segunda-feira, janeiro 30, 2006

O Góia encostou a bicicleta dos poemas

Ontem, domingo, quando começou a nevar aqui na linha de Sintra (um nevão descendente) eu sentei-me ao computador e africandei uma prosa breve: os meteorologistas davam a migração da neve para sul, tocada por depressão de oeste, e eu imaginei que a neve sobrevoava mar e deserto e os poços de petróleo da Nigéria e os de Cabinda e mais ainda os outros cujo nome podia perguntar ao doutor em petróleos e leis e amizade Agostinho Miranda, que era vocalista dos Blue Bays nos dias em que neve never mas o resto tudo, e foi pousar sobre as casuarinas da praia Morena onde Carlos Gouveia, o poeta Góia, pedalava versos.
Quando acabei de encomendar os fiapos de nostalgia e delírio ao meu velho amigo que imaginava na cidade prodigiosa, cliquei e ficou tudo em branco. Eu disse um foda-se que se ouviu na Kaotinha e fui espreitar à janela se havia letras a dançar na rua. Mas não, o texto fora-se numa armadilha electrónica e eu fiquei especado num pé de página triste, como se tivesse desaprendido de domesticar martrindindes.
Esta segunda feira, ao fim da manhã, uma colega do sector comercial da Rádio que é irmã de uma minha colega do liceu de Benguela, chegou-se-me à mesa e perguntou-me:"Sabes do Góia?".
Eu respondi perguntando:"Morreu?"
E ela:"Morreu".
"Em Benguela?"
"Não, em Queluz".
Estava cá há um ano, doente. Na linha periférica. Como se soubesse que não voltaria ao Largo da Peça. Que não v oltaria a parar, de repente,a bicicleta, à minha beira, no passeio do Largo, para tirar do bolso, acabado de fazer, o último poema. Foi o meu primeiro encantador de poemas, nas ruas da mais bela cidade do mundo. Eu galgava as escadas do Rádio Clube de Benguela, tão feliz. Era um miúdo, os poetas falavam-me na rua. Poemas acabados de escrever, ("como pão saído do forno", escrevi aqui em Setembro), conversados para aumentar a sede.
O funeral foi ontem. O Góia encostou a bicicleta a uma acácia, mas não foi para esperar a neve. A neve caiu, aqui, sobre a sua sepultura. Hei-de lá ir, um dia destes, com sol, ler-lhe um texto que fale de bicicletas e acácias. E martrindindes.

6 comentários:

planaltobie disse...

Mas ficaram os poemas? ...ou gastou-os enquanto viveu? ...é que há dias e poemas que são do próprio. Morrendo...

PCosta

Phwo disse...

Estive há semanas em Benguela. Perguntei a um grande amigo pelas pessoas que anos atrás tinha conhecido naquela cidade. E o... o Góia? Anda sempre aí, respondeu-me.
Ler este post, foi uma surpresa triste. Quando o conheci deu-me ele um poema sobre António Jacinto para eu tentar publicar em Luanda...

Anónimo disse...

Só mesmo os benguelenses reconheceram que foi uma grande perda, porque infelizmente, este homem que muito enriqueceu a literatura de angola com os seus poemas, não teve uma única homenagem nas rádios ou televisões da capital. é triste para mim com apenas 26 anos aperceber-me que o Goia somente será chorado pela família e pelos amigos da família pois, tanto ele como a sua obra, que fora sempre por ele patrocinada, caírão em esquecimento.
Por favor, governo, gente que gosta do que faz em Angola, mexam-se não deixem que a obra deste grande homem caia no esquecimento!!!!!!!!
Edna jerónimo

Anónimo disse...

Estava aleatoriamente pesquisando na net algo sobre Benguela, poemas e/ou alguma referência ao seu próximo aniversário (395 anos) e eis que me aparece este blogue com uma singela homenagem ao meu querido pai Carlos Gouveia (Goia) que me apanhou de surpresa e me causou grande emoção. Ainda estou a refazer-me do impacto...
O meu sincero obrigada ao autor do texto pela beleza e ternura com que se refere ao meu pai. Que seja do meu conhecimento apenas este jornalista (Fernando Alves) expressou o seu sentimento e exaltou o seu valor literário.
De resto, ele que tanto contribuíu para o enriquecimento da literatura de Angola, através dos seus poemas e crónicas não teve qualquer homenagem ou tributo a nível dos media, apesar de ser uma pessoa estimada e respeitada...é pena que Benguela/Angola nunca o tenha feito...fica a desilusão!
Por último um especial agradecimento à D. Edna Jerónimo pelo seu comentário de pesar e tristeza pelo grande Homem que foi o meu amado e saudoso pai e por partilhar da mesma desilusão que eu.
Graça Gouveia

Anónimo disse...

Grande poeta que o meu pai era.Fico trizte porque mtos esqueceram-se dele.Era um homem generoso que gostava de abraçar a vida com carinho e ajudar aqueles que mas precisavam sem um vestuario no corpo sem dinheiro pra comer...Jamais nós,os teus filhos esqueceremos de ti..

Andreia Vanessa Gouveia disse...

Meu Paizão TE AMO E SEMPRE AMAREI-TE meu PAI <3