quarta-feira, agosto 02, 2006

As guerras de África não valem meia Floribella

Pep Guardiola (campeão europeu pelo Barcelona e um dos raros futebolistas que pensa em voz alta) foi almoçar ao Las Rozas, em Madrid, com o velho guionista Rafael Azcona, autor de "Los Europeos". "El Pais", que pagou a conta, encheu, com o paleio de ambos á mesa, a última página da edição de hoje. A conversa de Pep com Rafael é um acontecimento.
Anoto uma observação do guionista e escritor, a respeito da guerra: "Leio os jornais desde que faço uso da razão e sempre me serviram uma guerra na primeira página. Quando terminava uma, começava outra. Deve ser para gastar as balas".
Ora esta constatação de um homem antigo e atento ao andar do mundo cai-me na sopa de uma manhã em que levei por diante a leitura de "Um homem sem pátria", de Kurt Vonnegut ( um livro notável, um humor de lâminas afiadas, uma ironia às vezes cáustica, às vezes magoada e comovente). Vonnegut (que é um dos mais reputados autores norte-americanos e homem tão antigo como Rafael Azcona) desenvolve, a páginas tantas, o fio de razões pelas quais, no seu entender, o mundo teme e detesta a América e faz um voo rasante sobre as guerras que ocupam a agenda mediática. "A guerra é hoje uma forma de entretenimento televisivo", remata Vonnegut.
Foi por causa de uma guerra em África que eu retive, pela primeira vez, a expressão "os senhores da guerra". Mas, pegando na legenda de Vonnegut, constato que, por mais "senhores" que sejam os cabos de guerra, em Mogadíscio ou nos confins do Sudão, eles não alcançaram o generalato do Olimpo televisivo. As guerras escondidas e esquecidas da Àfrica de hoje não chamam para o pó da savana os Zés ou as Márcias que nos servem em directo, com as azeitonas e os espargos e as fatias de pata negra, as "operações terrestres no sul do Libano".
A verdade é que, por mais que matem, e matam bué, as eternas e esquecidas guerras de África
não valem meia Floribella. Devia haver uma OMC das guerras. Ou uma ERC, ou lá o que é...

4 comentários:

Pedro Ferreira, Visconde de Cunhaú disse...

As guerras em África são alvo do esquecimento porque é conveniente para as nações ocidentais que usurpam os seus recursos naturais. E para a opinião pública em geral acabam por não ser novidade...

LS disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
LS disse...

bem certo Fernando, Darfur uma das maiores calamidades dos últimos anos, configurando um autêntico genocídio parece (aos olhos das tv's) não existir. E porquê, poderemos perguntar. Não falta, por certo, toda a sorte de violência e calamidade que o jornalismo deve denunciar e informar. Mas, claro, a resposta célere de qualquer mestre de cerimónias televisivo seria, "bem vê, Sudão, ninguém está interessado...". Neste mundo cão, até as guerras se medem pelas audiências. A "cobertura" das guerras faz-se para dar o seu quê de excitação, não para informar, não para denunciar. Entretanto, em espaços recônditos, longe da vista, os nossos semelhantes vão tombando em guerras canalhas, em lutas nefandas, morrendo uma segunda vez às mãos do nosso desinteresse.

Um abraço
Luís Sequeira

Anónimo disse...

Obrigado Fernando Alves pela enorme graça que me dás nesta estranha manhã de quinta-feira.
Ler-te é um prazer! Beber da tua prosa constitui, nos dias que correm,um enorme convite à rebelião do cogito. São alertas que me lanças. São impulsos eléctricos que fazem troar as células cinzentas.
Obrigado!

http://laboratorius.blogspot.com