sexta-feira, setembro 02, 2005

Vai, Weah!

Este meio Agosto, à sombra da grande alfarrobeira da casa de Cacela, pôs-se-me um riso largo enquanto mergulhava nas "Memórias de um Craque", de Fernando Assis Pacheco. Não percam estas soberbas fintas do Assis, resgatadas, pela Assírio e Alvim, aos arquivos do "Record" de 1972. Tão desmesurado como o vazio que nos deixou, o "maior craque da rua Guerra Junqueiro" afina a pontaria na narração prazenteira e comovente de uma saga iniciada na "arte de guarda-redes", não desprezando campeonatos " de botões", incursões pelo hóquei em patins com stick desproporcionado (lembrei-me de ti, Leston,), gloriosas jornadas de matrecos com moedas do D. Carlos dos Bigodes ou uma cena de caça às rãs do Choupal com vista a acção punitiva no talho de um tal Bernardino avesso a futebóis.
Este reencontro com a voz singular do Assis, com aquilo a que Manuel António Pina chama, num tocante posfácio, a "presença a nosso lado", reconduziu-me ao bairro do Cassoco, vizinho do bairro de Benfica tão celebrado pelo poeta Aires de Almeida Santos, onde tantas tardes esfolei as pernas e abracei o pó, guardião de uma minuciosa desatenção, um olho no fio de jogo e outro nos gestos das quitandeiras do mercado ou no assobio do velho Freitas que me acenava com Sandokans e "7 Balas" como quem troca cromos (saía-me muito o Vaqueiro, do Leixões). Foi no bairro do Cassoco que subi de escalão num outro campeonato, quando descobri que aquele senhor careca, em calções, duas vivendas adiante, era o mesmo da fotografia do "Notícia", a melhor revista do mundo em que me fiz, com um naipe de craques melhores que o Miccoli (o da tatuagem do Guevara na perna, ideia soberba que me escapou nessa adolescência já de ícones rubros) . O senhor careca era Henrique Rola da Silva, querido mestre de sempre, a quem me orgulho de ter mostrado, para avaliação crítica, o meu primeiro texto atolado em ques. Os outros craques, qual Real Madrid, qual Manchester, davam pelos nomes de José Sebag, Herberto Helder, Edite Soeiro, José Manuel da Nóbrega, Moutinho Pereira, eu sei lá, capitaneados por um certo António Gonçalves, doutorado em ironia e finta curta. Façam o obséquio de uma vénia discreta, que lá vem agora o poeta Góia, montado na sua bicicleta, com um poema acabado de sair do forno e cuido que o vai ler, feito agora mesmo, a este vosso criado posto a penantes para o outro lado da cidade onde, não tarda, ficará horas intermináveis pendurado à janela de um estúdio da rádio que há-de tomar de assalto pela mesmissima ponderosa razão que, a fazer fé num poema do Livro Sexto de Sophia, justificou a tomada de Cacela (e eis como as pontas se unem, ou os pretextos...). Mas por que carga de água isto leva um grito de guerra monroviano em título e se esfuma assim, como se dos dedos escoasse a areia do Cassoco onde o único craque era o meu irmão Nuno (que os dirigentes do Benfica de Benguela vinham buscar de carro para os treinos e, surpreendentemente se fez dragão quando o mundo desabou em ponte aérea e a nossa longínqua infância recolheu aos balneários)? Porque estou à espera de um golo mágico do liberiano que se prepara para o contrato de uma vida. Depois de falhanços como o de Chipenda (que andou pela Coimbra do Assis ) estou à espera de ver o que sai desta jogada de Weah. É uma jogada de baliza aberta, vai Weah, não falhes, enquanto eu mudo de post...

1 comentário:

Anónimo disse...

Vai,Weah!
Apetece gritar no fim deste texto. Fantastica escrita que nos leva a viajar por estes sitios, sentir o pó do campo como se estivessemos lá no jogo, consigo mesmo ver as figuras a passar na rua, o que nos vale é a sombra da alfarrobeira para descansar á sombra...
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