segunda-feira, março 06, 2006

Seca na Huila

O "Jornal de Angola" conta hoje que 600 mil camponeses dos municípios do Lubango, Chibia, Humpata, Quipungo e Quilengues estão, já, a ser muito afectados pela seca que assola, desde Dezembro, a província da Huila. Conta, ainda, o "J.A." que as coisas corriam de feição: esperava-se, para esta campanha agrícola, uma colheita de 400 mil toneladas de vários produtos, quase o dobro da campanha anterior. Mas veio a seca e "o ano agrícola da Huila está comprometido".
Esta notícia provoca-me vários sobressaltos. Para o primeiro, invoco o superior conhecimento do território do camarada Leston que ali viu avançar, há 30 anos, os tanques dos carcamanos. A seca pode casar com as terras da Humpata e da Chibia, é desgraça cíclica em chão que já vimos lavrado e úbere?Se sim, nenhuma fúria é aceitável senão contra os deuses. Outro sobressalto vem da constatação de um singular manejo de adjectivos pelo ministro da Admnistração do Território, acabado de regressar a Luanda, depois de ter ido ver o desconsolo dos campos à Huila e ao Namibe. O nome do ministro, Fontes Pereira, tem ressonâncias de mangas arregaçadas num certo Portugal passado; e, nostalgias do império à parte, bem que um país devastado pela guerra e pela incúria está precisado de obra pública e de quem, por ela, tire os cotovelos das secretárias. Ocorre que o ministro Fontes Pereira explicou, em Luanda,que a situação é preocupante, sim, "mas não de calamidade". É conversa de quem já palmilhou corredores em Bruxelas ou noutras sedes doadoras, de quem conhece os formulários. E isso explica os adjectivos ainda que estes não tenham sossegado os camponeses da Chibia: são necessárias, explicou Fontes Pereira, "ousadia e perspicácia" para estabelecer programas sustentáveis de combate à seca: irrigação, mais furos, melhoramento da vacinação, tanques para o gado. Sublinhemos cada um destes itens: a que fasquia aspira, com a sua prossecução, o ministro que não vê, nas terras do sul, por ora, calamidade? 30 anos de independência, descontadas as guerras e as incúrias, a que fasquia aspira? Que fasquia ousa? É que, sem pretender ser "perspicaz", encalho num parágrafo tramado: aquele onde se explica que, daqui a 60 dias, se nada mudar, aí sim, poderão surgir situações de risco (leia-se "de sobrevivência humana").
Devido, certamente, à minha impreparação em assuntos de Estado, penso, por vezes, que um governante africano face a situações como esta deveria montar a tenda, como fazem as ONG's, lá onde dói. Como um general enfrentando os novos carcamanos. Devia arregaçar mangas e não dar descanso a quantos, sob o seu comando, fossem chamados à urgência da obra pública. Talvez um tal gesto se confunda com populismo. Ou sou eu que vejo filmes a mais. Mas, caramba, a Chibia e a Humpata não eram terra de fazenda e gado, chão lavrado e úbere?

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