sábado, abril 08, 2006

Brassens, Numpuby,"Couleurs d'Afrique"

Gosto muito de Brassens, do desejo de mundo do menino que cresceu olhando o Mediterrâneo, da sua veia libertária e do desmedido amor pelas palavras, da onda jazzística que corre as suas canções. No leitor de cd's do carro, rodam, regularmente, "Les amoureux des blancs publics", "Brave Margot", "La Mauvaise Reputation", que provocam em mim, ainda hoje, o mesmo estremecimento de quando as passava, como quem partilha um segredo, nas emissões de há 35 anos, no Rádio Clube de Benguela.
Esta tarde, ao ler diagonalmente o sitio Africultures, encontrei o anúncio de um espectáculo marcado para 3ª feira, dia 18, no Theatre des Blancs Manteaux, em Paris ( meu caro António, se lá estiveres, vai por nós e conta-nos...): "Brassens en Afrique". São canções de Brassens adaptadas pelo cantor e guitarrista camaronês Kristo Numpuby, um dos mais importantes divulgadores da música assiko, a música tradicional da etnia bassa. O Africultures sublinha o swing que havia, que há, nas cançóes de Brassens, um swing "despojado", mas contagiante. Por isso, os africanos "não poderiam escapar-lhe". Africultures recorda o quanto Brassens foi apreciado nos anos 70 na África sub-sahariana e o modo como Numpuby e os seus músicos o perpetuam nas noites quentes das caves da África negra.
Numpuby é um músico camaronês da diáspora que quis estar presente, este sábado, em St. Hilaire de La Côte, em Isére, a 40 kms de Grenoble, no festival "Couleurs d'Afrique". St. Hilaireé uma aldeia de pouco mais de mil habitantes, com forte actividade rural e um gosto antigo pelo associativismo, que mantém vivo, desde 1989, o chamado Comité de Trocas: é uma espécie de geminação informal, nascida da criatividade da comunidade e orientada para uma causa humanitária. O outro pólo do Comité é a aldeia burkinabé de Orodara, a 435 kms de Ouagadougou, já perto da fronteira com o Mali, 16 mil habitantes (dos quais, mais de metade com menos de 20 anos), em terras de fraco valor agrícola. O festival (um encontro de danças, música, contos, comidas e bebidas de Africa) é uma das iniciativas do Comité de Trocas Orodara/St.Hilaire, uma das bandeiras de uma ideia maior que fez nascer em Orodar uma biblioteca, infantários e mecanismos de ajuda ao acesso de crianças á educação. Cada 16 euros recolhidos hoje em St. Hilaire permitem garantir um ano de escolaridade a uma criança. Cada 40, um ano de infantário. E há o resto. Por exemplo, a recuperação de moinhos para o fabrico artesanal de pão em Orodara.
Brassens, que fez uma tournée pela África do Norte, nos anos 50, haveria de gostar de escutar este Kristo Numpuby, as suas canções jazzísticas passadas no moinho do assiko, puxando para a escola os meninos de Orodara. As últimas canções que ele gravou, já muito doente, foram a favor de uma Associação que o Lino Ventura criou para apoiar crianças desvalidas.

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