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domingo, dezembro 20, 2009

OS BÓERES NO PLANALTO DA HUÍLA






Os meus agradecimentos ao meu amigo António Trabulo que me enviou este texto e também algumas das fotografias da sua colecção particular.



Os bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco anos depois.



Criaram raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a Colónia do Cabo à Inglaterra.



Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek. Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados, bateram-se bem, mas foram vencidos.



Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.



Seiscentas famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto, de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por mais.



Ao longo do Trek, os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres, nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram dispersando.



Uns tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene. Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra para se instalarem.



Vale a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.



Em Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar, experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado à cauda dum cavalo.



Os bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros de comprimento, com uma levada de água para cada casal.



Nessa época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda prestada pelos cavaleiros bóeres.



Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.



Os africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.



Existia, no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar. Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.



Os bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região. Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de Almoster.



A segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902 não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na região.



Em 1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.



Quatro famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado. Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana, reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto de 2.000 almas.






Referências:



Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.



Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.



Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.



Fotografias: colecção do autor.







sábado, outubro 13, 2007

O 27 de Maio em Angola

As edições ASA lançaram no dia 27 de Sembro, em Lisboa, na Sociedade de Geografia um livro assinado por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, com o título "Purga em Angola - Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunem o 27 de Maio de 1977".



Estive lá, comprei o livro, já o li.



Já exprimi muitas vezes a minha opinião sobre o que aconteceu a seguir à tentativa de golpe de estado do 27 de Maio. Já verberei, inclusivé, que se tente branquear a imagem de Agostinho Neto, falando dos seus escritos - poemas incluídos - para fazer esquecer a sua prática política, marcada pela ignorância, pela soberba, arrogância e pelo institnto sanguinário que o foi acompanhando ao longo da sua carreira política - Hoji Ya Henda, Deolinda Rodrigues, Gika e outros, além das tentativas frustradas de se ver livre de adversários políticos - e que culminou com um massacre indiscriminado num contra-golpe autenticamente fascista.



Este livro apresenta, todavia, apenas um lado de toda esta trama política e cobre a tentativa efectiva de golpe de estado levada a cabo por um grupo organizado em torno de Nito Alves.

Eu fui testemunha presencial de muitos acontecimentos anteriores ao 27 de Maio que já denunciavam as reais intenções de Nito,tendo inclusivé, sentido a necessidade de fugir de Angola perante a inevitabilidade de um confronto entre os dois blocos. Ganhasse quem ganhasse o meu fim engrossaria o número dos que agora se contam.



Nito Alves e a sua gente, organizada sobretudo no interior da JMPLA, já tinham tomado o poder político e, em alguns casos, militar, em grande parte das Províncias. Por exemplo, na Huíla, cuja capital, o Lubango, foi local de encontro para vários dos conspiradores. Monstro Imortal encontrou-se várias vezes com o Comandante da Frente Sul, o major Evady, que, mais tarde conseguiu sacudir o labéu de "nitista" e veio a ser Comissário da Província.



Na Huíla esteve também José Eduardo dos Santos, exactamente no dia 27, em casa de um parente, o então Comissário Provincial, Belarmino Van Dunem. A fazer o quê?



O Comandante da CPPA ( Polícia de Segurança), em 1976, um tal Comandante Martinho, natural de Malange e nitista, fez todas as barbaridades possíveis. Foi ele que inaugurou a célebre e tétrica prática de jogar gente na Fenda da Tundavala.

Mandava fazer rusgas na casa dos brancos, de madrugada. Um dia mandou chicotear um colono, nos testículos, o Velho Maximino Borges, por ter encontrado numa sua mala, uma bandeira portuguesa.



Numa outra altura mandou prender um jornalista da então Rádio Popular, que eu tinha criado, e durante toda a noite os seus lacaios espancaram o Celso apenas porque ele trabalhava na Rádio Popular.




Logo a seguir escrevi um texto no jornal " A Luta Continua", que eu também tinha criado, denunciando a ocorrência. Suponho que o tal comandante era analfabeto... mas em Luanda havia muita gente letrada e o jornal que saía às quartas no Lubango, chegava a Luanda às quintas de manhã e logo esgotava, porque nessa altura já se vivia sob a tutebla de um dos mais violentos educadores do povo - este netista - Costa Andrade, o N'Dunduma - director do Jornal de Angola e que só permitia escritos a louvar o partido.


Depois que cheguei ao Lubango, em Fevereiro de 1976, fiz um enorme esforço em todas as áreas onde podia ajudar e mesmo naquelas onde os meus conhecimentos não eram assimm tantos.

Uma das coisas que fiz foi enviar informação via rádio - uma tarefa que me ocupava horas - para o Jornal de Angola.


Ora, eu não lia o que era publicado e quando, mais tarde, fui a Luanda fiquei surpreendido com o que "tinha escrito". N'Dunduma e os seus lacaios retalharam-me completmente os textos e chegaram a negar afirmações minhas ou a afirmar negações escritas por mim.


Quando tentei falar com ele para lhe chamar, no mínimo, fascista, não me recebeu. Era um senhor muito importante...


Afinal, os diversos conflitos pseudo-políticos que ocorriam nessa altura em Angola resumiam-se a um facto muito simples: os vários grupos do MPLA, quando chegaram a Angola ficaram surpreendidos com o que encontraram e elegeram como principais inimigos os que tinham construído aquele país que eles não entendiam. Para eles Angola ainda era a mesma de 1950.
De resto, isso ainda acontece hoje: os construtores de Angola, que o MPLA destruiu em apenas dois anos são os verdadeiros inimigos dos dirigentes aburguesados e ignorantes de Angola.
Mas não só: também são mal vistos em Portugal.
Sempre que se fala de algum assunto mais ou menos histórico referente a Angola, enquanto colónia, ou província ultramaria, ou o que quer que seja, nunca se pergunta nada a quem lá viveu, lutou e sofreu para construir um país que tinha condições , já em 1973, para ser , de facto, independente.
Até que apareceram os "libertadores", que como disse o Rola da Silva "se mataram uns aos outros como cães".

Entretanto, instalou-se na cidade do Lubango, bem como por todo o país, depois de , mais ou menos Maio ou Junho de 1976, um clima de verdadeiro terror, porque, no regresso de Luanda para o Lubango, depois que os sul-africanos abandonaram o território, em 27 de Março, a maior parte dos quadros do MPLA vinham doutrinados pela gente de Nito Alves. Incluia-se neste número o primeiro Comissário Provincial, Sumbo Braz, que principiou a fazer discursos racistas e regionalistas que assustavam. Um homem ponderado ficou, de repenete, desaustinado.





Tive a oportunidade de, durante a abertura do ano lectivo de 1976/77, na Faculdade de Letras do Lubango, ser duro com ele. Já estava a ficar farto de tudo.




Os nitistas tomaram o poder numa Assembleia Geral de Militantes, realizada do Auditório do ex- Rádio Clube da Huíla de uma forma perfeitamente organizada e orquestrada. Começaram por esperar pela minha entrada na sala para pedirem a minha nomeação para a mesa como secretário. Os anti-nitistas ficaram sem a sua principal arma...



Depois acusaram toda a gente de tudo, remexeram na vida privada dos dirigentes, acusando uns de incesto e outros de coisas ainda piores. No final, o único que ficou, fui eu. De resto, eu era o único que restava da primeira assembleia de militantes realizada ainda em 1974.



Não seria, todavia, pacífica a minha continuação como dirigente. Comecei a ser atacado por todos os lados. A Camarada Arlete, por exemplo, numa reunião sobre informação dissse que o jornal " A Luta Continua" não estava dirigido "às massas". Obteve como resposta uma gargalhada: " A Camarada não sabe que as massas são analfabetas?".


Tão analfabetas como o comandante da Polícia, ou como um membro do Conselho de Administração da Moagem do Venâncio Guimarães Sobrinho, do qual eu era o presidente. Um dia, descobri que ele tinha um documento ao contrário e fingia um grande esforço de compreensão da sua leitura.


Tinha sido lá colocado pelo Santos, outro nitista, delegado do Ministério da Indústria na Huíla. Claro que o mandei para um grupo de alfabetizandos...


O Livro de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus serve como denúnica dos massacres horrorosos levados a cabo por uma chusma de sanguinários que seguiram a ordem do chefe : "não vamos perder muito tempo", mas passa completamente ao lado do contexto em que tudo ocorreu, limitando-se a falar do que aconteceu em Luanda e referindo-se ao resto do país apenas para contar os massacres. É pena, porque é mais uma oportunidade perdida.


quinta-feira, julho 26, 2007

Já Agora, a Propósito de História...

Têm-me chegado notícias indicadoras de que há como que uma "febre" em volta das várias "histórias da Rádio Angolana. Acho muito bem que elas todas possam, um dia, ter contribuido para uma História o mais completa possível da Rádio Angolana. E nela, seguramente, terá de haver um lugar destacado para Sebastião Coelho.
Leonel Cosme publicou em Fevereiro de 2003 um texto que, com a devida vénia, aqui reproduzo, na certeza de estar a contribuir para o esclarecimento de algumas "febres" mais altas que por aí campeiam.
IN MEMORIAM DE SEBASTIÃO COELHO
SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA RADIO ANGOLANA

Por LEONELCOSME

Ouvi falar de Sebastião Coelho, pela primeira vez, em 1951, quando ele foi contratado para chefiar a produção do Rádio Clube de Moçâmedes, facto memorável logo pela razão de ser o primeiro radialista (como então se dizia) natural de Angola que se tornava profissional da Rádio. Outros profissionais de nome feito na Metrópole já dirigiam a produção das emissoras assoctativas, como eram os Rádios Clubes - Santos e Sousa, Humberto de Mergulhão, Natália Bispo, Fernando Curado Ribeiro e Carlos Mendes, nomeadamente - em Luanda, Benguela, Nova Lisboa e Sá da Bandeira, mas acontecimento fora a contratação de um jovem radialista formado em Nova Lisboa, sob a "batuta" de dois nomes sonantes - Curado Ribeiro e sua "alter ego" Joana Campino, senhora de vasta cultura, licenciada em Letras e conhecida como declamadora de grande mérito. Neste papel a vi, ao lado de Sebastião Coelho, no festival promovido pelo Rádio Clube da Huila, enquadrado na realização do I Congresso da Rádio Angolana, em que participaram todos os chefes de produção das emissoras angolanas, para debaterem - o que ocorria pela primeira vez, desde o seu surgimento duas décadas atrás - os problemas "existenciais" dos Rádios Clubes, que de associações clubísticas tendiam a tornar-se em verdadeiras empresas, necessitadas de suporte financeiro para, através da publicidade e da comercialização dos seus programas, caminharem no sentido duma crescente profissionalização dos seus colaboradores eventuais e não reunerados.
Mas já havia quem pensasse que a Rádio (pela cobertura, em audiência, que fazia do território) poderia ser o mais importante meio de consciencialização cultural e (esta não explicitamente) política, pois atingia espaços públicos onde não chegava a imprensa.
Isto começou a ser visível em Luanda, a partir de 195 1, através de programas culturais do Rádio Clube de Angola, de Luanda, em que se fizeram ouvir as primeiras vozes de um assumido
Movimento dos Noyos Intelectuais de Angola (dinamizado por jovens poetas como António Jacinto, Leston Martins e Humberto da Silvan), que se propunha divulgar os novos valores da "poesia angolana", feita por "angolanos", como Viriato da Cruz (na época funcionário administrativo no Liceu de Sá da Bandeira, cidade académica que lhe inspiraria ainda um poema tão anódino como "Sá da Bandeira", que comparou com um pratinho de louça de Rouen...Cochat Osório, Ermelinda Xavier, Lília da Fonseca e Maurício Gomes, todos integrantes de uma colectânea mimeografada, que fez história, Antologia dos Novos Poetas de Angola, na qual participavam ainda aqueles "fundadores" do MNIA e que eram, também, os dinamizadores da
"revista" cultural da mesma Associação dos Naturais de Angola que" editara" a Antologia, igualmente histórica Mensagem.
Sebastião Coelho, à frente da emissora de Moçâmedes, dá guarida e colabora, em parceria com Leston Martins, então naquela cidade, num programa de divulgação dos jovens poetas angolanos, que era igualmente apresentado no Rádio Clube de Benguela, em colaboração com a jornalista Helena Soeiro (Mensurado, por casamento com outro jornalista, José Mensurado também ele um dos dinamizadores da Mensagem.
Na pequena e mais puxada ao Sul cidade de Angola - fundada, só na segunda metade do século XIX, por colonos luso-brasileiros fugidos de Pernambuco às defenestrações nativistas e sem assinaláveis tradições culturais - tem particular significado a acção quase "missionária" de Sebastião Coelho, apoiando a entronização, no Namibe, de um Movimento da "novi-angolanidade", que os seus promotores já queriam ver distinto do "lusotropicalismo teorizado pelo brasileiro nordestino Gilberto Freyre, aproveitado pelo regime colonial e, ainda hoje, como que travestido numa difusa "crioulidade" que é, no fundo, um desvio da "angolanidade" defendida pelos "mensageiros" com o sentido de afirmação de uma personalidade autónoma e prospectivamente africana.
Sebastião Coelho, ao longo dos anos em que me relacionei com ele, sobretudo por motivos profissionais, mas não só (uma ligação que durou até aos primeiros meses de 1976, comigo já em
Portugal e ele em vésperas de partir para a Argentina), fez a sua" guerra" pela angolanidade, sem anúncio nem ostentação.
Discreto, mas atento, agia como podia e era preciso naquele "tempo de cicio", no dizer do poeta Jofre Rocha: mesmo que os ouvintes "distraídos" não tivessem intuído um projecto nacionalista"
da realização, no Rádio Clube do Huambo, do Cruzeiro do Sul, o primeiro programa (com capa publicitária) falado numa língua nacional, o umbundo, e, depois, a partir dos seus Estúdios Nor~
te, em Luanda, as "mensagens" que eram enviadas, através dos Rádios Clubes, que o retransmitiam, no programa Café da Noite- ele espalhava a semente da "diferença" de ser angolano, nas suas crónicas, diálogos e prosódia, com graça, cordialidade e subtileza. Ficou célebre o seu slogan: Caféda Noite- Café de Angola, boa música em boa companhia. A música era predominantemente angolana e a companhia (os temas e as vozes) também.
O seu sentido nacionalista manifestava-se, de resto, em vários domínios: pelos anos 60. colaborando com a Liga Nacional Africana, recebo dele o convite para elaborar um artigo sobre literatura angolana que seria publicado na revista daquela Liga, ANGOLA; na mesma década, sinto-o, na sombra, a apoiar a minha posição de defesa dos "direitos .... adquiridos" pelos Rádios Clubes, quando a Rádio Comercial de Angola, recém-criada em Sá da Bandeira por dois ex-profissionais do Rádio Clube da Huíla que quiseram apostar na "iniciatiava privada", se empenhavam na proibição de os "clubes radiofónicos" explorarem a publicidade. Não lhes bastava já o privilégio de emitir para todo o território, através de um emissor de 10 kws, quando os Rádios Clubes estavam confinados a 1 kw.
Por iniciativa do Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), então dirigido por um militar atento à problemática, o major Alves Cardoso, realiza-se em Luanda o I Colóquio da Radiodifusão de Angola (estava esquecido o I Congresso ocorrido, cerca de dez anos antes, na Huíla, em que compareceram delegados dos Rádios Clubes e Rádios comerciais (então já duas, que acabariam por ser controladas pelo mesmo grupo económico).
Em nome do Rádio Clube da Huíla, assumo virtualmente o papel de "inimigo público nº 1 do favorecimento da Rádio privada em detrimento da Rádio Associativa, que, não sendo do Estado, prestava um serviço público de incidência regional, pois não visava o lucro, o que aliás era reconhecido pelo próprio Estado, que lhe ia concedendo, pelo Governo ou as autarquias, subsídios mais ou menos regulares.
Tenho em Sebastião Coelho (na altura proprietário da agência de publicidade Estúdios Norte) um aliado não declarado... O Colóquio deixou em suspenso a possibilidade de os Rádios Clubes se tomarem em sociedades cooperativas, o que obrigaria a uma alteração dos seus Estatutos, portanto gozando do "direito expresso" e já não consuetudinário de explorar a publicidade.
Como eu, Sebastião Coelho pensava que os Rádios Clubes, pela sua natureza associativa, com direcções democraticamente eleitas, eram o único espaço de relativa autonomia onde se manifestava a "opinião pública" das populações angolanas.
Por ironia da história, como consequência dos "ventos de mudança", em 1975 (em tempo de grande agitação política, como se sabe ou imagina), o principal administrador, em Luanda, da
Rádio Comercial de Angola, Mota Veiga, confia a Sebastião Coelho, com quem mantinha relações de grande confiança, a direcção das duas emissoras do grupo: a de Luanda e a de Sá da Bandeira. E, ironia das ironias, delega em mim (o "inimigo" confesso) a administração da Rádio Comercial de Angola, em Sá da Bandeira, que durou, com Leston Bandeira e Fernando Alves na direcção da informação e programas até que o MPLA perdeu o controlo da cidade, e consequentemente da Imprensa e da Rádio locais, com a ascensão dos profissionais ( e o beneplácito do sócio minoritário da empresa, residente naquela cidade, Venâncio Guimarães Sobrinho) apoiantes das forças coligadas da FNLA-UNITA, que se mantiveram até depois da chegada à cidade do exército sul-africano, no dia 23 de Outubro de 1975.

Depois da independência de Angola, ainda Sebastião Coelho se bateu contra a hegemonia de uma Rádio Nacional' centralizadora, fazendo dos ex-Rádio Clubes emissoras de repetição e assim
coartando as autonomias regionais. No livro que publicou em 1999, Angola-História e Estórias da Informação (que constitui a melhor fonte de informações conhecida sobre este e outros temas), ele diz suficientemente do seu desgosto por não ter visto concretizadas as expectativas.
Nestas estava incluída a criação de uma Escola de Jornalismo, para o que, no início de 1976, fui convidado para ser seu adjunto. Com o salvo-conduto à minha disposição, no aeroporto de Lis-
boa, para regressar a Angola, razões fortes, de natureza familiar, impediram a sua imediata utilização, retendo-me em , Portugal.
A Escola de Jornalismo pensada por Sebastião Coelho, em que se preparariam os futuros profissionais da Imprensa, Rádio e Televisão (da qual também foi um iniciador, após uma temporada de "estágio" passada na América do Sul), para com competência e sentido ético entrarem no futuro ciclópico que tinham pela frente, não chegou a arrancar.
Não voltei a contactar com ele, para lhe perguntar o que acontecera exactamente. Mas, ao receber a notícia de que partira para a Argentina, imaginei a resposta que me daria e que li, duas décadas depois, naquele seu referido livro - "... deixando atrás o país onde nasci, o princípio de Nação que ajudei a criar com amor, durante uma vida de trabalho, sacrificios e esperanças.
Mas era impossível continuar a lutar contra moinhos de vento." - e que outro jornalista, Júlio Guerra, recupera para o prefácio ao mesmo, com o seu comentário: "Sonhamos, meu caro
Sebastião, um sonho que, apesar de tudo, continua vivo. É a nossa Sagrada Esperança" .
É de irrecusável justiça reter de Sebastião Coelho a memória do profissional mais completo (cronista, repórter, locutor, produtor e administrador) que a actividade audiovisual, designadamente a Rádio, conheceu até agora em Angola.

Nota da Redacção - Com efeito, Sebastião Coelho integrou, de 1972 a 1974-, um grupo liderado pdo conhecido radialista Paulo Cardoso, falecido há dois anos nos EUA, que, embora sem autorizaçãogovernamental, conseguiu montar em Luanda uma estação de tdevisão por cabo, a Tdevisão de Angola, TVA.Vem a talhe de foice dizer que, mesmo sem possibilidade de ser aprovada oficialmente devido aos circunstancialismos da época, aquda estação, cujos estúdios estavam instalados numa cave dum prédio um pouco acima do Hotd Trópico, chegou
a receber a visita do General Costa Gomes, que ali se deslocou pouco antes de sair de ter terminado a sua comissão como comandante em chefe das ForçasArmadasportuguesas