quinta-feira, abril 27, 2006

Ki-Zerbo

Andei a espreitar alfarrabistas, para os lados do Camões, almocei junto ao rio, fiz uma sesta, comi uma laranja, e sentei-me a ler o recém-chegado "Para quando África?", um livro que, há 3 anos, quando saiu nas Editions de l'Aube, ganhou o prémio Témoin du Monde, da RFI. É um acontecimento que a Campo das Letras tenha garantido, agora, a edição portuguesa desta longa conversa de René Holenstein, um historiador do Burkina Faso, com o seu compatriota Joseph Ki-Zerbo, o grande Ki-Zerbo que dirigiu, para a Unesco, a História Geral de África e foi o primeiro africano a obter, na Sorbonne, o doutoramento em História.
Lembro-me de Maria de Lourdes Pintasilgo ( que saudades) me ter falado, algumas vezes, do grande historiador africano, seu amigo. Aí o tenho, em todo o esplendor de uma conversa que pede a sombra da árvore. Ki-Zerbo começa por discorrer sobre a unidade e o "esboroamento" de África, tão de mãos vazias na troca de mensagens culturais de que não deve abdicar quando estabelece trocas comerciais. "Enviamos para o Norte", diz ele, "objectos que não têm qualquer mensagem cultural a dar aos nossos parceiros. A troca cultural é muito mais desigual do que a troca dos bens materiais (...) Quando se utiliza estes bens, entra-se na cultura daquele que os produziu. Somos transformados pelo vestuário europeu que usamos, pelo cimento com o qual construimos as nossas casas, pelos computadores que recebemos. Tudo isso nos molda, enquanto nós enviamos para os países do Norte o algodão, o café e o cacau bruto que não contém valor acrescentado específico".
Sobre o facto de África ser o berço da humanidade: "Estou certo de que se Adão e Eva tivessem aparecido no Texas, ouviriamos falar disso todos os dias na CNN".
Vou-me sentar ali ao fundo da rua, na esplanada, enquanto o dia tem luz. A ver se dou um avanço no livro. Hei-de lembrar-me, por certo, algumas vezes, com ternura e saudade, de Maria de Lourdes Pintasilgo.

6 comentários:

bolotavoadora disse...

Amigo gostei do teu blog.
Luto por uma causa a nivel local, divulga o meu blog.
Obrigado.
Continua o bom trabalho.

zecadanau disse...

Excelente blog amigo Fernando.

Um @bração cheio de Abril dos nossos sonhos e dos nossos desencantos.

Zeca da Nau

CN disse...

És bom a vender livros. Vou ver se compro esse Ki-Zerbo.
Abraços

Fernando Alves disse...

Meu caro: espero que essa não figure, jamais, entre as minhas melhores qualidades, se é que as tenho. De facto, não tive grande sorte quando, no ano e picos de desemprego, em 75 e 76, andei a tentar vender enciclopédias de porta em porta, por esta, então, desconhecida e fria Lisboa. Este Ki-Zerbo é um velho faroleiro, já desde os tempos de um certo jornal chamado "África", que também não sobreviveu ao peso do mercado. Abraço forte.

paterhu disse...

Verdade seja dita...a vender livros nao sei.
A ler, ao microfone, a improvisar, a escrever...de ha muito que es bom, mesmo.
( ...e nada de falsas modestias)
Sei disso ha tanto tempo...meu avilo...
Um abraco
Mario Tendinha

Fernando Alves disse...

E tu, velho sindicalista, por onde tens andado? Ainda há dias dei comigo a ler, num jornal electrónico em francês sobre a Africa Central (modernices) que o 1º de Maio teve reivindicação brava nas ruas de Luanda, por causa do salário mínimo abaixo de baixo; e, depois, na Angola Press, topei o costumeiro paleio da "jornada de reflexão" e das "justas aspirações". E não ém que me lembrei de ti, ó muadié?! Que será feito do Tendinha, pensei eu. Estás lá ou estás cá, pergunto agora, trocando os mapas e o cá e o lá e o ontem e o hoje, trocando controladamente com virgulas e tudo ( é que o improviso é que é mesmo, foi sempre, o meu calcanhar de Aquiles, camarada). Abraçadamente,desde o Lubango, Fernando Alves