A minha mana fez hoje anos - no mesmo dia em que os faria minha mãe. Os filhos fizeram-lhe uma festa no Alentejo. Telefonei-lhe e ela estava feliz. Recomendei-lhe que dissesse aos filhos que a tratassem como uma princesa porque ela era minha rainha. O telefonema ficou por ali. Habituados como estamos a dominar as emoções temos dificuldade em lidar com elas quando surgem, assim como touros largados em calçadas de pedras engorduradas.
Acho, todavia, que é tempo de voltarmos a perceber que os homens se distinguem dos outros animais por uma maior capacidade de exteriorização de emoções - o que não é o mesmo que afirmar que os animais não as têm.
Um abraço do tamanho do Mundo, minha mana.
Começou por ser um repto, mas pode transformar-se num desafio, num toque a reunir de uma enorme tribo destribalizada mas sobrevivente, num grito de quem reivindica o direito ao passado e, de raízes ao léu, consegue identificar, lá longe, o sítio aonde pertencem. "Essas raízes não mergulharão noutra terra" - dizia a feiticeira das margens do Cunene
sábado, maio 27, 2006
quarta-feira, maio 24, 2006
Luandino
Quando alguém ( o Vasco Trigo) me chamou para acabar de ouvir a notícia de que o Luandino Vieira tinha sido premiado como o "Prémio Camões" fiquei estarrecido. Ali mesmo, na rua, junto ao carro dele, onde ambos estávamos a ouvir os últimos pormenores, eu lhe garanti não acreditar que o Luandino Vieira aceitasse receber o prémio.
A que propósito - fui eu pensando ao longo da tarde - alguém desassossega outrém que, há anos, disse o que tinha a dizer a propósito da escrita e de si próprio e depois se calou?
Por alma de quem se vem premiar um escritor, cuja obra, já premiada, se não perdeu qualidade, está, todavia, ultrajada pelo que fizeram da realidade que lhe deu origem?
É um desaforo. Luandino sabe que este prémio não tem nada a ver com ele - continuei a pensar com os meus botões.
De resto, acrescentava nas minhas lucubrações, os pressupostos desta atribuição também estão errados. Luandino foi (é) angolano por razões que ele próprio reconhece já não existirem. É um pretexto muito pobre para alguém que , como ele, abdicou de tudo porque não podia transformar nada.
De facto, Luandino não foi capaz de, como fez, por exemplo, Pepetela, descrever como se de uma caricatura se tratasse a sociedade angolana, particularmente a de Luanda.
Também não recorreu à mistificação e à mentira, como faz sistematicamente Agualusa para contar estórias pretensamente ficcionadas mas que relatam factos verdadeiros da vida de pessoas a quem ele deve respeito e a quem nunca pediu autorização para delas se servir.
Era público e notório que Luandino tinha desistido do passado como fonte de inspiração. Todos nós, os seus admiradores, os seus leitores, esperávamos o dia em que um novo Luandino (quiçá com outro apelido que lhe acrescentasse significância) aparecesse nos escaparates das livrarias.
Este júri deste prémio Camões, com as suas "escalas idiotas" veio, seguramente, estragar-nos o nosso gozo e o dele também.
A notícia de hoje - a da renúncia de Luandino - encheu-me de alegria. Além de um escritor notável, continua a ser um Homem.
Afinal, posso continuar a ter dois heróis da luta pela Independência de Angola: o José Luandino Vieira e o Carlos Rocha (Dilolwa)
terça-feira, maio 23, 2006
A Foto e a Barba
domingo, maio 21, 2006
Regresso
Hoje voltei ao "Romeiro". Desde Novembro de 05 que não escrevia lá uma linha. É difícil, porque para contar os pormenores da história do jornal "África", depois de narrado o essencial, é necessário tempo.
Aconteceu, porém, que o Sérgio Santimano, um notável fotógrafo moçambicano, que começou a sua carreira na AIM de Moçambique, passou por Lisboa e da conversa surgiu a recordação de uma fotografia que o Kok Nam tirou a nós dois - na moto do Sérgio.
Foi para publicar essa foto que voltei ao o-romeiro.blogspot.com para acrescentar mais um pedaço da história do jornal "África".
domingo, maio 07, 2006
Educação e Professores em Angola
A notícia foi publicada por várias agências e glosada em tons diversos: os professores angolanos entraram em greve, exigindo da parte do Governo um salário mínimo de 300 dólares.
Como questão prévia ao que a seguir vou escrever quero garantir que não me move - ao contrário de outros tempos, quando escrevia em jornais de venda pública - ser tomado como um especialista, um crítico, o que quer que seja. E também não estou interessado em desenvolver qualquer influência sobre quem manda em Angola.
Todavia, a notícia da greve dos professores transportou-me para outros tempos, quando, de forma voluntariosa e voluntarista, imaginava possível contribuir para a construção de um sistema de educação eficaz, melhor do que aquele de que me tinha servido, prestigiado e virado para a construção de um novo país, com a capacidade de realizar todas as suas potencialidades.
Pouco tempo depois da Independência de Angola, porém, cheguei à conclusão de que tal não seria possível. A Educação foi mal tratada, os professores relegados para plano secundário e, logo de seguida, vingou a ideia de que o "o melhor seria mandar os estudantes para a URSS e para Cuba".
A Universidade de Luanda, que tinha delegações no Huambo e no Lubango foi praticamente destruída. Aquela não era a Universidade do MPLA, embora provocasse o espanto a todos os que vindos, então, dos chamados países socialistas onde existiam Universidades reputadas, visitavam as suas múltiplas valências.
As Faculdades de Agronomia e Veterinária, sediadas no Huambo tinham, em 1974, condições tão extraordinárias que parecia "engano". O que é que se tinha passado ali? perguntavam os visitantes. As faculdades de Medicina e de Ciências, em Luanda provocavam a mesma estupefacção.
Um grupo de pessoas, nas quais me incluo, fizeram os possíveis por manter, no meio da guerra que dilacerou o país entre 1975 e 1977, provocada pela invasão sul-africana, as condições que permitissem o arranque de todo o sistema na altura própria. O Homero Leitão liderava este grupo e, todas as manhãs, alimentava a nossa esperança de que, em breve, a " nossa Universidade" estaria a funcionar da melhor maneira.
Qual quê?
Agostinho Neto não queria aquela universidade e, por isso, não dava dinheiro, isto é, não havia orçamento. Quando fomos fazer uma reunião com o então ministro da economia, Carlos Rocha, Dilowa, foi-nos negado, inclusivé, a utilização do orçamento que não tinha sido gasto no ano anterior. Estávamos em 1976.
Depois que os sul-africanos abandonaram o território angolano (27 deMarço de 1976) tudo se complicou. Por exemplo, no Lubango, para onde eu tinha regressado em Fevereiro a fim de iniciar as aulas na Faculdade de Letras e fazer outras coisas (tantas!!!) começámos a lidar com uma dificuldade impossível de superar: a qualidade dos professores que nos mandavam de Luanda. Gente que fazia a carreira docente pela via política, gente com cursos tirados na Patrice Lumumba, em Moscovo.
Nenhum dos nossos pedidos para o recrutamento de professores foi atendido e a qualidade do ensino foi-se, degradando de forma irreversível.
Mais tarde, aquela faculdade foi transformada num instituto de formação pedagógica, mas os resultados não parecem ter sido brilhantes.
Entre dificuldades de toda a espécie iam acontecendo peripécias inauditas. Uma delas foi o aparecimento de diplomas falsos trazidos por estudantes do ex- Zaire, que, de resto, foram, aos poucos, tomando conta do sistema.
Quando saí de Angola, a "nossa Universidade"era uma caricatura, com professores que nem a língua conheciam e traduziam do russo para o francês, para, depois, alguém traduzir para português.
Mais tarde, Agostinho Neto autonomeou-se Reitor da "Universidade Agostinho Neto". Não me consta que tal alteração tivesse provocado um milagre. Angola arrastou-se na penúria de quadros e fez do desprezo pelos professores mais uma marca característica de país do terceiro mundo - um terceiro mundo especial, já que o seu sistema de educação tinha sido considerado, pela OUA,nos anos 60, o melhor de toda a África e também porque era, em 1973 um país autosuficiente do ponto de vista alimentar e já exportava carne, milho, farinha de peixe, além dos produtos próprios das indústrias extractivas, tais como o ferro, com uma mistura de ouro que dava para os importadores pagarem o que importavam, cobre, diamantes e, claro, o petróleo.
Num país com estes contornos percebe-se mal que os professores tenham que fazer uma greve para exigir um salário correspondente a 300 dólares.
segunda-feira, maio 01, 2006
Fernando Alves com Sampaio
Lembras-te, Fernando? Não só parecias o Che, como eras cabeludo, jovem e magro. E já tinhas à frente do teu microfone Jorge Sampaio, a transpirar com o calor de Luanda. Ele ainda era do MES, não pensava que algum dia viesse a ser o "Rocard" português. Acho que naquela altura nem punha a hipótese de aderir ao PS, quanto mais um dia vir a ser Presidente da República. Estava com ar cansado e já não me lembro o que terá dito, mas, concerteza, muito parecido ao que todos diziam: nada. Naquele tempo, há 32 anos, era, todavia um "gajo porreiro".
Quem é o "penteadinho", de pulseira na mão esquerda. Da Eclésia?"
Esta foto fui "roubá-la" aqui ao lado, ao "Lusofolia".
Quem é o "penteadinho", de pulseira na mão esquerda. Da Eclésia?"
Esta foto fui "roubá-la" aqui ao lado, ao "Lusofolia".
domingo, abril 23, 2006
A Coragem de Olhar de Frente
Na evocação da data que se aproxima preciso salientar, para quem me lê e não me conhece,que vivi intensamente o 25 de Abril, esperei por ele muito tempo e hoje, passados 32 anos sobre a data sinto-me enganado, traído, esmagado, porque a esperança já não tem sentido.
Ao olhar para o país que me cerca, sinto-me, de novo, na minha de condição de português, sem nenhuma razão para justificar o "raio" do orgulho que me prende a essa condição.
Pior ainda: os anos passaram e temo que o pior dessa condição me caia em cima quando já não tiver forças nem sequer para um olhar de raiva.
Transcrevo a seguir um texto de António José Saraiva (por favor não confundir com José António Saraiva, cuja última crónica que li no Expresso dizia que finalmente tinha chegado à conclusão de que "havia uma diferença entre os homens e as mulheres") - nunca mais comprei o tal jornal.
O texto que transcrevo é do autor da História da Literatura Portuguesa, escrita de parceria com Óscar Lopes e cujas 912 páginas serviram para me preparar para o meu exame do 7º ano dos Liceus.
Chegou-me via e-mail e eu não podia perder a oportunidade de o transcrever aqui, tanto mais que alguma da sua importância está ligada às relações de Portugal com África.:
O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA
Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no exército, não estava interessado um acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar. Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas dos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas.Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos.Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total.Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquios, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encubria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente.
António José Saraiva
terça-feira, abril 11, 2006
Não É Que Ele Tem Razão ?
O Jornal de Angola de hoje, na sua coluna "Opinião", publica, com o título "As Feridas da Liberdade" uma prosa que reconheço. O texto não é assinado, não me compete, por isso, dizer o nome do autor. Este reconhecimento permite-me,todavia, esclarecer que o texto é oficial.
Por outro lado, não me custa aceitar que desta vez, apesar de certos exageros de algumas generalizações ele tem razão. A Imprensa portuguesa é, normalmente, relativamente aos PALOP paternalista, intrometida, arrogante, desinformada e desinformante.
Reproduzo aqui o tal texto:
A visita oficial do Primeiro-Ministro português a Angola foi um êxito a todos os níveis e marcou o início de uma nova era de relações entre o nosso país e Portugal. José Sócrates e a sua delegação trouxeram um abraço de solidariedade e de amizade do povo Português ao povo Angolano. O diálogo franco e aberto que se estabeleceu entre os mais altos dirigentes dos dois países ajudou a enterrar velhos fantasmas e estabeleceu-se um clima de confiança. Estão criadas todas as condições para aprofundarmos uma relação fraterna, própria de povos que têm uma vivência comum de séculos.Por isso, dificilmente se compreende que muitos órgãos de Informação portugueses tenham desencadeado um coro de insultos contra os mais altos dirigentes angolanos e toda a espécie de mentiras sobre o nosso regime e as nossas instituições. Os fantasmas do colonialismo explicam muito deste comportamento. O racismo, numa primeira linha, responde por esta campanha bi-zarra. Mas a ignorância também joga um papel importante neste autêntico festival de mentiras e calúnias. Muitos líderes de opinião portugueses que se têm destacado nesta campanha caluniosa contra Angola e os seus governantes desconhecem em absoluto o nosso país ou apenas têm conhecimento dele pelas informações que lhes são oferecidas por centrais de intoxicação.Entre eles estão antigos turistas da Jamba que faziam parte da lista de pagamentos de Jonas Savimbi. Nesse grupo de comerciantes da honra está o caricato Director do Jornal “Público” que sem nunca ter posto os pés no nosso país destila em forma de escrita canhestra opiniões fundadas na ignorância e na provocação. Pelos vistos, há escribas que têm sempre um dono pronto a pagar-lhes. Ontem era Savimbi, hoje sabe-se lá quem é. Mas publicar opiniões sobre algo que não se conhece, é de um atrevimento inaudito. Portugal merecia melhor que estes indigentes mentais que publicam desvairados recados a troco de uns tostões. Que lhes façam bom proveito.Qualquer mentecapto compreende que levantar um coro de insultos contra o Presidente da República de Angola, contra os nossos governantes e empresários, não é um acto amistoso. Nenhum jornalista angolano, nenhum comentador, nenhum líder de opinião lembrou à comitiva portuguesa que o direito ao emprego faz parte do elenco dos Direitos Humanos. Ninguém se lembrou de investigar os governantes portugueses por terem permitido que crianças à guarda do Estado Português tivessem sido abusadas sexualmente. Ninguém fez a lista dos corruptos que, segundo magistrados portugueses, crescem como cogumelos à sombra do aparelho de Estado e estão a exaurir a riqueza de Portugal. O que aconteceria em Portugal se o tivéssemos feito?Ainda temos bem presente as reacções dos órgãos de Informação portugueses quando um dirigente angolano opinou sobre membros da família Soares. Não trataram de saber se as declarações eram verdadeiras ou falsas. Foram logo catalogadas de insultos e geraram ondas de indignação. A libertação de Angola das garras do colonialismo doeu a muita gente em Portugal. Ainda dói. Mas esses saudosos do colonialismo, esses racistas dementes, têm de se habituar, de uma vez por todas, que os angolanos são senhores do seu destino. E os partidos políticos angolanos, as nossas instituições não precisam de vozes de burros para se fazerem ouvir. Em Angola existe liberdade de expressão, ninguém precisa de voz de donos que ninguém sabe donde lhes vem a legitimidade democrática. A nossa vem da luta, do combate heróico contra o colonialismo e o fascismo.A nossa liberdade foi construída nos campos de batalha. Para conquistá-la, ficamos cheios de feridas e muitas delas, ainda estão abertas. A visita do Primeiro Ministro português a Angola ajudou a curar algumas. Será por isso que choveram os insultos e as calúnias contra o Presidente da República de Angola e os nossos governantes? A amizade entre os nossos povos tem muitos inimigos!
domingo, abril 09, 2006
BRASSENS AINDA
Sim, claro, bem me lembro. Mas, vê lá tu, meu alucinado amigo, o «meu» Brassens era portuga, melhor dizendo: o ouvia por estas bandas quase europeias. O meu tempo de África foi curto, uma dúzia de anos. Estive entretido a aprender a viver e a curtir os filhos que foram chegando. Ainda hoje acredito que terá sido em Angola onde estivemos melhor, onde fomos menos diferentes, fosse qual fosse a música. Recordo-me de uma vez que passei por Joanesburgo ter passeado com um garoto, filho de um casal sul-africano amigo, e de ter pedido ao miudo que perguntasse ao polìcia uma direcção qualquer, onde eu queria ir. O chui ficou hirto (o garoto era louro e o polícia preto) e olhou para mim. «Sou de Angola», disse-lhe. Ao «oh!» de espanto seguiu-se um sorriso aberto e um braço a apontar a direcção. A mão passsou ao de leve pelos cabelos do garoto. Afinal não era só eu que tinha aquela mania...
E posso acrescentar, sobre Brassens, que detestava polícias, simplesmente por serem polícias e até cantou isso com alguma frequência. Mas um dia...
Há sempre um dia. Um acidente de viação e o cantor muito ferido, com aparente paragem cardíaca e um polícia que se debruça e lhe presta respiração boca a boca e, talvez com isso lhe tenha salvo a vida.
E um Brassens recuperado não tardou a cantar a reconciliação. Não, claro, que ele precisasse de ser um bom cristão. Bastava-lhe cantar como cantava!
Não. No dia 18 não vou estar em Paris. Vou lá estar no fim do mês, uma semanita. Não se pode ter tudo!
É bom quando alguém fica na memória e é bom ter memória de gente como ele ou como Brel ou Otis Readding... E és capaz, Fernando, de me desculpar se eu incluir o Alfredo Marceneiro?
Tem piada que nunca falamos disto entre nós. Foi-nos bastando uma que outra das várias pequenas que foram tema. É verdade que nenhuma dessas cantava. Pois não, mas encantavam...
PS.
Desencantado fiquei eu quando a minha mais que tudo, que fala o francês bem melhor que eu, que nasceu e viveu em França, me advertiu que Brassens não teve acidente de viação. Teve acidente no palco, quando actuava, o que tornou o incidente ainda mais dramático....
o que me torna mais culpado pela negligência. No fim de contas sou (fui) jornalista português e o que é preciso é puxar pela notícia e ficar sujeito aos solavancos. Que me desculpem os puristas
E que me perdoem os que, como eu, creem que a memória não se perde. Pois não, altera-se. Fecunda-nos (no mau sentido)...
E posso acrescentar, sobre Brassens, que detestava polícias, simplesmente por serem polícias e até cantou isso com alguma frequência. Mas um dia...
Há sempre um dia. Um acidente de viação e o cantor muito ferido, com aparente paragem cardíaca e um polícia que se debruça e lhe presta respiração boca a boca e, talvez com isso lhe tenha salvo a vida.
E um Brassens recuperado não tardou a cantar a reconciliação. Não, claro, que ele precisasse de ser um bom cristão. Bastava-lhe cantar como cantava!
Não. No dia 18 não vou estar em Paris. Vou lá estar no fim do mês, uma semanita. Não se pode ter tudo!
É bom quando alguém fica na memória e é bom ter memória de gente como ele ou como Brel ou Otis Readding... E és capaz, Fernando, de me desculpar se eu incluir o Alfredo Marceneiro?
Tem piada que nunca falamos disto entre nós. Foi-nos bastando uma que outra das várias pequenas que foram tema. É verdade que nenhuma dessas cantava. Pois não, mas encantavam...
PS.
Desencantado fiquei eu quando a minha mais que tudo, que fala o francês bem melhor que eu, que nasceu e viveu em França, me advertiu que Brassens não teve acidente de viação. Teve acidente no palco, quando actuava, o que tornou o incidente ainda mais dramático....
o que me torna mais culpado pela negligência. No fim de contas sou (fui) jornalista português e o que é preciso é puxar pela notícia e ficar sujeito aos solavancos. Que me desculpem os puristas
E que me perdoem os que, como eu, creem que a memória não se perde. Pois não, altera-se. Fecunda-nos (no mau sentido)...
quinta-feira, abril 06, 2006
Sócrates em Angola
Há alguns temas para os quais "já não estou". Um deles é o da cooperação entre Portugal e os chamados "PALOP". Todavia, há dias em que, ouvindo os políticos da praça encartados de comentadores, acho que devo voltar à liça.
A viagem de Sócrates a Angola foi, para a imprensa portuguesa, não um "sucesso" - porque é palavra que os jornalistas de hoje não sabem contextualizar - mas uma "operação" bem montada, uma espécie de campanha eleitoral com um único resultado garantido - a vitória.
É engraçado!
Lendo a comunicação social angolana - aquela que pode ser lida - ficamos com a sensação de que esta foi mais uma viagem de um primeiro-ministro português que vai a Angola procurar estatura, credibilidade e - mais uma vez - defender a tese da inevitabilidade das boas relações entre os dois Estados e os dois povos.
O que os políticos de um lado e doutro dizem pode não ser mentira no campo das intenções, mas no domínio das realizações é uma miragem.
Primeiro, em Angola existe um Estado mas vários povos. O slogan "Um Só Povo, Uma Só Nação"não passa disso mesmo, de um slogan. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos anos, quando os povos que não têm acesso à Escola, à Cultura e ao consumo como as gentes de Luanda, perceberem que nem número fazem.
Depois, os portugueses que debitam hoje todos esses desejos, aparentemente legítimos porque fundamentados num legado histórico importante, desconhecem: a colonização portuguesa não foi desenvolvida de acordo com um plano de estado. Foram outros portugueses, com o seu espírito individualista e aventureiro que foram fazendo roças e mulatos, abrindo caminhos e construindo pequenos comércios e escolas. E Igrejas.
O Estado apareceu sempre na figura do chefe de posto que tanto levava o "índigena" para o contrato como chantageava o pequeno comerciante ou o pequeno fazendeiro.
A cooperação organizada estado-a-estado nunca resultará, sobretudo em Angola. Os não sei quantos empresários que foram a Luanda, foram, na grande maioria, passear. Alguns deles, os mais jovens, aproveitaram e mandaram as amantes noutro avião. Os mais velhos aproveitaram para ir ao Mussulo ver as mulatas. Os negócios, esses ficam para conversas reservadas, longe de Luanda e de Lisboa e nunca tratam do importante: um novo envolvimento entre as populações dos dois países, sem constrangimentos.
A ideia de enviar 200 professores portugueses para Angola até parece generosa mas vai revelar-se mais um desastre, um rotundo fracaso. Dir-vos-ia porquê, mas o MNE não me paga a consultoria e, como disse no princípio, há certos temas de que estou cansado.
A viagem de Sócrates a Angola foi, para a imprensa portuguesa, não um "sucesso" - porque é palavra que os jornalistas de hoje não sabem contextualizar - mas uma "operação" bem montada, uma espécie de campanha eleitoral com um único resultado garantido - a vitória.
É engraçado!
Lendo a comunicação social angolana - aquela que pode ser lida - ficamos com a sensação de que esta foi mais uma viagem de um primeiro-ministro português que vai a Angola procurar estatura, credibilidade e - mais uma vez - defender a tese da inevitabilidade das boas relações entre os dois Estados e os dois povos.
O que os políticos de um lado e doutro dizem pode não ser mentira no campo das intenções, mas no domínio das realizações é uma miragem.
Primeiro, em Angola existe um Estado mas vários povos. O slogan "Um Só Povo, Uma Só Nação"não passa disso mesmo, de um slogan. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos anos, quando os povos que não têm acesso à Escola, à Cultura e ao consumo como as gentes de Luanda, perceberem que nem número fazem.
Depois, os portugueses que debitam hoje todos esses desejos, aparentemente legítimos porque fundamentados num legado histórico importante, desconhecem: a colonização portuguesa não foi desenvolvida de acordo com um plano de estado. Foram outros portugueses, com o seu espírito individualista e aventureiro que foram fazendo roças e mulatos, abrindo caminhos e construindo pequenos comércios e escolas. E Igrejas.
O Estado apareceu sempre na figura do chefe de posto que tanto levava o "índigena" para o contrato como chantageava o pequeno comerciante ou o pequeno fazendeiro.
A cooperação organizada estado-a-estado nunca resultará, sobretudo em Angola. Os não sei quantos empresários que foram a Luanda, foram, na grande maioria, passear. Alguns deles, os mais jovens, aproveitaram e mandaram as amantes noutro avião. Os mais velhos aproveitaram para ir ao Mussulo ver as mulatas. Os negócios, esses ficam para conversas reservadas, longe de Luanda e de Lisboa e nunca tratam do importante: um novo envolvimento entre as populações dos dois países, sem constrangimentos.
A ideia de enviar 200 professores portugueses para Angola até parece generosa mas vai revelar-se mais um desastre, um rotundo fracaso. Dir-vos-ia porquê, mas o MNE não me paga a consultoria e, como disse no princípio, há certos temas de que estou cansado.
terça-feira, março 28, 2006
"27 de Março"
É uma data que hoje, seguramente, passa desapercebida em Angola e apenas tem ressonância na cabeça das pessoas que a viveram. 27 de Março de 1976 foi o dia em que, oficialmnte, as forças da República Sul-Aricana passaram para o lado de lá da fronteira de Angola. Ainda assim ficaram em território que não era deles - o a Namíbia.
Em Angola comemorou-se no Lubango. Houve discuros. Lúcio Lara foi o convidado. Presidiu ao comício comemorativo. Aproveitou a ocasião para vergastar mais uma vez o governo de Portugal, nessa altura chefiado por Mário Soares, por não ter ainda reconhecido o governo de Angola.
Todavia, o pormenor mais significativo desse comício foi o grito do então Comissário Provincial da Huíla, Emílio Braz: "Viva o Povo Nhanheca Humbe!". Era o "nitismo" na sua expressão mais ingénua a manifestar-se. Lúcio Lara fingiu que não percebeu.
segunda-feira, março 27, 2006
A Propósito... Os Mucubais
Carlos Narciso, no seu blog "Escrita em Dia", a propósito do meu texto sobre bosquímanes, lembrou-se de uma estória passada nas faldas da Serra Chela com um grupo de homens "em tronco nu", que exigiam a uma escolta militar do MPLA tão só que lhes pedissem autorização para atravessar o seu território.
Uma vez que foram "os meus" Bosquímanes a suscitar esta recordção ao CN, é bom esclarecer que aquele grupo de homens semi-nus não eram Bosquímanes. Só podiam ser Mucubais.
Já agora, a propósito do texto do "Escrita em Dia", recordo aqui este povo, guerreiro e pastor , que mantém a respeito do seu "território" um sentimento de pertença muito acentuado. Daí a minha conclusão, relativamente ao grupo que travou o CN e a sua escolta militar.
Ora, o território "mucubal"estende-se pelas encostas da Serra da Chela, entra pelo Deserto do Namibe e chega muito perto do Chiange, Serra abaixo. As suas relações com o povo Nhanheca Humbe , a que pertencem os camponeses da Huíla sempre foram complicadas.
Na chamada "guerra de 39" os portugueses derrotaram pesadamente os Mucubais e confinaram-nos à Chela e ao Deserto, deixando o Planalto para os povos camponeses. Nunca esqueceram esta derrota.
Quando, em 1975, os sul-africanos invadiram Angola, tentaram, depois de terem construído a sua rectaguarda no Lubango, fazer a ligação com Moçâmedes, sem o conseguirem, porque os Mucubais, ao perceberem que havia um guerra de "brancos contra negros", se aliaram aos negros e - uma curiosidade - com a ajuda de um português que havia fugido do Hospital com a ajuda do médico, dr. Garcês Palha e do Padre Jorge, secretário do então Bispo da Huíla, impediram que tal ligação se fizesse.
Farrusco, um operário da Fábrica de Cervejas N'Gola, ex-comando do Exército Português, foi aceite pelos Mucubais e, juntos, fizeram gorar os planos dos "carcamanos".
No final desta primeira fase da guerra, vencidos que foram os sul-africanos, os Mucubais decidiram colher os benefícios de terem estado ao lado dos vencedores e principiram a roubar o gado aos M'Huilas, sobretudo aos que viviam mais próximo da Serra.
Por outro lado, ao serem recrutados para o Exército angolano em formação, não aceitavam ficar nos quartéis. Recebiam as armas e rumavam para as suas casas. Não são integráveis num grupo com gente de outros lados, de outras etnias...
O MPLA, sem saber com o que estava a lidar começou a reprimir aquilo que eles consideravam os seus justos anseios, que eram os de recuperar o prestígio e a riqueza perdidos em 39 contra o exército dos brancos (os portugueses de então).
O desconhecimento do MPLA relativamente aos Mucubais era de tal forma que, em Outubro de 1976, quando Agostinho Neto visitou pela primeira vez o Lubango, houve dois incidentes curiosos.
O primeiro teve a ver precisamente com o então Presidente da RPA. Havia uma reunião marcada para as 14H30 com um grupo de quadros do MPLA do Lubango. Esperámos até às 16H30.
À entrada do palácio do Governador (então chamado Comissário) esteve durante todo este tempo uma delegação de Mucubais, para ser recebida por Agostinho Neto. Queriam colocar-lhe as suas questões específicas e dizer - muito naturalmente para eles - que a guerra tinha sido ganha pelo seu povo.
O Presidente desceu as escadas, aproximou-se da delegação , com os seus turbantes vistosos e braços cruzados sobre o peito, sempre de olhos erguidos, e pediu a um dos seus seccretários que retirasse da pasta a máquina fotográfica. E então, perante a estupefacção de alguns de nós, acercou-se do grupo para que lhe tirassem uma fotografia. Comportamento igual ao de qualquer turista impressionado com o ar "exótico" do grupo.
Neto nem os ouviu, seguiu para a reunião. Um dia destes falarei desse acontecimento.
O outro incidente aconteceu no dia seguinte, durante o comício presidido por Neto. Quando algém ia começar a falar foi interrompido por uma voz imperativa que vinha da assistência. Era um mucubal que ordenava à sua gente que se aproximasse da tribuna, já que eles eram os vitoriosos, tinham sido eles a ganhar a guerra contra os sul-africanos.
Houve um burburinho, com a multidão a agitar-se e o numeroso grupo de Mucubais que ali estava ocupou, sem cerimónia, as primeiras filas da assistência. Só depois disso o comício principiou.
Com o andar do tempo, as relações MPLA/ Mucubais deterioraram-se significativamente e julgo saber que ainda hoje não são brilhantes, apesar de o poder ter recorrido algumas vezes à força das armas.
terça-feira, março 21, 2006
Bosquímanes de Angola
Há um povo em África, que se chama a si mesmo o Povo de Sahn ("Povo de Deus"), com múltiplas designações, de acordo com a zona que habitam (ou habitavam), ou, mais propriamente, por onde circulavam, mas que pode ser identificado de uma forma reconhecida, não só em toda a África, como fora dela: os Bosquímanes.
No Botswana, cujo presidente considerou os bosquímanes "povo de segunda", esta gente está a ser expulsa das terras dos seus antepassados com o pretexto de nelas serem instalados parques de caça para turistas se divertirem com a morte dos animais selvagens, uma das fontes de subsistência dos bosquímanes.
África não está nem aí para a luta deste povo de gente nómada, com hábitos alimentares estranhos, com deuses ainda mais estranhos, com uma língua difícil, mas com uma grande capacidade de serem solidários uns com os outros.
Lembro-me de, há alguns anos, quando deambulei pelos matos do Cuvelai com um grupo deles ,da necessidade de passarmos longe das sanzalas dos membros de outros grupos étnicos, para não sermos corridos à pedrada ou à frente dos cães que também pareciam detestar aqueles homens e mulheres pequeninos e amarelos, mal vestidos e sempre à procura de raízes para se alimentarem ou de algum animal, mesmo morto, para uma refeição mais suculenta.
A propósito desta perseguição levada a cabo pelo Botswana aos bosquímanes lembrei-me dos trabalhos do Padre Carlos Esterman sobre este grupo humano e dos mapas da sua localização, sobretudo no Sudoeste de Angola, embora a sua presença fosse assinalada também mais para Leste.
Lembro-me, igualmente, de que os sul-africanos os utilizaram como pisteiros para a invasão que fizeram de Angola, em Outubro de 1975.
Espero que esta lembrança - naturalmente retida na memória de muito mais gente - não tenha nenhuma influência no modo como em Angola se cuida da segurança e, sobretudo, da sobrevivência dos Bosquímanes angolanos, que não se tenha alinhado pela classificação do presidente do Botswana.
domingo, março 12, 2006
Mais de Trinta Anos Depois
O Jornal de Angola, na sua edição "online" de hoje, destaca na primeira página a intervenção do secretário geral do MPLA durante "o primeiro encontro dos comités de acção de Luanda do MPLA", Dino Matross.
Não consegui evitar um estremecimento, mesmo tendo feito uma leitura displicente do texto. De resto, para confirmar a impressão inicial tive mesmo que me esforçar para o ler todo, com a esperança de me ter enganado num primeiro momento.
Nada. Nenhum engano; mais de trinta anos depois, os dirigentes do MPLA - Dino Matross já o era em 1974 - não conseguiram mudar o discurso. As mesmas banalidades de sempre, ditas com as mesmas "palavras de ordem".
Não se vislumbra uma ideia política, a indicação de um objectivo concreto, de um caminho limpo a seguir.
O jornalista que escreve o texto é, claramente militante. Ele próprio ajuda à festa da banalidade: "Dino Matross apontou as grandiosas tarefas da consolidação dos resultados alcançados com a conclusão da primeira fase do processo de reorganização das estruturas do MPLA".
E mais à frente; "João Paulo referiu que coloca-se agora a tarefa de adequar a mensagem política do MPLA ao imperativo de responder, de forma clara, objectiva e oportuna, às necessidades, inquietações e anseios das populações e de agir no sentido de resolver os problemas fundamentais".
Meu Deus!
Se estas palavras tivessem a capacidade de resolver alguma coisa, Angola já estaria a ocupar a posição que lhe compete em África e no Mundo.
O pior é que os protagonistas continuam os mesmos e os problemas do povo muito semelhantes, muito embora se vá falando num crescimento encómico espantoso no país. E os resultados estão a beneficiar quem?
quarta-feira, março 08, 2006
Seca na Huíla (Comentário)
O Camarada Fernando Alves referiu aqui no nosso blogue a questão da Seca na Huíla, noticiada no Jornal de Angola e referida pelo ministro da Administração do Território numa linguagem que faz lembrar os burocratas de Bruxelas ou do raio que os parte - burocrata é burocrata, ponto final.
Este senhor ministro que foi "ver in loco" - uma fórmula que todos os bons "locutores" angolanos aprenderam - a desgraça dos - segundo eles - 600 mil camponeses - diz que a situação ainda não é de catástrofe.
Não o seria se ele e o governo dele e já agora o governador da Huíla, um ex-futebolista, cujo passatempo de agora é colecionar dinheiro fora do país, tivessem uma solução.
É que a seca na Província da Huíla vem de há anos, repete-se ciclicamente e cada vez com mais intensidade, porque a concentração das populações leva a um sistemático abate de árvores para fornecimento de lenha e de carvão, a primeira para suprir as necessidades das populações locais e o segundo para venda nos grandes centros urbanos.
Este fenómeno - é evidente - combate-se com medidas de lonmgo prazo, como sejam o fornecimento de combustíveis alternativos, Onde estão eles, na Huíla?
Depois, há o crescimento do número de cabeças de gado, um fenómeno com uma componente política muito forte e que o MPLA urbano não tem capacidade para resolver.
Com a destruição do sistema colonial, que nos últimos anos tentava incorporar no sistema comercial os criadores tradicionais de gado, para quem a posse de um maior número de cabeças de gado significa sobretudo um estatuto social mais elevado e, por isso, mais compensador, tudo voltou ao princípio.
Só se matam - para as festas( casamentos, óbitos, mufikos, etc.) bois velhos. Os outros deixam-se envelhecer e o parque vai aumentando de tal maneira que não há - não pode haver - capim para todos.
Este é um problema muito complicado, mas não se fica pela Huíla, ele vai mais para Sul, para o Cunene ( há por aí uns cuanhamas que talvez queiram ir ajudar...) , onde o capim é de outra espécie e se reproduz por semente. Isto quer dizer que, mal chovem as primeiras pingas, o capim rebenta e as enormes manadas de gado irrompem por aí fora trasnformando tudo em campos de futebol de terra batida.
O problema da seca da Huíla tem anos. Lembro-me das minhas angústias sobre se ia ou não chover, sobre se já tinha começado a chover na Chibia, na Cahama, na Humpata, em Quilengues, em Caluquembe. E a cada notícia de chuva era o sorriso, partilhado por toda a gente, que, embora vivendo na cidade, de ocupações marcadamente urbanas, como era a minha, sentia a terra a embebedar-se com a água que lhe caía do céu.
Ainda hoje não percebo os homens da Rádio e da Televisão em Portugal para quem "bom tempo" é "tempo de praia". Ora, a verdade é que há um "bom tempo" com chuva, com neve, com frio.
Oh! Fernando! obrigas-me a um grande esforço de rememoração - dolorosa, em alguns aspectos.
Houve anos em que quase rezámos para que chovesse. Um dia, de um ano qualquer, mas seguramente, lá para Fevereiro ou Março, eu e o Leonel Cosme - trabalhávamos juntos no Rádio Clube da Huíla - saímos disparados numa carrinha citroen que ele tinha para ver a chuva encher os rios da Mapunda, o Tchipunpunhimi e outros. Lembro-me ainda da nossa felicidade por verificarmos que, finalmente, a terra ia ser apaziguada e as populações poderiam fazer as suas vidas tranquilamente, com alguma confiança nas colheitas.
A Huíla é uma Terra de camponeses: foi isso que eu disse ao Lopo do Nascimento quando ele, armado em primeiro-ministro, foi ao Lubango anunciar a nacionalização do pequeno comércio. Avisei-o, aos murros em cima da longa mesa da Associação Comercial: "dentro de pouco tempo vamos ter a cidade invadida pelos camponeses a perguntar quem lhes compra o milho os bois, a massambala, o massango, as peles e tudo o resto".
" Por razões políticas..." dizia ele, temos de nacionalizar. E eu respondia: "por razões políticas não podemos nacionalizar".
As "razões políticas" dele eram umas - as instruções da URSS - e as minhas eram outras - o interesse do povo camponês da Huíla.
Mais tarde, ao serviço do nosso jornal, Fernando, voltei à Huíla, fui mais abaixo a um território que, de resto, fez parte, durante muitos anos do "Distrito da Huíla" e que eu conhecia bem por ter lá vivido cerca de um ano: Chiange ( terra de perdizes) e Cahama. Levou-me um jovem licenciado da República da Tchecoslováquia em engenharia pecuária ( que coisa será esta?), que não conhecia a região e não estava preocupado com porra nenhuma. Estava fascinado apenas com o facto de lhe terem dado um "jeep" com zero quilómetros para me levar ao Chiange.
Era Janeiro de um ano qualquer. Ainda não fim de mês e o responsável político máximo da zona confidenciava-me o horror de uma seca que se anunciava, uma vez que ainda não tinha chovido uma única vez. Fui ouvindo as desgraças, tirando fotografias dos terreno pelados e dos bois mortos plantados por entre espinheiras.
Durante uma merenda servida na casa do administrador do sítio, a mesma casa que tinha sido habitada pelo anterior secretário da administração colonial, o Eduardo Vitória Pereira, fiquei a saber que aquela gente era de Malange, não conhecia a região e nem sequer sabia que ali, no Chiange, começava a chover no fim de Janeiro. E depois não parava mais.
Descobri rapidamente a razão por que me tinham convidado a fazer ali uma reportagem: os cubanos ( que haviam construído uma base aérea na Cahama e tinham feito um monumento verdadeiramente estranho, porque escreveram numa placa de pedra uma carta de Fidel de Castro aos "combatenmtes cubanos" ) abandonaram a região e os criadores tradicionais voltaram com o seu gado, entretanto multiplicado nas terras mais para o Sul.
Os bois chegaram e derrotaram todo o capim, portanto, mesmo antes de a época das chuvas ter o seu início habitual, já o gado morria.
É um fenómeno semelhante ao que aconteceu na Etiópia. Os bois ocupam o lugar das pessoas, a chuva não chega, porque, entretanto, as florestas são derrotas e o deserto vai-se instalando, perante os braços cruzados de ministros balofos, convencidos de que o Mundo vaio continuar a ser movimentado com petróleo.
Neste episódio do Chiange havia ainda um outro pormenor de política pura: o MPLA tinha receio de que a UNITA ocupasse as posições abandonadas pelos cubanos e queria chamar as organizações das Nações Unidas para tomar conta da região.
Simples...
Espero que por detrás das declarações deste Fontes Pereira a quem, obviamente, falta o Melo e , com o diz o Fernando, a capacidade para montar tenda, não estejam outras intenções escondidas e que seja dispensada aos camponeses da Huíla - um povo que muito me ensinou e a quem muito devo - toda a ajuda para que eles possam continuar a ser camponeses na sua terra.
Desejo ardentemente que um país produtor de petróleo, como Angola, não esteja a tentar construir uma situação de catástrofe no Sul do país e não tenha mecanismos institucionais para mobilizar os recursos indispensáveis à concretização de uma política de solidariedade nacional - que não passse pelos vários caciques predadores que existem entre o aparelho do estado e o povo - para, posteriormente, mobilizar a chamada solidariedade internacional.
sábado, março 04, 2006
África e os Compromissos
Toda a África se movimenta hoje segundo esquemas de organização capitalista. As ideias do socialismo, do comunismo e outras, desapareceram. Os Estados africanos aderiram clara e notoriamente à ideia das leis do mercado, a que, em muitos casos - eu diria, na maioria - sobrepoêm a lei dos mais fortes, dos mais influentes, dos homens que, dominando o aparelho de estado, dominam os negócios e atropelam todas as regras, esquecem todas as leis.
Muitos deles fizeram a marcha da libertação, da conquista da Independência, servindo-se de ideias generosas de igualdade, fraternidade, "a terra a quem a trabalha", eu sei lá, coisas que Marx escreveu, Lenine adulterou e Staline amachucou.
Todavia, essas ideias deram para reunir gente, construir grupos de lutadores, levar a bom termo guerras contra os ocupantes que" só praticavam injustiças".
As regras do capitalismo, tal como ele nasceu, estavam, todavia, sujeitas a a uma ética muito escrupulosa, muito rígida, baseada nos princípios dos cristãos protestantes, para quem a palavra dada era um contrato assinado.
Estes princípios passaram ao lado da maioria dos homens que, entretanto, foram aparecendo a dirigir os novos estados africanos e a substituir as velhas ideias generosas de igualdade, fraternidade e outras "balelas" pela do lucro.
Pior ainda: comportam-se como se a palavra compromisso não existisse, como se os contratos assinados de nada valessem. O que conta são eles, os seus projectos, mesmo que não sejam pessoais. Quando precisam de alguma coisa concordam com todos os compromissos, quando deixam de precisar esquecem e nem aparecem.
Este não é um bom caminho. Este comportamento será a ruina de ÁFRICA, sobretudo se alguns dos Estados que até aqui constituiam a grande excepção, adoptarem a regra geral que é a de não pagar os compromisos assumidos.
Muitos deles fizeram a marcha da libertação, da conquista da Independência, servindo-se de ideias generosas de igualdade, fraternidade, "a terra a quem a trabalha", eu sei lá, coisas que Marx escreveu, Lenine adulterou e Staline amachucou.
Todavia, essas ideias deram para reunir gente, construir grupos de lutadores, levar a bom termo guerras contra os ocupantes que" só praticavam injustiças".
As regras do capitalismo, tal como ele nasceu, estavam, todavia, sujeitas a a uma ética muito escrupulosa, muito rígida, baseada nos princípios dos cristãos protestantes, para quem a palavra dada era um contrato assinado.
Estes princípios passaram ao lado da maioria dos homens que, entretanto, foram aparecendo a dirigir os novos estados africanos e a substituir as velhas ideias generosas de igualdade, fraternidade e outras "balelas" pela do lucro.
Pior ainda: comportam-se como se a palavra compromisso não existisse, como se os contratos assinados de nada valessem. O que conta são eles, os seus projectos, mesmo que não sejam pessoais. Quando precisam de alguma coisa concordam com todos os compromissos, quando deixam de precisar esquecem e nem aparecem.
Este não é um bom caminho. Este comportamento será a ruina de ÁFRICA, sobretudo se alguns dos Estados que até aqui constituiam a grande excepção, adoptarem a regra geral que é a de não pagar os compromisos assumidos.
quarta-feira, março 01, 2006
Emílio Braz
A propósito da demissão do general Fernando Miala do seu poderoso cargo de chefe dos serviços secretos de Angola, ocorreu-me a estória de Emílio Braz, meu velho amigo e combatente do MPLA desde a primeira hora. Era natural de Jau, um aldeamento perto do Lubango e, tal como todos os chefes africanos, quando chegou ao lugar de Comissário da Huíla,mandou fazer uma estrada directa da capital da província à sua terra natal.
Era daqueles militantes habituados às inúmeras horas das reuniões políticas do MPLA. No meio batia um "cochilo" e, quando acordava, dava logo opinião sobre o assunto em discussão.
Foi o único "quadro" que o MPLA mandou para o Sul de Angola, logo após o seu reconhecimento legal como partido político (movimento de libertação). Tinha tirado um curso de ajudante de veterinário na União Soviética e a sua última missão na guerrilha tinha sido "tomar conta dos burros que transportavam o armamento pesado".
Como o MPLA tinha relativamente ao Sul a ideia de que era território de reaccionários e racistas, mandou para lá o Emílio Braz.
A verdade, todavia, é que o Emílio pensava bem e pensava, de uma forma geral, ao lado do seu povo.
O mal foi o poder. Com a fuga para Luanda, face à invasão sul-africana, Emílio Braz, na capital, ficou ao alcance da influência de Nito e Alves, regressou ao Lubango e, pouco tempo depois, foi nomeado comissário provincial (governador). Aí começaram os disparates: casamento com uma jovem conterrânea, com cântigos e danças na Sé Catedral, a estrada para o Jau e o completo distanciamento do povo para se virar, decididamente, ao lado das forças nitistas contra os brancos, mulatos, etc.
Com a tentativa falhada de golpe de estado do Nito Alves, Emílio Braz escapou a mortandade porque se escondeu durante uns tempos, tendo aparecido anos mais tarde, já não como militante do MPLA, já não com funções ao nível do Estado, mas como comerciante de carvão.
Foi nessa condição que o reencontrei muitos anos depois, no meu primeiro "regresso" ao Lubango. Depois de uma longa conversa, recordando tempos antigos, ele lembrou-me uma velha máxima: " no MPLA é sempre assim, umas vezes está-se em cima, outras em baixo".
Foi também nesse dia que soube que José Eduardo dos Santos tinha estado no Lubango precisamente no dia 27 de Maio de 1977. A fazer o quê? Ninguém soube explicar.
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Eleições em Cabo Verde - Sempre a Mesma Coisa
Na última sexta-feira, o Supremo Tribunal de Justiça de Cabo Verde decidiu pela improcedência das impugnações das leições legislativas e presidenciais, apresentadas pelo MpD e por Carlos Veiga contra, respectivamente, as vitórias do PAICV e Pedro Pires.
Como sempre, o MpD e Carlos Veiga (já repararam no minúsculo "p" da sigla?) usam de estratégias administrativas para tentar ganhar na secretaria o que perderam no terreno da luta política.
E que conseguiram eles? Parar o país durante quase um mês . Sobre esta paragem há já muita gente a queixar-se e as consequências em alguns sectores podem ser graves. Em Cabo Verde há mesmo gente que já nem sequer atende os telefones.
sábado, fevereiro 25, 2006
Miala
A notícia vem de Luanda. Em Lisboa passa ao lado do noticiário normal. Os jornais existem para pentear meia dúzia de macacos, que se olham e reolham ao espelho antes de sair de casa.
O Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, demitiu o seu chefe dos Serviços Secretos, o General Miala, acerca de quem se dizia que não havia negócio em Angola que não passasse por ele. Ou, que era um pretendente ao cargo do ZéDu.
A demissão foi anunciada em comunicado da Presidência da República e a esta hora há muita gente a transpirar - é que, em Luanda, está um calor danado.
Não se sabe ainda quem será o substituto de Miala. Seguramente será alguém muito jovem. Vai uma aposta?
O TEMPO E O MODO
O título não é original, o tempo também não e eu ainda menos. Passei uns dias fora. Revi amigos e recantos onde vivi uns anos feliz. Nada de muito distante, uma noite de comboio lento, mas confortável, bastou. Deu para ver como se multiplicaram as lojas chinesas. São muitas, são! Mas são discretos, os chineses das lojas. Aceito que, afinal, não são todos iguais. Sobretudo as mulheres que, pelos vistos, aceitaram tornar-se atraentes.
Vi imensos ingleses a beber cerveja, a cantar e a partir vidros das portas de café-cervejarias. Quando era mais novo, caramba, meus, muito mais novo, conheci uma inglesa que me explicou que os ingleses só «faziam ao sábado», porque tinham semana inglesa, o que os obrigava a embebedar-se à sexta, cumprir o dever ao sábado e descansar ao domingo para enfrentar a semana. Não se podia contar com eles aos sábados, mas nos outros dias da semana, mesmo que fosse domingo, era uma alegria!
À noite os ingleses ganharam ao Real causando uma real desilusão ao madrilenos. Palpitou-me
que, desta vez, seria Mourinho a pagar a factura. E regressei a tempo de ver...
Mas vi também que o meu país tinha evoluido. Sexo escaldante irrompia através da imprensa , em grande e á francesa! É verdade que nada de muito novo, salvo a terminologia pura e dura. Mas como qualquer saloio inveterado, choquei-me mais pelas palavras do que pelos actos. Mas diverti-me bastante pelo excesso de machismo do escritor escandalizado pela audácia libertina
da cronista, que pôs o preto no branco (salvo seja!) que as mulheres fingem, na cama, mais do que se pensa. Fingem um prazer que não sentem ou que não se lhes soube dar. E é aqui que se sobressalta o machismo, receoso de lhe ser avaliada a competência!
Vá lá, vá lá! não se zanguem uns com as outras e vice-versa. É a falar, ou a truca-trucar, que o maralhal se entende.Quanto mais se falar melhor se compreende. Mas reconheço que falar de cama, com terminologia latina não faz ponta. E um pouquinho de fingimento ajuda e estimula,
como cantou o poeta «... que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente».
Lembro outro poeta, quando durante uma noite orgíaca se falou do beijo divino e ele contou de um conterrâneo, que se gabava de manhã: «todos os dias aparecem feitos, na Madeira, 200 minetes. Eu faço dois. Quem faz os outros?» A grosseria abre caminho e ainda bem, é mais estimulante, sobretudo quando se afirma e mais ainda quando a afirmação surge da ala feminina,
muito mais desinibida, mais consistente, não se limita a falar entre muros, escreve. Um pontapé na ética, nos costumes. Convenhamos que é mais estimulante e ousado que forjar gravuras.
Sobretudo porque foi possível debater sexo sem a componente poética ou amorosa. Com gritinhos a sério ou a fingir o sexo é para usar e o amor para se fazer. A questão que sobra é saber quem e como poder dar a machadinha no matrimónio...
Entretanto cada qual faça o que pode, como puder e onde puder. E toca a fingir que se faz tarde...
Vi imensos ingleses a beber cerveja, a cantar e a partir vidros das portas de café-cervejarias. Quando era mais novo, caramba, meus, muito mais novo, conheci uma inglesa que me explicou que os ingleses só «faziam ao sábado», porque tinham semana inglesa, o que os obrigava a embebedar-se à sexta, cumprir o dever ao sábado e descansar ao domingo para enfrentar a semana. Não se podia contar com eles aos sábados, mas nos outros dias da semana, mesmo que fosse domingo, era uma alegria!
À noite os ingleses ganharam ao Real causando uma real desilusão ao madrilenos. Palpitou-me
que, desta vez, seria Mourinho a pagar a factura. E regressei a tempo de ver...
Mas vi também que o meu país tinha evoluido. Sexo escaldante irrompia através da imprensa , em grande e á francesa! É verdade que nada de muito novo, salvo a terminologia pura e dura. Mas como qualquer saloio inveterado, choquei-me mais pelas palavras do que pelos actos. Mas diverti-me bastante pelo excesso de machismo do escritor escandalizado pela audácia libertina
da cronista, que pôs o preto no branco (salvo seja!) que as mulheres fingem, na cama, mais do que se pensa. Fingem um prazer que não sentem ou que não se lhes soube dar. E é aqui que se sobressalta o machismo, receoso de lhe ser avaliada a competência!
Vá lá, vá lá! não se zanguem uns com as outras e vice-versa. É a falar, ou a truca-trucar, que o maralhal se entende.Quanto mais se falar melhor se compreende. Mas reconheço que falar de cama, com terminologia latina não faz ponta. E um pouquinho de fingimento ajuda e estimula,
como cantou o poeta «... que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente».
Lembro outro poeta, quando durante uma noite orgíaca se falou do beijo divino e ele contou de um conterrâneo, que se gabava de manhã: «todos os dias aparecem feitos, na Madeira, 200 minetes. Eu faço dois. Quem faz os outros?» A grosseria abre caminho e ainda bem, é mais estimulante, sobretudo quando se afirma e mais ainda quando a afirmação surge da ala feminina,
muito mais desinibida, mais consistente, não se limita a falar entre muros, escreve. Um pontapé na ética, nos costumes. Convenhamos que é mais estimulante e ousado que forjar gravuras.
Sobretudo porque foi possível debater sexo sem a componente poética ou amorosa. Com gritinhos a sério ou a fingir o sexo é para usar e o amor para se fazer. A questão que sobra é saber quem e como poder dar a machadinha no matrimónio...
Entretanto cada qual faça o que pode, como puder e onde puder. E toca a fingir que se faz tarde...
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