quarta-feira, maio 02, 2007

Só Passado

Coloquei na lista dos links deste blog o "Hunakulu-Fotos". Alguém me mandou por e-mail o endereço e a minha curiosidade foi aumentando à medida que percebi o seu conteúdo; são fotografias do itinerário para uma fazenda nas areias do Cuanhama, imagens da fazenda e, depois, a cidade do Lubango, rua a rua, quase casa a casa.
Também tem fotografias do Namibe, de Luanda, da Bibala e de algumas pessoas, sobretuto crianças. Destas, gostei sobretudo de ver o Orlando Carmo: está parecido com o pai, embora mais forte. O velho Carmo era bastante mais magro.
As fotografias do Lubango, sobretudo, tocaram-me no mais fundo. Por duas razões: foi uma viagem, embora rápida, ao meu passado - está tudo na mesma ou pior do que era - e porque estas fotografias, tiradas por uma senhora que, nesta altura deve andar pelos 42 anos e, que por altura da Independência era ainda uma criança (deve ter sido colega do meu filho mais velho), mostram uma cidade parada no tempo.
Estas fotografias, incluindo as da Bibala e do Namibe, são a demonstração de que quem governa em Angola ainda não sabe o que fazer à terra dos angolanos.
Fizeram os possíveis por expulsar e espoliar quem construiu o que ainda existe, mas até hoje foram incapazes de imaginar outra maneira de construir uma terra que tem bem mais que um milhão de formas de fazer.
Que fazem os governadores, além de enriquecerem do dia para a noite, os não sei quantos ministros, além de se apresentarem nédios e luzídios nos grandes hotéis europeus, vestidos que nem nababos americanos? Que faz o Parlamento de não sei quantos parlamentares, além de bater palmas? Que faz o primeiro-ministro, que faz o presidente? Já lá vão mais de trinta anos.A desculpa do colonialismo acabou...
Uma visita a este blog é importante porque mostra o passado no presente. É quase a fotografia de um fantasma, simpático, mas fantasma.
Eu agradeço a paciência e o trabalho de quem nos quis mostrar tudo isto. Muito Obrigado

domingo, abril 29, 2007

Que Futuro?

Os homens e mulheres da minha geração, quando olham para o passado têm, obviamente, alguns motivos para desejar que as coisas se pudessem ter passado doutra maneira. O Salazar e tudo quanto ele implicou foi mesmo horroroso...
Mas, temos - todos (?) - motivos para alguma nostalgia, saudade. Ficou-nos muito tempo e muito espaço para a imaginação, para o empenhamento nas chamadas causas justas e para a esperança de que o Mundo melhorasse - para todos.
A nossa Juventude foi um verdadeiro romance - para alguns de aventuras, para outros de sacrifícios, de lutas difíceis, mas, para todos, de esperança no futuro.
A verdade é que essa esperança se transformou, aos poucos, em triste desilusão. Fomos vendo os companheiros de sonho, de aventura, substituirem os títeres que nos atormentaram a infância e a Juventude. Aos que, como eu, em Angola, lutaram pela Independência, foi-nos negada a alegria da construção de um país livre, justo, fraterno e igual. Ser branco era uma definição, continua a ser uma definição.
E o que vemos, tanto lá, como cá? O discurso do neoliberalismo mais feroz de que há memória. uma corrupção que se instalou a todos os níveis, o aparecimento de um Estado que já não controla nem a sua própria estrutura. Políticos desprestigiados, agentes económicos sem ética, sem respeito pelos mais elementares direitos dos outros.
Estamos a caminho de uma sociedade sem valores que travem o passo seguinte: a marginalidade, o banditismo transformados em máquinas modernas, organizadas, em contraponto à organização do Estado gasta por lutas intestinas, estragada pela gestão de compadrios inúteis e parasitas.
O futuro é o domínio das organizações criminosas, marginais, constituídas por gente que, pura e simplesmente foi atirada para a sobrevivência que, posteriormente, aceitou como modo de vida, acrescentando-lhe a inteligência, o génio e o conhecimento que os pequenos grupos de corruptos foram despresando paulatinamente, enquanto iam enganado o povo de todas as maneiras, mesmo as mais saloias e podres.
Já é tarde para travar este futuro, porque quem manda hoje no Mundo vai continuar a querer mandar e já percebeu de que lado está o futuro. Eles serão os futuros patrões do crime organziado (alguns já lá têm as suas cadeiras). Os primeiros-ministros, os ministros e os presidentes das repúblicas serão apenas biblots televisivos - se é que já não são...

terça-feira, abril 17, 2007

É o Tempo que Vai Faltando

Via-o de longe, desengonçado, sempre na galhofa com os mais velhos.Era o filho do sr. Cambonéu, o dono de todas aquelas terras que circundavam a Escola Industrial. Naquele tempo não havia estrada para lá do rio. A estrada ficava ali, junto à casa da família Carranca. O Tony tinha-o conhecido em Coimbra, no D, João III e depois fui encontrá-lo no Diogo Cão, no Lubango. O Nicolau Borrelhas, Cambonéu, andava na Escola Industrial.
No célebre ano de 1957, quando o Nené Miranda apareceu com aquela ideia de uma excursão ao Sul de Angola, num camion da Missão do Caminho de Ferro, conduzido pelo Kubitcheke, juntámo-nos todos: os Mirandas, com o Tó Zé, os Carrancas, o Tony e o Carlos e o Nicolau... mais o irmão Rogério,
Claro que tinha mais gente: o Tareco, o Rui Amaro, o Artur Ferreira, o Trabulo, o meu irmão e tantos outros, cujos nomes não me ocorrem agora (vou tentar juntar a este testo uma fotografia).
O Nicolau era o nosso grande artista - além de um grande defesa no futebol . Todas as noites, ele e o Tareco, na "chama" davam verdadeiros espectáculos que nos entretinham a nós todos e mais as populações que nos recebiam; Mulondo, Calueque, Roçadas, Matala (assim, sem ordem aparente), até fomos à Ganda, porque o Nené tinha (dizia) lá uma namorada. Ninguém a viu.
O Borrelhas ficou a fazer parte do meu universo. Era um amigo fabuloso, sempre disposto a ajudar. Alguns anos depois, na tropa, quando, depois de oito longos meses de recruta, me fui apresentar no RISB, lá estava o sargento Nicolau. Era o mestre de obras do Regimento.
Tínhamos o mesmo jeito de colocar aquela boina horrível; assim como um prato poisado sobre a cabeça. O Comandante andava sempre a fazer obras ( todos sabíamos o que é que isso significava; andava a meter dinheiro ao bolso) e, por isso andava sempre com o Borrelhas à tiracolo. Ele detestava a figurinha do coronel ladrão que também tinha a mania de fazer capoeiras e coelheiras. Um dia quis obrigar o sarg. Borrelhas a levantar o rabo a uma coelha para facilitar a vida a um coelho.
O Nicolau Cambonéu (Borrelhas) saíu disparado e durante uns dias houve ali um problema grave. Até que o Comandante deve ter sentido que a vida podia não lhe correr bem se acontecesse alguma coisa ao nosso sargento Cambonéu.
Nos últimos tempos, o meu filho tem-me dado notícias do "velho Nicolau": que aparece de vez em quando a contar as estórias do antigamente, sempre para uma plateia de jovens interessados. Mantinha o espírito aguçado, mas estava cansado.
Hoje, o meu Sérgio mandou-me a última notícia: morreu o Nicolau.
Numa fracção de segundo a minha cabeça percorreu milhares de quilómetros e algumas dezenas de anos e senti-me, de novo, a ouvir o Borrelhas, mais o Tareco a contarem a enésima versão da estória do sôr cornôr...sôr cornôr. Voltei a vê-lo com o seu ar desengonçado e o seu largo sorriso, que lhe abria o enorme bigode; "então, miúdo, algum problema?"
"Sim. Tem problema, meu parvo, porque é que não disseste que estavas aqui em Lisboa para eu te ver uma última vez? Não perdeste essa mania de que as balas te passavam ao lado... E agora, faço o quê com as minhas recordações?

quarta-feira, abril 11, 2007

BABAR

Estava eu posto em sossego, a folhear o pasquim dominiqueiro, pois, e eis que me entra porta dentro o meu neto, um dos não sei quantos já, entre os daqui e os de lá. Lembras-te,Leston, de uma vez, no «África», estando os dois entretidos a maquinar, me chegou a nova de que a minha filha tinha chegado e me batia à porta. E a casa estava vazia. E eu fui a correr, contigo, que me levaste. Era a Bárbara, de bébé ao colo. Jantámos lá pela Linha. Emprestaste-lhe o carro, para as voltas. Foi este neto que me chegou de novo, mais crescido e de namorada à tiracolo...Dois angolanos enamorados é natural. A menina estuda em Lisboa.- Não estás na Independente?... - perguntei, por deformação profissional. Não! A menina não está ali, Estuda no Liceu Francês, aqui, em Lisboa. O rapaz também estuda, pois então. A onde? Também não acertaria no onde se tivesse perguntado. Estuda, como eu bem sabia, no Cabo, na África do Sul, onde estudam e já estudaram outros netos. A parte chata com os netos é que deixam de ser meninos muito depressa. Nem me posso queixar disso porque ao longo dos anos fui tendo por perto os netos que vieram estudar. Os primeiros por instabilidade social e política e, depois, mais ou menos por desconcerto político e social, que a prosperidade petrolífera não dá para tudo, especialmente se for imprescindível.Os filhos, esses, estudaram por lá. A princípio nos tempos da impiedosa exploração colonial. Acabaram os seus cursos no novo Estado (não confundir com Estado Novo outro, que morreu de velho) sem sobressaltos. A evolução é que evoluiu ao contrário, mas isso já não são contas do meu rosário. Seria de certo pior se o ensino fosse mau por carência de meios, mas como é opção tudo bem, cada qual vai estudar onde lhe sair por sorte.

sábado, abril 07, 2007

As Literaturas e os literatos

A definição de literatura de "expressão" oficial portuguesa ,que, do ponto de vista teórico, levanta discussões insolúveis, tem, afinal, a mesma saída que a classificação, mais aceite, de literatura de "língua oficial" portuguesa. E isto, porque os seus cultores não entram na discussão e aceitam as duas definições.
É gente com mérito - indiscutível - mas um mérito muito gradativo - dependente muito das latitudes de que se dizem provenientes.
Uma grande parte deles, se recusasse a definião de "escritor angolano", "escritor cabo-verdiano", "moçambicano", etc., não teria audiência nem dentro do espaço geográfico que os define. Percebe-se, por isso, uma espécie de barreira que eles próprios criam à sua volta e que os protege, sobretudo do tipo de vida que levam: são "escritores angolanos", ou "moçambicanos", ou de outra matriz qualquer, têm uma temática especial sobre a qual escrevem, mas vivem fora da geografia que a define.
Instalam-se em Lisboa, bons hotéis, boas casas, bons automóveis, boas vidas, ou na "Província": boas quintas,bons ambientes e recusam a integração num movimento global dos escritores em português.
Curiosamente, alguns deles fazem a investigação das coisas de África em Portugal, há anos que aqui vivem, cultivam as ligações políticas que lhes permitem a classificação apertada e, em consequência o nome nas antologias, nos motores de busca, mas há muito que estão desligados das realidades que dizem retratar.
Alguns deles optaram politicamente por determinada ideologia e ,depois, ganharam nome a contestar as práticas resultantes. Mas...sempre com jeito, porque a cobertura política facilita-lhes as viagens, as bolsas, a vida estranha que a maior parte deles tem em Lisboa ou noutro sítio qualquer de Portugal - o alvo preferencial das suas "crónicas de escárnio e maldizer", mas cujos governantes, sempre temerosos dos juízos dos ex-colonizados, lhes vão oferencendo bolsas e facilidades de todo o tipo.
É verdade que também há os que escrevem sobre as ex-colónias e se afirmam como portugueses, viajantes, ex-colonos, o que quer que seja, mas amantes dos povos que conheceram, dos seus costumes e das suas paisagens. Esses, são, normalmente, esquecidos e têm que lutar muito para verem as suas obras publicadas, mesmo aquelas cujos méritos são evidentes.São apenas portugueses.

sábado, março 10, 2007

Miguel Rego

Este "Africandar" ,para o qual tenho tido pouco tempo, tem-me dado algumas alegrias. Sobretudo porque através dele tenho chegado a amigos cujo paradeiro tinha perdido. Desta vez foi o Miguel Rego que me encontrou no "Africandar" a partir de Moçambique.
O Miguel Rego tinha não mais de 18 anos quando apareceu no "África", ainda na Rua Gomes Freire. Ele e a Valentina - queriam ser jornalistas. Ficaram nossos estagiários e fizeram parte da equipa a sério. Foi através do "África" que ambos tiraram a carteira de jornalistas, o tal documento que naquele tempo não servia para nada, parecia uma carteira de escuteiro. Agora serve para algumas confusões... Por exemplo não sei como é que proprietários de produtoras independentes de televisão têm carteira profissional e, ao mesmo tempo, apresentam telejornais e fornecem as estações em que trabalham de produções externas...
Isto foi só um parêntesis - é o hábito.
Voltando ao Miguel: depressa se revelou um jovem cheio de talentos e uma peça fundamental da equipa, que aos poucos foi crescendo com gente como o Rola da Silva, o Leonel Cosme, o Fernando Alves, a Ana Consolado, Alfredo Margarido, Mesquitela Lima, João Van Dunem, Loja Neves e até o Manuel Delgado e o Agualusa e tantos outros.
Foi o Miguel o protagonista de um casamento realizado na Redacção do "África", já na Possidónio da Silva, com o objectivo de ajudar uma colega a obter um crédito bonificado para comprar casa, uma estória a quye me refiro em "O Romeiro"
De repente, o Miguel desapareceu, fui sabendo notícias: tinha-se cansado do jornalismo e tinha começado a emprestar o seu enorme talento criativo à publicidade. E continua: é o Creative Director da Olgivy, em Moçambique.
Está entusiasmado lá pelo Índico. É normal: um Miguel Rego com aquela cabeça não podia continuar por aqui a debater-se com a mediocridade que sempre procura atirar para debaixo do tapete o talento.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

António Trabulo e "Os Colonos"

Ontem fui assitir ao lançamento do livro "Os Colonos", do António Trabulo, e antes de me referir propriamente ao evento, quero falar da enorme alegria que senti ao reencontrar o meu velho amigo Samuel Matias. Descobri-o - já ele andava à minha procura - porque mantém os mesmos traços fisionómicos, a mesma alegria no olhar e uma enorme parecença com o pai, o velho Matias Lopes (José).
Sempre a caminho do Caculuvar, onde a família ainda mantinha as suas terras, o pai do Samuel era uma figura imponente. Assim está o agora "velho" Samuel, um dos descendentes dos primeiros colonos idos do Funchal e cuja saga serve de base a este romance de amor que António Trabulo nos dá agora para ler, assim como uma espécie de homenagem à terra onde viveu os primeiros tempos das grandes aprendizagens da vida.
Como legenda de os colonos uma frase lapidar: "Partiram de mãos vazias. Enraizaram-se a amaram a terra. Mudaram África e foram mudados por ela".
Para se perceber uma das eventuais intenções do livro, valerá a pena tomar atenção a uma interrogação colocada na apresentação do livro: "Ouvimos com frequência dizer, ao longo das últimas décadas, que a nossa descolonização foi mal feita. Mas poucos lembram que a colonização não correu melhor. O que aconteceu, afinal, aos colonos que partiram para terras de África? Sem traumas ou preconceitos, este romance acompanha a eopopeia dos madeirenses que fundaram o Lubango, no Sul de Angola.
"Os Colonos" é também um livro corajoso porque é a estória ficcionada de um grupo de gente boa e menos boa e até má, que, com todas as suas contradições, iniciou a construção de uma cidade de que toda a gente que nela viveu ou vive se orgulha.
A apresentação do livro foi feita pelo Fernando Dacosta, no seu estilo displicente, convidativo ao sono e pouco cuidado. E com erros. Por exemplo, pôs no Lubango uma casa do Norton de Matos que existe no Huambo. Além do mais, continua com ideias erradas sobre o que pode ser o futuro dos portugueses em África. No futuro, o neo-colonialismo obedecerá a esquemas de Estados, subordinados a programas das multinacionais. A colonização portuguesa foi feita ao sabor do espírito aventureiro de um povo que se sentia mal-tratado na sua própria terra. O Estado só apareceu para estragar...

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

ETERNIDADES

O meu caro editor pode dormir tranquilo:em Luanda havia quem apreciasse o balador. Não eu, confesso, então pouco ligado à Rádio. Por felicidade, não havia tv em Angola e eu podia sair, apressado, pela manhã. Não havia (ainda não tinha) o hábito de escutar a Rádio, nem sequer pelas notícias. O vício de pequenino era o de espreitar os jornais, a «telefonia» era coisa de música. Claro que ia muito ao cinema. Podia dar-me a esse luxo e além do mais nem pagava bilhete.Zeca Afonso chegou-me pelo Joaquim Cabral, que o venerava. Tinha-me, nem sei porquê, habituado à ideia de que não gostava do fado de Coimbra e eu tinha por Coimbra a mesma simpatia que o Leston conservou por Luanda. Eu achava que «eles» tinham a mania e nem me ocorria que a «mania»podia ser minha. Graças ao Quim, o meu muito estimado colega e extraordinário fotógrafo, aprendi a ser menos precipitado nas conclusões. E sempre que passava por casa dele a caminho da reportagem fazia uma pausa para escutar uma faixa do disco.Mas foi no Moxico, no Luso, se faz favor, que «sofri» a lavagem completa ao cérebro. O Quim conhecia o secretário do governador do distrito e nós precisavamos de pedir meios para deslocações afins à reportagem. O governador facilitou as coisas, mas foi o seu secretário que convidou o Quim para que jantássemos com ele.Fiquei meio lixado com a ideia de jantar em casa de alguém que não conhecia, mas o Quim não se conteve:-- É pá! O gajo tem os discos todos do Zeca Afonso!...E tinha! Estar sentado à mesa do poder tem regalias! Foi uma noitada e peras e eu saí de lá lavado de obscurantismo saloio.Mais tarde viria a saber de perseguições e convicções, em Lourenço Marques, por uma amiga que com ele conviveu. Dela me vem à memória a coragem irresponsável, numa tarde na Av, da Liberdade (!), a Céu ostensivamente grávida, a bramir contra a repressão policial, numa manif das que ocasionalmente se levantavam, no pós Delgado!

sábado, fevereiro 24, 2007

Zeca Afonso

Fez ontem vinte anos que morreu Zeca Afonso, uma referência de luta contra a opressão o obscurantismo, mesmo para aqueles que nunca lutaram por coisa nenhuma - o que é bom. Alguém disse que as nações não se constroem sem heróis. Entre os portugueses do sec. XX eles foram poucos, mas, seguramente, o Zeca um deles.
E foi-o durante muitos anos e em muitos lugares. Os seus discos, proibidos de passar nas Rádios, alimentavam os sonhos de muita gente de um dia viver na mesma terra mas com outra gente a mandar.
Quando falo em muitos lugares, não posso deixar de me lembrar da afirmação de um homem da Rádio e Televisão, que num programa em que se falava da Rádio de Angola, transmitido há pouco tempo pela RTP África, o Latitudes, afirmava que em Angola, quem trabalhava na Rádio não conhecia, sequer, o Zeca Afonso.
Hoje, que estou com tempo, vou contar uma estória sobre essa ideia de que em Angola eram todos uns ignorantes sobre as movimentações culturais e políticas portuguesas. Assim, o Carlos Brandão Lucas, meu amigo e com formação de historiador, poderá ficar orgulhoso pelo facto de no Lubango - não em Luanda, onde não havia tempo para certas coisas - haver um grande interesse pelo Zeca Afonso e também um grande conhecimento da sua música e o que ela representava.
No final dos anos 60, suponho que mesmo em 1969, o Rádio Clube da Huíla, onde eu trabalhava, convidou o Zeca Afonso para fazer um espectáculo no Lubango (Sá da Bandeira). Escrevemos-lhe para Setúbal, donde ele nos respondeu aceitando o convite, dando-nos algumas facilidades e pondo algumas condições.
Como pagamento apenas queria as viagens e a estadia - e mesmo assim utilizaria uma passagem que tinha para Moçambique, faria uma paragem em Luanda e de lá voaria para o Lubango.
As suas condições eram: aceitava fazer um espectáculo pago, desde que a preços baixos e queria fazer um outro espectáculo, "para o povo", sem qualquer pagamento.
O Leonel Cosme, que também trabalhava no Rádio Clube da Huíla, embora com funções administrativas, eu, o Humberto Ricardo, o Pereira Monteiro, a Eunice Correia e, de uma forma geral, todos nos empenhámos neste evento. E connosco, a cidade inteira.
O espectáculo gratuito "para o povo" seria feito numa plataforma, a sair da chamada esplanada capela da Senhora do Monte, com colunas de som, espalhadas pela serra em torno do então parque da Senhora do Monte. As pesssoas tinham um espaço muito razoável para ver o Zeca Afonso, como que a sair da Serra e ouvi-lo de uma forma totalmente inédita.
Houve bastante correspondência trocada com ele e o Zeca Afonso ficou verdadeiramente entusiasmado com a ideia do espectáculo na Serra.
Enviou-nos a listagem das canções que iria cantar. Foram todas à censura local e aprovadas. Promovemos os espectáculos.
O espectáculo com público pagante seria realizado no Pavilhão Gimnodesportivo e os bilhetes esgotaram-se em dois ou três dias.
Estava tudo preparado para receber em festa o Zeca Afonso, quando recebemos comunicação, directamente do Governo Geral ( o governador era o Coronel Rebocho Vaz) a proibir o espectáculo.
Tivémos, como é óbvio, de devolver o dinheiro às pessoas e fomos impedidos de explicar as razões por que não haveria espectáculo, mas o povo era sereno mas não estúpido e percebeu que o São José Lopes, o homem da PIDE em Angola, não tinha gostado da ideia.
Penso que esta história não faz sequer parte das várias biografias do Zeca Afonso, mas ela revela o seu grande empenhamento em fazer da canção "uma arma" e a sua grande generosidade, dispondo do seu tempo, a troco, praticamente, de nada.
Por último, também deixo aqui a ideia de que o Zeca não era uma desconhecido em Angola - sê-lo-ia em Luanda ?
Eu, por exemplo, trazia no meu automóvel um gravador portátil que só tocava música do Zeca Afonso. Já que não a podia passar na rádio...

domingo, janeiro 21, 2007

MAIS HORA MENOS HORA:::

Ora, ora! Que não se complique o que já de si não seja fácil. E não se deve ter pressa para tudo.Há que aceitar as limitações. Há que saber sofrer as consequências. Não é preciso entender o que para se perceber necessita curso completo. Passa-se muito bem sem curso. Pelo menos quase tão bem como se passa sem emprego, sem subsídio ou a ver minguar a reforma.
Criatura que sinta um aperto no peito deve logo decidir-se e morrer, discretamente, sem demorar quatro horas à espera de carroça. Uma só carroça chega bem para o Alentejo todo. Antes de haver carroças daquelas, o Alentejo não tinha nenhuma e morria-se na mesma - e sem desculpas.
Claro que não é preciso mudar de ministro. Ministro aritmético como ele não há por aí aos trambulhões e nem tudo pode ser depressa. Tinha uma vizinha que me dizia que gostava dos homens que levam o seu tempo para fazer as coisas...
Um exaltado exaltou-se comigo e perguntou-me: «Achas bem só um carro para todo o Alentejo?
Que podem fazer o alentejanos para mudar isso! Vá, diz lá»...
Ora, sairem do Alentejo. Deixarem a viatura sozinha...

quinta-feira, janeiro 18, 2007

A MÁS HORAS

Ministros é com Sócrates, como ele sabe, como ele os quer. Na Saúde é o que se sabe: quem tem massa vai a Espanha, quem não tem ficou em casa. Ninguém precisa de cuidados específicos, necessita é de paciência. E de fé, bem entendido!
Fez-se saber que a vítima estava condenada a morrer. As seis horas não foram para ele,vítima, para ali chamadas. Assoem-se a este guardanapo. Nada de inquérito, Claro! Nenhuma dúvida! Se não fosse agora, seria depois. Estava condenado. Como eu ou os que perderem o seu tempo a ler inconveniências.
Se o senhor Sócrates, já que não vai à China tão depressa, me fizesse o favor de perguntar ao expedito ministro o que é que uma coisa tem a ver com a outra? O que se pôs (o que se põe) em causa não é o estado de saúde de um sinistrado, mas a resposta que se dá ao sinistro! Quanto mais ferido mais depressa o socorro. O ministro ficou tranquilo: o homem não tinha cura! E se tivesse? Se pudesse sobreviver em condições de ser salvo, resistindo quatro horas e um quarto? morreria na mesma!
Para salvar a face, promete-se umas carrinhas extras de segunda classe. Bem que sabia o Fernando, que quem espera desespera. Batam em latas, dizia ele, que queria ir de burro. E de burro estamos a ir todos, não direi ajaezados à andaluza, porque assim, por ora, são só as damas...

segunda-feira, janeiro 15, 2007

SIM

Creio que foi Giscard que utilizou a expressão «sim, mas...» com suficiente veneno para levar
De Gaulle a retirar-se do poder e ir para casa, onde nem teve muito que esperar para o fim derradeiro!
Alegre cantou a lembrar que «...há sempre alguém que recusa, há sempre alguém que diz não»!
Aqui pelas cercanias sei que nem vale a pena pedir a um vizinho dinheiro emprestado. Ele diz sempre que não. Mas verdade se diga que um pouco mais adiante há uma interessante vizinha, que amíude diz que sim.
Como sou antigo, às vezes a memória atropela-me as ideias. Quando os meus pais me levaram para a Victor Cordon, no ano em que fui para a escola, ainda perdurava a guerra na Europa. O Um pouco acima do largo do Chiado, o Ginásio funcionava e passava filmes alemães. À esquina da Garret funcionava um pomposo centro de propaganda nazi. Além dos filmes alemães e americanos e da propaganda de uns e outros, vivia-se como se podia. Com racionamento restritivo e mercado negro complementar. O Bairro Alto era um baluarte de fado e prostituição.
Quando ia para a escola passva pela rua do Ferregial, que também tinha «meninas», mais à frente, nas escadinhas não sei de quê também as havia. E depois na Boavista.
Habituei-me, como me habituei às gaivotas, que via das águas-furtadas e junto ao rio, ao Cais do Sodré. Na minha casa havia uma torneira de água na cozinha e outra no cubículo, que dispunha de uma sanita e um lavatório, a que a minha mãe chamava casa de banho. Ao lado, na casa dos vizinhos, mais antigos no prédio, a dita casinha não tinha torneira, nem água canalisada. Só na cozinha. O banho, propriamente dito, tomava-o na cozinha, num alguidar de zinco. Cozinhava-se a carvão e era a carvão que se aquecia a água para o banho semanal...
Além de ir à escola, ao Conde Barão, ia por vezes aos Cais do Sodré, onde além dos eléctricos e da estação de comboios, havia muitos bares de «pequenas» e havia uma loja que vendia gelo. O gelo que eu comprava, de vez em quando, era para a minha mãe, sempre a seguir às visitas que ela fazia à parteira!
«Sim»! Era isso mesmo que eu ia fazer ao Cais do Sodré, antes de perceber. Não se discutia se sim ou não. Era assim. Claro que nesse tempo era tudo proíbido, mas tolerado, desde que evitados maus desenlaces.
À mistura havia estórias mais sórdidas, como as das garotas que se traziam da aldeia para para ajudar a senhora nas lides da casa e aliviar a miséria das famílias do campo. À meninas aconteciam quase sempre desgraças ou com o leiteiro que ia à porta ou o marçano da mercearia ou, o mais frequente, o filho do patrão ou próprio e a dona da casa expulsava a desgraçada. Não faltava quem soubesse encaminhar as desvalidas.
Não poucas famílias se agrediam entre si, em nome de um puritanismo remeloso que expulsava
a filha devassa que deshonrara o chefe de família. Florescia o negócio da prostituição legalizada. Havia bem mais prostíbulos acessíveis naquele tempo do que lojas chinesas nos dias que correm!
A religião dominante impunha a castidade.
Foi a pílula que trouxe a paz, já depois da moral cristão ter sido aliviada da liberalização comercial do sexo a xis à hora. Passou à clandestinidade. Não dispõe de meios legais, mas é as mais das vezes despenalizada e com direito a promoção nos jornais diários. Agora com a lamúria sobre o aborto sim ou aborto não ainda é pior que o antigamente. Uma dona Manuela, senhora razoavelmente feia, «não quer apoiantes do "sim"nos tempos de antena do PSD», citava ontem o «DN». Veio-me à memória uma intervenção de Natália Correia, na Assembleia da República, já lá vão uns anitos, quando um deputado do CDS afirmou no hemiciclo que o coito devia ser unicamente para procriar e a poetiza foi dizendo que não sabia o que concluir do facto do deputado centrista só ter dois filhos...
Mas parece-me mais perigoso meter bispos na conversa. Nos católicos o atavismo é congénito. Desde que matirizaram um pobre cientista que descobrira que a Terra girava em volta do Sol...
deviam ter perdido o direito de impor dogmas. Mas a gente comum tem direito às dúvidas e às preferências e sobretudo à opção que a consciência lhe dite...

domingo, janeiro 07, 2007

OS DANTES

Não confundir com Dantas, que já lá está!E se não estivesse viria a despropósito. Era uma espécie circunscrita e limitada no tempo.Hoje, no DN tropecei no defunto Gaspar Simões, crítico literário e lembrei-me, claro de Luís Pacheco, ainda nos tempos do Gelo e a propósito justamente de uma entrevista na qual o crítico era entrevistado. E o crítico Simões diria a certa a determinado passo: «...tenho tanto que escrever que nem tenho tempo de ler!» e o Pacheco quase entrou em paranoia, Gelo foram,Gelo dentro. Arranjou foto de um bigodado padeiro porta-a-porta, típico, de cesta às costas, inserindo a transcrição, atrás referida, e com uma legenda a sublinhar o atarefado crítico na tarefa de distribuir a prosa crítica. Com isso elaborou em forma de postal um libelo, que distribuiu Chiado acima, Chiado abaixo e a acabar no Gelo.Uns dias atrás dei por uma referência inusitada a Herberto Helder, a propósito de nada. Cheirou-me a rei-morto-rei posto: foi-se o Cesariny, toca a empurrar este, que escreveu "O Amor em Visita" e que não gosta que se fale dele, mas vem-se à memória uma noite suave em que se descia do Chiado para o Cais do Sodré e ao passar-se pelo Barão Quintela, e de nos termos ridoda nudez forte da verdade, o Herberto referir algumas facetas do escritor e das suas relações com Ramalho Ortigão, sobretudo depois da edição do «Primo Basílio», que gerou alguma controvérsia por mór da «nova sensação». Eça defendia, que sim senhor, aquilo resultava, mas Ramalho insistia em não acreditar nas habilidades de cepa francesa, como se dizia na época. Até que se dispôs a tirar o assunto a limpo. Em férias pela província, encontrou alguém e atreveu-se. Depois enviou um telegrama a Eça: «Lavei.Provei.E não gostei»... E Eça ripostou logo: «Lavaste.Estragaste»...Fomos colegas algum tempo depois, no Notícia, em Luanda. Já em Lisboa viria a escrever um libelo tremendo contra a guerra, em forma de crónica desportiva, que intitulou «Um passeio ao campo», sobre um Sporting-Benfica, em Alvalade, mas tão hábil que escapou aos censores...

sábado, janeiro 06, 2007

MUCUBAIS E MUITOS MAIS

Mesmo sem ser para aqui chamado vou fazer o que sei melhor:confusão. Mucubais eram, para mim, a gente do deserto de Moçâmedes.Tive de gramar algumas chamadas à ordem por não os diferenciar dos bosquimanos. Quem mais me xingava com isso era o Sebastião Coelho. Mas fossem o que fossem ou quem fossem era gente antiga da antiguidade. Muito apreciados pelos antigos gregos mitológicos, que os compravam alegremente. Vinham de longe, de muita África corrida, os caçadores de escravos, mas a caça era rentável. Façam o favor de notar que me refiro a um tempo passado, antes mesmo dos portugueses aportuguesarem todos os pedaços que gamaram aos mouros.
Seja como for, os bosquimanos e/ou os mucubais ou outros que tais integraram, sim senhor os flechas. Não só eles, mas também eles. Não me recordo da cena com o Farinha, mas eu próprio, com Eduardo Baião, fiz reportagem sobre eles. Fomos acompanhados por dois inspectores da Pide. Assisti à largada na mata de um pequeno grupo, que viria a ser recuperado a quase centena e meia de quilómetros dali, três dias mais tarde. Vi um deles abanar a cabeça e rebuscar de um saco umas quantas fotos, avidamente espreitadas pelos «pides». Não mas mostraram, claro. Depois saberia do que se tratava.
Os do sul, quando eram largados na mata esqueciam quse tudo quanto a «musa» lhes cantara. Sentavam-se e comiam toda a ração que levavam para comer nos dias que se iriam seguir. Depois, sim,depois andavam que se desunhavam. Sabiam o que procurar, como e onde. Impressionante o que podiam andar, onde podiam chegar; impressionantes os resultados que, depois de recolhidos, contavam. A tal ponto que se tornou difícil acreditar. Passaram a ter que levar maquinetas de fotografia instantânea, habituamente utilizadas para cenas mais ou menos escabrosas, experimentadas por timidos e pecaminosos envergonhados.
E quando passaram a exibir , no regresso, fotos de vítimas deixadas para trás, se desvaneceram as dúvidas e a entender o pavor que semearam e o ódio posterior dos angolanos.
As chefias militares não gostavam muito de tomar conhecimento destas facécias. Por essa altura o relacionamento entre a DGS e o Comando militar era pelo menos estranho e se havia matéria que as chefias militares ostensivamente inoravam eram os flechas!
Não era, no entanto,caso virgem. Na Guiné os comandos incluiam guineenses nas suas fileira, que rapidamente se fizeram notar e ser odiados pelos guerrilheiros do PAIGC. Desconheço se houve ou não alguma inveja, mas a forma como os militares portugueses entregaram «os comandos» africanos ao novo poder na Guiné foi, no mínimo, vergonhoso. Foram todos chacinados. Ainda hoje, tantos anos volvidos, sinto dificuldade em respeitar os símbolos das forças armadas do meu país!
Já agora, também conheci o Peyroteo citado, por Leston, a propósito do livro que ele leu. Conheci-o, evidentemente da Huila, nos contorbados dias de ocupação pela Unita e FNLA e portugueses, com apoio sul-africano. E a
última vez que o vi foi em Lisboa, em casa do Carlos Fernandes, artista plástico,um bom amigo, que me recolheu em Luanda e que recordo com saudade.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Os Livros

De há uns tempos a esta parte têm aparecido alguns livros curiosos relatando experiências de vidas vividas nas antigas colónias, hoje países independentes.
Muitos deles falam das coisas extraordinárias presenciadas por gente longe das suas terras e descrevem acontecimentos da sua vida que, por terem sido vividos longe do seu habitat, lhes parecem dignos de letra de forma, de livro.
Por este Natal um amigo ofereceu-me um livro intitulado " A Última Jóia", que o autor, Luís Rodrigues, classifica como " a história de Angola que ainda ninguém escreveu".
A classificação é atrevida, já que o livro é a narrativa das venturas e desventuras da sua família por vários cantos de Angola e também por Moçambique. Por sinal, o autor viveu no Lubango em anos durante os quais por lá andei. E fala de alguns personagens e acontecimentos que são do meu conhecimento. O Machado Cruz era, de facto um malfadado informador da PIDE, um miserável, capaz de matar a própria mãe para obter o que quisesse. E o Amâncio da Mobil também era informador, embora não fosse tão mau como o Machado Cruz
Todavia, o Leonel Cosme, sendo um dos donos da ideia das "Publicações Inbondeiro" não era professor primário - e não é . O Garibaldino de Andrade, sim, esse era professor primário.
Hortênsio de Sousa, a quem chamavam "a garganta do Império", foi Governador da Huíla.
Não é verdade que o clima do Lubango fosse, ou seja, tão difícil. As pessoas não desmaiavam na rua por causa da altitude e os homens não andavam sempre de casaco. O Lubango só era frio de madrugada, nos meses de Maio Junho e Julho. Em Agosto, de vez em quando, já chovia. Tinha e suponho que aina tenha uma temperatura média anual na ordem dos 25 graus centígrados.
E, oh! senhor dr. Luís Rodrigues, os bosquímanes não tiveram nada a ver com os "flechas", uma tropa de elite formada pela PIDE para operações especiais no Norte e no Leste. Os Bosquímanes foram utilizados pelo exército sul-africano como pisteiros durante a invasão de Angola, iniciada a 23 de Outubro de 1975.
Não me consigo lembrar da pessoa e também não consegui acabar de ler o livro, embora lhe reconheça o mérito que atribuo a todas estas narrativas pessoais: a História também se faz com as pequenas estórias, mas é preciso ter cuidado: o Cosme não vai saber que lhe atribuem a função de professor primário e as pessoas que trabalharam com o Mário Saraiva de Oliveira também não vão apreciar que ele possa ter sido considerado um notável da Rádio.
Também não apreciei certas "intimidades" com gente da PIDE e sobretudo que num livro de 350 páginas não haja uma referência às gentes das terras por onde passou. Era tudo só paisagem e viagens por terrenos difíceis, onde deixava enterrar os jeeps com demasiada facilidade. Aquela, a caminho do Cuchi, com o Zé Peyroteu, aconteceu, seguramente porque não era ele que ia a conduzir...

sábado, dezembro 23, 2006

UM BELO PASSEIO...

... ao Porto, do Leston, deu no que deu e que com sabor nos descreveu. E eu, que descia do Camões, afinal com algum a propósito, de telemóvel ao ouvido, fui ouvindo deliciado. Atravessei o Rossio e fui à ginja, às Portas de Santo Antão. Depois de cuspir, discretamente os caroços, abeirei-me da livralhada, mesmo em frente. E não é que estavam, bem à vista, cinco livros, cinco
de Luandino Vieira!
Comprei-os todos e, imaginem, ao abrir «velhas estórias» esbarro logo com: «capa de João da Câmara Leme»! Nem fazia ideia que eles se tivessem conhecido. O João, casado com uma finlandesa, personagem de que já vos vendi alguma coisa, quando o apresentei, em Luanda, ao Troufa Real, a propósito de um ser descendente de Gungunhana e outro de Mouzinho. Afinal o Natal existe e mexe.
Lembrei-me de ser novato em Luanda e estar sentado, na redacção do «Comércio», a mexericar qualquer coisa, quando um sujeito entra, acompanhado de uma jovem senhora. Meio torcido, como calculam, Ferreira da Costa recebeu-os no meio da Redacção. Luandino tinha sido politicamente preso porque em Lisboa que lhe deram o prémio pelo livro e a polícia política não brincava em serviço, mas havia gente que discordava e o assumia. Ali estava um desses, que acompanhava a esposa de Luandino, tornado maldito não pelo livro que escrevera, mas pelo prémio que grangeara.
Tudo isto em cima de umas notas que o Manuel Ricardo me mandara sobre a guerra em Angola vista de Moscovo. As dúvidas do escritor sobre perdas e danos de militares soviéticos em Angola, designadamente no Cuito Quanavale. Eu já lá não morava aquando dessa guerra. Mas estive lá. Um pequeno grupo de jornalistas que descrevera a resistência aos ataques da Unita e de forças militares sul-africanas fora alvo de chacota da propaganda de Savimbi, que alegava que ps jornalistas tinham sido enganados e levados para outros locais. O Cuito tinha sido tomado pela Unita.
Fui eu, lá, que confirmei aos colegas que estavamos efectivamente no Cuito, que eu bem conhecia a confluência dos dois rios. Lá estava quando os bombardeamentos nos convenceram a retornar ao blindado e sair de lá. Mas soldados angolanos e cubanos lá estavam e por lá ficaram.
E fora na viagem, que nos levou a Nova Lisboa, Silva Porto (morto, como dizíamos no nosso tempo) e Serpa Pinto (Pó, idem). No aeroporto de Silva Porto não só vimos militares soviéticos, como tivemos oportunidade de falar com um dos oficais. Por essa altura não se escondiam. Mas também, verdade se diga que, não consta que se tenham envolvido em operações militares na região. Viajei em aviões soviéticos, de diferentes tamanhos e alguns casos com tripulações angolanas.
Antes de sair de Angola, no Ambriz e em Sá da Bandeira, vi diferentes intervenientes. Vi norte-americanos, da Cia ou coisa que o valha, mas nenhum soldado, além dos zairotas e de portu-
gueses, participaram na guerra ao lado de Holden Roberto. Com a Unita, de Savimbi, a participação sul-africana foi mais intensa, ainda que eles não comungassem. Era mais cada um do seu lado, em Pretória o apharteid ainda vigorava!
Não, não me parece que o escritor russo tenha motivos para crer que tenham morrido em Angola mais russos do que se diz. Os cubanos sim, esses foram bem mais carne para canhão. mas russos não.
Logo que passe o Natal vou-me ao Leston e onde estiver vou-lhe às garrafas. Vamos beber e rir
agarrados ao passado que nos passou, mas que está sempre por aí a espreitar...

"...Às Vezes..."

Combóio Alfa, Porto-Lisboa. Saiu às 21H15 e haveria de chegar três horas depois. Éramos três, vinhamos animados, as reuniões tinham corrido bem e eu ia apreciando particularmente o entusiasmo dos dois jovens que partilham comigo um projecto profissional.

No enfiamento oblíquo da minha visão, do lado direito, vem um homem curtido pelo Sol, de óculos redondos, a ler jornais. É uma cara que eu conheço, o tempo não o descaracterizou. "É o Luandino..." penso. "Só pode ser..." Levantei-me, aproximei-me dele e, pedindo desculpa pela interrupção, fiz a pergunta, com a entoação de quem afirma: "Luandino Vieira...

Olhou para mim com curiosidade: "...às vezes sou..." Disse o meu nome. Abriu o sorriso e apertou-me a mão com vigor. Desejei-lhe felicidades para o seu novo livro, que, por acaso, tinha levado comigo para ir lendo e voltei para o meu lugar.

No final da viagem, veio ter comigo: "você, há bocado, disse que era o Leston Bandeira...". "Sim, foi o que disse". Veio então o abraço forte... já não nos víamos há tantos anos. "...Pois...ainda há dias estivemos, eu e um jornalista....".

- "O Fernando Alves..." atalhei.
-" Isso...ainda há dias estivemos a falar de si..."

E eu com o livro na pasta, sem me ocorrer pedir-lhe um autógrafo.

Havia alguém à espera do José, Luandino Vieira, às vezes... e lá nos despedimos. Ainda lhe disse: "também sou amigo do seu irmão, com quem fiz grandes jogos de Hóquei em patins".

Este foi o segundo momento especial da minha ida ao Porto. O outro está contado no post abaixo.

Para um único dia não foi mau. Tenho que ir mais vezes ao Porto.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Os Irmãos Unidos

- "Sabe, venho muito poucas vezes ao Porto... movimento-me mal ... só de Taxi..." - digo eu.
- " Como todos os lisboetas...raramente vêm ao Porto..." responde o meu interlocutor.
E assim começa uma reunião, que, para mim, era importante. Fiquei sem saber o que dizer porque a verdade é que estas questões muito portuguesas continuam a passar-me ao lado.
Todavia, esta minha ida ao Porto teve dois momentos que valem a pena ser partilhados. O primeiro tem a ver com a minha dificuldade em me movimentar na capital nortenha - só de Táxi.
À saída de uma primeira reunião, em Matosinhos, numa praça de Táxis estava estacionado apenas um. Eu e os meus companheiros entrámos, demos o endereço para onde queríamos seguir e o senhor, de setenta anos, (disse-nos depois) e com ar enxuto começou por nos explicar que, "nesta altura, o serviço que os senhores me estão a dar é ouro...mas eu não o posso fazer porque..." e explicou-nos que tinha um compromisso a que não podia faltar: tinha que levar uma senhora para fazer hemodiálise. Mas nós não deixaríamos de ficar servidos porque ele ia já telefonar a um amigo, para marcar encontro connosco. O seu amigo concluiria o serviço e nós não lhe pagaríamos nada a ele.
Ainda tentei protestar, mas o senhor, com um olhar de falcão, sem pestanejar, não hesitou na recusa. E foi falando: que tinha começado um curso de relações humanas em África e o estava a concluir. Todas as manhãs saía de casa por volta das cinco da manhã com um projecto e quando regressava o tinha completado.
- " E então, onde é que iniciou esse tal curso de relações humanas?..." - perguntei.
- "Em Angola - em Benguela, no Lobito, em Nova Lisboa, no Lubango..."
- "Então e como é que o senhor se chama?"
- "Fernando Marta..."
-"Irmão do Emílio Marta" - disparei eu.
- "Como é que o senhor sabe?"
Lá lhe expliquei que tinha trabalhado na Rádio e que, naquele tempo fazíamos tudo, incluindo relatos de corridas de automóveis e que o nome Emílio Marta era dos mais sonoros, que me lembrava de ter relatado algumas vitórias dele e alguns desaires também.
O Emílio já eu conhecia, das corridas, dos banquetes para entrega dos prémios, no Casino da Senhora do Monte, no Grande Hotel da Huíla e no Hotel Mombaka. O Outro irmão dos "Irmãos Unidos" - assim se chamava a firma de automóveis que eles tinham em Benguela - conheci-o numa praça de Táxis, em Matosinhos, a bendizer da sua vida passada e presente. Com alguma saudade pelo meio, mas quem é que aos setenta não tem saudade?

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Joseph Ki-Zerbo

Nasceu no Bourkina Faso e deu ao Mundo lições de História de África. Era, de resto, o seu historiador mais escutado, mais respeitado e também aquele ácerca de quem havia maiores expectativas e até mesmo uma certa ansiedade.
Morreu Ki-Zerbo. E a notícia é-me transmitida, assim, brutalmente, no rodapé de um programa de informação sobre África, da chamada RTP África e, certamente, feito por quem de África conhece algumas marginais.
Exactamente o contrário do que defendia Zerbo, que classificava África como o wagon de mercadorias do combóio do desenvolvimento. À semelhança do sec. XVI, "sem identidade, nós", os africanos ,"somos um objecto da História, um instrumento utilizado pelos outros, um utensílio".
A notícia da sua morte, um dos maiores historiadores de toda a África, bem ficou a ilustrar esta sua definição do Continente que lhe fica a dever muito do pouco que o Mundo hoje conhece da sua História.
Bem que apetece gritar: Viva K-Zerbo... mas já de nada vale. Morreu...assim rezava um rodapé de um programa informativo chamado "Repórter África".

O General

Um dia destes, à noite - uma vez sem exemplo - vi um debate naquele programa "Prós e Contras". Escrevo hoje sobre ele por várias razões. A principal fica para o fim.

Percebi muito bem as inquietações dos militares. Não percebi os despautérios daquele politólogo cujo nome me esqueci ( e não creio que valha a pena esforçar-me por o nomear), mas que me parecia o António Guterres disfarçado de rato.

O dr. Proença de Carvalho, como sempre, estava ali para não se comprometer.

O General Loureiro dos Santos compromete-se um passo à frente, recua dois e volta a atacar em passo mais comprido.

O Almirante Vieira Matias, apesar da prudência, aventurou-se em campos mais abertos, habituado às perspectivas mais rasgadas dos horizontes marítimos.

Da intervenção destes eleitos pela Fátima , cujos critérios nunca têm uma explicação plausível - sempre podem estar escondidos debaixo de alguma coisa ou por de trás de uma qualquer parede - podemos concluir quer os militares portugueses continuam a ter classe, a saber o que querem e a perceber que estão a ser enganados.

Essa percepção é ainda mais clara, quando da plateia, assim como uma espécie de segunda escolha, surge o general da força aérea, Fernando Seabra, com um discurso firme, seguro, sem hesitações e sem gestos descabidos.

Fiquei a ver o programa porque me pareceu alguém conhecido e, de repente, naquele perfil sereno e firme, descobri o Fernando, filho da drª Lídia, minha professora de Física, e do Engº Seabra, que um dia me emprestou um avião para ir fazer um relato de futebol ao Luso.

O mesmo Fernando, sem tirar, nem pôr. Senti-me orgulhoso. Lembro-me das nossas conversas junto ao então Rádio Clube da Huíla, no Lubango, tenho muita saudade da drª Lídia, minha ouvinte atenta dos programas de música clássica e daqueles tempos em que discutíamos o que hoje já nenhum jovem imagina poder questionar. O Mundo era nosso.

Olha, Fernando, afinal o Mundo foi tomado por meia dúzia de ignorantes a a nós apenas nos resta cuidar dos netos ou esperar que eles apareçam. E ter Esperança no Renascimento do Bom Senso, na confiança das pessoas de bem. Não é ter Fé, porque isso nos conduz a um caminho sem saída e ainda acabamos nas garras de algum pastor alemão, daqueles que andaram a afiar as unhas durante muito tempo.