sábado, agosto 26, 2006

Ao Leston, que já voltou do Leste

Bem me tinha parecido que havia gente em casa.
Voltaste com mais do que o Ermitage nos olhos, meu velho, e foi bom ler-te, regressado. Já temia que secassem as flores do blog, contigo longe, e eu a ler romances no areal e o António talvez a flanar Paris.
Passei a tarde debaixo da sombra da alfarrobeira, que o ar queima. Mas fui-me chegando ao cheiro que vem da casa,não tarda está pronta a caldeirada que fui comprar ao mercado de Tavira. Lá encontrei uma colega de liceu que não via há quase 40 anos e que se lembrava, até, do quintal da minha casa, no Cassoco. Foi um encontro caloroso e comovente. Meu caro: eu não me lembro do quintal da minha casa no Cassoco, salvo um mamoeiro alto de onde escorreguei uma vez, caindo desamparado sobre o portão de ferro, com a parte que os defesas escondem, nos penalties.
Escrevo-te porque choveu na ilha do Fogo. Ontem, talvez hoje. Acaba de chover, no Fogo, e numa ou outra ilha do arquipélago. Agora que as notícias dão a primavera mais precoce e o o outono mais tardio e os verões se nos põem inundados na Europa de onde vens, não sei se ainda é notícia uma chuva no Fogo, em Agosto. Há-de ser, sim, veio no jornal electrónico. 96 mm de água medidos no Fogo, tu me dirás. O jornal falava em "chuva mansa" e, nisso, vislumbro um doce acolhimento, uma ideia de benesse. Uma carícia dos deuses aos tão flagelados do vento leste.
Quanto ao mais, onde houve em tempos um cordão dunar que o mar levou, nesta ponta da Ria Formosa,há agora o alegre pisoteio dos veraneantes. No dorso ferido de morte de uma velha duna fincam os guarda-sóis e caparicam-se, aos magotes, desprezando o areal de verões passados. Talvez o inverno abra sobre este flanco feliz das águas mansas de sotavento a boca do adamastor. Amarinho o mamoeiro da memória. Lembro-me de quando não chovia há muito tempo nessas tuas ilhas amadas. Ainda não havia jornais electrónicos. Um abraço

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