domingo, março 12, 2006

900 litros

Um número ainda indeterminado de funcionários da embaixada de Angola no Brasil vai ter de soprar no balão da suspeita por envolvimento num caso que está em fase avançada de investigação pela Polícia Federal e que, seja qual for o desfecho, lança um duche escocês sobre a diplomacia angolana. Tal como veio contado na "Folha de São Paulo", a embaixada de Angola no Brasil comprou, ao longo do último ano, dez vezes mais uísque do que as embaixadas dos países mais ricos. Os números não enganam: 9 mil litros de uísque em 10 meses, 900 litros em média por mês. A "Folha" apurou que a embaixada dos Estados Unidos gasta, em média, 90 litros por mês. Como dizia o outro, afagando o estômago saliente: "É uma estragação, só em vasilhame!!!".
Mas por que é que a Polícia Federal meteu o bedelho nas contas de mercearia da embaixada? Há alguma lei seca em marcha, num país que, há alguns meses, se encarquilhou porque um jornalista norte-americano referiu o tom frequentemente rosáceo das bochechas presidenciais? Ou deveriam os representantes de um país com petróleo, em nome de puritanas aparências, beber apenas cachaça, esse também chamado "capote de pobre", "suor do alambique", "danada", mais ao jeito do pobre? Nem pensar. Seria um erro de avaliação, para lá de uma indelicadeza histórica: como é sabido, a cachaça chegou a ser moeda de troca na compra de escravos africanos. Há coisas com as quais não se brinca E, vendo bem, está, há muito, em marcha, na fina Europa e nos poderosos States (onde consta que Bush provou e gostou) a elevação social da cachaça, da caipirinha. A prestigiada "In Style" já lhe chamou "a mistura mais quente do século". Não seria, pois, menor o ah de espanto, se a notícia desse conta de 900 litros de cachaça na despensa da embaixada. Afastados os preconceitos, hão-de os "pobres" angolanos
beber o que lhes der na gana. O país é quente. E que não fosse: já não há respeito pela imunidade diplomática?
O que se passa é que a Polícia Federal foi investigando as contas de uísque de várias embaixadas (entra elas a angolana) e descobriu um esquema de contrabando de artigos de luxo que envolvia, ainda, funcionários do Itamaraty e da Basif Duty Free, uma das grandes empresas de importação do Brasil. O processo era simples: o pessoal das embaixadas comprava os produtos livres de impostos e revendia a contrabandistas que os colocavam nos mais finos salões do Brasil. Não fora a imunidade diplomática e os predadores do Rio estariam já a beber água do Bengo. Tratada, por causa da cólera.

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