as rádios , as televisões e os jornais deram com alarido e sem nenhum sentido crítico a grande notícia: um conjunto de doze empresas alemãs vai levar a cabo um projecto de criação de um complexo de aproveitamento do Sol do Saara para produzir energia limpa.
Tal energia abastecerá a Europa e suprirá 15 por cento do consumo. Os pormenores acrescentavam que a Senhora Merkel e Durão Barroso estão radiantes com o projecto. Até a Greenpeace exultou e fez um comunicado exortando todo o Mundo a fazer o mesmo.
De todas as notícias que ouvi e li não vi nenhuma referência ao papel de África neste projecto que, "só por acaso" vai ser desenvolvido em território africano.
Fala-se na criação de 250 mil postos de trabalho, na possibilidade de dessalinizar água do mar para aproveitamento das populações locais, mas mais nada.
A Europa, desta vez através do "gigante" germânico, volta a olhar para África como o seu "quintal"...
Dirão os mais colonialistas: ..."mas é aqui tão perto!...."
Pois. É perto, mas é África e aqui, perto, começa a desgraça de milhões e milhões de seres humanos que sempre foram olhados de cima (e já agora, por cima). Esses muitos milhões foram vítimas do facto de África estar aqui tão perto e ser a zona "natural" de expansão da Europa, mais avançada do ponto de vista tecnológico - tal como agora.
E, para além disso, estão a ser vítimas dos seus próprios dirigentes, que, corrompidos pelos europeus, pouco se interessam com a vida dos seus países.
Ora, este projecto megalómano alemão foi anunciado por europeus, comemorado por europeus e não se ouviu falçar de africanos. Será que vão tomar de assalto o deserto do Saara e instalar lá os painéis solares que hão-de produzir a tal energia limpa para os europeus?

quarta-feira, junho 03, 2009

Arménio Vieira - Prémio Camões


Ontem à noite ouvi a notícia e devo ter ficado tão surpreendido como ele próprio: Arménio Vieira era o Prémio Camões 2009.


Fiquei surpreso mas feliz porque se há um poeta em todo o espaço de língua portuguesa que merece este prémio específico é o Arménio já que ele é um cidadão do Mundo, sobretudo pelo conhecimento. Tal como Camões, Arménio Vieira cultiva o saber como forma de estar na vida e faz da poesia a sua um modo particular de afirmação.


Arménio Vieira é Cabo-Verdiano como todos os outros, cultiva o mesmo orgulho das suas raízes, contribuiu com a sua parte para a libertação, não apenas dos seus compatriotas, mas de todos nós, os amarrados por um regime político iníquo, retrógrado e autoritário, mas sente-se um cidadão do Mundo. Sendo um natural de Cabo Verde, a sua obra não se fica pelas ilhas e não pode, por isso, ser considerado um poeta-escritor regional.


Esta é, de resto, a sua característica mais forte. Arménio Vieira, sendo um homem de poucas viagens e de vivências restritas, tem produzido uma obra de cunho universal, revelando influências que vão muito para além das que, inevitavelmente, lhe são transmitidas pelas circunstâncias de vida.


Mas que fique claro para os que, de repente, tendo a obrigação de produzir notícia e comentar acontecimento tão importante, se confrontam com a sua própria ignorância: Arménio Vieira é o maior poeta Cabo-Verdino vivo, mas não é apenas isso. Ele é um poeta que pode e deve ser lido em todo o Mundo. A sua alma de poeta de todos fala.


Oxalá este prémio o tire da penumbra e revele a sua poesia na dimensão que ela merece.

domingo, abril 19, 2009

Retornados O Adeus a África




António Trabulo acaba de lançar um novo livro: "Retornados O Adeus a África", uma estória romanceada a partir de vidas vividas em vários tempos e latitudes por gente surpreendida pelas circunstâncias da História que, como um furacão, as sacudiram e fizeram perceber novas dimensões da condição humana.


A acção do romance situa-se em Angola e em Portugal e é construída à volta de dois irmãos gémeos, que, quando nasceram se viraram de costas, o que pareceu à mãe um sinal de mau agoiro.


Era justificada a preocupação, já que ao longo da vida sempre se encontraram em campos opostos, sobretudo no da política, onde um, o Gil, imbuído de ideais nacionalistas haveria de aderir a grupos que não aceitavam a independência de Angola, pelo que teve que assitir aos desmandos da UNITA e da FNLA.

Gil, tal como o José, cuja adesão ao MPLA também não lhe traria a compensação de ver satisfeitos os seus ideiais de igualdade e fraterinade, acabaram por se incoporar na mole imensa de retornados, muitos dos quais viram Portugal pela primeira vez.

Os dois irmãos também disputaram a mesma beldade do Lubango, Lua, cuja estória preenche vári0s tempos e espaços de outros personagens deste romance.

Entre este mundo de gente que se encontrou nas mais diversas circunstâncias, há um branco loiro que não consegue deixar de pensar no seu gado, na sua fazenda e não tem uma vida normal entre a sua gente, despojada, em Angola, dos seus bens e em em Portugal, dos seus hábitos, costumes e rotinas.
Muíla, assim é conhecido o Sidónio, é verdadeiro anti-herói de mais este romance bem conseguido de António Trabulo, apesar de a sua narrativa ficar um pouco distante do sofrimento indizível dos que, de repente, se viram num outro Mundo, muitas vezes escorraçados, vilipendiados.

Em "Retornados, O Adeus a África" não se descobre que a chamada integração eficaz dos regressados se tenha ficado a dever às suas qualidades e não a qualquer golpe de asa das autoridades portuguesas, muito mais interessadas noutras coisas.






sábado, abril 04, 2009

"Balada do Ultramar"

Manuel Acácio, um nome conhecido no jornalismo radiofónico de qualidade - que já vai rareando -acaba de publicar um livro com um título atrevido, "Balada do Ultramar". Este romance é uma narrativa corajosa, não da sua própria experiência, mas do entendimento que conseguiu perceber do sofrimento atroz que foi para centenas de milhares de portugueses (brancos e também muitos negros) o abandono das terras onde muitos deles já tinham nascido. Alguns foram atirados fora da terra dos seus avós.

Manuel Acácio revela ao longo das 221 páginas do seu "romance" um trabalho sério, honesto e difícil de investigação - que lhe permitiu descrever cenas reais, sobretudo de Angola e de Portugal. O resultado é uma conclusão que eu vejo pela primeira vez escrita, anda por cima em bom português: os portugueses foram expulsos por razões fundamentalmente racistas e recebidos naquela que teoricamente seria a sua terra por gente que os via como invasores do seu espaço pequenino, miserável, sem qualidade e sem perspectivas.

Neste livro de Acácio está escrito que também os políticos da época e os que se seguiram, voltaram as costas aos despojados de passado, de presente e sem futuro. Aqui está explicada a razão porque há muita gente a negar que a descolonização portuguesa tenha sido uma operação "exemplar e bem conseguida".

A integração mais ou menos pacífica que os chamados "retornados" conseguiram em terras portuguesas foi obra sua, da sua qualidade humana e também das perspectivas abertas de sociedades mais abertas, mais livres e mais solidárias. Portugal beneficiou imenso com esta injecção especial de gente de qualidade excepcional.

Ao contrário, os países entretanto nascidos desta "descolonização exemplar" sentiram claramente a sua falta. Tanto assim que, dos cinco, apenas o mais pobre (Cabo Verde) beneficiou, objectivamete, o seu povo com o acesso à Independência.

A "Balada do Ultramar", uma edição da "Oficina do Livro" retrata as gentes que fizeram parte do primeiro êxodo. Há, todavia, outros, mais silenciosos, mas igualmente importantes para Portugal e ainda mais devastadores para os países para quem os brancos passaram a ser inimigos.


Ao felicitar o Manuel Acácio pelo seu excelente texto, não posso deixar de apontar alguns livros que uma vez por outra aparecem por aí a explorar de forma miserável a saudade dos que ainda se lembram do que deixaram para trás, muitos deles baseados em fotografias dos pais, dos avós e dos amigos, explorando oportunisticamente redes de contactos como prateleiras de hipermercados.

sábado, março 28, 2009

27 de Março de 1976

Naquele dia foi oficial: as tropas sul-africanas tinham abandonado Angola e, embora tenham ficado estacionadas mesmo ali na fronteira, a poucos quilómetros de Santa Clara e do outro lado das quedas do Ruacaná, para nós foi dia de festa. "A guerra tinha acabado" - foi-nos dito em comício popular na praça que então se chamava " da República".

O Lubango vivia momentos de euforia, de reconstrução, de azáfama, de reorganização. Os operários dos Caminhos de Ferro de Moçamedes (CFM) ajudavam os agricultores, fazendo peças para os tractores avariados, noutras fábricas substituia-se o obsoleto sistema de capatazia por métodos de responsabilização na organização da produção.

Quando, a 18 de Fevereiro tínhamos chegado à cidade, no primeiro voo que partiu de Luanda, muitos de nós não contiveram as lágrimas à vista de uma cidade meia destruída. Os retirantes partiram tudo quanto puderam. Os últimos foram os homens da UNITA, já sob a pressão das tropas cubanas, mas à frente dos "bravos" Mucubais comandados pelo Farrusco, que, naquele dia de 18 de Fevereiro nos recebeu no aeroporto num jeep com uma enorme bandeira vermelha que drapejava fortemente ao vento.

Para muitos de nós - para mim, inclusivé - a guerra tinha terminado naquele dia. Depois foi o arregaçar de mangas: ajudar na reorganização da produção, pôr de pé a Faculdade de Letras, refundar a Rádio Popular de Angola, criar o jornal " A Luta Continua", acorrer aos variados chamamentos, alguns dos quais de madrugada, porque um grupo de "faplas" tinha resolvido fazer das suas.

De Fevereiro de 1976 a Março do mesmo ano muitas coisas aconteceram naquela cidade, cinclusivamente a instalação de uma intriga forte, uma espécie de veneno trazido de Luanda. A Comissão Política da Huíla começou a integrar gente que não se percebia donde vinha. De um dia para o outro, percebi que o único elemento que tinha legitimidade democrática, porque eleito na primeira Assembleia Geral de militantes do MPLA era eu.

E eu não tinha tempo para a intriga e passei a ser olhado, primeiro, como a consciência do grupo. Toda a gente queria falar comigo em privado. Depois o mesmo aconteceu, quando os ministros passaram a visitar o Lubango. Mas, depois, mais tarde, era o "branco", isto é, "português".

Todavia, naquele 27 de Março não deixei de vibrar com a oficialização do "fim" da guerra. Finalmente, Angola podia reconstruir-se e cumprir metas de desenvolvimento que beneficiasse a todos.

Finalmente...

Houve comício com o velho Lúcio Lara. No seu discurso atacou sobretudo a posição de Portugal que ainda não tinha reconhecido o Estado Angolano, proclamado pelo MPLA às 00H00 de 11 de Novembro de 1975.

Emílio Braz, entretanto nomeado Comissário Provincial, também botou discurso e, no final, teve uma expressão que me alertou: " Viva o Povo N'Hanheca Humbe" - o Povo da Huíla.

Fiquei desconfiado, tanto mais que durante a sua proclamação aos presentes afirmou que toda a gente tinha que aprender a língua M'Huíla.

Alguma coisa se passava e fiquei mais atento.Pouco tempo depois concluí que o confronto entre nitistas e netistas também tinha chegado ao Lubango.

Afinal...

A guerra não tinha acabado: o MPLA ajeitava-se para uma disputa fratricida, que haveria de ter o epicentro a 27 de Maio do ano seguinte. As réplicas prolongaram-se por vários meses e custaram a vida a algumas dezenas de milhar de pessoas. Na sua maioria jovens; muitos deles tinham sido meus alunos, quer no Liceu, quer na Faculdade de Letras. Nessa altura porém já não estava no Lubango: eu também fazia parte das listas negras dos dois lados. Não teria tido salvação...

Mas, aquele 27 de Março foi dia de Alegria. Resolvemos rebaptizar a Escola Comercial e Industrial Artur de Paiva: "Escola 27 de Março", de que era directora a minha mulher, Isilda Arruda.

Naquele 27 de Março, Angola estava oficialmente livre de tropas ocupantes. Voltariam, já não de peito aberto, mas a coberto de acordos espúrios com forças angolanas que também queriam o poder absoluto , corrupto e racista, tal como o construiu o MPLA.

E eu, naquela altura, sem desconfiar ainda do que me esperava, voltei a chorar de contentamento. Finalmente... "a minha terra" estava livre.

sábado, março 14, 2009

Portugal/Angola - Bom Senso Só Ajuda

A recente visita de José Eduardo dos Santos a Lisboa em programa encurtado no tempo mas muito expressiva nos objectivos anunciados, trouxe para a ribalta o actual movimento de migração para Angola.
Os jornais angolanos anteciparam a análise a esse movimento e valerá a pena ler com atenção o modo como alguns deles - pelo menos o "Angolense" - o abordam .
Na sua edição de 21 a 27 de Fevereiro deste ano, em texto assinado pelo seu director geral, Graça Campos, o "Angolense" , numa prosa supostamente humorística, aproxima-se do ódio racista contra aqueles que estão a tentar viajar para Angola, partindo do princípio que todos os que fazem as filas às portas do Consulado de Angola em Alcântara, são portugueses.
"Ó Shô Manel, A Bida Está Difícil?" interroga Graça Campos em título para uma fotografia tirada por um telemóvel e em que verifica a existência de uma fila grande de pessoas. A legenda desta fotografia chega a ser grotesca.
Muitos deles serão mesmo angolanos, ou terão nascido em Angola. Podem muito bem ser filhos ou netos daqueles outros portugueses que fizeram fila para - já lá vão mais de trinta anos- fugirem às ameaças, reais ou insinuadas, de que a cor da pele poderia ser um problema. E foi!
Os portugueses foram saindo, em várias levas, de Angola, provocando o vazio e uma paragem no processo de desenvolvimento económico - que em 1974 era dos maiores de África.
Alguns dos "retirantes" foram importantes na luta pela independência, mas, mesmo assim, tiveram que abandonar a "sua terra" e procurar um exílio em terra de brancos.
Ao fazer piada (de mau gosto) com o título: "Ó Shô...", Graça Campos está a cometer um erro que eu classificaria de má fé porque ele sabe - tem de saber - que os candidatos a ir para (ou a) Angola nada têm a ver com os colonos típicos dos anos 50 e 60. Estes representam gente habilitada, com capacidade para ajudar o projecto de reconstrução do país. E talvez até tenham nos genes a capacidade de ganhar amor à terra que vão ajudar a reconstruir e ter um comportamento diferente daqueles outros a quem GC chama de "mãos de vaca".
E quem são os mãos de vaca?
São as grandes empresas portuguesas, sobretudo de construção civil, Soares da Costa, Mota/Engil e Teixeira Duarte, que - diz GC - apesar dos "fabulosos lucros" foram, até agora, incapazes de uma acção de filantropia, como por exemplo doarem um "lote de medicamentos a um Hospital Pediátrico".
A propósito destas empresas, GC diz que "em bom português o que os tugas fazem no nosso país chama-se rapina".
E desta afirmação violenta e como quem não quer a coisa vai falando na atitude das grandes empresas portuguesas relativamente ao apoio aos órgãos da comunicação social angolana: não se vê um único anúncio delas. E não se fica por aqui, faz a comparação com as grandes empresas brasileiras.
Espero que haja em Portugal e em Angola alguém que tenha capacidade para analisar este texto e dar-lhe a devida importância, porque, se por um lado, é injusto e racista, raiando quase o ódio em relação aos homens e mulheres das filas do Consulado de Alcântara, não deixa de ter razão quanto ao comportamento das grandes empresas, algumas das quais estão em Angola mesmo antes da Independência e continuam com a mesma política de não partilhar. Eu acho que são mesmo mãos de vaca.
Mas, a verdade é que se o são têm coniventes -não é verdade GC? - os corruptos com quem eles contam para obter as vitórias nos concursos. Quanto à publicidade: as empresas portuguesas acham que devem trabalhar em África em segredo - basta-lhes distribuir umas gasosas, nomeadamente por aqueles que noutras épocas não aceitaram o amor dos brancos pela Terra Angolana. Nos outros países a estratégia é a mesma: "o segredo é a alma do negócio". Para quê fazer publicidade?
A visita do chefe de Estado de Angola a Lisboa terá sido positiva para ambos os lados, mas "cautelas caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém", pelo que me parece não se dever descurar um certo bom senso no desenvolvimento das relações entre os que chegam e os que estão. As contradições são muitas e elas estão bem patentes no texto do Director Geral do "Angolense"

sexta-feira, março 13, 2009

Prémio Dardos



A autora do blogue Diadema de Angola atribuiu o prémio Dardos a este blogue, porque, segundo ela, cumprimos com os pressupostos contidos nas condições de tal distinção:Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.


Aqui ficam os nossos agradecimentos pela distinção.

terça-feira, março 03, 2009

Em Memória de Paulo Correia e Muitas outras vítimas


Foi Há mais de vinte anos - 17 de Julho de 1986 - que escrevi esta primeira página do Jornal "África". Tardou, mas, finalmente, aconteceu.

sábado, fevereiro 28, 2009

Semanário "Angolense"


Alguém me enviou pela Net a última edição do Semanário "Angolense", um nome com uma tradição muito forte na imprensa angolana. Fiquei contente com o que constatei: uma visão diferente do país da que é dada por outros jornais - que também não deixam de ser respeitáveis e, em alguns casos com a preocupação importante da independência, como, de resto, também se verifica no "Angolense".

Neste, destaco: a notícia de que Kundy Payama, ministro da Defesa, depois de ter visto ser-lhe negado um crédito bancário, foi falar com "o mais velho" (JES). Não apenas teve o "Kumbu" de que precisava ( já ninguém sabe para que é que ele quer tanto dinheiro - o homem que mais rápido fugiu da invasão sul-africana, em Outubro de 1975, com pasta "007" e pulseira de ouro), como o gerente do banco que lhe negou os "os ferros", foi demitido.

Outra notícia: a filha de José Eduardo dos Santos , Tchizé dos Santos Pêgo, vai tomar conta do primeiro canal da TPA. Como pormenor, o semanário diz que Fernando Cunha, o seu actual director, será a primeira cabeça a rolar. Não sei se Tchizé tem a mesma capacidade da irmã Isabel e pode transformar a TPA numa "coisa" suportável, mas sei que o Fernando Cunha - não apenas a cabeça, mas todo ele, já devia ter rolado há muito tempo. As emissões internacionais da TPA envergonham qualquer pessoa que tenha relativamente a Angola apenas um sentimento de simpatia, mesmo que cheia de reticências...

Outro tema deste "Angolense" tem a ver com o sétimo aniversário da morte de Savimbi. Por um lado, um repórter de guerra, Jaime Azulay, conta os últimos tempos bárbaros de Savimbi, em que ele revelou todo o desiquilibrio mental que os anos de guerra foram aumentando, transformando-o num verdadeiro assassino psicopata.

Simultaneamente, o Semanário que tenho vindo a citar publica um texto de Sousa Jamba em que afirma a pujança da UNITA e a considera a única alternativa de poder ao MPLA.

A UNITA, de facto, é importante para o futuro político de Angola, mas não o pode ser enquanto viver à sombra do fantasma do "fundador". Esse grupo de intelectuais que estão à frente da UNITA, pisada de forma violenta nas últimas eleições, tem que assumir-se com o uma força política nova e fazer "mea culpa" por não ter sabido, não ter conseguido, não ter tido a coragem de derrotar, no campo político, o selvagem que atirou Angola para uma guerra de destruição impensável.

Por muito que custe a Sousa Jamba, a UNITA tem um passado de vergonha e não de glória. Para que os seus membros possam ser úteis ao país têm que contribuir para a denúncia dos crimes inomináveis que Savimbi levou a cabo, mesmo entre os seus correligionários. De contrário, terão sempre os fantasmas de Ana (Savimbi), Vakulukuta, Wilson Pessoa, Altino Sapalalo, Antero Perestrelo, a tia de Chiwale, ele próprio salvo da morte certa, por circunstâncias pouco vulgares para Savimbi, e muitos ,muitos outros.

A UNITA é importante para Angola, mas tem que renegar o seu passado, em que o medo sememou a cobardia e ninguém foi capaz de , em nome do povo por quem diziam lutar, derrotar a fera que a si próprio chamava de "Jaguar".