segunda-feira, agosto 14, 2006

Saudades de Dom Helder

Sentado à sombra da alfarrobeira, abro, sobre os joelhos, a janela que dá para o mundo e é como se escutasse, de novo, as canções ao desafio que dois nordestinos cantaram para mim e para o Manuel Vilas Boas quando, em reportagem pelo litoral brasileiro, chegámos uma tarde, sem pinga de fôlego, ao cimo da longa rampa da catedral de Olinda. Nunca esquecerei essa tarde em que os trovadores de uma desgarrada sacro-profana para turistas aconchegaram o nome de Dom Helder Câmara ao som dorido dos violões, antes de nos deixarem em meditação junto à campa rasa que guarda os ossos de um homem raro. O velho sacristão da catedral de Olinda haveria de nos mostrar os paramentos que Paulo VI ofertara a Dom Helder e de nos contar histórias dos dias dificeis do arcebispo que a ditadura militar não vergou.
Dom Helder travou muitos combates contra a fome, a miséria e a injustiça e tinha uma campanha em marcha, lançada no final da década de 90, com a Fundação Joaquim Nabuco, a chamada Campanha Ano 2000 Sem Miséria cujos resultados não pôde verificar porque a morte o levou em 27 de Agosto de 1999.
Agora, sentado á sombra da alfarrobeira, ocorre-me que aquela ingreme rampa de acesso á catedral de Olinda, foi, porventura, para Dom Helder, uma metáfora da montanha de Sísifo, porque, ainda que muitos tenham tomado em mãos o testemunho do arcebispo, o crime se propaga mais velozmente que o sucesso dos combates solidários. A miséria cresceu no mundo e já nem nos lembramos do patamar de esperança estabelecido por Dom Helder para o Ano 2000.
E tudo isto me ocorre porque chegou hoje à ilha do Fogo, em Cabo Verde, uma delegação do Projecto Dom Helder da Câmara. A delegação vai permanecer no Fogo até dia 18, a convite do Programa de Luta contra a Pobreza em Meio Rural. Estamos face a uma parceria em projectos de desenvolvimento local, coisa da chamada sociedade civil. A boa semente pega sempre, mesmo em terra seca. Esta é uma lição a tirar, uma década passada sobre a fraca sementeira da CPLP.
Eu gostava de estar no Fogo, por estes dias, e ir com a delegação do Projecto Dom Helder da Câmara à Cooperativa de Produção de Vinho de Chã das Caldeiras e aos outros lugares onde se está semeando. Mas essa é a reportagem fora da agenda. Gostava de ouvir os do Fogo e os do Projecto sobre uma frase de Dom Helder: "Quando dou pão aos pobres, chamam-me santo. Quando pergunto pelas causas da pobreza, chamam-me comunista". Talvez colhesse apenas palavras, espantos, murmúrios, desalentos. Alguma coisa seria. Quanto ás sementeiras institucionais, nem dão pão aos pobres, nem perguntam pelas causas da pobreza.

6 comentários:

Anónimo disse...

" Saudades ... "

Bela evocação de boa sementeira a frutificar além-mar ! Glória de Sísifo ?!

Helena de Troia

della-porther disse...

e muitas...muitas

beijos

della

della-porther disse...

Saudades sinto de Dom Helder Câmara , caro Fernando.
Era dele que me referi no meu comentário..só dele... o Dom Helder Câmara e apenas dele.

abraços della

Fernando Alves disse...

Estimada Della,
Já que não respondi ao primeiro, não percebo o sentido do seu segundo comentário (no qual sou interpelado).De qualquer modo, obrigado por esta visita

della-porther disse...

Caro Sr. Fernando

Vim ao seu blog por indicação e gostei. O texto sobre Dom Helder é muito interessante. Fiz um breve comentário. Uma pessoa anonimamente foi ao meu blog perguntar-me se o conhecia. Como era anônimo resolvi vir até aqui responder. Não o conheço. Vim apenas aqui para conhecer e fiz o comentário porque conheci Dom Helder e senti saudades dele quando o li. Foi apenas isso. Não precisa fazer nenhum comentário nem a mim nem ao meu blog, não se faz necessário. Atendi apenas uma recomendação.
Foi um prazer.

della

Anónimo disse...

FERNANDO
ESTAMOS NOS PREPARANDO PARA COMEMORAR O CENTENÁRIO DE DOM HELDER. EM 2009.
O INSTITUTO CIDADÃO FARÁ UMA PUBLICAÇÃO COM TEXTOS SOBRE DOM HELDER E TEXTOS TAMBÉM DELE.
O SEU TEXTO PODERIA SER INCLUIDO NESTA PUBLICAÇÃO?
GRATO. PEDRO OLIVEIRA
pedrojornalista@uol.com.br
semanadomhelder@bol.com.br