sábado, dezembro 10, 2005

Ao telemóvel, no deserto

O homem tem um olhar perdido como o de Harry Dean Stanton, em "Paris, Texas". Estava ainda agora, já tinha caído o avião na Nigéria, mas nem ele nem eu o podiamos saber, num café perto de uma das estações de comboio da linha de Sintra. Eu trago jornais e pão quente. Ele derrota, com a paciência de quem podia amestrar martirindindes, uma cerveja . Sento-me numa das poucas mesas vagas, de costas para ele, fixo-lhe o rosto. Sulcos fundos, o cabelo já muito grisalho, apanhado em rabo de cavalo. Está de botas e jeans. É magro, seco de carnes, deve caminhar como se levitasse. Já o vi mais vezes, com o seu olhar líquido, como que fixando um lugar remoto. É o mesmo olhar de Harry Dean Stanton e podia, até, crescer do chão a música de Ry Cooder. Por instantes, desligo-me do rosto e do olhar muito vincados, abro um dos jornais sobre a mesa, mexo o café. Mas toca, na mesa atrás de mim, o telemóvel. É o homem que tem o olhar perdido do Harry Dean Stanton quem fala, agora, enchendo o café com uma voz que fustiga um alazão, que monta em pêlo um riso magoado, uma voz a galope pelo deserto que é o vasto mundo, a voz de alguém que projecta a alegria para longe, furando a escuridão que as luzes de natal não alumiam. Também podia ser um Cristo metafórico e suburbano, pregando no deserto a alegria ao telemóvel, mas é um homem que, tal como a personagem de "Paris, Texas", parece não ter feito outra coisa senão caminhar no deserto recordando a sua vida antiga. Isto é o que eu presumo porque conheço esta toada nas frases curtas, esta espécie de preguiça idiomática, esta língua do sul, esta maneira de saborear os verbos, estas vogais como pássaros que não cabem na boca, seripipis loucos com saudades do Ernesto Lara na mesa de um café da mais triste periferia.
Pergunta-me como é que eu sei que ele falava para África. Eu não sei como é que sei, mas falava. E digo-te mais: falava para Angola. Aquele riso não tem outra matriz. Só pode.
Mantenho-me de costas para o homem, aiué que estes olhos talvez tenham levantado poeira no meu bairro, ia jurar que o sacana do Harry Dean Stanton virou cucas e nocais debaixo da árvore do Bar Ferreira, não posso virar-me, não posso interpelar este riso na voz, mais quente que as castanhas que ali estão a assar ao pé do quiosque, pouco diz o homem que permita tecer uma teia, não há uma narrativa, apenas uma cantinela de exclamações, "tá bem", ele diz muitas vezes "tá bem", e no fim da conversa, depois de acertado um encontro para um mês do outro lado do mar, um mês de casuarinas junto às águas, ele sugere que comam "camarão", "vamos comer camarão até rebentar", diz ele. Não diz "gambas", diz "camarão" como se estivesse sentado numa esplanada de Moçâmedes a fazer tempo para o Circuito das Festas do Mar. E que diz mais, o homem que parece o Harry Dean Stanton? Diz "tchau", mas com o "t" sumido. É tão do sul, de antes de andar perdido no deserto, procurando a sua vida antiga.
Agora ele passa por mim, como se levitasse. Vejo-o sair para a rua, como se fosse fazer uma longa viagem. Nada lhe pesa o mundo.
Vê se ainda há matrindindes no Coringe, o rio seco da minha infância, muadié.

5 comentários:

Phwo disse...

Gosto de relatos. Sempre gostei...
Obrigada.

Anónimo disse...

e o que serão martirindindes?
Vou ali ( ao google) e já volto

Anónimo disse...

ops
não consta????????
entrada única:

Africandar: Dezembro 2005
Ele derrota, com a paciência de quem podia amestrar martirindindes, uma cerveja .
Sento-me numa das poucas mesas vagas, de costas para ele, fixo-lhe o rosto ...
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Anónimo disse...

Como é que lhe fixas o rosto se estás de costas para ele??
Por um espelho?
Nâo estou a perceber nada.
mas gosto do post na mesma.
paris texas, sheltering sky, é como diz o kafka: a partir de um certo ponto já não há retorno e é esse o ponto que deve ser alcançado.
É fixe encontrar aqui estes outros sinais :)

Fernando Alves disse...

Só agora constato que há aqui anotações e perguntas, ainda que anónimas. Quanto aos martrindindes, verifico que, com a pressa e a falta de revisão, escrevi a palavra de maneira errada, por duas vezes. Cá voltarei a falar dos animais, quando me libertar da pressão destes. Quanto ao "espelho", já pensei tentar sacar patente de uma invenção de adolescente: o retrovisor de ombro que evitaria muitos torcicolos na rua.
De facto, procurei um dado efeito estilistico que deve ter saído gorado. Como explico, já vira aquele rosto outras vezes. Viro-lhe as costas, mas trabalho mentalmente a sua fixação, procuro para ele um lugar, fixo-o a um tempo cheio de névoas, o antes e o depois são, neste processo narrativo, irrelevantes...
Bom natal a todos
fernando alves