É o tempo que tempera a História e a molda, conservando ou remodelando a longa caminhada. Pelo caminho vai-se perdendo a memória de realidades incómodas e retocando os feitos épicos. Sei melhor que Afonso Henriques fundou uma nacionalidade e menos como foi enganando o Papa, ao tempo uma espécie de notário, onde se ia registar a sociedade. Mas sei que Egas Moniz foi de baraço ao pescoço para honrar a palavra. E palavra que não me lembro porque é que o rei amarrou a mãe pelos cabelos.
Pedro amou Inês e isso tem sido alimento de poesia. Mas foi igualmente um caso de traição conjugal, mas disso não se canta nem em prosa nem em verso. O Marquês de Pombal era rijo. Enfrentou o terramoto e recuperou Lisboa. Mas mandou matar três gerações de Távoras. Ainda assim não foi ele que inventou o radicalismo.
A Igreja cristã torturava um senhor que teve a ousadia de pensar que a Terra pudesse girar em volta do Sol. Mais tarde, um senhor na Alemanha pensava que a Alemanha era demasiado pequena para a sua ambição. Em Londres o Rei andava distraído. Em Paris cosia-se roupa e comia-se no Moulin Rouge. Em Lisboa, o Presidente do Conselho não ia, mandava. De facto mandou alguns para longe!
Ao tempo, a política era um pouco como a liberdade de imprensa. Cada qual fazia o que lhe apetecia. Hitler invadiu a Polónia e começava uma guerra que alastrou por quase toda a Europa.
Os ingleses chamaram Churchill e ele fez como o treinador do Nacional: pôs-se à defesa. De Gaulle pôs-se a andar. Os judeus que puderam fugiram. Os que não puderam foram presos e passaram fome. Seis milhões dizimados com requintes de malvadez. Salazar não ia, mandava. Mandou os portugueses produzir e poupar e comer racionado.
Os japoneses também entraram na guerra. Bombardearam uma ilha americana e ocuparam as Filipinas, China, a Indonésia e não me lembro que mais. Mais tarde tiveram que pagar a factura, levando com duas bombas atómicas, made in USA.
Com a paz vieram outras guerras, umas ditas de libertação, outras nem por isso. Havia uma fria, bem gélida, por sinal, e outras bem quentinhas... Mesmo assim um mundo novo ressurgia, com nova arrumação.Parecia uma coisa simples, parecia...
No Quénia, acho eu, era a África a aparecer, de mansinho! Os «mau-mau». Recordo-me, ainda menino, das graçolas: «um mau-mau comer um bom-bom». Os quenianos não deram muita importância. Os ingleses negociaram a independência, depois de terem prendido Jomo Kenniata.
Os franceses tiveram a Indochina e a Argélia, o que não foi pouca coisa. Começar as experiências nucleares foi como lamber as feridas. A «bomba A» parecia uma espécie nova de seguro de vida.
Quem tem bomba não tem inimigos! Errado, profundamente errado!
O terrorismo irrompeu como reacção. Quem não tem cão caça com gato. Na guerra convencional
os bombardeamentos aéreos matavam indistintamente quem não estivesse resguardado e arrasaram cidades inteiras. O terrorismo faz o mesmo, sem aviões, sem exército. Alimenta-se de religião e semeia ódios. Daqui por dois mil anos a História deve ser outra. Bush nome de avenida. Ben Laden, faculdade de direito, Médio Oriente, discussão académica sobre a guerra dos cem anos. Talvez o Benfica vá à frente, o TGV já chegue ao Pragal. E ainda haja quem goste de mulheres...
Começou por ser um repto, mas pode transformar-se num desafio, num toque a reunir de uma enorme tribo destribalizada mas sobrevivente, num grito de quem reivindica o direito ao passado e, de raízes ao léu, consegue identificar, lá longe, o sítio aonde pertencem. "Essas raízes não mergulharão noutra terra" - dizia a feiticeira das margens do Cunene
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Presidenciais em Cabo Verde
No próximo domingo, dia 12, o povo cabo-verdiano vai ser chamado a eleger o seu Presidente da República. Como há cinco anos, o grande combate é entre Pedro Pires e Carlos Veiga. Dizem-me da Cidade da Praia que do lado de Pedro Pires há agora o receio do muito dinheiro que aparece do lado de Carlos Veiga, cujo tio vendeu a cimenteira à Cimpor para poder ajudar o sobrinho. É que o tio também já foi ajudado...
O medo é o da compra de BI e cartões de eleitores, a forma usada para evitar que os adversários votem. Vai uma grande azáfama no controlo dos portadores de pastas esquisitas... por todo o país.
domingo, fevereiro 05, 2006
Recordações
A Regina Mirandela da Costa (Peyroteo) teve a amabilidade de me enviar esta fotografia, encontrada nas recordações do seu marido. É uma equipa de basquetebol da Académica da Huíla e que tem a particularidade de ter, além do prof. Mirandela da Costa (13), o Joaquim Pintado(4) e o Rui Alexandrino(15). Além de mim próprio (12) e o Manuel João (7). Dos nomes dos dirigentes só me lembro do da direita, o tenente Rocha. O outro, o da esquerda, era professor do Liceu Diogo Cão e, na altura, presidente da Académica da Huíla.
Pintado (com quem também joguei andebol) é ainda hoje considerado o melhor jogador desta modalidade em Portugal, Mirandela da Costa teve um papel importante na organização do Desporto em Portugal e Rui Alexandrino é dos militares mais condecorados de todos os tempos em Portugal.
Não sei o que é feito do Manuel João e eu ando por aqui - de repente, alguém me lembra que fiz outras coisas, com outras gentes.
Obrigado, Regina.
4 de Fevereiro
Para o MPLA - partido único, marxista-leninista, esta era a data do início da História de Angola. Tudo o resto, tudo quanto se tinha passado anteriormente não existia. A não ser a publicação de um manifesto, redigido por Mário Pinto de Andrade em que se falava da necessidade da criação de um "Amplo Movimento Popular de Libertação de Angola", com a data de 10 de Dezembro de 1956. Esse ficou como o dia da fundação do MPLA. Desconheço se em Angola estas duas datas continuam a ser feriado nacional , ou se é apenas uma ou mesmo nenhuma.
O 4 de Fevereiro é, todavia, uma data importante na História do país, a exigir investigação cuidada, porque à sua volta de criaram muitos mitos, se desenvolveram alianças políticas que continuam e se criaram verdadeiras dinastias de domínio económico.
Para mim o 4 de Fevereiro é o dia da morte do Joaquim, um amigo, que era do Kipungo e estava na tropa para cumprir aquilo que na altura se chamava um dever cívico. Não sabia nada de política e morreu , vítima de um tiro disparado certamente sem intenção, mas que fez dele a única vítima desta data que durante anos foi empolada e é agora nada se compararmos o contexto dos acontecimentos de então com o que, entretanto, acontece em Angola e, sobretudo fora de Angola, a mando dos angolanos que cheagaram ao poder por causa de vítimas como o Joaquim do Kipungo.
quinta-feira, janeiro 26, 2006
DÓ DE ALMA
Ele há coincidências. Por vezes pesam ou magoam. Tinha olhado atentamente para os dois lados da rua não fosse alguém conhecido ou de família ver-me entrar na ginjinha da Eugénio dos Santos, de onde saí, alegremente a cuspir os caroços. Sem cuspir ostensivamente os caroços, para o chão, a ginja não tem metade da graça!
E comecei por não achar graça às lojecas com bugigangas artesanais sob as arcadas do Palácio da Independência. Uma das quais a dar a sua de alfarrabista e eu a aproveitar para fazer a minha de literato de meia tijela e no meio da lixarada não é que vejo um opúsculo minúsculo de Salgado Zenha, com Francisco e tudo na capa: «A Prisão do Doutor Domingos Arouca», edição de 72, da Afrontamento, do Porto, impressa, imagine-se!, na Gráfica Firmeza, que tinha sede na Rua da Boavista!
A parte literária, digamos assim, nem ocupava uma página: « Domingos Arouca -- condenado a quatro anos de prisão maior --, encontra-se na cadeia há mais de sete.
Preso e julgado em Moçambique, expia a condenação a milhares de quilómetros dos seus -- na Metrópole.
O degredo já não existe nas leis portuguesas. Mas existe para Domingos Arouca. Pare ele e tantos outros -- negros como ele".
Domingos Arouca é advogado. Formou-se em direito, ensinado em Lisboa. Que direito se ensina em Lisboa? Que direito se decreta em Lisboa? Que é, em suma,o direito de Lisboa?
Qual será?
Domingos Arouca -- moçambicano, negro e amigo --, qual será?».
Desconheço se o «grito» foi autorizado ou proíbido; se chegou a Lisboa, se esteve ou não em algum escaparate; se mereceu (ou não) crítica. O «meu» tem na contracapa um selo da Livraria Sá da Costa.
Após uma simples biografia do condenado, em que se dá conta de que Arouca após o ensino primário foi trabalhar, como escriturário-praticante, no gabinete de um advogado até aos 16 anos. Ingressou, então, como aluno na Escola Técnica de Enfermagem, de Lourenço Marques
(o opúsculo, recordem-se, é de 72), onde se diplomou.
Até aos 21 anos exerceu a profissão de enfermeiro. Os acasos da sorte permitiram-lhe vir para Portugal, onde trabalhou e estudou para completar o curso dos liceus e formar-se em Direiro pela Universidade de Lisboa, em 1960. Foi o primeiro advogado preto ou negro, como quiserem.
Regressado ao habitat natural foi nomeado consultor do Banco Nacional Ultramarino, em Lourenço Marques e Vogal do Tribunal Administrativo de Moçambique, funções que se viu compelido a abandonar poucos meses depois por «motivos políticos».
Exercia advocacia em Lourenço Marques, quando em Maio de 65 foi preso pela PIDE. Acabava de tomar posse do cargo de presidente do Centro Associativo dos Negros de Moçambique, para o qual fora eleito por aclamação. Era acusado de pertencer à Frelimo e responsável pela subversão psicológica no sul de Moçambique.
Julgado e condenado a pena de 4 anos de prisão e medidas de segurança posteriores de 6 meses a 3 anos.
Sete anos depois, ainda preso, mas já Portugal, despertou a curiosidade por ter iniciado uma greve de fome, «com desusada ressonância em Portugal e sobretudo no estrangeiro» e dela deu pormenorizada conta Salgado Zenha.Tudo o que se sucede é terrivelmente angustiante: a descrição minuciosa das «peças fundamentais do processo de providência extraordinária de habeas corpus». Fico a saber que até o início do julgamento foi, em cima da hora, adiado por haver conhecimento de que a visita do Papa iria merecer governo uma amnistia. Desse modo esperou-se que a amnistia fosse publicada para, então, se dar início ao julgamento, privando o
arguido de qualquer perdão. Houve outros perdões durante os sete anos que se seguiram, mas deles Domingos Arouca não beneficiou nem um segundo. E deu-se conta de outras «igualdades desiguais» como a que ocorreu em 70 em consequência do movimento de solidariedade dos advogados portugueses a favor dos seus 3 colegas então presos por motivos políticos: Domingos Arouca, Monteiro Matial e Saúl Nunes. Os dois últimos foram postos em liberdade, mas Domingos Arouca continuou preso. Dois eram brancos, um era negro. E adiante lá vinha a referência: «Disse-se que foi o Ministro do Ultramar que opôs o seu veto à saída do moçambicano. Porque ele era negro?».
Fiz uma pausa para pensar quem seria, em 72, o ministro do Ultramar?
Provavelmente o pai de alguém hoje bem na vida. Mas o processo tem outras curiosas, gostava mais de as qualificar de «saborosas», coincidências, como o acordão do tribunal militar, que recusa a inconstitucionalidade da medida de segurança que impôs e é invocada no recurso. O blá-blá se não é, parece rídiculo e um tanto asqueroso. Vale que é assinado pelo Cor. de Cavalaria, José Luís Canalhas...
Teria sido melhor se assinasse no singular...
Mas foram dirigidos apelos ao presidente do Conselho, que já não era o «botas», de que não se conhece resposta e ao bastonário da Ordem dos Advogados e foi este que deu a pista do ministro do Ultramar.
Num romance de Urbano Tavares Rodrigues definiu-se qualquer coisa como «crueldade testicular», expressão que exasperou Luís Pacheco, mas que, no fim de contas, talvez faça sentido. Uma crueldade que não se entende nem se explica, que atrofia. E que ficou sem julgamento. Reduziu-se todo o horror da opressão policial e militar a um só personagem.Já depois dele, ainda o Supremo Tribunal de Justiça se permitia mandar o requerente à « merda», mas fê-lo com generosidade: «Não é devido imposto de justiça»...
« Lisboa, 5 de Julho de 1972.
ass.) Adriano Vera Jardim
António Pedro Sameiro
Alberto Victor Pires Fernandes Nogueira
Manuel Falcão Nunes Garcia
Fui presente -- Manuel Lopes Maia Gonçalves».
Não sei nem quero saber se toda ou alguma desta gente ainda vive, nem é isso hoje que importa, mas notar que, bem ou mal, a revolução não trouxe nenhum programa de justiça. Uma dúzia e tal de «pides» foram incomodados, não muito, mas foram. Mais nada. Mais ninguém. Estive em Lisboa, logo a seguir ao 25 de Abril e assisti à leitura da sentença das «três Marias» foram absolvidas. Foi uma festa na sala. Para trás ficaram ignorados os instrutores do processo, os piedosos instigadores. De Salgado Zenha retenho a memória do homem que rompeu a concordata e restituiu o direito das pessoas serem livres umas das outras. Foi um momento de glória, que ele bem mereceu...
E comecei por não achar graça às lojecas com bugigangas artesanais sob as arcadas do Palácio da Independência. Uma das quais a dar a sua de alfarrabista e eu a aproveitar para fazer a minha de literato de meia tijela e no meio da lixarada não é que vejo um opúsculo minúsculo de Salgado Zenha, com Francisco e tudo na capa: «A Prisão do Doutor Domingos Arouca», edição de 72, da Afrontamento, do Porto, impressa, imagine-se!, na Gráfica Firmeza, que tinha sede na Rua da Boavista!
A parte literária, digamos assim, nem ocupava uma página: « Domingos Arouca -- condenado a quatro anos de prisão maior --, encontra-se na cadeia há mais de sete.
Preso e julgado em Moçambique, expia a condenação a milhares de quilómetros dos seus -- na Metrópole.
O degredo já não existe nas leis portuguesas. Mas existe para Domingos Arouca. Pare ele e tantos outros -- negros como ele".
Domingos Arouca é advogado. Formou-se em direito, ensinado em Lisboa. Que direito se ensina em Lisboa? Que direito se decreta em Lisboa? Que é, em suma,o direito de Lisboa?
Qual será?
Domingos Arouca -- moçambicano, negro e amigo --, qual será?».
Desconheço se o «grito» foi autorizado ou proíbido; se chegou a Lisboa, se esteve ou não em algum escaparate; se mereceu (ou não) crítica. O «meu» tem na contracapa um selo da Livraria Sá da Costa.
Após uma simples biografia do condenado, em que se dá conta de que Arouca após o ensino primário foi trabalhar, como escriturário-praticante, no gabinete de um advogado até aos 16 anos. Ingressou, então, como aluno na Escola Técnica de Enfermagem, de Lourenço Marques
(o opúsculo, recordem-se, é de 72), onde se diplomou.
Até aos 21 anos exerceu a profissão de enfermeiro. Os acasos da sorte permitiram-lhe vir para Portugal, onde trabalhou e estudou para completar o curso dos liceus e formar-se em Direiro pela Universidade de Lisboa, em 1960. Foi o primeiro advogado preto ou negro, como quiserem.
Regressado ao habitat natural foi nomeado consultor do Banco Nacional Ultramarino, em Lourenço Marques e Vogal do Tribunal Administrativo de Moçambique, funções que se viu compelido a abandonar poucos meses depois por «motivos políticos».
Exercia advocacia em Lourenço Marques, quando em Maio de 65 foi preso pela PIDE. Acabava de tomar posse do cargo de presidente do Centro Associativo dos Negros de Moçambique, para o qual fora eleito por aclamação. Era acusado de pertencer à Frelimo e responsável pela subversão psicológica no sul de Moçambique.
Julgado e condenado a pena de 4 anos de prisão e medidas de segurança posteriores de 6 meses a 3 anos.
Sete anos depois, ainda preso, mas já Portugal, despertou a curiosidade por ter iniciado uma greve de fome, «com desusada ressonância em Portugal e sobretudo no estrangeiro» e dela deu pormenorizada conta Salgado Zenha.Tudo o que se sucede é terrivelmente angustiante: a descrição minuciosa das «peças fundamentais do processo de providência extraordinária de habeas corpus». Fico a saber que até o início do julgamento foi, em cima da hora, adiado por haver conhecimento de que a visita do Papa iria merecer governo uma amnistia. Desse modo esperou-se que a amnistia fosse publicada para, então, se dar início ao julgamento, privando o
arguido de qualquer perdão. Houve outros perdões durante os sete anos que se seguiram, mas deles Domingos Arouca não beneficiou nem um segundo. E deu-se conta de outras «igualdades desiguais» como a que ocorreu em 70 em consequência do movimento de solidariedade dos advogados portugueses a favor dos seus 3 colegas então presos por motivos políticos: Domingos Arouca, Monteiro Matial e Saúl Nunes. Os dois últimos foram postos em liberdade, mas Domingos Arouca continuou preso. Dois eram brancos, um era negro. E adiante lá vinha a referência: «Disse-se que foi o Ministro do Ultramar que opôs o seu veto à saída do moçambicano. Porque ele era negro?».
Fiz uma pausa para pensar quem seria, em 72, o ministro do Ultramar?
Provavelmente o pai de alguém hoje bem na vida. Mas o processo tem outras curiosas, gostava mais de as qualificar de «saborosas», coincidências, como o acordão do tribunal militar, que recusa a inconstitucionalidade da medida de segurança que impôs e é invocada no recurso. O blá-blá se não é, parece rídiculo e um tanto asqueroso. Vale que é assinado pelo Cor. de Cavalaria, José Luís Canalhas...
Teria sido melhor se assinasse no singular...
Mas foram dirigidos apelos ao presidente do Conselho, que já não era o «botas», de que não se conhece resposta e ao bastonário da Ordem dos Advogados e foi este que deu a pista do ministro do Ultramar.
Num romance de Urbano Tavares Rodrigues definiu-se qualquer coisa como «crueldade testicular», expressão que exasperou Luís Pacheco, mas que, no fim de contas, talvez faça sentido. Uma crueldade que não se entende nem se explica, que atrofia. E que ficou sem julgamento. Reduziu-se todo o horror da opressão policial e militar a um só personagem.Já depois dele, ainda o Supremo Tribunal de Justiça se permitia mandar o requerente à « merda», mas fê-lo com generosidade: «Não é devido imposto de justiça»...
« Lisboa, 5 de Julho de 1972.
ass.) Adriano Vera Jardim
António Pedro Sameiro
Alberto Victor Pires Fernandes Nogueira
Manuel Falcão Nunes Garcia
Fui presente -- Manuel Lopes Maia Gonçalves».
Não sei nem quero saber se toda ou alguma desta gente ainda vive, nem é isso hoje que importa, mas notar que, bem ou mal, a revolução não trouxe nenhum programa de justiça. Uma dúzia e tal de «pides» foram incomodados, não muito, mas foram. Mais nada. Mais ninguém. Estive em Lisboa, logo a seguir ao 25 de Abril e assisti à leitura da sentença das «três Marias» foram absolvidas. Foi uma festa na sala. Para trás ficaram ignorados os instrutores do processo, os piedosos instigadores. De Salgado Zenha retenho a memória do homem que rompeu a concordata e restituiu o direito das pessoas serem livres umas das outras. Foi um momento de glória, que ele bem mereceu...
terça-feira, janeiro 24, 2006
As Partidas dos Arquivos
A revisitação dos arquivos tem sempre a mesma surpresa: andamos a viver a mesma vida, sempre ao serviço dos mesmos. O que transcrevo a seguir é um comentário meu, publicado em 1993, no jornal " A Capital.
CÂNTIGO DA PRIMAVERA
CÂNTIGO DA PRIMAVERA
Em França, o governo caiu sob o peso de três milhões de dsempregados, em Espanha, Felipe Gonzalez olha os gráficos, as sondagens e o tempo a correr: 20 por cento da população activa não tem satisfeito o seu «direito fundamenteal» ao trabalho.
Na velha Albion, os ingleses desocupados são 11,4 por cento, em Itália, onde as estatísticas, tal como os políticos, não são de fiar, há 9,8 de desempregados e em Portugal, cujas estatísticas funcionam como canção de embalar, o desemprego subiu, no mês de Fevereiro, 14,7 por cento.Só os países desenvolvidos têm 33 milhões de desempregados, conhecidos das estatísticas.
No resto do Mundo, onde nem sequer há estatísticas, ou são piores do que as portuguesas e italianas, há milhões de homens e mulheres que nunca tiveram emprego, isto é, nunca foram pagos regular e sistematicamente pela cedência das suas capacidades físicas e/ou intelectuais.Grande parte deste resto do Mundo representa o paraíso para os empresários de sucesso do nosso tempo: não há estatísticas e qualquer um pode ser despedido a qualquer hora, pelo que todos os «bons gestores» podem pôr em prática a receita mais eficaz para resolver os problemas derivados da quebra de lucros: a empresa está mal, depede-se tanto por cento do seu efectivo de trabalhadores e tudo volta à normalidade.
É desse resto do Mundo que vem a lição para a Europa e para os Estados Unidos, onde os despedimentos são de todos os dias e atingem sempre os que, ingenuamente, continuam a reclamar o seu «direito ao trabalho», sem nunca terem pensado, ou pelo menos, expresso em voz alta, que deveriam reclamar o seu «direito à preguiça».O saneamento das empresas do nosso tempo está a fazer-se à custa de níveis assombrosos de desemprego e, contudo, o sistema progride, pelo que é, no mínimo, curial, pensar que o desemprego é o sangue do sistema em que vivemos e que, afinal, já produziu esta aldeia global em que não só a comunicação é instantânea.
O desemprego também o é. Atente-se nesta notícia das páginas interiores dos jornais, publicada tipo «faire divers»: o novo presidente-director-geral da companhia americana IBM, Luis Gerstner, tem um salário mensal de 300 mil contos, mais um prémio anual de 225 mil, além de outros prémios e promessas.A IBM tem fábricas um pouco por toda a parte.
Na Europa também, onde, no final de 1992 empregava cerca de 90 mil pessoas. Agora, nos «próximos doze meses», vão ter que «mostrar o que valem» porque se prevê uma redução de, pelo menos, 10 por cento dos seus efectivos.Para que Gerstner tenha direito a todas as suas remunerações e ao exercício pleno do seu «direito à preguiça», milhares de outros vão ter que se incorporar nas marchas de protesto para reclamarem o seu «direito ao trabalho».
São as marchas da Primavera, de todas as primaveras: os sindicalistas já a têm marcada nas agendas: «Abril e Maio, tempo de protesto». Combinaram-na com os políticos, de cujas mesas se tornaram íntimos, e todos os anos vão cantando o cântigo do desemprego, campo fértil para as promessas de Verão, que hão-de frutificar lá para o fim do ano, com a distribuição dos lucros, uma fogueira que aquece sobretudo os que sabem conservar o combustível do sistema: desempregados qb.
Alguns milhares de pessoas por essa Europa fora sairam ontem à rua para dizer qualquer coisa como «não pode existir Europa social sem respeito pelos trabalhadores». Muita gente nas ruas, discursos alguns e depois o regresso a casa, enquanto a houver, para um fim de semana pacífico, sem grandes problemas de consciência: os sindicalistas protestaram, os políticos ouviram, os trabalhadores deixaram por momentos de trabalhar, os empresários anteciparam o fim de semana, a comunicação social noticiou e os desempregados existiram.
Podemos, pois, dormir tranquilos, o sistema funciona, apesar de algumas deficiências: não é que agora, um pouco por toda a Europa, só se fala de políticos corrompidos por empresas, algumas das quais, periodicamente, necessitam de saneamentos económico-financeiros, tendo, para o efeito, que recorrer a despedimentos em massa?Pequenas falhas, contudo.
Com algum tempo e paciência se chegará a uma forma legislativa adequada ao enquadramento da cooperação entre políticos e empresários. Dessa maneira, os sindicalistas poderão mudar algumas estrofes do cântigo da Primavera e os desempregados permanecerão unidos, cada vez melhor organizados para os desfiles sasonais.
Mais de dez anos depois eu pareço um oráculo. Que pena!!!
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Uma Vitória a Sério
O PAICV obteve ontem uma vitória expressiva nas eleições legislativas de Cabo Verde, em que teve como principal adversário o MpD. Com 52 por cento dos votos expressos, José Maria Neves viu renovada a confiança do povo cabo-verdiano para mais um mandato de cinco anos, durante o qual se espera que novos projectos estruturantes da economia cabo-verdiana garantam igualmente o desenvolvimento de uma sociedade apostada na solução dos problemas sociais, terminando, assim, com os vestígios ainda existentes do neo-liberalismo catastrófico dos tempos da governação de Carlos Veiga.
Carlos Veiga apresenta-se como candidato às eleições presidenciais, tendo como principal adversário Pedro Pires, o actual presidente. As sucessivas derrotas do MpD e de Carlos Veiga são demonstrativas de que os cabo-verdianos não se deixam enganar.
sábado, janeiro 21, 2006
Amílcar Cabral II
Em Janeiro de 1992, no jornal "A Capital", escrevi um texto sobre Amílcar Cabral, que agora aqui recordo:
COM ELE VIVO TUDO SERIA DIFERENTE
AMÍLCAR CABRAL
Os acontecimentos iriam suceder-se a uma velocidade vertiginosa.Vivíamos os primeiros 20 dias do primeiro mês do ano de 1973. Amílcar Cabral é morto por um correlegionário, à frente de sua mulher, Ana Maria, depois de se ter recusado a «entregar-se» a um comando de revoltosos do PAIGC, mais tarde apanhados e fuzilados e que muita gente conota, ora com os serviços de informação portugueses e com o então general Spínola, ou com o presidente da República da Guiné, Sékou Touré.Um ano e pouco mais tarde, em Lisboa, acontecia o 25 de Abril e, sucessivamente todas as colónias portuguesas ascenderam à condição de estados independentes.
Faz, portanto, amanhã, vinte anos que o tiro soou. E, contudo, o som parece ainda ecoar nas planuras guineenses e nas serranias cabo-verdianas, com insistentes apelos ao resto de África, desiludida com as promessas de uma independência anunciada há mais de trinta anos e que nunca mais chega.
Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, Guiné Bissau, filho do professor primário Juvenal Cabral, cabo-verdiano de origem. Amílcar acabaria, de resto, por viver a maior parte da sua adolescência em Cabo Verde, na Cidade da Praia. A juventude, essa passou-a em Lisboa e em Angola. Na capital portuguesa, a frequentar a Faculdade de Agronomia, pela qual obteve o diploma de engenheiro agrónomo. Em Angola, envolvido em importantes estudos agronómicos, que lhe permitiram conhecer algumas regiões daquele país.
Quando voltou à Guiné Bissau já tinha a experiência profissional que lhe permitiu fazer um levantamento social do país, parte do qual foi curiosamente publicado por um boletim da Guiné, editado pelo Ministério do Ultramar, no princípio dos anos 50.Foi no decorrer dos trabalhos de campo na Guiné Bissau que Amilcar Cabral foi amadurecendo as ideias que mais tarde haveria de colocar em prática, ao serviço do PAIGC.
Ele próprio se sentia como protagonista de uma aliança indestrutível: nascido na Guiné Bissau, criado em Cabo Verde, licenciado em Lisboa, foi como cidadão português que conheceu outras parcelas de África.As teorias da unidade que desenvolveu como político e que aplicou à concepção de um sistema de um partido/dois estados acabaram por servir perfeitamente a estratégia de luta de libertação, já que à operacionalidade dos terrenos da Guiné Bissau, o teatro ideal para uma guerra de guerrilha, juntava a importância geo-estratégica de Cabo Verde na conjuntura da época, marcada pela «guerra fria» entre as duas super-potências.
Em Janeiro de 1973 a guerra estava quase no fim. As conversas entre o pessoal do gabinete do então governador da Guiné portuguesa, general António de Spínola, e a direcção do PAIGC já iam avançadas e havia , nessa altura, indicações de que Amilcar Cabral e o general Spínola se poderiam encontrar brevemente.É nesse contexto, difícil de entender hoje, que o tiro de 20 de Janeiro deve ser ouvido.
A morte de Amilcar Cabral foi a morte de um homem multifacetado, apto a entender a linguagem dos diplomatas, mas também capaz de delinear uma estratégia militar alternativa, suficientemente empenhado para ultrapassar as suas próprias dificuldades no domínio de uma língua, e, ao mesmo tempo, bastante ousado para aceitar fazer uma entrevista nessa mesma língua, apenas porque era importante à divulgação dos objectivos da luta.
Capaz de viver nos matos africanos, entender os anseios das suas gentes e interpretar a sua vontade, não fugia ao diálogo elaborado de qualquer literato ocidental, nem ao entusiasmo dos seus próprios homens pelo futebol.Em 1966 a guerrilha abrandou um pouco para que os guerrilheiros pudessem seguir com atenção e entusiasmo a carreira da equipa portuguesa no mundial de futebol de Inglaterra.
Comandante militar de um grupo que foi engrossando com gente das mais diversas proveniências, conseguiu conciliar a admninistração de uma justiça severa, para não quebrar a disciplina, com as disputas nascidas no seio desse mesmo grupo, sem abdicar do essencial da sua estratégia.
Uma estratégia de luta, não adaptada à realidade gerada com a independência política dos dois paises em nome dos quais Amilcar Cabral lutou: Guiné Bissau e Cabo Verde, cuja «unidade» resistiu pouco tempo à sua morte.Pouco interessa que os partidos que assumiram a liderança política naqueles dois paises tenham incluído na sua linguagem o slogan «Cabral ka muri» (Cabral não morreu).É que a sua morte afectou de maneira indelével a história desses dois estados e não só: muito provavelmente, o rumo dos acontecimentos em Angola teria sido bem diferente do que tomou, já que Amilcar Cabral tinha uma grande influência junto dos dirigentes do MPLA, nomeadamente junto de Agostinho Neto, afinal o principal responsável pela condução de uma política de afastamento de Portugal, que Amilcar Cabral, certamente, nunca teria apadrinhado, mesmo com os condicionalismos dos compromissos assumidos pelo MPLA com a URSS.
Amilcar Cabral teria este ano 70 de idade. É impossível imaginar qual teria sido o seu percurso e como teria reagido aos ventos que a histórias entretanto soprou, mas os testemunhos dos que com ele privaram deixam, pelo menos, a possibilidade de podermos afirmar que com ele teria sido diferente. É isso que os camponeses da Guiné Bissau querem significar, quando se recusam a aceitar a sua morte. É isso que o cidadão cabo-verdiano, sendo embora do MPD, actual partido no poder, quer dizer quando aceita Amilcar Cabral como o «pai» da sua própria cidadania.
Amilcar Cabral
Faz hoje 33 anos que Amílcar Cabral foi morto. Era já noite, em Conackry , quando um grupo de homens se aproximou do então Secretário Geral do PAIGC, tentanto manietá-lo e, dessa maneira, concretizar um "golpe"na direcção daquele movimento de libertação. A aproximação foi feita à saída dos escritórios do Partido e, perante a resistência de Amílcar, um dos homens baleou-o. O Comandante caiu junto ao Volkswagen que usava na capital da Guiné Conackry. Ana Maria Cabral estava junto dele.
Na sequência do golpe, Aristides Pereira foi amarrado e conduzido para alto mar, num barco, que, supõe-se, rumaria Bissau.
Entretanto, as forças leais a Amílcar reagiram e anularam o golpe. Infelizmente já não conseguiram evitar o assassinato mais dramático das lutas de libertação nacional ocorridas em três das cinco ex-colónias portuguesas. De facto, o dirigente guineense, de origem cabo-verdiana, foi de todos o mais brilhante político e estratega, concebendo uma luta política e uma guerra de libertação para dois países, unificados por um Partido.
O sucesso da guerra foi, todavia, uma das razões do desencadear de ódios de tipo racista, já que, perante a perspectiva de uma vitória, o poder começou a apetecer a toda a gente, independentemente de competências. Percebeu-se, mais tarde, que a todos bastava evocar a condição de combatente para ter direito a mordomias e à exploração desenfreada dos recursos do Estado entretanto criado.
Basta lembrar que a Guiné Bissau foi o país de toda a história da cooperação internacional que mais dinheiro recebeu da comunidade internacional e que, no final, nada restou.
A morte de Amílcar trazia consigo a morte da estratégia de unidade entre Cabo Verde e Guiné Bissau, que acabou por acontecer, definitivamente em 14 de Novembro de 1980.
Trinta e três anos depois da morte de Amílcar Cabral e mais de 25 da morte do seu projecto político, Cabo Verde está em vésperas de um quarto acto eleitoral para uma Assembleia Legislativa e de uma quarta eleição de um Presidente da República. O país deixou de ser "inviável" já há muitos anos e o seu crescimento económico vai garantindo melhorias significativas na vida dos seus habitantes.
A Guiné Bissau corre cada vez mais o risco de ser engolida a Norte e a Sul, já que, depois do golpe de 1980 nunca conseguiu ser mais que uma cidade-estado, onde se concentra a maioria da população para tentar sacar do aparelho do estado uma forma de sobrevivência. O resto é o vazio e a população sente-se entregue a si própria, pelo que vai resolvendo os seus problemas mais a Norte ou Mais a Sul, mas sempre em francês.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
UM DIA MAIS QUE ONTEM
Um dia mais às vezes pesa arroubas. Lembro-me de menino e moço ter ido à travessa das Salgadeiras. Encolhido e nervoso, com dez escudos no bolso. Nada de confusões. Ia a um estabelecimento legalizado efectuar uma transacção absolutamente natural. Não posso deixar de sorrir, com nostalgia, por ter usado um termo dúbio, sem intensão pervertida. Segundo a terminologia da época, digamos, ia perder os três. Era comum a senhora perguntar se era isto ou aquilo ou só o natural ou, em alguns casos ser mais convencional: «aqui, rico, só o natural».
O mais natural de tudo era ficar embaraçado e não saber que dizer. Seguiam-se as risadas e uns quantos remoques brejeiros.
O mesmo género de embaraço e de timidez voltei a senti-lo aos 20 anos, quando os mancebos
iam às sortes. Mandavam-os despir e pendurar as roupas nos cabides. Não havia bancos e muitos menos cabides. Havia muito barulho, muita gargalhada e algum embaraço, como era o meu caso. Mas nunca me esqueci desse dia. Um jovem, vermelho de vergonha, alvo de chacota geral devido à erecção formidável que exibia. De súbito apareceram, vestidos, três militares graduados, que se riam, mas foram abrindo espaço para chegar junto do bem atestado recruta:
«Então o que é isso, rapaz? Porque é que estás assim?»
Dois deles voltaram-se e com gestos mandaram calar os alvoraçados. No entretanto a única coisa que baixou foi a cabeça atarantado rapaz: «Saiba vossa mercê que é por mór dos cuzes...»!
Hoje li com gosto a versão mais ou menos histórica de Vasco Pulido Valente sobre os últimos três presidentes. Ele tem estatuto que lhe permite triturar seja quem for que tenha morado em Belém nos últimos trinta anos, bem como os amigos dilectos. Pela minha parte havia-me limitado a salientar que Mário Soares não era bem o que Sócrates tinha dito e fico feliz por alguém, bem melhor do que eu o ter demonstrado. Pintado por ele, toda aquela gente presidenciada se expôr desnuda.
Gente totalmente vestida cada vez se vê menos. Resta o manto diáfano da fantasia sobre o
procurador-geral da República...
O mais natural de tudo era ficar embaraçado e não saber que dizer. Seguiam-se as risadas e uns quantos remoques brejeiros.
O mesmo género de embaraço e de timidez voltei a senti-lo aos 20 anos, quando os mancebos
iam às sortes. Mandavam-os despir e pendurar as roupas nos cabides. Não havia bancos e muitos menos cabides. Havia muito barulho, muita gargalhada e algum embaraço, como era o meu caso. Mas nunca me esqueci desse dia. Um jovem, vermelho de vergonha, alvo de chacota geral devido à erecção formidável que exibia. De súbito apareceram, vestidos, três militares graduados, que se riam, mas foram abrindo espaço para chegar junto do bem atestado recruta:
«Então o que é isso, rapaz? Porque é que estás assim?»
Dois deles voltaram-se e com gestos mandaram calar os alvoraçados. No entretanto a única coisa que baixou foi a cabeça atarantado rapaz: «Saiba vossa mercê que é por mór dos cuzes...»!
Hoje li com gosto a versão mais ou menos histórica de Vasco Pulido Valente sobre os últimos três presidentes. Ele tem estatuto que lhe permite triturar seja quem for que tenha morado em Belém nos últimos trinta anos, bem como os amigos dilectos. Pela minha parte havia-me limitado a salientar que Mário Soares não era bem o que Sócrates tinha dito e fico feliz por alguém, bem melhor do que eu o ter demonstrado. Pintado por ele, toda aquela gente presidenciada se expôr desnuda.
Gente totalmente vestida cada vez se vê menos. Resta o manto diáfano da fantasia sobre o
procurador-geral da República...
UM DIA MAIS QUE ONTEM
Um dia mais às vezes pesa arroubas. Lembro-me de menino e moço ter ido à travessa das Salgadeiras. Encolhido e nervoso, com dez escudos no bolso. Nada de confusões. Ia a um estabelecimento legalizado efectuar uma transacção absolutamente natural. Não posso deixar de sorrir, com nostalgia, por ter usado um termo dúbio, sem intensão pervertida. Segundo a terminologia da época, digamos, ia perder os três. Era comum a senhora perguntar se era isto ou aquilo ou só o natural ou, em alguns casos ser mais convencional: «aqui, rico, só o natural».
O mais natural de tudo era ficar embaraçado e não saber que dizer. Seguiam-se as risadas e uns quantos remoques brejeiros.
O mesmo género de embaraço e de timidez voltei a senti-lo aos 20 anos, quando os mancebos
iam às sortes. Mandavam-os despir e pendurar as roupas nos cabides. Não havia bancos e muitos menos cabides. Havia muito barulho, muita gargalhada e algum embaraço, como era o meu caso. Mas nunca me esqueci desse dia. Um jovem, vermelho de vergonha, alvo de chacota geral devido à erecção formidável que exibia. De súbito apareceram, vestidos, três militares graduados, que se riam, mas foram abrindo espaço para chegar junto bem atestado recruta:
«Então o que é isso, rapaz? Porque é que estás assim?»
Dois deles voltaram-se e com gestos mandaram calar os alvoraçados. No entretanto a única coisa que baixou foi a cabeça atarantado rapaz: «Saiba vossa mercê que é por mór dos cuzes...»!
Hoje li com gosto a versão mais ou menos histórica de Vasco Pulido Valente sobre os últimos três presidentes. Ele tem estatuto que lhe permite triturar seja quem for que tenha morado em Belém nos últimos trinta anos, bem como os amigos dilectos. Pela minha parte havia-me limitado a salientar que Mário Soares não era bem o que Sócrates tinha dito e fico feliz por alguém, bem melhor do que eu o ter demonstrado. Pintado por ele, toda aquela gente presidenciada se expôr desnuda.
Gente totalmente vestida cada vez se vê menos. Resta o manto diáfano da fantasia sobre o
procurador-geral da República...
O mais natural de tudo era ficar embaraçado e não saber que dizer. Seguiam-se as risadas e uns quantos remoques brejeiros.
O mesmo género de embaraço e de timidez voltei a senti-lo aos 20 anos, quando os mancebos
iam às sortes. Mandavam-os despir e pendurar as roupas nos cabides. Não havia bancos e muitos menos cabides. Havia muito barulho, muita gargalhada e algum embaraço, como era o meu caso. Mas nunca me esqueci desse dia. Um jovem, vermelho de vergonha, alvo de chacota geral devido à erecção formidável que exibia. De súbito apareceram, vestidos, três militares graduados, que se riam, mas foram abrindo espaço para chegar junto bem atestado recruta:
«Então o que é isso, rapaz? Porque é que estás assim?»
Dois deles voltaram-se e com gestos mandaram calar os alvoraçados. No entretanto a única coisa que baixou foi a cabeça atarantado rapaz: «Saiba vossa mercê que é por mór dos cuzes...»!
Hoje li com gosto a versão mais ou menos histórica de Vasco Pulido Valente sobre os últimos três presidentes. Ele tem estatuto que lhe permite triturar seja quem for que tenha morado em Belém nos últimos trinta anos, bem como os amigos dilectos. Pela minha parte havia-me limitado a salientar que Mário Soares não era bem o que Sócrates tinha dito e fico feliz por alguém, bem melhor do que eu o ter demonstrado. Pintado por ele, toda aquela gente presidenciada se expôr desnuda.
Gente totalmente vestida cada vez se vê menos. Resta o manto diáfano da fantasia sobre o
procurador-geral da República...
segunda-feira, janeiro 16, 2006
AVANÇAR PARA TRÁS
Não tem nada de complicado, nem se confunde com ficar parado. É diferente de não ser assim nem assado. E é exactamente o contrário de ir em frente. É como se fosse a nadar para o largo, o longo além e a maré o trouxesse tranquilamente para a praia, frustrando um qualquer suicídio patético. E a propósito do aumento das rendas dei por mim a viajar. As questões sociais fascinam-me. Não que eu pague renda. Fui pagando por uma até ser minha. Mas nem moro lá.
Serve para os filhos, quando aparecem por Lisboa. Ou para o neto, um que ainda estuda por cá. Os irmãos e os primos optaram pelo Cabo. É isto! Seja por onde for que eu tente ir acabo sempre
perdido em África.
«Primeiro entranha-se; depois entranha-se» foi a expressãp publicitária que Pessoa utilizou para «vender» cocacola. O poeta precisava de comer, pelo menos quase tanto como o comum dos mortais! Mas a frase ainda hoje me parece mais propícia para definir África, o mais ultrajado dos continentes. Nem chegou a uma dúzia de anos a minha experiência africana! À chegada estranhei, claro, o clima e a sinfonia nocturna dos insectos. A osga que vi na parede do quarto da pensão onde pernoitei era mais clara e menos repulsiva do que as europeias, que vira antes. Ali, o bicho, tornava-se o objecto doméstico anti-mosquito tão respeitado como a seguir descobri que era o abutre, o operacional preferido da mãe natureza para zelar pela qualidade de vida!Era isso, era. Primeiro estranhava-se; depois aprendia-se. A África entranha-se, essa é que é essa e o
poeta que cresceu e estudou em África passou por isso!
Trinta anos depois do meu regresso continuo «desterrado». Avesso à chuva e ao Sol, ao frio e ao Verão tórrido. Eternamente desconfiado das instituições e dos políticos, dos polícias e dos ladrões.
O período eleitoral não ajuda nada o meu espírito confundido, que não entende este modo arruaceiro de propor um presidente como quem vende banha da cobra, uma pomada comprovadamente mágica, que tanto cura a sarna como a impotência. Ontem ouvi o ministro de Estado e no pedaço que escutei não se falou de governação mas de eleição presidencial e espantou-me que alguém culto, livre e voluntariamente de esquerda procurasse condicionar o voto ao seu semelhante, em nome de uma mentira voluntária. Em boa e honesta verdade o homem, o político, mesmo quando presidente, nunca foi um modelo de pacificação ou de estabilidade. Não foi o pai nosso que esteve em Belém!
Não. Não foi. Foi sim o político ajustador de contas. Primeiro entre iguais, começando pelo então secretário geral do PS (é hoje presidente do Banco de Portugal), que se viu constragido a bater estrondosamente com a porta. O próprio Sampaio, que se seguiu no largo do Rato, não teve vida fácil, mas a derrota eleitoral mais ou menos prevista levou-o à demissão e à pacificação.
No segundo mandato tudo mudou. Cavaco embevecido pela cordialidade belenense nem quis ter candidato e quando de Belém lhe começaram a apertar os calos nem quis acreditar. Depois foi o
calvário. Afinal o presidente tinha poderes, tinha meios e não tinha contemplações.
Se alguém neste país sabe utilizar os poderes presidenciais para derubar adversários é esse idoso candidato ao retorno. Mas o governo também sabe e por isso procura pôr-se à sombra. É um facto que não soube gerir o conflito interno que estalou com a desfeita a Manuel Alegre. É manifesto que nem Mário Soares, nem o PS e menos o governo acreditaram que Alegre pudesse constituir um estorvo.
Aquando da sucessão de Eanes, o quadro existente pareceu favorável à direita, consubstanciado em Freitas do Amaral, que reunia o apoio do PSD e CDS. Do lado esquerdo perfilavam-se Salgado Zenha, Lurdes Pintasilgo e Mário Soares. Proveniente de uma série de governos de maioriaa absolutamente desastradas e quando era ao PS que mais se apresentava a factura, Soares, desgastado, aceitou candidatar-se em condições melindrosas.
O problema que se levantou à esquerda era delicado. Por um lado o PC de Cunhal detestava Mário Soares, mas temia-o. Apostar em Zenha era uma aposta razoável. Por uma vez o PC podia pescar em águas do PS, mas Maria de Lurdes Pintasilgo intrometia-se perigosamente. Um pouco como Alegre, ela acreditava que tinha sido ludibriada por Eanes. Ela que dera a cara pelo presidente ao chefiar um governo de transição, tinha ido a Belém saber de Eanes se podia avançar uma candidatura, crente que um sim significaria apoio. Mas não significou. Eanes preferiu apoiar Zenha, que reunia também a preferência do PC.
E nas hostes de Freitas do Amaral discutia-se qual o adversário desejado para a segunda volta. Curiosamente o adversário menos temido era Mário Soares. A desavença centrava-se em saber qual dos outros, Zenha ou Pintasilgo era mais perigoso!
Cunhal lastimou que os votos em Pintasilgo tivessem afastado Zenha da segunda volta, mas mobilizou e mobilizou-se para apoiar Soares. Não sei se chegou ou não a arrepender-se. Fosse como fosse Soares derrubou a direita, esfarelou o governo do PSD, entreabriu a porta a Sampaio e saiu pela esquerda alta. Acostumou-se a dizer que era um corredor de fundo. Vinte anos depois já não deve correr tanto, mas ainda anda ali para as curvas.
Em Angola uma vez por outra fala-se de eleições e depois muda-se de conversa. Mas África não é só a petrolífera Angola. Em Cabo Verde vão acontecer eleições legislativas este domingo e as presidenciais já se vislumbram no horizonte. Tem que se começar por algum lado. Bolas! não posso dizer isto sem me lembrar logo do inditoso Tavares da Silva, que dizia a mesma coisa sempre que beijava a mão à senhoras...
Serve para os filhos, quando aparecem por Lisboa. Ou para o neto, um que ainda estuda por cá. Os irmãos e os primos optaram pelo Cabo. É isto! Seja por onde for que eu tente ir acabo sempre
perdido em África.
«Primeiro entranha-se; depois entranha-se» foi a expressãp publicitária que Pessoa utilizou para «vender» cocacola. O poeta precisava de comer, pelo menos quase tanto como o comum dos mortais! Mas a frase ainda hoje me parece mais propícia para definir África, o mais ultrajado dos continentes. Nem chegou a uma dúzia de anos a minha experiência africana! À chegada estranhei, claro, o clima e a sinfonia nocturna dos insectos. A osga que vi na parede do quarto da pensão onde pernoitei era mais clara e menos repulsiva do que as europeias, que vira antes. Ali, o bicho, tornava-se o objecto doméstico anti-mosquito tão respeitado como a seguir descobri que era o abutre, o operacional preferido da mãe natureza para zelar pela qualidade de vida!Era isso, era. Primeiro estranhava-se; depois aprendia-se. A África entranha-se, essa é que é essa e o
poeta que cresceu e estudou em África passou por isso!
Trinta anos depois do meu regresso continuo «desterrado». Avesso à chuva e ao Sol, ao frio e ao Verão tórrido. Eternamente desconfiado das instituições e dos políticos, dos polícias e dos ladrões.
O período eleitoral não ajuda nada o meu espírito confundido, que não entende este modo arruaceiro de propor um presidente como quem vende banha da cobra, uma pomada comprovadamente mágica, que tanto cura a sarna como a impotência. Ontem ouvi o ministro de Estado e no pedaço que escutei não se falou de governação mas de eleição presidencial e espantou-me que alguém culto, livre e voluntariamente de esquerda procurasse condicionar o voto ao seu semelhante, em nome de uma mentira voluntária. Em boa e honesta verdade o homem, o político, mesmo quando presidente, nunca foi um modelo de pacificação ou de estabilidade. Não foi o pai nosso que esteve em Belém!
Não. Não foi. Foi sim o político ajustador de contas. Primeiro entre iguais, começando pelo então secretário geral do PS (é hoje presidente do Banco de Portugal), que se viu constragido a bater estrondosamente com a porta. O próprio Sampaio, que se seguiu no largo do Rato, não teve vida fácil, mas a derrota eleitoral mais ou menos prevista levou-o à demissão e à pacificação.
No segundo mandato tudo mudou. Cavaco embevecido pela cordialidade belenense nem quis ter candidato e quando de Belém lhe começaram a apertar os calos nem quis acreditar. Depois foi o
calvário. Afinal o presidente tinha poderes, tinha meios e não tinha contemplações.
Se alguém neste país sabe utilizar os poderes presidenciais para derubar adversários é esse idoso candidato ao retorno. Mas o governo também sabe e por isso procura pôr-se à sombra. É um facto que não soube gerir o conflito interno que estalou com a desfeita a Manuel Alegre. É manifesto que nem Mário Soares, nem o PS e menos o governo acreditaram que Alegre pudesse constituir um estorvo.
Aquando da sucessão de Eanes, o quadro existente pareceu favorável à direita, consubstanciado em Freitas do Amaral, que reunia o apoio do PSD e CDS. Do lado esquerdo perfilavam-se Salgado Zenha, Lurdes Pintasilgo e Mário Soares. Proveniente de uma série de governos de maioriaa absolutamente desastradas e quando era ao PS que mais se apresentava a factura, Soares, desgastado, aceitou candidatar-se em condições melindrosas.
O problema que se levantou à esquerda era delicado. Por um lado o PC de Cunhal detestava Mário Soares, mas temia-o. Apostar em Zenha era uma aposta razoável. Por uma vez o PC podia pescar em águas do PS, mas Maria de Lurdes Pintasilgo intrometia-se perigosamente. Um pouco como Alegre, ela acreditava que tinha sido ludibriada por Eanes. Ela que dera a cara pelo presidente ao chefiar um governo de transição, tinha ido a Belém saber de Eanes se podia avançar uma candidatura, crente que um sim significaria apoio. Mas não significou. Eanes preferiu apoiar Zenha, que reunia também a preferência do PC.
E nas hostes de Freitas do Amaral discutia-se qual o adversário desejado para a segunda volta. Curiosamente o adversário menos temido era Mário Soares. A desavença centrava-se em saber qual dos outros, Zenha ou Pintasilgo era mais perigoso!
Cunhal lastimou que os votos em Pintasilgo tivessem afastado Zenha da segunda volta, mas mobilizou e mobilizou-se para apoiar Soares. Não sei se chegou ou não a arrepender-se. Fosse como fosse Soares derrubou a direita, esfarelou o governo do PSD, entreabriu a porta a Sampaio e saiu pela esquerda alta. Acostumou-se a dizer que era um corredor de fundo. Vinte anos depois já não deve correr tanto, mas ainda anda ali para as curvas.
Em Angola uma vez por outra fala-se de eleições e depois muda-se de conversa. Mas África não é só a petrolífera Angola. Em Cabo Verde vão acontecer eleições legislativas este domingo e as presidenciais já se vislumbram no horizonte. Tem que se começar por algum lado. Bolas! não posso dizer isto sem me lembrar logo do inditoso Tavares da Silva, que dizia a mesma coisa sempre que beijava a mão à senhoras...
O "Desenterrado Cabo-Verdiano"
Enquanto em Portugal se faz uma campanha para eleições presidenciais, em Cabo Verde ocorre uma para eleições legislativas( 22 de Janeiro), mas já está no terreno a pré-campanha para as presidenciais. A vitória do PAICV parece assegurada nas legislativas, tanto mais que o governo, liderado por José Maria Neves durante cinco anos, está, só agora, a mostrar a obra que realizou, pela simples razão de que nunca teve capacidade de a ir mostrando através dos órgãos de comunicação nacional, totalmente dominados pela oposição, inclusivé a Televisão pública.
A eleição presidencial parece ser mais difícil porque também em Cabo Verde vai aparecer um "desenterrado" político: Carlos Veiga.
Tal como Cavaco Silva, por mais de dez anos nada fez do ponto de vista político. Aliás, abandonou o governo antes das eleições de 2001, para se candidatar à Presidência da República tendo sido derrotado.
Foi primeiro-ministro pelo MpD depois de , em 1990 e princípios de 1991 ter feito um campanha verdadeiramente sórdida, servindo-se de panfletos anónimos em que se acusavam os principais dirigentes do PAICV de corrupção e apoiando-se numa igreja retrógada, reaccionária, habituada a viver às costas de um povo trabalhador e sofredor.
Fez a primeira legislatura até ao fim , a segunda abandonou-a, mas ele e os seus amigos ficaram todos ricos.
A grande diferença entre Pedro Pires e Carlos Veiga é avaliada por este facto: Pires, depois de 15 anos de governação de um país que ninguém acreditava pudesse ver a ser viável, quando abandonou o poder teve que ir viver para casa da mãe. Nem uma casa tinha. Parta ter carro, foi necessário que os emigrantes da Ilha do Fogo, a viver nos Estados Unidos, se cotizassem para lhe comprarem um.
Mas o país era conhecido em todo o Mundo, tinha um grande prestígio internacional e os seus índices de crescimento económico impressionavam os analistas mais optimistas.
Pires não abandonou o Partido, reconstruíu-o, abriu-o a novas lideranças a quem emprestou a sua experiência e as suas relações internacionais.
Carlos Veiga começou a enriquecer à custa do regime de partido único , que nunca se atreveu a criticar de forma aberta, de peito aberto, sempre escondido por detrás de processos sujos e comportando-se com o Estado como qualquer técnico internacional, cobrando os serviços que prestava segundo as tabelas das Nações Unidas.
Depois que abandonou o lugar de primeiro-ministro, os seus amigos e os seus familiares eram ricos. Abandonou o partido e dedicou-se aos negócios, passando a maior parte do tempo fora.
Para trás ficou um Estado sem dinheiro, apesar das privatizações integradas num sistema neo-liberal económico catastrófico. Com Carlos Veiga no poder, Cabo Verde perdeu o que de mais importante tinha - o grande prestígio internacional, que ditava uma confiança total dos financiadores dos grandes projectos de construção do país.
Com Carlos Veiga, as grandes obras agrícolas e todo o processo de reflorestação foram abandonados, o povo cabo-verdiano começou a rumar as cidades, onde como em toda a África, começou a juntar-se gente e mais gente em condições cada vez menos humanas. Hoje, a Cidade da Praia sugere o Líbano e, do ponto de vista urbanístico, não tem solução.
Nada disso interessava, nada disso interessou a Carlos Veiga, que afundou o país numa crise só conhecida durante os temos coloniais. A corrupção aconteceu de forma quantificável. Um dos seus braços direitos transformou-se no proprietário de uma rede nacional de distribuição alimentar. Pouco anos antes não tinha dinheiro nem para roupa...
Mas a memória do povo costuma ser curta e é provável que, depois de dez anos, também em Cabo Verde, o povo se esqueça do que deve a Carlos Veiga. Ele, seguramente, não se lembrará que enriqueceu à custa de um povo pobre.
É provável, por isso, que a disputa eleitoral seja rija, mas a honestidade de Pedro Pires e a grandeza do seu nome, reconhecido internacionalmente como um dos dirigentes dignos de toda a África, não deixarão de o impôr para mais um mandato na Presidência da República de Cabo Verde, onde seria desejável nunca entrassem homens como Carlos Veiga, para não se transformar em mais um mercado do "plateau".
sexta-feira, janeiro 13, 2006
Eanes
É um pouco difícil passar ao lado, completamente, do actual momento de Portugal com presidenciais à porta, sobretudo porque o que está em causa nesta eleição é a eventualidade de um regresso a um passado tão longínquo que até assusta, ao tempo dos militares que faziam a guerra nas colónias, faziam comissões sobre comissões e só quando os seus privilégios começaram a ser tocados se lembraram que talvez houvesse uma saída política para a situação.
Passei quase quatro anos a vê-los, sei do que falo.
O General Eanes foi dos que sempre fez todas as guerras coloniais, de todas as maneiras, aos tiros e nas psicos. Sempre foi um enigma para mim. Ao contrário da maior parte dos analistas políticos, que, em certa altura, se especializaram na leitura dos discuros eanistas, eu nunca consegui perceber nada para além do que via: óculos escuros, patilhas e um tom de voz autoritário, a roçar a violência.
Confesso que as atitudes do general, depois que saiu da Presidência me surpreenderam e até fiquei mais aberto a tentar percebê-lo.
Hoje, todavia, ouvi na Rádio ( com todos os riscos que isso implica, já que não se pode - de todo - confiar nos critérios jornalísticos) um discurso do General em que ele põe a nu o seu verdadeiro entendimento do poder. Para ele, quanto mais, melhor.
Dizia o General Eanes que era muito importante uma vitória do Cavaco, logo à primeira volta, porque isso significa uma determina força política, confere autoridade, bla...bla...bla...
Então, onde é que está o democrata? Para que precisa o presidente de força, de autoridade? Para impôr o quê?
Ora aí está um favor que o general fez às candidaturas de esquerda: revelou a verdadeira natureza de quem está por detrás de Cavaco. Além de que é estranho ver Eanes a apoiar poderes ocultos, que pagam mas não mostram a cara...ele sempre teve fama de homem franco, claro. Ou será, que também essas características faziam parte das patilhas, dos óculos escuros e da voz imtimidatória?
terça-feira, janeiro 10, 2006
Os Amigos do Rola
Tenho um amigo muito especial, o Rola da Silva, Henrique, que me retribui a amizade. É uma amizade de que me orgulho muito. O Rola é um intelectual honesto, estudioso, interessado, que não se importa de colocar aquilo que sabe à disposição de quem quer que seja. Tem uma vasta obra publicada e as suas crónicas em diversos jornais de Angola e também de Portugal fizeram dele um analista considerado. Com uma experiência muito importante em Macau publicou pelo menos três livros sobre a realidade daquele território sob a dominação portuguesa.
Foi um importante colaborador do jornal "África" e aí, não só a sua experiência no campo dos jornais e do jornalismo foi preciosa como a sua amizade valeu por milhares de colaborações.
O Rola, que actualmente vive em Benavente, numa casa onde, se entrar mais um livro terá ele de sair, faz parte da minha vida de várias formas. Uma delas tem a ver com os seus amigos da adolescência. Uma adolescência que já aconteceu há muitos anos.
Um grupo de homens, que, enquanto adolescentes frequentavam o mesmo café, na zona de Picoas e, a maior parte, era estudante do Liceu Camões, há mais de sessenta anos, encontra-se hoje, nas primeiras segundas feiras de cada vez, para almoçar juntos.
Hoje era o dia e eu tinmha prometido aparecer porque o Henrique resolveu já há uns tempos juntar-me ao seu grupo de de amigos.
Só que a vida não permitiu ( continuo a pensar que consigo resolver tudo e vou atrás de todos os problemas).
O almoço aconteceu, pela primeira vez, num restaurante nas Picoas e não na Praça do Chile, pela simples razão de que um dos membros do grupo, afectado por um "acv" já há uns tempos, era conduzido por um filho a todos os almoços e no Chile era difícil estacionar o automóvel que o deixaria para o almoço.
Era, carinhosamente, tratado pela "alcunha" que o tinha marcado nos tempos do Liceu, o "TimTim".
Chegava, com um olhar meigo, estendia a mão a todos, saboreava aqueles momentos de convívio com os amigos e, depois, lá ia, amparado pelo filho e por muitos de nós.
Hoje o Tim Tim não apareceu. Faleceu, entretanto. Docemente, enquanto dormia, explicou o filho, acompanhado de uma irmã, que fizeram questão de ir ao almoço com os amigos do pai.
E eu não estava lá para dizer aos filhos do "Tim Tim " o quanto apreciava a presença daquele pai, que embora doente, parecia sereno consigo mesmo e com a vida.
Tenho a certeza de que os amigos do Rola, entretanto feitos meus amigos, terão sabido transmitir aos filhos do "Tim Tim" a cereteza de uma amizade válida em todas as dimensões.
segunda-feira, janeiro 09, 2006
VENHA O DIABO E ESCOLHA
Foi o que me ocorreu depois de reflectir, quando os angolanos tiveram eleições. O que contou para os angolanos, para a esmagadora maioria deles foi o exercício de afirmação, um tipo de liberdade que nunca tiveram. Os dados estavam viciados à partida. A soma dos votos seria, como foi, irrelevante. De um lado um muito mau; do outro um muito péssimo. Fosse qual fosse
o efeito da soma das cruzes o resultado seria o mesmo: o calvário.
O problema com as eleições é a falta de sentido. Não se escolhe o melhor por ser melhor. Nem sequer o mais hábil por ser mais hábil, como ocorre por aqui, neste pedaço da Europa. As mais das vezes são as forças da inércia a comandar os destinos. Quando Salazar caíu da cadeira, o regime não percebeu logo que estava enferrujado. Marcelo, que inventou as «conversas em família», que o afilhado haveria de continuar, tentou arejar as ideias e a governação, mas logo o regime torceu o nariz, escorando-se no almirante Thomaz (a grafia é para sublinhar as teias de aranha!). Mas a idade é o que é, mesmo quando não parece, e o sucessor do botas pôs o Presidente da República a falar, pela televisão, aos portugueses. Foi o fim da macacada. E o fim do regime, a cair de podre.
Inevitavelmente há um fim para tudo e nisso eu acredito e nem preciso de participar. Basta-me estar quieto. Quando insistem comigo para participar, que não é só um direito, é igualmente um dever, eu murmuro para dentro: «Sim,pois, mas já dei»...
A ideia de andar para trás não rejuvenesce. Em Luanda estão tristes por falta de eleições. E candidatos ? Quem como e onde? Qualquer general trapalhão,pode dar um golpe e ser feliz, mas sem esse risco de sangue não há como, salvo se um qualquer Bush precisar de gasolina para o isqueiro...
o efeito da soma das cruzes o resultado seria o mesmo: o calvário.
O problema com as eleições é a falta de sentido. Não se escolhe o melhor por ser melhor. Nem sequer o mais hábil por ser mais hábil, como ocorre por aqui, neste pedaço da Europa. As mais das vezes são as forças da inércia a comandar os destinos. Quando Salazar caíu da cadeira, o regime não percebeu logo que estava enferrujado. Marcelo, que inventou as «conversas em família», que o afilhado haveria de continuar, tentou arejar as ideias e a governação, mas logo o regime torceu o nariz, escorando-se no almirante Thomaz (a grafia é para sublinhar as teias de aranha!). Mas a idade é o que é, mesmo quando não parece, e o sucessor do botas pôs o Presidente da República a falar, pela televisão, aos portugueses. Foi o fim da macacada. E o fim do regime, a cair de podre.
Inevitavelmente há um fim para tudo e nisso eu acredito e nem preciso de participar. Basta-me estar quieto. Quando insistem comigo para participar, que não é só um direito, é igualmente um dever, eu murmuro para dentro: «Sim,pois, mas já dei»...
A ideia de andar para trás não rejuvenesce. Em Luanda estão tristes por falta de eleições. E candidatos ? Quem como e onde? Qualquer general trapalhão,pode dar um golpe e ser feliz, mas sem esse risco de sangue não há como, salvo se um qualquer Bush precisar de gasolina para o isqueiro...
domingo, dezembro 25, 2005
Recordação de Natal
Dezembro de 1972. Um bom amigo foi visitar-me a casa da minha irmã, onde estava com os meus filhos. Fazer-me uma surpresa, dar-me um presente. No regresso, na subida da estrada que vinha do aeroporto, no Lubango, a chamada subida da Mobil, a oficina do Amâncio, um louco, que vinha da esquerda ampanhou o Fiat 850 do Humberto Ricardo e atirou-o a não sei quantos metros, já para lá da rua que descia para o campo do Benfica.
O Ricardo foi para o Hospital e todos nós nos mobilizámos à sua volta. Entrou em coma, estado que manteve por onze dias, sempre vigiado pelos drs. Palha e Carneiro e pelo Enfermeiro Serafim Jorge, membro fundador da AMI.Foi para Luanda e voltou - nunca à sua vida normal, porque entre a pancada do louco e os vários meses de Hospital, ficou muito do seu humor, da sua sagacidade, da sua enorme alegria de viver e algum do seu encanto.
Aconteceu, entretanto, o 25 de Abril e a confusão administrativa estabeleceu-se. As Companhias de Seguros aproveitaram para não pagar o que tinham para pagar e o Ricardo teve que resolver os seus problemas sózinho. Tinha tirado o "brevet" há pouco tempo, mas o desastre tirou-lho. E, com ele, os seus grandes sonhos de voar céus altos, lonjuras distantes.
Todos os Natais, além de outras lembranças, tenho este Ricardo a entrar-me pela cabeça e a encher-ma de "ses". Viva, Humberto, Boas Festas!
"O Último Adeus..."
No título deste post falta uma palavra. Não a escrevo porque não quero, de algum modo, fazer publicidade a um escrito - que me foi oferecido com a melhor das intenções - mas que reflecte a displicência dos nossos dias. Eu diria mesmo: o atrevimento da ingnorância. Um homem, com carteira profissional de jornalista, com um curriculum descrito no próprio livro e que o dá como repórter de várias guerras, atreve-se a um sub-título como "História das Relações Entre Portugal e Angola - Do Início da Guerra Colonial Até à Independência".
E depois, em 366 páginas, sem contar com o glossário de siglas e a bibliografia, só contam as citações. Até a organização do livro se tem pés não tem cabeça e se tem pés também não tem mãos.
E isto deve-se a um simples facto: quem tem o saber e a capacidade não está para isso. É uma grande embrulhada de mentiras. Só os anos vão dar conta delas. Entretanto, algumas editoras aproveitam o eventual interesse de um certo público ainda virado para a "saudade" e vão tentando ganhar algum dinheiro com narrativas completamente desprovidas de sentido. Que o dinheiro lhes seja leve.
sábado, dezembro 17, 2005
Chico Bamba/ Congo
As pessoas que regulam estas geringonças da Net devem ter boas razões para alterar procedimentos. Era bom, todavia, que as explicassem aos simples mortais utilizadores.
Eu explico: até há pouco tempo, escrevia um texto e, quando o queria publicar indicava o dia, a hora e os minutos em que tal operação estava a ser feita. Desse modo, havia uma sequência cronológica dos meus textos e eu tinha a certeza de quem passasse pelo blogue descobria, num primeiro olhar, a novidade.
Agora não tenho essa possibilidade. Os textos são publicados às horas mais disparatadas. Mas, até hoje, nunca me tinha acontecido que um texto publicado hoje (dia 17 de Dezembro) apareça no blogue pertencendo ao dia 14, antes de outros dois ou três. Sendo assim, os leitores habituais, ou não, deixam de ter a possibilidade de ler aquele texto.
Acontece que hoje acabei um texto sobre o Chico Bamba e o Congo - um texto que tem uma estória porque já foi enviada para uma página jurássica da AAENLH que nunca o publicou.
Consigo, entretanto, perceber a lógica da sua publicação a 14 de Dezembro: é que o guardei como draft nesse mesmo dia. Só que o texto foi acabado e publicado a 17. E eu tenho algum interesse na sua divulgação. Por isso, aqui estou a fazer a publicidade devida: mais abaixo, com data de 14 de Dezembro está um escrito sobre o Chico Bamba e seu irmão Congo.
Artur Queiroz/Carlos Pacheco/Agostinho Neto
O "Público" da última quarta-feira, 14 de Dezembro, publica uma carta de Artur Queiroz como resposta a um texto que Carlos Pacheco publicou no mesmo jornal, com o título "Agostinho Neto: a sacralização de um déspota".
Não li o texto do Carlos Pacheco, mas o título é claro.
A carta de Artur Queiroz não tem a virtude da clareza. É de resto, uma enorme confusão, um retrato de uma personalidade sempre muito gongórica na afirmação do seu próprio papel e sem conseguir evitar, na escrita, a corrida atrás das palavras.
A pergunta sobre se Neto podia ser um ditador nas frentes de combate é uma figura de estilo. Neto nunca esteve nas frentes de combate. A ele competia-lhe fazer a administração dos apoios que o MPLA ia recebendo e, com o seu prestígio internacional, dar notícia da situação no país.
Quanto à distribuição dos apoios, havia o célebre caderno de papel azul onde ele inscrevia as verbas que dava aos comandantes. E só dava aos que se portavam bem, isto é, aos que pensassem como ele... (está prática foi transferida para a governação da República).
E, depois há as mortes estranhas de Hoji Ya Henda, com ferimentos nas costas e, posteriormente, elevado à condição de grande herói da Juventude; a da Camarada Deolinda, promovida, depois de assassinda em condições nunca esclarecidas e atribuídas a uma emboscada da FNLA, à categoria de inspiradora da OMA, a Organização da Mulher Angola. E ainda a notícia do atentado contra Joaquim Pinto de Andrade, em Brazzaville. E mesmo Lúcio Lara terá um lugar nessa lista de atentados.
E já depois do 25 de Abril, a morte do Comandante Gika, em Cabinda; a tentativa de liquidação de Chipenda, da qual resultou a morte de "Valódia"...
A chamada "política da maçã" podre era isso mesmo, a estratégia de um déspota que preferia "dar corda" aos adversários políticos e depois, na hora certa, liquidá-los fisicamente. Foi o que fez com Nito Alves, protagonista de uma dissidência cuja solução poderia ter sido política e acabou num verdadeiro banho de sangue e num contra-golpe ultra-fascista.
Queiroz estranha que se possa chamar ditador e déspota a um político com apenas quatro anos de poder. Ele estranha porque não esteve lá, a sofrer o poder único, de um homem único. Era interessante saber porque é que Artur Queiroz fugiu de Angola, tão cedo, quase logo a seguir à declaração da Independência.
Se ele lá tivesse estado teria percebido como é que Agostinho Neto barrou todas as iniciativas políticas, desmontou todo o sistema económico sem nenhuma alternativa, acicatou os vários racismos e se promoveu à condição de figura exclusiva da vida nacional. Desde presidente da República até reitor da Universidade, ele foi tudo. A sua fotografia estava em todo o lado, a começar pelas notas de Kwanzas, que foram apresentadas ao povo numa operação desenvolvida com grande mestria (desenhada pelo Saidy Mingas), mas que acabou num colossal roubo, já que os dinheiros arrecadados nunca foram devolvidos.
A carta de Queiroz tem algumas passagens pitorescas, coloridas mesmo, como aquela da dissolução da DISA. Neto mudou-lhe apenas o nome, tal como Marcelo Caetano fez com a PIDE. Neto foi ainda mais longe: não lhe chamava nada... E mais aquela do convívio diário com Agostinho Neto no bairro do saneamento. Terá sido por causa desse convívio que apareceu em Lisboa, no Página Um, quando em Angola se sentia a pressão do partido único, comandado por um homem único? Terá sido para recuperar esse convívio que em 1978 foi a Bissau pedir desculpa, não se sabe bem do quê, aos acessores de Neto, quando ele se foi encontrar com Eanes ?
Será a recordação desse convívio diário que o leva a afirmar-se convictamente como militante do MPLA, embora viva em Portugal há trinta anos?
sexta-feira, dezembro 16, 2005
DO MAL O MENOS?
Diziam os de antanho que a fome aguça o engenho e como, hoje, parece mal ter fome, temos crise. É natural que a crise vá dando vontade de comer e um dia destes vamos dar por nós a ir de novo em busca de alimento, lá por onde o houver. Que a Europa esteja em crise, acredito, mas a crise dela, lá mais para cima (e o cima começa mesmo aqui ao lado) é menos intensa.
Não foi, é verdade, só a fome que fez de muitos de nós emigrantes. Na década de sessenta muitos fugiram à guerra, mas muitos outros aperceberam-se que para além da guerra havia trabalho e comia-se bem. Havia perspectivas, havia férias e sonhavam-se futuros radiosos.
Já sabem como acabou o filme. Voltamos a casa e não tardou a faltar o pão. E casa onde não há pão...
Não estou a prever nada de muito imprevisível, mas a Europa tem agora mais escolha. A gentinha de Leste, que sobrou da tutela soviética e do modelo social moscovita já anda a gatinhar pela «nossa» França ou coisas «nossas» onde se fale inglês ou alemão e não sei que mais linguajares estrangeiros. Mesmo que nos vão matando honestos madeirenses com impiedosas regularidade os que restam, restam, ficam. Porque será? Não se precipitem, não os avaliem mal. A causa, o mal, ficou para trás. Que país é este? Que fizemos/fazemos dele?
Mesmo a África que deixamos e aceitamos que se afirmasse e que mergulhou no caos, mesmo essa tem horizontes de esperança. Já não são tantos os jovens que vêm estudar aqui. Aos poucos vou perdendo os netos de vista. Vão estudar no Cabo. Não é só mais perto, é mais próximo do que é preciso.
Está visto, com a velocidade com que este país não anda, não tarda estaremos de abalada para aprender a estar onde já estivemos! Um vizinho meu, com quem costumava jogar cartas «regressou» à Austrália. Fê-lo discretamente já lá vai um pouco mais de três meses. A esposa e dois miudos ficaram por cá. Ontem a vizinha botou escritos em forma de pancarta de imobiliária, sobre o muro. O português que primeiro disse que todos os caminhos vão dar a Roma sabia o que dizia...
Não foi, é verdade, só a fome que fez de muitos de nós emigrantes. Na década de sessenta muitos fugiram à guerra, mas muitos outros aperceberam-se que para além da guerra havia trabalho e comia-se bem. Havia perspectivas, havia férias e sonhavam-se futuros radiosos.
Já sabem como acabou o filme. Voltamos a casa e não tardou a faltar o pão. E casa onde não há pão...
Não estou a prever nada de muito imprevisível, mas a Europa tem agora mais escolha. A gentinha de Leste, que sobrou da tutela soviética e do modelo social moscovita já anda a gatinhar pela «nossa» França ou coisas «nossas» onde se fale inglês ou alemão e não sei que mais linguajares estrangeiros. Mesmo que nos vão matando honestos madeirenses com impiedosas regularidade os que restam, restam, ficam. Porque será? Não se precipitem, não os avaliem mal. A causa, o mal, ficou para trás. Que país é este? Que fizemos/fazemos dele?
Mesmo a África que deixamos e aceitamos que se afirmasse e que mergulhou no caos, mesmo essa tem horizontes de esperança. Já não são tantos os jovens que vêm estudar aqui. Aos poucos vou perdendo os netos de vista. Vão estudar no Cabo. Não é só mais perto, é mais próximo do que é preciso.
Está visto, com a velocidade com que este país não anda, não tarda estaremos de abalada para aprender a estar onde já estivemos! Um vizinho meu, com quem costumava jogar cartas «regressou» à Austrália. Fê-lo discretamente já lá vai um pouco mais de três meses. A esposa e dois miudos ficaram por cá. Ontem a vizinha botou escritos em forma de pancarta de imobiliária, sobre o muro. O português que primeiro disse que todos os caminhos vão dar a Roma sabia o que dizia...
quarta-feira, dezembro 14, 2005
Chico Bamba/ Congo
Relendo o que está para trás neste blogue descubro a promessa (minha) de recuperar aqui um texto que mandei para a Associação de Antigos Estudantes de Nova Libsoa Huambo(AAENLH) - logo à partida uma coisa complicada e de que eu sou membro. Na página da Net desta coisa aparece sempre o Rui Gomes com um sorriso velho de galã nunca realizado e um apelo a textos de homenagem ao Chico Bamba e ao Congo.
Um dia, enchi-me de brios - fui amigo de ambos - e escrevi alguns episódios( naturalmente pessoais, mas que envolviam o Chico e Congo num período de tempo bastante alargado). Enviei o escrito para o e-mail do tal Rui Gomes, que foi meu colega no Liceu de Nova Lisboa, ele e todos os prof. drs. que são nomeados na tal página jurássica, a propósito de tudo e de nada. De resto, penso que tal exagero é feito à revelia dos próprios, mas o Rui Gomes...
Já que falamos de personalidades - os únicos lembrados pela AAENLH - seria interessante tentar saber onde andam os outros, aqueles que foram nossos colegas e que, muitas vezes, por circunstâncias adversas da vida não se aproximam e não são lembrados.
É óbvio que para aquele presidente, com aquela pose, nada disso conta.
Tentemos, então, reconstruir o tal texto que o Rui Gomes mandou para o lixo electrónico do seu computador, tal como um censor de outros tempos inutilizava um escrito com um simples lápis azul.
Um dia, enchi-me de brios - fui amigo de ambos - e escrevi alguns episódios( naturalmente pessoais, mas que envolviam o Chico e Congo num período de tempo bastante alargado). Enviei o escrito para o e-mail do tal Rui Gomes, que foi meu colega no Liceu de Nova Lisboa, ele e todos os prof. drs. que são nomeados na tal página jurássica, a propósito de tudo e de nada. De resto, penso que tal exagero é feito à revelia dos próprios, mas o Rui Gomes...
Já que falamos de personalidades - os únicos lembrados pela AAENLH - seria interessante tentar saber onde andam os outros, aqueles que foram nossos colegas e que, muitas vezes, por circunstâncias adversas da vida não se aproximam e não são lembrados.
É óbvio que para aquele presidente, com aquela pose, nada disso conta.
Tentemos, então, reconstruir o tal texto que o Rui Gomes mandou para o lixo electrónico do seu computador, tal como um censor de outros tempos inutilizava um escrito com um simples lápis azul.
É muito natural que esta segunda tentativa saia melhor que a primeira
Tentemos.
Antes de falar das circunstâncias em que conheci o Chico e o Congo e aquelas em que a nossa amizade se desenvolveu, gostaria de lembrar um outro membro da família: a Gaby, a drª. Gabriela Antunes, de quem fui amigo em condições especiais da história da República.
O Colégio D. João de Castro (nunca me interroguei sobre a razão deste nome) ficava na Avenida 5 de Outubro. Ocupava uma grande parte do quarteirão que fazia esquina com a rua que ligava a avenida ao que, mais tarde, seria a Avenida da Granja. O Palácio do Governador ficava na curva seguinte.
Do outro lado da Avenida 5 de Outubro estava o Colégio Adamastor e o apeadeiro do combóio, sem nenhuma estrutura de apoio, apenas uma zona terraplanada, onde os passageiros esperavam, nomeadamente " O Piolho", o nome pelo qual era conhecido o combóio, de duas carruagens, que transportava os estudantes de Nova Lisboa para a Caala.
Nesse terreno se derimiam as questiúnculas criadas durante as aulas, nos intervalos, já que o prof. Cabral - director do D. João de Castro - não consentia nas brigas, fossem elas o que fossem.
Frequentava eu o segundo ano do Liceu - o tal que haveria de me levar ao exame na Escola 32 - e apaixonei-me, doidamente, por uma colega, de olhos azúis, cujo nome ainda hoje recordo. Não o escrevo porque tenho receio de, por alguma razão que nem sequer imagino, poder fazer-lhe algum mal.
Um "rústico" da turma, rapaz alto, e óculos, cujo nome não recordo, disse qualquer coisa sobre o objecto da minha paixão que me pareceu ofensivo. Tanto bastou para que ficasse marcado um "ajuste de contas" no final das aulas - no apeadeiro do piolho.
Eu tinha 11/12 anos, era muito pequeno, cresci - embora pouco - a partir dessa idade, mas tinha o "génio" de um guerreiro. O meu adversário estava claramente surpreendido porque avaliou-se mal. Estava eu dando-lhe umas "chapadas", umas "galhetas", umas "lamiras"umas... quando ouvi uma voz com um ligeiro tom irónico:"... oh miúdo, ainda te vais magoar...o melhor é parar com isto..."
Olhei em direcção áquela voz e reconheci o Chico (quem não o conhecia em Nova Lisboa?). Com um sorriso bem disposto aproximou-se de nós os dois, disse qualquer coisa sobre a parvoíce de fazer aquelas cenas frente a tanta gente ( só então reparei que a colina que protegia a linha do CFB da Avenida e era coberta de acácias estava cheia de "mirones", quase todos eles com uma bicicleta segura e um sorriso irónico nos lábios)
O Chico Bamba lá nos convenceu a fazer " as pazes". Apertámos a mão e o espectáculo acabou. Para mim, tudo bem, tinha defendido a "minha amada"(naquela altura eu lia muito o Júlio Diniz...).
Asssim foi estabelecido o meu primeiro contacto com o Chico Bamba.
Semanas mais tarde, não sei como, mas seguramente levado por amigo, a um domingo de manhã, fui ter a uma piscina, perto da casa onde morava. A piscina era a "dos Machados", adjacente a uma fábrica de sabão que a família Machado, igualmente proprietária do África Hotel, tinha.
Nadar era uma coisa que me fascinava e eu não sabia. O pessoal que já lá estava brincou comigo, provocou-me, alguns deles tinham-me visto na tal briga... e eu lá fui tentando fazer daquela minha passagem pela piscina alguma coisa que, pelo menos, não me desprestigiasse. O Chico chamou-me e, com um jeito de professor nato, explicou-me os vários estilos de natação. Entrou na piscina e ensinou-me tudo, fazendo.
Eu disse que sim, olhei e ouvi, mas fiquei quieto. Então o Chico saiu da piscina, pegou em mim e com toda a força da sua capacidade atlética, que naquele tempo era enorme, atirou-me para o meio da piscina.
Enquanto me sentia ir ao fundo, perder o pé, todas aquelas coisas horrorosas que acontecem a quem se sente perdido num mar de água sem a poder beber, fui rememorando a lição do Chico e, paulatinamente, saí a nadar bruços, com todas as regras de respiração, numa técnica que mais tarde aperfeiçoei e me levou a vencer algumas provas na piscina do Ferrocia. Uma técnica que, muitos anos depois, ensinei ao meu filho mais novo que se transformou num nadador tecnicamente irrepreensível.
O Chico riu-se com aquela gargalhada que fazia dele uma companhia desejada e disse :"...afinal estavas a enganar a malta, tu sabes nadar, e bem..."
Começou ali a nossa amizade. Fez de meu treinador de natação, ajudou-me a libertar de montes de fantasmas, passava pelo "ringue" da Feira, ao cimo da Granja, onde eu andava a aperfeiçoar a minha patinagem, brincava comigo, dizia piadas, mas estimulava-me. Achava que eu iria ser um "grande patinador". Ele sabia que me irritava, porque eu queria era jogar hoquei em patins.
De repente, a família transfere-se para Sá da Bandeira. Lá ficam os amigos e entre eles o Chico. Tive algumas oportunidades de estar com ele, ou simplesmente de o ver, nas deslocações que ele fazia ao Lubango para disputar os quadrangulares de hóquei entre selecções de cidades, nas Festas da Senhora do Monte.
Eu fui, entretanto, aperfeiçoando as minhas qualidades de "patinador" e também de jogador de hóquei em patins e um dia, depois de uma grande confusão no Liceu Diogo Cão, o meu pai resolveu transferir-me para o Colégio Alexandre Herculano (também nunca me questionei sobre o nome), em Nova Lisboa.
Ora, o Chico era o treinador de tudo no Alexandre Herculano e como eu não tinha altura para o Basquetebol, embora fosse hábil para o jogo, resolveu fazer de mim um jogador de andebol. E lá fiz parte da equipa que se sagrou, em Silva Porto, contra a forte equipa dos maristas locais, campeã provincial da Mocidade Portuguesa de Andebol. E, sempre que era necessário, dava um jeito na equipa de voleibol.
Na final do campeonato de andecol, a assistência dos maristas elegeu-me como sua "vítima" principal e sempre que eu tinha a bola choviam as piadas e até alguns insultos. Eu ia respondendo e foi-se criando um clima de grande tensão. No final do jogo, com a nossa vitória, eu era ainda mais "vítima" e, quando um grupo de alunos do Colégio de Maristas de Silva Porto se foi aproximando de mim, notoriamente com más intenções, eu fui-me aproximando do Chico.
Colocou-me o braço por cima do ombro, olhou para os candidatos a algozes, sorriu, encheu o peito e disse: "então, rapaziada, e se vocês nos mostrassem a cidade...?"
Foi um fim de tarde óptimo, durante a qual acabámos por fazer novas e boas amizades.
O Chico era assim, mas quando a alternativa era o convencimento por meios mais físicos, ele também os sabia utilizar. Vi-o, uma vez, de um só golpe, rasgar a intrincada rede de cordões que lhe seguravam os patins aos pés e partir à desfilada para a bancada do campo da Feira para pôr na ordem alguém que não parava de o insultar.
A chegada do Chico ao campo de treinos era sempre um momento de alegria e de respeito. Não precisava de ralhar, de falar alto, de fazer cara feia. Todos nós aceitávamos o que nos dizia, cumpriamos as suas instruções.
Quando regressei a Nova Lisboa, vinha cheio de entusiasmo com a ideia de poder jogar no Óquei Clube, onde jogava o Chico, o Daniel, o Figueiredo e outros. O Óquei era, contudo, um clube com limitações e, portanto, a entrada de mais um jogador significava a necessidade de comprar um equipamento, patins, e tudo o resto. Portanto, o Chico foi adiando, adiando... até que o Ferrovia de Nova Lisboa, onde eu jogava futebol, através do Zeca Araújo, do Lubango, me convenceu e eu integrei-me, com 15 anos, na equipa de Hóquei em Patins do Ferrovia de Nova Lisboa.
Um dia foi-nos dito que iriamos inaugurar um "ringue" de patinagem em Quinjenje, a alguns quilómetros de Nova Lisboa. Foi-me dito para esperar o autocarro numa paragem frente ao palácio do governador, na Cidade Alta, onde eu morava.
Quanto lá cheguei, com os meus patins, o meu stick e o meu ar contente, já lá estava o Chico, que me olhou surpreendido: "...estás a fazer aqui, miúdo?..." Não sei o que disse, mas ficou claro que eu ia jogar pelo Ferrovia contra o Óquei Clube na tal inauguração.
O Chico Bamba, depois da surpresa inicial, percebeu, lamentou e voltou a ser o amigo de sempre. Durante os dias de estadia em Quinjenje divirtia-se com o meu aptetite de adolescente. No jogo, a primeira vez que joguei contra ele, deu-me algumas lições práticas: chamava-se à tabela, no seu meio campo e aí, sem me magoar e a rir-se, castigava-me nas pernas com o stick. Ia sempre dizendo: "...vê lá se aprendes, miúdo".
Entretanto, a minha vida de estudante ia sofrendo voltas e mais voltas e consegui transferir-me do Alexandre Herculano para o Liceu de Nova Lisboa, ainda instalado no prédio da Lello e na Associação Comercial.
As aulas de Educação Física e o Desporto que lhe estava associado tinham lugar no Ginásio do Sporting Clube do Huambo e um dia, o Chico lá voltou a ter uma surpresa: apareceu com a sua equipa de basquetebol do Alexandre Herculano para disputar um jogo contra a equipa do Liceu.
Eu estava do outro lado. Tínhamos como orientador e professor um senhor chamado, salvo erro, Portugal Colaço, que era apenas boa pessoa. O Chico deu-nos uma "surra" e riu-se.
Foi neste período da minha vida que estabeleci com o Congo relações pessoais. Toda a gente o conhecia em Nova Lisboa. Gordo, em cima de uma bicicleta reforçada, sempre com máquina fotográfica pronta para uma fotografia, o Congo escrevia sobre Desporto e ia assistir a todos os jogos, inclusivé os de juniores (futebol). Como já disse, eu fazia parte da equipa de juniores do Ferrovia de Nova Lisboa e, no final de cada jogo, lá tinha o Congo a chamar-me "peneirento", o que, segundo ele, seria a minha desgraça. Não sei se foi. A verdade é que jogar futebol foi das coisas que mais prazer me deu na vida.
Os anos correram e um dia eu aparecia no Rádio Clube do Huambo, no tempo em que por lá andavam a Maria Dinah, o Aurélio(...), o Fernando Pereira, O Ribeiro Cristóvão, o Paulo Cardoso e o Congo...
Lembrou-se logo de mim e recordou a minha habilidade para o futebol e outras modalidades. Ficámos camaradas de trabalho, verdadeiros amigos. O Congo nunca se zangava com ninguém, sempre tentava perceber as dificuldades dos outros, embora houvesse atitudes que não desculpava.
Nos anos seguintes, em Nova Lisboa ou no Lubango, tivemos oportunidade de trocar provas de amizade real.
Até que todos fomos sacudidos por uma guerra que ninguém desejou embora todos pensássemos nas possibilidades que a todos se abririam num país independente.
E a guerra dispersou-nos. Ficámos sem saber uns dos outros. Foi-se construindo em cima da realidade que sempre nos tinha envolvido uma coisa estranha que ninguém entendia. Eu envolvi-me na política, outros preferiram não o fazer, mas, no final, acabámos todos, embora longe uns dos outros, mais perto do que imaginávamos.
Um dia fui encontrar o Congo em Proença-a-Nova. Era Verão e ele curtia o pouco calor que lá chegava. Tomava conta de um salão de jogos. Sempre rodeado de jovens, sempre bem disposto. Ficou contente por me ver. Pouco tempo depois do nosso encontro faleceu. A notícia abalou-me
Em relação ao Chico, sei da sua presença em Castro Verde. Por amigos comuns soube que não está muito disposto a recordar. Respeito-lhe a vontade. Um abraço, Chico, velho mestre da vida!
segunda-feira, dezembro 12, 2005
PEREGRINAR
Não se trata, bem entendido, de devoção. Já gostei mais do Benfica do que gosto hoje em dia. Viajar, sim, mas da maneira que os reformados podem: de memória. Sempre que chove na minha aldeia memorizo o suave entardecer e o pôr-do-Sol, no Morro da Lua! Sempre que à noite, a tiritar de frio, passeio o cão, imagino-me sentado no Miramar a desfrutar o filme!
Ir pelo tempo fora não aquece nem arrefece. Mas pode ajudar a entender quando se está disposto a tolerar. A intransigência reflecte, por certo, algumas fragilidades. Toda e qualquer insegurança requer carapaça espessa e desconfiada.
Eu tenho dúvidas, logo existo. Caramba!, desconfio que estou a ir longe demais! Inflecte, rapaz, inflecte. Limita-te aos poetas do povo, que ensinam sem canudo, foi-me soprando algum antanho apiedado. É por via desses sopros que eu mais naturalmente canto: «...e o polícia malfeitor que só malvadez contém/ prendeu a pobre velhinha/qu'andava a roubar flores/ p'ra pôr no túmulo da mãe!», do que me defendo com um concludente: «mas sei que não vou por aí»! Tempo houve que tal saber régio ocupava lugar e não raro saía caro!
Deve ser por isto que me acolhi à aldeia, numa rua com três casas. E cada casa é um acaso. Não há ódios nem rancores/ Tem-se amor pela vida alheia/ cada qual seu pão grangeia. Não é bem assim, convenhamos. Ninguém é primo de ninguèm, todas as casas têm fechadura e à noite
vê-se televisão. Calha melhor buscar da cabeça alguém como Cezarini, que me apareceu uma noite destas, com Sampaio, no Telejornal: «no país no país no país onde os homens são só até ao joelho». Eu sei, eu sei, por aqui nem ao artelho se chega, são os recos quem mais ordena. É a grunhir que a gente se entende.
Que mares nunca dantes navegados nos afundem. Que Louçã nos defenda e o bom profeta nos Alegre o caminho!
Ir pelo tempo fora não aquece nem arrefece. Mas pode ajudar a entender quando se está disposto a tolerar. A intransigência reflecte, por certo, algumas fragilidades. Toda e qualquer insegurança requer carapaça espessa e desconfiada.
Eu tenho dúvidas, logo existo. Caramba!, desconfio que estou a ir longe demais! Inflecte, rapaz, inflecte. Limita-te aos poetas do povo, que ensinam sem canudo, foi-me soprando algum antanho apiedado. É por via desses sopros que eu mais naturalmente canto: «...e o polícia malfeitor que só malvadez contém/ prendeu a pobre velhinha/qu'andava a roubar flores/ p'ra pôr no túmulo da mãe!», do que me defendo com um concludente: «mas sei que não vou por aí»! Tempo houve que tal saber régio ocupava lugar e não raro saía caro!
Deve ser por isto que me acolhi à aldeia, numa rua com três casas. E cada casa é um acaso. Não há ódios nem rancores/ Tem-se amor pela vida alheia/ cada qual seu pão grangeia. Não é bem assim, convenhamos. Ninguém é primo de ninguèm, todas as casas têm fechadura e à noite
vê-se televisão. Calha melhor buscar da cabeça alguém como Cezarini, que me apareceu uma noite destas, com Sampaio, no Telejornal: «no país no país no país onde os homens são só até ao joelho». Eu sei, eu sei, por aqui nem ao artelho se chega, são os recos quem mais ordena. É a grunhir que a gente se entende.
Que mares nunca dantes navegados nos afundem. Que Louçã nos defenda e o bom profeta nos Alegre o caminho!
domingo, dezembro 11, 2005
A Recandidatura de Pedro Pires
Um dos homens que nos longínquos inícios dos anos 6o decidiu abandonar a posição mais ou menos confortável de estudante e rumar o desconhecido em nome de um ideal que hoje parece quase óbvio - a Independência de Cabo Verde e também da Guiné Bissau - , que assumiu as difícies negociações políticas contra os que entendiam que Cabo Verde era "um caso à parte" e, portanto, não haveria independência e que, depois, em quinze anos seguidos conseguiu construir uma terra, considerada até então como "um país inviável", mesmo por ilustres figuras cabo-verdianas, e elevá-la à condição de país africano respeitado, com direito à palavra no panorama internacional, é, de novo, notícia pela positiva.
Pedro Verona Pires anunciou a sua recandidatura à Presidência da República de Cabo Verde no passado dia 9, prometendo permitir a continuidade no caminho do sucesso do desenvolvimento alcançado pelo país nos últimos cinco anos.
Este parece ser o argumento decisivo para a sua campanha, já que em 1991, o PAICV entregou à democracia pluripartidária um país em franco progresso que depois foi hipotecado, vendido a retalho, por democratas do cifrão. É para evitar um retrocesso ao esquema neo-liberal protagonizado por Carlos Veiga, que durante dez anos beneficiou a família e os amigos, que Pedro Pires se apresenta, de novo, como candidato.
Com o meu inteiro e absoluto apoio. Por isso, aqui deixo a sua declaração integral de recandidatura.
AOS CABOVERDIANOS:
Caros compatriotas,
Estou aqui para vos dizer que após ponderada reflexão decidi recandidatar-me à presidência do nosso país.
É verdade que fui muito incentivado nesse sentido por amigos e compatriotas representantes das mais diferentes áreas e grupos da nossa sociedade civil e política, porém devo afirmar que a minha decisão última foi tomada exclusivamente pensando naquilo que acredito serem neste momento os interesses de Cabo Verde.
Nunca escondi que todas as ambições da minha vida, quer enquanto combatente, quer enquanto Primeiro-Ministro, quer também como Presidente da República, têm tido como referencial o nosso país e o que penso ser o melhor para nós todos. O meu compromisso de sempre tem sido colocar a minha experiência, o meu patriotismo, as minhas faculdades, ao serviço de Cabo Verde e dos Cabo-verdianos.
No presente, o nosso país está a atravessar um momento da sua história apenas comparável aos gloriosos anos seguintes à independência. A senda que vimos trilhando nos últimos 5 anos deve ser salvaguardada e devidamente acarinhada para que as sementes que estão agora a ser lançadas, tanto em Cabo Verde como na nossa diáspora, como até junto da comunidade internacional, venham a produzir os frutos que todos desejamos para o bem-estar do nosso povo.
É a consciência profunda da necessidade de não deixar interromper este novo ciclo nacional iniciado em 2001 que me leva a aceitar esta recandidatura. Penso ser claro para todos que Cabo Verde precisa continuar a ter um Presidente que seja o garante da estabilidade e serenidade necessárias à continuação do seu desenvolvimento humano, económico, social e cultural, tendo como objectivo último a construção de uma sociedade onde ninguém se sinta excluído ou marginalizado.
As minhas ambições são no sentido de continuarmos a avançar cada vez mais, rumo a uma sociedade mais justa, mais humana, mais democrática. Julgo ter cumprido o compromisso assumido em 2001 de fazer do mandato que agora termina um projecto aglutinador de vontades que envolvesse os jovens, as mulheres e os homens de todos os estratos sociais das nossas ilhas, com o objectivo de afastar de vez a situação de desconfiança e de falta de perspectiva de futuro em que o país se encontrava mergulhado.
Julgo igualmente ter contribuído, dentro das minhas forças e da minha experiência, para que Cabo Verde voltasse a reencontrar o caminho ascendente da história iniciada em 1975, para que os cabo-verdianos resgatassem o sentimento de patriotismo, de dignidade e de orgulho nacional.
Nesse sentido, procurei exercer uma magistratura presidencial próxima do cidadão, prudente e crítica, independente dos partidos políticos, mas tendo sempre em atenção as fragilidades do nosso país e assente na necessidade da manutenção do equilíbrio institucional.
Não me limitei a ser um observador passivo dos problemas de Cabo Verde. Respeitando estreitamente as competências constitucionais dos outros órgãos de soberania, auscultei sempre as posições dos diferentes partidos políticos, facto que me permitiu intervir sempre e quando achei necessário, agindo no entanto em colaboração com o governo na busca de soluções para os problemas que continuamos a enfrentar em cada dia.
Escutei regularmente a sociedade civil. Acarinhei o poder municipal. Destaquei o mérito. Incentivei o exercício do dever de memória e de reconhecimento. Estimulei o comprometimento com o futuro do país e o compromisso entre os objectivos de curto e médio prazo. Incentivei o associativismo. Coloquei em agenda a necessidade da consolidação e do aperfeiçoamento sucessivo do desempenho das instituições do Estado de Direito.
No plano internacional, tenho sido um incansável promotor da imagem e dos interesses do nosso país. Igualmente, não me tenho poupado a esforços no sentido de prevenir, tanto a opinião pública, em geral, como as instituições, em particular, do lugar chave que a paz, a estabilidade política e a segurança detêm nos processos de estabilização e desenvolvimento dos Estados africanos.
Exerci, pois, uma magistratura de influência activa, dentro dos poderes conferidos pela Constituição. Sem alardes desnecessários, procurei não poucas vezes colmatar o vazio ainda existente no nosso país provocado pela não eleição da figura constitucional de Provedor da Justiça.
Sempre acreditei que Cabo Verde precisa de uma acção politica que se desenvolva com sentido de futuro. Sempre acreditei que o secular fatalismo das crises provocadas pelas secas e fomes subsequentes poderia ser vencido pela vontade e pela acção do homem cabo-verdiano. Esses exaltantes 30 anos de independência, com todas as suas partes boas e menos boas, mostraram-nos ao mundo como um povo de valor, um povo que pode e deve orgulhar-se da sua obra.
Porém, temos que prosseguir: na construção da nossa economia, na extensão da nossa educação, no aprofundamento da nossa democracia, tudo isso com vista a uma sociedade de maior tolerância e justiça social.
A minha experiência dos últimos 5 anos mostrou-me que o Presidente da República pode desempenhar um papel muito importante, quer na promoção externa, quer na mobilização das energias nacionais para os grandes desafios que o nosso país está a enfrentar e precisa continuar a enfrentar com sucesso, com vista ao bem estar de todos os cabo-verdianos, dentro e fora do país. Daí que o meu anseio seja no sentido de continuarmos em frente, ainda que à custa de sacrifícios de ordem pessoal.
Cabo Verde precisa de um Presidente da República que projecte uma imagem de honestidade, de ambição para com o país. Um Presidente no qual os cabo-verdianos se reconheçam como seu símbolo, e como símbolo de um país que ganhou direito a estar no concerto das nações através da invencível arma que é a dignidade do seu povo, o comprometimento firme e a honestidade dos seus governantes.
Todos os povos passam por momentos históricos determinantes em que se ultrapassam a si próprios para atingirem objectivos antes, por muitos, julgados intransponíveis. Pela segunda vez na nossa História dos últimos 30 anos, Cabo Verde encontra-se num desses momentos. Com efeito, estamos vivendo um período de grandes desafios, que no entanto temos todas as condições para vencer, e que temos que vencer: de reformas importantes, e que não podem nem devem ser adiadas; de oportunidades promissoras que em cada dia estão-nos surgindo e que têm que ser rigorosa e atempadamente aproveitadas. E tudo isto requer confiança, espírito de risco, audácia e vontade empreendedora.
Eis porque decidi continuar a colocar toda a minha experiência, todas as minhas relações, tudo que aprendi na minha já longa vida política, ao serviço deste novo e exaltante momento nacional, por forma a não desperdiçarmos esta oportunidade única de nos libertarmos, de vez, das amarras do subdesenvolvimento económico, social e científico.
Ao posicionar-me como candidato à minha própria sucessão na Presidência da República, posiciono-me antes de mais como patriota. Mas também como homem de bom senso, como construtor de consensos.
Porém, e sobretudo, como cidadão amante deste país e que vem perseguindo sempre e incansavelmente, o sonho de um Cabo Verde próspero e respeitado pela obra dos seus filhos.
Para esse desígnio nacional, todos somos necessários e todos somos para ele chamados!
Cidade da Praia, 9 de Dezembro de 2005.
Pedro Pires
Caros compatriotas,
Estou aqui para vos dizer que após ponderada reflexão decidi recandidatar-me à presidência do nosso país.
É verdade que fui muito incentivado nesse sentido por amigos e compatriotas representantes das mais diferentes áreas e grupos da nossa sociedade civil e política, porém devo afirmar que a minha decisão última foi tomada exclusivamente pensando naquilo que acredito serem neste momento os interesses de Cabo Verde.
Nunca escondi que todas as ambições da minha vida, quer enquanto combatente, quer enquanto Primeiro-Ministro, quer também como Presidente da República, têm tido como referencial o nosso país e o que penso ser o melhor para nós todos. O meu compromisso de sempre tem sido colocar a minha experiência, o meu patriotismo, as minhas faculdades, ao serviço de Cabo Verde e dos Cabo-verdianos.
No presente, o nosso país está a atravessar um momento da sua história apenas comparável aos gloriosos anos seguintes à independência. A senda que vimos trilhando nos últimos 5 anos deve ser salvaguardada e devidamente acarinhada para que as sementes que estão agora a ser lançadas, tanto em Cabo Verde como na nossa diáspora, como até junto da comunidade internacional, venham a produzir os frutos que todos desejamos para o bem-estar do nosso povo.
É a consciência profunda da necessidade de não deixar interromper este novo ciclo nacional iniciado em 2001 que me leva a aceitar esta recandidatura. Penso ser claro para todos que Cabo Verde precisa continuar a ter um Presidente que seja o garante da estabilidade e serenidade necessárias à continuação do seu desenvolvimento humano, económico, social e cultural, tendo como objectivo último a construção de uma sociedade onde ninguém se sinta excluído ou marginalizado.
As minhas ambições são no sentido de continuarmos a avançar cada vez mais, rumo a uma sociedade mais justa, mais humana, mais democrática. Julgo ter cumprido o compromisso assumido em 2001 de fazer do mandato que agora termina um projecto aglutinador de vontades que envolvesse os jovens, as mulheres e os homens de todos os estratos sociais das nossas ilhas, com o objectivo de afastar de vez a situação de desconfiança e de falta de perspectiva de futuro em que o país se encontrava mergulhado.
Julgo igualmente ter contribuído, dentro das minhas forças e da minha experiência, para que Cabo Verde voltasse a reencontrar o caminho ascendente da história iniciada em 1975, para que os cabo-verdianos resgatassem o sentimento de patriotismo, de dignidade e de orgulho nacional.
Nesse sentido, procurei exercer uma magistratura presidencial próxima do cidadão, prudente e crítica, independente dos partidos políticos, mas tendo sempre em atenção as fragilidades do nosso país e assente na necessidade da manutenção do equilíbrio institucional.
Não me limitei a ser um observador passivo dos problemas de Cabo Verde. Respeitando estreitamente as competências constitucionais dos outros órgãos de soberania, auscultei sempre as posições dos diferentes partidos políticos, facto que me permitiu intervir sempre e quando achei necessário, agindo no entanto em colaboração com o governo na busca de soluções para os problemas que continuamos a enfrentar em cada dia.
Escutei regularmente a sociedade civil. Acarinhei o poder municipal. Destaquei o mérito. Incentivei o exercício do dever de memória e de reconhecimento. Estimulei o comprometimento com o futuro do país e o compromisso entre os objectivos de curto e médio prazo. Incentivei o associativismo. Coloquei em agenda a necessidade da consolidação e do aperfeiçoamento sucessivo do desempenho das instituições do Estado de Direito.
No plano internacional, tenho sido um incansável promotor da imagem e dos interesses do nosso país. Igualmente, não me tenho poupado a esforços no sentido de prevenir, tanto a opinião pública, em geral, como as instituições, em particular, do lugar chave que a paz, a estabilidade política e a segurança detêm nos processos de estabilização e desenvolvimento dos Estados africanos.
Exerci, pois, uma magistratura de influência activa, dentro dos poderes conferidos pela Constituição. Sem alardes desnecessários, procurei não poucas vezes colmatar o vazio ainda existente no nosso país provocado pela não eleição da figura constitucional de Provedor da Justiça.
Sempre acreditei que Cabo Verde precisa de uma acção politica que se desenvolva com sentido de futuro. Sempre acreditei que o secular fatalismo das crises provocadas pelas secas e fomes subsequentes poderia ser vencido pela vontade e pela acção do homem cabo-verdiano. Esses exaltantes 30 anos de independência, com todas as suas partes boas e menos boas, mostraram-nos ao mundo como um povo de valor, um povo que pode e deve orgulhar-se da sua obra.
Porém, temos que prosseguir: na construção da nossa economia, na extensão da nossa educação, no aprofundamento da nossa democracia, tudo isso com vista a uma sociedade de maior tolerância e justiça social.
A minha experiência dos últimos 5 anos mostrou-me que o Presidente da República pode desempenhar um papel muito importante, quer na promoção externa, quer na mobilização das energias nacionais para os grandes desafios que o nosso país está a enfrentar e precisa continuar a enfrentar com sucesso, com vista ao bem estar de todos os cabo-verdianos, dentro e fora do país. Daí que o meu anseio seja no sentido de continuarmos em frente, ainda que à custa de sacrifícios de ordem pessoal.
Cabo Verde precisa de um Presidente da República que projecte uma imagem de honestidade, de ambição para com o país. Um Presidente no qual os cabo-verdianos se reconheçam como seu símbolo, e como símbolo de um país que ganhou direito a estar no concerto das nações através da invencível arma que é a dignidade do seu povo, o comprometimento firme e a honestidade dos seus governantes.
Todos os povos passam por momentos históricos determinantes em que se ultrapassam a si próprios para atingirem objectivos antes, por muitos, julgados intransponíveis. Pela segunda vez na nossa História dos últimos 30 anos, Cabo Verde encontra-se num desses momentos. Com efeito, estamos vivendo um período de grandes desafios, que no entanto temos todas as condições para vencer, e que temos que vencer: de reformas importantes, e que não podem nem devem ser adiadas; de oportunidades promissoras que em cada dia estão-nos surgindo e que têm que ser rigorosa e atempadamente aproveitadas. E tudo isto requer confiança, espírito de risco, audácia e vontade empreendedora.
Eis porque decidi continuar a colocar toda a minha experiência, todas as minhas relações, tudo que aprendi na minha já longa vida política, ao serviço deste novo e exaltante momento nacional, por forma a não desperdiçarmos esta oportunidade única de nos libertarmos, de vez, das amarras do subdesenvolvimento económico, social e científico.
Ao posicionar-me como candidato à minha própria sucessão na Presidência da República, posiciono-me antes de mais como patriota. Mas também como homem de bom senso, como construtor de consensos.
Porém, e sobretudo, como cidadão amante deste país e que vem perseguindo sempre e incansavelmente, o sonho de um Cabo Verde próspero e respeitado pela obra dos seus filhos.
Para esse desígnio nacional, todos somos necessários e todos somos para ele chamados!
Cidade da Praia, 9 de Dezembro de 2005.
Pedro Pires
Quase 50 Anos
O MPLA comemorou ontem 49 anos. Pelo menos, o 10 de Dezembro de 1956 é apontado como a data da constituição de um "Amplo Movimento Popular de Libertação de Angola!", expressão retirada de um comunicado redigido por Mário Pinto de Andrade.
A constituição deste movimento congregou boas vontades, sobretudo do campo intelectual, que reunindo-se à de outras paragens do Mundo, nomeadamente a de outras regiões ainda sob o domínio colonial, ou dele saídas há pouco tempo, haveriam de levar ao desencadeamento de várias acções, umas populares, como o 4 de Fevereiro, outras nem tanto, como o "proceso dos 50". E, finalmente, à Guerra de Libertação Nacional.
O caminho percorrido foi intenso, diversificado e a História destes quase cinquenta anos é nebulosa, muitas vezes cinzenta e muitas outras, claramente mentirosa. Agora que este movimento político, cujo actuação foi fundamental no cumprimento do desígnio para que foi criado - a Independência de Angola - está a chegar a uma idade respeitável (meio século) , talvez esteja chegada a altura de um comportamento adulto, responsável, no domínio da História. Que sejam disponíveis aos historiadores, incluindo os independentes, todos os arquivos históricos do MPLA, incluindo aqueles que continuam nas mãos de personalidades que se entendem a si próprias como detentoras da verdade sobre o MPLA.
Seria interessante que na comemoração dos 50 anos de existência, o MPLA pudesse abrir os seus baús da História.
Que 2006 seja para o MPLA "O Ano da Verdade Histórica". Aqui fica o desafio.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
ONTEM,HOJE E AMANHÃ?!
A questão é saber se o hoje como ontem vai descambar no amanhã igual ao de ontem. Os ontens são todos passados e os amanhãs, todos, terão direito à esperança, ainda que, por certo, alguns vão acabar mal. Passei alguns dissabores quando defendi, e defendo, que Portugal teve no
Século XX, não posso escrever século passado senão fico a sentir-me cheio de bolor, dois homens providenciais: Salazar e Soares!
Era uma ilação minha. Não pertencia a nenhuma campanha eleitoralista, não tinha que ver com preconceitos políticos. Em períodos próximos e muitos delicados do país Salazar e Soares tinham sido determinantes a enfrentar as crises sociais que se viveram. Em comum só tinham aparentemente uma coisa: a minha profunda animosidade. Nunca gostei, nem admirei o primeiro e sempre detestei o segundo. Qualquer deles sobrou de sublevações militares e ambos, por sua vez, as domesticaram
Aprendi da lição da história algumas coisas: os militares não são gente de confiar e os magistrados, ainda menos.
Não vos vou prevenir. Quando chegar a hora vocês vão ter de enfrentar as coisas como nós enfrentamos, com mais ou menos reflexos. Aparentemente, hoje é mais complexo. E nem tanto por Soares ser mais idoso ou Jerónimo ser quase infantil, mas porque a Europa unida faz alguma confusão.
No mais está tudo na mesma. Não é de hoje os problemas de emprego. Tivemos um prémio Nobel arredado do posto de trabalho, um intectual ilustre emigrado nos Estados Unidos. E não foram só os salazarianos, outros ilustres descobriram antes as Américas ou deram voltas ao globo. E nem todos os que sairam comunas regressaram na mesma. Quando referi sobre um despedido recente a sua veia despedidora anterior era só a memória a dar voltas a teias de aranha. Um sobrinho não é um tio, faz fretes, além de outras coisas. Aceito que um despedidor
seja vilipendiado, mesmo que o despedido não seja modelo de virtudes, aceito tudo, mas sou de tempo dos filmes em que os maus acabavam sempre lixados, ainda que os lixadores fossem uns filhos da mãe.
Mas não me custa reconhecer que bem podia ter ficado calado. Sou eu que vou ter de pagar os copos, um dia destes, se o Fernando não for de gostos dispendiosos...
Século XX, não posso escrever século passado senão fico a sentir-me cheio de bolor, dois homens providenciais: Salazar e Soares!
Era uma ilação minha. Não pertencia a nenhuma campanha eleitoralista, não tinha que ver com preconceitos políticos. Em períodos próximos e muitos delicados do país Salazar e Soares tinham sido determinantes a enfrentar as crises sociais que se viveram. Em comum só tinham aparentemente uma coisa: a minha profunda animosidade. Nunca gostei, nem admirei o primeiro e sempre detestei o segundo. Qualquer deles sobrou de sublevações militares e ambos, por sua vez, as domesticaram
Aprendi da lição da história algumas coisas: os militares não são gente de confiar e os magistrados, ainda menos.
Não vos vou prevenir. Quando chegar a hora vocês vão ter de enfrentar as coisas como nós enfrentamos, com mais ou menos reflexos. Aparentemente, hoje é mais complexo. E nem tanto por Soares ser mais idoso ou Jerónimo ser quase infantil, mas porque a Europa unida faz alguma confusão.
No mais está tudo na mesma. Não é de hoje os problemas de emprego. Tivemos um prémio Nobel arredado do posto de trabalho, um intectual ilustre emigrado nos Estados Unidos. E não foram só os salazarianos, outros ilustres descobriram antes as Américas ou deram voltas ao globo. E nem todos os que sairam comunas regressaram na mesma. Quando referi sobre um despedido recente a sua veia despedidora anterior era só a memória a dar voltas a teias de aranha. Um sobrinho não é um tio, faz fretes, além de outras coisas. Aceito que um despedidor
seja vilipendiado, mesmo que o despedido não seja modelo de virtudes, aceito tudo, mas sou de tempo dos filmes em que os maus acabavam sempre lixados, ainda que os lixadores fossem uns filhos da mãe.
Mas não me custa reconhecer que bem podia ter ficado calado. Sou eu que vou ter de pagar os copos, um dia destes, se o Fernando não for de gostos dispendiosos...
Cooperação - Será Desta?
A palavra cooperação tem tido, nos últimos trinta anos, vários significados e nenhum deles muito lisongeiro, já que, na maior parte dos casos, ela se confunde com outras , gastas pelo tempo, queimadas pela História, anátemas de povos e de regimes políticos.
É fácil hoje associar à palavra cooperação uma outra que se banalizou por todo o Mundo - corrupção - que alastra como mancha de óleo em África na Ásia, na América Latina e se espalha pela Europa e pela América do Norte. Para os mais acusados - os africanos - a corrupção nasceu efectivamente na Europa e na América do Norte, porque lá estão os corruptores e sem eles não era possível o fenómeno com mais responsabilidade no atraso de grande parte do Mundo e na riqueza sem nome de uns poucos.
A cooperação, todavia, continua a ter um lugar importante na discussão das políticas dos Estados. Nos últimos tempos, inclusivé, já se vai percebendo que ela pode ter um papel no desenvolvimento do hemisfério Sul, desde que os fluxos de transferências financeiras, tecnológicas e outros sejam devidamente controlados e não deixados à mercê da voracidade de verdadeiros grupos de mal-feitores que dizem representar os seus povos.
É evidente que esse controlo tem que começar nos chamados países doadores, aqueles que contribuem com dinheiro, com mão de obra especializada e" now how" tecnológico para o desenvolvimento dos chamados projectos de cooperação.
O controlo tem que ser tão rigoroso como o de uma casa de família a viver de um salário médio e com objectoivos ambiciosos para a educação dos filhos e manutenção de um património de dignidade.
Sem esse rigor não há programas de cooperação que resistam e os recursos, muitas vezes colocados com a maior boa vontade à disposição de governos irresponsáveis, podem traduzir-se em mais miséria, em mais razões para o desespero, mais justificação para a emigração clandestina, mais lenha para as várias fogueiras em que ardem as diversas correntes de terrorismo internacional.
Por onde principiar o rigor? Desde logo por uma centralização de políticas e a edificação de um sistema de controlo. Por exemplo, em Portugal, não é possível manter o esquema de todos os ministérios, todas as instituições oficiais manterem programas autónomos de cooperação.
Esta descentralização é uma das razões do insucesso prolongado da chamada política de cooperação portuguesa. Ao longo destes anos assisti a coisas verdadeiramente inacreditáveis. Devo confessar que o espectáculo me levou a afastar progressivamente destas questões, porque - confesso -não tenho tendências masoquistas... e os erros sucessivos e repetidos, levados a cabo por gente evidentemente medíocre mas a quem o poder sempre concede uma espécie de escudo protector, me levaram à descrença total.
Volto agora a falar da cooperação porque me parece existirem razões para ter esperança. Desde logo porque a equipa dos negócios estrangeiros responsável pela matéria parece ter percebido algumas coisas fundamentais: que não é possível desenquadrar a política nacional das preocupações globais e que é necessário romper com " a tradição de descentralização orçamental da cooperação", que envolve, "igualmente uma descentralização de decisões administrativas e políticas" e, por isso, "constitui um obstáculo maior à racionalidade, à eficiência e à eficácia da Cooperação Portuguesa", tal como se lê no documento agora aprovado pelo Conselho de Ministros, com o tiítulo "Uma Visão Estratégica para a Cooperação Portuguesa".
Nesse mesmo documento aponta-se um outro mal crónico das várias tentativas de desenhar uma política de cooperação: " a dispersão de centros de decisão administrativa e política em matéria de cooperação não só tem inviabilizado uma política de cooperação, na qual as diversas actividades de cooperação correspondam a um paradigma e desígnio comum, como tem deixado órfã a questão da responsabilidade política por essas actividades".
São bons princípios estes. Esperemos para ver. Por mim têm o benefício da dúvida. Continuarei a dar nota deste documento.
Debate A Sério
Sem intermediários, sem regras duramente negociadas, eis que, neste blogue, se abriu um debate rijo, sério, de cavalheiros, sobre a acção de um homem menor, que, por acaso, eu conheço: o "dr". José Manuel dos Reis Barroso. E conheço de outros tempos, de outras canalhices, de outras encomendas e de outros despedimentos.O Fernando e o António vão deixar-me entrar no debate sobre o homem e o profissional, a que eu acrescento, o moço de recados. A estória de mais este despedimento sem dignidade está, afinal, contada, pela própria vítima, em carta dirigida ao algoz. Reparem. Leiam com atenção os excertos que eu seleccionei. Escusam de me agradecer o facto de eu continuar a ser "bem informado". Para vocês os dois , abraços e a promessa de um almoço a sério, um dia destes, lá para os lados do Cais do Sodré, bem longe da Rua João Couto, que, por sorte, não é "do Coito":
Exmo. Sr. Administrador-Delegado:
A carta endereçada por V. Exa. ao signatário, assinada, embora, a 28 de Outubro de 2005, saiu de Lisboa por Correio Azul Int – como se vê pelo carimbo – a 16 de Novembro de 2005, não cumprindo, assim, o estipulado no artigo citado. Penso, assim, que devo, pelo menos, para efeitos de pagamento, entender que deixo de ter contracto com a agência Lusa a partir de 15 de Dezembro.Por outro lado, ao citar a cláusula sexta – que estipula que cada parte pode denunciar o contrato desde que avise com 30 dias de antecedência, e só isso - terá de ver igualmente as cláusulas a seguir, uma das quais tem a ver com o pagamento das despesas. E aí tenho mais de um ano de não recebimento dessas mesmas despesas. Enviei atempadamente os justificativos. A partir de determinado momento, e sem nada me ser dito, deixaram de me pagar. Quero, portanto, receber esses dinheiros.
(...)
Desde que a actual Direcção tomou conta dos destinos da LUSA, anotei, desde logo, que não havia muito a fazer. E isto porque não havia (nem há) sensibilidade para as coisas das Comunidades. Como não havia (nem há) sensibilidade para as coisas da Lusofonia.Entenda-se, a este propósito, que até ali, e falando apenas do meu trabalho, a média de produção era de 2 a 3 notícias por dia.
A partir dali, para conseguir uma média de 2 a 3 notícias por semana, tinha de lutar e de levar ao extremo a minha habilidade de “furar” o que me parecia ser o “sistema”.
(...)
País este que é cada vez menos uma Nação de 10 milhões de habitantes, mas sim de, no mínimo, 15 milhões de Portugueses que vivem espalhados pelos quatro cantos. E isto para não entrar o campo da Lusofonia, em que são cada vez menos as informações que chegam aos grandes (ou pequenos) Jornais.Depois de várias “démarches” continuei a anotar que, das duas uma: ou não publicavam as notícias ou as truncavam de tal modo, naquilo a que eufemisticamente chamam editar, que era uma mexerufada em que ninguém se entendia.
(...)
Tenha-se em atenção que de cada 5 notícias que enviava, saía na melhor das hipóteses, uma...Ora, sou um Jornalista profissional desde sempre. Na minha vida profissional, que encetei logo depois de deixar de estudar, fiz SÓ Agências de Notícias, Jornais (especialmente diários), Rádio e Televisão. E sempre no sector da Informação. Nunca fiz mais nada. Nunca ganhei um cêntimo de outras actividades (que me lembre, pelo menos). Na LUSA estava a sofrer tratos de polé, sobretudo da parte de quadros intermédios que tinham como missão fazer com que eu e mais alguns colegas verdadeiramente profissionais saissem da agência.Ainda recentemente, quando da deslocação do Sporting Clube de Portugal a Toronto, dei comigo, ao intervalo, a telefonar para a LUSA, para dar nota de que ao intervalo o Sporting estava a ganhar por 1-0. Disseram-me que não, que não valia a pena. Mesmo assim, no final, fiz uma nota com o resultado, os marcadores, etc. Publicaram-na, sim, e a própria “A Bola” utilizou-a.
(...)
Na LUSA, nunca esta Direcção me deu instruções para mudar seja o que for. Se houve alterações no estilo, nunca me mandaram o novo livro de estilo. Se houve alterações na forma de actuar, nunca me deram a mínima instrução sobre isso. O que é capaz de explicar muita coisa.
(...)
Não peço a V. Exa. que reveja a denúncia do meu contracto de prestação de serviço, embora isso só honrasse quem está à frente dos destinos da LUSA Agência de Notícias de Portugal. E não lhe peço por saber que essa tomada de posição não está no espírito da “nossa” agência. Peço-lhe, isso sim, que denuncie, se entender, o meu contrato de prestação de serviços, mas com UM MÍNIMO DE DIGNIDADE, isto é, que me faça sair da LUSA, que servi durante cerca de 20 anos, com esse mesmo MÌNIMO DE DIGNIDADE. Isso acabaria por honrar a própria Agência de Notícias.
Apresento a V. Exa os meus melhores cumprimentos,
Fernando Cruz Gomes
Exmo. Sr. Administrador-Delegado:
A carta endereçada por V. Exa. ao signatário, assinada, embora, a 28 de Outubro de 2005, saiu de Lisboa por Correio Azul Int – como se vê pelo carimbo – a 16 de Novembro de 2005, não cumprindo, assim, o estipulado no artigo citado. Penso, assim, que devo, pelo menos, para efeitos de pagamento, entender que deixo de ter contracto com a agência Lusa a partir de 15 de Dezembro.Por outro lado, ao citar a cláusula sexta – que estipula que cada parte pode denunciar o contrato desde que avise com 30 dias de antecedência, e só isso - terá de ver igualmente as cláusulas a seguir, uma das quais tem a ver com o pagamento das despesas. E aí tenho mais de um ano de não recebimento dessas mesmas despesas. Enviei atempadamente os justificativos. A partir de determinado momento, e sem nada me ser dito, deixaram de me pagar. Quero, portanto, receber esses dinheiros.
(...)
Desde que a actual Direcção tomou conta dos destinos da LUSA, anotei, desde logo, que não havia muito a fazer. E isto porque não havia (nem há) sensibilidade para as coisas das Comunidades. Como não havia (nem há) sensibilidade para as coisas da Lusofonia.Entenda-se, a este propósito, que até ali, e falando apenas do meu trabalho, a média de produção era de 2 a 3 notícias por dia.
A partir dali, para conseguir uma média de 2 a 3 notícias por semana, tinha de lutar e de levar ao extremo a minha habilidade de “furar” o que me parecia ser o “sistema”.
(...)
País este que é cada vez menos uma Nação de 10 milhões de habitantes, mas sim de, no mínimo, 15 milhões de Portugueses que vivem espalhados pelos quatro cantos. E isto para não entrar o campo da Lusofonia, em que são cada vez menos as informações que chegam aos grandes (ou pequenos) Jornais.Depois de várias “démarches” continuei a anotar que, das duas uma: ou não publicavam as notícias ou as truncavam de tal modo, naquilo a que eufemisticamente chamam editar, que era uma mexerufada em que ninguém se entendia.
(...)
Tenha-se em atenção que de cada 5 notícias que enviava, saía na melhor das hipóteses, uma...Ora, sou um Jornalista profissional desde sempre. Na minha vida profissional, que encetei logo depois de deixar de estudar, fiz SÓ Agências de Notícias, Jornais (especialmente diários), Rádio e Televisão. E sempre no sector da Informação. Nunca fiz mais nada. Nunca ganhei um cêntimo de outras actividades (que me lembre, pelo menos). Na LUSA estava a sofrer tratos de polé, sobretudo da parte de quadros intermédios que tinham como missão fazer com que eu e mais alguns colegas verdadeiramente profissionais saissem da agência.Ainda recentemente, quando da deslocação do Sporting Clube de Portugal a Toronto, dei comigo, ao intervalo, a telefonar para a LUSA, para dar nota de que ao intervalo o Sporting estava a ganhar por 1-0. Disseram-me que não, que não valia a pena. Mesmo assim, no final, fiz uma nota com o resultado, os marcadores, etc. Publicaram-na, sim, e a própria “A Bola” utilizou-a.
(...)
Na LUSA, nunca esta Direcção me deu instruções para mudar seja o que for. Se houve alterações no estilo, nunca me mandaram o novo livro de estilo. Se houve alterações na forma de actuar, nunca me deram a mínima instrução sobre isso. O que é capaz de explicar muita coisa.
(...)
Não peço a V. Exa. que reveja a denúncia do meu contracto de prestação de serviço, embora isso só honrasse quem está à frente dos destinos da LUSA Agência de Notícias de Portugal. E não lhe peço por saber que essa tomada de posição não está no espírito da “nossa” agência. Peço-lhe, isso sim, que denuncie, se entender, o meu contrato de prestação de serviços, mas com UM MÍNIMO DE DIGNIDADE, isto é, que me faça sair da LUSA, que servi durante cerca de 20 anos, com esse mesmo MÌNIMO DE DIGNIDADE. Isso acabaria por honrar a própria Agência de Notícias.
Apresento a V. Exa os meus melhores cumprimentos,
Fernando Cruz Gomes
segunda-feira, dezembro 05, 2005
A CRUZ E OS GOMES
Sou amigo demais do Fernando e de menos do Cruz Gomes. Háuma diferença maior entre o mais novo e mais idoso do que entre maneiras de ser. O Fernando há-de morrer menino e o outros já era idoso quase antes de nascer. Li a correr, antes de entender. Não comento nem analiso a questão laboral, se for essa. Quero apenas salvaguardar um tipo de moral, que, graças ao lá de cima, não é convencional. Como sou amigo de um e não sou do outro logo não sou suspeito de ser isento. Ao menos isso!.
Mas deve ser levado em linha de conta. Se alguém andou sempre ao colo do poder, não tem nada a ver com um passado muito recente, foi Cruz Gomes. Se alguém abusou dessa circunstância para além do razoável foi o dito Cruz. Se há alguém a quem o dito nunca prejudicou foi a mim. Nem beneficiou, sejamos claros. Mas lixou muito boa gente. Chegou a ser demasiado reles para ser citado. Que me lembre chegou a exigir a renúncia a um cargo, por um colega, para não só obter o cargo para si, como para exigir favores da colega comprometida. Aoa 70 anos ainda sou vulnerável. Há filhas de putices imperdoáveis. E espero que o Fernando me perdõe e me ofereça uma dúzia de copos, de boa qualidade...
Mas deve ser levado em linha de conta. Se alguém andou sempre ao colo do poder, não tem nada a ver com um passado muito recente, foi Cruz Gomes. Se alguém abusou dessa circunstância para além do razoável foi o dito Cruz. Se há alguém a quem o dito nunca prejudicou foi a mim. Nem beneficiou, sejamos claros. Mas lixou muito boa gente. Chegou a ser demasiado reles para ser citado. Que me lembre chegou a exigir a renúncia a um cargo, por um colega, para não só obter o cargo para si, como para exigir favores da colega comprometida. Aoa 70 anos ainda sou vulnerável. Há filhas de putices imperdoáveis. E espero que o Fernando me perdõe e me ofereça uma dúzia de copos, de boa qualidade...
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