quinta-feira, setembro 08, 2005

O crivo dos dias

Há dias, a caminho da casa da aldeia, no pinhal profundo da Beira, a chuva breve retirava o fogo da paginação atónita deste Verão, escutei na rádio o desespero do presidente da câmara de Mação.
"Ardeu o pinhal que me viu nascer", dizia o autarca, emocionado. A paisagem da Beira era uma continuada cicatriz de cinza, uma dor de alma.
Na aldeia, fui com os meus pais ver o que "nos" ardera. O pinhal, por toda aquela encosta, "até além, para lá das oliveiras". As oliveiras eram restos de braços sem corpo, arrancados de um chão em que tudo derretera, vómito negro da terra e de imaginários, subterrâneos, altos fornos. Em redor do que restara dos troncos de árvores, buracos que permaneceram fumegando durante dois ou três dias. Diz-se que foram encontrados estranhos objectos lançados do ar, indícios que alevantam um rumor maligno. Caminhei por entre os destroços do pinhal, passei junto ao tanque que tinha sempre um manto de musgo, (ali recolhi, em sucessivos invernos, o chão de um presépio) vi os figos mirrados, como azeitonas paradoxais, nos braços das figueiras mortas e, enquanto retinha as lágrimas, aspirei profundamente o olor do chão queimado.
Fragrância absurda, alcatrão de caruma impregnado no vento, que nem o vento leva, de que nem o vento se livra, que nem a chuva lava.
Pelo caminho velho, no regresso à casa onde a minha infância teve presépios, num ou outro natal entre áfricas, veio-me a nostalgia do cheiro das grandes queimadas, na Ganda. Mas não fui capaz de partilhar essa furtiva memória, essa inesperada visitação de uma felicidade triste, com os meus velhos pais separados das suas árvores.
Nessa noite, o telejornal mostrou novas imagens de New Orleans. Ao longo destes dias, diante da crónica estuporada da América insuportavelmente vulnerável (aí está, pelo ângulo da tragédia, a metáfora da decadência do império) eu tinha-me confrontado como uma legenda recorrente, um aguilhão subliminar: "eis o Ruanda das águas". E ali estava, agora, escrita numa parede da New Orleans submersa, mostrada na televisão, em letras garrafais, a palavra ÁFRICA. Durou um, dois segundos, não consegui ler a linha de letras que antecedia a palavra perturbadora. Pareceu-me ter percebido "Wellcome to Africa".
Na velha casa da Beira, a memória estilhaçada não parou de arder.

1 comentário:

LS disse...

Fernando, lendo o seu relato fica-se suspenso - como que pairando, vogando, num ar estranho - sentindo na sua estória, a nossa estória, tornando-nos subitamente personagens de uma tragédia desgraçadamente comum.
A impotência perante a escuridão que nos invade, que nos pinta a alma da cor carregada de uma tristeza ancestral.
Calamos, por um momento, a raiva, no absoluto silêncio do vazio, na ausência do verde que nos encheu os dias, que faz parte do nosso imaginário.
Na sua estória, a nossa estória, um pouco de nós que se consumiu nas labaredas inclementes.
Um abraço.