segunda-feira, outubro 31, 2005

Não te esqueças de onde ias

e não é que, tendo os meus velhos na cidade grande, desafiei o cota Alves, ontem de manhã, a vir comigo ao bacalhau na Rua do Arsenal? Sentados por um café no British Bar, pôs-se-lhe o olhar com uma névoa, a remoer cacilheiros e antigamentes. "Não vinha aqui há trinta anos", disse-me, depois de persignado na Igreja do Largo de São Paulo, já espreitada a Travessa do Cotovelo, comprados os jornais na tabacaria da esquina, antes de subirmos a Rua do Alecrim.
Na loja onde comprei o bacalhau, havia barricas de sangacho, castanhas piladas, grão de bico ao litro e peixe seco. O cota fez um ar de desdém que nunca lhe vi no mercado do Cassoco, alegando queixumes do cheiro intenso, aculturado pelo maranho é o que é. E digo-lhe eu, é um digamos, pretexto de o dizer nem sequer a vossas senhorias, coisa de mim comigo à boleia de um ombro ancestral:"este cheiro, dá-me saudades". De quê? De quando, lá no mítico Cassoco, nas incursões ao Bairro da Fronteira, entravamos nas mercearias da sanzala e tasquinhavamos, à surrelfa, uma farripa de peixe seco, o mar ao sol no céu da boca, e seguiamos. E isso nos dava alento para a incursão aventureira ao comboio da cana, quando as carruagens da Cassequel afrouxavam o ritmo, já perto da estação. Uma longa cana de açúcar para cada um da pequena tribo, jornada de naifa e dentes, heróis besuntados de mel de cana, o cu no chão e as costas no adobe de uma qualquer cubata: a felicidade podia durar uma tarde inteira.
Tenho saudades desses instantes suspensos, sim, mas do que tenho mesmo saudades, uma quase dor boa, e não o disse ao meu cota, pai é pai, é de me sentar no chão. Não no muro à beira do caminho, não na pedra à sombra da acácia, mas no chão mesmo. Africandar de cu no chão.
Desculpa lá, não te esqueças de ondas ias...

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