quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Continente esquecido

O facto de, ainda na adolescência, ter sacudido a albarda da culpa e da sua "confissão" e ter decidido jamais pôr joelho em terra diante de outro homem, afastando-me, gradual e irreversivelmente, de todas as representações das multinacionais da fé, não me impede de acompanhar, respeitosa e comovidamente, o envolvimento generoso e transformador da Igreja em África. A acção pastoral e missionária em África é, quase sempre, um hino á dignidade humana. E foi assim que anotei com agrado que, ao receber, há dias, os bispos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e do Senegal, Bento XVI se tenha mostrado preocupado com a situação de "dilaceração" vivida em Bissau e tenha pedido aos políticos que se coloquem "ao serviço da sociedade". Já anteriormente, ao receber no Vaticano os bispos da República Democrática do Congo, Bento XVI reafirmara a preocupação relativamente ao avanço das seitas religiosas em África. De facto, Roma parece, por vezes, perder-se no mapa de África, enquanto as igrejas evangélicas, por exemplo, avançam no continente. Ora, Bento XVI terá, depois de amanhã, uma ocasião de ouro para dar um sinal a África, quando anunciar o novo Consistório para a criação de novos cardeais. Mas a oportunidade está perdida: já se sabe que,entre os 12 novos cardeais eleitores ( com menos de 80 anos) não há qualquer africano. 3 dos novos purpurados são do Oriente (o arcebispo de Manila e o de Seul e o bispo de Hong Kong). África tem de contentar-se com um "prémio de consolação": o arcebispo emérito do Gana, dom Peter Poreku, sobe a cardeal sem direito de voto, devido à idade.
Não é uma escolha animadora, lembrados que estamos da atenção que João Paulo II dera a África e dos apelos lançados, por exemplo, pelo Conselho Pontifício "Justiça e Paz" para que não se descurasse o continente africano. Se nos lembrarmos que, no século V, a Igreja criara mais de 400 novos bispos no norte de África e que África tinha dado a Roma 3 papas - que África tinha dado a Roma Santo Agostinho ! - sinto crispadas as barbas do velho padre Galhano, longas e bravias, da cor da batina que o cobria até aos tornozelos, na veloz caminhada pelas ruas de Benguela, sinto cercadas por um estranho "paludismo" as demandas dos admiráveis combonianos...E África precisa de um sinal forte vindo de uma das raras instituições ainda respeitadas...

1 comentário:

CN disse...

pois é, companheiro. mas os cardeais são aves de outros poisos. repara que nenhum cardeal gastou anos de vida nas sanzalas, nunca nenhum deles missionou pelas florestas nem palmilhou desertos. são anjos de Roma... querubins aveludados...