segunda-feira, julho 17, 2006

Harrar Jugol

O Comité do Património Mundial da Unesco esteve reunido, até ontem, em Vilnius, para compôr a lista dos sítios classificados. E pôs cinco flores africanas na lapela. É quase uma estragação, com tanta seca no jardim, mas há "equilibrios" necessários e a lapela é larga.
O que, agora, deu notícia, e esse era o objectivo, foi o facto de, pela primeira vez na história da UNESCO, ter sido inscrito no "quadro de honra" um número igual de sítios africanos e europeus, cinco para cada lado.
Entre os meus amigos andarilhos, só conheço um que possa ter estado, sem o olhar contaminado do turista, em algum dos sítios agora postos na montra do mundo: Carlos Narciso. Se os olhos dele pousarem nesta prosa, talvez se apiedem do pedido implícito. Contas-nos - no teu blog, a que sempre chamarei "Blogda-se", por coisas cá minhas - o que, no teu caderno de viagem, houver sobre Aapravasi Ghat, nas Maurícias? Ou sobre os círculos megalíticos da Gâmbia e do Senegal (a Unesco fala em Senegâmbia, o que tem muito que se lhe diga...)? Ou sobre os sítios de arte rupestre de Chongoni, no Malawi, e Kondoa, na Tanzânia? Ou sobre a cidade fortificada de Harrar Jugol, na Etiópia?
O gesto sem precedentes da Unesco põe África na tituleira ( se bem que a Espanha, sózinha, tenha mais lugares classificados do que toda a África, ao longo destes 34 anos). E traz-me ressonâncias destes lugares do mapa, como Harrar Jugol, onde sempre imagino um Marco Polo levantando poeira. Jugol quer dizer "muralha", a muralha de Harrar, a cidade-fortaleza das 82 mesquitas, no alto da montanha, a mais de 1800 metros de altura. Cidade sagrada do islão, foi durante séculos o lugar central da cultura e da religião islâmicas no Corno de África. Foi independente até ao domínio egípcio, já no século 19. E pouco depois, caiu na alçada do império cristão etíope, e de novo tocada pelo bafo do profeta.
Os meus mapas não dizem se foi neste lugar que, há três meses, a seca prolongada dizimou 95 por cento dos rebanhos. Mas dizem que a canção da guerra anda por perto. E que Harrar Jugol, ainda que abençoada pela Unesco, não será tão cedo a Marvão da Abissínia.

1 comentário:

CN disse...

Quem me dera ter ido a Harrar Jugol. Mas não...