terça-feira, agosto 17, 2010

+N+ ERA E FOI-SE (2)

Faço uma pausa para sublinhar o meu apego ao «jornal» onde cresci como jornalista.
O +N+ apareceu e marcou o seu espaço. Reflectia o meio ambiente onde evoluia. Improvisava, claro, mas buscava colaboração dos melhores. E sem querer aferir da qualidade dos leitores luandinos, talvez que nos finais de 59 se desse preferência ao Baile Trapalhão, no Estoril; ou aos filhos princeses, Carlos e Anne, de Isabel fascinassem mais as jovens senhoras!Os olhos, hoje, são outros. Em Abril de 60 o dr. Salazar irá completar 72 anos e ainda lhe sobravam uma data deles por fazer. As notícias eram essas e eram assim. E como «Eles» não eram muito bons, as notícias reflectiam: «Chinos e portugueses vivem amigos nas ruas apertadas e populosas de Macau. E, vejam lá, o Tribunal de Haia reconhecia o direito de Portugal na Índia!
Por essas e outras é que aconteciam as notícias.
«Vamos ou não perpectuar em Angola a memória do Infante»? - perguntava Jerónimo Ramos
nesse Abril.
Sei lá! Teria eu dito se lá estivesse...
E o décimo (número) saiu (ainda) branco. Sem fulgor, quero dizer. O regresso do governador-mór a Luanda ocupa a capa, deixando um niquinho para o nascimento do terceiro filho de Isabel II.
O número seguinte surge visivelmente melhor arrumado, mas sem assumir-se como jornal angolano ou luandino. No entanto, Agnelo Paiva comenta: «Produzimos azeitonas...mas importamos azeite!» Claro que importavam! Mas de onde?. Ora, os de «onde» não queriam saber de desgraças. A mesma questão voltaria a ser colocada, uns anos depois, por mór das uvas e do vinho que poderia fazer-se, mas não se fez porque, de Lisboa, não deixavam...
E duas páginas inteiras (ou quase) ao Carnaval no Muceque. Devem ter «gamado» um pouco de espaço, uma coluna, para referir a visita do ministro Teotónio Pereira à Índia (lusitana), a que se seguiria um pulo a Luanda!
O nº 13 deu azar e estragou um pouco a pintura. Um desenho sombrio improvisa o terramoto de Agadir e o texto de Couto Rodrigues um desalento de impotência por falta de Informação. Com horários, as oficinas eram implacáveis! Pior ainda o insulto da agência que fornecia a notícia: «apenas alguns milhares de mortos»!
Mas também (e finalmente) uma imagem africana, angolense e luandona,os pescadores da Ilha e o título: «Enquanto a cidade dormia»...
No fim de Março a capa não aparece a preto e branco. Não é ainda a cores, mas com um fundo avermelhado, já sobressai... Abril ressurge a preto e branco, com duas misses europeias, em bikini, no Mussulo. A reportagem sobre elas parece um tudo nada saloia, mas como Salazar aparece também a fazer os já citados 72 anos, fica tudo a condizer... E um texto giro sobre crise que não era crise ou de crise escondida com rabo de fora, com graça e bem feito não é assinado. Cautela e caldos de galinha são precauções como outras quaisquer...Mas era, vamos lá o princípio de usar o jornal (semanário) angolano para falar preferencialmente de Angola, ainda que para insinuar uns tropeções! Angola ganha espaço, desperta! Ainda sobra muito pr'os portugas e a cohabitação parece possível.No fim de Abril, Ernesto Lara aparece a asinar um delicioso texto, onde se vislumbra bem o que ele quis dizer com o seu azulejo para Brasília...
A 14 de Maio, finalmente um africano, pequenino é certo, mas escuro que baste, sentado num alguidar,olha em frente, como se olhasse para mim, sereno. Na altura, as notícias davam conta de que Portugal venceu a Jugosláviapor 2-0.Também se podia ler o Ernesto (Lara, claro!) a relembrar o «Canivete» e a fazer do +N+ o que sempre quisemos que fosse, mas ainda não era...
E, em Maio, o destaque à estrondosa vitória portuguesa no mundial de Madrid, em hoquei patinado tinha razão de ser:o peso ultramarino: Moreira, Adrião, Velasco e Bouçós! Foi obra!
(continua)

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