segunda-feira, dezembro 05, 2005

Fernando Cruz Gomes

A Agência Lusa acaba de "ruar" Fernando Cruz Gomes, o "homem do Canadá". A notícia não anda aí nos bares da intrigalhada orgânica, nem fez, ainda, sequer, uma "local" de indignação. Cruz Gomes não é da nova guarda reluzente, não usa o manual de estar "in". Está longe e, pelos vistos, out, depois de 20 anos a servir lusas e enepês e anopes e diásporas.
Fernando Cruz Gomes é um meu "mais velho" do ofício que já não chefiava o Rádio Clube de Benguela quando eu me sentei, à mesa do estúdio, para defender o meu primeiro ordenado num certo 1 de julho de 1970. Nesse tempo, no imediatamente antes do meu acesso à liturgia, eu lembro-me de o ver de longe e de ver o olhar de respeito que os outros, do ofício, pousavam nele. Ele foi sempre o líder nas muitas rádios por onde africandou, foi sempre um veterano, um indiscutível. Em rigor, eu não conheci Fernando Cruz Gomes; mas também não conheci D. João da Câmara, nem foi preciso. Seria infamante precisar desse "conhecimento" para saber o que era, é, para nós todos,os desse tempo, os dessa tribo, evidência maior. A palavra de homens assim é ancorada no latim e na solidez de gestos antigos. Há homens que são o seu próprio nome sem preço.
O percurso de Fernando Cruz Gomes não coincidiu com o meu nos anos de brasa. Eu presumo que ele é um homem de direita, ele ter-me-á pressentido como um esquerdista tomado de boa fé, arpoador de causas que depois se tornaram desumanas a meus olhos, para dor minha. Teremos confluido, tardiamente, num cepticismo capaz de gerar entusiasmos e na meia dúzia de valores essenciais pelos quais um tipo se deve bater até ao fim. Como o de Pátria, é claro. Não sei, nem curo de o perguntar, se no peito dele a ideia de Pátria acolhe o que Alegre ousou vir dizer e Cavaco, bem avisado, já repetiu, 3 vezes numa frase, há dias. No meu, acolhe.
Estou a cruzar cenários para chegar aqui: Pelo que sei da carta que Fernando Cruz Gomes, veterano de jornais, rádios e televisões, escreveu aos circuntanciais algozes, o meu mestre à distância deixa claro o convencimento de que o seu afastamento corresponde a uma "retaliação encomendada". A carta de Fernando termina pedindo um "mínimo de dignidade", o que, escreve ele, acabaria por "honrar a própria agência de notícias". Meu mestre à distância: isso são coisas que se peçam? Estás mesmo "out"!

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